Archive for May, 2010

O jovem divorciou-se do jornalismo?

31/05/2010 em Internet | Tags: , , | 4 Comentários »

Outro dia, num evento lotado de gente bacana, jovens na maioria:

- Tem muita reportagem de televisão aqui, né?
- Pode crer. É para meus pais essa parada.

Era assim que os dois analisavam a cobertura jornalística do acontecimento, referindo-se em particular à equipe do CQC presente para seus rompantes.

Não existia possibilidade de ir para a escola e depois para a faculdade sem ter lido o jornal, de preferência a Folha, e obrigatoriamente a Ilustrada, que muitas vezes carregávamos dentro do caderno. Ler jornal era uma questão de sobrevivência social. E também era importante ver o Jornal Nacional e ler a pré-degringolada da Veja.

Responsabilizar a Internet pelo desinteresse da molecada pelo jornalismo tradicional, broadcast, encurta demais o raciocínio. Sim, a função hard-news desempenhada pelos veículos tradicionais perdeu algum sentido. Sim, a fome por liberdade e voz é incomensurável.

Mas, sem dúvida nenhuma, a responsabilidade é no mínimo compartilhada. Muito pouco ou quase nada se fez nos jornais, nas revistas e na TV – o rádio é um caso à parte – para entender o novo contexto do consumidor de notícias, particularmente o jovem.

As incorporações “participativas” do jornalismo cidadão nos veículos tradicionais são um truque muito meia-boca para dar conta do recado de reconquistar, seduzir e fidelizar o jovem. Sempre soa como um arremedo que não parece funcionar em plataformas nascidas para serem broadcast.

Por outro lado, os esforços de reforma editorial tampouco parecem ser fundamentados ou inspirados para atrair nossos leitores/espectadores do futuro. Parecem maquiagem porque pouco se ousa em nome daqueles que ainda não aposentaram seus hábitos. Quem assumiria o risco de enfrentar o vovô, enfurecido cada vez que seu jornal muda uma coluna de posição?

Por isso, talvez seja mais inteligente e rápido criar produtos paralelos, mais ousados, para aprender e experimentar o diálogo com essa galera que acha que jornalismo é coisa de paizão querendo saber o que está acontecendo com o mundo, com a rua, com o jovem.

A Veja é só uma espécie de Arnaldo Jabor

28/05/2010 em Propaganda | Tags: , | 2 Comentários »

Na Grécia antiga, a platéia era parte do espetáculo. Ao coro que julgava, dirigiam-se os personagens. Numa tourada, o público decide quantas orelhas o matador merece, ou o rabo de glória suprema. No estádio, a torcida é camisa 12, joga e decide.

Quando a audiência passou a ser vendida ela se tornou um ponto na curva. Quando a audiência virou número, ela deixou o espetáculo e seu julgamento é tardio. Quando a mídia passou a ser hábito antes de deliberação voluntária, o público virou massa. E a propaganda nasceu.

Nessas mídias de massa, o conteúdo é comandante que move as audiências em migrações quase involuntárias.

Até que um dia, a gente acordou e sacou que tinha sido enganado. Que nosso gosto tinha sido lobotomizado por décadas de conformismo crítico. Porque de repente você vê algo que lhe emociona e que não estava na mídia. Porque você sabe de algo que a mídia omitiu ou mentiu ou traiu. E a gente vira pária da bem-pensante burguesia e do mundo.

Mas quando surgiram outras vozes, infinitas novas vozes, alguns, de massa, desceram do pedestal e foram para a vida também. Outros calcificaram-se de soberba.

Quando isso aconteceu com quem viveu a transição, foi uma revelação mas para a maioria das novas (e futuras) audiências, a Veja é só uma opinião bizarra. Para esses, a Veja não passa de um partido rarefeito.

Enquanto a mídia e a propaganda inteligentes (inclusive as de massa), seguem construindo audiência, as outras inflamam seus milhõezinhos de velinhos caretinhas ou muito burrinhos.

Vigário Geral virou geral

27/05/2010 em Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

Ontem, na inauguração do Centro Cultural Waly Salomão do Afroreggae, em Vigário Geral, no Rio.

- A senhora mora aqui há quanto tempo?
- Estou na comunidade há 25 anos.
- Esse centro cultural incrível vai mudar muita coisa por aqui, né?
- Você já foi a um abatedouro, filho?
- Já.
- Esse era o cheiro, filho. Carniça. De gente.

Cultura oferecida

27/05/2010 em Sei lá | Tags: | 3 Comentários »

É quase impossível driblar o malho em qualquer evento cultural hoje. Se é para beneficiar-se de incentivos fiscais, para aliviar a  consciência atormentada, obter retorno de imagem ou gosto, não importa: tem grana de marca sendo investido. É bom e a gente gosta.

Se de um lado, os produtores estão mais abertos com as incursões comercias, os investidores estão cada vez mais ousados. E no limite, uma prosmiscuidade constrangedora ocorre.

Tudo bem se vivemos uma espécie de euforia, tudo bem se “cultura é hype” (sic), tudo certo, daqui a pouco tudo se acomoda.

Mas quando as manifestações culturais, de qualquer tipo, inclusive as muito populares, as muito eruditas, as muito vanguardistas, viram plataforma de mídia, isso incomoda.

O televisor de plasma na entrada, na saída, no mictório, é a praga mais recente. Mas tem também os quiosques sorridentes distribuindo brindes com trocadilhos infames e quando o João Doria resolver “investir em cultura” (sic), o audio guide vai ser patrocinado por uma concessionária de estradas, as plaquinhas indicativas por uma siderúrgica, a moldura por um fabricante de esquadrias, a iluminação vai ter intervalo comercial antes de acender e o papel higiênico vai ser oferecimento de uma ONG pela ética na política. Tudo com muita adequação, originalidade e vagabundice extrema.

Estamos virando uma espécie de casa de tolerância cultural (sem eufemismo, eu quis dizer puteiro).

O preconceito da imprensa arrasta correntes para sempre

25/05/2010 em Uncategorized | Tags: | 1 Comentário »

Céline foi um grande escritor francês do século XX. Em sua prosa quase sem pontuação, como um grito de um sopro só, ele revolucionou a literatura francesa ainda muito presa ao formalismo acadêmico. Nada prenuncia na sua poética, no entanto, que ele é o autor dos mais asquerosos libelos antissemitas. No pós-guerra naturalmente revanchista, ele, como outros grandes nomes das artes francesas, foram julgados e inocentados de todas as acusações. Delito de opinião não é delito legal, nem penal.

Céline foi um grande autor e um porco nojento: poucos ainda o leem, apesar de sua dimensão artística inquestionável.

A literatura, assim como a imprensa, pode cometer, ou melhor, assumir, seus delitos de opinião, sem consequências. A arte, num caso, ou a investigação imparcial, em outro, funcionam como escudos antiaderentes. Em nome da “arte” podem-se ousar posições. Em nome do trato da liberdade de expressão, podem-se tomar partidos galhardos.

Ademais, opiniões não são enunciados matemáticos. As interpretações é que enunciam. Uma mesma afirmação pode parecer branco para uns, preto para outros. Ainda mais quando elas são acobertadas por referências eruditas (na literatura) ou fontes fidedignas (na imprensa).

Mas a passagem do tempo é severa com os delitos de opinião. Nessa perspectiva, o perdão é difícil, principalmente no caso da opinião jornalística que se arvora, pretensiosamente, de uma espécie de construção da história, no calor do fato.

O jornalismo preconceituoso, ainda que possa ser (dificilmente) tolerado no presente, é um fantasma, no futuro. Uma vergonha para as gerações futuras.

Vale a pena ver de novo

24/05/2010 em Sei lá | Tags: | 3 Comentários »

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Propaganda, fiel da balança de audiência

24/05/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Desde que inventaram o controle remoto e sua diligente criada, a TV por assinatura, a identidade dos diferentes canais ficou difusa e por vezes caímos nas armadilhas que pasteurizam as programações.

Já se foi o tempo em que achavam que o vilão dispersor de audiência era o intervalo comercial. Mais inteligente considerar que o ponto de fuga é o mau conteúdo, todos eles confundidos, inclusive os comerciais.

Manter a saliva do telespectador no grau é, portanto, um compromisso que interessa a todos: anunciantes e veículos.

Bons conteúdos emprestam audiência para conteúdos menos bons e os ruins fazem um vácuo difícil de recuperar. É um pulso sensível manter a audiência ao longo da programação.

Este é ano de copa e de eleição. É ano de excitação econômica. Já está tudo atropelado e as entregas comerciais prometem alongar os intervalos comerciais.

Dia 23/05/2010, Fantástico, dois intervalos distintos.

Primeiro. Conteúdo premiado: Fiat Uno, Claro, Skol, VW Gol, Nextel, mas também Código do Consumidor e Unip.

Segundo. Sente o drama: Casas Bahia, Dupla Sena, Globo na copa, Hyundai, Tigre, Torpedo Campeão, Governo de SP, Sex and the City.

Zefa assiste televisão concentrada olhando a tela.

No primeiro break, atenção permanente. Audiência preservada.

No segundo, Zefa não resistiu ao comercial da Dupla Sena. Virou a cabeça para o lado e adormeceu. Audiência perdida para sempre.

Intervalo comercial é grade, e quando o comercial é chato, ela não prende ninguém.

Cases de propaganda ou como excitar Lond Dong

21/05/2010 em Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

Leporello era baixinho, gordinho e cabaço. Tentava ficar com umas rebarbas das proezas amorosas do mestre cantando seu catálogo: “Já são mil e três”. Don Giovanni seduzia com outras armas. Com as tímidas, posava o recato; com as sensuais, simulava arrojo; com as nobres, declamava; com as plebeias, jurava núpcias. Não era a quantidade que lhe orgulhava, era a estreia sempre renovada.

É enfadonho acompanhar a explanação, mesmo entusiasmada, de cases de marcas. O roteiro é sempre o mesmo.

Passa-se muito tempo enobrecendo os obstáculos. Com um rosário de superlativos, enaltece-se a posição dos concorrentes, apiedamo-nos sobre os recursos e a condição aviltada da marca.

Quando o Zorro entra em ação, ele encontra a centelha, a pedra angular, o calcanhar de Aquiles, o ponto de inflexão (vai anotando, essas palavras causam efeito).

Seu achado, seu insight, a pedra filosofal, o ovo de Colombo, a caixa de Pandora, o pó do Pirlimpimpim, Abracadabra, Catsibiriça Scarapimbauê Catinguerê (anota também, é aquele toque literário), e pronto, a gente vira a mesa, quebra o paradigma, levanta o véu, desvirgina, dichava o bagulho (essa parte é boa para dar aquela excitada básica).

Daí pra frente é só exagerar as escalas dos gráficos, dar aquela arredondada generosa, sem poupar humildade e temência à Divina Providência porque, afinal de contas, “não dependeu só da gente, contamos com a valiosa contribuição da companhia. Nós entramos com a ideia, eles, com a raça”.

E pronto, é só entrar em cena o grand finale, o arrebatamento emocional, o gozo da Kundaline, a criação.

E podem reparar, quanto maior a propaganda preliminar, maior a decepção.

Quanto maior o dote, pior a performance.

Dizem que Long Dong nunca levantou a piroca de tão descomunal. Por mais que tentasse, o membro continuava dependurado, flácido e trapalhão. Usava prótese nos filmes. Nós também.

“Você entra com a bossa, eu entro com a boçalidade”

20/05/2010 em Sei lá | Tags: | 5 Comentários »

Perguntaram outro dia “você é sempre do contra?” e pensei que talvez valesse a pena, excepcionalmente, falar um pouco em primeira pessoa.

Viver não é uma opção, é uma contingência. Ver, sentir, pensar, escrever também. Morrer é a única decisão que tomamos, no reflexo do viver.

E se assim for, muito além dos fluxos e refluxos que nos conduzem, assumir o leme das decisões, ver-se como centro irradiador de causas, criador das marés, influenciador do futuro é o alimento da vida. Melhor morrer do que curtir a deriva.

O homem não teria criado o fogo e a roda, fundido os metais, construído estradas, edificado templos, eliminado inimigos, vencido o espaço sideral e sonhado com a eternidade se nunca tivesse duvidado do determinismo e das leis de causa e efeito. O homem nunca teria sido homem se não tivesse duvidado de Deus.

O drama da existência só tem sentido quando extravasamos ou no mínimo assumimos que somos contra tudo e todos. A crítica, ainda que não seja opção, é a base da vida.

Só vale a pena beneficiar dos minutinhos de atenção dos bem aventurados leitores desse blog se for para ser contra. A turba do “a favor” já é grande demais.

Uma online mais careta do que a mais careta das offline

18/05/2010 em Internet, Propaganda | 9 Comentários »

E lá vem mais um gaiato pontificar enfaticamente sobre o que não sabe: o gringo da Razorfish atirou mídia contra mídia, TV contra Internet, através de um falacioso argumento. O BV seria o culpado entre a prática real do comportamento online dos brasileiros e o “dinheiro gasto pelos anunciantes em publicidade na televisão”.

Pouco importa saber sob que impulso suicida ele fez a afirmação, ele que representa uma empresa de um dos maiores grupos de agências do mundo, que, no país, tiram boa parte de suas receitas justamente da TV.

Para além da ingenuidade batida, sua conduta é no mínimo injusta e no máximo ofensiva.

Se ainda podemos discutir a tal da “lacuna entre o comportamento online do brasileiro”, é irresponsável incutir às agências um comportamento viciado e vicioso de “privilegiar” uma mídia em detrimento da outra por conta do BV. A menos que exista uma secreta pesquisa que dá conta da “boutade”.

Mas polêmica de neófito não faz verão. Sequer vende notoriedade.

O que cabe debater sim é qual é a visão que se tem do consumo de mídia das pessoas, dos brasileiros. E isso transcende o discurso comercial em muito.

Todas as pesquisas, todas as visões, todas as teorias até,  dão conta de que as pessoas consomem complementarmente todas as mídias, numa sofreguidão infinita. As escolhas são elásticas como nunca imaginávamos que fossem.

Que discursinho mais velho, careta e nanico. Vai pra casa, vai!

iPad ou a arte do vazio

18/05/2010 em Sei lá | Tags: , | 6 Comentários »

A maior mentira do milênio é acreditar que a tecnologia é uma mola do progresso.

Desde que ela saiu dos escaninhos, tomou marca e mercado, uma espécie de parnasianismo troncho nos empossou. E, assim, o desejo de transpor fronteiras e cercar-se de potencialidades materializadas por próteses tecnológicas tornou-se irresistível.

Passamos a querer e possuir o inimaginável, o ainda não sonhado. E o encanto dura até que o mistério dos recursos anunciados seja desvendado ou desmascarado. O valor do produto é diretamente proporcional às suas promessas. Quando elas caem por terra, o charme é quebrado. Até a próxima novidade.

Cercamo-nos de sucata em gestação, cada vez mais efêmera, cada vez mais vazia. O nome do bicho hoje é o e-reader, mas daqui a pouco será outra belezura ainda mais cheia de juras.

Então cá estamos nessa situaçãozinha ridícula.

- Funcional significa algo que não sei como usar e que provavelmente nunca vou aprender. E, se aprender, deixará de ser “funcional.

- Beleza – ou uma palavra mais in: design – significa funcionalidade. Portanto, quanto mais “funcional” for uma coisa, mais bela ela será.

- E, no limite, desejamos belas potencialidades vazias.

Assim, o livro vazio, sem uma linha escrita, o disco sem a mais tímida melodia, a partitura sem nota, sem ideia nem forma, ganha valor. E quanto maior a possibilidade de TUDO, quanto maior o NADA, mais valor.

Se tecnologia é sinônimo de progresso, de que progresso estamos falando?

Os Lusíadas valem nada perto de um iPad virgem.

Fazer bonito pra ninguém ver é bico

14/05/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Na Internet, na revista, no jornal, se tu não curte a propaganda tu não dá bola ou pula. Na televisão só dá sono porque tem mesmo é que segurar as pontas. E mesmo que tu tenha o trampo de gravar as paradas pra ver depois. Ai que preguiça!

Mas tu entra lá em qualquer best off de qualquer festival e só vê coisas legais que capaz de tu curtir mais do que o que vem depois ou antes do intervalo. Até porque vamos combinar que propaganda legal pode ser mais bacana que certos folhetins, botocados de auditório e peladas.

Então porque é que nego não inventa um prêmio por categoria de audiência. Não interessaria comparar carro com carro, geladeira com geladeira, bebida com bebida. O que liga aqui é comparar o que se vê muito com o que se vê muito, o que se vê médio com o que se vê médio, o que se vê pouco com o que se vê pouco.

É assim, presta atenção. “Ouro” vai pro melhor da categoria acima de XXXX pessoas impactadas. Se ganhar cerveja, carro ou lançamento imobiliário, não interessa. Vai ganhar ouro a melhor propaganda vista por mais gente. E “prata”, “bronze” e “papel” pra níveis inferiores de audiência (XXX, XX e X pessoas). E se forem diferentes mídias, tudo bem, os patamares mudam (porque não seria justo comparar a audiência da revista DBO com a do Globo Rural na TV)

Não inviabiliza nenhuma outra competição, mas pelo menos assim a gente vai sacar que é difícil pra cacete fazer propaganda boa que muita gente vê e bem mais fácil fazer propaganda boa que ninguém vê.

Capaz de ganhar “ouro” um monte de porcaria e o prêmio “papel” ir para os ouros de Cannes, D&AD, Clio, Festival de Londres e CCSP.

Porque todo jurado pensa igual mas faz diferente?

13/05/2010 em Propaganda | Tags: | 6 Comentários »

Está aberta a temporada de caça às premiações, que ainda são as mais eficientes formas de dar visibilidade e reputação a uma agência de comunicação. Não há discussão para esse argumento. Podem falar, espernear, invocar os espíritos justiceiros e os orixás empresariais, mas ainda são e serão por muito tempo os louros criativos o fiel da balança que separa as boas das menos boas.

É um jeito. É o jeito.

Nas antípodas desse fato, existe a propaganda real que segue modorrenta, repetitiva, conspurcada por impulsos aparentemente menos nobres do que aqueles que habitam os jurados dos prêmios.

Todo o mundo, do mais talentoso ao mais comportado, do mais agraciado ao mais hostil, do mais brilhante criativo ao medíocre, sabe perfeitamente distinguir uma boa propaganda de uma ruim. Os argumentos são surpreendentemente os mesmos, as referências idem e as apreciações também. Todos os jurados são iguais e, colocados de lado os interesses individuais legítimos, o crivo é rigorosamente o mesmo. A única diferença está na generosidade de uns e outros. É até comum perceber que a tendência é quase inversa à lógica: quanto mais premiado o jurado, mais tolerante.

Então onde está o real talento?

E se a criatividade não fosse a diferença que qualifica uma boa de uma má propaganda? Porque todo o mundo sabe as mesmas coisas e julga da mesma forma.

E se o bom publicitário não fosse o mais criativo, mas o mais convincente, o mais corajoso, o mais teimoso, o mais sedutor?

É na rua que a gente separa os homens das crianças, e não na sala de justiça, nem no palco.

E a liberdade de expressão da boca pra dentro?

12/05/2010 em Internet | Tags: | 6 Comentários »

A liberdade de expressão é uma quimera que acalentamos. É um direito garantido constitucionalmente. E enche a boca de todos aqueles que se sentem minimamente atingidos ou pressionados.

No entanto, franquia de ideia e de opinião tem preço. E muito alto em tempos de incontinência comunicativa.

Nenhum insano fascista seria capaz de defender o controle da imprensa, tampouco de impor regras de censura. A imprensa livre garante o equilíbrio democrático. Esse é o chavão inapelável que rege a bem pensante burguesia.

Tampouco é possível penalizar “delitos” de opinião individuais. Todo mundo tem o direito preservado de achar o que quiser de quem quiser e do que quiser. E esse direito se estende também para qualquer forma de expressão, da conversa de bar ao libelo amador, do Facebook ao Twitter.

A imprensa, que tanto empunha a bandeira da preservação da liberdade de expressão e que em regimes razoavelmente livres tem defesa assegurada pela opinião pública, no entanto, evolui em um sistema que preserva seu direito de controle da opinião manifesta de seus funcionários. O direito da empresa (de reprimir ou demitir) se sobrepõe ao direito individual de expressão.

É ilegal discriminar, no seio de uma organização, por raça, cor, credo, opção sexual, etc. Qualquer funcionário de uma empresa pode acionar seu empregador se perceber e provar esses delitos. Ainda que a empresa possa demitir o funcionário, ela poderá ser processada. Por que não sucede o mesmo quando alguém emite uma opinião contrária à da empresa para seus colegas, sua esposa, seus amigos do bar, do Twitter, do Facebook?

A encruzilhada é difícil, mas no caso da imprensa, diferentemente de outras empresas capitalistas, é inevitável considerar de certa hipocrisia a defesa inflamada da liberdade de expressão, quando ela impõe regras na expressão livre de seus jornalistas em redes sociais.

Arte vaga no museu, na rua e no banheiro

10/05/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Tem a arte pela arte, a arte da rua e a arte no banheiro do Geraldão. A palavra é um poço de indefinições, como amor e morte. É por isso que é menos desesperador encarar as negativas. Amor é o contrário de ódio, e esse sabemos muito bem reconhecer. Da morte nem sabemos de que inverso é.

Arte é o contrário do que fazemos se não somos artistas. Tricô, crochê, macramê, decapê, bricolagem, origami, jardinagem ou propaganda é arte?

Andy Warhol, o cara que bagunçou tudo, arte e propaganda inclusive, dizia que arte é aquilo que não tem utilidade mas que queremos ter. Um xale de crochê para um marmanjo é arte, portanto. Um bonsai na cozinha é arte. Propaganda da Apple é arte. Um Picasso na sala de casa não é arte. Nem uma ponte de Calatrava. Nem o domo da Capela Sistina. A Primavera de Vivaldi é arte na sala de concerto e não arte na propaganda de sabonete.

Estamos no século da aposentadoria do rigor, do formalismo, dos rótulos e das definições. É o fim da picada, e a palavra arte tornou-se obsoleta porque vaga, genérica e surrada.

Mas se ainda acreditarmos que arte é a expressão de um pulso, de uma visão sublimada do mundo, então ela ainda tem sentido sempre que ainda formos capazes de sentir, sem filtro, sem medo, sem preconceito.

E talvez o mestre (mestre?) pop estivesse errado na sua definição. Arte talvez seja a única expressão autêntica que podemos exalar. Nosso tricô-reflexo e nossa propaganda-alma é arte. Nosso tricô-agasalho e nossa propaganda-tecnicista, não.

Geração espontânea de conteúdo é propaganda?

07/05/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

As experiências com conteúdo publicitário gerado por usuários costumam ser qualitativamente decepcionantes. É bonitinho saber que foram amadores populares que produziram aquilo, com seu esforço e criatividade. A porcaria barata e enternecedora. Mas tem que avisar bem grande: “Pessoal, foi meu filho de 5 anos que fez essa arte!”

Propaganda é mais técnica do que arte. O bom gosto e a capacidade criativa não são talentos suficientes.

Mas as iniciativas têm lá suas vantagens, para além da voga, já meio démodé.

A primeira delas é tentarmos direcionar esse tipo de “exploração” consciente dos consumidores para conteúdos não necessariamente publicitários. Documentos de vida, de uso, de hábito podem ser muito ricos quando autobiográficos.

Por outro lado, as experiências podem ser boas para a geração de insights. Se encararmos esse conteúdo dessa forma, sem compromisso de uso, esse tipo de pré-teste reverso, no qual consumidores criam, postam e principalmente opinam, é divertido e pode ser útil. É quase um pré-briefing pré-aprovado. Os universitários assuntam e a gente escreve.

Mas também pode ser que estejamos formando plateias publicitárias. Quanto mais inteligente e sensível for o consumidor, melhor será a propaganda, sempre (inclusive a não tradicional). É ouvindo música boa que nascem os grandes músicos. É vendo boa propaganda que nascem os bons publicitários e os bons clientes.

A fumaça novidadeira não enche barriga

06/05/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Os rótulos estão para as tendências assim como a fumaça está para o fogo. Anunciam e apontam. E quando há muito mais espuma do que água significa que a gestação é de risco.

E é por aqui que entra o alvoroço gago mais conhecido sob o palavrão trans-midia-story-teller-brand-content.

É uma espécie de mistura de conteúdos servida num leito de mídias e que se consome de forma intravenosa ou ativamente. Pode ser degustado na bancada da cozinha gourmet ou no quilo da esquina, mas é sempre muito apetitoso para quem tem fome de alternativas.

Não nos cabe julgar o sentido de oportunidade, tampouco o oportunismo de agências de comunicação oferecerem esse discurso suculento a seus clientes. Até porque o período de críticas venceu e, com resultados ou sem, nego quer e ponto.

A questão, no entanto, é mais uma vez o formato de remuneração desse tipo de oferta que conjuga complexidade a incerteza numa dose quase incalculável.

O custo não é mais base para precificar o cardápio T.M.S.T.B.C.

Quanto se paga por uma espuma de pupunha com suspiro ardente de priprioca marinada na casca da castanha do Pará? Muito. Quanto custa? Impossível calcular pelas fórmulas clássicas, custo, overhead, mark-up, margem de concorrência, etc. É muito mais uma função de inventividade, experiência, coragem e reputação, portanto, mais insustentável que a leveza do ser.

Essa é a pedra no sapato de quem cria e o cisco no olho de quem tem que pagar.

É por isso que é tão difícil botar o power point na rua. Os formatos tradicionais (de mídia e remuneração) inseridos no discurso moderno – mesmo que inflados por um tipo de subsídio – serão ainda por muito tempo a melhor forma de convencer o cliente sem sugar a receita das agências.

A improbabilidade provável das novas mídias

05/05/2010 em Internet | Tags: , , | 1 Comentário »

Primeira pensata: alguém disse que o ateísmo é a mais improvável das escolhas.

Segunda pensata: aposta de Pascal. Escolhamos que Deus existe. Duas possibilidades. Se ganharmos, ganhamos tudo. Se perdermos, nada a perder. Melhor que Ele seja, então.

E, assim, Candido pergunta: “Vale a pena acreditar que a mídia de massa vai diminuir de importância e que o direito autoral idem?”

Vamos acreditar nos sinais e de forma muito prematura, quase irresponsável, é possível sentir que a mídia de massa já não é mais aquele balaio todo. Pois, se isso for verdade, o que se tem a ganhar ao se investir em conhecimento, experiência e energia nas novas mídias? Tudo, se o prenúncio for verdade. E nada a se perder, caso a hipótese não se confirme.

Vamos crer na tendência subterrânea, na pirataria com baque solto na Internet. O que perdemos se for verdade e não nos mexermos para encontrar fórmulas alternativas de distribuição? Tudo. E se for mentira, se a Internet não passar de miragem e as pessoas não forem tão más e desonestas como parecem? Ganhamos uma nova forma de ganhar ainda mais dinheiro sobre a criação autoral.

Mas há improbabilidade nas coisas que não emanam da vontade universal.

A borboleta bate as asas no Japão, move o caule da flor que num movimento pendular despeja o orvalho na terra que se junta a mais gotículas que se amontoam para formar um filete de água que move um galho que empurra outro e mais outro até chegar ao riacho, formando uma barragem que com a pressão da água irá romper-se despejando mais água imprevisível no rio que sobe de nível até o mar que estava já muito cheio por conta de outras borboletas em outros lugares que tiveram o mesmo gesto frágil simultâneo. E assim ocorre um maremoto nas ilhas Sakalina que um repórter da televisão noticia dando conta precipitada de causa ambiental. Milhares de pessoas mobilizam-se à porta da minha casa e fazem tanto barulho que acabam importunando meu sono.

E porque tanto se fala das mídias novas e porque tanto se burla o direito autoral que dois fatos aparentemente improváveis tornam-se tão prováveis quanto a improvável perturbação do sono pelo bater de asas de uma borboleta no Japão.

Brasileiro: DNA Creative Commons

04/05/2010 em Internet, Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

Não se pode levar muito a sério as generalizações que rotulam países, culturas e povos. Mas é um papo que enche a boca de muitas conversas. “O francês é mal-humorado; o português, literal; o italiano, conquistador; o americano, adolescente; o argentino, cabeludo; o mexicano, bigodudo; o indiano, fedido; o australiano, caipira; o japonês, tarado; o chinês, dissimulado; o russo, extravagante”, e por aí vai. É aquela conversinha mole que arrota “Sou viajado, tá?”.

O brasileiro seria, nessas qualificações precoces, alegre, se o viajante veio no carnaval; simpático, se ele se perdeu na Avenida Paulista; feliz, se ele se esticou nas areias; luxuriante, se ele comeu feijoada; gritalhão, se ele assistiu ao big brother local; caipira, se ele foi ao shopping; arrivista, se ele se derreteu na Oscar Freire. Sorridente ou desdentado, natural ou botocudo, sexy ou britânico, esperto ou disciplinado, o brasileiro pode ser tudo isso. O francês, também. O queniano, idem.

Mas se não deveríamos cometer tais derrapadas no atual milênio de extinção saudosa dos regionalismos, o brasileiro é o mais improvável dos povos e possui a mais impossível das identidades. A tolerância imposta pela miscigenação incontrolável nos deu essa zona poderosa.

Não tem nada mais falso e bobo do que um brasileiro que se esforça em ser americano, inglês ou argentino. Fazer como os americanos, os ingleses ou os argentinos. Pensar como os americanos, ingleses ou argentinos. Não tem nada mais provinciano.

Se o Brasil exporta sandália de dedo, avião a jato, dentistas e boleiros, ele tem para exportar a malemolência com o formalismo, a falta de vergonha, o aconchego cultural. Nosso DNA mestiço no sangue e mestiço no gosto. Nossa natureza copyleft. Nossa cultura mashup.

Mamãe, eu faço power-point

03/05/2010 em Propaganda | Tags: | 13 Comentários »

Infeliz aquele que inventou que uma agência de propaganda deveria ter especialistas em planejamento de comunicação ou marca ou sei lá mais o quê.

Não poderia haver palavrão mais inadequado para a “desordem dos sentidos” que povoa qualquer ambiente minimamente criativo.

O planejamento, no entanto, foi encontrando sua utilidade e suas cartas de nobrezas, mesmo que ele nem sempre faça o que o nome indica.

Ou seja?

Tese:

Existe um adágio recorrente, pronunciado com humores sábios pelas metralhadoras de clichês: “Não é o power-point que vai para o ar”. E, como pasto pisado não engorda, a gente reage e faz um planejamento “criativo”, que é esta tentativa charmosa de descabelar o tecnicismo.

Noite de amor sem carícia é abate, e os dois tipos de planejamento não passam de prolegómenos, com sedutoras promessas no primeiro e frissons compensatórios no segundo. Barroquismos à parte, o planejamento crivado de pesquisas é uma engenhoca pseudocientífica; o planejamento florido com insights psicanalíticos é a propaganda da propaganda.

Se não passamos de obreiros de um lado ou mestres de cerimônia do outro, o planejamento de comunicação não passa de uma encenação que só depende da performance dos atores para cumprir tabela com maestria. É fácil.

Mas, se o trabalho de planejamento é azeitar as interfaces de uma agência de comunicação, ele não pode ser uma vaselina para que o trabalho escorregue melhor goela abaixo do cliente.

Planejar é a arte do possível.

O cliente, qualquer que seja seu perfil, suas polices e suas vaidades, por definição, irá sempre querer muito: muitos resultados e múltiplas proposições. É do planejamento o compromisso de elencá-las.

A criação, tanto as mais rasteiras quanto e as mais etéreas, rejeitam, por formação, e as ambições do cliente e os insights que vêm da rua. É do planejamento o desafio de tornar o briefing simultaneamente pragmático e curioso.

A mídia, até a nossa aqui, que é ótima, fica naquele equilibrismo entre a rentabilidade do cliente e a do negócio, entre o pântano de números e o lampejo rompedor. É do planejamento a afinação de dar o lá.

Mas tudo isso também é fácil.

Antítese:

Difícil é só uma coisa: encontrar uma definição para o que a gente faz. Ou acha que faz. Tanto faz.

Tem milhões por aí e um outro tanto de modelos. Mas, no fundo no fundo no fundo, o que a gente faz é um power-point (ou qualquer outro eufemismo de power-point que a gente use para dourar a pílula) e propaganda da propaganda (ou todos os trejeitos intelectualoides que a gente cacareja).

O planejamento só presta mesmo quando consegue colocar no ar (na rua e no vácuo digital) a prosopopeia da sala de reunião.

O consumidor se envolve muito mais quando saca ou sente a intenção por trás do discurso. E é a intenção que está no power-point. Já se foi o tempo, medieval, em que o grito e a repetição davam conta do recado. As pessoas não caem mais no truque do GRP acéfalo. Mas, quando a gente para de mascarar as boas intenções de opereta (compre que vai ser mais eficiente, mais barato, mais saudável…) e tem alguma sinceridade nos argumentos (aqui estamos nós para fazer você se divertir, se emocionar, se envolver…), o power-point, que vai para as mídias, funciona.

E o cliente, nosso cliente, chato de galocha ou amigão do peito, só quer mesmo é entender, te acompanhar, te apoiar. Ele quer saber, no fim das contas, como é que ele vai convencer quem ele tem que convencer (o chefe, os chefes, o laboratório de lobotomia, o método). Por isso, ele precisa saber como é que a gente faz propaganda, dessa propaganda aí pela qual ele vibra o tempo todo.

Síntese:

O bom planejamento, aquele, único, que deve ser feito, é aquele que revela e antecipa.

Revelação é quando a gente sabe observar. Só isso. Pouco importa a metodologia. Revelação é nossa matéria prima.

Antecipação é quando a gente prevê o que vai acontecer depois, depois de colocar no ar (na rua e no vácuo digital) o que construímos da argila revelada.

Assim, o planejamento só pode mesmo é torcer, da geral, por aquilo que o inspirou a abrir os trabalhos. Torcer pelo power-point que o consumidor vai devolver como só ele sabe: aderindo às marcas e comprando os produtos.

A fé no power-point é que faz o planejamento dosar as promessas e também os floreios, rodeios e salamaleques poéticos.

Planejar é o sonho do possível.

(Publicado originalmente no Jornal Meio & Mensagem, edição de 03/10/2010)