Internet vicia tanto quanto brócolis

Pipocam pesquisas, aqui e ali, documentando uma nova praga na sociedade contemporânea: o vício na Internet. E correm linhas e mais linhas bem pensantes, preocupadas, nos jornais.

O jornalismo moderno gosta de ser fiel à moral e aos bons costumes, juiz da média, do senso comum, da obviedade tranquilizante, da modorra crítica.

Os jornais adoram documentar casos de abusos aliciadores na Internet, pedófilos, traficantes, panfletários dos extremos e outros desvios que apavoram o pequeno-burguês. Agora, estaríamos no limiar de uma sociopatologia.

E claro, como opinião é risco, o hábil jornalista ampara-se em consultas credenciadas. Médicos, terapeutas, psicólogos premiam seus currículos mornos com aspas publicadas: “Os viciados [em Internet] apresentaram os mesmos sintomas de abstinência quando afastados do hábito de usar Internet que viciados em drogas ou álcool”. Doutor Zé Ninguém, professor da Universidade John Nothing de Johnson Nowhere.

O Robinson Crusoe ficou lá, perdidão na ilha paradisíaca, sozinho. Começou a ter tremores, suores, alucinações que não eram provocadas por falta de comida, sexo ou cachimbo. Ele sentiu falta de gente. Por isso encontrou ou inventou Sexta-Feira, o bom selvagem confessor. Se vício havia, era vício de ser social. Era vício de ser humano.

O mundo deu muitas voltas de lá pra cá e chegamos aqui, nesse milênio em que a forma prioritária de relacionamento é digital. Não é nem bom, nem mau. É assim.

Tirar a Internet de nossos contemporâneos é como jogar a pessoa na Ilha do Robinson. Vai dar faniquito, como daria nos nobres jornalistas se ficassem um dia sem a maçaroca de papel na soleira da porta. Vai dar crise de abstinência, como daria nos políticos privados de palanque. Vai dar fogacho e sudorese, como daria nos magnatas distantes das bolsas e dos mercados.

Comparar o hábito frequente de usar a Internet com o vício em drogas, francamente, é abstinência de inteligência.

5 thoughts on “Internet vicia tanto quanto brócolis

  1. Acho que internet potencializa mais do que inventa. Fazemos as mesmas coisas, só que mais rápido, mais potentes e mais abrangentes. Mas “Narciso acha feio o que não é espelho”, dai dá nisso… acha que é droga… fala que é coisa de mongol… por aí vai…

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