Talento é pouco

Monica tem uma loja de chocolate em Lubec, cidade de 334 habitantes na fronteira do Maine (Estados Unidos) com o Canadá. Cidade pacata, rural e pobre. Não tem McDonald’s mas também não tem nenhuma loja vegana nem boutique de queijos gourmet. Para um nova-iorquino, Lubec é o que mais se assemelha ao fim do mundo.

Mas a loja Monica’s Chocolate é um arraso: colorida, alegre, bem decorada com centenas de opções de recheios, embalagens, brinquedos e storytelling. A loja da Monica respira carinho a cada chocolatinho embalado com tanto esmero que até dá dó de abrir.

Monica faz tanto sucesso que pessoas de todo o país compram em sua loja, além de ter vários imóveis na cidade, sustentar uma ONG indígena no Peru e querer ampliar seu negócio: “Fernand, venha para Lubec, é uma terra de oportunidades! Podemos ser sócios”.

Quando Monica chegou a Lubec alguns anos antes, ela foi cuidar do marido que nasceu naquela cidade: um executivo de uma multinacional, que sofreu um AVC em Lima e não possuía plano de saúde. Depois de algum tempo gastando o que tinham para o tratamento, Monica se viu com cem dólares no bolso, um marido para sustentar e nenhuma qualificação, experiência profissional ou talento específico. Em Lubec, Maine, uma terra de oportunidades. Com seus cem dólares no bolso e uma fome atávica de sobrevivência, foi à livraria da cidade, comprou livros sobre como fazer chocolate (poderiam ter sido sobre veganismo ou queijos gourmet), encomendou matéria-prima e, no porão de sua casa, pôs a mão na massa. Monica, dona de casa de uma família burguesa de Lima, não sabia lidar com dinheiro: foi ao banco e pediu um empréstimo: “Ma’am, sorry, com seu histórico, recuperando-se de um câncer e um marido com AVC, posso lhe emprestar um pouco de dinheiro, mas a senhora vai recusar a taxa que vou lhe dar”, disse o gerente. Monica aceitou.

A menos que você seja pescador de lagosta, a loja da Monica é a única atração que vale o desvio para Lubec, Maine.

Qual é o segredo da Monica, que não falava inglês, não sabia equilibrar as finanças e nunca cozinhou na vida quando chegou a Lubec, Maine?

Talento?

O que fez o sucesso da Monica foi o trabalho, o cuidado. Foi a preocupação em fazer bem-feito, independentemente do dinheiro ou da pressão. Talento ela tinha, para sobreviver. Mas foi o amor ao trabalho que deu à Monica o passaporte para ser fornecedora da Casa Branca.

Talvez existam razões históricas para o nosso tão brasileiro desprezo ao trabalho. Pouco importam as razões de nossa gênese como povo: elas podem explicar, mas não justificam. Não justificam que a gente se apoie na nossa pretensa “criatividade” (perigosamente sinônimo de improviso) apenas para conduzir nossas entregas profissionais. Não justifica que um trabalho seja mal-acabado, malcuidado, sujinho e com errinhos, “mas tudo bem, né gente? A ideia é tão boa ou barata!”.

Intuição e talento não são nada sem trabalho. Nem em Lubec, Maine, nem aqui.

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