Archive for February, 2009

Como salvar a mídia (e a propaganda)

26/02/2009 em Propaganda | Tags: , | Deixe um comentário »

A mídia está morta. Viva a mídia!

Estamos no futuro porque é muito mais fácil pensar assim.

Há alguns dias, uma crucial reunião decidiu o futuro da mídia, dos autores, dos criadores e de todos os pretensos provedores de conteúdo. Da assinatura do termo resultante, acordou-se que doravante tudo será cobrado. Chega dessa palhaçada de trabalhar de graça. Nem uma linha mais será derramada sem reciprocidade financeira. Nenhum jornal será lido mais de graça na internet, nenhum vídeo baixado ou assistido sem pagar, nenhuma música, nenhuma foto, nenhum game, nenhum outro conteúdo que tenha a mais ingênua pretensão de assim chamar-se vai ser franqueado, barganhado na xepa.

Muitos choraram na reunião que celebrou o acordo. Lágrimas de alívio carregadas de deliciosa vingança. É o troco, depois de anos de lamúrias e penúria. “Vencemos os anarquistas bandidos!”

Mas alguns dias depois, as cabeças decisivas reuniram-se novamente para colocar em prática a mais difícil das equações: como cobrar? O que cobrar? O que será justo e rentável?

A reunião foi uma tragédia. Dizem que alguns chegaram às vias de fato, e algumas mortes foram contabilizadas. É o que dizem, mas ninguém soube de nada porque nenhum leitor quis comprar esse conteúdo.

Flashback. Hoje, a questão que movimenta dez entre dez pessoas de mídia é como resolver a mais apavorante das equações: o conteúdo deve ou não ser gratuito?

Walter Isaacson discursou recentemente sobre o assunto num interessantíssimo artigo. Sua visão é lapidar, precisa, contundente. Em resumo, Isaacson propõe uma saída para a crise com uma simples e desburocratizada cobrança pontual (micro) dos conteúdos desejados. Essa possível solução, para ele, resolveria as perdas de receita dos jornais na ponta “venda de jornal”.

Ainda que essa solução não seja nova e já tenha sido experimentada (de forma fracassada), vale muito a provocação.

No entanto, não basta debruçar-se sobre essa “perna” capenga da receita, assumindo que as demais estão fortes. É tapar o sol com a peneira.

Talvez seja mais pertinente e urgente debruçar-se sobre a outra: a publicidade. Não apenas porque ela é mais importante, mas principalmente porque ela também cambaleia e há mais tempo.

Por outro lado, é tocante a ingenuidade porque as pernas são promiscuamente comunicantes. A questão não é, portanto, resolver partes separadas de receita, mas encarar a questão de face, sem preconceito, sem medo e de forma radical: quem vai pagar o conteúdo produzido? Pois parece que sempre será o cliente do conteúdo, direta ou indiretamente. E é o indireto a mola do sistema: a propaganda.

A propaganda “compra” audiência, e os provedores de conteúdo “vendem” audiência. É essa audiência que paga a conta. Se resolvermos essa perna, o conteúdo poderá ser gratuito sempre.

Ainda que pudéssemos precificar um conteúdo, ainda que pudéssemos nos entender sobre esse preço, quem nos compra tenderá sempre a não querer pagar. Eles também são tão variados, que a conta será ínfima, ridícula, dispensável. Sem falar da enorme dificuldade de criar uma forma de pagamento segura e simples.

Se nossa audiência não quer mais pagar pelo conteúdo – seja porque ele foi dado um dia de graça, seja porque o conteúdo é, e sempre será, mais importante que o autor, a cópia gratuita, portanto, tem exatamente o mesmo valor do original – de que serve remar contra a maré?

Existe muita coisa para ser feita e cobrar “microtaxas” é uma   solução microscópica.

Primeiro fato aterrorizante: as receitas publicitárias talvez estejam também minguando. Ou pior, talvez os anunciantes não estejam muito felizes com os resultados dos seus investimentos.

Segunda tragédia: na gênese desse problema, infinitamente mais relevante para as economias dos provedores de conteúdo e para os próprios pagadores da conta, os anunciantes, está a ineficiência dos formatos de publicidade e da lógica de precificação desses formatos.

Terceiro pavor: os meios digitais, gratuitos, livres, sem controle possível e infinitamente mais poderosos que qualquer outro meio físico vão quebrá-los. E nesse ambiente, só prevalece uma lei: a gratuidade.

Se formos corajosos, uma vez na vida que seja, devemos assumir essas verdades e, se quisermos encontrar uma saída, talvez devêssemos encará-las de forma exagerada, sem meias soluções, sem acochambros.

Na perna da publicidade, a idéia do “micro” talvez seja uma saída muito mais original.

Voltemos ao futuro agora. Lembram da reunião que terminou em sangue e morte?

Pois num outro lugar, um dono de jornal resolveu declinar do convite de participar dessa tragédia anunciada. Ele estava muito ocupado com seus jornalistas e programadores para perder tempo com panacéias jurássicas.

Ele estava lançando o primeiro jornal do mundo a vender publicidade baseada na lógica do micropagamento publicitário. Simplesmente indexou todas as palavras e expressões de seu conteúdo. Todas eram ofertadas a quem pagasse mais por elas. E ele foi mais longe: o leitor que fizesse a busca na sua ferramenta para um conteúdo específico seria imediatamente direcionado para ele, mas uma propaganda iria interromper por alguns instantes esse fluxo. Propaganda essa, paga pelo anunciante que tivesse comprado precisamente aquela palavra ou expressão.

Simples. Muito simples e fácil.

Algumas pequenas regras para ajudar na solução:

- Conteúdo deve ser de graça para o receptor.

- Quem paga a conta são os compradores de audiência, os anunciantes.

- Provedores de conteúdo devem priorizar a busca em detrimento da navegação aleatória, baseada em índices, cadernos, editorias, etc.

- O conteúdo deve ser todo indexado de forma dinâmica e automática.

- A venda de impacto publicitário deve ser feita pela compra desses “indexadores”.

- Leva quem paga mais pela compra dos “indexadores”.

- A propaganda deve interromper o clique da busca e intrometer-se entre ela e o resultado.

- A interrupção deve ser suficiente para impactar sem prejudicar.

- A compra de mídia passa a ser compra de conteúdo, e não mais de espaço.

- E para terminar, valem todas as regras anteriores: liberdade, qualidade, criatividade, pertinência, ética e principalmente, sempre, coragem de se reinventar todos os dias.

Vamos enterrar nossos mortos, rezar por eles, mas sobreviver.

Ai, se!

16/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Ai se,

Quando Germaine pôs o ovo, ela não sentiu aquele alívio matinal. Ela virou-se, dobrou a cabeça de um lado, de outro e caiu de joelhos. O ovo era vermelho.

Matilde tirou a cabeça para fora da toca e farejou o ar, mas o céu estava escuro apesar da hora. Ela pôs as patas no focinho e se assustou.

Se Adélia soubesse o que lhe esperava quando mergulhou, ela não teria saído: a água tinha deixado lugar a uma lama escura. Voltou apressadamente para a borda do lago, muda.

Mesmo insistindo, Marcelinho não conseguia ir para frente. O chão andava e para trás. As árvores, as nuvens, as pedras no caminho, tudo para trás. E sua memória retrocedia também.

E foi parecido também com Valéria, cujo cabelo amanheceu crespo, com Sílvio, que teve suas economias dilapidadas de repente, Maricota, que cresceu vinte centímetros, Abelardo, que saiu voando quando abriu a janela. Noêmia não acordou e Felisberto perdeu o sono; cresceu um pelo no nariz do pequeno Carlos e Clotilde cuspiu chocolate, Gláucia e Luzinete e Deolinda e também Fábio, Graciliano e Olívio gargalharam no enterro das avós, enquanto Fátima, Cristiano e Lucila choraram sem motivo algum.

O souflé cresceu demais e o pudim espatifou, o vento entornou e o rio encolheu, a chuva esquentou e as pedras todas rolaram montanha acima. As formigas brincaram de estátua e os colibris cochilaram, os jacarés gargalhavam no pântano que secara, e todos os cachorros latiam em inglês.

Meu relógio cantou pagode, minha poltrona preferida me engoliu, meus sapatos ficaram pequenos, minha gravata bateu asas e até a geladeira se encheu de sorvete de morango.

O mundo e meu coração soluçam juntos nesse todo dia que, de tão igual, dá saudade de nascer.

Alegria

13/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Todo dia é dia de alegrias. Pequenas, tímidas, particulares. Tem a alegria de acordar. Abrir os olhos, levantar, esticar-se e dar aquele grunhido bem longo. E coçar a planta do pé, esfregar os olhos e bagunçar os cabelos. O cheiro da toalha seca, a água escorrendo, o xixi delicioso, a boca lavada.

Quando Jim Musc despertou, não abriu logo os olhos. Farejou, tateou, arrepiou. Nada estava como antes. Mas o que era o antes? E o que era diferente? Finalmente ele abriu os olhos. Nem forma, nem cor, nem movimento. Só nada em cima, nada embaixo, nada dos lados.

Ele levantou-se quando percebeu que já estava de pé. Então, deitou-se. Mas ele estava deitado. Também. Caminhou, e não saiu do lugar porque nada não tem referência.

Lembrou-se dos outros, mas duvidou se eram, tinham sido ou haverão de ser. E tudo virou uma grande fumaça transparente. O redemoinho de memórias evaporou-se.

Pôs se a pensar, mas o devir desfez-se diante da lógica e o que era não era mais.

E aos poucos, Jim Musc esqueceu-se de Jim Musc. Perdeu-se. Sumiu.

Jim tinha morrido durante o sono. Sem perceber. Sem caretas nem choro. Sem despedidas nem remorsos.

Nem alegrias particulares nunca mais.

Nada como não se ser-se

06/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

De manhã, quando acordava, corria para o espelho do banheiro.

E conversava longamente com seu avô:

- Vô, lembra daquele dia que a gente fazia barragem no riacho atrás de casa? Lembra quando alagou o jardim? Lembra da bronca?

Com a vó:

- Vovó, me leva para colher ervilha no jardim? Quantos ovos você acha que tem hoje? Se eu acertar, você faz bolo cru só pra mim?

Com o tio ele só pensava, não falava:

- Que diabo tem de tão importante em calçar uma meia? Primeiro tem que dobrar de jeito a enfiar a ponta do pé, esticar tudo certinho e ir desdobrando, até ficar que nem pele.

Para o pai, ele queria dizer coisas, e sempre mudava de assunto:

- Vamos de carro? Posso ir na frente? Posso hoje?

E lá dentro, remoia:

- Conta de novo aquela história dos índios? E aquela outra quando você brigava nas festas? De novo, de novo.
Com a mãe, ele sempre queria dizer a mesma coisa, mas ficava com vergonha:

- Te amo, te amo, te amo, te amo, te amo. E que mais? Ué, te amo.

Não faltava assunto. Nunca.

O reflexo do espelho, que não era ele, mas os que eram um tantinho dele. Saudade. E eles que eram o que os outros tinham sido. Saudade. E nós que somos o que outros hão de ser, no espelho, um dia. Que saudade danada!

Elefantes e outros humanos

03/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Suda

Nossa história aconteceu num reino distante, num triângulo dourado, confluência de raças e destinos, terra de tráfegos intensos e futuros incertos.

O monarca, que pertencia a uma dinastia obscura e usurpadora, cultivava o excêntrico protocolo de dividir o trono com seus animais de estimação: galinhas ornamentais, najas domesticadas e elefantes sopranos.

Galináceos pela manhã, cobras à tarde e paquidermes à noite. Os dias de Fonte Única de Prazer eram divertidos, barulhentos, emocionantes e grandiosos. Nos entreatos a logística era sofrida, uma vez que najas comem galinhas e só existe uma coisa que tira uma naja do sério: competições entre membros tubulares. O risco era, portanto, da naja se regalar com a penosa e do elefante gabar-se com seu avantajado priapismo trombal.

Nenhum sábio jamais tinha sido capaz de resolver a questão de forma harmônica: A Ira dos Quatro Pontos Cardeais não suportava a idéia de ficar um instante sequer sem o suporte dos animais. Portanto, eram necessários  estoques inesgotáveis, imprevisíveis e caros dos animais.

Um dia, chegou ao reino um ancião que resolveu a charada,
propondo substituir os animais do protocolo. Os ministros entraram em polvorosa com a idéia. Cobriram o velho de ouro e mulheres.

Restava, no entanto, encontrar os tais animais. Tentaram trocar a naja por um gato, mas o bicho era egoísta e entediava Sono da Humanidade. Tentaram urso para o lugar da galinha, mas ele era preguiçoso e dormia demais. Um tigre pelo elefante, mas quem suportava o bafo? A arca inteira desfilou: animais exóticos, polares, temperados e tropicais, aquáticos, aéreos e terrestres, da carochinha, do além e dos infernos.

Outro dia, apareceu naqueles debates outro velho sábio. Embora ele concordasse com a tese inicial, sua proposta foi ainda mais revolucionária: o problema era a frágil galinha e a ciumenta naja. Portanto, a solução era colocar três galinhas ou três najas. Presentearam o gênio com montanhas de Viagras e dentaduras

Novamente, grandes estudos foram entabulados. Qual seria a melhor composição? Galinhas ou najas? O Senhor de Todos os Infinitos Sexos não podia ser envolvido, ocupado que estava com suas ciumentas concubinas, ou com cínicos e fofoqueiros eunucos.

Simularam a operação com um dos muitos sósias de Inigualável, Inimitável e Inclonável Poder do Oriente. Mas o resultado foi desastroso. As fogosas do sexo frágil entraram em cacarejante conflito com os interesses do harém. Já as serpentes, envenenaram os eunucos que se amotinaram.

Finalmente, aportou no reino um secular naturalista, filósofo, e astrônomo. Foi imediatamente assediado com o assunto e inquirido de resolver tão grave problema de Estado.

O homem deu graças às soluções apresentadas
anteriormente, que, por força da lógica, conduziam a uma única possibilidade: três elefantes deveriam suceder-se no trono de Luz da Terra, do Céu, dos Mares e de todos os Zoológicos. Ele saiu do país com incontáveis plásticas, implantes e vitaminas geriátricas.

Os três paquidermes guiaram por décadas o ócio de Bússola do Universo, cantando, pintando, dançando, fazendo tricô, macramê e petits-points com ele.

E quando A Memória do Mundo descansou, os animais choraram pesadas lágrimas de dor e saudade.

Elefantes são seres humanos mais humanos do que todos os humanos.