Monthly Archives: March 2002

Mesmice antropofágica

Não entro muito nessa onda dos reality shows. Embora a idéia pareça, em tese, inteligente –porém não muito original–, não me envolvo por pudor. Também não quero, por questões muito racionais, aderir a essa febre: mal tenho tempo de assistir à minha vida, o que dirá à dos outros.

No entanto, me interessa entender por que as pessoas assistem àquele lixo, àquela indecência, àquele atentado à inteligência e ao bom gosto.

Pior do que isso: fico perplexo de ver como as pessoas perdem seu tempo, assistindo a uma produção vagabunda, pobre, estúpida. Esses shows são falsos, manipulados, histericamente retocados e fabricados. Muito show e nenhuma reality.

A mídia TV me parece estar em um processo catastrófico de mesmice antropofágica. Os canais abertos se copiam desavergonhadamente. É natural, claro, que as emissoras com menor audiência tentem copiar a líder. Natural e salutar. Preocupante, no entanto, é quando a líder copia a vice-líder. O papel do líder, para se manter em sua posição, é perseguir a quebra de paradigmas. Existe uma regra clássica de maratona: nunca olhe para trás. Nunca. Só para frente. Se você olhar para trás, perde tempo e se esborracha. Pois é isso que está acontecendo. Saudades do Boni.

Continuando o raciocínio, mesmice antropofágica subentende um fim natural por inanição. A cópia é naturalmente pior que o original. Copia-se, e o copiado copia a cópia que, por sua vez, copia a cópia da cópia. A mídia vira uma pastichada só.

Mais assustador do que isso, no entanto é o sentimento corolário da mesmice antropofágica, que eu chamaria de culto à imbecilidade. Uma idiotalatria.

Há no Brasil, atualmente, uma onda de cultuar a bossalidade. Olhem a seu redor. Os pobres assistem aos reality shows com sofreguidão. Nada de espantoso nem vergonhoso. É um simples sentimento de transferência. Como nas novelas. Aliás, vale dizer que reality show no Brasil é novela. Dizem que tem até roteiro. Pode? Mas, quando a elite passa a assistir, curtir e se viciar nesse tipo de “conteúdo”, a preocupação aumenta. O pobre se enternece e torce de verdade, com sinceridade. O rico ri e disfarça a torcida com um ar de superioridade fingida. O primeiro acha divertido. O segundo, cool. O primeiro idolatra o comunicador. O segundo chama ele de gênio. A rigor, não existe diferença. Nenhuma.

Lixo com status não é luxo. Continua lixo.

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Da arte de comer alcachofras e escrever e-mails

Folhas de alcachofra devem ser raspadas com os dentes de cima, no final da sopa; a etiqueta recomenda levantar delicadamente a borda do prato com o dedo indicador esquerdo, para recolher o restante; dizer “saúde”, quando alguém espirra é falta de educação; tirar o sapato debaixo da mesa, beijar a mão de uma senhora, dar a mão em restaurante e gargalhar em público, também. Tudo bobagem, porque feio mesmo é não comer direito, não ir a restaurante e não ter do que rir na vida.

O correio eletrônico também exige algumas regras de boas maneiras. Elas são básicas e, como as dos salões, são simples questão de bom senso: não mandar spam, piadas, arquivos executáveis, e-mails pesados, não escrever e-mails de mais de três parágrafos, esquecer o subject, deixar aparente a lista de pessoas copiadas, dar “reply to all”, etc.

Mas isso tudo é como lamber o fundo do prato de sopa e retocar o batom em público: não é tão grave. Grave mesmo é quando você escreve e não é entendido. Ou pior, é mal-entendido.

A revolução eletrônica teve uma coisa de bom: levou as pessoas de volta a suas aulas de português e desenferrujou a prática da escrita. No entanto, com freqüência escancarou uma dura verdade: as pessoas escrevem mal. Pior ainda: as pessoas não sabem se expressar, isto é, pensar de maneira ordenada.

Um e-mail é rápido, vai rápido e chega rápido. Não vivemos mais numa era contemplativa, mas velocista. Portanto, o português mal-escrito e cravejado de erros é ainda mais flagrantemente vergonhoso. Não há rascunho, dicionário, revisão. Escreveu e pum, mandou. Depois não dá mais pra correr atrás do carteiro. Tá lá aquele “você devia de saber que dei o melhor de si”.

Um e-mail é um documento por vezes doloroso. Sabe aqueles e-mails enormes, cheios de respostas e diálogos? Além de ser um clássico erro de etiqueta, muitas vezes a história foi crescendo como uma bola de neve e a tal ponto, que o final não tem mais nada a ver com o início.

Um e-mail pode engendrar enormes qüiproquós. Principalmente quando o autor tenta dar um “toque pessoal” ao texto, uma piada, uma ironia. Das duas uma: ou o sujeito não entende nada ou entende torto.

Mas eu tenho umas regrinhas que queria dividir com os leitores:

1) Faça um subject objetivo, sem piada e que sintetize o que você quer. Um bom subject dispensa até o corpo do e-mail.
2) Não escreva mais do que três parágrafos. Mais do que isso é chato, fica abaixo do scroll e demora para ser lido.
3) Comece escrevendo o nome do seu interlocutor. Se você não fizer isso, ele tenderá a achar que não é com ele.
4) No primeiro parágrafo, explique o problema e o que está acontecendo.
5) No segundo, dê a sua opinião e o que você acha do problema.
6) No terceiro descreva o que espera do destinatário e o que se irá fazer.
7) Escreva com frieza absoluta e sem muitos adjetivos. Poucos verbos, poucos advérbios também são desejáveis. Use abreviações compreensíveis.
8) Faça uma gracinha pessoal ao final. Algo que faça a pessoa sorrir, emocionar-se ou se enfurecer.
9) Assine. Dispense aquelas assinaturas default. É feio.

Aí vão dois exemplos. O primeiro de natureza profissional, e o outro, pessoal.

“Subject: Redução da folha de pagamento

Rosimeire,

Estamos consumindo muitos clipes no escritório.
As pessoas estão usando p/ relaxar o estresse e limpar as unhas.
Mande embora quem você surpreender entortando um clipe.
Adorei seu cabelo!

Carlos”

“Subject: Voulez vous coucher avec moi ce soir?

Rosi,

Você está irresistível.
Deve ser esse seu cabelo.
Por favor, venha jantar em casa hoje.

Je t´aime,

Carlos”

Escrever e-mail é uma arte. Como escrever haikai. Como comer alcachofra.

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