Archive for February, 2012

PESQUISA 4.0? Por Vera Aldrighi

29/02/2012 em Propaganda | Tags: , , | 10 Comentários »

Na sua coluna do dia 06/02 na Folha de São Paulo, Pesquisa 4.0, o redator e empresário Nizan Guanaes desafia pesquisadores e usuários de pesquisa a reinventar seus procedimentos.

Creio que não haverá o debate que espera, pois sua polêmica tem apelo restrito ao meio propaganda e marketing, público pouco afeito a expor e criticar publicamente particularidades de seus negócios e relações profissionais. Mas acho que ele toca em questões importantes que merecem e devem ser discutidas.

Para resumir sua tese: Nizan atribui a mesmice e o desgaste das fórmulas publicitárias repetitivas e padronizadas ao uso de pesquisas que não estão sendo suficientemente renovadoras em seus métodos, análises e interpretações.

Acho que ao desenvolver seus argumentos Nizan fala verdades, mas se engana na proposição.

É certo que estamos todos sendo obrigados a mudar num ritmo que não estamos conseguindo. E que a publicidade não está inovando tanto quanto dela esperam o público e os anunciantes: como ele mesmo diz, “basta ligar a TV”, para constatar a chatice infinita dos clichês que se alastram como praga por todas as categorias de consumo. E é certo também que o uso excessivo e pouco sensível (burocrático, autoritário, controlador) com que grandes empresas usam pesquisa, mais atrapalha do que ajuda as agências a encontrar saídas mais criativas.

Mas o uso de técnicas de pesquisa que se apresentam como inovadoras e revolucionárias parece que também não estão resolvendo o problema. Pois elas já existem em profusão e já estão sendo largamente vendidas e experimentadas pelas agências e seus clientes. Para constatar, basta olhar a esteira de sites com as apresentações de empresas do setor.
Nizan exagera ao cobrar da pesquisa tanta responsabilidade sobre a qualidade criativa no resultado final da comunicação publicitária. O rabo não abana o cachorro. No mundo propaganda e marketing, pesquisa é uma ferramenta, ao lado de uma crescente variedade de outras, com pequena e marginal (talvez até decrescente) participação proporcional nos negócios desse setor.

Arrisco dizer, sem fazer as contas, que o uso de pesquisa não representa nem um milésimo dos altos valores investidos em mídia, produções, promoções, eventos etc. Valores investidos, principalmente, na estrutura profissional das agências, com especialistas muito bem pagos para ter ideias, elaborar estratégias, e para usar com perspicácia as ferramentas e o expertise em investigação do consumidor.

Mesmo profissionalmente bem aparelhadas, parece que as agências não estão conseguindo se entender com os seus clientes a respeito de uma política de uso inteligente de recursos de pesquisa aplicados ao desenvolvimento de boa comunicação (como conduzir o processo em conjunto, usar para que, com quais objetivos, em quais momentos, o que medir, que estímulos usar, como escolher fornecedores e técnicas, como interpretar e avaliar resultados, e por aí vai).

Em minha experiência de fornecedora de agências e anunciantes observo profissionais cada vez mais desmotivados para o trabalho de investigação, entrando a contragosto em projetos que estão sendo obrigados a conduzir ou acompanhar.

Para entregar um bom trabalho vejo-me muitas vezes na incômoda posição de tentar satisfazer expectativas divergentes, de suprir lacunas de conhecimento de ambos os lados, de apaziguar antagonismos preconceituosos e harmonizar visões conflitantes.

Assim como tantas outras áreas ligadas a marketing e comunicação, a oferta de serviços e metodologias de pesquisas do consumidor é crescente e variada. De 1.0 a 4.0, há alternativas para todo gosto, necessidade e capacidade de escolher.

E, como já disse, o que não faltam são propostas arrojadas de abordagens inovadoras que prometem a resposta de um bilhão de dólares como descobrir as tendências que revelam o futuro, mapear as profundezas do cérebro do consumidor, detectar motivações inconscientes ou inconfessáveis. E que propõem “novos olhares” sobre isto, aquilo, e tudo mais.

Mas apesar de tantas promessas arrojadas não é a inovação, ou a tentativa de inovação, que mais diferencia empresas e profissionais que competem nesse mercado. Infelizmente a realidade é bem mais prosaica, e o buraco bem mais embaixo. O que mais diferencia ainda é preço e qualidade.

E a qualidade do serviço de pesquisa continua sendo definida por confiabilidade, seriedade e ética profissional, inteligência e conhecimento. E sobretudo pelo expertise teórico e científico para analisar dados estatísticos e manifestações complexas do comportamento humano. Coisas que têm preço, porque são raras e custam anos de estudo e dedicação!
Como em toda área do conhecimento, não haverá inovação legítima e relevante sem que os pesquisadores tenham ralado e construído essa base de sustentação profissional. Necessária não só para quem faz e analisa, mas também para quem planeja, compra e usa os resultados.

Pesquisa séria e confiável, usada de modo sensível e inteligente, não é só uma parceria segura para quem quer reduzir o risco de decisões que envolvem altos investimentos (e há sim metodologias muito eficientes para isso), mas também uma parceria inspiradora (insightful, como se diz no meio) para quem precisa inovar. Há eficientes e sensíveis técnicas exploratórias que ajudam as agências a encontrar saídas criativas para a comunicação de seus clientes.

Há, sim, por aí, muita pesquisa inútil e mal conduzida. Mas nem por isso pode-se dizer que a pesquisa ruim é culpada pela propaganda ruim. Va lá, elas apenas se merecem e caminham juntas.

Agências em trabalho de prospecção prometem jurar princípios todo o dia sobre a bíblia da corporação cliente. Prometem mandar suas equipes de ponta observar consumidores em supermercados ou em seu habitat e até comer empadinhas todas as noites em banais e tediosas reuniões com pessoas pouco interessantes que parecem mentir sobre seus reais desejos de consumo.
Mas muito cedo se instauram as dificuldades de relacionamento, a falta de motivação para buscar novas soluções, os conflitos de egos, de interesses e as diferenças nas posturas e filosofia de trabalho.

Sei por experiência que quando clientes e agências não se entendem sobre a importância a finalidade e os objetivos da pesquisa, ou quando profissionais de ambos os lados não tem o conhecimento, a motivação, a sensibilidade ou capacidade intelectual para acompanhar e entender os resultados de um processo complexo de investigação seriamente conduzido, não há santo pesquiseiro, nem tecnologia 4.0 que possa operar o milagre da criatividade!

Vera Aldrighi
Diretora da Vera Aldrighi Clínica de Marcas.

O criador e a crítica

27/02/2012 em Moda, Propaganda | Tags: , , , | 1 Comentário »

Ulzyvan von Zuberovsky nasceu em Garça. Sua mãe era a rainha do chuleado, seu pai era diretor do Banco do Brasil. Manoel Ernesto era filho único, melhor aluno do grupo escolar mas gostava mesmo era de frequentar as reuniões da loja Maçonica, escondido atrás das cortinas de veludo. Era lá que sonhava com hierarquias Transcendentes, ideais Metafísicos, triunfos da Razão e grandes Arquitetos das Estruturas.

Com 18 anos, Mané mudou-se para a França e de identidade. Montou-se, criou bigodinho e maneiras de um herdeiro decaído de dinastias polonesas. Nascia assim um ícone que arrasou nos ateliers parisienses, rivalizou com madames. Dizem que Charles Frederick Worth, lui même, sentiu-se ameaçado e começou uma campanha de detração. Acusou Ulzyvan de impostor, fútil e veado. Falou de suas criações com desprezo, que eram inexequíveis, faraônicas, destituídas de moralidade e respeito às tradições.

Humilhado, Ulzy voltou ao Brasil, a beira do suicídio, com a detração a sufocá-lo. Mas perseverou e fundou uma maison, cujo sonho libertário consistia em nunca mais sucumbir à critica.

Sua técnica consistia em reunir em seu salon costureiras, modelistas, clientes e outros livres pensadores, em orgias criativas, mais conhecidas depois por brainstorms. A regra de ouro dessas sessões era jamais censurar uma ideia quando surgisse, mesmo estapafúrdia, sonhadora ou simplesmente idiota. Foi um enorme frisson mas um retumbante fracasso.

Brainstorms não são um desastre porque reúnem pessoas para discussões, debates e troca de ideias. São ineficientes porque fazem uma lobotomia na crítica.

Suspeito que o processo criativo no mundo da moda seja tão primitivo quanto no da propaganda, minha área de atuação. Os brainstorms tiveram seu momento de glória mas não passam de enfadonhos desabafos destituídos de senso prático. No entanto, o retrocesso é ainda mais frustrante que a tentativa democratizante: criar nesses dois mundos muitas vezes ainda significa ter epifanias chiliquentas numa torre de marfim.

Mas criar é o avesso do isolamento. É também um convívio consciente com a crítica.

Em um mundo de efervescência de influências e informações, o isolamento é sinônimo de alienação. Criar de forma autocentrada, sem banhar-se na crítica, mesmo a mais destrutiva e invejosa, é contaminar-se com o vírus do envelhecimento precoce.

A autocrítica é para muitos criadores um alibi. Dizem-se capazes de dispensar opiniões alheias de tão auto-exigentes. Mas a autocrítica é refém, sempre, da vaidade. Não basta.

A criatividade não depende tanto de metodologias e mais da estrutura psíquica e de personalidade das pessoas. No entanto, existem contextos mais férteis do que outros. Trabalhar em ambientes abertos, em que a interação seja constante e forçosa, por exemplo. Ainda, pode-se aprender a tolerar a detração com paciência e o exercício da defesa é um enorme fermento de criatividade.

Ulzyvan von Zuberovsky morreu esquecido até à presente obra de ficção. Suas criações, apesar de democráticas, não passavam de retalhos de ideias, promessas vagas, tendências chuleadas.

Publicado originalmente em FFW (22/02/2012)

Separar verbas on e off é uma questão de sanidade profissional

14/02/2012 em Internet, Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

O grande dilema do profissional de comunicação hoje é fazer malabares entre contextos de mídia tradicionais cuja eficiência escapole pelos dedos e alternativas que não conseguiram ainda oferecer formatos suficientemente relevantes para apaixonar os públicos.

Outra forma de ver o paradoxo é que a compra de audiência, fórmula clássica de investimentos publicitários, é cara embora certeira. Já a compra de envolvimento, fórmula nova, é barata embora incerta.

Ainda podemos expor o problema da seguinte forma: a compra de mídia tradicionais é eficiente no curto prazo mas não garante resultados a termo. Já construir plataformas de comunicação nas mídias digitais pode ser caro na largada (ou mais difícil de justificar), mas é uma promessa no médio prazo porque essa é a lógica das mídias sociais.

As mídias ditas passivas engessam a liberdade de experimentação e assim travam a evolução das novas.

Não existe, no entanto, fórmula pronta para desatar o nó paralisante entre essas duas tensões, porque sim, o dinheiro e a energia são os mesmos.

Só há portanto uma recomendação que advém do bom senso. Por mais que seja correto defender que a integração dos esforços é necessária e que o potencial da conexão entre as duas formas de alcançar os consumidores (via audiência e via engajamento) é exponencial, bloquear os vasos comunicantes das verbas ainda parece ser uma boa.

Não é miopia separar verbas “off-line” de verbas “on-line”, é estratégico. Em nome do futuro, da liberdade e da sanidade profissionais de todos. Caso contrário, corre-se o risco clássico de puxar o cobertor, cobrir o futebol da Globo, e descobrir os dedinhos sonhadores.

Da gaveta para o mundo

13/02/2012 em Propaganda | Tags: , , , | Deixe um comentário »

Primeiro vem um insight de consumidor, depois uma brand idea, depois uma brand campaign, depois um manifesto, depois umas execuções aí.

Um poderoso resolve agradar a um papa: insight. Depois ele resolve construir uma igreja: brand idea. Daí, a igreja vai ser em homenagem a um Santo: brand campaign. Assina-se um contrato que é o manifesto. Finalmente contrata-se um mestre de obra qualquer (um Michelangelo ou um Seu José) para as execuções.

Um insight tem que ser universal, ou seja, quanto mais genérico, melhor. Uma brand idea tem que ser verdadeira, portanto quanto mais vaga, melhor. Uma brand campaign tem que ser inspiradora, logo, quanto mais lugar comum, melhor. Um manifesto tem que agradar ao faxineiro e ao presidente: quanto mais burocrático, melhor. Quanto às execuções … quem liga para as execuções?

A gente regozija de tanto regorgitar.

Planejamento ketchup

10/02/2012 em Propaganda | Tags: , , | 6 Comentários »

Depois de horas de blablablá estonteante, messiânico, apaixonado, o cara vira pra você e diz “só me fala uma coisa: o que é que eu tenho que dizer afinal?” É então que você recomeça tudo do início, modulando as palavras, variando os argumentos, revirando os olhos, caprichando nos trejeitos e o cara fala: “não entendi nada. O que é pra fazer?”

Este é o calvário de todo cristo autoproclamado. É a via crucis dos arautos do caminho da redenção. É a penitência dos avatares iluminados, planejadores em seus faróis de sabedoria.

Chegamos a um grau de metafísica em que o planejamento é mais lisérgico do que a criação, mais onanista do que o mais baseado dos diretores de arte.

Chegamos a um grau alienação em que o planejamento, do alto da sua estratosfera intelectual, aterrissa em conceitos de auto-ajuda passe-partout. Ideias repetitivas, que valem pra todas as marcas, todos os públicos, todos os contextos.

Quem discordaria de que o “amor é lindo”, “a vida vale a pena se for vivida”, “você pode se quiser”, “coisas incríveis podem acontecer com pessoas comuns”?

Afinal de contas, quem liga para o coitado que vai ter que colocar essa punheta num filme, num anúncio, numa ativação, numa embalagem, num post do facebook?

Talvez por isso, nego só pensa em criar conteúdos longa metragem hiper produzidos transmídia storyteller engaging co-created com o James Cameron. Pudera.

Há um George Bush atrás de cada marca global

07/02/2012 em Propaganda | Tags: , | 2 Comentários »

Marcas globais têm usado dois tipos de estratégias para conquistar o coração dos brasileiros.

Apesar do perigo da generalização, pode-se arriscar dizer que a primeira consiste na soberba de aterrissar posicionamentos universalistas e a segunda na técnica de conquistar reputação à toque de argumentos vulgares e varejistas. A primeira passa pelo raciocínio do mínimo denominador comum, a segunda pelo do uso massivo da mídia (burra).

A segunda técnica parece ser uma resposta grosseira ao fracasso anunciado da primeira. É também um refugo evidente dos malabarismos intelectuais suscitados para chegar nela. Ainda que o consumidor possa aderir aos apelos – afinal de contas o Brasil é um país de mortos de fome com duas patacas no bolso – ele esnoba magistralmente as marcas.

Mas se tomarmos uma certa distância lúcida e irônica do fenômeno que polui o cenário da mídia publicitária brasileira e se assumirmos o papel de etnólogos diligentes e críticos, as empresas atestam um comportamento colonialista surrado: “já que só concebo o outro a partir de minhas próprias referências culturais, ele deve aceitar (e dobrar-se) à minha superioridade. Caso contrário, o massacre pela força é inevitável”.

Em última instância, reproduzimos no microcosmo da propaganda, o macrocosmo geopolítico que sabemos tão bem criticar. Sabemos nos revoltar contra a invasão estrangeira de países soberanos, contra o imperialismo injusto, cego, ganancioso. Sabemos nos rebelar contra os noticiários, mas aceitamos (e colaboramos) com o obscurantismo do break comercial.

Não aprendemos, com Eward Said que “O homem que acha sua pátria agradável não passa de um jovem principiante; aquele para quem todo solo é como o seu próprio já está forte; mas só é perfeito aquele para quem o mundo inteiro é como um país estrangeiro”.

Faz aí, jaz aí

03/02/2012 em Propaganda | Tags: | 9 Comentários »

O faz aí é uma nova tendência do mercado de comunicação.

Funciona mais ou menos assim: a gente chama um moderador aí (mas pode ser de casa mesmo), contrata um grupo aí (mas pode ser uns amigos), faz uma dinâmica aí (mas pode ser uma cerveja no bar), faz um relatório aí (mas pode ser um storytelling), uma reunião aí (mas pode ser um workshop), faz um posicionamento aí (mas pode ser uma plataforma de conteúdo), faz uma campanha aí (mas pode ser uma estratégia multiplataforma), faz aí, faz aí, faz aí.

Faz aí, tudo online, co-created, nas owned-media e earned-media.

Faz aí um departamento de marketing, faz aí uma agência de propaganda, faz aí um facebook bombado.

Faz uns fantasma aí, faz aí uns copy-paste no relatório do instituto, faz aí uns video-case, faz aí umas mídia esponânea, faz aí.

Faz aí, com muita palavra bonita surrupiada da última leitura de ponte aérea, da última palestra turística, do último best seller que seus amigos das redes sociais cacarejaram como último grito da modernidade.

Jaz aí a crença na boa comunicação.