Archive for October, 2002

Banner de 12Ks, maldito seja.

13/10/2002 em Sei lá | Tags: , , | Deixe um comentário »

Este troço que você está vendo logo acima desta coluna se chama banner. Foi inventado por um nerd carrancudo que foi obrigado a ceder espaço comercial no site que ele havia produzido. Como ele não era do métier e detestava a perspectiva de ver a Web virar um espaço de exploração capitalista, ele definiu que esse espaço tinha que ser assim, ridiculamente pequeno, absurdamente leve e com um padrão tecnológico de mínimo denominador comum, portanto ultrapassado.  Foi assim que ele nasceu, muitos anos atrás, este que é considerado, hoje em dia, o formato padrão de publicidade da Internet comercial: um banner de 12 Ks e 468 X 60 pixels. 12 Ks, para se ter uma idéia é menos do que um arquivo Word vazio, sem nenhum texto. Já 468 X 60 pixels é igual a 16, 51 X 2,12 centímetros.

O Brasil é realmente um país estranho. Há algum tempo atrás, o país aparecia nas estatísticas como um dos que tinha maior crescimento de usuários de Internet no mundo. Ainda, encontrávamos aqui alguns dos maiores e mais visitados portais do mundo. Nos festivais internacionais de publicidade, eramos aclamados como os mais criativos. E de repente, pirlimpimpim, sofremos mais uma vez do nosso endêmico complexo sub-desenvolvimentisa.

É verdade que continuamos com um crescimento importante de pessoas plugadas. Ainda temos portais pesos-pesados e iniciativas animadoras. No entanto, pasmem, esse troço aí de cima, o tal do banner continua igualzinho ao que ele era 5 anos atrás. O formato é o mesmo, o peso idem. Isso é particularmente surpreendente se levarmos em consideração que as conexões estão cada vez mais velozes, os computadores idem.

Só quem tenta, na prática, autorizar mídia na Internet sabe do calvário e do mau humor dos portais em aceitar formatos e pesos fora do padrão. Pior, só quem tenta criar idéias interessantes para anunciar as marcas dos clientes da melhor maneira possível, sabe do suplício que consiste em se adequar ao banner de 12 Ks.

Querem coisa pior ainda? Então basta navegar por aí, em sites americanos e europeus para ver o tamanho do nosso atraso. Banners grandes, impactantes, com as tecnologias adequadas. Ainda são banners mas que diferença quando comparados aos nossos raquíticos 12 Ks!

Claro que existem exceções. Mas será que exceções resolvem alguma coisa? Há quanto tempo ouvimos os portais dizendo “queremos idéias inovadoras, somos flexíveis, etc e tal”. Mas na hora de autorizar, o stress começa. A hora não está para exceções mas para uma ação simultânea e colegiada dos maiores portais para varrer definitivamente o maldito preconceito que consiste em achar  que o usuário de Internet não gosta e não quer propaganda.

Banner de 12 Ks, maldito seja.

1. Você é contra, a favor ou muito pelo contrário, quando se fala em Internet?

09/10/2002 em Internet | Deixe um comentário »

Muito pelo contrário.

Eu às vezes me pergunto por que raios esse tema ainda emerge da tormenta. Primeiro porque, antes de tentar responder, deveríamos ensaiar uma definição para a palavra Internet. Com exceção de algumas recheadas de termos técnicos, as únicas definições que me agradam são metafóricas, vagas ou parciais. Portanto, como ser a favor ou contra algo que não se define?

Segundo porque, se não somos capazes de encontrar um sentido preciso para a palavra, podemos sim adjetivá-la. A Internet é como a eletricidade: ninguém vê, ninguém toca, ninguém perde tempo definindo, mas ninguém vive sem. Assim, como ser a favor ou contra algo que é parte da minha vida? Aliás, da sua também, você queira ou não.

Na Idade Média, os médicos costumavam usar um termo para classificar toda e qualquer manifestação física que eles não fossem capazes de entender ou definir: eram os humores. Humor era doença e cura, um espécie de sopro da natureza que justificava tudo e nada ao mesmo tempo.

É mais ou menos isso com a Internet: os humores de um novo tempo.

2. Você se considera um criativo com alta, média ou baixa intimidade, quando tem que criar alguma peça para a Web?

Não existe esse negócio de intimidade para criar algo para a Web. Existe intimidade para produzir algo para a Internet, claro, mas não para criar.

Era assim também com as outras mídias: uma enorme confusão entre criação e produção.

Criar para a Internet é parecido com criar para um filme, um anúncio, um planejamento estratégico, uma receita de tutu de feijão. Os criativos às vezes se inibem com a Internet porque confundem criação com produção.

Mas é claro, cria melhor quem entende de produção, embora isso não seja necessário.

3. O que você acha que é diferente e o que é igual em criar para a Internet e criar para outros meios de comunicação?

Existem dois tipos de diferenças: as diferença para melhor e as diferenças para pior.

Para melhor: a mídia Internet é inteligente, ou melhor, uma peça publicitária (ou não) para essa mídia exige a inteligência do usuário para ser criativa. A diferença, portanto, consiste na atitude do público. Não existem espectadores na Web, mas interactadores.

Para pior: os maiores veículos da Internet brasileira insistem em comercializar espaços e formatos ultrapassados e ineficientes. Criar para a Internet e para esses veículos é tão desafiador quanto criar bula de remédio ou splash de preço em gôndolas de supermercados.

4. Para você, a Internet é apenas mais um meio de comunicação como os demais? Sim, não, por que?

Não. A Internet não é apenas um meio de comunicação. Essa é exatamente a mais surpreendentes das diferenças. A Internet também é banco, loja, parque de diversões, telefone, sala de reunião, namoródromo. Um ambiente que também é tudo isso e muito mais é, portanto, potencialmente mais importante, envolvente e complexo.

5. As novas tecnologias, em sua opinião, enfrentam uma natural
resistência do profissional de criação? Sim, não, por que?

Não são as novas tecnologias que enfrentam resistência do profissional de criação. Muito pelo contrário, elas o estimulam e aguçam sua capacidade de criar. A resistência, se é que ela existe, não está no profissional de criação mas nos jobs para Internet que caem na sua mesa. Ou melhor, na falta deles. Talvez a pergunta devesse ser feita, substituindo a palavra “criação” por “marketing”.

6. O fato da Internet ser hoje no Brasil utilizada ainda por poucos
consumidores desestimula um maior interesse dos criativos por ela?

Quem disse que a Internet é hoje pouco utilizada pelos consumidores ou não sabe o que fala ou não entende de consumidor. Um profissional de comunicação não trabalha para “consumidores” genéricos mas para “consumidores” qualificados por instrumentos de pesquisa. Feitas essas qualificações, a indicação de se usar Internet como mídia pode surpreender em termos de alcance.

7. Ganhar um prêmio criativo por uma peça criada para a Internet é igual ou diferente de ganhar um prêmio por algo criado por TV, Revista e Jornal? Explique melhor.

Igual. Portanto, não precisa explicar melhor.

8. Você acha que está surgindo uma geração de criativos que deverá se especializar em criação para Internet, ou na sua opinião o criativo moderno tem que estar preparado para criar para qualquer ambiente, veículo ou formato que exista?

O criativo moderno deve estar preparado para criar. Não importa se para uma mídia, se para a Internet, se para uma reunião ou uma apresentação power-point. O que existe, no entanto, são preferências pessoais e essas sim devem ser respeitadas, porque cria melhor quem cria feliz.

9. O que na Internet o fascina? O que na Internet o afasta?

O que me fascina por exemplo na Internet, para ser breve, é o fato de todo mundo alardear aos quatro ventos o fracasso da Internet comercial, mas continuar a usar o Internet banking, a ler o jornal on-line, a usar e-mail, jogar, e passar mal quando o link cai.

O que me afasta da Internet é quando o link cai, precisamente.

10. Além dos banners, quais outros formatos publicitários digitais você conhece?

O banner tal qual ele existe hoje não é um formato publicitário. É uma teimosia maldita de quem acha que a Internet ainda está confinada nas universidades e nos macintoshs de meia dúzia de nerds barbudos. É um joanete, uma unha encravada, um vírus nocivo.

11. Quais desses outros formatos digitais você já utilizou e/ou
criou para?

O futuro da Internet comercial, ou melhor, da propaganda on-line é transformá-la, da noite para o dia, de supetão, sem avisar ninguém e numa ação concatenada entre todos os veículos, em uma mídia de interrupção. A propaganda on-line deve tornar-se compulsória como nos outros veículos tradicionais. Esses são os futuros formatos digitais realmente desafiadores.

12. Você sente que seus clientes estão interessados em solicitar mais e mais peças criativas para a Internet ou não?

Sim. Quem não está interessado em ter peças criativas para a Internet são os veículos on-line.

13. Você pretende conhecer sempre mais sobre a linguagem criativa de Internet ou ainda é cedo para discutir essas coisas?

A Internet é um bebê. Ainda não aprendeu a engatinhar e pretendo acompanhá-la, sempre. Quando teremos outra vez a chance de ver crescer e amadurecer uma revolução como essa?

14. Existe uma linguagem criativa de Internet? Quais suas
características?

Não existe, assim como não existe linguagem criativa nos outros meios. Não existe regra porque ser criativo significa justamente fugir das regras.

15. E se novas tecnologias forem sendo incorporadas, como a banda larga, por exemplo, que vai possibilitar criar comerciais exatamente como na TV, só que para a Internet, o que você acharia disso?

Ridículo. Comerciais exatamente como na TV são feitos exatamente para a TV, não para a Internet.

A sinuca da publicidade on-line.

07/10/2002 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Na semana passada, fomos surpreendidos por um desfalque de conteúdo on-line: o GuiaSP e o GuiaRJ sumiram da noite para o dia. Ainda que tenhamos sido brindados ultimamente com amargos dissabores do mesmo tipo, com o  desaparecimento de importantes e úteis iniciativas ou com a queda de qualidade sistemática de outras, dessa vez espumei mais que de costume.

Não cabe aqui discutir as razões que levaram grandes e importantes sites a fechar as portas. Além de serem óbvias, prefiro deixar tais comentários aos analistas, consultores e outros profetas que muito sabem vomitar explicações pós-facto e arrogar-se de teses apocalípticas ou milagrosas.

No entanto, por mais que as motivações financeiras sejam implacáveis, é difícil conformar-se que, de repente, não mais poderemos contar com esses que eram os melhores e mais competentes sites de serviços sobre São Paulo e o Rio de Janeiro.

O triste dessa história é a pavorosa sensação de que estamos retrocendendo, perdendo direitos adquiridos. A Internet comercial está em crise de negativismo.

Há de existir uma ou várias soluções para essa sinuca. É hora, mais do que hora, de discutir a mais evidentes das questões: por que os veículos comerciais, todos eles sem exceção, não conseguem atrair anunciantes?

Falam de má vontade das agências, de desconhecimento do anunciante, de comportamentos predatórios dos veículos.  Falam de modelos de comercialização complexos ou pouco convicentes, de formatos de publicidade inadequados e enferrujados, de obstáculos culturais no marketing das empresas.

Todas essas razões existem em maior ou menor grau. Pior fica a análise, no entanto, quando, na ponta do lápis, faz-se a conta da eficiência da publicidade on-line do lado do consumidor/usuário. Não existe nada mais simples do que provar racionalmente que publicidade on-line tem alto impacto, capacidade de consolidar imagem e gerar receita para o anunciante. Todos os veículos e agências já fizeram essa conta e, pasmem, a conta fecha.

Então, o que há de errado?

Errada é a falta de corporativismo, falta de discussão, de debates, de planos de ação. A hora não está mais para soluções individuais mas institucionais. Acredito que o mercado está suficientemente maduro e calejado para superar os preconceitos e rixas. Ainda, o que interessa agora, mais do que contas e equações, é o engajamento dos agentes. Pessoas envolvidas emocionalmente surtem mais e mais duradores efeitos do que fórmulas racionais.

Não é a primeira vez nem será a última que veremos soluções colegiadas tomarem corpo e surtirem resultados de curto prazo.

Na pauta urgente, reunir os agentes e envolvê-los num acordo institucional de revitalização do meio. Pelo bem do mercado.

Na pauta urgentísssima, colocar os GuiasSP e o GuiaRJ no ar. Pelo bem do usuário/consumidor.