Archive for May, 2003

Entre o Céu e a Terra

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Quando ele ainda era pequeno, Cesinha gostava muito das árvores, das plantas, das flores. Ainda bebê, quando se sentia só, virava de lado e olhava, sorrindo e confortado, os grandes carvalhos verde- oliva dançando pela janela.

Mais tarde, quando aprendeu a andar, sentia um prazer enorme em caminhar pelo parque, acariciar os troncos, deitar-se na grama molhada, soprar nas pétalas das glicínias.

No seu décimo aniversário, Cesinha ganhou uma pá, um avental e botas de borracha. Era sua panóplia de felicidade. Quando voltava, infeliz da escola, corria para o quarto, travestia-se de jardineiro-cavaleiro e saía para o jardim, poderoso e invencível. Seu pacto de sangue era preservar sua coleção vegetal à qual havia dado nomes honrados. Os dois carvalhos altivos e serenos eram Arthur e Geneviève; a misteriosa roseira era Morgana; o chorão que derramava suas tranças pelo muro, Lancelot.

Um dia, Cesinha encontrou uma pequena muda jogada miseravelmente na lata de lixo do vizinho. Imediatamente ele armou-se com suas poderosas ferramentas e plantou o castigado cipreste na pracinha onde costumava brincar com seus amigos. Por uma abençoada sorte e com os cuidados de Cesinha, Merlin sobreviveu.

Todos os dias, Cesinha observava seu crescimento com uma viva satisfação. Sentia-se orgulhoso de tanto viço. O menino também defendia seu amigo contra as pragas, os tratores, o mijo das crianças.

Cesinha cresceu. Merlin cresceu. Mas os dois nunca se separaram. Nunca.

Hoje Cesinha está bem velhinho, Merlin também. Ainda se encontram com freqüência. Uma vez por semana, Cesinha apanha a bengala e rasteja para a praça, para conversar com Merlin.

- Merlin, bom-dia.
- Bom-dia, Cesinha.
- Como você está?
- Bem, obrigado. Andei com alguns problemas de irrigação, mas, por sorte, soube que a previsão do tempo anunciou fortes chuvas para o final da semana. E você?
- A não ser a vesícula, os reumatismos e a dificuldade de ler, está tudo bem.
- Cesinha, que idade você tem?
- Oitenta e sete. E você, setenta e cinco.
- Exatamente. A memória ainda funciona, não?
- Muito bem. A memória sim. Mas o resto, meu amigo, é uma lástima, um naufrágio.
- Imagina, você está ótimo.
- Estou nada. Olha só isso. A cada ano que passa, eu fico mais curvado. Tudo despenca. Tudo. Às vezes, ao acordar, mal consigo sair do lugar. Me sinto pesado. Parece que algo está me puxando para baixo, para baixo, para baixo.
- Engraçado isso.
- Eu não acho muita graça não.
- Desculpa, eu queria dizer que é engraçado, porque comigo é o contrário.
- Como assim o contrário?
- Você se lembra daquela vez que uma praga, uma maldita erva de passarinho se fixou na minha testa?
- Claro que me lembro. Deu um trabalhão, mas conseguimos extirpar a danada, não?
- Sim, claro. Mas você lembra que bastou você subir numa cadeira pra alcançar a safada?
- Lembro sim.
- Naquela época, éramos quase do mesmo tamanho.
- É verdade.
- E depois disso, eu te passei, passei o muro da praça, passei até o velho cedro.
- É. Você está muito alto agora.
- Pois é isso. Você sente que algo te puxa para baixo, e eu sinto o contrário.
- Que algo te estica para cima.
- Exatamente.
- É a idade, Merlin, a idade.
- É, a idade.
- A idade dos homens nos puxa para o centro da Terra, para o fundo, para a cova. Já a idade das árvores, a idade das árvores as puxa para o céu, Merlin, para o céu.

Azul

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Por que o céu é azul? Por que o mar é azul? Por que a Terra é azul? Por quê?

Tinha um pintor lá no céu. Antigamente.

Muito mais antigamente, quando ele era jovem, sua palheta exibia mil cores e idéias. Saía de manhã na garupa de um cometa, dando pinceladas por todos os lados, experimentando um arabesco aqui, ali um pingo, adiante uma mandala ou um leão juboso, uma cabra, um obelisco pontudo, um corpo de mulher. Era muito rica a imaginação do pintor. Dizem que ele pintou capelas e teatros de óperas, quando fez alguns bicos na Terra. Mas ele ficou velho e se cansou de tanta variedade. Cansou das cores, das formas e das experiências. Foi assim que, antes de morrer, resolveu pintar o céu inteiro de uma única cor, azul.

Até que ficou bonito, principalmente quando as núvens arrepiam o azul de branco descabelado.

No mar, lá no fundão dos oceanos, tem um enorme espelho.

Mas ninguém pode vê-lo. Nem mesmo os peixes cegos das fossas abissais. Mas, ao amanhecer, um polvo enorme singra a areia das profundezas, esticando um rolo de papel de alumínio por todos os cantos. Quando o sol desperta do fundo do horizonte, sua carícia luminosa reverbera no espelho, que instantaneamente difunde, por todas as moléculas de água dos mares, um pigmento celeste. O artíficie da mágica, o polvo, foi o mais diligente dos apóstulos do pintor do céu.

Vocês já imaginaram quão feio seria o mar se ele fosse vermelho, ou amarelo, ou cinzento como a fumaça de um caminhão?

Um dia, um astronauta teve a idéia de olhar pela janelinha de seu foguete interespacial.

Dizem que ele estava com muita dor de barriga  por causa da feijoada em pó que comera no café da manhã. Para  acalmar os humores intestinais, ele se aproximou da escotilha. Qual não foi sua surpresa, quando viu, um jogador de beisebol, barrigudo, flutuando a poucos metros do vidro! De repente, o esportista chegou bem perto, apoiou os pés na lataria da nave e saiu como uma flecha em direção a uma bola que se aproximava veloz na sua direção. Quando ele estava próximo a ela, jogou-se com os braços abertos. Foi tudo muito rápido. Ele catou a bola, cuspiu nela e arremessou-a para o alto. Ela girou, girou, girou muito. Nisso, o astronauta esqueceu sua dor de barriga e olhou para os controles da nave. Ele descobriu, então, que a bola em questão era a Terra.  Foi assim que ele entendeu que, por causa daquele lançamento espetacular, o azul do mar se misturou com o azul do céu.

Foi a partir de um jogo de beisebol que a Terra passou a ser um planeta azul.

Aula

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Escolha um dia de sol para começar.

Em um caderno, faça alguns rascunhos para não errar. Toque o papel com a ponta do lápis, feche os olhos e, quando a mão ganhar vida, deixe-a evoluir livremente.  Não abra os olhos, nem levante o lápis. Sinta o calor do sol na seu rosto, cheire o ar, perceba as carícias da brisa. Não abra os olhos ainda. Quando sua mão cessar os movimentos, descanse o lápis e afague a folha levemente. Abra os olhos agora. Que tal?

Que bom que você gostou. Também gostei, mas pode ficar melhor.

Agora vire a página do caderno e comece novamente, em outra folha. Dessa vez, não deixe aquele pensamento lhe tirar a concentração. Também não tente adivinhar o que está desenhando. Deixe a mão solta e o espírito à mercê do tempo. Temos todo. Vamos lá. Isso.

E agora, como ficou? Nada mal. Mas você não deve ter pressa. Está vendo no canto da folha? Tem uma hesitação nervosa ali. Você quis parar antes da hora.

Vamos mais uma vez?

Isso, sem censura, sem medo. Pronto. Ficou ótimo agora. Muito bom mesmo.

O próximo passo é olhar para o desenho demoradamente. Acompanhe com os olhos todas as curvas. Parta de um ponto e retorne a ele. Faça isso muitas vezes. Não balance a cabeça e vá fechando os olhos devagar. Isso, sem parar de seguir as linhas. Continue assim com os olhos fechados. Não pare de bailar as linhas na sua cabeça.

Chegou a hora de ensaiar o desenho definitivo. Levante a mão e comece a traçar as linhas no espaço. Com uma mão apenas, como se, na sua frente, houvesse um espaço plano, uma tela esticada, branca. Desenhe as linhas que você já conhece. Quando retornar ao ponto de saída, recomece. Uma, duas, três vezes. Não pare. Continue. Seus gestos estão ficando mais decididos, mais rápidos. Percebeu? Mais uma vez. Mais uma. Agora com a outra mão, ao mesmo tempo, espelhando o desenho original. Isso. As duas. Não se preocupe se as linhas se encontrarem. Abra as mãos, desenhe com todos os dedos. Movimente-os ao mesmo tempo. Vamos lá. Que lindo!

Amplie o desenho agora, abrindo os braços. Grande, é grande a tela imaginária à sua frente. Não tem fim. Continue assim. Pressione agora as mãos para frente, como se as linhas evoluíssem no espaço. Assim mesmo. Desprenda os pés do chão se precisar. Contine crescendo o desenho. Adiante, atrás, para a direita, para a esquerda, para o alto e para baixo. Solte os ombros, a cabeça, a língua. Isso. O corpo todo desenhando. Grande, bem grande é o desenho.

Rodopie. O desenho não pára de crescer. As linhas envolvem você. Saia da sala, se precisar. Não está cabendo. Assim. Continue. No jardim, na rua. Arremesse as linhas em todas as direções, recupere-as, jogue-as novamente. No telhado, nas nuvens. Sem parar. Sem parar. Sem parar.

Pronto. Agora você já sabe dançar.

Além-mar

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Cris

-    Um dia, um dia vou ver lá ver o mar, pensava Mateus, enxada na mão. Um dia vou me molhar no mar.

A catinga dura ardia, venenosa. O sol começava a espreguiçar-se, lambendo a terra seca e Mateus já estava de pé, revolvendo uma improvável roça.

Lá em Quebrangulo, é tudo marrom. As casas, as crianças, a macaxeira mal parida, a mão das mulheres, os pés dos homens, o lombo do único jegue. A esperança dos desalmados é marrom.

Lá em Quebrangulo é tudo seco, esturricado. A terra, o céu, o ar e os olhos dos osssinhos débeis das crianças. Ninguém nunca chorou em Quebrangulo. Que luxo chorar!

Um dia, vieram ali uns homens grandões. Levantaram poeira, bateram muito, falaram pouco e foram embora levantando poeira. Quando a fumaceira se deitou novamente, foram lá ver. Mateus correu e chegou primeiro: no meio da praça, os homens tinham fincado uma caixinha de correio. Azul e amarela, com a boca esticada no meio, fechada.

Mateus voltou para a catinga e pensou. Pensou que queria  um dia ver o mar, se molhar no mar. Mateus sonhou mais uma vez com o mar, o mar que ficava longe.

À noite é clara no sertão. Fria às vezes. Silenciosa.

Lígia morava numa casa grande, rua Beira-Mar, sem número.

-    Dona Lígia, chegou uma carta para a senhora.

Lígia abriu o envelope que descansava em sua mesa.

“Prezada senhora,

Meu nome é Mateus. Moro em Quebrangulo e quero muito ver o mar.

Obrigado

Mateus”

Foi assim que Mateus viu o mar. Escrevera uma carta para a Dona Lígia na rua Beira-Mar, sem número.

Hoje Mateus mora em Quebrangulo socando a enxada na terra dura. Ele tem muitos anos hoje, Mateus, muitos filhos, muitos calos e muitas rugas. Mas ainda quebra a terra exangue, sem parar um só dia.

Mas quando a noite silencia o sertão, Mateus entorna os olhos. E um enorme mar azul vem bater-se, selvagem, inundando-lhe as pálpebras.

Mateus um dia vira o mar, e já sabia chorar.

Evolução das espécies

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Era uma vez, onde o céu beija a terra e a terra lambe o céu, uma ilha ensolarada.

Aquele pedacinho de terra, no meio do oceano e a muitas milhas do continente, era o habitat preferido de pelicanos e leões-marinhos. Eles viviam pacificamente, dividindo tudo em perfeito equilíbrio. Ninguém metia o bedelho na etnia alheia. As aves não cobiçavam as pedras chatas do litoral onde os leões douravam o barrigão; e os leões, por sua vez, não invejavam os ninhos fofinhos de onde saíam a cada ano, incontáveis esquadrões de penugem voadara. Havia comida e bebida, sol e vento, luz e paz para todos. Era assim desde muito tempo.

Não havia líderes comunitários nem carismas de palanque. E tudo permanecia como sempre havia sido. Leões procriando silenciosamente, pelicanos copulando desavergonhadamente.

A população de leões-marinhos tinha lá seus velhos conservadores, jovens universitários, capitães de manada, solteironas vitalinas, astros pops e editorialistas mal-humorados, mas tão somente para debater o aquecimento da calota polar. No mais, era só espreguiçar as banhas ao sol e bocejar sem cerimônia.

Da mesma forma, os pelicanos organizavam-se em torno de seus técnicos de futebol, guias turísticos e chefes de cozinha, maestros autoritários e generais, mas só para discutir e debater os fluxos e refluxos das correntes oceânicas. No resto do tempo, era só cacarejar ruidosamente e deslizar entre as nuvens.

Até que um dia, aportou na praia uma foca desbussolada. A forasteira distraíra-se atrás de um cardume prateado e perdera-se de seu povo.

A coitada, exausta e esbaforida, fingiu um desmaio na areia, com violência e dando gritinhos de prima-dona para chamar a atenção. Aquela cena bizarra despertou a curiosidade dos habitantes da ilha. Pelicanos sobrevoaram o local do incidente, e leões- marinhos arrastaram suas pelancas para perto. Apressaram-se todos a seu redor. A foca, esperta, com um olho entreaberto acompanhava a movimentação.

Todos discutiam como iriam prestar socorro à coitada, tão cansada, tão sofrida, tão solitária. Os pelicanos discorriam sobre os grandes benefícios da medicina alternativa e das dietas líquidas; leões marinhos adiantavam que exercícios físicos são nocivos à acumulação de gordura e falavam maravilhas da lipoaspiração e das modernas técnicas de implantes. Cada um tinha uma solução, uma cura apropriada.

Enquanto isso, a foca fazia manha, gemia, batendo as nadadeiras no chão.

As discussões se avolumaram e causaram enormes constrangimentos. Ninguém estava de acordo. A foca exultava, manhosa, deliciando-se com tanta atenção.

Foi então que, contorcendo-se toda, a foca aprumou-se no meio da multidão terrestre e aérea. Todos calaram-se instantaneamente, acompanhando seus movimentos. Ela caminhou lentamente para um rochedo. Subiu e, lá do alto, levantando as mãos para os céus, tomou a palavra.

“Meu povo, minha gente, leões-marinhos e pelicanos, obrigada pela recepção. Estou aqui para iluminar-lhes o destino.”

Leões e pelicanos ouviam pacientemente, divertidos, mas, ao mesmo tempo, curiosamente seduzidos pela oratória.

“Fui escolhida para um solene desígnio. Calotas polares e correntes marinhas, dai- me força para esta missão!”

Nesse instante, a platéia entrou em delírio: os pelicanos cagaram na cabeça dos leões-marinhos, que, por sua vez, urravam com espasmos intestinais incontroláveis.

A foca, lá do alto, acompanhava sorrindo, feliz com o efeito de suas palavras.

Mas o tumulto tomava proporções catastróficas. O transe descambava para uma orgia sem precendentes na história do reino animal. Cenas de sexo improvável, bizarrices, aberrações, uma suruba inter-racial, supra-étnica e transambiental.

A foca, do seu trono de pedra, clamou várias vezes uma chamada à ordem. Ela gritava palavras ameaçadoras, interjeições inflamadas. Todas as técnicas que aprendera no tempo em que vendia sardinha na Groenlândia foram usadas, para tentar acalmar a turba. Sem sucesso.

Só restava uma alternativa: sair de fininho, na maciota, sem chamar a atenção. Foi o que ela fez com muita competência, nadando a grandes braçadas, para longe daquela ilha.

O que aconteceu com a foca não sabemos. Provavelmente encontrou sua turma ou morreu empalada em alguma ilha habitada por iguanas e babuínos de bunda branca, zebras e aranhas caranguejeiras, tamanduás patrióticos e jabutis.

Já a ilha de pelicanos e leões-marinhos nunca mais foi a mesma. De pacata e ordeira, transformou-se num laboratório genético.

Uma foca esperta é mais eficiente que toda a teoria da evolução.

A última dernière de Periquita

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Renata

Lucienne Periquita Rodrigues estava recolhida em seu camarim para mais uma apresentação no teatro real. Era o primeiro dia de outono e chovia. Mesmo assim, a plateia já manifestava ruidosa ansiedade por um espetáculo que havia levantado entusiasmos nos mais maliciosos dos críticos. Colados no espelho, de frente para a diva, recorte de jornais traziam as efusões dos editorialistas.

– Periquita, cinco minutos.

Por todos os lados, corbeilles de frutas atravancavam a sala. Periquita não suportava flores: lembravam-lhe o enterro de Michele, sua pequena caniche atropelada. O cortejo fúnebre saíra da capela do mosteiro de São Francisco, seguido de todo o estoque de flores da capital. Triste cena que deixara Periquita na mais espetacular depressão. Para dobrar suas lamúrias melismáticas, o coro de castrati de Gottenburgo ladeara o desfile que se estendeu noite adentro, vaporizando a cidade de odores sombrios e harmonias sorumbáticas.

– Periquita, três minutos.

As gazetas informaram, então, aos fãs, seus justificados caprichos e nunca mais enviaram flores a seu camarim. Até mesmo o Eleitor de Rhumstefsthmnthus, seu mais apaixonado admirador, renunciara a suas cataratas de orquídeas negras das florestas panamenhas, de que Lucienne tanto gostava antes do trágico acidente. Essas flores tinham a reconhecida propriedade de regenerar células mortas e, quando aplicadas na forma de bálsamo cutâneo à tez diáfana da atriz, retiravam-lhe instantaneamente os resquícios noturnos de suas orgias etílicas e secretas. Quando terminava o espetáculo, ela retornava a seu camarim, seguida de um punhado de amigos. Começava, então, a festa.

– Periquita, dois minutos.

Naquela véspera mesmo, o balanço tinha sido de doze caixas de acquavit devidamente entornadas até o último vapor. Mas sem orquídeas, os desgastes eram cada dia mais visíveis e Pierre, seu maquiador, fora demitido, quando ela percebera que seus ungüentos eram inúteis para esconder a ruga profunda que despencava aceleradamente de ambos os lados de seus lábios. E lá estava a ruga, naquela noite. De frente para o espelho, os olhos languidamente lascivos, o nariz afilado, os longos cachos dourados não disfarçavam o sulco teimoso que lhe trazia de volta a dolorosa  memória de Michele descendo para o fundo da terra, soluço a soluço, palmo a palmo.

– Periquita, um minuto.

Duas pesadas lágrimas deslizaram lentamente pelas bochechas da desconsolada Periquita e enfurnaram-se pela ruga da boca até o queixo. Sem orquídeas negras, sem Michele, Lucienne Periquita Rodrigues definhava.

-    Periquita, vamos?
-    Hoje não, Manuel.
–    Hoje não?
–    Hoje não irei. Nem amanhã, nem nunca mais.
–    Nunca mais.
–    Não. Morri, Manuel, morri.
–    Mas e o povo, a princesa Moniskaia, o embaixador Suarez? Todos a esperam!
–    Diga a eles que morri. Que Lucienne Periquita Rodrigues sumiu, desintegrou-se, afogou-se nas dobras da memória.
–    Minha Luciennezinha, meu amor, venha, por favor.
–    Não posso.
–    Pode sim, meu periquitinho de açúcar mascavo.
–    Mas eu não tenho forças.
–    Tem sim, minha edelweiss do agreste.
–    Estou exangue, acachapada, arrasada.
–    Você está linda, maviosa, viçosa como a sétima estufa da Babilônia.
–    E Michele?
–    Que Michele?
–    Michele, minha Michele querida.
–    O nome dela era Sabrina, Lucienne, Sabrina.
–    Ah sim, Sabrina, a mais formosa de todas as caniches.
–    É uma gata, Lucienne, himalaia.
–    Ah, é mesmo. Sabrina… minha Sabrina querida, onde está você?!
–    Está ali, Lucienne, ali no sofá.
–    É?
–    É. Vamos?
–    Então, só mais hoje.
–    Está bem. Vamos.

Comemoraram, bebendo um cálice de acquavit e foram-se para o espetáculo.

Mais uma vez, e como toda a noite, era a última apresentação de Lucienne Periquita Rodrigues no palco do teatro real, copiosamente ornado de orquídeas negras das florestas panamenhas.

A prazeirosa

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Tá na hora, tá na hora! Os beliches tremeram, os corredores foram invadidos instantaneamente, elevadores lotados, escadarias apinhadas.Quantas pernas habitam um formigueiro?

Pernas botadas disciplinam a saída. Pernas descalças ritmam a evacuação. Não tem chororô. Todo mundo a postos para o trabalho. Vida de formiga é assim mesmo. “Bem unidos façamos, uma terra sem amos.”

Lá fora, o dia já tingia as primeiras sombras no chão. A ordem era de atacar uma roseira desavergonhada, uma roseira petulante no meio do jardim. Ela já estava no ponto, havia alguns dias, mas o manacá tinha dado mais trabalho do que o previsto.

Em fila indiana, a massa pisoteou a terra e enfurnou-se num túnel gramado para chegar ao pé lascivo que dardejava desafiadoramente sua verdura.

Os batedores espalharam-se pelo canteiro. A precaução era de circunstância. O mundo não está fácil, e roseiras gostosas são raras.

Era um trepidar infindável de pernas, acelerado, frenético. Não houve um único intervalo, uma única parada para respirar, bater papo ou fazer xixi.

Quando avistaram o tronco espinhudo da messalina, a soldadesca acelerou o passo. Era preciso chegar logo, começar logo o trabalho. A roseira era frondosa. O dia ia ser curto para dar cabo de tanta luxúria.

O esquadrão abre-alas, composto de formigas acrobáticas, lançou-se na escalada. Era preciso mapear o alvo. Rapidamente os planos de ataque foram traçados, esmiuçados, decorados.

A subida foi finalmente ordenada. Para o alto. Folhas tenras primeiro. Ia ser uma festa, um orgasmo coletivo, uma orgia selvagem.

Mas quando a primeira observadora chegou ao cume da vagabunda, da roseira, um grito foi ouvido. Um grito de desespero. De pavor. Instantaneamente o formigueiro, que já enegrecia o tronco, paralisou de espanto.

Não havia mais uma única folha viva: um demônio obeso, peludo,  uma larva vermelha havia deflorado a roseira oferecida.

Acordar cedo, trabalhar duro de nada ajudou as formigas: retornaram com fome e sem tesão. Já a larva tarada, num arroto vegetal, padeceu de indigestão. E a rosa, a rosa safada, aguardou para dar-se noutra florada.

Eca

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Ninguém acreditaria na hípotese de um hipopótamo passar despercebido no hipódromo. Mas foi uma pândega o pandemônio do paquiderme no derby.

Quando chegou acompanhado de sua gazela, gaguejaram de ver tão garbosa gostosa. Toda a atenção se dirigia para a fofa, e até a foca saiu de foco. Ninguém reparou na corpulência desajeitada do Jaba jocoso e muito menos no disfarce sem arte do traste. Nem as garças e os gaviões do gargarejo gozaram do gordo sem graça.

O anfíbio foi à fileira dos filantropos – a fina flor – com festivas firulas. Sentou-se sem cerimônia, sacou a cigarreira, sem sequer socar seu simiesco vizinho. Todos assistiram ao turfe, e até a tonta tartaruga torcia tensa. O hipopótamo posava de potentado e não pertubava a turba.

Mas o coitado, deu uma mancada na arquibancada, quando de suas ancas despencaram quilos de cocô. No início, nem a hiena notou, mas ele foi finalmente flagrado por um famigerado flamingo que fomentou uma fuga fenomenal.

Triste sina do hipopótamo. Com o rabo ele arremessa meleca quando defeca.

Em nome do pai

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Zé da Conceição era um cabra muito perigoso. Dizem que com vinte e três anos ele já havia roubado, surrado e quase matado vários pacíficos cidadãos. Numa vacilada etílica, prederam o desinfeliz, que foi sumariamente condenado a passar o restante dos seus dias no presídio de segurança máxima localizado numa ilha no meio do oceano. E lá se foi o Zé pagar sua pena.

Mal chegou, Zé virou Caneca Amassada, alcunha dada pelo carcereiro-chefe do campo, Sargento Mané Filó, que tratou de achatar-lhe o nariz logo de cara. Era assim que Mané batizava seus condenados, tirando-lhes sua antiga identidade e geralmente um naco do nariz, dedo, orelha ou, em casos de excesso de homônimos, partes mais sensíveis: “Bandido não tem direito a nome, só a apelido”.

Caneca Amassada ambientou-se facilmente, travando amizade com seus colegas de cela: Fingerless, o marujo inglês; Bule Sem Alça, o professor tarado; e Desbagado, o poderoso cafetão da capital.

A vida não era nada fácil no presídio. Mabuia assada e ensopado de mocó não enchem barriga. Mas Caneca não era de se deixar abater e, quando carregava as pedras de arrimo do dique do porto, ele olhava para o mar, que se estendia para todos os lados, e cantarolava: “Vento e maré / não sou Mané / Aqui só quico / Aqui não fico.”

E foi, então, que Caneca Amassada preparou sua fuga. O plano era simples e fora elaborado com Fingerless, que cuidaria dos detalhes da navegação; Bule, da comida; Desbagado, do disfarce. A jangada levou um ano inteiro para ser construída e tinha sido escondida sob as pedras de uma escarpa acidentada da ilha. A comida, cuidadosamente surrupiada da parca ração diária, e o disfarce, bem, não havia nenhum, já que Desbagado não era homem de se disfarçar.

Num dia de calor sufocante, enquanto o regimento de soldados baseado na ilha roncava à sombra das gameleiras e que Mané Filó desaguava na casinha, Fingerless, Bule e Desbagado correram para a jangada, mas, quando lá chegaram, só conseguiram avistar uma vela tremelicando ao longe, no mar: Caneca fugira com a noiva do padre da ilha, Maria Camita, deixando seus comparsas praguejando e jurando vingança.

Passaram-se muitos e muitos anos. Fingerless morreu de febre, Bule, de diarréia e Desbagado continua lá na ilha, plantando macaxeira e contando história aos forasteiros que visitam o lugar.

Caneca Amassada, quanto a ele, se deu bem na vida. Casou-se com a noiva do padre e virou lanterneiro na capital.

Quando o Sargento Filó se aposentou, ele voltou ao continente, virou capelão da igreja e desfiou os anos que lhe restaram com muita cachaça, badalo de sino e até batismo:

– Bom dia.
– Bom dia, qual é o assunto? Casamento? Missa? Quermesse? Bastismo?
– Batismo.
– Nome do pai?
– José.
– Mãe?
– Maria.
– Nome do rebento?
– Caneca Amassada Filho

Flashback

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Qual não foi a supresa de Mireille, quando ela chegou em casa aquela noite: uma bandeira roxa ocupava o meio da sala. O que poderia ser aquilo? Mireille ficou alguns minutos em pé, de frente para a instalação, sem entender nada e conjecturando sobre as diferentes hipóteses, tentando encontrar alguma coerente, em vão. Para fixar o mastro todo enfeitado por fitas coloridas, o vaso de dracena havia sido deslocado. A bandeira era de um tecido estranho, todo bordado mas roxo, só roxo. Mireille se aproximou e percebeu, então, um pequeno bilhete embaixo de um seixo de rio, delicadamente pousado na borda do vaso. Mais uma estranheza: uma mensagem. A garota desdobrou o papel e leu:

“Boa noite, Mireille. Você demorou hoje, não? Não faz mal. Estou esperando você no quarto. Até já, Mimi.”

Mimi! Mimi era seu apelido de criança, mas ninguém mais a chamava assim. O que fazer agora? O que significava aquilo? Sair correndo, chamar o Heraldo, o vizinho lutador de boxe, a polícia? Não adiantava nada: tinha alguém em casa e era necessário enfrentar.

Silenciosamente, Mireille dirigiu-se ao quarto, respirando com dificuldade e controlando o nervoso. Caminhando pelo corredor, ela percebeu umas pequenas gotas amarelas derramadas com certa simetria ao longo do assoalho. Quando chegou no meio do trajeto, uma mancha maior, feita com o mesmo líquido, formava uma serpentina. Como se alguém tivesse espalhado o líquido no chão e brincado com o dedo formando o desenho. Numa das pontas, uma seta indicava o final do corredor e, dali em diante, as gotas se interrompiam.

O coração de Mireille batia fortemente no seu peito. Ela continuou a caminhar e entrou no banheiro, um instante, para pensar melhor antes de encarar o intruso. Pequenos frascos de vidro ocupavam a grande bancada de mármore da pia. A garota quase gritou, tamanha foi a surpresa. Que bagunça era aquela? Luzia, a empregada de tantos anos, sabia que Mireille era metódica e organizada. Como deixara tudo daquele jeito? Mas observando com mais cuidado, Mireille percebeu que não eram seus. Aqueles pequenos vidros eram estranhos. De diferentes formas, continham pequenas contas de vários tamanhos, alguns cheios, outros quase vazios. Numa das prateleiras incrivelmente desordenadas, também tinha outro bilhete, que dizia:

“Mimi, me ajuda, por favor. Não perca tanto tempo. Vem logo.”

Mireille estremeceu novamente, respirou fundo, abriu a porta do banheiro armada de um spray de gel para a barba que Fábio, seu antigo namorado, havia esquecido, e caminhou rapidamente para o quarto, sem se preocupar
com mais nada.

Com o coração na boca e os músculos tesos, ela abriu a porta do quarto. E lá estava. Lá estava ele. Deitado na cama, ligeiramente elevado pelos quatro travesseiros de Mireille, um balofo urso de pelúcia esperava, bebendo suco de laranja e enfiando pérolas coloridas em um cordão que dava várias voltas em seu pescoço.

Quando Mireille entou no quarto, ele levantou a cabeça, sorriu e disse:

“Mimi, me ajuda a voltar? Quero voltar pro Butão.”

Foi assim que Mireille, aliás Mimi, viajou para além da Conchinchina, para os confins do Himalaia, levar Butô, seu urso de pelúcia, para casa.

Função erétil

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Eram quarenta corajosos varões. O destino estava traçado e, aconchegados uns contra os outros numa embaraçosa promiscuidade, eles aguardavam ansiosos. A qualquer momento eles seriam chamados para desligarem-se do grupo e, contando tão-somente com seus dotes físicos, entrariam em ação.

Eles haviam sido educados com disciplina e, graças ao extraordinário gênio de sua formação industrial, suas qualidades diferenciadoras haviam sido castradas. Um impressionante processo de padronização havia criado quarenta seres idênticos, com o mesmo tamanho, a mesma compleição e o mesmo talento. Um único talento primordial, viril: o coito seguido de fecundação.

Doutos cientistas haviam estudado por anos a fio o processo de simplificação genética das cracas machas. Aqueles seres primitivos haviam, ao longo de um processo de seleção exaustivo, atrofiado seus órgãos desnecessários, privilegiando tão-somente o membro masculino que se projetava em estado de priapismo perpétuo.

Usando como referência biológica esses extraordinários seres, os pesquisadores buscaram as condições ideais para reproduzir em laboratório indivíduos capazes de se igualar a eles em eficiência. Até mesmo da longíqua Terra do Meio, recursos raros e revolucionários foram incorporados à pesquisa, resultando em incrementos consideráveis de poder de ereção e fogo.

Cracas no entanto são sujas e com padrões de saúde inadequados. Em função da utilização freqüente do órgão reprodutor, elas são sensíveis a toda sorte de doenças venéreas, sem falar de uma grande tendência para desenvolver fimose. E nesse caso, sua eficiência é extremamente prejudicada. Por isso, médicos e cirurgiões procruraram uma solução adequada, e foi entre os hebreus que eles resolveram o problema, aprendendo com eles a técnica da circuncisão precoce.

Foi assim que, após um longo processo de estudos e experimentação, os quarenta varões nasceram. Quarenta valentões “pintus erectus” de primeira geração.

Mas algo deu errado na pesquisa e nos testes. Até hoje não se chegou a nenhuma conclusão sobre os motivos de tão desagradável problema. Acontece que os varões, embora bem-dotados, muito asseados, com energia sexual tântrica e alto poder de fogo, eram incapazes de ejacular mais de uma vez. Pior, eles viraravam inférteis depois da primeira e única cópula que eram capazes de executar.

Anualmente um colóquio internacional tenta esclarecer a embaraçosa questão: por que é que um fósforo só acende uma vez?

Filó do céu

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Quando jovem, Filó passava noites inteiras escarafunchando o céu, e isso desde o dia em que ganhou sua primeira luneta. O mesmo ritual se repetia desde os doze anos de idade. Hoje, ele trabalha no Observatório Nacional da Ucrânia e fez do seu maior prazer uma profissão. É um grande especialista. Ele nunca estudou astronomia, nem física, nem coisa alguma. Fala pouco também, somente o essencial para continuar vivendo e deschaveando o céu. Todos o respeitam muito, por sua dedicação e incomparável capacidade de permanecer horas a fio com o olho vidrado no céu. Ninguém sabe ao certo sua idade, mas supõe-se que ele seja bastante idoso. Os anos, porém, não prejudicaram em nada sua tenacidade. O que se sabe de sua biografia é apenas que ele nasceu numa pequena vila de pescadores chamada Tamandaré, no Nordeste do Brasil e que, ainda jovem, embarcou num navio de carga que o fez aportar na Europa meses depois. Como foi parar na Ucrânia é um mistério mas ele rapidamente passou a ocupar o posto de observador-adjunto do Instituto de Astronomia.

A única função de Filó era de olhar, olhar, olhar e, quando chegava o fim de seu turno, limpava o telescópio e varria o observatório. Só isso. Ninguém discutia muito sua utilidade. Era assim fazia tantos anos que seu posto não precisava mais de justificativa alguma: Filó era olheiro e faxineiro.

Mas o que Filó tanto olhava no céu? As estrelas, é claro. Sim, as estrelas, mas para por que, para quê? Quando indagado sobre essas questões, ele invariavelmente respondia “Para elas não se sentirem sós e se apagarem de tristeza”. Filó não era poeta, não se enganem. Ele ouvira isso uma vez no corredor do observatório e achara que a frase era suficiente para justificar sua presença, seu ofício, sua vida.

Duas vezes apenas, na longa carreira de Filó, sua contribuição profissional fora notada. A primeira quando percebera no céu uma perturbação que provocara grandes tumultos no mundo científico. Todos entraram em alvoroço, porque Filó descobrira uma provável nova constelação “Ali, ali, ali em cima”, como dizia o faxineiro.

A segunda contribuição se deu no mesmo dia, pouco depois da primeira, quando ele encontrou uma aranha xereta que tecera um ninho na pontinha do telescópio, “Ali, ali, ali em cima”.

Um dia, Filó se aposentou. Ele se retirou do mundo científico e nunca mais freqüentou o observatório. Nunca mais também olhou para o céu, por causa de seu reumatismo que o impedia de levantar o pescoço.

Ele voltou para Tamandaré, sua aldeia natal, e passava os dias remendando redes de pesca. Ninguém era melhor do que ele nisso, e os pescadores locais ficaram felizes.

Nunca mais deixaram escapar peixe algum, por menor que fosse; um camarão sequer, mesmo o mais rastejante; nem a mais escorregadia das lulas.

Nunca mais deixaram escapar a mais solitária e triste das estrelas do mar.

Fedeu

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Edu

Primeiro foi uma ventania, forte. Os sopros vinham pela direita, pela esquerda, de cima para baixo, de baixo para cima. Um céu asmático castigava o jardim. As árvores em transe bailavam em cima do telhado. Depois veio a chuva, suicidando as nuvens lá no alto. Pingos apressados rebolavam nas folhas mais altas e despencavam caóticos no gramado. E quando tudo estava molhado e bagunçado, um enorme estrondo rasgou o espaço.

Corri para o terraço e lá estava: no meio da noite escura, de ponta a ponta, uma fenda arreganhava as tripas do céu.

Logo a chuva parou de cair e o vento sossegou. De frente para mim, do rasgão que se extendia até onde a vista alcança, uma luz amarelada transpirava para fora. Um cheiro acre enchia a atmosfera.

No início eu não enxerguei direito. Só percebia formas se movimentando através da fresta. Mas aos poucos minha vista se firmou e consegui distinguir o interior do buraco. Eram tubos sanfonados de todos os calibres que se entrelaçavam sem ordem. Os maiores pulsavam como um aspirador em grande atividade.

Eu estava um pouco assustado, mas respirei fundo e caminhei em direção à abertura que tocava o chão. À medida que me aproximava, o rumor abafado que ouvia transformou-se em uma pequena voz borbulhante. Era impossível ainda distinguir se era humana. Cheguei mais perto e encostei o ouvido numa das mangueiras. Tinha uma pessoa lá dentro.

- Hey, quem está aí?
- Vai buscar a fita isolante, rápido!
- Como assim?
- A fita isolante, esta vazando, corre!

Me afastei um pouco e percebi que de fato, um caldo viscoso escorria ao longo da tubulação.

- Quem é você?
- Não é hora para fazer perguntas, maluco, vá buscar o que pedi!

Não discuti muito e apesar de achar a idéia estranha, corri para a garagem apanhar meu kit de encanador. Voltei ofegante e comecei rapidamente a envolver o tubo com a fita.

- Isso, bom trabalho.
- Obrigado.
- Você quem é? O que está fazendo aí?
- Ué, estou na minha casa. Mas eu é que pergunto! Quem é você?
- Espera um pouco.

Eu não havia percebido uma pequena escotilha parafusada em uma das saliências. Ela se abriu para dentro. Um olho azul apareceu por detrás, e a portinha se fechou rapidamente.

- Alô? Você ainda está aí?
- Estou sim, mas quem é você? Que lugar é esse?
- Eu sou o Marcos, aqui é a minha casa.
- Sua casa? Como assim sua casa?
- Minha casa, ora. Moro aqui.
- Mas espera um pouco. O que está acontecendo aqui?
- E eu sei? Esse rasgão abriu-se no céu e pronto.
- Rasgão? Que rasgão? Rasgão no céu, Meu Deus!
- Chamou?

De susto, cai de bunda no chão e fiquei ouvindo o diálogo que se seguiu.

- Meu Deus, acho que temos problemas com a película isolante da camada terráquea.
- Interessante.
- Um vivo flagrou o incidente, Senhor.
- É?
- Sim, e agora o que fazemos?
- Sei lá, decide você. Eu estou com preguiça e não me chame mais no meio do jantar. Adeus, digo, Amim.

Nesse momento, a escotilha abriu-se novamente.

- Vivo, você sabe o que aconteceu aqui?
- Não faço a menor idéia.
- Quer saber?
- Quero.
- Mas promete uma coisa.
- Pode falar.
- Você não conta para ninguém.
- Tá bom, o que foi?
- Hoje era dia de festa aqui.
- Aqui aonde?
- Aqui no céu, caramba, mas você é burro mesmo. Não percebeu que eu estou no céu?
- Quer dizer, percebi sim.
- Não entendeu que eu morri?
- Morreu?
- Bom, deixa para lá.
- Mas o que aconteceu?
- Pois então. Esse buraco no céu é inédito, não me lembro que tenha acontecido antes.
- Mas e agora?
- Agora nada, vamos dar um jeito nisso, não se preocupe, não vai ser fácil mas já já a gente conserta.
- Tá bom. Quer ajuda?
- Não obrigado. Você já fez o que pode.
- Mas como isso aconteceu?
- Isso o quê?
- Esse rasgão?
- Ah, o rasgão.
- Isso. Conta.
- Você promete não contar para ninguém?
- Prometo, já falei.
- Jura por ele?
- Ele quem?
- Ele, ora!
- Tá bom, juro. Por Deus.
- Aproxima o ouvido que eu não quero que ele ouça.
- Pronto, pode falar.
- Então. Ele peidou.
- Quem?
- Deus, Deus peidou e rasgou as calças do céu.
- Acontece.

Boniteza no sertão

29/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Caetés de Tupinaré foi caçar jagunços no sertão.

Chapéu de couro à flor do crânio, lenço vermelho no pescoço e machadinha na cintura. O dândi do agreste flutua na estrada, entoando cânticos em louvor a seu santinho de devoção.

Calor dos infernos, sol arretado, o homem não perde a pose. Na vila, há quem diga que o galã vai acabar nas colunas sociais da capital. Caetés aprova o fuxico.

A tropa ficou dormindo, e ele foi sozinho. Não tem problema. Parece que só falta matar um cabra que se atocaiou na fazendinha. Depois, quem ganha as honras de toda a operação é ele.

Vai pensando na cerimônia de entrega de medalha no palácio do governador. Caminha pelo corredor da sala de gala, acena e sorri para a povo, estufa o peito. A glória.

Caetés está nas gazetas, pousando ao lado das autoridades: “Herói do agreste”. Vai ter gente assim querendo beijar-lhe a mão, acariciar seus ombros valentes.

O povo vai se morder de inveja. Dizem por aí que o homem é flosô e que entrou no exército para disfarçar. Só porque é bonitão e piedoso. Caeteés não liga: vai ter muita medalha para lavar a reputação.

Depois ele vai virar secretário da segurança, vai ter capanga protegendo sua casa e tudo. Onde andará, será respeitado: “Bom dia Coronel, como vai Vossa Excelência?”

Até a Judite vai olhar para ele e tremelicar de emoção. O casório vai ser na Sé, a fina flor da república, sorrindo e celebrando. Ele vai viajar depois, com Judite toda ancha e feliz da vida.

Vai usar um anelzão de doutor no dedo mindinho. Vermelho e com uns desenhos inventados. Vai pegar pai e mãe e levar para a capital. Dar posição para os irmãos, os sobrinhos, a primalhada toda.

E depois de velho, a casa ficará cheia de gente, bajuladores, enteados, afilhados, filhos, netos, bisnetos até, comendo bacalhau e caviar até arrotar.

Era só mandar aquele jagunço pedir bênção ao capeta.

Até que foi fácil. Quando Caetés chegou na fazendinha, o desinfeliz estava tão magro e tão fraco que nem reagiu. Pedindo pelo amor de Deus, ajoelhou-se aos pés do general. Até chorou.

O comendador, magnânimo e solene, concedeu misericórdia ao coitado, que fugiu dali e contou pra todo mundo que Caetés era um frouxo.

Caetés de Tupinaré virou carcereiro na cadeia da capital, não casou com Judite, nem nunca comeu bacalhau com caviar. Mas jamais perdeu a boniteza, nem o lencinho amarrado no pescoço.

Evaporação

25/05/2003 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

E se um dia todas as terras queimassem? E se um dia todos os mares secassem? E se um dia todos os céus escurecessem?

Era longo o caminho até a vila e ele tinha tempo para pensar e observar os tufos de verdura no meio do pasto, o corrimão de arame farpado, as nuvens rasgando o céu.

No centro da estrada, uma água barrenta escorria por entre os gravetos e pedregulhos. A chuva tinha caído selvagem logo cedo: um solavanco no céu, uma rajada de vento, e os baldes d´água despencaram. A terra regurgitou os excessos, cuspiu lama morro abaixo e transbordou as valas, até espalhar-se pela superfície impermeável do caminho. Desceu desordenadamente para talhar um sulco raso na terra.

Quando o céu sacudiu suas últimas lágrimas, o sol atravessou as cortinas d´água que respeitosamente secaram. A água continuou seu curso até os pés do menino, a caminho da vila.

Ele pensou na água que fugia e naquela que se infiltrava na terra.

A primeira encontraria o riacho da ponte que, por sua vez, terminaria no rio negro, até correr com pressa para o mar que lambe todas as terras do Mundo.

A segunda se dividiria em infinitas gotas minúsculas, as quais, ao penetrar na terra, se agarrariam às raízes profundas que as sugariam para o alto, até ressurgirem dependuradas nas folhas do pasto, como pérolas frágeis de orvalho.

Ele pensou no céu que, histérico, desaguou naquela manhã. Nas nuvens que descabelavam o céu. No pasto verde que se estendia inabalável por entre os penachos de verdura.

Era assim desde sempre. Desde sempre, a água caía do céu, saciava o pasto, que suava ela de novo pelas folhas. Desde sempre, a água escorregava pela terra até confundir-se no mar.

Mas como havia tanta água no céu? E o mar por que não entornava, e o pasto por que não enjoava?

Tinha um mistério. O mistério da água do céu. Era bom saber que ele existia.

Porque, se um dia as terras estorricarem de calor, os mares secarem e o céu não mais brilhar; se um dia não tiver mais água para esborrotar do céu, vai ser longo demais o caminho para a vila.

Propaganda: o trato democrático

16/05/2003 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Muito se fala sobre os desvios “maléficos” da propaganda. Alguns lançam mão de argumentos demagógicos; outros, nem tanto. Mas quaisquer que sejam eles, a simples evocação do tema desperta acaloradas discussões que terminam sempre soçobrando nos poderes públicos e nas instituições representativas da sociedade.

A equação é sempre, na base, muito simples e – por que não dizer? – simplista. Se a propaganda tem por missão informar, estimular e despertar o consumo, ela é maléfica, quando este consumo pode ter conseqüências no comportamento das pessoas.

Portanto, propaganda de mamadeira é ruim, porque estimula o consumo deste produto que pode prejudicar a amamentação materna. A propaganda de bebida alcoólica é ruim, porque estimula o consumo deste produto que, por uma associação aparentemente estatística, impulsiona a violência. A propaganda de cigarro é ruim, porque estimula o consumo deste produto que, por um argumento falacioso, onera os gastos públicos com saúde.

Esses são alguns dos argumentos. Mas existem muitos outros. O caso é que a bola-de-neve cresce com tamanha velocidade, que em pouco tempo ouviremos dizer que propaganda de carro é ruim, porque provoca acidentes de trânsito; propaganda de sabonete é ruim para a pele; propaganda de camisinha é ruim, porque desestimula o investimento em pesquisa de cura de doenças sexualmente transmissíveis. Propaganda de livro é ruim para a vista; de aparelhos de som, para os ouvidos; de esteiras ergométricas, para os joelhos.

Mas, cinismos à parte, pouco importam os argumentos, porque eles sempre haverão de pressupor uma determinada visão da missão do Estado e dos órgãos que representam a sociedade. Nesse caso, a discussão fica para os juristas.

A questão que ora queremos levantar não é – nem nunca foi – o papel do Estado em discutir e regulamentar essas questões. O que interessa aqui é refletir sobre as proibições de propaganda que estão na pauta do dia. Associar a propaganda à violência, no caso da bebida alcoólica, por exemplo, é perigoso e errado. Existem outras formas muito mais eficientes de se quebrar a cadeia “bebida alcoólica X violência”. O Ministro da Secretaria de Direitos Humanos Nilmário Miranda deu a letra em uma recente entrevista: “Na periferia, o grande lazer é o boteco, a cachaça, onde a maioria das mortes ocorre de sexta-feira à noite a domingo à tarde. Juntando cachaça com armas e a falta de opção e lazer e outras atividades comunitárias, por exemplo, tem-se a receita da violência. Diadema, em São Paulo, tinha um dos maiores índices de morte por 100 mil habitantes do mundo. Bastou uma lei seca fechando os botecos à meia-noite de sexta a domingo e o número de mortes caiu pela metade.” (Revista IstoÉ nº 1754, de 14/05/03)

O que muitos esquecem ou não sabem, no entanto, é que a propaganda é, para todos os efeitos, uma espécie de “trato democrático”. Assim como numa democracia existem três poderes instituídos e devidamente independentes, podemos dizer que existem dois outros “poderes” não menos fortes e democráticos. Falo evidentemente da Imprensa e do Poder Econômico.

Desde que o sistema capitalista amadureceu e se consolidou como a única alternativa prática para a sustentação de um regime democrático, uma espécie de “trato democrático” estabeleceu-se entre eles. Cabe à imprensa informar e cabe ao poder econômico gerar riqueza. E entre os dois, o trato foi o seguinte: “Fique na sua, que fico na minha”. Mas como fazer para que um não interfira no outro? Como resolver a enorme tentação que consiste em o poder econômico influenciar a imprensa ou, melhor dizendo, a imprensa trabalhar a serviço do poder econômico?

O trato se chama “propaganda” e funciona através de uma separação tácita, clara e transparente entre os dois “conteúdos”. Uma separação entre o que chamamos de “conteúdo jornalístico” e o “conteúdo publicitário”. Para ser mais simples, chamemos essa separação de “plim-plim”. Quando o “plim-plim” entra, o público sabe que, daí para frente, ele é consumidor. Quando o “plim-plim” encerra o bloco, o público sabe que, daí para frente, ele é telespectador. Ou será que alguém ainda tem dúvidas de que as pessoas, todas elas, das mais simples às mais sofisticadas, sabem que existe essa diferença?

Mas para azeitar ainda mais a mecânica, o “trato” vai mais longe. A imprensa é tanto mais independente quanto maior for a sua capacidade financeira de sê-lo. E quem financia essa independência? A propaganda, claro. Assim, o poder econômico paga a imprensa para, separando seus conteúdos, veicular os seus, em meio aos dela.

Isso para não falar que esses dois poderes se dão tão bem, que eles ainda inventaram um “Código de Auto-Regulamentação”, que coroa essa relação de convivência pacífica e independente. O CONAR é constitúido por representantes dos órgaos de comunicação, dos anunciantes e das agências de propaganda e delibera sobre qualquer denúnica, de qualquer natureza e enviada por qualquer pessoa ou instituição que se considere lesada por um conteúdo publicitário. As decisões do CONAR são inapeláveis e de uma competência ímpar. O conteúdo publicitário julgado inapropriado pelo CONAR é imediatamente retirado do ar.

É inacreditável como isso funciona. Tomara Deus que o poder público tivesse a velocidade e a eficiência do Conar. Tomara que ainda funcione por muito tempo. Tomara que o poder público democraticamente constituído olhe um pouco para o que já existe e funciona em vez de querer interferir sem sugerir alternativas. Tomara que eles reflitam antes sobre as conseqüências correlatas e graves que uma interferência excessivamente “reguladora” pode trazer.

Caso contrário, existem alternativas, claro.

Existe a alternativa de o público pagar pela informação, ou a de o Estado financiar os veículos de comunicação. Mas também podemos imaginar uma sociedade sem consumo. Uma sociedade comunitária. Uma comunidade de silvícolas auto-suficientes.

Tudo é possível.

É possível que nossos doutos representantes resolvam interferir numa azeitada relação que está no cerne mesmo da nossa sociedade capitalista e democrática.