Archive for March, 2009

O emergir do consumidor

20/03/2009 em Internet, Propaganda | Tags: , , | Deixe um comentário »

É fato, no progresso econômico e, portanto, no conforto do sistema, a emergência de uma população ontem apartada. Muito se relaciona o ingresso de milhões de pessoas no mercado consumidor à rebarba da bonança econômica no qual o Brasil surfou e a certas políticas públicas – de assistencialismo para alguns, de justiça social para outros. O fato é que tais pessoas estão aí, e esse novo mercado interno pode significar um lampejo de esperança para um mundo atolado em recessão e desespero. Um novo mercado significa um novo Brasil para os milhões de sobreviventes de séculos de abandono.

Mário mora na periferia do Rio. Ele tem pouco mais de 20 anos e ganha trezentos e poucos reais com um emprego no supermercado. Mas uma coisa faz do garoto um cara diferente de seus pais, imigrantes nordestinos. Mário faz um bico vendendo DVDs piratas que ele mesmo confecciona. Dá pra tirar uns quinhentos por mês, dependendo da temporada de lançamentos. Mário também não dispensa o celular, o computador, o pen-drive pendurado no pescoço e está negociando um home theater para sua mãe (negociando, porque vai um pouco de dinheiro guardado, uma moto encostada e um pequeno empréstimo pessoal que ele conseguiu aprovar numa financeira). Mário faz sucesso e não deixa barato: capricha no visual, nas roupas da moda, perfume e produtos de beleza. Sabe tudo o que pega e o que rola.

Essa é a diferença: o desejo de consumo.

Então seria a tal da nova economia uma das novidades desse novo Brasil? Sempre houve informalidade no Brasil. Todo mundo sempre fez bico. A cauda longa é velha nossa conhecida. Só não tinha nome bonito nem frequentava dez entre cada dez congressos para bonitos executivos.

Mas vamos conversar com o Mário. O Mário tem internet faz tempo e também faz tempo que a Internet para Mário não é só uma grana a mais. Mário vai nos blogs, frequenta comunidades, se liga nas novidades. Sabe mais de tendências do que a maioria dos bacanas que aplaudem a cauda longa.

Informação universalizada, democraticamente distribuída não quer dizer apenas mais instrução e mais consciência. Não quer dizer apenas mais oportunidades econômicas. Também quer dizer mais desejo.

E o desejo é o reforço positivo indispensável para emergir da sobrevivência.

A classe C é a classe dos pobres coitados

18/03/2009 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Classe C é o que costumamos chamar de pobres. Por que será que temos tanto receio em chamar pobre de pobre?

Portanto, não vamos nos enganar: vamos falar em linguagem para pobre, gosto de pobre, argumentos para pobre, garotos propaganda que pobre gosta, música de pobre, entendimento de pobre, pesquisa sobre pobres, estratégias para fisgar os pobres.

Não é uma questão de semântica, é uma questão de preconceito classista.  Chamar pobre de classe C mascara a real intenção de classificar as pessoas pelo seu dinheiro.

A intenção não é discorrer sobre luta de classes nem sobre ética cristã. Só parece interessante raciocinar sobre o tipo de comunicação que decorre de um “parti pris” financeiro.

Se avaliamos as pessoas pela grana, a propaganda deve, por consequência, falar quanto custa e como se paga. Propaganda de pobre deve falar “Custa pouco e você pode pagar”. Senão, o pobre não vai comprar. Põe logo um cara que pobre gosta, gritando quanto custa aquele produto que o coitado quer tanto. Não enrola e repete as coisas várias vezes pro pobre se convencer.

Na propaganda é assim. Pobre só vale pelo seu dinheiro. E como ele tem pouco dinheiro, tem que fazer muita propaganda para muitos pobres comprarem.

Simples e não precisa inventar moda.

E fora da propaganda como é?

Se o cara não tem grana, não quer dizer que ele é burro e surdo. Se o cara tem recursos limitados, não quer dizer que ele é feio e fede. Se o cara é humilde, não quer dizer que ele tem gosto simplório e só aprecia porcaria. Se o cara é um financeiramente desavantajado, não quer dizer que ele gosta de comunicação vagabunda.

A propaganda será muito mais eficiente quando ela for capaz de tocar, de provocar sentimentos, emoções, quando ela falar com o coração e não, com a cabeça. Essa é uma afirmação lugar-comum, um clichê que dez em cada dez profissional de comunicação repete como um mantra de emancipação criativa.

Mas é difícil porque as pessoas tem valor pela sua grana, mesmo que ela seja pouca. E é difícil porque no Brasil tem muito mais pobre do que rico. É difícil porque quem faz propaganda para a classe C é a classe A.

A menos que a gente assuma o preconceito ou lute contra ele.

A menos que, sempre que aparecer no briefing “Classe C”, a gente troque por “Pobre” e desista de fazer propaganda boa.

A menos que, sempre que aparecer no briefing “Classe C”, a gente devolva com um palavrão bem feio.

A Internet é um convento cheio de putas

12/03/2009 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

No início, ninguém dava muita bola para o que saia na Internet, para o que se falava nos seus inescrutáveis meandros. Era uma molecada que brincava de ser jornalista, publicitário, comediante, cineasta.

A confusão está apenas começando.

A Internet é um megafone

Toda confusão começa com uma boa intenção. A boa intenção de falar a verdade, de ser franco, de ser uma bandeira de oprimidos, incompreendidos. Mas toda causa tem um efeito. Falar o que se quer e bem se entende sempre dá confusão. E falar num megafone como a Internet, mais ainda. E o que era apenas um suspiro de frente para o espelho vira um manifesto público multiplicado ao infinito e sem controle. A vida é assim – e não só na Internet: quem te apoia avisa. Quem não te apoia se vinga sem avisar.

Pra abrir o bico, tem que ter peito

Portanto, não adianta muito bancar o jovem imaculado descobrindo o mundo cruel, o artista inspirado no seu mundo cercado de virtualidades. O mundo não é um aquário cheio de peixes Nemo. Todo mundo tem ideias e, pior, interesses próprios. A inveja é a nossa gasolina. A Internet não é diferente de nada. Ainda que ela possa parecer livre de leis – e em larga medida é – não é livre de gentes, de pessoas. E pessoas podem ser muito mais repressoras do que a mais repressora das leis.

Quinze reais de fama

A imensa possibilidade de liberdade de expressão que a Internet proporciona está na raiz utópica do sucesso dos blogs e que tais. E, por detrás dessa sede de oratória e autoria, tem a vontade de ser visto. E, por detrás da vontade de ser visto, tem a fama e uns trocos.

Mas a confusão começa quando pingam os primeiros dinheiros. Ganhar dinheiro não é tão fácil quanto parece. Não basta dizer coisas inteligentes ou fazer macacadas. Se tem dinheiro envolvido, tem regras e leis e – queiramos ou não – elas devem ser seguidas. Podem espernear, fazer campanhas, mas pintou dinheiro, pintou confusão. Esse povo tão “liberal”, tão “paz e amor” vai se chatear.

Dinheiro e espontaneidade não ornam

E a maior confusão se arma então, quando tudo fica de pernas para o ar.

Os produtores de conteúdo, os da grande mídia, acham que essa “garotada da Internet” pode dar uma renovada. Aí a molecada vai para a grande mídia com aquela farta experiência dos seus blogs e views no YouTube. Se os brothers curtem, a Dona Maria vai curtir.

As agências de propaganda, sedentas de novidades, transferem a presumida liberdade de expressão da Web para a TV. Ao invés de comprar mídia, dá-se uma ajuda de custo àqueles que irão disseminar a mensagem. Uma espécie de suborno à legitimidade.

E as marcas, elas também, começam a achar que o que liga não é fazer propaganda, mas uma espécie de brand content ou qualquer outro anglicismo bacaninha. Tipo Merchandising 2.0

Os heróis dos blogs, porém, começam a ganhar dinheiro das marcas através de suas agências de propaganda. E o dinheiro estraga tudo.

Estraga o conteúdo, que por sua vez estraga a criação publicitária, que estraga a marca. E qualquer estrago é caro, mesmo que tenha custado três tostões.