Archive for October, 2009

2,5 mil e poucos dias da marmota

30/10/2009 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Futebol é a coisa mais importante do mundo. No Brasil, a gente come, trepa e caga futebol. Todas as metáforas, todas as audiências, todas as conversas, tudo, tudo, tudo é futebol.

Primeiro dia de aula no Brasil e o professor me pergunta “pra que time você torce?”. No meu frágil português, entendi que era importante responder, apesar de não saber o que era “time” e muito menos “torce”. Olho ao meu redor as manifestações histéricas dos colegas gritando nomes incompreensíveis. Repeti qualquer coisa para me deixarem quieto. Arrependi-me amargamente de ter escolhido o time errado, ou seja, o da turma mais sem graça da classe. Mas saquei que entender de futebol era uma questão de sobrevivência social e me apliquei na tarefa.

E estamos quase lá, gente!

Ano que vem tem copa do mundo na África. E daqui a 4 anos, no Brasil. Na pior das hipóteses, a gente vai ficar cinco anos torcendo. E como tem olimpíadas daqui a 7 anos, os próximos 7 vão ser mono-temáticos.

O marketing e a propaganda não são propriamente os palcos da originalidade, então vai dar calo na língua e no cérebro nos próximos 2,5 mil e poucos dias da marmota.

Cafonices de final de ano

30/10/2009 em Propaganda, Sei lá | 2 Comentários »

Uma vez grande, grande para sempre. O tempo não é bom juiz. Só vale comparar o agora com o agora, e saudosismo é uma patologia sócio-cultural.

Está chegando o final do ano: é hora do balanço, portanto, dos prêmios.

Vamos nessa: quais são os 3 maiores de qualquer coisa viva? Compositores ou cantores, escritores ou poetas, estilistas, arquitetos, grafiteiros, artistas, chefes, fotógrafos, jornalista também vale, publicitário também.

Se você for honesto, pode apostar que a lista vai ser a mesma ou quase igual àquela que você fez no ano passado. A mesma que há 2, 3 ou 5 anos.

Tem dois tipos de entronização: o déja vu sonolento que repete indicações e o cocô perfumado que se obriga a renovar sempre.

“De novo eles” dá desespero, vontade de sair correndo, de suicidar o tempo que não passa na velocidade da ansiedade contemporânea.

“Nunca vi mais gordo”, em compensação, embrulha o estômago, dá vontade de vomitar, de se drogar por não acreditar num mundo tão medíocre.

Premiações são só uma exploração marqueteira da vaidade, ou, parodiando Gilberto Gil um  “Red Bull da Star System”.

Premiar (uma pessoa, empresa ou marca) é o supra-sumo da cafonice que começa numa intenção cafona, critérios cafonas, troféus cafonas e festas cafonérrimas.

A carta que eu nunca queria ter escrito (por José Junior do AfroReggae)

29/10/2009 em Sei lá | Deixe um comentário »

Há 9 anos, Evandro João Silva entrou no AfroReggae como professor de informática.
Há 7 anos, ele virou coordenador do núcleo de Parada de Lucas.

Há 4 anos, Evandro criou uma oficina de música clássica em Parada de Lucas.
Há 8 meses, iniciou um projeto social no sistema prisional carioca.
Há 7 meses, discutimos dezenas de novos projetos.

Há 13 dias, Evandro me deu um abraço e me disse até amanhã.
Há 12, virou um mártir.

Desde então, nosso único alento é que mártir não morre. Vira inspiração, transforma indignação em força.

Força para que continuemos a nossa guerra.
Uma guerra da qual ele, orgulhosa e intensamente, fazia parte.
Uma guerra em que lutaremos sempre.

Mas sempre torcendo para que um dia ela acabe.

José Junior

PS: Essa carta foi publicada em diversos jornais do país. Os suspeitos do crime bem como os “bandidos fardados” que foram coniventes e/ou displicentes foram presos graças à mobilização pública que o fato suscitou.

Quem já viu uma estátua de comitê?

29/10/2009 em Sei lá | 2 Comentários »

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Guerra de 100 anos. A cidade de Calais, no norte da França é sitiada pelos ingleses e resiste heroicamente. Numa sala da prefeitura, um grupo de notáveis burgueses da cidade reúne-se mais uma vez para decidir os termos de uma possível rendição e conseqüente exílio da população ou a continuação das privações. Esgotados depois de 11 meses de fome e doenças, o comitê toma uma decisão: o sacrifício. Os seis privilegiados caminham para fora da cidade, com a corda ao pescoço, portando as chaves da cidade e do castelo para implorarem a liberação dos habitantes da cidade, em troca de suas vidas. Imortalizados pelas crônicas medievais, os burgueses foram salvos pela clemência do Rei e a cidade torna-se inglesa sem infringir aos Calaisianos a vergonha de abandonar seus lares.

Muito mais tarde, Rodin fundiu os burgueses de Calais e eternizou a decisão excepcional e heróica.

Um dos maiores empata-samba da vida de uma empresa são os comitês que formalizam o futuro em discursos, atas e frases de efeito.

Efeito zero.

O tempo que se perde em reuniões intermináveis com  alocuções técnicas de especialistas, pesquisa sonolentas e debates teóricos não passam, em sua maioria, de minuciosos diagnósticos, raríssimos planos, e quase nunca coloca-se a corda no pescoço que quem merece ou damos as chaves para quem pode agir.

Quando muito, gargareja-se a histórica análise, a visão, a missão, a vocação.

Vocação para o esquecimento.

Não há virtudes no diagnóstico, só na ação.

Herói é quem faz, mesmo que com o sacrifício da razão, da lei ou da hierarquia.

A distribuição livre da produção criativa é uma questão de sobrevivência

28/10/2009 em Internet, Sei lá | 6 Comentários »

A distribuição livre de conteúdo é um tabu e para quebrar a censura moral que nos imobiliza, nada como trepar alguns macacos em seus galhos.

A primeira mascarada diz respeito ao direito autoral, sempre ele. Por detrás de qualquer criação e produção de conteúdo, existiria uma projeção de receita perpétua. No entanto, está mais do que demonstrado que, salvo exceções irrelevantes para a média, o pinga pinga dilui-se rapidamente. Nada é tão automático assim.  A receita autoral é fator da ativação do conteúdo. A criação é remunerada no seu lançamento e cada vez que ele é reiterado com re-lançamentos. No limite, portanto, o direito autoral não seria um impeditivo para a distribuição livre de conteúdo (ou vice-versa).

A segunda macacada é vaidosa e egocêntrica. O medo de democratizar a produção “autoral” é a insegurança gerada pela falta, de crédito, de currículo, notas de rodapé, referências, lisonjas, fãs e puxa sacos. A autoria dá sentido ao vazio existencial e é um pedigree da memória. Distribuir livremente a produção é abdicar das palmas póstumas, da lápide dourada. O cemitério é cheio de autores possessivos.

Se a criação não é sopro divino mas exercício, é precisamente na capacidade de criar e produzir. sempre e sem parar, que ela se aprimora. O valor não está no “criado” mas na “capacidade de criar”. Coibir a livre distribuição criativa é preguiça. É criar para coçar o saco depois, e morrer mais rápido.

Ainda – e o argumento seria suficiente – não há meios de controles possíveis para o fluxo livre de conteúdos. Marcos regulatórios devem ser consensuais e não impositivos.

Quando a BBC percebeu que não tinha recursos suficientes para digitalizar e armazenar seu formidável arquivo de conteúdos, ela abriu geral. Sorte nossa. Não duvido que exista mais conteúdo no Youtube, livre leve e solto, do que nos porões trancafiados dos arquivos autorais.

Juju publicidade e o Clamor luzilandense

23/10/2009 em Internet, Sei lá | Tags: | 2 Comentários »

O nascimento de especialidades profissionais é muitas vezes fortuito para não dizer gratuito. Os brand builders e brand architects e outros plufts plofts que nos perdoem, mas teoria reversa não rola para certos casos.

Quem nunca ouviu falar na Juju Publicidade está por fora. É uma das mais famosas empresas de branding do país. Sabem a famosa “Pamonha, pamonha de Piracicaba”? Um fabricante encomendou uma gravação para fazer um delivery de pamonha de porta em porta. A Juju criou o jingle e vendeu a fita. De posse desse copyright, a Juju ganhou as ruas de todo o país, gravando fita atrás de fita.

Quem nunca ouviu falar de “Lucas Celebridade – O clamor Luzilandense” está por fora. É um dos mais importantes celebrity promoters do Piauí, quiça do mundo. Lucas é colunista de Luzilândia, uma pacata cidade que, como qualquer outra aglomeração humana, tem seus ídolos. Lucas abrilhanta todos os happenings sociais da região, seu blog é hype e seu twitter um must da teoria psicológica dos social networks.

Espontaneidade inspira mais do que matraca de teórico e as periferias (do mundo, das cidades e dos nossos microscópicos ambientes profissionais) são muito mais criativas.

Coxinha e circo (por Marcelo Nogueira)

23/10/2009 em Propaganda | Tags: | 8 Comentários »

Ontem, fui a uma pesquisa. Quali, de animatic, para dar nome e sobrenome, dessas em que a gente testa comerciais antes que eles sejam produzidos. Como criativo, é claro que tenho restrições em relação à pesquisa de animatic, assim como à chuva em feriado e ao gene da calvície, mas são realidades com as quais tenho que aprender a conviver do melhor jeito possível.

Há dois pesos e duas medidas numa pesquisa como a que eu presenciei ontem. De um lado, todas as limitações e distorções de se apresentar uma peça de comunicação inacabada (na verdade, um rascunho) num ambiente extraterrestre e inadequado, e do outro, a pretensão de se reproduzir as condições do mundo real.

Como não contamos com a qualidade técnica de um comercial filmado, mostramos um desenho (mal) animado e pedimos que os pesquisados criem mentalmente um filme, com os atores de sua preferência. Como não podemos reproduzir a naturalidade e o conforto de se assistir um comercial no sofá de casa, batemos um papo com o consumidor na sala de pesquisa, servimos coxinha e contamos piadinhas para ele relaxar. Fazemos o que podemos, mas o fato é que nem estamos mostrando um comercial de verdade e nem o consumidor está no sofá de casa. Sabemos disso, nos conformamos com isso.
Acontece que a forma com que apresentamos este comercial de mentira, para pessoas sentadas em sofás-de-casa de mentira foi bem realista. Elas assistiram uma única vez, em trinta segundos, trinta e pouquinhos, para não ser injusto. Em seguida, pedimos seus vereditos.

Se assistir um desenho animado e tranformá-lo mentalmente num comercial de verdade já é tarefa dificílima, fazer isso em trinta e pouquinhos segundos é para gênios. E quanto mais diferente e criativa a idéia, pior, e quanto mais simples e lugar-comum, melhor, afinal, o filme está sendo montado instantaneamente com o banco-de-imagens-conhecidas das mentes das pessoas.

O resultado é que muita gente ali analisou profundamente algo que não entendeu. Falem o que quiserem, é fato. (Por favor, não evoque a lenda da moderadora-que-sabe-ponderar-tudo-isso).

Essa pesquisa foi assim, outras são de outros jeitos, já acompanhei muitas e não sou um especialista no assunto, mas a minha impressão é que uma coisa se repete com frequência: importamos perfeitamente do mundo real apenas a parte ruim, que sem a compensação da parte boa, passa a ser incrivelmente destrutiva.

E se a gente assumisse que não dá para reproduzir o mundo real numa sala de pesquisa e tentasse apenas extrair a opinião de pessoas sobre idéias expostas de um jeito que elas sejam capazes de entender?

Já que não podemos acabar com chuvas em feriado, genes de calvície e pesquisas de animatic, que pelo menos tenhamos guarda-chuva, máquina zero e um pouco mais de bom senso.

Marcelo Nogueira

Quem não escreve (e publica) é o novo analfabeto

22/10/2009 em Internet | Tags: | 3 Comentários »

A biblioteca do Trinity College em Dublin é um santuário que possui o mais valioso livro jamais criado pelo homem, uma bíblia, “The book of Kells”. Mas há controvérsias, porque as “Très riches heures Du Duc de Berry” e suas iluminuras preciosas da biblioteca do castelo de Chantilly rivalizam em raridade. Mas por que diabos peguei aquela fila para ver uma porcaria de um fac-simile à meia luz?”

Uma recente pesquisa da universidade de Nova York demonstra que, pela primeira vez na história do Homem, a escrita se tornou tão popular e universal que existem mais autores fora dos livros (impressos ou não) do que neles . Para efeito de contabilização, só são considerados autores aqueles que forem lidos em média por mais de 100 pessoas. Tem muito livro impresso que não consegue esse marco. Já um blog, um Twitter, um perfil no Facebook (Orkut pra nós) com 100 leitores é um patamar medíocre.

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Adora-se esse tipo de comparação, principalmente para reiterar o tamanho da revolução que estamos vivendo. Mas para além do sensacionalismo, o número revela uma mudança de paradigma. Antigamente, uma sociedade era considerada “sofisticada” quanto maior a quantidade de seus letrados (que sabem ler). O analfabetismo era a chaga do atraso.

Está mudando: saber ler diz pouco sobre uma sociedade. O novo paradigma é escrever (e publicar).

Dos 66 milhões de brasileiros que acessam a Internet, 51% costuma colocar algum conteúdo na Internet (pesquisa F/Radar de agosto 2010).

No Nordeste, esse número sobe para 57% e no Norte/ Centro-Oeste 64%!

No Sudeste, presumidamente mais “evoluído”, o número cai para 48% e o Sul dos arianos – lanterninha nacional: somente 36% dos internautas costumam publicar.

Talvez devêssemos, a partir de agora, começar a considerar nosso grau civilizatório pela quantidade de autores (e não leitores).

E como ficam ridículos certos preconceitos.

Nossas pesquisas são bengalas de cego que não quer ver

21/10/2009 em Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

Tem uma técnica infalível para encontrar a chave, a carteira, o celular perdidos: concentre-se longamente no objeto, observe-o em todos os detalhes na sua cabeça e depois vá fazer outra coisa bem diferente. Quando você menos esperar – talvez tarde demais – o troço aparece. Só tem duas condições pra essa bruxaria funcionar: a sua capacidade de materializar mentalmente e esquecer logo em seguida. Parece tão simples que nem dá pra acreditar.

Já repararam como a gente – da propaganda – faz pesquisa, estudos, inventa moda? É tanta novidade que às vezes, a gente se diverte mais com isso do que com o produto final.

Ou então – e quase sempre – estamos tão perdidos que saímos tateando como um cego na feira. Nossas bengalas, nossas mãos, são essas pesquisas. Raramente elas nos devolvem a visão mas nos confortam com uma ilusão salvadora.

O problema talvez não esteja nas bengalas (claro que a maioria delas é estúpida, careta, mal conduzida e manipulada, mas disso já deu até preguiça falar) mas no cego.

A gente confia tão pouco na nossa visão (na nossa opinião, na nossa intuição, na nossa vivência, nos nossos reflexos) e acredita tanto no método científico que partimos para os estudos sem saber o que queremos descobrir, confirmar, refutar. Sem hipótese.

O resultado das pesquisas é que formulam as hipóteses, e vamos trabalhar, criar, produzir tão cegos quanto antes, só que auto-iludidos.

Mas quando a gente se pergunta antes “o que diabos quero descobrir?”, começamos cheios de certezas. E isso é bom. Como na técnica da chave perdida: quanto mais detalhada a nossa visão mental, melhor.

O segundo passo é ir a campo e observar (não interrogar para não cair na tentação de orientar nossa presunção hipotética). Observar e esperar uma revelação. Como na técnica: quanto mais esquecermos o que diabos estamos fazendo aqui, melhor. Se não pintar nada na pesquisa – acontece – relaxa, use as certezas iniciais no briefing (as hipóteses). A revelação vem depois – talvez tarde demais – mas vem.

Mais cego que cego é cego que não quer ver.

Já disseram que a televisão mataria o cinema, a Internet, a televisão e o gás metano das vacas, os homens

20/10/2009 em Internet | 5 Comentários »

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Antigamente, íamos pra praia sem filtro solar, descalços e com uma esteira debaixo do braço. Hoje, lambuzamo-nos sem parar, debaixo da barraca vip do Pelé em Ipanema.

Antigamente, ia-se ao cinema de paletó e gravata, sem ar condicionado, no Rio de Janeiro. Hoje, vai-se de qualquer jeito, em salas confortáveis que servem pipoca com óleo de trufas.

Antigamente, assistir televisão era um privilégio que terminava depois do jornal. Hoje, começa depois do jornal das dez e olhe lá.

Meu avô tinha um cinema de dois mil lugares. Era a atração principal da cidade. Os filmes, mudos, viam diretamente dos states: Al Johnson, aquelas coisas. Eram dois filmes, com um intervalo no meio para trocar a bobina na sala das máquinas. Minha avó encarregava-se da atração: um mágico, um malabarista, um engolidor de fogo, uma cigana que tudo predizia porque tinha sido devidamente briefada sobre a vida secreta de cada família. O cinema virou shopping ou concessionária de veículos.

E hoje tem Internet, dá para assistir qualquer coisa na sua melhor poltrona, quase de graça (ou de graça), em ambiente perfeitamente controlado, com amigos ou sem, de cueca ou sem.

Quando meu avô nasceu, a primeira guerra mundial ainda não tinha ceifado as vidas de um terço dos homens franceses. Quando eu nasci, o planeta tinha metade da população de hoje.

Em Itamaracá, todo mundo tem televisão em casa, mas o prefeito instalou uma, comunitária, na praça. Tem dia que os bancos de cimento ficam apinhados, num calor arretado, todo mundo grudadinho na novela.

Dó do Andy Warhol

19/10/2009 em Propaganda | Tags: | 6 Comentários »

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Prezado,

Estou realmente muito feliz de que você possa fazer nosso novo álbum. Aqui estão duas caixas de material que você pode usar, e as gravações.

Na minha pequena experiência, quanto mais complicado o formato do álbum [...] mais difícil a reprodução e angustiantes os prazos. Mas, eu deixo tudo em suas hábeis mãos para fazer o que bem entende……..e por favor, escreva me dizendo quanto dinheiro você gostaria.

[...] ele (o empresário) vai parecer nervoso e dizer “faça logo” mas não ligue.

Está carta foi escrita por Mick Jagger para Andy Warhol em 1969. Briefing: faça o que quiser, verba: quanto achar justo, prazo: urgente.

O briefing é a pedra angular (aquela que sustenta as ogivas das catedrais góticas) de qualquer trabalho, mas quem nunca sonhou em trabalhar livre de cabrestos, de enfadonhas descrições de problemas e qualidades, de pesquisas e insights óbvios e objetivos pouco palatáveis? Quem nunca atirou em um briefing que atire a primeira pedra.

Um personagem da Peste de Albert Camus é escritor. Diariamente, ele inicia seu deleite atormentado: preencher as folhas com originalidade. Muitos anos passam-se e o frustrado funcionário público não consegue evoluir  monótonas linhas sobre uma cavalgada no deserto. A folha em branco (mental) é o pesadelo das musas e o homem medíocre morre antes de completar a primeira lauda.

Por mais odioso e enfadonho que seja um briefing, ele é melhor do que a carta “em branco” do Mick Jagger ao Andy Warhol que levou mais de um ano para realizar o trabalho urgente.

Um briefing é importante demais para ser assassinado pela pressa ou burrice. Mas maus briefings são melhores do que nenhum. Pense nisso quando escrever ou recusar um.

Em tempo, não sei se foi excesso de briefing ou falta dele, mas a capa criada pelo Warhol tinha um ziper de verdade que arranhava o disco.

Réquiem para os burocratas da Internet

16/10/2009 em Internet | 1 Comentário »

Um velho e respeitável capitão de empresas recebia, em sua sala coberta de lambris de jacarandá e aubussons, sua recém selecionada agência de propaganda, para uma primeira reunião.

O ancião já tinha visto muita coisa na vida, muitas campanhas, muitos conceitos, muitas apresentações sobre a inefável sensualidade de sua empresa ou a modorrenta misoginia de sua marca, dependendo da concorrência entre agências à qual todo novo diretor de marketing o submetia.

Depois de esbaforidos roteiros, anúncios e que tais, o velho despertou de sua complacente sonolência.

- Muito bom. Mas entendam bem, sabem qual é a primeira coisa que eu faço quando recebo uma revista? Armo-me de meu estilete – este aqui – e delicadamente retiro todas as propagandas. Aqueles artigos que tiverem o azar de estar nos versos, têm o mesmo destino: lixo, lixorum, lixorum.

Um dia, a burocracia se auto-entroniza com a força da normatização, ultrapassando a razão de Estado. Um dia, a regra vale mais que a causa. E um dia, o Kremlin cai.

Agências de comunicação são organizações, como outras quaisquer, ou seja, regidas por semi-poderosas burocracias. Burocracias rainhas da sistematização.

Existe uma maneira simples de avaliar quando uma agência de comunicação caminha altiva para o mausoléu dos burocratas com lapelas cravejadas de distintivos.

A Internet é o teste. A rede é rápida demais para os burocratas. Quando eles sistematizam os processos, tudo  já mudou. E os comportamentos das pessoas, dos clientes e dos clientes dos clientes também (e a comunicação, bidu, idem).

Por exemplo, se existirem inamovíveis filtros de conteúdos nos servidores é o começo da ruína intelectual.

E no dia em que esses mesmos censores automatizados impedirem a publicação de propaganda online, Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis!

Coletivas e workshops presenciais são a farra dos estagiários

15/10/2009 em Internet | Tags: | 2 Comentários »

Continuam existindo eventos presenciais que exigem deslocamentos físicos, até mesmo quando os temas tratados são tecnológicos.

Difícil imaginar algo mais desconfortável do que um enorme auditório à meia luz,  onde se aboletam os “encrachados” com suas pastas, sacolas, canetas e bloco de notas, para ouvir minúsculos palestrantes enquadrados por excitantes Powerpoints. Não há carisma nem “case” que resista a um cenário soporífero e medieval.

Nem mesmo os epítetos em inglês que os organizadores inventam para glamourizar, nem mesmo o prazer de gazetear o trabalho, justificam tanto suplício inócuo.

A menos que seja para desfilar uma nova gravata (ou aparecer bem na foto), palestras, workshops, campfires,  keynotes (sem transmissão online) são um atraso de vida.

Mas piores ainda são as monótonas e pasteurizadas coletivas de imprensa. Por incrível que pareça, esse jabá ainda existe.

Entrei de bicão ontem num sinal dos tempos: uma empresa convidou simultaneamente alguns veículos especializados que ainda apreciam brindes e coffee breaks para o lançamento de uma nova estrutura de negócio (interessantíssima diga-se de passagem).

Simultaneamente 350 blogueiros foram convocados para assistir à apresentação remotamente, com direito a perguntas, respostas e as mesmas “regalias” de informação que os demais.

A novidade não está propriamente na estratégia de transmissão – muito mais civilizada – mas na abordagem que as empresas deveriam ter quando se relacionam com a imprensa: a informação crua não tem mais relevância e deve ser democratizada sem privilégios, para quem quiser.

Furo é coisa de paparazzi.

Importa sim a capacidade de contextualização e análise da informação. Coletivas e workshops “físicos”, ninguém merece!

O Twitter cresceu 1000% em 6 meses e continua nada

14/10/2009 em Internet | 1 Comentário »

O Twitter e o Facebook, no Brasil e no Mundo, tiveram crescimentos de roedores. Porcentagens milionárias. Temos muito mais amigos no Facebook do que no Orkut e uma quantidade enorme de seguidores que nos dão a honra de ler nossos haiku de 140 caracteres. Conhecemos uma quantidade enorme de pessoas que não conhecemos. E como qualquer famoso decente, tem muito mais gente que nos conhece do que temos possibilidade de conhecer.

Enfim o planeta está por um triz mas as redes hypes estão bombando.

Menos no Brasil.

Segundo a última leitura do F/Radar (agosto 2009), com mais de 2000 entrevistados em todo o Brasil, o povo não aderiu ainda às chiquezas.

O crescimento é gigantesco, admitamos. Dos decimais da leitura anterior, o Twitter e o Facebook atingem históricos 2% e 1% de brasileiros acima dos 16 anos, respectivamente. O Twitter do Luciano Huck atinge a população TOTAL de twitteiros brasileiros e TODOS eles são Conrinthianos, como pode atestar o milhão de seguidores do Mano Menezes.

Muito barulho por pouco.

Em tempo, esse “boom” brasileiro (as aspas são irônicas) é parecido com o americano.

Criticar o Twitter é tão ridículo quanto defendê-lo

13/10/2009 em Internet | 1 Comentário »

O ciclo de qualquer inovação é invariável. Primeiro a gente ignora: o Twitter é a praia marginal de meia dúzia de nerds alérgicos à socialização. Depois, quando a coisa começa a pegar, melhor achincalhar: Twitter é para fedelhos que disfarçam a barriga com uma vaidade proporcional a seu (pouco) senso de ridículo. A terceira fase é apelar para a violência: o Twitter disfarça sociopatias perigosas. E finalmente, com um passe de mágica, a novidade é incorporada como o ar que se respira.

Sócrates (o grego) tinha receios da escrita, tratando a “invenção” de malefício perigoso por dispensar os homens do exercício da memória.

Henry Thoreau, uma espécie de ecologista primitivo, criticou duramente o telégrafo, denunciando essa pressa que a América demonstrava em implantar a invenção, perguntando-se ironicamente “o que o Maine e o Texas teriam de tão importante para comunicar um ao outro”.

30 anos mais tarde, Samuel Morse esnobava o telefone, recusando inclusive alguns direitos que a Western Union lhe propunha pela invenção. Ele dizia que o telefone era inútil uma vez que não era capaz de conservar de forma durável uma conversa.

Nos anos 30, o New York Times criticava a máquina de escrever que havia se tornado popular nos Estados Unidos, considerando-a um atentado “à arte de escrever com a própria mão”.

Sobre o computador e a Internet algumas atas caretas que circulam nos debates públicos dos políticos jurássicos que nos governam, bastam.

Criticar também é tirar a roupa. Mas que é gostoso, isso é.

A propaganda de varejo é castradora

09/10/2009 em Propaganda | 2 Comentários »

Heloisa é uma loba. Ela vai ao supermercado uma vez por semana, fareja ofertas a quilômetros de casa e orgulha-se da caça que mantém a prole sadia. Helô é uma guerreira que se sacrifica pela causa do lar feliz. É uma trabalhadora incansável, criativa e nada é capaz de demove-la de sua função de provedora, nem mesmo o  vestido que ela viu correndo no shopping, o corte de cabelo que lambeu na revista, a barriga sarada que sonha em ter. Nem o bonitinho do escritório que lhe faz galanteios, o paraíso a beira mar em 12 vezes, a aula de dança que ela largou adolescente.

- Heloisa, vamos dar uma olhada nesse carrinho? O que você comprou hoje?
- Material de limpeza para deixar a casa tinindo pro aniversário da sogra, o hamburger que o Chico adora, a mochila rosa pra Marília e mais algumas coisas básicas que a família precisa.
- E esse cremezinho aqui?
- Ah, é para o João que tem problemas de pele.
- E esse iogurte diet?
- É a Marília que está fazendo dieta.
- O sutiã meia taça é para ela também?
- Claro, ela já está virando moça.
- O baton?
- Baton? Cadê? Nossa, caiu sem querer.

A propaganda molda culturas, comportamentos. Molda culpas também.

Há décadas que catequizamos as mulheres. Elas são donas de casas valentes que abrem mão da vida pelo bem das promoções e do conforto do lar. A propaganda de varejo é o cânone das instituições politicamente corretas: família, economia doméstica e bem comum. Projeta uma aspiração de seriedade e renúncia que acentua a culpa de se sentir vaidosa, fogosa, perdulária, preguiçosa às vezes.

A culpa de se sentir um ser humano animalzinho cuja sobrevivência depende de boa dose de auto-estima e egoísmo.

Propaganda gosta mais de festa ou de prêmio?

08/10/2009 em Propaganda | 2 Comentários »

Um desfile de escolas de samba é uma festa. A competição para escolher a melhor delas é um prêmio. O carnaval é um prêmio que é uma festa. A desculpa para a festa é o prêmio. Miss Universo, Oscar e Vale Tudo  também são festas disfarçadas de prêmio.

Há também festas que são competições. A Copa do Mundo por exemplo, as rinhas de galo, o Nobel. O prêmio dá em festa, mas é o primeiro que importa.

A linha é tênue, mas a diferença se estabelece por eliminação: um carnaval sem festa não acontece enquanto que se eliminarmos a premiação, rola. Uma Copa de Mundo sem competição simplesmente não pode existir e a festa não faz muita diferença.

Simplificando, há festas como o carnaval e há competições como a Copa do Mundo.

Na propaganda há também prêmios que são festas e festas que são prêmios. Há competições e há festas, apesar das suas respectivas desculpas.

Todo mundo gosta de festa e todo mundo torce por premiações. Não é preciso fazer juízos de valor, festas são emocionais e prêmios são racionais.

Existem prêmios que viraram festas. O Festival de Cannes de Publicidade está quase lá. Afinal nem precisa ter os melhores prêmios, é só somar alguns bronzes e muitos short-lists para ser a agência do ano e fazer a festa.

Agora, ser indicado a um prêmio apesar de ter feito uma mega cagada por causa de prêmios (e festas), é a festa do caquí.

Adolescente não prefere a Internet às outras mídias

07/10/2009 em Internet | 3 Comentários »

Uma amiga alarmou-se com a estúpida idéia da secretaria de meio ambiente de instituir um dia sem carne (segunda feira), sois disant para lutar contra o aquecimento global. Meus leitores donos de churrascaria (sic) deveriam instituir um desconto nesse dia para provar a imbecilidade da iniciativa: entre o prazer de comer carne quando me dá na telha e a flatulência do gado nos pastos, quem desistiria de um bifão delicioso? Além da ignorância cientifica dos autores da idéia e de suas gulodices de popularidade, acalmei a amiga dizendo que Dona Maria não leu essa notícia e vai continuar comprando carne no supermercado.

A gente se anima no nosso micro-cosmo de mídia. Se alarma também. Se apavora às vezes.

Já decretaram a morte da mídia de massa, todas, com o argumento clássico de que as novas gerações, em particular os adolescentes, estão consumindo menos TV, menos jornal e substituindo seu consumo de mídia pela Internet.

Não é bem assim. Vamos des-quebrar alguns paradigmas com um recente estudo da Nielsen nos Estados Unidos.

Não é verdade que os adolescentes são mais multimídia simultâneos que os adultos (77% do tempo de consumo de mídia continua sendo exclusivo e não simultâneo).

Eles continuam muito focados na TV (3 horas e 20 minutos de TV por dia contra 52 minutinhos na frente do PC). E, ainda, vale dizer, que eles assistem mais TV do que nunca, e ao vivo, mas muito mais do que gravando programas (pulando comerciais).

O estudo também aponta que os teens assistem menos vídeos online do que os adultos (pouco mais de 3 horas por mês entre 12 e 17 anos, 5 horas e meia entre 18 e 24 anos e 3 horas e meia entre 35 e 44 anos).

Tem mais: os adolescentes também usam menos a Internet que a média da população (11 horas e meia por mês contra pouco mais de 29 horas da média) e só respondem por 23% da audiência de jogos de console e menos de 10% de jogos para PC.

Mas o dado mais surpreendente vem agora: mais de um quarto dos adolescentes americanos declaram ler um jornal diário e um terço no domingo.

Ao invés de decretar a morte da mídia velha, talvez seja mais interessante adaptá-la aos novos tempos. Antes de entronizar a mídia nova, talvez seja mais interessante arrumar um jeito de ganhar dinheiro com ela.

E antes de parar de comer carne ou inventar um luftal bovino, vamos fotografar o prefeito se empanturrando de um delicioso bife Bonsmara.

O anonimato é falta de caráter, na Internet também

07/10/2009 em Internet | Tags: , | 6 Comentários »

Semana passada, a policia anti-terrorista americana interpelou um ativista (e invadiu sua casa), sob a acusação de twittar para manifestantes da reunião do G-20. Aparentemente, o elemento estaria dando informações a respeito da movimentação da polícia (além de possuir uma foto do Lênin!).

O fait divers, que se soma a muitos outros usos do Twitter com finalidade pública ou politica (vide o Iran), levanta uma questão importante a respeito da liberdade e identidade das pessoas na Internet.

Em alguns países, o anonimato de um blogueiro é proibido. Em casos de crimes previstos em lei como difamação ou divulgação de conteúdos ilícitos na Internet, qualquer pessoa pode ser perseguida com quebra de sigilo autorizada.

Essa é uma das discussões que deve integrar o marco regulatório da Internet brasileira em breve.

A inocência do twitteiro americano é tão indiscutível quanto a culpa de muitas iniciativas ilegais que a aparente liberdade da Internet acoberta.

Como regular a Web?

De uma maneira geral, talvez baste seguir o exemplo da Inglaterra que simplesmente exige a identificação pública de qualquer autor. Ao invés de partir para ações criminais (como deseja, o senador tucano Eduardo Azeredo), medidas mais simples e civilizadas podem resolver.

A Internet é livre mas será que isso quer dizer que sua explosão depende do anonimato?

A liberdade é refém do anonimato?

O anonimato é precisamente o recurso que se usa para driblar possíveis coerções. Ladrões assaltam bancos com máscaras para não serem reconhecidos, terroristas idem e também vitimas de criminosos usam o anonimato para protegerem-se.

O anonimato não seria, ao contrário, uma espécie de covardia, assim como a falsidade ideológica? Desvios sérios de caráter? Na vida e na Internet também?

A liberdade, ao contrário é o corolário da coragem. Ser livre é não ter medo de pensar e agir. É não ter medo de assinar embaixo. É assumir opiniões e autorias. Na vida e na Internet também.

Minha obra é minha vida, estou nas redes sociais

06/10/2009 em Internet | Tags: | 8 Comentários »

caravaggio7

Quase nada sabemos sobre o Caravaggio. Nem ao certo onde nasceu, se morreu assassinado ou doente, quem sabe, numa praia da Toscana. Da luminosa Itália, na sua obra, raríssimos são os céus e sóis. É o claro-obscuro da sua alma que acentua as mais sofridas cenas bíblicas. Homem anônimo, pintor eterno.

“Há mais coisas na vida além da mídia, mas não muito… Na era da informação, a invisibilidade é equivalente à morte.” Germaine Greer

Um amigo enviou-me essa frase, certo de que ela poderia inspirar os leitores. Numa perspectiva isolada, a frase é uma esperança: nunca foi tão fácil, vide barato, aparecer, destacar-se e perpetuar-se. Somos reconhecidos, nas micro-sociedades que frequentamos, pelas confissões públicas que cometemos na Internet. Ser invisível é impossível. Somos imortais.

A vida, na Internet, é nossa tara, nossa razão documentada de existência. É dela que falamos e viralizamos. É a dos outros que comentamos e criticamos.

Na era da informação, nossa obra é nossa vida.

Esquecemos a lição do Caravaggio.

E depois, um dia, após a morte, apagar-se-ão nossos estéreis perfís que um dia, iludiram-se de eternidade.