B55 acabou de cair na Terra, depois de uma meteórica viagem oriunda de Wig, um asteróide muito além da Via Láctea.
O espaço em que aterrissou era reduzido, escuro e desconfortável. Muitos pés balançavam de um lado para o outro embaixo da mesa de reunião, e B55 se desviava penosamente dos chutes.
Quando finalmente encontrou um lugar mais seguro, ele acocorou-se atento às movimentações e às falas.
Lá pelas tantas, B55 sentiu sono e deu uma longa cochilada que só terminou quando Marília agachou-se para apanhar sua bolsa. A reunião tinha terminado.
- Ei, o que é você?
- Eu não sou uma coisa.
- Não? Então quem é você?
- B55, de Wig
- O que faz aqui?
- Vim pesquisar
- Eu sou de pesquisa também.
- Coincidência. E o que você pesquisa?
- Pesquiso os hábitos dos consumidores
- Consumidores?
- Sim, pessoas em geral que potencialmente podem ser nossos clientes
- Entendo. Mas por que você quer saber os seus hábitos?
- Ué, primeiro para encontrá-los.
- Eles se escondem?
- Às vezes, mas nossas ferramentas permitem desentocá-los através de técnicas de sedução.
- Você seduz as pessoas?
- Claro! Com mensagens adequadamente “adressadas”, é possível “clarificar” com muita “sutilidade” e “atenciosidade” os impulsos mais profundos dos nossos targets.
- Ummm. Acho que entendo. A partir dessas pesquisas, vocês encontram as pessoas para falar com elas. Sobre o quê?
- Eu poderia dizer que é sobre as virtudes e atributos de nossas marcas, serviços e produtos, mas já evoluímos.
- Já?
- Muito! Agora não falamos mais das nossas marcas, falamos dos nossos consumidores, sobre o que eles querem, sonham, aspiram, desejam. Somos focados nas emoções dos consumidores.
- Evolução?
- Claro! Antigamente, nós pesquisávamos o DNA das nossas marcas; agora, somos to-tal-men-te centrados no consumidor.
- DNA? Marcas têm DNA, como humanos?
- Têm, mas isso não tem importância mais. Evoluímos.
- Para pesquisar o DNA dos humanos?
- Pode-se dizer que sim, ou se preferir, o DNA das emoções dos consumidores.
- E para que serve isso mesmo?
- Para saber o que dizer para nossos consumidores
- E o que você diz para eles?
- O que eles querem ouvir.
- O que eles querem ouvir?
- Que nós os amamos.
- O que eles querem ouvir?
- Que nós entendemos eles.
- O que eles querem ouvir?
- Que nós existimos para eles, entende?
- O que eles querem ouvir?
- Já falei.
- Mas o que eles querem ouvir?
- Que eles têm que comprar nossas marcas, diabos!
- Agora entendi.
- E você, o que pesquisa?
- Piadas terráqueas para meus amigos. Obrigado!










