Caro T.

Obrigado pelo seu email mas não sei ao certo porque estou respondendo. Sim, a vida que levamos nos torna mal educados. Ou então mais impulsivos e verdadeiros, se entendermos que educação é a arte de esconder a sinceridade por detrás de pílulas douradas. Administrar o tempo é a formula da sobrevivência e nem sempre fazemos as escolhas mais simpáticas.

Li seu email e, apesar dos salamaleques, você fala um pouco das suas duvidas, genéricas e grandiosas. E elas me trouxeram uma gostosa nostalgia. Uma certa saudade desse tempo em que eu nadava aflito no aquário, com aquelas impenetráveis paredes de vidro que me projetavam um mundo de infinitas possibilidades.

Mas levei o assunto um pouco mais a serio quando você me acusa de retratar uma realidade crua. Foi então que fiquei preocupado. Realidade e crueza são termos redundantes no meu vocabulário.

A realidade é crua e só conheço um jeito de engolir: voltar para o aquário. Voltar a ser inquieto e louco para fazer grandes coisas impossíveis.

Minha confissão é a expressividade. O fauvismo me cativa mais do que o impressionismo, o preto no branco mais do que o cinza, a opinião mais que o consenso, o extremo mais que o mínimo denominador comum.

T., o único conselho que posso lhe dar é você aprender a equilibrar convicção com curiosidade. A sinceridade sempre será premiada. A coluna do meio pode até te dar dinheiro, mulheres e fama mas se não é só isso que você procura, então talvez você goste desse mundo. Se você acredita em responsabilidade e utopia, o clichê não vai matar a sua fome, nem o truque, nem a grana.

A imaginação é mais importante que a ciência, e quem disso isso foi o maior cientista do século XX.

Na propaganda, ainda tem quem ache melhor adormecer do que despertar. O desconforto é melhor do que o chinelão passe-partout, e quem diz isso é o peixinho que lhe escreve.

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