Nem dava enjôo de fazer mas mesmo assim não passava o tempo. Isso era antes. Antes, quando a gente acordava e não gostava de dormir porque não sabia para que serve. E já fazia os planos do dia. Primeiro tinha que ir lá ver o formigueiro destruído na véspera. Vai ver tinham desistido de vez. Teimosia de formiga. Depois, o caminho que a gente ia picar no meio do mato, para passar sem ser visto, se acontecer alguma coisa que precisa fugir é só levantar as samambaias. A comida ficaria pendurada num saco para ninguém achar. Precisava de uma faca também e uma lanterna se fosse de noite, um pouco de dinheiro para pegar um ônibus depois, e a caderneta de telefone para ligar para a vó. E se eles achassem o caminho tinha que cava um buraco. Tapar com uns galhos bem disfarçados. Mas talvez mais um depois, mais para o final do caminho. Esse eles não iam ver nunca e dava mais tempo para correr porque tem gente velha que não pode correr muito bem. Gente velha é bom porque sabe fazer comida mas dá um atraso danado!
Archive for October, 2006
O tempo nem passou e já passou. Por que será? Por que será?
24/10/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »Propaganda, targets e mídia: bagunçou
21/10/2006 em Sei lá | Tags: Mídia, Propaganda | Deixe um comentário »Mídia. Como é? São dois os cálculos possíveis. O primeiro é otimizar o dinheiro que tenho, o segundo é descobrir quanto dinheiro é preciso para alcançar os objetivos. Como não poderia deixar de ser, ambas as alternativas são regidas pela lei do custo X benefício onde benefício significa “quantas pessoas serão impactadas”.
Para cálculos são necessários números e para números são necessárias pesquisas. Para pesquisas é necessário controle e para ter controle é necessário isolar variáveis – coeteris paribus. Quanto mais variáveis, menos controle e quanto menos controle, menos idéias e quanto menos idéias, menos inovação e quanto menos inovação, menos ação e quanto menos ação, menos dinheiro e quanto menos dinheiro, menos tudo.
Daí a gente tem que explicar para a propaganda que não existem mais meia dúzia de veículos com força suficiente para impactar os públicos, mas milhões. Daí a gente tem que explicar para a propaganda que os veículos são feitos pelos próprios públicos que queremos impactar.
Tilt 1: a mídia é o target e o target é a mídia.
E a mensagem? Como é? São dois os raciocínios. O primeiro é dizer o que as pessoas dizem. O segundo é dizer o que as pessoas vão dizer. Como não poderia deixar de ser, ambas as alternativas são regidas pela lei do mínimo denominador comum, sendo que esse mínimo aí é o que todos os públicos vão entender.
E para encontrar esse mínimo aí, precisa de pesquisa. Nesse ponto o raciocínio volta a ser o mesmo. Pesquisa tem que ter controle, para ter controle tem que ter poucas variáveis e por aí vai.
Daí a gente tem que explicar para a propaganda que a mensagem que melhor funciona com nosso público é aquela que o próprio público faz. E a mensagem que o público faz é um monte de mensagens. E esse monte de mensagens é um monte. E se é um monte, tem um monte de mínimos denominadores comuns. Daí a gente tem que explicar para a propaganda que o mínimo denominador comum não impacta o máximo de pessoas possíveis.
Tilt 2: a mensagem é o target e o target é a mensagem.
E a esses dois tilts, como é que o mundo do marketing reage?
O mundo do marketing reage de duas maneiras: como uma avestruz ou como um hiena. Enterra a cabeça e espera que a manada faça greve ou se regala com a carniça e gargalha.
Mas que jeito a gente dá então para explicar que está cheio de tilts no circuito?
Oskar Schell da Silva Santos
18/10/2006 em Internet | Deixe um comentário »Quando ele falou “papai”, a TV era um eletrodoméstico – quase um liquidificador só que um pouco mais divertido, o videogame um equipamento de primeira necessidade como a geladeira, o MP3 player, o celular e os pokemons que têm super poderes.
Quando ele ganhou a primeira mesada – em dinheiro – ele já tinha comprado um ipod com o cartão do pai, já tinha duzentas músicas baixadas ilegalmente no computador e tinha conta no paypal.
Quando foi pra escola, ele já tinha uns vinte amigos na lista do seu comunicador instantâneo, era membro de várias comunidades e tinha um blog com dicas do Counter Strike e do Toni Hawk.
Quando viu o Ronaldinho jogar, num vídeo que um Kevmeister – seu amigo do MSN – mandou, ele já sabia que ele tinha um passe que valia mais que a casa, o carro, o computador, as três chuteiras e todos os seus CD’s piratas. E então ele mandou um e-mail para o Gaúcho e recebeu uma foto assinada que ele usou como wall-paper do seu celular.
Ele nem sabe disso, mas para ele a Web 2.0, que inaugura a era do conteúdo colaborativo em detrimento do conteúdo imposto, não é revolucionária, é a normalidade.
Para ele, o creative common, que defende a flexibilização do direito autoral e os sistemas abertos não é novidade, é o mundo como ele já é para ele.
Para ele, gostar de funk e de pagode, de música eletrônica e do brega, ao mesmo tempo, não é ignorância. Ele gosta e pronto.
Para ele, se vestir com as mesmas roupas de seus ídolos, escrever um novo português, mais rápido e direto, falar palavras em inglês, usar as marcas que ele ama, não é alienação – ele nem sabe o que é isso. Para ele, a diferença entre a réplica, o falsificado e o original é uma questão de preço e não de status.
E se alguém disser “você precisar pagar direito de uso de imagem, texto, música que não são de sua autoria”, ele vai responder “Ué, como assim, é lei agora?”
E se alguém disser “você tem que verificar a credibilidade da fonte antes de espalhar uma informação, um fato, uma imagem, um vídeo” ele vai dizer “Ué, como assim, tá verificado. Na Internet”.
E se alguém disser “Aqui no Brasil, é assim” ele vai mostrar o computador e dizer “O Brasil é aqui e aqui não é assim”.
Tem um monte de Oskars (do excelente “Extremamente alto, incrivelmente perto” – Jonathan Safran Foer – Editora Rocco) aqui na esquina. Aqui e em quase todas as esquinas do Brasil.
A mídia veste Prada
16/10/2006 em Moda | Deixe um comentário »Um caçador de tendência é um cara que sai por aí escarafunchando o que estão vestindo, falando, fazendo, comendo, gostando e mais um monte de gerúndio. Ele é contratado pela indústria e seus parceiros para inspirar inovações e obviamente antecipar lançamentos.
A conseqüência esperada – além do truque óbvio de dizer que a marca é inovadora – é de ganhar um mercado que já existe. Se uma grife lança uma coleção com a cor que já está nas ruas, ela ganha os adeptos que já procuram a cor em questão, para dar um exemplo rasteiro. Tendência portanto é querência.
E por mais que a Miranda Priestly (Priest de sacerdote, portanto, Priestly , sacerdoticamente) tente explicar que uma cor é muito mais que uma simples cor (sic) – é um estalo quase transcendental de gênios genialmente geniais – o objetivo é mais prosaico – e muito mais razoável, considerando justamente que é uma “idéia” (assim, entre aspas mesmo) que movimenta bilhões de dólares e comprimidos de antidepressivos.
Portanto, sob esse ponto de vista, esses caçadores aí fazem todo o sentido, mesmo quando eles são – como é muito comum – chupadores ágeis de idéias alheias. Em tempo de internet, caçar tendências chupadas é moleza e engana muita gente “ocupada demais” por aí.
Caçadores de tendências não são nem inúteis nem gênios.
Mas o que inebria são os ditadores de tendências. Esses são Mirandescos. Ditar tendências é apropriar-se de uma dessas querências já queridas pelas pessoas e dar uma forçada, uma anabolizada devidamente midiatizada. É mais ou menos pegar a tal da cor – para permanecer na caricatura – e gentilmente influenciar os canais de acesso à informação de que essa é a cor que está “pegando”, que é “tudo”, que é o “ó”, e que você é um lixo se estiver com outra. Casou a fome com a vontade de comer. A “tendência” que já é “querência” vira histeria, uma necessidade quase que fisiológica, a base da pirâmide de Maslow: mais vital estar vestindo lápis lazuli do que comer, “comer” ou des-comer.
Pois, apesar do ingênuo-quase-estúpido roteiro, apesar do bom-mocismo forçado, do glamour-paparazi-de-folhetim, e do product-placement-blockbuster, “o Diabo Veste Prada” – mais raso, mais digerível do que “Prêt à porter” do Altman – tem lá seus ensinamentos: “Caçadores e ditadores de tendências, eles ainda vão te pegar”.
Debate político é um Fla X Flu
10/10/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »- Oi Maria,
- Oi Seu Fernand.
- Mas o Lula tava demais ontem não?
- Tava?
- Nossa, ele foi bom!
- Foi
Pouco depois:
- Você viu o debate?
- Vi. O Geraldo foi incisivo.
- Foi?
- Ele destruiu o Lula.
- Destruiu?
Quem aqui lembraria de um único googleplex apavorante vomitado ao longo do debate? Quem sabe quanto um investiu nisso ou o outro naquilo? Quem pagou quanto de propina para quem? E quem é mesmo que queria resposta para as perguntas? Aliás, quem é que ouviu as perguntas? E as respostas?
Um rubro-negro e um tricolor no mesmo estádio, no mesmo dia, no mesmo jogo. No mesmo jogo? Era não. Flamenguista: “O Flamengo arrasou”. Fluminense: “O Flu destruiu”. O ou contrário, mas o certo é que não estiveram no mesmo jogo, mesmo estando.
Então quem ganhou o jogo? Detalhe. Quem ganhou o debate? Detalhe. Ninguém convenceu ninguém. E também quem estava interessado em convencer? Era o prazer do debate pelo debate, do jogo pelo jogo. Era só prazer de arrumar desculpas para as derrapadas do seu candidato e anabolisar os seus ataques. O prazer de mangar das incoerências do adversário e injuriar-se com suas acusações.
Então quem tinha razão? Mas o que a razão tem a ver com isso? Coitada, a razão é tão lenta! Quase burra. A emoção é rápida, envolvente, tão mais inteligente!
A razão até convence, mas leva um século. Ou quatro. Mais pelo cansaço do que pela verdade.
A verdade é uma nuvem de fumaça. E as escolhas, inclusive políticas, pouco têm a ver com reflexões ponderadas. No fim, a gente vota na emoção. A gente também se defende na emoção e até se arrepende na emoção.
Quem mudou seu voto, no debate, mudou pelo sorriso ou pela careta, pela violência ou afago, pela pena ou paixão.
Decisão política é coisa do coração, de crença, de fé.
Cogito ergo sum, uma ova!
São Paulo não é feia, é desleixada
09/10/2006 em Sei lá | Deixe um comentário »São Paulo é uma cidade muito feia. Dizem. Quem liga para isso? Quem liga para as calçadas esburacadas, os lixos escancarados, obras horrendamente inacabadas, tapumes descascados? Quem liga para os acampamentos provisórios, para a gatolândia de fios, para os canteiros favelizados?
Ninguém está nem aí porque é provisório, “em construção”.
São Paulo é assim, nunca acaba. E o paulistano parece não se incomodar com esse “deixa pra depois”, pro próximo infeliz que se incomodar.
Mas claro, depois reclamam que é feia a cidade. Reclamam do Minhocão, do Borba Gato, do neoclassicismo burguês, do foguete rosa da Pedroso de Morais, da melancia da Avenida Brigadeiro Luis Antonio, do abrigo da Patriarca.
Mas o que é precisamente horrendo é o inacabado ou mal-acabado. Porque até o fora de moda, o cafona, o desproporcional, o chupado, o sem noção, é melhor do que o acampamento no qual vivemos. Um dia o teatro Municipal foi démodé; hoje é ícone. O Pacaembu foi arquitetura fascista; hoje é sobriamente belo. Os casarões da avenida Brasil foram novo-riquismo; hoje são nossa avenue Foch.
E nessa Dresden pós bombardeio, respiramos em ilhas de tranqüilidade: nos Jardins, na Aclimação, no Alto da Boa Vista, na Vila Nova Conceição. Não tem nada de genuinamente belo – se é que esse conceito existe – nesses oásis. O que existe sim é organização, esmero, carinho.
O que falta aqui é uma lei de zoneamento do temporário. Uma lei de manutenção e limpeza. Uma lei do acabamento.
E para disfarçar a falta de vergonha, vem essa polêmica discussão sobre a proibição radical de qualquer mídia exterior na cidade. De um lado os probos e conscientes administradores públicos a empunhar argumentos demagógicos. De outro os empresários desse negócio a defender hipócritos argumentos.
Tenho dó de imaginar São Paulo sem o disfarce da mídia exterior. Até prefiro uma empena gigante de uma morenaça de biquíni a um muro descascado. Prefiro um tapume de aparelho celular a um gradil caindo aos pedaços. Prefiro uma série de outdoor a uma medonha obra inacabada.
Pelo menos disfarça a lepra e o descaso.
Carregando o banquinho pela Web
06/10/2006 em Internet | Deixe um comentário »Comecei minha viagem pelos Cliffs of Moer, na Irlanda, joguei o olhar por sobre a relva, uma gaivota passou sacolejando, e o mar estava tão vazio de reflexos, quase sólido, o sol se escondeu nas nuvens; fui para Positano correndo, muitos frêmitos no mar na beira do cubismo improvável das construções que entornam no vazio, o sol fez prismas oblicos no canto do olho; corri para Palermo e embora estava quase escuro, ainda deu para ver o lusco fusco do porto sujo, uma nesga de vermelhidão cheia de pixels pretos; era hora de ir pro leste mas Viena estava quebrada; Moscou ainda reluzia esbranquiçada; em Kiev só deu para chegar até porta do bar mas estava fechada; depois foi Pequim, nem tem; Tóquio não achei direito ou não entendi onde fica; Sydney e os ventos quebravam as vistas; Positano já fazia noite quando te capturei de volta e ninguém nas ruas; Paris toda acesa; Paraty chovia e não fiquei esperando.
Loucura de segundos.
Carreguei o banquinho pro telhado e fiquei esperando: meio falso aquele pôr do sol de verdade. Pobre pequeno príncipe que não conhecia o http://www.earthcam.com










