Monthly Archives: November 2002

A esponja

Para Cesco

–    Apaga, apaga ele!

Ele segurava a arma com a ponta da alma. O dedo no gatilho; o coração na boca.

–    Mata logo esse filho-da-puta!

O disparo saiu tosco, cru, rápido, muito rápido. Na sua frente, aquela espuma cinzenta borbulhando de sangue.

–    Vam´ bora, Carlinhos.

Essa foi a primeira morte de Carlinhos. Foi difícil. Ele tinha muito medo de errar. Mas o cara morreu. Filho-da-puta!

Ele correu muito, depois, com a 38 dependurada no braço.  Seu membro ganhara poder de morte. Uma terminação nervosa explosiva. No meio da fuga, Carlinhos despencou para descansar um pouco, o braço duro, tremelicando. Fechou os olhos com força. Era preciso correr, ainda correr. Mas o menino não tinha mais forças.

Ficou ali a noite inteira. Ele e seu braço de chumbo. Ninguém veio. Não houve perseguição.

Na manhã seguinte, ele levantou com o primeiro andar cadenceado na rua. Carlinhos desparafusou a 38 da mão, enfiou a arma na calça e desceu o morro. Ia lentamente, ainda amortecido pela noite em claro.

Na praia, sentou na areia, de frente para o mar. Aos poucos, os últimos vapores do crime dissolveram-se na arrebentação. Carlinhos tirou a camisa, o tênis, escondeu o revólver na roupa e correu para as ondas. A vida recomeçava ali, apagando a memória.

Ele mergulhava, nadava, pulava. Gritava também, palavras soltas, o que lhe vinha à mente. Carlinhos estava aliviado e feliz. Lá longe ficava o morro, o soco no ar, o sangue transbordando.

Dias depois, o menino assaltou de novo; meses depois, matou mais um; anos a fio, mais alguns. Foi assim a sua vida toda: roubar, matar, lavar a memória no mar.

Até que ele cansou. Cansou daquela vida. Mas já era tarde.

–    Apaga ele, apaga!

De frente para Carlinhos, um buraco negro tremia, profundo.

–    Mata logo esse merda!

O tiro saiu devagar, furando o ar. O estalido veio depois, estourando a carne, abrindo caminho no peito.

Carlinhos caiu lentamente, sorrindo de dor. Recolhido no chão, fechou os olhos sobre a esponja vermelha e negra que lhe apagava a memória, para sempre, mais forte que a vida, mais forte que o mar.

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