Sério que tem gente que vota no Bolsonaro?

Na natureza, não existe simetria. O Norte não é o oposto do Sul, o branco não é o contrário do preto, a mulher não é o contrário do homem. A simetria é uma abstração teórica que elimina a complexidade, portanto, só serve para debates práticos e superficiais.

Felizmente, a natureza é complexa e as equações que regem nossas vidas têm infinitas variáveis. Felizmente, a inteligência é a qualidade humana que nos permite pulsar com a complexidade e entender que entre o norte e o sul, tem montanhas, rios, florestas, biomas, e vida; entre o branco e o preto tem todas as cores, e o rubor na face, a pincelada nervosa, a aurora descabelada; e entre o homem e a mulher, tem gêneros, sexos, carícias rugosas, envergonhadas, apaixonadas.  

Mas infelizmente, o exercício da simetria excita os mais primitivos dos reflexos humanos: o ódio às diferenças. Quem não é do Sul é burro e ignorante. Quem não for branco, é inferior, feio ou animal. Quem não é homem, é fraco, veado ou sabe-se lá que pavorosa aberração.

É evidente que essas falsas simetrias têm duplo sentido e aquele que chama o não democrata de fascista é parecido com quem chama de comunista quem não vota na direita.

Mas vamos fazer ao jogo das simetrias mais comuns nesta eleição.

Um candidato a vice falou que era favorável a um autogolpe se necessário. Um ex-ministro do PT que está em prisão domiciliar e que foi desautorizado publicamente a falar em nome do outro candidato, disse que iria tomar o poder. Um vice versus um ex-ministro desautorizado e preso.

Um candidato a presidente disse que não entendia nada de economia. O outro candidato não foi ministro da economia de nenhum governo petista. Um capitão do exército afastado por má conduta é simétrico a um mestre em economia?

Um candidato a presidente da república disse que mulheres mereciam ganhar menos porque ficam grávidas. O outro candidato, quando prefeito de São Paulo, criou a secretaria municipal de políticas para mulheres e 58% dos cargos de chefia eram ocupados por elas.

Um candidato a presidente não suportaria que seus filhos homens de dois casamentos diferentes tivessem relacionamento com pessoas de outra raça ou do mesmo sexo. Ele ainda não se manifestou sobre o que gostaria para a filha que tem do terceiro casamento. O outro candidato a presidente da república é casado com Ana Estela, do sexo feminino, há 30 anos e criou o Escola sem Homofobia, é favorável ao casamento civil entre pessoas do mesmo sexo e criou cotas para negros em concursos públicos quando prefeito de São Paulo.

Um candidato a presidente, ao declarar seu voto pelo impedimento da presidente da república, chamou de herói um conhecido e violento chefe da repressão política do regime militar. O outro candidato vai visitar na prisão um ex-presidente de quem foi ministro.

Um candidato a presidente da república disse que ele não respeitaria o resultado das urnas a não ser que ganhasse. O outro candidato escolheu uma vice do PCdoB. O PCdoB sempre aceitou nunca ter ganho uma única eleição.

Um candidato a presidente da república é formado em educação.  Educação física. O outro candidato a presidente da república foi ministro da educação por sete anos e criou o ProUni que concedeu mais de um milhão de bolsas para alunos carentes e levou 400 mil crianças com deficiência pra escola quando era prefeito de São Paulo.

Um candidato a presidente da república, se eleito, irá colocar a raposa no galinheiro. Aliás, a galinha no raposeiro, subordinando o meio ambiente ao ministério da agricultura. Ele também quer tornar produtivas as terras indígenas. Afinal, estão nas mãos de silvícolas preguiçosos. O outro candidato não costuma falar tanta besteira.

Um candidato a presidente da república é um grande defensor do combate a corrupção apesar de ter sido deputado federal eleito várias vezes pelos partidos mais corruptos. O outro candidato a presidente da república não foi preso pela Lava Jato que prendeu todos os caciques políticos do seu partido, o PT. Ele também pagou com o próprio bolso o hotel para investigadores da máfia do ICMS na prefeitura de SP para manter a investigação sob sigilo enquanto o primeiro candidato recebe auxílio moradia para comer gente.

Um candidato a presidente da república promete combater a violência graças a sua experiência de capitão expulso do exército e deputado eleito do Rio de Janeiro com 2 projetos de lei aprovados em 27 anos de carreira política: o primeiro isentando o IPI para produtos de informática e o outro autorizando a venda da pílula do câncer. O outro candidato a presidente não foi deputado eleito pelo Rio de Janeiro onde Marielle França foi assassinada.

Um candidato a presidente da república que é adepto das soluções radicais para acabar com a bandidagem como apoiar grupos de extermínio, liberar a compra de armas e fuzilar favelas de helicóptero. O outro candidato, que acha que quem deve ser armado e treinado é o policial, não ensinou seus filhos a atirar com 5 anos de idade.

Um candidato a presidente da república tentou aprovar muitos projetos relevantes como um projeto de lei para inscrever Enéas Ferreira Carneiro (“meu nome é Enéas!”) no Livro dos Heróis da Pátria, um para transformar em crime hediondo o roubo de veículos automotores e outro para instituir o Dia do Detetive Profissional. O outro candidato a presidente usa camiseta vermelha, toca violão e desafina um pouco.

Um candidato a presidente da república fala que ele é uma proposta de renovação política. Fala, fala, fala, mas como fala! Até parece político. Fazer, que se tenha notícia, ele quase fez um atentado, mas não deu certo, ficou no quase, e por isso foi afastado da escola de formação de oficiais. Então entrou na política. O outro candidato também fala e já fez outras coisas além de jogar capoeira. Por exemplo não fez tudo que prometeu na prefeitura de São Paulo, só 60%. Já o outro, aprovou menos de 1 % dos seus projetos de lei em toda sua carreira como não-político-politico (sic).

Um candidato a presidente da república é de um partido chamado PSL. O outro é de um partido chamado PT. Um candidato a presidente da república foi vítima de um atentado. O outro candidato não. Um candidato a presidente da república fala alto. O outro fala baixo. Um presidente da república digita bastante nas redes sociais. O outro também, mas também escreveu 5 livros. Um presidente da república é machão. O outro é um gato.

Um presidente da república é detestado pela mídia. O outro também mas ele não se recusa a participar de debates.

Se você acha que o PT não merece seu voto, você acha mesmo que o PSL merece? Se você acha que o Haddad não merece seu voto, o que o Bolsonaro fez ou disse pra merecer?

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