Archive for September, 2002

Um país de miseráveis.

26/09/2002 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

O Brasil é um país maravilhoso. Generoso. Quantas vezes não ouvimos isso, não é mesmo? Pois eu acho que o Brasil é um país miserável e mesquinho.

Sempre será miserável um país em que a vida tem menos valor do que um carro, um relógio, um tíquete de restaurante. Sempre será mesquinho um país conduzido por uma elite entrincheirada, cínica e arrogante.

O Brasil é um país miserável e mesquinho. Mas os brasileiros não o são. Os brasileiros são o que são. Um povo, com pessoas de carne e osso, desejos e sonhos, ambições e contradições.

O engraçado é que fomos educados a acreditar no Brasil. Fomos domados para Crer.

Como carolas-pé-de-padre. Como cavalos.

Mas a crença pode se sustentar em duas bases antagônicas. A primeira é o critério da fé, portanto irracional. A segunda é a objetividade, portanto racional.

Política não deveria ser profissão de fé. Mas racionalidade também não costuma ser o critério típico daqueles que nos governam há tanto tempo.

Não faço a menor idéia de quem fará ou não um bom governo. Quem tiver esta certeza votará com a consciência limpa desde que seja uma escolha racional e livre. Sem crenças nem chicote. Qualquer que seja o candidato.

Mas como acredito que o Brasil oficial dá de ombros para seu povo, não tenho opção a não ser desconfiar de qualquer modelo de governo que sugira continuidade. Mesmo que seja de forma envergonhada, arrependida ou disfarçada.

Há muito tempo que me tornei adulto e que parei de Crer. Quanto ao cabresto tento afrouxá-lo sempre que posso. Sempre que tenho coragem e chance para fazê-lo. Como agora, no sufrágio que se aproxima.

Há muito tempo que só acredito na força da dialética. Racional, fria.

Só acredito que este país, no qual eu quero viver, não pode se dar ao luxo
de não experimentar a alternância das idéias, dos objetivos, do caráter, das biografias. Mesmo que a gente se arrependa depois.

Democracia terminal.

20/09/2002 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

É impossível falar de outra coisa. Somos bombardeados diariamente pela mais tentacular das campanhas políticas dos últimos tempos. Uma campanha no entanto morna, cheia de clichês que disfarçam a mais absoluta falta de vergonha.

Morna porque os discursos políticos são recheados de fatos, planos de ação, citações de feitos, promessas burocraticas. Morna porque meia dúzia é a mesma coisa que 6.

Clichês porque os candidatos destilam exatamente o que o eleitor, incauto e ingênuo, quer ouvir. A lição do líder carismático seguida à risca. Os clichês inflamados mobilizam contingentes acéfalos.

Democracia não significa eleição nem sufrágio universal. Democracia custa caro. E seu preço é inversamente proporcional à consciência política do eleitor. Quanto menor a educação política do cidadão, mais caro ele irá pagar por suas escolhas.

A propaganda eleitoral no Brasil acredita piamente que o brasileiro vota por impulso.

A propaganda política brasileira reza o terço da mentira deslavada, do chute, do populismo.

Os candidatos, absortos por essa máquina diabólica, por esse vício do sistema democrático brasileiro chamado “propaganda eleitoral gratuita”, aposentaram definitivamente seus ideais, isto é, quando os tinham.

Não quero saber quantas prisões o Senhor Candidato vai construir. Nem quanto vai ser o salário mínimo, muito menos o que fazer com a dívida externa, os juros, o dólar, as alíquotas de imposto. Eu sou lá economista, jurista, financista? Quero saber o compromisso do Senhor Candidato com a fratura social, com a distribuição de riqueza, com o fim dos privilégios, dos cartéis, da corrupção. Não é um inventário de promessas numéricas que irá me convencer mas as idéias e a coerência da biografia do homem e do partido ao qual pertence. Estou pedindo muito?

Mas será a propaganda eleitoral gratuita adequada para um debate de idéias, de biografias? Não. Propaganda eleitoral gratuita só serve para um bombardeio massacrante de mentiras.

O eleitor é vítima. Vítima de uma escolha que acontece no susto, no imediatismo, por egoismo. Esses são os verdadeiros valores dos políticos candidatos.

A propaganda eleitoral gratuita não é só um atentado à inteligência do Brasileiro, é um câncer letal na consciência política de todos nós.

Playba em baile funk. Relativizando sobre Cidade de Deus.

11/09/2002 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

É possivelmente um dos melhores filmes feitos no Brasil este ano. No Brasil e além. Muitas linhas foram derramadas a respeito de Cidade de Deus. Inflamados manifestos, extasiadas odes à mudança-já e muita, muita catarse de peso de consciência.

Pouco importa aqui a intenção dos autores. Me interessa sim refletir sobre a obra e para além de seu alcance imediato.

Qual é o papel social da cultura? Será provocar tomadas de posição, tumultuar o discurso político, empreender mudanças de atitudes, cobrar o poder público e a consciência do cidadão?

Talvez mas lembrem-se que um filme como Cidade de Deus, ainda que baseado em fatos reais, é uma obra de ficção. E ficção aqui não significa que a história é falsa ou imaginária. Significa que o tratamento cinematográfico, reveste qualquer história de uma “ficcionalidade” indissociável e inerente à própria linguagem. Por mais que ela seja “real”.

Por isso, seu efeito mais profundo tem a exata duração de sua exibição. Buñuel dizia que o cinema é um sonho. O apagar das luzes da sala de cinema é como se fechássemos os olhos antes de dormir e sonhar. A linguagem cinematográfica, com suas edições, inversões cronológicas, mudanças de ponto de vista e tratamentos dramáticos é onírica por natureza. O acender das luzes é o despertar para a realidade, sem cortes, temporal e com um único ponto de vista: o nosso.

É bonito mas tímido transferir aos filmes e obras artísticas a tão pesada carga de mudar algo nas condições sociais do povo. Eles mais facilmente entorpecem do que despertam.

No entanto, existe outra função “social” na obra artística.

Quando ouço um playboy cantando o ódio ao burguês dos Racionais MC em sua Cherokee ou o mano curtindo o glamour fashion de Moby ou Madona, um papel óbvio da obra artística fica estampado: aproximar, criar pontes, laços.
E não é pouco. Para além do primor artístico, dos extraordinários atores, do roteiro brilhante, da fotografia inebriante, é isso que é mais bonito em Cidade de Deus.

Lindo também é ver as filas de Mauricios e Patricias no cinema do Shopping.

Se o Brasil tem ou não jeito, sei lá e prefiro achar que sim. Mas não é Cidade de Deus ou a “verve” entusiasta do Jabor que irão responder nem apontar caminhos. Mas quem sabe Zé Pequeno de camiseta Hang-Ten e Playba dançando em baile funk?

Barbie de palanque.

05/09/2002 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Deve haver algo de errado. Não me refiro ao surrealismo e à chanchada, como sempre impagáveis, de boa parte da propaganda eleitoral gratuita. No dia que resolverem impor alguma censura ao “speaker corner” dos partidecos e anões, vamos sentir falta. Mas falo do aparato publicitário de alta estirpe: da campanha dos grandes partidos (partidos?) políticos.

Todos hão de concordar que na propaganda há forma e conteúdo. Boa propaganda é um bom conteúdo, verdadeiro e convincente com uma forma adequada que suporta e enriquece a intenção. Ou ainda, boa propaganda é uma forma sedutora que mascara ou subentende um conteúdo mercadológico. Não importa, para este raciocínio, creditar maior ou menor importância a uma ou outro, mesmo porque alguns dirão que forma é conteúdo, conteúdo é forma e pronto, piramos e perdemos o foco de uma singela reflexão.

Quando analisamos ou tentamos extrair conteúdos dos discursos políticos da propaganda eleitoral na atual campanha, das duas uma: ou não temos a menor capacidade de discernir ou de reconhecer verdades: faltam-nos informação e conhecimento; ou é tudo absolutamente igual.

Tem um que fala que vai criar X milhões de empregos, o outro X/2 empregos, mais um X/10 empregos. Um diz que irá reduzir o deficit não sei das quantas em 80%, o outro em 40% e outro acaba com ele de vez. E nos fica uma indigestão de propostas e promessas. Verdadeiras? Aproximadas? Falsas? Como é que vou saber?

Ainda no que diz respeito ao conteúdo, um diz que vai colocar bandido na cadeia, crianças nas escolas, doentes em hospitais. O outro diz que que vai criar leitos em hospitais, vagas nas escolas e celas nas cadeias. Adoramos ouvir isso. Nos deliciamos com as promessas que são todas lindas mas idênticas.

Como faço para escolher? Não entendo nada e o que entendo é igual. E agora?

O que me sobra para decidir? A aparência de um, a inflexão de outro, o sorriso, o jingle, o logotipo, as cores, a edição, o roteiro, a finalização, o photoshop, o after effect.

Só me resta a forma. A forma cada vez mais trabalhada, pensada, qualificada. Só me resta a forma. A forma que quiseram dar ao produto.

O produto da propaganda eleitoral, nessa eleição faraônica e fanfarronica, é a própria propaganda. Não há produto, não há candidatos,  só modelos, atores, barbies e falcons.

Analisando inclusive a movimentação das pesquisas eleitorais, depois da entrada do horário político, é fácil verificar que mesmo sem nenhum fato novo, sua simples estréia modificou significativamente o quadro.  Portanto, a fórmula do quanto mais melhor parece funcionar. A do quanto mais vazio o discurso também. A bela gravata, o cabelo alinhado e o cenário caprichado também. Mas o que assusta é pensar que não somos governados por clones mas por pessoas, personalidades que teoricamente nos representam.

A menos que essa idéia do político seja ultrapassada, utópica. A menos que o marketing que está construindo a imagem dos políticos que devemos escolher seja também responsável pelas políticas que serão adotadas, uma vez eleitos. A menos que a gente assuma de vez que tudo não passa de uma grande representação. Não só a propaganda política mas a própria política.

Acho que caí na real agora. Mas doeu.

Voto no Falcon e você?

Internet mata.

02/09/2002 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Fui ao médico fazer um check-up. Coisas de quase velho. Exames mil, aquela chatice. O resultado era endereçado ao médico, mas, óbvio, abri antes da consulta. Li no carro, às pressas. Sem entender patavina, a primeira linha era terrível e vaticinava: um câncer horroroso no fígado. O trânsito estava terrível, e meu testamento já estava pronto quando cheguei em casa. Meu piano, meu cachorro, meus livros, já estava tudo etiquetado. Será que seis meses é o suficiente para conhecer a Índia e a China? Será que nesse caso dá pra sacar o fundo de garantia? Choro com todos ou fico na minha e sofro um adeus romântico?

Mas eu precisava saber de tudo. Talvez ainda tivesse um ano de vida. Um ano para aprender uma partita de Bach? Acho que dá. Um ano, comendo chocolate sem parar: azar, o caixão vai ficar pesado. Preciso comprar um notebook com bateria atômica: vou escrever um romance de mil páginas no Uzbequistão.

Como um raio, fui até o computador, catando um pote de geléia no caminho. Aquela supercalórica que ganhei anos atrás. Se tiver estragada, paciência: “Morreu de tanto comer geléia”.

Estava lá: uma universidade na Espanha havia feito uma pesquisa séria, tinha que ser séria, claro: em 34% dos casos era batata, o cara morria. Mas o hospital militar de Indiana era mais categórico: não adianta operar, é morte lenta e sofrida. A noite foi excitante. Fui a um chat americano e joguei a pergunta: “Alguém aí sabe o que é o que tenho?” Um cara respondeu que a mãe tinha isso. Perguntei mais, detalhes, choramos juntos, acabamos bons amigos, prometi meus CDs de Bach pra ele. A noite foi longa. Comecei a escrever um e-mail coletivo. Até que ficou bacana. Gozado até. Vai circular pela Internet como um SPAM abençoado. Uma corrente de fé na vida. Preciso escrever a todos que amei. Como Napoleão, “Quero morrer no meio de todos que amei e que amo tanto”. Bonito. Vão chorar pacas.

Amanheceu. Não fui à academia, nem fiz a barba. O dia transcorreu penoso. O fígado, quem diria, logo eu que não bebo!

Consulta às 15 h: cheguei às 14 h, sorridente, conformado, com aquela luz dos predestinados.

- Então, tá tudo legal aqui.
- Tudo legal, (O cara é otimista, saco!)
- Coração de atleta, hein?
- Atleta! (Quem sabe um trekking no Nepal, boa.)
- Você não abusa da alimentação, aparentemente.
- Não, claro que não (A geléia, ainda sobrou geléia de amora?)
- Muito bom. Volte aqui em seis meses.
- Muito bom? Está muito bom? (OK, eu sabia que tinha um ano, e daí?)
- É, seus exames estão ótimos.
- Mas, doutor, e o fígado (Será que ele não viu? Que cara frio!)
- O fígado, o que tem o fígado?
- É…esse troço aí, na primeira linha?
- Ah, isso, é normal.
- Normal? Mas e a pesquisa da universidade de Valência? E a do Hospital Militar de Indiana? Eu sou forte, doutor, pode falar.
- ???
- Estou pronto. Operamos ou não?
- ???
- O Senhor acho que eu tenho seis meses ou um ano?
- ???
- Será que não seria interessante uma outra opinião?
- ???
- Eu pesquisei, doutor…
- Pesquisou, é?
- Sim, sim, eu não resisti, fui indiscreto, abri o exame.
- Na Internet?
- É, claro, a universidade de Valência, o Hospital Militar de Indiana…

O doutor caiu numa gargalhada retumbante, me serviu café, me deixou fumar, me deu um chocolate e marcou a próxima consulta. Eu, mudo, escandalosamente envergonhado, absurdamente desapontado e terrivelmente vivo.