Monthly Archives: January 2009

Coração de legionário

ParaJunior

Criado por avós aristocratas, falava línguas, estudara os clássicos e jogava críquete quando os compromissos filantrópicos o deixavam em paz.

Um belo dia, numa festa regada a muita gargalhada e olhares de raios X ele se recolhera ao bar para refrescar-se das dramaturgias sociais. Estava lá um sujeito que, não estivesse completamente afundado no copo, estaria totalmente deslocado da opereta rega-bofe. Sua elegância rude destacava-se da figuração cheia de atitude que pululava em todo canto. O homem era um legionário, daqueles de palavra e pouca fala, reflexo e pouco cálculo, honra e pouca fé.

As pálpebras murchas do lordezinho desabrocharam nesse dia e ele mudou-se para um país africano, numa zona sombria, onde as leis de sangue valem mais que as de papel. Ele virou um matador sem raça, sem credo, sem escrúpulo nem viadagem. Ninguém nunca mais ouviu falar dele, nem ele de mais ninguém.

Legionário não planeja, age: passados muitos anos, ele naufraga de volta na sua terra.

Assim que atracou no primeiro bordel, já saiu degolando um advogado, um cirurgião e um banqueiro. Logo que encalhou no primeiro bar, tratou de supliciar um ministro, um cardeal e um jogador de futebol. Quando amargou a primeira cadeia, estuprou o capelão, o chefe do tráfico e o emissário dos direitos humanos.

E de colunas de “faits divers” para policial, de policial para comportamento, de comportamento para social, de social para política, sua fama ia galgando escalões.

Tornara-se assunto obrigatório em qualquer roda: de pária para assassino, de assassino para psicopata, de psicopata para excêntrico, de excêntrico para visionário.

Há quem não duvide que ele seria agraciado com o Nobel, não tivesse fatalmente desmaiado com a morte da mãe do Bambi.

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Global warning (com N mesmo)

“A Amazônia tísica”, “O buraco chupador da camada do ozônio”, “Degolaram uma foca”, “Socorro, as baleias sumiram”, “O lixo de Chernobyl vai feder”.

Nos últimos anos, somos bombardeados diariamente por esse tipo de notícia. Todo dia é epitáfio dos dinossauros, Armagedon e ataque de marcianos.  Chama o Noé, que a coisa está feia.

E nós, aqui, vermes insignificantes, metendo a mão no lixo para separar o orgânico, xingando o plástico, parando de usar sabonete que faz espuma e pedalando no meio dos carros para salvar o planeta.

A Amazônia existe mesmo? Que diabo é ozônio? É verdade que foca fede? Como é que uma baleia some? E muitas baleias? Alguém avisou os russos do lixo atômico?

Sempre que encaramos essas bombásticas notícias, alternamos uma sensação de impotência com indiferença. Quanto maior e mais distante é a notícia, maior a impotência e seu corolário natural, “tô nem aí!”.

Que tal se a gente se desplugasse dessas hecatombes sensacionalistas? Será que, se pensássemos pequeno, no nosso quintal, não nos envolveríamos mais com essas causas que certamente são verdadeiras e dramáticas?

Se parássemos de fumar porque as roupas ficam com cheiro? Se usássemos detergente ambientalmente correto porque não tem aquele cheiro artificial que deteriora o gosto dos pratos? Se andássemos mais a pé por causa da barriguinha? Se escolhêssemos comida orgânica porque ela é mais saborosa? Se substituíssemos os copinhos de plásticos pelos de cerâmica porque é mais elegante? Se comprássemos menos porcaria porque não tem onde enfiar tanta bugiganga em casa? Se não jogássemos lixo na rua porque depois entope os bueiros?

E se a gente fosse só ambientalmente responsável porque a gente gosta de árvores e passarinho? E se a gente fosse socialmente responsável porque a gente gosta de gente e criança?

Se parássemos de olhar esses números que ninguém sabe calcular?  Se deixássemos de pensar nas consequências das consequências das consequências das consequências das consequências das consequências que vão, no final de infindável lista de conseqüências, acabar com a vida inconsequente dos terráqueos?

Projetos de sustentabilidade pessoais, ao invés de globais. Nanoprojetos individuais, ao invés da causa globais.

Podem até nos acusar de hipócritas egoístas, de alienados provincianos, mas o perigo global é que, justamente pelo fato de ser global – portanto, de todos –, torna-se distante e difícil.

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Transfusão de samba

Para André

Era um vampiro como outro qualquer.

Como todos, tinha lá suas restrições, seus reflexos e charmes irresistíveis: não jogava altinha na praia, não via corpos soltos havia quase dois séculos e disfarçava sua libido permanente com o mais sofisticado dos
guarda-roupas. Suas noites eram sempre muito animadas, de balada em balada, de cama pra cama, de bebedeira em bebedeira. Era um depravado conquistador e um evangelizador tenaz. Seu charme ancestral, sua polidez esmerada e erudição clássica faziam o mais escolado dos humanos babar-se em súplicas de “Mais!”

Certa vez, lá pelas tantas da madrugada, lá estava nosso vampiro todo chique, numa roda de samba. O maestro de salas aveludadas não tinha preconceito.

Aquela noite, era véspera de carnaval, ensaio para gringo, patrocinado por uma grande empresa inglesa de amortecedores, com o objetivo de experimentar o novo molejo de seus produtos na pele de seus clientes, fornecedores e autoridades. A quadra estava cheia de samba para inglês ver.

Depois de um tempo, o vampiro foi perdendo o entusiasmo: aquele rebolado de bundas brancas dava-lhe enjoo. Com exceção de três mulatas sambadas, a paisagem era de triste descompasso, um sem-jeito desolador, uma bananada sem borogodó.

Enfadado, ele desafogou a gravata, arregaçou o fraque, esponjou a testa numa renda alva como a tez da ruiva desengonçada que piscou em sua direção, acendeu um havana e saiu do barracão.

Meditava: “Qual seria a próxima escala? Uma rave em Bangu? Um inferninho de Copacabana? Um clube burguês? Um funk além-túnel? Um madrigal na mansão de uma duquesa falida?

Foi quando emanou de um beco escuro um batuque singelo, uma jinga gostosa, um baticudum suado.

O vampiro ajeitou o fato, abriu três botões da camisa, dobrou a perna e os braços para evidenciar atributos: lá vinha coisa boa, carne fresca e um banquete promissor.

Lá vinha Maria Escopeta, espetáculo! Tremelicou para fora do beco cantando, exalando ritmo e ouriço por todos os poros.

Nosso ser ficou catatônico, ofegante. Depois do espanto, perdeu o prumo, a pose e a compostura: atirou-se na negra. Sugou-lhe até a última gota de samba das veias.

Foi assim que nosso vampiro aposentou os caninos, deixou de frescura e até hoje toca zabumba no cemitério, até o sol raiar.

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Papagaiada

Para Cumpadre Mário

Ele voara muito, por cima de florestas, cidades, campos e colinas amassadas.

Vez por outra, pousava para descansar e refletir. Gritava em voz alta: “Preguiçoso, preguiçoso Mané” ou “Alô, Jovina, telefone!”, ou ainda “Melchior, você é o maior!”, “alonzanfandelapatri”.

Lembranças de outras terras: “Acorda pra cuspir, Ignácio”, outros laços: “Te amo, flor”, outras lições: “Un, deux, trois, chassé croisé, Manon”, e outras gaiolas: “Fome, Benedita” – ele estava velho e cansara da vida que se repete, repete e emborca de tanta preguiça. Por isso, fugira, numa manhã igual a todas as outras: “Lá na gaiola, fez um buraquinho, voou, voou, voou, voou. A menina que gostava tanto do bichinho, chorou, chorou, chorou, chorou”. Ele cansara daqueles mesmos sorrisos: “Dá o pé, dá o pé”, daqueles mesmos galos: “Cocoricó, acorda preguiçoso”, daqueles alpendres ventosos: “Frio, tô com frio”, da vida de papagaio repeteco: “Papagaio repeteco, uma ova!”

Sobrevoando as matas, as cidades e as gentes de toda espécie, a ave falante repetia “Nunca, nunca, nunca mais, nunca, nunca mais”.

E foi assim, voando longe, que, numa tarde, o louro aterrissou numa palmeira barulhenta. Ele ajeitou o topete, esfregou o cocoruto num galho e, tremelicando o pescoço, observou: no meio das folhagens, uma revoada de sabiá conversava. Uma algazarra, uma fofocada, uma babel. Ele bem que tentou entender e se entreter, mas os primos não falavam coisa com coisa, era um cré sem cré ensurdecedor.

Enfim, era sua hora: sonhara com aquela liberdade de criar. Uma plateia selvagem, primitiva, sem traquejo nem requebro. Uma turba que não sabia que papagaios são papagaios, ou seja, só sabem papaguear.

Impostando a voz, ele recitou:

– Abaixe a tábua!  Lave as mãos! Tomou banho, Zé Caribé?!

O frufru dos sabiás não ensaiava reação.

– Fogo, fogo na canjica! Apeia, pirulito! Cabulou de novo, Marquinho?

A cacofonia redobrava de intensidade. O louro ensaiou em prosa e verso “baratinha quando nasce”, “ouvido do ipiranga”, “ave Maria cheia de garras” e ninguém deu bola para sua eloquência.

E quando ele já desesperava de ter voz naquela barbárie sem pé nem bico, um sabiá poliglota aproximou-se e sentenciou:

– “Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá.”

O Louro acocorou-se num canto do galho e fundo, fundo, lá no fundo de seu coração, de saudade soluçou, soluçou e soluçou um chororô sem fim.

E de tanto soluçar, a colônia de sabiás apelidou o exilado, liberto, repeteco, tagarela e soluçante: papagaio!

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O jogging da avestruz

A avestruz é um pássaro com longas patas que vão até o chão, delgado pescoço rosa que chega à cabeça e um traseiro grande que rebola lindas penas brancas. São exímias fundistas quando se abanam com seus braços rendados.

A avestruz é um bombom formoso que adoça os cerrados.

Certa vez, Ana, um desses privilegiados seres, saiu para seu footing matinal. Estava despenteada e desarrumada e cantarolava “Rocket man, rocket man”, arremessando Mimi, sua pelúcia preferida, para o alto. A cabeça nas nuvens e as mãos nos bolsos davam-lhe ares de bailarina emancipada.

Numa esquina, ela cruzou com um amigo que franzia de nervoso, em outra, um anônimo espirrou negros odores, adiante, uma senhora encastelada num penteado paralisante equilibrava seus predicados injetados.

A sensível era dada a profundas introspecções e interrompeu seu passo, cessou as rimas e pôs-se a meditar.

“De que nos serve a vida se pouco nos preocupa a morte na alma de um, a doença do outro, a vaidade de todos? De que nos serve viver sem definhar a cada momento de sobrevida? Sobreviver é uma cantilena de apesares.”

Mas foi curta sua filosofia porque já despontava na sua frente um saltitante transeunte.

– Oi, linda!
– Oi, fofo.
– Tá na paz?
– Pensando na vida.
– Pra quê?
– Bobagens
– Que boa idéia!

Foram seguindo pelas quebradas, tagarelando animadamente sobre as coisas que na vida dão gostosura: quanto por quanto, quem com quem, gasto como gasto. Temas sem gastura.

Dulcílio também não voava, mas como nadava! Vogava nos lagos atarefado: tinha prole para alimentar, roupa pra passar, meias para cerzir, feijão pra refogar. Ele também sabia da guerra que grunhia, do vento que destelhava, dos poemas de todo dia e de sempre. Dulcílio tinha muita graça e muita história para contar. E quando retornava do chafurdo, juntava gente para ouvi-lo.

Foi assim que Dulcílio, o pato, ultrapassou os dois flaneurs e captou suas perorações.

– Quá-quá-quá, quem-quem-quem, gá-gá-gá.

O pato não era versado em assuntos de sociedade, mas tinha lá suas tiradas e soltou alto e bom som: “Depois, o pato sou eu!”. E seguiu caminho.

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O arqueólogo

Para Aaron

Morava numa montanha bem alta e, quando o sol escorregava para o chão, o velho despertava. Apressadinho, chacoalhava os ossos e saía.

Logo na soleira da casa, desvelava um olhar preciso: o poço resistira.

Era assim: ele dormia de tanto sonhar. Mas, na primeira hora da noite, corria para o poço, tirava a tampa, aninhava-se no balde e soltava a polia.

Um, dois, três, vinte e quatro, vinte e cinco, cento e quarenta e nove, mil oitocentos e vinte e três.

Aproximadamente três metros de sonhos fujões. O poço secara muito dessa vez. Ele nem lembrava de nada não.

No coração da montanha, ele tirava a picareta, o delicado pincel e seu caderno pautado. Fosseis quebrados  desenhavam as viagens que se foram.

Agachado no escuro, ele psicografava vestígios.

Quando lá no alto uma nuvem de luz tremelicava, era hora de voltar, um tanto compensado, um tanto envelhecido.

Um pouco mais curvado, mais dolorido, mais senil e esburacado, ele se arrastava para a cama para, mais uma vez, dormir e sonhar a vida que se evapora do poço, no coração da montanha.

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Como nasce um rio

Para Cacaia

Um lago pacato se estendia entre os braços de Montanha pontuda e Colina de bumbum pro ar. Era um tédio milenar. Uma preguiça geológica imemorial.

Naquele pedaço esquecido do mundo, chovia de vez em quando, mas só dava uma coçadinha na superfície do lago. Fazia sol também, mas nem fum no seu gogó. Ele só mamava tranquilo nos rios que brotavam das tetas de Montanha e Colina e arrotava ondinhas nas margens arenosas.

Para quem olhasse de fora, era um êxtase lírico e arroubos poéticos se perdiam nos desvarios dos tempos. Mas para quem armava a cena, era uma preguiça, uma falta de viço, um coma estéril.

Até que um vento safado, um cupido pornográfico, resolveu passar por ali. Não havia quem acudisse a tamanho fudevu, e a chuva, lasciva messalina, acudiu no rendez-vous.

Choveu tanto que o lago despertou e inundou pés e encostas. Foi subindo, subindo, subindo. E quanto mais subia, maior a febre. Colina enfeitou-se de brilho, Montanha suava em bicas.

Ao final de dois dias, o vento distraiu-se e foi armar-se em outras praias.

Mas Montanha e Colina deliravam em cama ardente tamanha tinha sido a corte que o malandro aprontara. Suas súplicas eróticas chegaram a seus ouvidos.

Ô cupido de sádico saber!

Vez por outra, lá ia ele cutucar Montanha e Colina.

Cutucava e se mandava, cutucava e escapulia, gargalhando, gargarejando, garganteando “sem contenção não tem tesão!”

E o lago transbordou um belo dia, num fluxo de interminável gozo.

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