Monthly Archives: June 2009

Michael Jackson morreu antes de ter morrido

Quando Napoleão voltou de sua campanha na África, ainda como general, sua máquina de propaganda tratou de enviar notícias de suas vitórias. Ele apanhou feio em algumas batalhas, mas, mesmo assim, entrou em Paris como filho pródigo da Revolução, coberto de glórias. Afinal de contas, a verdade sempre foi – e sempre será – um fator diretamente proporcional à intensidade e à velocidade das notícias, mesmo quando elas são falsas.

Pouco mudou de lá pra cá: quem fala primeiro ganha. Na pior das hipóteses, 15 minutos de fama. Na melhor, reputação ilibada.

Michael Jackson morreu uma hora antes no site de celebridades TMZ do que nos principais veículos de comunicação. Se ele morreu mesmo, de verdade, pouco importa. O que importa é a expectativa de sua morte. É isso que segura a audiência, é o que dá fome de notícia, é o que excita o planeta. Depois do fato consumado – ou seja, quando a notícia virou unanimidade – a audiência desloca-se para outras mentiras temporárias: teria sido suicídio? Ou autodestruição? Os filhos são dele mesmo? Ele ainda é rico?

É na construção da expectativa da verdade, na criação de mentiras temporárias que reside o segredo da audiência. E quanto mais quente for a mídia, mais importante essa máxima. Na Internet, na TV, no rádio.

Entre a barriga e o furo, o furo, mesmo que ele seja uma potencial barriga. Depois desmente-se, relativiza-se, justifica-se, aluga-se outro furo e administra-se outra barriga.

Já estou vendo os bem-pensantes de plantão me xingando: “E a ‘credibilidade’? A ‘respeitabilidade?’”

Claro que de vez em quando é bom acertar, isso é óbvio. Mas não é disso que estamos falando. Jornalismo é diferente de História. E tampouco vamos filosofar se isso é bom ou ruim, se a verdade existe ou é uma quimera.

Por que a Internet enferruja as mídias antigas? Por que as mídias antigas tornam-se velhas? Há muitos argumentos; um deles, porém, pouco debatido, consiste nessa lógica da credibilidade, da checagem de fontes, das regras éticas. Na Internet parece haver uma licença para ser menos realista que o rei, porque a lógica não está mais no furo, mas na precedência do furo.

A noticia, o fato, o furo em si não interessam tanto quanto a história que o precede. É o suspense que segura a audiência, e não a morte da bezerra. E se não confirmarmos sua morte, o furo passa a ser sua ressurreição.

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Sainte-Foy de Conques: fé, ouro e paixão

“Pierre, esconda-se, corra, eles estão chegando!”

Tremendo e soluçando, é dentro do baú de carvalho que o pequeno encontra refúgio, entre salames e restos de um fausto puído. Aqueles instantes gravaram-se com navalha na memória: a mãe sob tortura, sob a risada ébria, as línguas estrangeiras, o banquete de sangue.

O século era invadido de perversas heresias, sedentos conquistadores, vadiagem de bárbaras tribos. A proteção dos elmos e escudos, das muralhas e esconderijos espanta os ladrões e corruptos. Mas quem segura os sarracenos?

Pierre retira-se do mundo, mudo. Vagueia por anos, de aldeia em aldeia e da linhagem que abandonou, da família que sumiu sob a crueldade dos homens; ele conserva o pequeno missal da mãe, o crucifixo de batismo e uma fé selvagem em Cristo.

Pierre se faz eremita nos vales do Aveyron na primeira metade do século VIII. Ele se dá a Deus e nasce assim Dadon, o santo homem.

É numa pequena e verdejante depressão que ele chamaria de Conques (do latim conca, concha) edifica sua primeira capela. A fé e a dedicação consequente elevam rapidamente o pequeno santuário à consideração dos reis carolíngios que a cobrem de riqueza. Dadon legou sua fé; o poder lega o ouro.

No entanto, Conques ainda tem baixa cotação no pedigree sacro: falta-lhe
um osso, um crânio, um cabelo, um caco de cruz, uma ferrugem, uma relíquia de santo.

Aronis era um miserável. Para escapar da fome, ele se faz monge, como tantos outros homens de igreja. No mosteiro beneditino de Agen, encontra abrigo e pequenas obrigações.

Certo dia, o irmão encarregado da faxina dos tesouros adoece, e Aronis é incumbido de lustrar as imagens. Ao entrar na pequena capela escura, uma centelha de luz reverbera no mármore polido do altar. Aronis sente seu olhar guiado, sua pelas têmporas, palpita desordenadamente sob o manto. Em um nicho lateral, uma dama dourada, oferece-lhe delicada flor. O monge cai de joelhos e contempla em adoração a Santa em sua alcova.

Não houve no Ocidente medieval mais bela e pura história de amor. Uma paixão, como todas, impossível. Um monge casto e uma santa. Um homem rude e uma estátua dourada. Um coração oco e um relicário. Aronis e a memória da pequena Foy, de 12 anos, decapitada por ordem de Diocleciano.

Por dez anos, o monge devotou à Foy um incontrolável amor.

E se paixão é doença de coração, se não mata, engorda.

Um belo dia, o doido surrupiou a estátua do convento e picou a mula sem deixar vestígios. O safado foi parar em Conques e vendeu seu amor ao corrupto abade, que colocou a cidade na mais santa de todas as santas rotas, o caminho de Santiago de Compostela (Via Podiensis).

Aronis morreu por ali, anos depois, gordo e mal-amado. Foy irradia ainda hoje, e para sempre, o mais puro sorriso de compaixão.

Essa história é meia verdade, como todas as paixões.

Minha devoção à Sainte-Foy

Tenho pelo menos três inabaláveis motivos para crer na linda santinha, com suas delicadas mãos segurando minúsculos vasos de flores.

1998, copa do mundo em terra estrangeira. Vai começar o jogo, o primeiro do Brasil. Chegada a Conques, aldeia perdida no meio do nada. Turista brasileiro ali é mais raro do que Havaianas nos pés dos monges beneditinos que ainda vagueiam pela rua estreita que leva à igreja. “Será possível que não tem um único bar aberto com televisão ligada?” Finalmente, um café com televisão. Ligada. Numa porcaria de um programa de auditório. “Madame, s’il vous plait, La Coupe du Monde de football!!” Finalmente, dois canarinhos grudados na televisão. “Shuuuut” diz a velha senhora varrendo a porta para um casal de turistas alemães, em respeito à nossa concentração. Brasil 2 X 1 Escócia. Primeiro milagre de Sainte-Foy.

2000, mais uma visita a Conques. Sem motivo. Só para rever aquele “écrin de verdure” (desculpem, mas, em português, “estojo de verdura” é medonho). Dormimos no único hotel da cidade. A igreja abre até muito tarde para receber os peregrinos, mas que tal assistir a uma missa? A próxima é às cinco e pouco da manhã. As matinas! Com os monges! Lá vamos nós. Entramos na pequena capela atrasados. Seis monges e uma velha que, educadamente, nos empresta um missal. “É pra cantar alguma coisa! E agora, o que estão cantando?”. Folheio o livro, sem muita fé. E não é que ele se abre na página certa? Arrebatados, entoamos o cântico. Segundo milagre de Sainte-Foy.

2006, Conques de novo, a caminho da Provence. É tarde e estou cansado. Vamos fazer uma parada no hotelzinho da cidade. À noite, tem pouco ou nada para fazer em Conques. Vamos ligar para a Lígia e saber como está. Ainda no hospital, a pequena Júlia em seu ventre, desenganada. Drama sem palavras. “Estou em Conques, vou fazer uma promessa amanhã”. Por procuração, claro, uma vez que minha religiosidade se perdeu em algum prazer proibido. Cem velas para Sainte-Foy se minha afiliada conseguir vencer seu prematuro sofrimento. Júlia tem hoje três anos é linda e forte. Uma vencedora antes de ser gente. Terceiro milagre de Sainte-Foy.

Serviços

Para ir a Conques, é simples. Basta colocar no GPS do carro. Se não estiver de carro, tente o caminho de Santiago, a pé. Não tem muito o que indicar em Conques. Está tudo lá, à mão, sem stress, sem guia tagarela, sem galleries Lafayette e sem japonês.

Hotel só tem um razoável, o “Le Sainte Foy”. Mas se quiser um pouco mais de luxo, ali do ladinho, tem o mais confortável “Le Moulin de Cambelong”.

Comer, não tem opção. A sugestão é sempre a mesma quando você se perde na “France profonde”: uma salada qualquer, um sanduíche de camembert ou um steak-frittes.

O que ver também não tem segredos: a basílica romana (no fim da rua) e o museu com o tesouro (incluindo a belíssima Sainte Foix). Fora isso, se deixe levar pela rua, saia da aldeia, volte, saia de novo. Compre um sorvete e sente num banco olhando o tempo passar. Você nem vai perceber, mas de repente anoiteceu e você já está com saudade.

Perto de Conques existem outras etapas imperdíveis:

– Rocamadour com sua aldeia, santuário e castelo trepados no precipício.
– Albi e sua catedral fortaleza com as mais flamejantes pinturas remanescentes de um tempo em que as igrejas eram coloridas.
– Cordes sur Ciel e o silêncio dos cátaros sacrificados.
– Martel e seu mercado de flores.
– La Roque-Gageac e seu castelo debruçado no rio.
– Sarlat la Canéda e a memória de um grande poeta, La Boëtie.
– Domme e sua terraço sobre a Dordogne.

Publicado na revista Mag

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Rede social (Orkut) é coisa de pobre?

Quase todos os dias desvio do meu caminho para dar uma passada voyeurística por um corredor de um shopping que dá uma excelente visão sobre as telas dos computadores de uma LAN house frequentada por todo tipo de pessoas. É óbvio que a proporção de perfis do Orkut escancarados é altíssima. Concedo aos culturetes: alguns social climbers estão no Facebook e Twitter.

Por vezes, a curiosidade me corroi, e me arregalo na vitrine: “Que diabos essas pessoas tanto têm a fazer?”ou “Será que está todo mundo a perigo?” ou ainda “Pra que tanto lustre na egotrip?”.

Outro dia, conversei um pouco com o rapaz que assessora as pessoas menos familiarizadas com os insuportáveis filtros e antivírus do sistema.

– Aquela lá vem todo dia. A mãe mora em Porto Alegre. Todo dia ela fala com a mãe.

Mas a moça não estava escrevendo nenhum email, nem falando no skype, nem no MSN. Nem Facebook nem Twitter, perdoem-me, é pesquisa etnográfica, gente, não posso mentir! Ela estava no Orkut. Não, pessoal, ela não era uma pé-rapada nem me pareceu ser uma ignorantona que só sabe usar essas coisas básicas da Internet como esses caras da classe C!

O Orkut e a superpovoada rede social novo-chique, está substituindo o email.

Àqueles que acreditam em pesquisa para além do umbigo, aí vão os dados, entre pessoas que acessam a Internet no Brasil (F/Radar 2009):

– Penetração do email na classe AB: 68%
– Penetração do Orkut na classe AB: 48%
– Penetração do email na classe C: 50%
– Penetração do Orkut na classe C: 50%

Que não se apressem os analistas de plantão: há “depenetração” do uso do email maior na classe AB sem “depenetração” do uso do Orkut (em ambas).

Não vou me aventurar a comentar o fato porque vou apanhar, mas contanto que não usem o preconceito para dizer que isso acontece porque os pobres miseráveis estão usurpando a Internet, valem muitas hipóteses!

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Como é gostoso o meu transtorno

Não posso deixar de repercutir um artigo publicado no Webinsider.

Trata-se de um pequeno “fait divers” ocorrido muito tempo atrás. Sem entrar em detalhes, até porque prefiro que leiam o original, eu só queria dizer que nunca me importei com a cópia, envergonhada ou desavergonhada, do que escrevo. Me diverte mais do que chateia.

Mas talvez o que seja fascinante, na experiência do exercício diário de escrever (com ou sem obrigação) é quando a rotina por si só motiva. Como uma espécie de superstição que controla consciente ou inconscientemente a vida. Esse conforto psicológico dá segurança, dá coragem, dá ousadia. É uma dose diária de prazer.

Extravasar um inefável Transtorno Obsessivo-Compulsivo é muito mais gostoso do que buscar quinze minutos de fama, chupando ou criando.

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Sexo virtual, fim de papo

Muitos anos atrás, uma revista bacana me convidou a colaborar. Aceitei o tema livre de imediato. Resolvi falar sobre comportamento online. No primeiro artigo, recebi a seguinte avaliação: “nosso leitor é uma pessoa outdoor, que se realiza em atividades esportivas e culturais. Não curte essa coisa de computador”. Esses eram os termos aproximados do recado. Enfureceram-me confesso muito mais por ter me qualificado de troglodita digital do que pela miopia neo-hippie.

Até hoje, o hit parade dos meus artigos chama-se “namorodromos existem”. Bem que eu gostaria de ser uma espécie de Palmirinha da cibercoisa e ter compaixão e senso de humor suficientes para responder calmamente às dezenas de comentários que recebo até hoje sobre esse texto decano.

Mas hoje não tem mais polêmica ou mistério supor que muita gente – quase todo mundo – se relaciona através na Internet e que esse relacionamento ultrapassa em muito as fronteiras da decência vitoriana. Inclusive os surfistas da revista que me rejeitou.

Uma coisa é elaborar uma hipótese qualitativa razoavelmente embasada em meia dúzia de buscas, outra é escancarar um numero.

A penúltima pesquisa F/Radar de agosto de 2008 quis perguntar para os sessenta e cinco milhões de brasileiros que têm acesso à Internet no país se eles já tinham se relacionados intimamente com pessoas que tinham conhecido virtualmente e também se tinham tido alguma troca, digamos, mais intensa.

11% responderam afirmativamente à primeira questão, (segundo recente pesquisa do Ministério da Saúde, 7,3% da população adulta do país já conheceram um parceiro sexual pela Internet). Como sempre nesse tipo de pergunta embaraçosa, é de duvidar da resposta honesta. Portanto, o truque é indagar para as pessoas, na sequência, se “conhecem quem fez sexo com alguém que conheceu na Internet”. A resposta mais que dobra: 38%, ou seja, 24 milhões de pessoas. Já sobre o tal sexo virtual, 25% das pessoas (16 milhões) já fizeram ou conhecem quem já fez.

Como esse número não foi publicado em lugar algum, achei interessante divulgá-lo. Não apenas para encarnar o fantasma quantitativamente, mas simplesmente para encerrar o caso. Não interessa mais falar nesse assunto. Não é caso de vergonha pública. Só normalidade, sem interesse.

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Redes sociais é eufemismo

A gente tem mania de categorizar os fenômenos depois do sucesso de uma marca: lâmina de barbear, sandália de borracha, leitor de MP3, ferramentas de busca, redes sociais.

Ninguém quer pagar duplicidade na Rede Globo, mas esses nomes são pretensiosos, feios e falsos.

A última pesquisa F/Radar confirma: redes sociais no Brasil tem um nome, Orkut. As outras simplesmente não existem. O Facebook e o Twitter são fenômenos apenas nas redações e nos papos descolados, enquanto quarenta milhões de indivíduos são orkuteiros convictos. A pesquisa, que tem 2 pontos percentuais de margem de erro, não consegue ler nada desses grandes booms midiáticos.

Então, vamos falar sério: esse papinho de redes sociais é um eufemismo.

E por falar em Orkut, a pesquisa revela interessantes conclusões.

O Orkut é um fenômeno interessantíssimo porque atinge todas as classes sociais com igual importância. É claro que, considerando que a penetração da Internet praticamente não tem mais para onde crescer nas classes AB, ele cresce mais nas classes CDE. O mesmo, considerando as faixas etárias: todo jovem tem Orkut e o incremento mais importante se dá, portanto, entre os tiozinhos. Preparem-se para o Orkut continuar crescendo avassaladoramente.

Por outro lado, perguntou-se qual é o tipo de “colaboração” mais frequente na Internet. A maioria das pessoas usa a Internet e, portanto, o Orkut para publicar fotos e textos sobre sua vida pessoal. Como se a Internet e, portanto, o Orkut fosse uma carteira de identidade, um atestado de existência. Um perfil na Internet e, portanto, no Orkut nivela todas as classes, todas as idades, todos os preconceitos. A Internet e, portanto, o Orkut é a grande ágora dos cidadãos, uma espécie de chuveiro coletivo, um praia, uma mesa de cirurgia, uma estrada congestionada, uma fila na Polícia Federal, um instituto médico legal. A diferença se faz notar pelos predicados, e não pelos penduricalhos. Pelos dotes, e não pelas próteses. É justamente por isso que o Orkut é assim, a Internet brasileira.

A Internet e, portanto o Orkut, ou melhor, o Orkut e, portanto, a Internet é o que interessa. Não vamos perder tempo com o resto.

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O mea-culpa da mídia de massa

“O jovem está menos na TV por causa da Internet”, “O hábito de consumo de mídia mudou por causa da Internet”, “A TV e o jornal morreram por causa da Internet”, Blá-blá-blá-blá-blá.

Profetiza-se muito sobre o futuro das mídias e, apesar disso secretar uma interrogação perturbadora, uma
espécie de dor de cotovelo ou um entusiasmo reacionário, ninguém ousa mais revelar suas angústias.

“A plataforma não interessa mais”, “As plataformas são complementares”, “A TV tem que convergir pra Internet”, “A Internet tem que convergir pras outras mídias”, Blá-blá-blá-blá-blá.

A conclusão de dez entre dez raciocínios bem-pensantes do “novo papel das mídias” passa inconscientemente por uma espécie de fatalismo: “Vamos nos adaptar, a Internet é uma realidade”. Conclusão essa que resulta num mash-up trágico: conteúdo televisivo na Internet, internauta na televisão, e por aí vai para citar só alguns.

E agora, a questão não é mais apenas entender o funcionamento de cada mídia, o papel do conteúdo em cada plataforma, o formato, a gramática e a linguagem de cada meio.

Talvez seja mais construtivo entender a Internet como consequência e não causa. Não é “por causa da Internet que a TV deve ser isso ou aquilo”, mas porque a TV é isso ou aquilo, que a Internet é o que é.

Em outras palavras, energia de mais é investida em adaptar as mídias antigas ao ambiente digital e energia de pouco em pensar como as mídias antigas deveriam se adaptar às novas demandas das pessoas. Não é por causa da Internet, é por causa das pessoas.

Antes de assumir a derrota, deveríamos assumir os erros. Antes de pensar na Internet, deveríamos pensar nas nossas mídias “antigas”. E pensar nas mídias antigas não deve significar necessariamente “internetizá-las”.

Não é só porque as pessoas querem participar, não é porque as pessoas não aceitam mais a estrutura hierárquica da difusão de informação e entretenimento, que as mídias antigas estão ameaçadas. É porque elas erram em outras lógicas próprias, de formato e linguagem, que elas despertaram nas pessoas essas vontades.

Essa inversão de raciocínio é muito mais excitante e desafiadora: como é que voltamos a ter importância, como é que voltamos a cativar o jovem, como é que voltamos a ser hábito, sem mexer uma única linha na lógica das mídias de massa, por definição de poucos para muitos e com uma postura passiva das audiências?

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O “mas-funcionalismo” e a propaganda

James Lovelock, ambientalista de primeira hora, costuma dizer, para desespero dos ecomilitantes, que a terra, Gaia, com homem ou sem homem, com ou sem xixi no banho, vai aquecer. Estamos dedicando energia de mais para salvar e de menos para nos adaptar.

Da mesma forma, comunicar, com ou sem inteligência, com ou sem criatividade, vende. Fazer propaganda funciona. E o argumento do “funciona” é um poderosíssimo álibi intelectual.

Felizmente, não somos tão primários. Felizmente gostamos de comida bem-preparada, de casas bonitas, roupas elegantes, carros modernos. Felizmente comida não é só nutrição, casa só habitação, roupa só pudor, carro só locomoção.

Então, sofisticamos o raciocínio e, ao invés de justificar nossas escolhas por um blasé “funciona”, acrescentamos-lhe um “mas”: “mas funciona”. Nosso álibi torna-se consolo e compensação emocional. A comida tava ruim, mas não temos fome; a casa é feia, mas não dormimos na rua; a roupa é cafona, mas não revelamos nossas vergonhas; o carro é simplesinho, mas é melhor que ir a pé. E os mas-funcionalistas ganham a cada dia mais espaço e voz na propaganda brasileira: “a propaganda é uma porcaria, mas funciona”.

Pouco importa aqui desconstruir esse raciocínio preguiçoso. Até porque provavelmente ninguém assumiria o “mas” como conjunção do “porcaria”. Os mas-funcionalistas não gostam muito de perder tempo com argumentações intelectualoides e onanismos mentais.

No entanto, para outros, propaganda que funciona é tão excitante quanto se alimentar com sonda intravenosa, tão confortável quanto um abrigo antinuclear, tão sexy quanto uma bata de batik, tão poderoso quanto um passo-doble. Funcionar? Mas é claro que deve funcionar e provavelmente funcionaria “comigo ou sem-migo”.

A propaganda que se quer é uma que rentabiliza de verdade o investimento – e não apenas fazendo cálculos de frequência e cobertura. A propaganda que se quer é uma que assuma sua responsabilidade de moldar culturas.

O que mais pode-se fazer além de funcionar?

Essa é a pergunta que faz alguns poucos levantarem-se de manhã e resistir ao precipício medíocre da sobrevivência. São aqueles para quem propaganda não é função, é vocação.

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Deuses-Contadores ou Deuses-Compaixão?

Um bilhão de pessoas na terra estão abaixo da linha de pobreza. Centenas de milhões morrem de fome. E nós aqui preocupados em fazer xixi no banho para salvar a mata atlântica.

E entram em ação dois antagônicos argumentos: o do “melhor do que nada” e o do “não adianta”.

O do “melhor do que nada” é uma espécie de compensação falaciosa da nossa consciência. Como se Deuses-Contadores fizessem fichas-razão de débito/crédito das nossas ações. Uma moeda com conversão universal nos tornaria mais ou menos abonados para desfrutar de mais ou menos conforto no além. E no final de nossas vidas, a gente faz as contas com os donos do time-sharing do céu.

Argumento romanticamente ingênuo, principalmente quando em face do “não adianta”.

Esse poderoso argumento faz as contas antes. É mais esperto, mais informado e mais racional. Como se os Deuses fossem tolos velhinhos de infinita compaixão. As nossas esmolas nunca irão resolver a fome do mundo, nossos votos nunca serão mais poderosos do que a ganância dos poderosos. E no final das nossas vidas, a gente paga uma lápide mais ou menos rica, compra uma memória mais ou menos nobre.

Mas, enquanto isso, um terço da África está contaminada pelo vírus da AIDS, e a gente prefere dizer que a culpa é dos governos corruptos, das guerras intestinas, das rivalidades tribais ou de algum inconfessável preconceito. Ou que é culpa da classe média americana, dos interesses das multinacionais, do imperialismo (ou colonialismo) ou outro egoísmo burguês como nossas leis e direitos profanos.

E, enquanto a gente não decide que Deuses adorar, para os homens o mundo é bem pior do que quando eles foram inventados.

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