Ontem, fui a uma pesquisa. Quali, de animatic, para dar nome e sobrenome, dessas em que a gente testa comerciais antes que eles sejam produzidos. Como criativo, é claro que tenho restrições em relação à pesquisa de animatic, assim como à chuva em feriado e ao gene da calvície, mas são realidades com as quais tenho que aprender a conviver do melhor jeito possível.
Há dois pesos e duas medidas numa pesquisa como a que eu presenciei ontem. De um lado, todas as limitações e distorções de se apresentar uma peça de comunicação inacabada (na verdade, um rascunho) num ambiente extraterrestre e inadequado, e do outro, a pretensão de se reproduzir as condições do mundo real.
Como não contamos com a qualidade técnica de um comercial filmado, mostramos um desenho (mal) animado e pedimos que os pesquisados criem mentalmente um filme, com os atores de sua preferência. Como não podemos reproduzir a naturalidade e o conforto de se assistir um comercial no sofá de casa, batemos um papo com o consumidor na sala de pesquisa, servimos coxinha e contamos piadinhas para ele relaxar. Fazemos o que podemos, mas o fato é que nem estamos mostrando um comercial de verdade e nem o consumidor está no sofá de casa. Sabemos disso, nos conformamos com isso.
Acontece que a forma com que apresentamos este comercial de mentira, para pessoas sentadas em sofás-de-casa de mentira foi bem realista. Elas assistiram uma única vez, em trinta segundos, trinta e pouquinhos, para não ser injusto. Em seguida, pedimos seus vereditos.
Se assistir um desenho animado e tranformá-lo mentalmente num comercial de verdade já é tarefa dificílima, fazer isso em trinta e pouquinhos segundos é para gênios. E quanto mais diferente e criativa a idéia, pior, e quanto mais simples e lugar-comum, melhor, afinal, o filme está sendo montado instantaneamente com o banco-de-imagens-conhecidas das mentes das pessoas.
O resultado é que muita gente ali analisou profundamente algo que não entendeu. Falem o que quiserem, é fato. (Por favor, não evoque a lenda da moderadora-que-sabe-ponderar-tudo-isso).
Essa pesquisa foi assim, outras são de outros jeitos, já acompanhei muitas e não sou um especialista no assunto, mas a minha impressão é que uma coisa se repete com frequência: importamos perfeitamente do mundo real apenas a parte ruim, que sem a compensação da parte boa, passa a ser incrivelmente destrutiva.
E se a gente assumisse que não dá para reproduzir o mundo real numa sala de pesquisa e tentasse apenas extrair a opinião de pessoas sobre idéias expostas de um jeito que elas sejam capazes de entender?
Já que não podemos acabar com chuvas em feriado, genes de calvície e pesquisas de animatic, que pelo menos tenhamos guarda-chuva, máquina zero e um pouco mais de bom senso.
Marcelo Nogueira