Archive for August, 2010

O Orkut é tosco?

31/08/2010 em Internet | Tags: , , | 11 Comentários »

Todo mundo tem muita opinião sobre Internet. Por ser, provavelmente, o meio mais fácil de ser pesquisado, ele também é o mais pesquisado. E, com ou sem carona em pesquisas, tem mais analista do que internauta, principalmente os sem carona.

O Orkut é incontestavelmente a rede social mais popular do país (com uma diferença abissal para os outros), aquela que as pessoas mais costumam acessar (o Orkut não é um cemitério de bits), e permanece incólume, no topo, há mais de dois anos.

Sua utilização é abrangente (usado ativamente no compartilhamento de conteúdos) e acompanha a própria penetração do acesso à Internet em termos de classe, idade e sexo.

Por outro lado, o crescimento das outras redes,  pretensamente mais populares acima do Equador, acompanha tão somente o crescimento da massa de internautas.

Mas todo analista adora comparar, inclusive coisas incomparáveis, como o Orkut e o Facebook. E claro, a brasa sempre é puxada para sua sardinha. E o Facebook é a sardinha de quase todos os analistas, os sem-carona.

O mais recente argumento dá conta do crescimento do Facebook na Índia, igualando o Orkut. Mas também ouve-se que o Facebook tem mais aplicativos, tem integração mais amigável com outras redes, tem gadgets mais divertidos, é mais privativo, é mais preparado para intervenções comerciais como conteúdos proprietários de marcas, é mais bonito, mais moderno, mais seletivo, mais isso e mais aquilo. Mas a Índia não é aqui.

Mas se a penetração do Orkut não mexe uma palha há anos, se as outras redes não crescem na proporção de suas ambições e da torcida uniformizada dos analistas, pelo menos duas hipóteses podem ser levantadas.

A primeira é que provavelmente as diferenciações do Facebook não são suficientemente relevantes para atrair pessoas já habituadas e sedimentadas no Orkut. Dá trabalho mudar de número de celular, mesmo com a portabilidade. Migrar de rede é mais do que trabalhoso, é como mudar de identidade, de país, de família.

A segunda hipótese é que o Orkut talvez não seja  tosco, mas simples. E essa simplicidade talvez seja o que as pessoas gostam nele. Se perguntarem para uma novelista militante se ela quer interatividade, por exemplo, e escolha de trama online, aposto que ela vai mandar todo mundo plantar coquinho na rede mundial de computadores.

Toda análise é boa, desde que não contrarie as evidências.

Informar-se é tão inútil quanto relacionar-se

30/08/2010 em Internet | Tags: , | 12 Comentários »

Nem percebemos, mas por que consumimos tanta informação? Será mesmo que instrumentalizamos tanta coisa, que tem alguma função prática nas nossas vidas saber do último crime passional, do mais recente sobressalto econômico, da insurgência libertária de um país distante, da catástrofe natural que assola os paquistaneses? E, ainda que nos entretenha, divirta ou acrescente alguma pimenta à vida feijão com arroz que levamos, ainda que tenham-nos incutido que informar-se genericamente é bom para nossa carreira, definitivamente, saber do último hit noticioso é tão útil quanto as últimas diabruras da Narizinho.

Mas o que faríamos na segunda-feira de manhã? No jantar da terça, no break da academia, nos almoços, cafés, preâmbulos de reunião e outras horas tão inúteis do nosso dia a dia? O que faríamos senão comentar tanta inutilidade?

Nem percebemos, mas por que somos tão socialmente ativos? Será mesmo que precisamos de tantos amigos, camaradas, relações, contatos? Para que serve conservar laços com aquele amigo que bifurcou para longe na infância, do amigo do camarada da relação do contato de quem nem lembramos o nome? Ainda que ter um address book transbordante seja uma marca de relevância pessoal, ainda que tenham-nos incutido que bem relacionar-se genericamente é bom para nossa carreira, definitivamente, ser o campeão das conexões é tão útil quanto as amizades da pelada no recreio da escola.

Mas o que faríamos no Orkut, no Facebook, no Twitter? O que faríamos de tanta coisa que armazenamos sem utilidade, o que faríamos de tanta gente de relevância duvidosa? O que faríamos senão pescar assunto para alimentar nossas redes? Pescar assunto na “Mídia” para alimentar a “nossa mídia”.

Alguém ainda tem dúvida de que as redes sociais online são muito mais relevantes na vida das pessoas do que as mídias tradicionais?

Alguém ainda tem dúvida de que as pessoas se informam mais e com mais prazer no Orkut do amigo do que no jornal quatrocentão?

Se houvesse um único real para investir em novas plataformas de distribuição de informação, esse real deveria ir para as redes sociais.

Matar e morrer pela audiência

27/08/2010 em Propaganda, Sei lá | Tags: , , | 2 Comentários »

Um agregador de conteúdo de informação compila o que está disponível, organiza, ranqueia e, geralmente, cita a fonte do material. A Internet criou esses megaclippings gigantes e gratuitos. São muito úteis.

Os produtores de conteúdo de informação não estão muito contentes, claro, porque acreditam que perdem audiência (sic) e, consequentemente, receita. Eles alegam que não é muito justo porque produzir custa caro, enquanto que agregar não custa nada (sic). Também dizem que esses ladrões estão ganhando às suas custas (sic).

O nó górdio do debate, no entanto, não está nesses agregadores (Yahoo News, Google News), mas sim em duas regrinhas que decorrem do hábito de consumo de conteúdo na Internet: nada é exclusivo e nada é pago. Portanto, a justa remuneração de todos os jogadores deve advir da venda da audiência gerada. Matar e morrer pela audiência.

Produtores e agregadores só deveriam preocupar-se em geração de audiências, massivas, qualificadas, segmentadas, fidelizadas e, para isso, é preciso entender as audiências, pesquisá-las, atendê-las, convidá-las a participar. Ouvi-las.

Produtores de conteúdos de informação ouvem pouco suas audiências. Medem muito, mas ouvem pouco.

Agregadores só ouvem. Ouvem muito e mudam muito.

Existem duas formas típicas de se informar. A passiva, o hábito; e a ativa, a procura. Os produtores de conteúdo de informação investem – sempre investiram – em estimular, acalentar ou criar o hábito. Já seus novos concorrentes só querem saber de adaptar-se aos hábitos das audiências.

O bonde está passando. Não é dando as mãos que a gente vai segurá-lo.

Pesquisa não mente. Mentiroso é quem pesquisa

26/08/2010 em Propaganda | Tags: , , | 11 Comentários »

Ninguém move uma palha sem pesquisa. Também pudera, somos tão inseguros! E é para o que servem todas elas: birutas, balizadores, muletas ou escudos, dependendo da nudez das certezas.

Existem as pesquisas para inspirar e as pesquisas para confirmar (ou negar). Não se deve confundir as duas, senão incorremos no erro clássico e crônico: paralisia criativa, perpétua repetição de fórmulas, monotonia.

Pesquisas qualitativas, quaisquer que sejam as técnicas, são da primeira categoria. São frustrantes para quem nelas procura ideias prontas. Qualitativas são trampolins, pontos de partida e perigosíssimas para quem nelas acredita. Qualitativas são tiroteio, experimentos. Toda pesquisa qualitativa é mentirosa na sua essência, porque só da mentira, da ficção e do sonho nascem as ideias. Essas pesquisas são projetivas, é para isso que foram inventadas, nunca para investigar o passado.

Já as pesquisas quantitativas, todas as metodologias confundidas, são confirmadoras. Confirmam ou refutam uma suspeita inserida na pergunta. Elas são estatísticas,  portanto, exatas. Sempre serão inúteis para quem busca tatear no devir. Elas servem para dizer que “foi assim”, não servem para dizer “assim será”. Não se deve acreditar em tendência de pesquisa quantitativa. Pesquisa quantitativa é investigação histórica, é para isso que existe, para documentar, não para projetar.

E o problema, o problema é o erro de diagnóstico que confunde os propósitos. É achar que se quer inspiração quando se quer confirmação. Ou que se quer confirmação quando se quer inspiração. Dá no que dá.

Quando a pesquisa qualitativa explica o que aconteceu, quando a pesquisa quantitativa sinaliza para onde ir, andamos para trás ou não saímos do lugar.

Facebook: cresca e apareça

25/08/2010 em Internet | Tags: , , | 4 Comentários »

O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.

Do total de pessoas com acesso à Internet no Brasil (81 milhões de pessoas acima de 12 anos de idade), 40% se relacionam com o Orkut. No Facebook, 4%.

O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.

Do total de pessoas com acesso à Internet no Brasil (81 milhões de pessoas acima de 12 anos de idade), 54% compartilham conteúdos no Orkut. No Facebook, 3%.

O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.
O Facebook não existe no Brasil, rede social é Orkut.

Fonte: não interessa porque isso não é nenhuma novidade, embora pareça.

Improviso vale mais que trabalho

25/08/2010 em Uncategorized | Tags: , , | 3 Comentários »

Cultura é uma palavra difícil. Mas a sua definição mais  comum é discriminatória. Não existe cultura sem “descultura”, só existe “culto” se houver “inculto”. Cultura  não tem conotação negativa. Cultura é elevação. É sublimação. É idealização.

Um seringal da Malásia, ordenado e produtivo, é uma cultura. A floresta amazônica com suas seringueiras esparsas não são culturas. Os seringais do Brasil são acidentais, improváveis, dados. Cultura é premeditação, planejamento, organização, técnica, método.

Cultura tem valor. Dom, não.

Os caras que se mataram para trazer pedra do fim do mundo e ergueram as pirâmides no meio do deserto tinham uma cultura. O índio, que cata as penas da arara e espeta num cocar, não tem cultura.

Quem rala tem valor. Bumbum pra lua, nem.

Se só cultura tem valor, então só cultura tem preço. O resto, o que vem de Deus, é de graça.

Mas não é nada disso.

Preço não é fator de esforço, mas de demanda. Vale quanto pedem, e não quanto pesa. Vale o que troca, e não o que usa. Por isso inventaram a cultura de massa, a popular, aquela que emana do dom divino com ou sem ralação. E a cultura de massa ganhou preço e valor.

A outra, aquela do sangue, suor e ouriço, danou-se. Perdeu valor porque não tem regra econômica que a justifique. Não vale mais nada.

O fatalismo é uma merda.

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YouTube Direkt

Criação de roer unha

24/08/2010 em Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

Pequenas especialidades não fazem um grande todo. Intrincar detalhes não compõe uma obra harmônica. Ornamentações não colocam uma catedral de pé.

Quanto maior uma organização ou um projeto, mais especialistas se atravancam com uma infinidade de detalhes voluntariosos. É o cara que conhece aquela particularidade, daquele mercado que tem aqueles problemas, debatendo-se com o outro que conhece outra particularidade de outro mercado, portanto com outros problemas. E de ideias microscópicas em experiências infinitesimais, organizadas num quebra-cabeça sem cabeça, iludem-se que o todo está diagnosticado e o plano de ação, desenhado.

É batata: o resultado é medíocre. Repetem-se velhas formas e surradas estratégias agora devidamente justificadas.

O fervilhar de especialistas experimentados, que pululam nas salas de espera mal dormidas dos aeroportos do mundo inteiro, produzem um briefing de comunicação.

Bem intencionados e cheios de esperança, os inspiradores mal dormem tamanha a ansiedade de pesquisar, analisar, contra-argumentar, canetar e ticar a campanha.

E começa tudo de novo. Lá do início.

A cada ciclo, cada volta apara as arestas, até não sobrar quase nada além do essencial, ou seja, a mesma fucking ideia que já foi fucking bem-sucedida em um fucking mercado com algum fucking problema fucking igual ao nosso.

Acaba um dia, indo para o ar, uma criação de unha roída até o dedo.

Criar não é ter idéias

20/08/2010 em Propaganda | Tags: , , , | 5 Comentários »

Dizem que Leonardo da Vinci passou 30 anos pintando a Mona Lisa. Ele jamais vendeu nem se desfez da obra que ficou como uma espécie de herança espúria para o rei da França, que abrigara o artista em seus velhos dias. É possível imaginar o barbudão de pijama, pela manhã, admirando a tela inacabada, tomar do pincel e retocar  mais uma vez o sorriso perpétuo. Tá legal, da Vinci foi demais. Aleijadinho se esculhambou inteiro esculpindo seus profetas. Muito também?

Minha amiga é pecuarista. É uma grande artista também. Mas quem disse que ela fica atrás do computador, do telefone, tomando seu chá indiano, fumando sua piteira de marfim, acariciando seus galgos suecos. Ela calça suas botas (de cromo alemão), toma seu cajado (de jacarandá da Bahia), escolhe um dos muitos chapéus corsos e vai para o pasto, pra cocheira, pisa na bosta, toca a boiada.

Criar não é conceber e terceirizar, é conceber e fazer. Porque a criação é um organismo carente que evolui, que se transforma.

Criar não é ter idéias, é fazer as idéias acontecerem. E para isso é preciso conhecer, estudar, inventar. Técnicas, artesanatos, improvisos.

Se Beethoven não fosse pianista, ele não teria composto a nona. Se Rodin não fosse fundidor, ele não teria feito o pensador. Se tantos incríveis diretores de arte não fossem fotógrafos, ilustradores, estilistas, editores, designers, eles só teriam sido medíocres photoshopeiros ou razoáveis art-buyers.

A sustentável leveza de um clique

18/08/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

O problema da humanidade é o descarte. Como somos animais muito inteligentes, a gente começou a substituir “fisicalidades” por virtualidades etéreas. Do óbvio ao menos evidente.

Por exemplo, trocamos as cartas, os cadernos, as canetas, pelos correios eletrônicos. Trocamos os livros, as enciclopédias, pelas bibliotecas virtuais. Tudo muito simples de armazenar e num clique, a gente pode descartar tudo que já precisou de um suporte físico para existir. Um mero apagão pode apagar obras que se propagaram por séculos, que levaram anos para serem escritas e compostas. Descarte econômico, sem vestígio nem efeito colateral.

Mas também estamos substituindo outras insustentabilidades. Por exemplo, as relações humanas. Nossas redes aumentam na exata proporção da nossa incapacidade de interface presencial. Quanto mais gente conhecemos, menos podemos e também queremos presença, toque, intercâmbio físico. Trocamos smiles que querem dizer beijo, choro, raiva e alegria. Simples, econômico e, acima de tudo, maravilhosamente descartável.

Na Montanha Mágica, Hans Castorp passa 30 páginas para ter coragem de dizer bom-dia para uma moça que, como ele, se trata no sanatório. Mas ele não consegue muito mais do que um sorriso. Um sorriso que durou semanas. Que trampo, coitado! Se ele tivesse o Facebook da moça, eles já estariam namorando na primeira linha. Na obra, não rola nada entre os dois. Se fosse no Skype, eles teriam transado na primeira ligação. Hans teria tido muitas outras namoradas, teria distribuído milhões de beijos e, acima de tudo, teria maravilhosamente descartado todas, num clique.

Viva o mundo descartável.

Posicionamento de marca: essência ou detalhe

17/08/2010 em Propaganda | Tags: | 8 Comentários »

Já inventaram de tudo para servir de modelo ao entendimento de uma marca. E dá-lhe, construções abstratas, antropomorfas, biológicas, arquetípicas, espirituais. O marketing, como todas as artes capitalistas, é profícuo em apropriar-se de outras áreas do conhecimento, sem muitos pudores, para elaborar aproximações compreensíveis, logo, superficiais. Funcionam todas como uma forma pseudointelectualizada de busca de sentido através de nobres metáforas.

Qualquer Avatar, para ser entendido pela massa ignara, fala por parábolas. É o que o marketing faz quando inventa uma personalidade, valores, DNAs e outras maluquices para uma marca. E a palavra vira evangelho a ser seguido, sem discussões, dogmaticamente.

Ironias à parte, Deus seja louvado; e sua palavra, idem. Sem o evangelho da marca, o empirismo e a barbárie dos achismos dominariam as decisões.

No entanto, todos os evangelhos, todos os modelos de marketing, qualquer que seja a religião, se equivalem.

A essência das análises é procurar precisamente a essência de uma marca. Tem até um modelo velhaco que dá conta de um DNA com uma alma no centro. De revirar o estômago até das ervilhas do padre Mendel.

Essência é um conceito abstrato. Sua lógica está impressa num raciocínio hierarquizante, supondo que o mundo e todas as suas coisas são compostas de partes que se completam de forma dominante e dominada. E a essência, no centro, é o comandante de todas as partes.

Expressar a essência de uma marca é a quimera das teorias de posicionamento. É a partir dessa definição que se irradiam as manifestações da marca, inclusive na comunicação. É essa essência – quintessência – que irá guiar-nos na tentativa de emocionar o consumidor.

Um raciocínio simples, no entanto, prova a inocência e a caduquice desse pensamento.

As pessoas, as marcas, são ecologias complexas, compostas de partes que se complementam e se engendram de forma funcional e aleatória. Não há hierarquia. Nem comando.

Se não se ama, de uma pessoa, uma essência, mas caretas, covas, resmungos, gestos, quem dirá que se possa amar uma marca e ainda por cima pretender encontrar-lhe uma essência!

Uma marca não tem essência, porque a essência não está nela, mas nas pessoas que a apreciam. Elas são infinitas, portanto impossíveis de sintetizar. A não ser que se recorra à lógica do mínimo denominador comum, necessariamente simplificador e banal.

Não seria também por isso, do ponto de vista estritamente de posicionamento de comunicação, que tantas marcas possuem “essências” idênticas e comunicações igualmente pasteurizadas?

Não se compra uma coisa pela sua funcionalidade, mas por uma constelação de motivos, funcionais e emocionais, caoticamente agrupados. Tampouco, não se prefere uma marca pela coisa essencial que ela representa, mas por uma miríade de fatores racionais e emocionais, impossíveis de se conjugar.

Mas supondo que seja possível amar, de amor, uma coisa ou uma marca, por que será que é preciso amar, de amor, a sua essência e não seus detalhes, ou um detalhe que talvez seja ele, sim, um denominador comum de paixão entre nossos consumidores?

Será que, em vez de comunicar de uma marca uma essência ficcional, não poderíamos comunicar caretas, covas, resmungos e gestos? E se a propaganda pudesse falar de suas pequenas superfícies deliciosas ao invés do âmago utópico?

Eddie: Senti sua falta. É verdade. Senti sua falta como nada antes me faltou a vida inteira. Eu não parava de pensar em você, o tempo todo, dirigindo. De te ver. Por vezes, só uma parte de ti.
May: Que parte?
Eddie: Seu pescoço.
May: Meu pescoço?

Eddie: É.
May: Faltava-lhe meu pescoço?

Sam Shepard no filme Fool for Love (1985)

Publicado originalmente no Meio e Mensagem de 16/10/2010

A mídia tradicional cada vez mais irrelevante

13/08/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Quantos anos tem a Internet comercial no Brasil? 15 anos? Se assim for, vamos chamar a geração nascida a partir de 1995 de geração W. Para eles, inclusive para os digitalmente excluídos, a Internet não é um aprendizado, é um dado. Que você tenha ou não carro, a invenção do carro mudou a forma de organização da sociedade, dos tecidos urbanos, das mentalidades, da cultura. Que você tenha ou não acesso à Internet, a transformação é semelhante em intensidade e provavelmente maior em velocidade e abrangência.

É provável que esse menino de 10, 12, 15 anos tenha hábitos de consumo de mídia diferentes. É tão natural para a geração W assistir a um filme na Internet quanto era para nós assistir ao Tela Quente. É tão natural para ela baixar músicas gratuitamente na Internet quanto era para nós copiar para cassetes os discos dos amigos. É tão natural para ela se informar na Internet quanto era para nós assistir ao Jornal Nacional. É tão natural para ela ter 300 amigos de redes sociais quanto era nos relacionar com meia dúzia de colegas da escola. É tão natural copiar e colar da Wikipedia para o trabalho de escola quanto era xerocar páginas da Britânica.

E basta observar para se dar conta de que isso muda muita coisa. Por exemplo, esses garotos talvez estejam mais maduros do que nós na idade deles e a informação que eles regurgitam talvez venha prioritariamente das microrresenhas das ferramentas de busca, das notícias espalhadas pelos amigos nas redes, da enciclopédias online.

Uma marca constrói sua reputação e adesão no imaginário das pessoas desde cedo. Essa também é a função da propaganda: influenciar prospects. O menino pode até nem tomar cerveja, mas a imagem das marcas se forma inconscientemente para torná-las preferidas ou rejeitadas quando ele puder ou quiser experimentar. E essa experimentação será influenciada pela imagem que se criou desde sempre, na sua cabeça, no seu coração. Boa se ela é boa, ruim se ela é ruim.

Portanto, para essa gurizada, informação e notícia quem dá é o Google, o YouTube, a Wikipedia. Não é o jornal do seu pai, a TV da sua mãe e a enciclopédia do seu avô.

Julgamentos de valor à parte – se isso é bom ou ruim não interessa mais pois é irreversível – qual é o valor que as marcas tradicionais de informação e entretenimento estão construindo?

Ainda que se possa dizer que não há produção de conteúdo no Google, no YouTube e na Wikipedia, que tudo o que lá está é agregado de outras fontes criadoras, a relevância nessas novas plataformas é dada por popularidade e não por reputação. Essa diferença pode fazer um blogueiro ser mais importante que uma redação de 200 jornalistas, um filme caseiro mais visto que um de milhões de dólares, um verbete escrito por uma pessoa mais acreditado que toda a biblioteca do congresso americano.

Por outro lado, se uma marca é indicada por outra, a imagem da segunda é subserviente à primeira. O Top of Mind, que tanto determina a prevalência de uma marca sobre as outras, fica sempre para a primeira, a indicadora, o Google, o YouTube. E isso tem consequências dramáticas para as receitas publicitárias que, na melhor das hipóteses, são divididas. O agregador fica com o bolo; e o criador/produtor, com a sobra.

Enquanto os produtores de conteúdo continuarem desprezando esses já consolidados aprendizados, as novas gerações continuam acreditando, difundindo e realimentando relevâncias que não têm mais nada a ver com tudo o que nós achávamos relevante.

Griffe jornalística ainda dá prestígio?

12/08/2010 em Internet | 1 Comentário »

Quando no final do ano passado o Conselho Nacional de Publishers e a Associação Mundial de Jornais assinaram a chamada Declaração de Hamburgo, o compromisso assumido pelos signatários deu conta do maior risco que a indústria encara: a falta de proteção intelectual dos conteúdos criados pelos veículos na Internet. O maior questionamento diz respeito evidentemente à livre multiplicação desses conteúdos, sem encargos nem responsabilidades pelos eufemisticamente chamados “agregadores de conteúdo”, que nada produzem nem nada pagam pelo que reproduzem.

O manifesto parece legítimo, mas soa como o canto do cisne. Esse tipo de acordo não somente é quimérico e inoperante mas ainda escancara a espantosa dificuldade que os veículos ditos “tradicionais” têm para entender qual é a nova e bem-aventurada lógica do mundo contemporâneo.

O que os “tradicionais” devem entender, assumir, na pior das hipóteses debater, é que a produção de conteúdo nesse novo mundo deve ser descentralizada. O que esses veículos devem fazer é privilegiar a agregação de conteúdos em detrimento da estrutura clássica de equipes próprias, contratadas. Agregação essa que deve ser, é lógico, remunerada. Caberia aos tradicionais renovados a essencial função de editoria e distribuição, e não mais a criação e produção.

Mais do que isso, esses mesmos veículos, que já ofereceram seus conteúdos gratuitamente, procuram atualmente remar no contrafluxo, agregando de volta os  conteúdos produzidos livremente e, no mais das vezes, sem oferecer nenhum tipo de remuneração. É o contrassenso do desespero. A lógica, se lógica há, deve funcionar nos dois sentidos. “Se tu não me chupas, eu não te chupo” ou “se eu cobro, você me cobra”.

A moeda de que se valem esses tradicionais, para não remunerar os conteúdos que eles querem agregar, é ainda mais risível: conteúdo em troca do prestígio da griffe jornalística (sic).

Prestígio é mais fator de relevância em ferramentas de busca e quantidade de conexões em redes sociais do que griffe jornalística, que não enche barriga.

O políticamente correto: outra forma de censura

11/08/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , | 4 Comentários »

O que mais inquieta, com a revolução dos meios de comunicação, com o acesso irrestrito ao megafone virtual e com a multiplicação das plataformas de leitura, não é nem tanto a pulverização da atenção, agora fragmentada ao infinito. Disso já sabíamos.

O que assombra é perceber a dificuldade que as pessoas têm de entender o que lêem. O analfabetismo de entendimento, se ele sempre existiu, está doravante escancarado.

Esse blog escreveu um pequeno texto (A propaganda do futuro) sobre sua visão do futuro. Dizia-se preocupado com a hipocrisia do políticamente correto que censura a expressão e coloca cabrestos idiotizantes na propaganda. E para colocar de outra forma polêmica e radical – pois não há outra maneira de despertar a acomodação do raciocínio – vivemos sob o julgo de uma censura com pele de cordeiro.

Pois assim, dou livre cobertura a um comentário do post que não autorizei de imeditado pois me parecia merecedor de destaque.

Disse o leitor, na íntegra, sem correções:

“Aumentou muito o número de blogueiros aqui no site da EXAME, e a qualidade caiu, como este último post, que fala mas não diz nada. No meio de tanta baboseira, diz “gordos, feios e sujos… ” blá, blá. Ora, eu sou gordo, e não gosto de ver a palavra “gordo” como se fosse algo diferente. Totalmente reprovável. Acho que EXAME deveria selecionar melhor os blogueiros. O que dizer e um indivíduo que se apresenta como quem “binca com o…… (Leia na apresentação do bloqueiro no top da página”.

Dizia o texto que originou sua manifestação:

…no hipotético futuro as pessoas vão perceber que fumar não é um crime de lesa-pátria; que chupar chupeta não provoca um holocausto; que gordos, feios e sujos são gordos, feios e sujos; que mulher é diferente de homem e que homem é diferente de mulher; que homens gostam de ver mulheres bonitas e mulheres gostam de ver homens bonitos; e mulheres, mulheres e homens, homens também; que a sátira não é uma ofensa e que não existe humor sem sátira; que o mundo sem humor é chato e monótono e, finalmente, que propaganda é só propaganda.”

Os leitores precipitados procuram detectar ironias e sub-entendidos onde eles não existem e são incapazes de percebê-los onde os a. Nesse caso, não havia nenhum: gordo é gordo e não há nada de errado em tratar um gordo como gordo. Não é uma questão de interpretação, mas de constatação. Não há nenhum julgamento de valor, nenhum.

O que se dizia é que a censura do políticamente correto impõe-nos, quando muito, dourar a pílula com eufemismos: forte ao invés de gordo, avantajado, proeminente, espaçoso.

O politicamente correto é que proíbe o gordo de ser, simplesmente, gordo.

O politicamente correto carece de energia e exala hipocrisia ou burrice por todos os poros.

O clube de criação tem piscina? Então por que se chama clube?

10/08/2010 em Propaganda | Tags: | 8 Comentários »

Embora o trabalho criativo permaneça o mais exuberante de todos os serviços oferecidos por uma agência de comunicação, embora ele continue sendo a entrega que coloca em contato uma marca com seus consumidores, o paralelismo das diferentes áreas há muito se quebrou.

Até poucos anos atrás, um briefing gerava UM planejamento, UMA mídia que gerava UMA criação. Havia certa equivalência de recursos alocados. Um cliente novo exigia uma estrutura nova em todas as áreas de forma mais ou menos padrão. Assim cresciam as agências: uma fórmula projetava as estruturas.

Mas há tempos que esse raciocínio não responde mais às exigências dos clientes nem responde mais à eficácia de uma estratégia de comunicação.

Antes porque a atividade de marketing se sofisticou a tal ponto que o trabalho de pré-e-pós-entrega de comunicação parece desproporcional ao tamanho da entrega. Parece, mas é a realidade. São muitos testes, muitos ensaios, muitas aprovações, muitas discussões, muitas idas e vindas, muitas apresentações com muitas pessoas, muitas mudanças de briefings, muitos muitos rodeios que nem sempre levariam a muita entrega, ou criação. E não cabe aqui questionar, mas constatar.

Mas, mais importante do que isso, a entrega ou criação também não se limita a um certo formato outrora pasteurizado. Não existem mais poucos e eficientíssimos pontos de contato com os consumidores, mas uma miríade deles. Isso exige, portanto, uma cultura multidisciplinar daqueles que fazem essa entrega, os criativos. E multidisciplinariedade não significa que nego só tem que conhecer rap africano, literatura tcheca ou moda islandesa, além da última seleção do anuário do clube de criação.

Significa que o criativo deve sair de sua crisálida protegida e entender de mídia e quais as mais adequadas e rentáveis, para o cliente e para a agência. Ou que ele tem que se interessar pelo que o consumidor pensa, sente e expressa, e para além das câmaras do gás de coxinha. Por exemplo.

A mesma multidisciplinariedade também tem que descer a ladeira do prestígio criativo e o janota do atendimento, o esquisito do planejamento e o nerd do mídia também têm que curtir rap africano, literatura tcheca e moda islandesa e cessar de desprezar a última seleção do clube de criação.

E, assim, não haveria mais criativo na criação, mas criativo em todo lugar. Não haveria entrega só na criação, mas entrega em todo lugar.

E não haveria sequer clube de criação nenhum, que, como o nome indica, é clube, portanto subentende um apartheid criativo, proeminente e pretensioso.

A propaganda do futuro

09/08/2010 em Propaganda | Tags: , | 11 Comentários »

O futuro é uma abstração; o passado, uma interpretação; e o presente, uma zona.

É justamente por isso que só o futuro é inquestionável.

Como será o propaganda no futuro?

A pergunta é maliciosa porque ainda é preciso acreditar em um futuro para a propaganda. Na bagunça do presente, é incerto crer em tanto positivismo. São tantos os policiamentos que resta pouco, muito pouco espaço para conseguir fazer da propaganda o que ela sempre foi quando era boa uma crítica bem-humorada da sociedade, dos costumes, dos hábitos, da vida e dos críticos.


Ilustração: João Linneu

Vivemos num mundo em que os melindres das minorias são muito mais importantes que as piadas da maioria. Qualquer sorriso, qualquer palavra alheia ao vernáculo estéril dos briefings ou dos jurídicos vira ofensa. Tudo não passaria de guerrinha entre concorrentes, se as pessoas – esses seres chamados consumidores – não estivessem cada dia mais caretas, intolerantes e sem senso de humor.

Mas vamos imbuir-nos de otimismo e ter fé em que no hipotético futuro as pessoas vão perceber que fumar não é um crime de lesa-pátria; que chupar chupeta não provoca um holocausto; que gordos, feios e sujos são gordos, feios e sujos; que mulher é diferente de homem e que homem é diferente de mulher; que homens gostam de ver mulheres bonitas e mulheres gostam de ver homens bonitos; e mulheres, mulheres e homens, homens também; que a sátira não é uma ofensa e que não existe humor sem sátira; que o mundo sem humor é chato e monótono e, finalmente, que propaganda é só propaganda.

Nesse futuro aí, ainda deve-se crer que o livre-arbítrio continuará sendo um direito do cidadão, que ele poderá não assistir à televisão se ele achar que a televisão ofende, poderá não entrar num site se este estiver cometendo vergonhosos vícios de opinião, poderá ter uma vida próspera sem nunca na vida ter visto uma única propaganda e viver com saúde só vendo propagandas o dia inteiro.

Para que no futuro possa existir propaganda e se conjecturar sobre ela, ainda será preciso acreditar que ela serve para alguma coisa e que essa coisa não é só entuchar na cabeça das pessoas palavras de ordem e gritarias. Será preciso crer que a propaganda é ruim quando ela subestima as pessoas e que ela é boa quando as surpreende. E que surpreender as pessoas se faz sem perguntar para elas o que querem ver na propaganda, porque não há surpresa assim.
Profecias cifradas, à la Nostradamus, têm alguma graça estilística ou cinematográfica; as outras são divagações.

Se futuro houver para a propaganda, profetizo que ela será legal para quem precisa dela, para quem a vê e para quem a faz.

Tem mala na reunião?

06/08/2010 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Embora reunião perfeita seja reunião cancelada ou adiada, dá para amenizar o suplício se cuidarmos para não assumir (ou convidar) um dos tipos maléficos.

- Linguiceiro: esse é o cara que geralmente está lá para fazer sala enquanto o quórum não está completo. Esse mala faz os preâmbulos socializantes, é o mestre das obviedades, o passe-partout-pot-pourri, que fala de qualquer coisa e não diz nada. O problema é que quase sempre ele fica até o fim.

- Parenteseador: esse é o sujeito que faz desvios bucólicos pelas vicissitudes da sua vida privada para comprovar qualquer argumentação. Esse rei do “acho” geralmente se perde na condução do raciocínio e, por mais que ele seja engraçado com suas metáforas, é o culpado por todas as sonolências, bocejos e conversas paralelas.

- Aparecido: é o pentelho que quer o tempo todo demonstrar participação, interesse e, principalmente, marcar pontos com a chefia. Como seu foco é lustrar a  própria vaidade ou a dos outros, ele geralmente não está prestando nenhuma atenção e cai de paraquedas num campo de urtiga.

- Torcedor: esse inútil camisa 12 é o indivíduo presente para fazer volume e funciona como as risadas gravadas dos seriados americanos de (mau) humor. Ele é fiel a seu papel e, mesmo que a bola tenha passado a mil quilômetros do gol, ele se manifesta com a mesma desenvoltura e naturalidade.

- Ruidoso: esse palhaço é o mal-humorado que sai o tempo todo, faz conversas paralelas geralmente para ironizar alguma coisa, não tira o olho do celular ou da jujuba que está em cima da mesa. Ele pode ter cargos importantes ou irrelevantes, mas quase sempre perdeu o bonde da profissão e entra de carona para não cair.

Felizmente, reunião de trabalho não é chopp com a malandragem nem jantar com pompa e circunstância.

Infelizmente tem gente que entra em reunião como entra no Orkut para abalar Bangu.

Salário: despesa ou investimento?

04/08/2010 em Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

Qual é o maior valor de sua marca? Será o cálculo que algumas empresas fazem, considerando critérios clássicos e estroboscópicos? Será que está ligado à sua capacidade de fabricação e distribuição? Ao patrimônio? Aos ativos? Ou será sua carteira de cliente, suas patentes? Sua história? Sua reputação? Suas perspectivas futuras de crescimento?

E a batalha entre o Google e o Facebook para dominar a parada virtual não se trava só nos aplicativos e plataformas que cada um lança mirando o outro, antes de mirar os públicos. Parece que 40% do tempo gasto no Facebook é jogando (muito social essa rede, não?), então o Google vai brigar com o Zynga, sua plataforma para ganhar a briga pelas 24  horas ociosas por dia que ainda restam às pessoas. E dá-lhe, cacarecos (aliás, o Facebook parece carro coreano cheio de parafernálias e gadgets para se exibir), e dá-lhe, invencionices que só servem mesmo para nos confundir e estressar (o Google já lançou sabe-se lá quantos arremedos de rede social que ninguém entende nem usa).

A batalha das grandes empresas, do Google e do Facebook, não é mais essa, ou não deveria ser. A batalha é pelos talentos, pelas pessoas que ainda são livres, muito mais livres do que os patrimônios, as fábricas, os estoques e a pilha de dinheiro mais insustentável que a fome desesperada por bônus e recompensas.

Porque só os talentos, só as pessoas respondem pelo futuro do patrimônio, das fábricas, dos estoques e dos dinheiros.

Há décadas que o mercado publicitário bate na tecla de que propaganda não é despesa, é investimento. É despesa sim, quando a propaganda é feia, suja e mal lavada. Quando a propaganda é linda, sexy e cheirosa, é investimento

Salário é despesa quando o funcionário é mala, puxa- saco e cuzão. Salário é investimento quando o cara é criativo, crítico e pimpão.

Boa propaganda vende mais caro

03/08/2010 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Flagrante 1:

- Maria, a partir de hoje, eu gostaria que você comprasse o produto X, por favor.
- X?!
- É. Eu estou trabalhando para essa marca, entende?
- Han-han.
- Por quê? Você não gosta?
- É que não é tão bom quanto o Y.
- Não?
- É economia é?
- Não, não, X não é mais barato.
- Han-han…mas se o Senhor está querendo fazer economia…não fale depois que não avisei, visse?

Flagrante 2:

- Quanto custa a foto para esse anúncio?
- Custa R$ X.
- R$ X? Tudo isso?
- Han-han.
- Mas é uma fortuna!
- Han-han
- Preciso vender muito para pagar esses luxos, nossa!
- Han-han…se o Senhor fizesse mais “luxo”, “precisaria” vender menos, mas venderia mais.

Em bom marquetinês, essas anedotas poderiam resumir a máxima “posicionamentos de marca e boa propaganda constroem valor”.

Propaganda vende. Todas as propagandas vendem. Até as ruins.

A boa propaganda que constrói posicionamentos de marca duradouros, vende mais caro.

E se vende mais caro, tem que custar mais caro. Simples assim.

São Paulo era uma várzea

02/08/2010 em Internet | 1 Comentário »

Compare a vista aérea de sua cidade. De volta para 1958.

Careta é ser contemporâneo

02/08/2010 em Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

Na época de Mozart, as pessoas apreciavam sua música. Ele era muito popular. A sua obra era contemporânea, e as pessoas gostavam de música contemporânea. A música popular era a música contemporânea.

Quem não gostava de Mozart eram os saudosistas, os tradicionalistas, os caretas. O povo gostava da música do seu tempo. Sempre foi assim.

Pelo menos até o século XX, quando criou-se uma separação entre o que convencionou-se chamar de popular versus erudito. E dentro do erudito ainda criou-se o popular e o menos popular. O romantismo é popular; o moderno, não. Chopin embala, Stravinsky assusta. Mas Chopin nunca causou repulsa na sua audiência. Na estreia da Sagração da Primavera do compositor russo, em Paris, a plateia se revoltou, xingou, jogou tomate. Programações modernas, dodecafônicas ou contemporâneas são hoje reservadas a seletas audições e raras gravações.

Com o começo do século XX e os primórdios do cinema, a música tornou-se parte integrante do discurso, e grandes maestros, nos Estados Unidos, brilharam nos estúdios, transcrevendo e regendo trilhas “clássicas” que imortalizaram os grandes compositores do passado. Foi com o cinema também que nasceu a fama planetária, os fã-clubes, a histeria de massa que contaminaria todas as expressões humanas. Junto com o star-system, sacramentou-se uma diferença entre a música mercadológica, marqueteada, simplificada a poucos acordes, ritmos e textos para galvanizar mais e mais pessoas e aquela mais complexa, evolutiva, para poucos.

A dos milhões virou música jovem; a outra, velha, mesmo se for mais contemporânea do que a primeira.

Vivaldi até colava para seduzir os targets de um sabonete, ou La Folia para um jeans.

Hoje, nem isso parece adequado. Tem sons mais novos, mesmo que muito, muito mais velhos na sua estrutura e sonoridade, que podem virar hits em questão de segundos, se a banda for bem novinha, bem ignorante, bem loira, bem magrinha, bem inglesa, holandesa, islandesa.

No século XXI, careta é quem gosta da música do seu tempo.