Diferenças à parte

Partindo do pressuposto de que os seres vivos são diferentes entre si, podemos afirmar categoricamente que cães são humanos e que o fato de serem peludos e latirem em vez de falarem está longe de ser uma característica digna dessa diferença. O mesmo podemos dizer quando falamos de gatos, periquitos, jacarés, girafas, ciprestes e bolas de gude.

Contrariamente, partindo da constatação empírica de que os cães são também diferentes entre si, podemos jurar de pés juntos que todos são iguais e que o fato de alguns serem mais peludos que os outros e latirem mais ou menos histericamente está longe de ser uma particularidade que negue a sua semelhança. O mesmo podemos dizer, quando observamos tartarugas, cobras, panelas, rios, nuvens e formigas.

Todos nós conhecemos cães menos peludos que alguns humanos e humanos mais barulhentos que alguns cães. Também encontramos muitos gatos mais sensuais, periquitos mais gozados, jacarés mais sorridentes, girafas mais curiosas, ciprestes mais nobres e bolas de gude mais perfeitas que humanos. De onde se conclui que cães são muitas vez mais humanos que os humanos.

Também podemos afirmar peremptoriamente que existe menos diferença entre um buldogue e um lulu da tasmânia do que entre um pigmeu e um sueco. Menos diferença entre uma tartaruga de rio e uma marítima, entre as cobras, as panelas, os rios, as nuvens e as formigas do que entre aqueles humanos que têm cócegas e os que não as têm, os que sorriem de manhã e os que choram, os que só mordem e os que gostam de ser mordidos, os que se depilam e os que usam xampu, de tão peludos.

O raciocínio é complexo. Humanos são diferentes de outros humanos, e os outros seres, animados, inanimados e desanimados são humanos mais humanos que os humanos que não são todos propriamente humanos.

Portanto, se só há humanos na natureza, apesar de suas diferenças, não existe motivo para continuarmos considerando que há humanos e não humanos.

Diferenças e semelhanças são coisas difíceis de estabelecer. Até essas que pareciam tão simples.

Mas só existe uma realmente inegável e inquestionável possibilidade de classificação dos seres vivos: há seres peludos e seres não peludos, seres que latem e serem que não latem. E viva a diferença.

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