Toma lá, dá cá

“É um bicho tentacular, de mil cabeças, patas, garras, línguas, estômagos, ânus e sexo. Ele age nos subterrâneos, nos esgotos e porões. Ele é onipresente, onisciente e muito rico. Um monstro horrendo, velhaco, traiçoeiro, venal.

Sua lentidão é, no entanto, proverbial. Sua incapacidade de tomar decisões idem. E ele é incapaz de concatenar idéias, organizá-las. Em estratégias coerentes então, nem pensar. Por isso, seus ataques são sempre os mesmos, atingindo os fracos, oprimidos e pobres- coitados.

Poucos e felizes são aqueles capazes de agarrar-se em suas intrincadas jubas e assim controlar a besta. São seus comandantes, cavaleiros, tutores e algozes, mais conhecidos como burocratas ou dignos representantes do povo.

É isso, meu senhor, o governo é isso: frio e calculista, seboso, fedorento, arrogante, preguiçoso, interesseiro.”

Foi assim que um iluminado motorista de táxi de Brasília me falou do governo, do alto do seu íntimo relacionamento com ele. Fiquei maravilhado pela sua extraordinária verve descritiva. Um discurso apocalíptico que deixaria João Evangelista orgulhoso.

Seduzido, eu alimentava a verborrágica alocução, tentando contemporizar, lançando mão dos maiores lugares-comuns possíveis, tais como “Eles são representantes do povo, afinal” ou “Democracia é assim mesmo” ou ainda “Mas está melhorando, já foi pior”.

O homem parou nesse argumento e, me olhando direto nos olhos, arriscando a nossa pele nos corredores sem cruzamento da cidade, disse:

– É verdade. Veja a Internet, por exemplo”.

– O que a Internet tem a ver com isso? – perguntei.

Foi então que ele disse, extasiado: “O governo está investindo pesado na Internet. Veja, por exemplo, o site do Instituto de Meteorologia ou o do Ministério dos Transportes. Tem tudo lá. Tudo, tudo, tudo e de graça! Não é uma maravilha? O senhor devia ver. Isso sem falar na Receita Federal, mas aí, tudo bem, né? É para morder mais ainda no nosso bolso. Então, não vale.”

O sujeito me recitava de cor os endereços que eu me apressava em tentar anotar no talão de cheque. E de repente, seu discurso deu uma guinada de 180 graus, para me soltar com uma lucidez tão cristalina quanto surpreendente: “Sabe, a gente não pode ficar sempre cobrando, cobrando, cobrando. Afinal de contas, ele morde daqui, mas devolve de lá. Na Internet. Ao menos isso, meu senhor, na Internet”

Em tempo:

Portal do Governo: http://www.brasil.gov.br/
Instituto Nacional de Meteorologia: http://inmet04.inmet.gov.br/
Ministério dos Transportes: http://www.transportes.gov.br/

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