Monthly Archives: July 2003

Começou pelos dentes

Caíram todos os dentes. Todos meus dentes caíram. Uns depois dos outros. E quanto mais eu passeava a língua na boca, mais cacos desprendiam-se. O que irá sobrar depois? Vou ao dentista e ele me põe uma bela dentadura, linda e perfeita. Sorriso de piano, quero um sorriso de piano. Vou gostar de sorrir, agora que terei essa nova janela, toda branca. Mas estou sentindo uma coisa estranha, a minha boca como que paralisada, deformada. Não consigo mais fechá-la. Olho-me no espelho e assusto-me com o reflexo prognata.

Sorrio com a deformação e lá estão os dentes. Mas eles não tinham caído? Caíram ou não caíram?

Irei ao dentista consertar isso. Ele deve ter uma explicação. O que me incomoda agora não é a falta de dentes, já que ainda tenho dentes, mas essa boca que não fecha.

Abro a boca novamente de frente para o espelho. Ela abre mais que de costume. Coloco as mãos nos maxilares para ajudar na operação. Me parece haver mais dentes do que de costume. Fileiras de dentes. Grandes na frente, pequenos e pontudos atrás. Ameaçadores e terrivelmente afiados.

Agora mal consigo fechar a boca. Apóio uma mão no queixo, outra em cima da cabeça. Fechou. Mas sobram dentes sorrindo por cima dos lábios. Meu nariz alongou-se perigosamente para além da vista. A pele também mudou de cor, acinzentou-se. Meus olhos recuaram para trás das orelhas. Orelhas? Que orelhas? Não há mais orelhas. Nem cabelos. Sumiram. Em seu lugar, um couro liso que se estende atrás do que foi um pescoço.

Por debaixo das bochechas esvaziadas, perfurações paralelas. Tento enfiar a mão nelas. Mas onde estão elas? Sumiram.

Sinto uma pequena dor nas costas, atrás do pescoço. Uma espinha, deve ser uma espinha. Viro de lado. É uma ponta escura a perfurar-me a coluna. Observo no espelho. Cresce muito rápido.

Sinto muita sede. Abro a torneira da pia com o focinho.

Sinto muita fome. Como as pernas que se desprederam de meu antigo corpo.

Um dia acordei tubarão. Com barbatana e dentes terríveis.

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Algaroba

Um calor danado, o sol se pondo no horizinte duro, uma sanfona alegre batendo o pé na terra batida, três cabras recolhendo-se. Mais um dia seco deitava-se no sertão.

Algaroba sofria calada. Seus delicados membros eram teimosia que só. A última guerreira carregava em seu verde persistente a derradeira esperança da seca.

A noite silenciosa recolheu os homens para suas taperas caiadas e a árvore ficou só, mastigando a poeira da estrada.

Mais um dia e ela daria os derradeiros sinais de sua resistência. Mais um dia olhando as nuvens estéreis do céu, para ela desistir.

Mas ainda lhe restava uma noite de luta. Algaroba respirou fundo a aridez do vento, esgueirou as raízes no cascalho estorricado, recolheu as folhas em prece ardente.

A noite inteira ela ofereceu-se em sacrifício ao clima.

Quando o dia despontou no fio de terra que separa o sertão do abandono, a árvore levantou uma última vez sua cantiga triste. Algaroba implorou mais uma vez.

Uma lágrima, uma única gota de dor desceu devagar pelo tronco de Algaroba, serpenteando seu caminho até o chão teso.

A terra sedenta aspirou, e algaroba renasceu. Mais uma vez.

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Detalhes nus

Ele adorava observar. Imóvel, na posição de espreita mascarada, seus olhos tamborilavam sob as pálpebras, degustando os menores tremores, os brilhos mais sutis, as inflexões traidoras.

O gozo disfarçado da observação era então analisado, colocado em perspectiva, metaforizado.

A cena daquele dia era sutil. Um homem e uma mulher, frente a frente, em pé, na rua.

A mão dele, levantada com os dedos duros arqueados em paralelo, era meia prece, um pedido de trégua; as pupilas brilhantes, ardiam de um fogo envergonhado; a articulação travada, monossilábica, o sibilante murmúrio eram para ousar sem saber dizer.

O homem gostava daquela mulher.

Ela entendia que a mão levantada era um adeus breve, displicente, que os olhos chamejantes eram um ódio incômodo, os lábios travados, uma dispensa impaciente e apressada.

Ele ainda ensaiou um passo para frente, um sorriso nervoso, uma breve palavra. “Mas…”. Ela assustou-se com a aproximação, o sorriso deu lhe náuseas, a conjunção ficou na sustentação e caiu no vazio.

O homem deu as costas à mulher e caminhou pela rua, ombros curvos, andar mole, chorando. Ela saiu em disparada e refugiou-se no carro.

Ela não entendia aquele homem. Talvez gostasse.

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Endless

E no final, era sempre a surpresa, um fato que havíamos esquecido de acompanhar ou simplesmente a narrativa bifurcava para outra realidade, diferente daquela que estávamos construindo.

As histórias são como um bolo enfeitado com cerejas. O bolo pode ser de creme, de marzipã, de doce de leite, mas, na hora do arremate, é sempre a mesma coisa: o costume ou a fantasia. Cerejas, flores ou arabescos confeitados.

Por isso, eu sempre lia primeiro o final e depois o recheio. Ou comia antes a cereja e largava o bolo.

É um truque de estilo. Afinal de contas, para que recheio se o gostoso, o diferente, o gesto genial fica para as últimas linhas? Para que o esforço?

É uma impostura de autor. Não é honesto nem franco contar uma história quando se sabe o final. É um golpe baixo dar água na boa e na hora do fastio, oferecer um delicioso final.

Eu sempre lia o final porque não era justo o que faziam conosco.

Minha avó era mais radical e sempre terminava suas histórias da mesma forma: “Entrou por uma perna de pinto, saiu pela de um pato, seu rei mandou dizer que contasse quatro”.

Eu detestava esse final porque era invariável, coringa e incompreensível. Ela contava aquela velhas histórias, completamente inventadas, sem pé nem cabeça, e eu recitava sozinho o incontornável clímax.

Mas, afinal, por que queremos um final para as histórias? Para que serve uma cereja encastelada num bolo?

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Diferenças à parte

Partindo do pressuposto de que os seres vivos são diferentes entre si, podemos afirmar categoricamente que cães são humanos e que o fato de serem peludos e latirem em vez de falarem está longe de ser uma característica digna dessa diferença. O mesmo podemos dizer quando falamos de gatos, periquitos, jacarés, girafas, ciprestes e bolas de gude.

Contrariamente, partindo da constatação empírica de que os cães são também diferentes entre si, podemos jurar de pés juntos que todos são iguais e que o fato de alguns serem mais peludos que os outros e latirem mais ou menos histericamente está longe de ser uma particularidade que negue a sua semelhança. O mesmo podemos dizer, quando observamos tartarugas, cobras, panelas, rios, nuvens e formigas.

Todos nós conhecemos cães menos peludos que alguns humanos e humanos mais barulhentos que alguns cães. Também encontramos muitos gatos mais sensuais, periquitos mais gozados, jacarés mais sorridentes, girafas mais curiosas, ciprestes mais nobres e bolas de gude mais perfeitas que humanos. De onde se conclui que cães são muitas vez mais humanos que os humanos.

Também podemos afirmar peremptoriamente que existe menos diferença entre um buldogue e um lulu da tasmânia do que entre um pigmeu e um sueco. Menos diferença entre uma tartaruga de rio e uma marítima, entre as cobras, as panelas, os rios, as nuvens e as formigas do que entre aqueles humanos que têm cócegas e os que não as têm, os que sorriem de manhã e os que choram, os que só mordem e os que gostam de ser mordidos, os que se depilam e os que usam xampu, de tão peludos.

O raciocínio é complexo. Humanos são diferentes de outros humanos, e os outros seres, animados, inanimados e desanimados são humanos mais humanos que os humanos que não são todos propriamente humanos.

Portanto, se só há humanos na natureza, apesar de suas diferenças, não existe motivo para continuarmos considerando que há humanos e não humanos.

Diferenças e semelhanças são coisas difíceis de estabelecer. Até essas que pareciam tão simples.

Mas só existe uma realmente inegável e inquestionável possibilidade de classificação dos seres vivos: há seres peludos e seres não peludos, seres que latem e serem que não latem. E viva a diferença.

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