Planejamento engana trouxa

23/03/2010

A sala era um pot pourri de quintessências. Vapores caros, frufrus raros, viagens e referências rasas fustigavam o ambiente. A inauguração seria um happening digno das corridas de Ascott: a crème de la crème da cidade iria conhecer o provimento mais exclusivo, as novas coleções recém desembarcadas dos ateliers. Era preciso um passa-tempo para distrair as lindas, disfarçar com elegância o furor consumista.

- Podemos oferecer um aperçu do cirque du soleil?
- Déja vu, chérie!
- Quem sabe a lady gaga não viria em pessoa?
- Gaga o quê?
- Um chuva de pétalas, diligências e candelabros de 12 velas?
- Kitsh!
- Uma coisa mais roots, hip hip, beat box?
- Bas fond!
- Já sei: um intelectual?
- Intelectual?
- É. Um desses filósofos filosofa sobre a filosofia do consumo.
- Opa! Agora gostei. Filosofar é hype!

Planejar uma marca, construir catedrais conceituais sobre arcabouços teóricos é sucesso garantido. Nem mesmo a criação é capaz, hoje, de causar tanto frisson nas platéias empresariais. É a hora do relaxamento, da esperança, de lavar a consciência. É quando não nos achamos tão interesseiros, imediatistas, selvagens.

O planejamento levanta o sarrafo com seus arrepios sedutores e ofusca ou entorpece a entrega, aquilo que vai pra rua, depois de aterrissar com os pés no chão.

De tanto ouvirem que é preciso soltar as amarras, inspirar, ser criativo, sedutor, sexy e glamoroso, os planejadores desmunhecam no espaço sideral.

Eis onde reside a frustração de 10 em cada 10 anunciante lúcido: “vende-se a lua e entrega-se seu reflexo fugidio num mar revolto”.

Planejamento não existe para vender idéias a um anunciante. Não é a propaganda da propaganda. Não é esse me-engana-que-eu-gosto.

Planejamento existe para tornar factível uma idéia. Planejamento existe para ir para a rua, para a mídia, para a cabeça do consumidor. Planejamento que pira na promessa sem calibrar e prever o que vai ser possível entregar é poesia. Rasteira.


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12 Comentários para “Planejamento engana trouxa”

  1. Paulo Vita says:

    Tô aqui, de pé, aplaudindo o texto.

  2. Flávia says:

    Olá,
    Realmente isso acontece mto. O pior é que mto recentemente tive chefes que usavam o dpto com essa unica fidelidade. É triste, pq definitivamente o seu trabalho passa a não significar nada além de “somebody love”, xavequinho barato.
    Parabéns pelo texto, mto bom!
    Abs

  3. Jonny says:

    Kct,! vc ta cada vez mais foda! ta na hora de contratar uns seguranças, hahaha
    abs

  4. Andrea Afonso says:

    Muito bom, como sempre! Parabéns.
    Bjão.

  5. João Gabriel says:

    Uau! Ler teu blog é como fazer uma boa terapia de carreira.
    Parabéns mais uma vez. Abs

  6. Pablo says:

    C’est la même merde qu’on apprend aux livres, qui tout le monde sait (au moins les planners) = le planning sert pas a défendre la création. Mais, comme il s’agit d’un français qui parle, tout le monde applaudit.
    Degueulasse…

  7. Jack Dead says:

    Desculpe, mas esse texto foi originalmente escrito pelo Jabor, não?

  8. Mario says:

    é do Jabor sim…

  9. Mario says:

    Descobri, não é do Jabor, é do Borges..

  10. Mario says:

    E tem outra, nosso amigo Fernand é francês metade alagoano. dos bons. Tem Ramos no nome, lá de Palmeira dos Índios, por perto na verdade. aquele mesmo de Angústia, Memórias do Cárcere..

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