Archive for August, 2009

O suicídio dos hiperativos é intriga

31/08/2009 em Internet, Sei lá | 3 Comentários »

Todos os dias, toda hora, temos que ver centenas de posts, ler uma dezena de jornais nos quatro cantos em quatro línguas e ainda pensar sobre todos, produzir sobre alguns, atualizar os perfis, responder às mensagens, ser inteligente, original, analítico e histericamente curiosos. Também temos que fazer monstruosos exercícios de memorização, de associação de significados e organizar tudo em hierarquias funcionais e criativas. Meu pai só tinha dois jornais para ler. Sortudo.

Não é mole manter-se vivo hoje em dia. A menos, é claro, que a gente despreze o mundo com o ar blasé de um “isso eu já vi”, “isso passa” ou pior, “nada mudou”.

Minha tia Inha tem 103 anos. É lúcida e tem saúde. Por vezes, ela suspira “será que Deus esqueceu-se de mim?” mas enquanto ela puder ler e ver novelas, é feliz. “Sabe meu filho, eu adoro ler. Passo o dia lendo, lendo, lendo. Enquanto estou lá, no livro, fico muito curiosa, gosto demais. Mas quando chego no final, sabe de uma coisa? Já esqueci de tudo. Então, volto para o começo. Só troco de livro quando vocês me dão um novo. Mas não carece não, visse?”

Talvez tenhamos a pretensão de achar que nunca, na história do homem, a velocidade das transformações foi tão grande e profunda. Se leda presunção, complexo de insignificância ou vaidade crônica, a cobrança do mundo tempera nossa ansiedade. E vamos investindo, porque o cérebro é elástico e o tempo uma trapaça.

O pianista de redingote esbofa-se sobre a partitura para uma interpretação nova, fresca, contemporânea de uma obra composta há trezentos anos. A platéia em êxtase, trejeita muxoxos oitocentistas. Há mais de século que a cena se repete. O cara não tem facebook, nem blog, nem sabe, coitado, que ele pode dar um boost na sua popularidade twittando adoidado.

Se parte da humanidade reza “tomara que eu morra a tempo” todos os dias, a outra, felizmente, reza o contrario. Escolha e relaxe.

Youtube e Rede Globo são concorrentes sim

28/08/2009 em Internet, Propaganda | 3 Comentários »

Quando o fundador do Youtube afirma que a mídia Internet vai acabar com a Televisão, não podemos nos deixar enganar pela já clássica falácia que confunde a plataforma com o conteúdo. A plataforma é a máquina, o conteúdo é o que a máquina exibe.

O que o cara está portanto dizendo pode ser visto de duas maneiras.

Plataformísticamente, o computador (ou que tais) vai acabar com o aparelho de televisão. É a HP versus a Phillips, por exemplo.

Conteúdísticamente, aquilo que se exibe na Internet, da forma como se exibe e da forma como se assiste é que está espezinhando os formatos tradicionais da televisão. Queiramos ou não, é sim o Youtube versus a Rede Globo.

Discutir plataforma é perda de tempo porque é nessa praia que a convergência rola, e bem.

Conteúdos e forma de produzi-los é uma discussão muito mais fértil.

O Youtube se diz uma plataforma de exibição. Ora, as emissoras de televisão também. Portanto, são concorrentes desse lado da moeda.

As redes de TV produzem ou adquirem conteúdos. Ora, o Youtube apesar de não ter estúdios e claquetes, também.

É que o Youtube sacou antes e melhor o que significa “produzir / adquirir” conteúdos hoje.

Ele sacou primeiro que direito autoral é uma vaga e fracassada utopia de dominação.

Entendeu que existem muito mais autores do que deixam supor as peneiras da Rede Globo.

Foi mais esperto porque entendeu que ninguém tolera mais o cabresto das grades de programação mas deseja o vôo semi guiado por algoritmos de relevância (audiência, cruzamentos de preferências, ratings, etc).

Ainda, o Youtube sabe da fragmentação da audiência e da atenção e que é muito chato ficar horas assistindo certos conteúdos quando se pode ir diretamente aos livremente editados. E “livremente” é palavra chave na afirmação como o contrário de “curado, escolhido por curadores”.

Por fim, o Youtube vai mais fundo na sua ciência e desenvolve ferramentas de produção / criação para seus fornecedores de conteúdo, inclusive seus concorrentes (com ou sem autorização). Ele dá espaço, ele dá interação, ele dá conexão e, vejam que louco, ele dá audiência.

E tudo isso, sem falar de medição de audiência e da maioridade do Youtube fechando contratos de exibição com estúdios.

Então deixemos de meias palavras: ou a televisão entende e aceita, e rápido, o que é produzir conteúdo hoje, ou ela aceita que é concorrente do Youtube. Ou vai dormir ou vai pra cima.

#ForaLeisDeControleDaInternet

27/08/2009 em Internet | Tags: | 3 Comentários »

Se as elites vivem num disco voador, movido por tendências gringas ingurgitadas com caroço, e em rota de fuga do planeta, o que dizer dos nossos augustos legisladores? São icebergs à deriva numa realidade que lhes escapa por proselitismo medieval.

Quando a inquisição reconhece o tamanho da heresia, é com o poder de sua ignorância brutal que ela reage: tramita no congresso uma lei que pretende estabelecer regras sobre o jornalismo e a propaganda eleitoral na Internet. O manicômio federal excita-se com as perspectivas de arrebanhar eleitores em troca de poucos espelhinhos. Mas os zelosos democratas querem que a corrida seja justa e não privilegie interesses financeiros.

O que fizemos a Deus para merecer essa corte dos milagres? Não, não entenderam nada e nunca vão entender.

Alô, presta atenção de uma vez por todas: não dá para legislar sobre a Internet, ta entendendo? Sim, ela está acima dos interesses porque contrariamente a vocês, ela tira sua força de um sufrágio legítimo.

Um portal de Internet não pode dar tratamento privilegiado a um candidato. Alô? Portal? O que é isso? Quem liga pra isso?

Ta bom, vão lá censurar os portais. Sabem o que vai acontecer? Os candidatos (vocês mesmo que legislam com tanta ética hoje) vão sair fazendo e comprando blogs individuais ou seus autores, e pronto.

Ah, espertinhos, querem obrigar a dar direito de resposta a quem “difamar” um candidato? Tipo assim, se eu disser, no meu blog, que o Jabba the Hutt é corrupto vou ter que dar espaço para ele responder? No meu blog que NÃO é uma concessão pública? Façamos assim: Jabba, te dou o blog inteiro, divirta-se, pode escrever o que quiser. Os leitores vão adorar te ver na minha praia e tenho certeza que você vai conseguir convencê-los que você é o Mister Magoo.

Mas o projeto ainda avisa que a propaganda eleitoral só será permitida nos blogs, sites, comunidades e outros veículos do próprio candidato. Como assim? Não vai ter propaganda eleitoral gratuita? Ué, mas não somos um povo ignorante que não sabe votar?

Vamos parando. Não dá para entender nada. Só que o projeto é conduzido pelos senadores #ForaMarcoMaciel e #ForaEduardoAzeredo. Sacaram o naipe do trem fantasma?

Bye bye dead tree society

26/08/2009 em Internet, Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Minha irmã acaba de escrever um livro (muito lindo) para a maior editora da França. Jabá orgulhoso feito, ela contou-me como se dá o lançamento.

Que a Internet já mudou toda a cadeia produtiva e de divulgação de muitos setores, todo mundo sabe. Mas é de se alegrar quando uma indústria tão empoeirada, que tira seu sustento precisamente daquilo que está moribundo – a coisa publicada em papel – desperta, do alto de suas sábias rugas.

Quando o livro ainda está manuscrito, a editora envia uma copia, digitalmente é claro, para cerca de 200 leitores que se interessam pelo tipo de literatura em questão. Até aí, nada de novo: as editoras sempre fizeram esse tipo de teste.

Mas o que é diferente é que esses leitores estão devidamente conectados com seus próprios blogs e redes. A turma do sem-blog não serve, assim como não interessa quem só escreva em veículos especializados dead tree society.

A segunda novidade é que essas pessoas estão autorizados a divulgar criticas e o que quiserem do livro para seus leitores, mesmo que seja para destruir a obra ou xupinhá-la. Já sacaram que censura, jabá cozinhado e controle de pirataria é feitiço contra o feiticeiro.

Tudo isso acontece muitos meses antes do lançamento. Depois de um tempo, a editora analisa as repercussões, dos blogueiros e da audiência. Isso irá pautar o tipo de lançamento, o investimento na divulgação, e, claro, a tiragem do livro.

Simpática formula de lançamento.

Mas perguntei-me o que seria da imprensa tradicional.

Pois bem, a imprensa tradicional corre atrás. Ela corre atrás dos blogs, lê os trechos divulgados, acompanha os comentários e depois de solicitar o livro para a editora, planeja sua cobertura. Simples assim: atrasadinha que só. E, eventualmente, para recuperar o tempo perdido, ela resolve patrocinar o lançamento se associando na empreitada. Faz publicidade no livro e nos blogs que já “lançaram” o livro. Como se a Rede Globo resolvesse anunciar no livro do Paulo Coelho lançado pela Planeta (chamando por exemplo para um seriado sobre o autor na TV).

A estratégia é tão cristalina e lógica, que assim contada, parece óbvia. E é.

Só assusta um pouco perceber que, com marginais exceções de nicho, o Brasil ainda valoriza conceitos tão antigos como exclusividade, jabás pagos, reverência aos veículos tradicionais, peneiradores de conteúdo e controle de direito autoral.

Sei não, mas no mercado editorial, na imprensa tradicional, nas agências de propaganda e além,“I see dead people”.

Seu burro! Tá na Internet!

25/08/2009 em Internet | 6 Comentários »

Todo mundo tem um amigo sabichão, que lhe dá a escalação de todos os filmes, seriados e talk-shows, recita tiradas inteiras do seu personagem favorito e ainda dá uma aula sobre os bastidores íntimos dos atores. Ele também conhece todas as capitais do mundo, já visitou todas as exposições e museus, já comeu em todos os restaurantes, bebeu todos os vinhos e, como ninguém, debate sobre a fabricação do aceto balsâmico, a diferença entre bacalhau e seus primos sem cabeça e a dieta alimentar de um esturjão iraniano. Alguns desses ainda pontuam as interferências com vasta bibliografia.

Notas de rodapé ambulantes, esses xuxuzinhos da ‘fessora, sempre têm uma palavra amiga para completar sua falta de memória ou disfarçar sua ignorância.

A gente passava horas copiando enciclopédias, decalcando tudo com papel vegetal e, Matisses em gestação, decorando a cartolina para louvar a pátria, as leveduras de Pasteur ou as barbas de um imperador.

As professoras não gostam da Internet. Essa maldita rede, tirou toda poesia e horror dos horrores, banalizou o conhecimento.

Mas sabichão que nasce sabichão sabe se modernizar. Se não se pode mais rivalizar com a rapidez da Wikipedia, tem um outro jeito, e por enquanto, imbatível.

O jeito é ser trend-kicker, ou seja, chutador de tendências. Sabe aquele cara que te vomita em 5 minutos o que esta pegando internet afora? Aquela rede social incrível que ta bombando e que você nunca ouviu falar, aquele blog de um japonês que só escreve num htmlês pra inglês ver, aquele sueco de 18 anos que ficou milionário vendendo cadarço de all-star, aquele mega-hiper-cool produtor de mashups com bilhões de views no youtube? Tudo comprovadamente super-hype: afinal de contas, números é o que não faltam na internet.

Tempos hipermodernos são assim mesmo: um mito, uma moda e um pentelho a cada segundo.

60 milhões de Internautas não é nada

24/08/2009 em Internet | 6 Comentários »

Na semana passada, o Ibope revelou seus novos números sobre o acesso à Internet. Milhões de pessoas, em menos de um mês, passaram a acessá-la, segundo o instituto. O brasileiro é extremamente precoce, rápido no aprendizado e todos os dias descobrimos novos rincões inexplorados, no pais. Ainda deve ter muita gente brincando de esconde-esconde com as metodologias de pesquisa.

Pesquisa é uma questão de ponto de vista. Mas para que serve? Se a torre de controle já sacou que quase todo mundo acessa a Internet, imagina se aterrissarmos no Brasil de todos os dias.

“A maioria dos conteúdos da Internet é em inglês mas, embora isso cause alguns problemas de inclusão digital, isso vai ser resolvido, a nível de Brasília”.

Essa tal de rede é muito popular, isso o Ibope garantiu, além de outras características muito interessantes como por exemplo de que as pessoas ficam muito tempo conectadas, batendo recordes mundiais todos os dias. Incrível mesmo essa Internet. O Brasil também é muito impressionantemente moderno, rápido e tecnológico. Até os pobres coitados que acessam a Internet fora de casa e que num passe de mágica aprenderam a usar o computador, juntaram-se aos oficialmente conectados.

Mas para que diabo serve esse número? Além de ornar lindas apresentações sobre a pujança do país, além de convencer céticos em extinção, não serve para nada porque a Internet não é nada.

Saber que há 60 milhões de internautas é tão esclarecedor quanto aprender que os brasileiros sabem usar energia elétrica, que torcem para a seleção e que a maioria deles tem dois olhos, uma boca e duas mãos.

O que a gente precisa saber é o que esse povo faz uma vez conectado, onde vai, o que usa, como usa, porque usa. O que a gente precisa descobrir é onde eles deixaram de ir, o que deixaram de usar e porque. Se é que deixaram. A gente precisa saber que povo, ou que povos, são esses.

De resto, “a nível de Brasília”, devem ter ficado muito satisfeitos. Dona Internet também pulou de alegria.

Censura combina com CQC?

21/08/2009 em Internet | Tags: , | 6 Comentários »

O jornalismo é a profissão de dilemas de consciência medicados com cabrestos éticos e regras de conduta. Afinal de contas, além de escarafunchar, debater e analisar os fatos de sociedade, o jornalista torreia seus impulsos e epifanias para que o retrato seja limpo, claro, inequívoco e acima de tudo, honesto.

Assim rezam os ortodoxos.

Mas nos tempos da mídia espetaculosa e seus rolos compressores de audiência, o homem atrás da notícia também estrela a pantomima do carisma. A observação, a  análise, são o palco da intenção e opinião. O script deve cativar e emocionar. Sensacionalismo oblige.

Assim doutrina a mídia de massa.

E eis que surge o big bang: os meios de distribuição de informação explodem ao infinito e os públicos se esfacelam. Quando existe um jornalista potencial atrás de cada cidadão, quando existe um órgão de imprensa em gestação por detrás de cada browser aberto, o ofício quebra todos os juramentos. Improvisa-se com seus próprios parcos meios e métodos.

Todo mundo que já é técnico de futebol vira jornalista.

Temos também um híbrido de tudo isso. O jornalismo honesto, carismático e caseiro, mais conhecido como jornalismo pentelho e mal educado. Aquele jornalismo com pose de inocente mas cheio de malícia. Mascarado atrás de um humor imberbe, ridiculariza-se o mundo, os fatos e as pessoas. É o jornalismo do senso comum e da obviedade ululante.  Quando a inteligência, o carisma e o improviso estão a serviço da sabedoria de boteco, o desperdiço de talento desopila o fígado mas cansa.

Há espaço e utilidade para os doutos vovôs, os super stars maquiados e os palhaços.

Na coluna do Ancelmo Góis de ontem, um repórter do Globo entrevistava um integrante do CQC à La CQC. Nada demais, mas engraçado. E lá fui eu, indicar o link para ilustrar esse post. Mas vejam que curioso: o vídeo indica: “esse vídeo não está mais disponível devido a reivindicação de direitos autorais da Rafinha Productions”. Quem é Rafinha Productions?

É proibido dizer “internet é barato”

20/08/2009 em Internet | 5 Comentários »

Os professores pardais de fralda e as amigas nerds da maga patológica renovam o paradigma que acomete o mercado de produtores de comunicação e conteúdo na Internet: é mais barato. Ainda grassa o argumento de que investir na Internet significa, antes de praticidade, antes de pertinência, de foco, de abertura de novas interfaces e clientes, economia.

Embora existam mais de 60 milhões de pessoas que acessam a internet com freqüência no Brasil, o ambiente permanece sendo um pântano e talvez seja essa mesma a sua natureza. É difícil navegar num terreno tão instável a não ser com mente de explorador. Experiência significa risco e risco significa dinheiro. Não pode ser barato. O primeiro viés de análise nunca pode ser a economia.

Há alguns anos atrás, ainda era aceitável que, diante de uma fronteira assustadoramente revolucionária, os decisores encafifassem suas decisões por detrás da ignorância: se custar barato, vá lá que seja, vamos ver no que dá.

Mas lá se vai uma geração inteira desde as primeiras experiências e já se renovaram as cabeças. Muito pouco mudou de lá pra cá a não ser a vulgarização. Hoje todos falam em nuvem de presença, de colaboração, co-criação, branded-content, por exemplo, como se fossem a pólvora. É bom que essas idéias virem clichê, só não são novas. É bom que os neófitos arrotem teorias e uma selva de referências blogais. Economiza um tempo danado. Os  evangelizadores cansaram. É melhor lidar com a arrogância do novo alfabetizado do que com a ironia do velho careta. Prefere-se engolir uma aulinha do que um sorriso de desprezo.

Mas o que não orna com a nova geração nem com com os reciclados dinos é continuar comprando na xepa. E se tem xepa é porque tem gente vendendo barato.

São lindas essas novas-velhas fronteiras. Mas são difíceis, trabalhosas, com entregas complexas , demoradas, necessariamente caras.

Ou então, é isso aí: o fim da feira é barato, meio podre, e dura pouco.

Rede Record que Deus lhe pague

19/08/2009 em Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Pascal apostou. Ninguém sabe se Deus existe mesmo, então considere as seguintes alternativas. Se Deus não existe e você morrer infiel, até que você não se dá mal. Já se Ele não existe e você morrer temente a Deus, nada de errado com seus days after. Agora, se ele existir e você nunca comungou de sua palavra, você está ferrado. E se ele existir e você pagou penitência, ajoelhou no milho e pagou o dízimo, o reino dos céus será seu novo lar. O filósofo, matemático, físico e carola vivia no século 17. Seu cristalino raciocínio fez um strike nos céticos iluministas, que já namoravam na época com um pensamento mais livre e agnóstico.

Muita água rolou debaixo da ponte depois disso. Veio a revolução francesa que baniu a igreja do poder de estado. Vieram outras culturas, outras crenças, a liberdade de culto e o melting pot religioso. Vieram também as revolução de costumes, o respeito às minorias, a democracia lutando contra os tiranos e os tiranos contra os libertos.

E hoje as mídias temperam nossa existência. Ver e interagir, criar e colaborar, publicar e sonhar com a fama, declaram nossos novos direitos de humanos.

Que uma igreja tenha todo direito de ter um canal de televisão, uma plataforma de mídia, políticos e lobistas não está em pauta. Que uma igreja possa fazer mágicas dogmáticas com a aposta de Blaise Pascal, entre quatro abóbodas sacralizadas de neon e batalhões de evangelizadores, não interessa. Ela é senhora de sua pregação. Se ela está afim de passar o chapéu, de surrupiar as economias dos fieis em troca do loteamento do céu, azar do latifundiário divino e dos sem-nuvem.

Mas quando uma igreja transforma seu templo em Shopping Center, quando uma igreja entra na lógica do sistema e o óbolo presumidamente espontâneo vira fonte de financiamento, a aposta é outra. Quando a palavra de Deus lastreia um negócio e os vendilhões invadiram o templo, a esmola é lucro e como tal deve ser taxada.

Deixai a Rede Record em paz e transformai sua igreja em contribuinte.

Se pode botox, photoshop pode

18/08/2009 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

-    Edna para Marina: Querida, você por aqui? Quem diria que você iria se render à tecnologia! Você tá um show na foto!
-    Marina para Edna: Obrigado, fofa. Quanto tempo né? Viu minha menina que linda?
-    Edna para Marina: Loirona linda, um pecado! Como crescem rápido, não é mesmo?
-    Marina para Edna: A Pita é morena. A loira sou eu hahahaha
-    Edna para Marina: Ah tá, claro, nossa, os anos não passam para você. Beijão.

Uma tia antiga era muito vaidosa. Ela não podia ver uma superfície brilhante que ela já posava, com olhar “fatale” e a boca trejeitando “je suis comme je suis, je suis faite comme ça ” (olhar caô e trejeito de cachorra, em livre tradução contemporânea). Seu melhor lado era o esquerdo, de esguelha, e como ela estava sempre se mirando, a gente só via o direito, o ruim. O bom, era só pra ela.

Você nunca reparou que ninguém percebe que aquela foto lá não foi exatamente ontem, nem naquele todo dia que você vive? Que nunca comentaram aquele ligeiro borrado providencial no rosto? Ou ainda a prestidigitação do fotografo cujo olhar lhe fez tão belamente natural ou naturalmente belo?

Nunca, porque todo post num perfil amigo ou prospect, tem telhado de vidro. Basta clicar de volta e checar as mesmas providências estilísticas no tratamento do remetente.

Para quem serve tantas horas esculpindo um perfil na web? Antes dos outros, o exercício de auto-definição e auto-projeção é bom pra si. O narcisismo é um prazer difuso, a termo, e o gozo em perspectiva é infinito.

Para despir-se do ego, precisa ter um. Cultivez votre jardin, mon cher Candide!

Quem não twitta se estrumbica

17/08/2009 em Internet, Sei lá | 1 Comentário »

A luz ainda não despontara por cima da tampa escura e Ibiajara já driblava as sombras adormecidas da floresta. Há muito ele perseguia a égua redomona. Dias percorrendo os pastos naturais, farejando as pegadas, assuntando os murmúrios do vento e as revoadas assustadas. Ela se enfronhou na mata e o capataz perseguiu sua malícia. Quando o dia salpicou o solo, o caboclo perdeu-se. Girou, girou, girou, perdeu-se. Restava-lhe o coco da safada que ele não perdera das vistas. Era seu guia no labirinto. E foi no quinto dia de breu, que ele aplacou a fome comendo do fungo alucinógeno que salvou-lhe a pele e o emprego: a redomona voltou para o picadeiro.

O elo perdido pode ter sido um cogumelo alucinógeno que nossos primos primatas comiam quando perseguiam animais pelas fezes. Foi o despertar da consciência e a consequente queda: o homem perdeu-se quando desconectou-se da Terra em troca de uma pretensiosa ligação com Deus. Nossa interdependência com o além dá-nos vantagens competitivas. O aquém está à nossa mercê, para servir.

Pois um dia, a soberba vai estrumbicar o homem.

Assim como os fungos que, há bilhões de anos, sacaram que não há possibilidade de sobrevivência sem interdependência, a Internet é nosso sistema redentor. A  moeda de inserção é a quantidade de pontos de contato e a capacidade que desenvolvemos de nos relacionarmos com eles.

A Internet e a extraordinária força das redes sociais e sistemas de co-criação reproduzem uma ecologia de interdependência entre os homens e suas obras. Mais chance de destaque e sobrevivência tem aquele com mais relacionamentos, amigos, contatos e seguidores. Mais chance de cotejar a verdade, aquelas criações com mais suporte e colaboração.

Se você acha que observar de longe, sem macular a preciosa existência é mais digno de sua superioridade, que chá você tomou para acreditar em Papai Noel?

Obrigado, Sarney

13/08/2009 em Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

Num país distante, um laboratório científico de primeira linha criou uma máquina que, através de sofisticados cálculos de cenários, confere às decisões políticas nível de assertividade incontestável. Tudo passa por ela. As nomeações para os cargos públicos têm a intenção dos indicados checadas por poderosos detectores de mentira, os discursos são escarafunchados nas entrelinhas e a vida financeira, social e íntima de todos os políticos é vigiada. Os sábios cientistas que projetaram a parafernália democrática contaram ainda com a ajuda de médiuns de variadas correntes que, graças a seus transes místicos, inter-relacionam todas as medidas com os desígnios divinos. Finalmente, Gaia também participa da vida pública: nada é feito sem o consentimento da mãe Terra, das árvores, dos golfinhos, focas, baleias, tartarugas marinhas, cracas e coquilles Saint-Jacques.

Nesse país, a imprensa investiu fundos colossais na construção da máquina e encontrou, graças aos seus dividendos, uma tábua de salvação: jornais, TVs, rádios e até os blogueiros sobrevivem hoje exclusivamente desses recursos, pagos pelo erário. Tornaram-se “diários oficiais”, house-organs do governo (ou da máquina) que, evidentemente, ninguém lê, e onde, consequentemente, nenhuma empresa anuncia.

O país é muito bem gerido, rico, promissor, respeitoso das minorias e maiorias, socioambientalmente responsável e chato de galocha.

Que graça teria viver num país assim? Que graça teria ser governado por uma Madre Teresa de Calcutá formada em Harvard? Ou um Karl Marx professor do IBMEC? Ou o Lula com PhD em astrofísica e literatura angolana? Ou pelo Sarney com voto de pobreza e sem família?

A grana é nossa, mas que o bigode cínico do Sarney é impagável, isso é.

Xixi no banho faz bem pro ego

12/08/2009 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

Todos os dias inventam uma dieta e todos os dias um novo sintoma da gripe suína. E todos os dias também cria-se uma forma de salvar o planeta do pesadelo que nem Noé salvará.

Para emagrecer, é mais importante a disciplina do des-comer do que o que se ingere. Não duvido que a fumaça dos fumantes é vetor do vírus H1N1. E fazer xixi no banho, acredite ou não, além de economizar água, é um ato de altruísmo: devolve para a natureza ureia e água limpa.

Nem toda invenção pega. E pouco importa pegar porque a intenção dessas ideias não é de incentivar a bulimia, nem internar os proscritos em quarentena, nem riscar do mapa as válvulas criminosas.

As campanhas de conscientização são quase sempre chatas, professorais ou de uma pieguice emocional digna de PowerPoints virais. A ciência presumida não tem nenhuma importância, ela é só um artifício de mobilização, uma chamada, um motivo para se comunicar. É justamente por acreditar demais na precisão científica que essas campanhas são ineficientes.

Por que será que um assunto sério não pode ter humor ou pelo menos fazer sorrir? Por que será que tem que desaposentar o Cid Moreira cada vez que queremos dar um alerta comunitário urgente?

Nas mais otimistas das previsões, em 50 anos, 50% de todas as praias do mundo vão desaparecer. É muito provável que seu sonho de surfar na Micronésia se torne inoperante em breve. Você acredita nisso? Não. Nem eu.

Você acredita que fazer xixi no banho é bom pro planeta? Não. Nem eu.

Mas, de tanto me divertir com o assunto, economizar água virou pauta: fecho a torneira enquanto escovo os dentes, morro de frio me ensaboando e sim, fiz xixi no banho hoje.

E ri sozinho do meu sarcasmo humilhado pelo bom humor.

70 mil publicitários demitidos

11/08/2009 em Propaganda | 14 Comentários »

Quando a crise é conjuntural, a gente espera. Quando ela é estrutural, a gente se adapta. Mas quando ela é existencial, melhor sair correndo.

Segundo estatísticas, 70 mil publicitários perderam o emprego com a recessão.

Uma parte deles foi demitida porque as verbas publicitárias são bipolares: investimento na bonança, despesa quando tem que tirar o pai da forca. Essa é a crise de conjuntura. Passa.

Uma outra porção grande deve ter saído e ainda vai sair porque o modelo de negócio entrou numa puberdade tardia e autodestrutiva. Ainda tem gente do métier defendendo a desregulamentação, que coloca em risco as conquistas do passado. Esse cada-um-por si e a Globo por todos é estrutural. Dá-lhe jogo de cintura.

Mas quando a profissão de publicitário vira uma espécie de meca dourada, que atrai pessoas com veleidades e vaidades artísticas, mimadas, um soluço do mercado vira crise existencial. Não é capricho.

O mercado não está só em crise porque o mundo está em crise. Nem só por conta e obra exclusiva dos tubarões social climbers.

A crise é de descolamento da realidade e teimosia amargurada. É a crise da autorreferência ignorante e pretensiosa. A crise da curiosidade seletiva e, portanto, burra.

Ainda tem publicitário com preconceito de comunicador instantâneo, que tem medo de rede social e que defende a censura da Internet com malditos filtros de conteúdo.

70 mil ex-publicitários é pouco!

Em tempo:  Lemonade Movie

A favela não é chique

11/08/2009 em Sei lá | Tags: | 6 Comentários »

Os Estados Unidos são o maior importador de vinho francês do mundo. Mas de que adianta, disse-me meu cunhado enólogo, o vinho viaja tanto que, quando chega, é a mesma porcaria que eles cultivam lá na Califórnia. O mesmo podemos dizer daquela água de coco de caixinha, em voga atualmente nas bacanezas da Côte d’Azur: tem gosto de água salobre.

E o mundo voga em fluxos e contrafluxos civilizatórios.

Recebi, certa vez em São Paulo, uma turma de modernos empresários. Eles estavam desbravando a Internet. Figuras quase obrigatórias em todas as listas hype de Nova York a Amsterdã, queriam investir na Pindorama. Mas era preciso impressionar os gringos. Nossa terra tem palmeiras e muita chiqueza. Fui buscar os caras no hotel, que não envergonharia Philippe Starck, e lá fomos nós pro restaurante de calar o Jacques Garcia. Lá pelas tantas, depois de muito goles, o Mark me chamou para fumar na rua (ele era americano, portanto, muito civilizado, respeitador dos pulmões alheios, disciplinado como um G.I. Joe). “Não tem um barzinho por aí mais à vontade pra gente conversar? Isso aqui parece o Titanic ancorado em Coral Gables”.  Fomos para uma calçada e  fumamos e bebemos até de madrugada. Meu patrão foi dormir feliz de ter abalado Bangu com tanta sofisticação tupiniquim. Sentir-se bem é o verdadeiro luxo. O resto é complexo de inferioridade.

É tão esquisito ver um alemão de sandália e meia em Ipanema quanto ver um brasileiro de tênis no Café de La Paix. Muito mais esquisito seria ver o branquelo descalço, ou o tupinambá calçando um sapato que não vê uma graxinha desde que saiu da loja. Mas na sua Birk, o gringo está tão confortável quanto o brasileiro de Nike Shox. O conforto é o verdadeiro luxo. O resto é cafonice exótica.

Odeio o Arnaldo Jabor, o Diogo Mainardi e o Galvão Bueno

10/08/2009 em Internet | Tags: | 15 Comentários »

Ele é um vomitador prolixo de adjetivos. Há anos que fala a mesma coisa: sua indignação beira o histerismo. Seu jeitão pseudo-intelectualoide que maneja o verbo com uma erudição Wikipédia, flexiona a voz como um ator de novela mexicana. Ouvir o Arnaldo Jabor na rádio CBN, entre o helicóptero e as notícias do dia, é celebrar a segunda-feira com o mau humor que ela merece.

Já o segundo, é um doge de calça de veludo rota. Sua obsessão cáustica contra o Brasil e os brasileiros é quase engraçada. Mas sua amoralidade, aética, apartidarismo e a-qualquer-outra-coisa cansam até o mais azedo dos apátridas. O Diogo Mainardi é um personnal-luggage- arrumator competente: te manda nego, que aqui nunca vai prestar.

Finalmente, o imperador da Globo, estatístico de relevância duvidosa, o cheer leader televisivo, o criador de mitos, reis e santos de calça curta, o referido apresentador da Vênus Platinada, é um herói da resistência: quem é que ainda aguenta seu “Amigos da Rede Globo”?

O primeiro eu ouço, o segundo lia, o terceiro assisto religiosamente. Apesar do desperdício de paciência, algo ensinam essas grifes do jornalismo brasileiro.

Sabe aquele tênis velho, quase furado, quase puído, que não alegraria nem o mais pobre dos mendigos? Ouvir rádio é isso, o velho companheiro de armas, de quem se tolera até traição. O Jabor é uma injeção na bunda: dói, mas passa rápido.

A mídia impressa é mais seletiva, mais exigente, mais cansativa também. O Jabor no jornal não serve nem pra embrulhar o cocô do meu cachorro. Mas passo seus latidos (do Jabor) sem comprometer minha leitura. Já  Mainardi na “Veja” não é só um articulista articulado, compromete. Sua bandeira contamina a revista inteira e sua linha editorial.

O que se perdoa no rádio e no jornal pode ser bilhete azul para a revista, por definição sintética, e, portanto, da qual se presume extrair o sumo opinativo.

Na TV tudo é mais profundo. Nunca mais tive o azar de ver o Jabor no “Jornal Nacional”, mas prometo que da próxima vez que ele se atrever a interromper meu torpor, zapeio por superstição inamovível. Mas na hora do jogo importante, há alguma graça em assistir sem peso e circunstância? Sem xingar com outros milhões de torcedores? Futebol na televisão não é um prazer solitário é uma comunhão universal. É por isso que se quer um mestre de cerimônia que faça jus à catarse deliciosamente coletiva. O Galvão não é ruim para a Globo, é ruim para o país porque é na Globo.

À Globo nada se perdoa porque a relação é visceral, e as paixões têm razões que nenhuma razão é capaz de acalmar.

E na Internet? Santo RSS que me filtra todos os caga-na-saquinha!

A reforma agrária é o fim da picada

07/08/2009 em Internet | 2 Comentários »

Um veículo loteia um espaço que coloca para alugar. Uma agência recomenda lotes a um anunciante, usando cálculos do retorno comercial potencial do ponto. Por essa intermediação e consultoria, paga-se uma comissão. Uma agência de propaganda é uma imobiliária.

Sobre o lote locado, o anunciante irá estabelecer-se. A agência, geralmente a mesma, irá desenhar o projeto a ser instalado e fará o agenciamento dos fornecedores diversos, encarregados de colocá-lo de pé. Por esse trabalho também paga-se. Uma agência de propaganda é também um escritório de arquitetura.

O que irá ser colocado no lote é da conta exclusiva da agência e do anunciante, respeitadas algumas normas legais.

É assim que funciona a propaganda.

Agora imaginemos que os pontos disponíveis se multipliquem rapidamente, que haja uma espécie de reforma agrária dos espaços de mídia e milhões de pequenos proprietários dividam a audiência da freguesia com os latifundiários do passado. A Internet é essa bagunça aí.

Como iremos recomendar com técnica os melhores lotes? O que iremos desenhar para esses infinitos lotes?

Os lotes disponíveis são agora infinitos, muitas vezes secretos e na enorme maioria possuem uma gestão familiar, informal, sem norma nem padrão.

O que irá ser colocado nos lotes não é mais da nossa exclusiva conta porque, na Internet, o padeiro faz pão e cuida do caixa, o pedreiro é também encanador e marceneiro. O dono do pedaço é ao mesmo tempo editor, e comercial. Ele faz e vende. Ou faz o que vende. Ou vende o que faz.

E nós, com nossa técnica e talento, corte mimada num antigo regime cheio de ordem e privilégios, a propaganda e seu charme pré-fabricado está à beira do cadafalso cada vez que invoca seus herdados princípios e valores.

Há muito mais de relações públicas na nova propaganda do que suspeitam nossos vaidosos feitos.

Há muito mais de jornalismo na nova propaganda do que sonha um anuário de festival.

O novo publicitário, o novo mídia, o novo criativo e o novo planejador têm muito mais a aprender nas redações dos antigos latifúndios do que nos escaninhos e pranchetas das imobiliárias.

Compra sorvete do Saponga que ele é pobre

06/08/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Somos muito maniqueístas. E infelizmente a única revolução possível se dá pela dialética. Se não tem pobre, não tem rico e se não tem ricos e pobres, não tem progresso. É triste mas é verdade.

Durante quase toda a história da mídia, sensacionalista por força da audiência, o mundo além-túnel, além-rio, além-dignidade, além-respeito, além-cidadania foi tratado de forma dramática. Era apelação em cima de apelação e parecia que nunca estava pior o bastante. Quando o pobre que morria na fila do atendimento médico não levantava as sobrancelhas, “inventava-se” uma grávida estuprada pelo pai, quando a grávida não arrepiava mais, “inventava-se” um traficante cruel, quando o traficante cruel não revoltava mais “inventava-se” uma mãe descabelando-se do filho morto pela guerra das facções e quando a guerra das facções não provocava mais, “inventava-se” um genocídio de inocentes menores.

Mas até a miséria acostuma. E aos poucos uma outra agenda foi substituindo a antiga. Surge a hora do bem, do exemplo, dos símbolos raros, da flor que desabrocha na merda. Nove entre cada dez matérias falam do menino pobre que aprendeu a tocar violino, da mãe que se prostituía e virou empresária, do ex-traficante que estrela nos cinemas, da freira caridosa, do gringo que se hospeda no cortiço, da madame que ensina corte e costura na favela, do empresário que passa o fim de semana batucando no morro, do rappeiro que frequenta o templo do novo-riquismo.

Por um passe de mágica, os ex-fodidos são coqueluche da burguesia, pochetes em todos os eventos sociais, cobertos de glórias e discursos emocionados. Um otimismo histérico toma conta dos corações, uma mão de cal cobre as consciências cansadas, Madonnas caridosas pululam na high society, um amanhã fogoso se descortina e rega-se a esperança renascida com muito dinheiro incentivado e renúncia fiscal.

Está na hora de impor o terror, porque esse bom-mocismo dá preguiça. Daqui a pouco voltamos a vestir o pijama e a brindar a pobreza que nos embriaga.

Pedala Rubinho!

06/08/2009 em Internet | Tags: | 2 Comentários »

Uma manhã, a notícia correu, o sabonete do banheiro acabou e as perspectivas de férias suspeitas animaram os ânimos. O funcionário “D” estaria com a porcina. No recém convertido chiqueiro, em poucas horas, muitos já estavam com gripe suína psicológica.

Mais rápido que as pedaladas do @barrichelo para ser um @manomenezes, a febre não é um vírus, é um microblog. E vamos dar a mão à palmatória, o Twitter é o maior termômetro da insanidade “people” desde o lançamento dos tablóides. Todos os dias, milhares naufragam nas páginas dos veteranos anônimos, homônimos ou heterônimos. Do fôlego que resta pouco se sabe ainda, mas o fenômeno warholiano é um processo de falsidade ideológica coletiva. Nunca tantos esperaram tanto da síndrome da fama gratuita.

Está todo mundo com vontade mas ninguém sabe o nome do jogo, quais são as regras, nem o que se ganha. Se é reputação rápida ou razão de existir, o fato é que ensaiam-se muitos exercícios literários de tagarelice represada.

Mas a despretensão do twitter é tocante. Era uma agenda compartilhada, um registro autobiográfico (“what are you doing”) mas, para ser bem sucedido, tem que ser um almanaque de inteligência em pílulas de sabedoria (“what are thinking” ou “how do you think”).

Certa vez perguntaram para um jogador de futebol americano ilustre qual era sua opinião sobre a vigilância eletrônica dos provedores de acesso americanos e o desbocado dissertou uma hora sobre o a liberdade de expressão com teses tão assentadas quanto imbecis.

O twitter é uma ferramenta dos diabos: todo mundo tem algo a dizer sobre qualquer coisa. E cedo ou tarde, todos serão acometidos dessa febre, esse que vos fala inclusive.

Não há vacina contra a masturbação opinativa, sua precocidade de 140 caracteres e a presunção colateral de celebridade.

Diga-me se fuma que lhe direi quem és

05/08/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

O governante, consciente de sua missão cósmica, venceu uma cruzada mística no quinhão que ele administra. A partir de amanhã, é proibido não fumar. É obrigado fumar em ambiente fechado. E se alguém à sua volta recusar um cigarro, denuncie. Extravase seu ódio soltando quatro mil e setecentas substâncias tóxicas pelas ventas.

A partir de depois de amanhã, é proibido não fumar na minha casa. Na mesma proporção da população brasileira fumante, 18% de todos os meus amigos poderão contar com esse último bastião de resistência. Só será permitido não fumar livremente no jardim.

O dia 7 de agosto de 2009 vai ficar para a história: é o fim da farra da fumaça. Fumantes, esses seres de segunda classe, serão a escória perversa da sociedade. Esses mesmos que matam, a fogo brando, uma legião de pulmões virgens. Dizem que um deles foi preso comendo uma criançinha, entre duas baforadas. Não basta o isolamento tóxico dos recintos destinados a esses párias, que fumem na sarjeta, na rua da amargura, no quinto dos infernos!

O governo da democracia da maioria venceu. E a minoria que se exploda. Que morra, de preferência. De frio, e respirando tranquilamente os escapamentos da via pública.