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Ao pé da castanheira.

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Cat

Ao pé da castanheira, ela banhava seus cachos verdes no múrmurio do riacho:  a casinha de tijolo transbordava de trepadeiras e avencas azuis. Ali morava Matilde, a tia da floresta.

Todos os dias ela saía para abraçar a aurora no alto da montanha azul. Lá ia Matilde, deslizando no orvalho e tropeçando nos joanetes das raízes. Era assim desde sempre. Desde o primeiro pipoco, o primeiro grão, a primeira seiva.

A noite ainda encobria o cimo das árvores com seu cachecol negro,  quando a velha da floresta saía de casa. Enquanto caminhava, a floresta espreguiçava-se lentamente.  E quando Matilde chegava ao pé da montanha escura, um imenso arroto de clorofila azeda exepelia a velha para o cume deserto da muralha.

Lá no alto, Matilde olhava o mundo, a Terra inteira até a curva difusa do horizonte. Ela via a cidade de pedra, aço e lágrimas que se estendia até as primeiras dobras da montanha; o rio caudaloso que espumava eflúvios espumosos e fedorentos; o mar coalhado, seboso.

O peito da velha levantava-se num espasmo de tristeza: a Terra agonizava.

Sentada no seu observatório, Matilde esperava no limiar da vida, na soleira da grande-mãe, olhos fechados para esponjar as lágrimas.

Desde sempre, desde que a Terra infantara a castanheira, Matilde aguardava ali a alvorada inexorável do tempo.

Quando o sol despontava acariciando as pálpebras da velha, Matilde  sorria novamente e retornava ladeira abaixo, no meio da floresta, ao pé da castanheira.

Um dia, Matilde não saiu de sua casinha: um ronco monótono abateu a castanheira e uma placa anunciava, grandona, no meio das avencas: “Condomínio da Alvorada – 3 quartos, 1 suite, 3 garagens”.

E quando eu crescer?

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Carlinhos

- O que você quer ser quando crescer, Theo?

A mãe saiu para trabalhar. O pai também saiu, para nunca mais voltar. Theo levantou e saiu para a rua. Caminhou um pouco, devagar, olhando a pipa vermelha que rodopiava no céu. Numa lage ele sentou e ficou ali olhando o mar, lá longe.

- Fala aí?
- E aí?

Carlinhos chegou, sentou ao lado de Theo, olhando o mar, lá longe. Theo e Marcos cresceram. Em cima da lage, olhando o tempo passar.

- O que você vai ser, depois daqui, Fabinho?

Era uma familia grande e Fabinho nem sabia ao certo quantos irmãos tinha. Saiu de casa no meio da tarde, correu pela rua e foi bisbilhotar a vizinhança.

- Quem comeu a Ritinha?
- O Zé.

Leonel chegou e ficaram ali, falando da vizinhança. Fabinho e Leonel cresceram. Nas ruas da favela e, de vez em quando, na cama da Ritinha.

- Aonde você quer viver, um dia, Mané?

Mané Piolho tinha um irmão mais velho, o Paulão. E Paulão vivia de treta com a polícia. Mané saiu de casa e foi levar uma encomenda pro Paulão.

- Vamos pra praia
- Mais tarde. Agora não dá.

Vicente chegou e ficou ali, fumando um. Mané Piolho e Vicente cresceram. Fazendo avião para Paulão até ele morrer e continuar depois para Xupim, Capitão e Cacau.

O que você vai ser quando crescer, Theo? Carlinhos? Fabinho? Leonel? Mané Piolho? Vicente?

Theo, urso polar, bem grandão com muitas focas para se saciar.

Carlinhos, o cometa Halley que só passa na Terra de vez em quando que é para não ficar com nojo.

Fabinho, um cavaleiro medieval com mil mulheres de cinto de castidade a esperá-lo no seu harém da Dinamarca.

Leonel, uma flauta de ouro na boca de uma virtuose da Orquestra Sinfônica da Romênia.

Mané Piolho, maquinista de metrô no Japão, de luvas brancas e sashimi na barriga.

Vicente, um saco de pancada, um adolescente morto, assassinado na porta do barraco, no morro à beira-mar.

Amasso de terráqueo

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Acordei de repente num pequeno sobressalto e olhei pela janela.

Era um grande cobertor todo amarfanhado. Muitas pessoas passaram a noite naquela cama enorme. Aqui, elevações pontudas; ali, suaves encostas. A noite havia sido agitada. Eu imaginei aquele monte de gente se acariciando, se apalpando, beijando, disputando um canto, um suspiro, um afago debaixo dos lençóis. Cansados dos embates fogosos, estavam todos dormindo agora, agarrados uns aos outros, imóveis.

Onde a vista alcançava, os montículos se espalhavam. Milhares de dobras se encontravam sem simetria. Nem a mais planejada e complexa das equações seria capaz de reproduzir o aleatório cenário. Pensei na força que amassara a plataforma lisa do espaço para, depois, deitá-la suavemente, sem apagar-lhe os sulcos.

Por vezes, tufos de cabelos obstruíam a visão. Eles passavam rapidamente, esfacelando-se em infinitos fios brancos. Flutuavam acima do manto verde, se desprendendo e se agrupando novamente. Muitas cabeleiras de todas as formas e tamanhos, voando na imensidão.

Lá longe, uma claridade despontou. Uma auréola dourada começou a surgir, esbranquecendo o céu e confundindo o panorama. Um gigante se espreguiçava lentamente por debaixo das cobertas, com a careca lisa e brilhante projetando sombras sutis. Os sulcos se aprofundavam, evidenciando ainda mais as rugas venerandas do grande amasso.

É assim a Terra, através da janelinha do avião. Um cobertor gigante,  um abrigo quentinho, acalentado pela bênção do sol.

Aqui embaixo, com o pé fincado no chão, a gente só vê bagunça e sujeira, máscaras e papéis fingidos, tapas e guerras, desesperança e solidão.

Prefiro voar.

Amanhecer

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Fui dormir com a cabeça girando como dínamo. Não sei como consegui dormir. Faróis acendiam – E se eu…– e apagavam-se assustados –Ah, não. Isso agora, não.

Os sonhos foram perturbados também, porém disso não lembro. Sorte minha.

Ao acordar, ainda sonolento, fui até o banheiro e, enquanto girava a escova na boca, lá vinha o dínamo novamente. Para frente, para trás, para o lado, de cima para baixo, de baixo para cima, nos cantos, no topo, na base. Quando a gengiva sangrou, dei um basta no suplício, olhei-me no espelho e desabafei: “Com essa cara, você vai longe, meu amigo.“

Abri o chuveiro. Eu, pelado num campo de tiro selvagem. As idéias começaram novamente a me metralhar sem dó: “Primeiro isso, depois aquilo, mas talvez aquilo outro antes, quem sabe”.  Lavei o rosto: “É só mais um dia, calma, como outro qualquer”.

Fechei a torneira e apanhei a toalha: “Não precisa ficar assim arrepiado, você vai conseguir”. Mas novamente era tanta coisa para resolver, fazer, agir, pensar.

“Vamos lá, coragem”.

Armei-me para a guerra.: “Essa camiseta? Melhor não. Aquele dia, lembra?, deu aquele azar. Essa daqui quem sabe? A calça combina ou não combina? Mais ou menos. Outra, vai. Também não. Mais uma. Saio, ou como algo antes? Não estou esquecendo nada? Vai ter trânsito? Está frio ou calor? Gasolina, tem gasolina no carro? Mudo de itinerário? Regar a orquídea que está morrendo? Vai chover? O que era mesmo que eu tinha planejado para a noite? Qual era mesmo aquela idéia? Que bagunça na mesa da cozinha. Arrumo ou não arrumo? Não seria melhor chegar mais cedo? O almoço. Vou almoçar hoje? E essa porta que não fecha direito? Preciso comprar comida para hoje ou janto fora? O que é isso? Vou trabalhar com essa mancha na calça? O cachorro, a ração do cachorro, ainda tem? Vai ser um bom dia ou um mau dia? Vou receber alguma boa notícia? Alguma grana inesperada?”

Era muito cedo ainda, mas o liquidificador de decisões me triturava o cérebro que já me escorria, pastoso, pelas orelhas e nariz.

Coloquei a mão na maçaneta, respirei fundo e abri a porta, gritando “Ao ataque!”

Armado até os dentes, dei um passo para frente, enterrando o sapato num enorme e fedido cocô de cachorro.

Quero ser um cachorro e cagar sem pensar.

Alô?

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

–    Pára de me bolinar.
–    Não estou te bolinando.
–    Como não? Pára de me bolinar!
–    Você está louca?
–    Tem alguém me bolinando.
–    Como assim te bolinando?
–    Bolinando, ué.
–    Com as mãos?
–    Acho que sim.
–    Onde?
–    É você. Pára, senão eu grito.
–    Já falei que não fui eu.
–    Você tem essa mania, quando fica nervoso.
–    Mas eu não estou nervoso!
–    Sei. Tá bom. Mas, por favor, pára.
–    Que coisa, não sou eu.
–    Então, quem é?
–    Hei, você, pára de bolinar minha mulher.
–    Não parou. Ainda estão me bolinando.
–    Mas não era ele.
–    Então, quem é?
–    Sei lá. Está escuro aqui, não dá para ver.
–    Vou ficar roxa.
–    Põe os pés para cima.
–    Já fiz isso, mas continuam me bolinando.
–    Espera aí. Vou falar com o cara da frente.
–    Tá.
–    O senhor está bolinando ela? Não?
–    Vamos embora.
–    Calma. Ainda continuam a te bolinar.
–    Continuam.
–    São fortes?
–    Mais ou menos.
–    É sempre no mesmo lugar?
–    É sim.
–    Onde?
–    Aqui de lado, na bunda.
–    Na bunda? Como assim?
–    Quer dizer, no quadril.
–    Sem parar?
–    Não, agora parou.
–    Então, tá. Agora sossega.
–    Era você, fala a verdade.
–    Não era.
–    Pronto, começou de novo.
–    Meu Deus do Céu, de novo não.
–    Fala baixo.
–    Então, vamos embora.
–    Não, agora eu quero saber quem está me bolinando.
–    Não fui eu, já falei.
–    Tá, mas quem, então?
–    Sei lá, acho que você está é gostando.
–    Se estivesse gostando, não reclamava.
–    Então, por que você está gemendo?
–    Porque está me fazendo cócegas.
–    Cócegas? Então, você está gostando.
–    Não! Ai!
–    Fala baixo!
–    Pronto. Parou.
–    Ufa! Quieta agora.
–    Vou lá fora.
–    O que foi agora?
–    Nada.
–    Como nada?
–    Quero sair um instante.
–    Por quê? Estão te bolinando de novo?
–    Não.
–    Então, por que quer sair?
–    Porque sim.
–    Você é maluca. Então, vai.
–    Tá.
…..
–    Alô?
–    Oi. querida.
–    Você me ligou?
–    Liguei. Por que não atendeu o telefone?
–    Porque eu estava no cinema com meu marido.
–    E como soube que eu queria falar com você?
–    Porque deixei o telefone no vibrador, dentro da bolsa.
–    Ah, tá.

Engolindo pizza

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Eu queria dizer algo, mas não sei qual é o algo que quero dizer.

Falar quem sou, o que quero, o que procuro, o que sonho. Mas não sei nada disso. Ou quando tento, saem frases tais como fornadas de pizza. Sempre receitas prontas, disfarçadas com cobertura cheirosa de mussarela e tomate.

Ninguém me engana. Não acredito no que os outros dizem. Uma fornada de pizzas a mais, e lá vem aquela coisa gordurosa.

Tem um ponto de interrogação dando solavancos na minha cabeça. Queria exilar esse maldito corcunda para sempre. Mas, intrometido, ele se enxerta em cada naco de pizza que tento fazer experimentar. Ele violenta todas as certezas que engulo.

Pontos de exclamação são piores. Falsos, teatrais. Eles travestem as pizzas para dar-lhes ares de originais. Uma calabresa com ponto de exclamação é quase cômico. Será que ninguém percebe que esses mordomos plantando bananeira são cínicos?

Dois pontos são pretenciosos, arrogantes, empolados tolos. Não tentem me enganar com suas abotoaduras, eu vi que a camisa é rota. A pizza é requentada, molenga, passada, podre. Não adianta justificar, não quero engolir essa nojeira.

Sem falar das aspas, ah, as aspas! Palhaças desbocadas. Porta-vozes, dublês fingidas, que vergonha colocar em bocas alheias uma fatia de pizza mastigada! Quero dizer algo de mim, não mussarela digerida.

Pontos de sustentação são cobertura estreita e rala. Pizza de pobre, de cego. Enfeite fingido, um tapa-olho, uma indisfarçavel incapacidade de saciar.

Vírgula é suspiro, escape, tubo de respiração artificial. Só ornamentação, um bocado de azeitona e queijo ralado. Não diz nem desdiz. Inútil.

Fico por aqui, regurgitando para falar. Me exprimir sem vergonha e nu, cru mas denso. Não sai nada. Eu, as pessoas, o mundo, pontuado de enorme mentira. Só mentira, que não acaba mais de tanta pizza, sem ponto final.

A rua

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Rápido, vou chegar atrasado – se passar da hora, terei que ir a pé, nesse frio – vão ficar preocupados lá em casa, fora a bronca – rápido – estranho, essa loja é nova – o que será que vai ter para jantar? se eu tivesse tempo, podia entrar para dar uma espiada – mas também não adianta, não tenho dinheiro – sempre fico impressionado com a quantidade de gente estranha na rua – o pior é que alguns se conhecem, mas eu não sei o nome de ninguém – amanhã é sábado, tomara que faça sol – será que a gente vai para o restaurante? devia ter trazido minha bola de basquete: esse pedaço aqui, nunca tinha notado, é perfeito – essa professora é muito chata – odeio ela – quando ela bate na minha mão só porque eu não estou fazendo do jeito que ela pede – bruxa – engraçado, já está escurecendo – parece que o inverno vai ser mais frio – tomara que tenha bastante neve – o ano passado não valeu – está pesada essa bolsa hoje – vou parar um pouco para descansar – que estranho, não acho aquele chocolate que peguei na gaveta ontem – será que abriram minha mochila? tem ladrão na escola, eu sempre soube disso – sei até quem é, mas se eu contar ele vai bater em mim – melhor eu ficar calado – que fome – vou comprar um pão, depois eu continuo – mas essa rua está diferente – cadê a padaria? deve ser na próxima esquina – melhor eu correr um pouco – por que será que está dando tudo errado hoje? a padaria sumiu – acho que já passou – vou voltar – droga, não era aqui? não, acho que não – acenderam as luzes – mas já? já são 7 horas, mas já? onde estou? por que as pessoas me olham desse jeito? estou ficando com medo – eu não vou chorar – vou continuar mais um pouco – não posso estar tão longe assim – e se eu voltasse? será que passei o ponto? na certa, foi quando lembrei daquela professora – essa mulher! – de novo essa loja – já está fechando? será que é tão tarde assim? está escuro e frio – meus pés estão congelando – melhor correr um pouco – mas para que lado? eu já passei aqui ou não? acho que sim – de novo a loja – deve estar todo mundo apavorado em casa – e se eu não conseguir chegar nunca mais? deve ser de propósito – eu tinha que me perder cedo ou tarde – vai ver eles nem estão ligando para mim – estão até aliviados – se eu passei na esquina onde ele ia me pegar, por que não me chamou? vai ver ele não quer que eu volte – ele nunca gostou de mim – me chamou de preguiçoso – mas se eu ficar na rua, vou ter que pedir ajuda – será que ninguém vai me oferecer ajuda? não estão vendo que estou com medo e quase chorando? tem menos gente agora – as pessoas já estão chegando em casa – mas eu não – estou atrasado e talvez nunca mais veja a minha casa, meus brinquedos – é melhor eu ir me acostumando – vou ter que achar um abrigo para a noite – se pelo menos aquele ladrão não tivesse roubado meu chocolate – estou com muita fome – e frio – e medo – mas eu já passei aqui ou não? acho que sim – era aqui que queria jogar basquete – mas agora não – não trouxe a bola – agora também não é hora – por favor, moço, me ajude – esse velho deve ser bonzinho – olha para mim! – e esse menino, será que ele pode me dizer como faço para sair daqui, voltar para casa? ou me dizer onde tem um policial? ou me ajudar a encontrar um lugar para passar a noite? a loja de novo – mas ela não estava do outro lado? do outro lado – do outro lado – é do outro lado – do outro lado – vou voltar tudo – até o outro lado – passar a escola – o outro lado – é isso – eu desci a rua do outro lado.

- Pai, pai, pai, papai!

A massa

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Mole, eu estou mole. Paciência, não tem mais nada que eu possa fazer agora. Só esperar passar. Mas meu maior problema é mesmo esse povo grudando em mim. Detesto multidões pegajosas.

Olha só esse aí, onde ele está pensando que está? Num bordel? Sai daí, seu nojento, pára de lamber minha nuca. E esse outro agora roçando as minhas coxas, meus tornozelos. Que nojo.

E esse cheiro, o que é isso? Cheiro de gente é um horror. Vai se infiltrando em você, desce pelo seu cangote, contagia seu corpo inteiro. E, óbvio, é meio doce, sem sal. Será que eles não tomam banho nunca?

Pronto, eu sabia, começa a chover. Chuva não, isso é um verdadeiro dilúvio. Fria, gelada. Pelo menos vai refrescar esse calor tépido, diminuir esse grude.

Parou. Melhorou um pouco, mas ninguém sai do meu pé. Aliás, nem eu dele. Acho que não tem jeito, vou ter que dar um tempo, respirar fundo. Dizem que a gente se acostuma com tudo. Talvez passe.

O que é isso? Estão todos balançando como se estivessem numa festa. Eles chamam isso de dança! Só sabem tremelicar e se insinuar maliciosamente. E eu, aqui, esprimido, agarrado de todos os lados. Não tenho saída a não ser me contorcer junto com eles.

Só faltava essa agora, que coisa fedorenta é essa? Eles resolveram chafurdar na lama e me arrastar com eles. Estou todo sujo, manchado, marron dos pés à cabeça e da cabeça aos pés. Que coisa pavorosa, que triste fim. Morrer ainda vai, mas ao menos se fosse uma morte digna e não nesse balaio vulgar!

Estou perdendo a identidade. Me escancarando nessa luxúria, com esse odor a me contaminar, chacoalhando devassamente.

E eu que me achava diferente, foi só me juntar na massa para virar isso que sou: um pobre espaguete que amoleceu demais.

A Jiboía

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Tibo

Era só uma folhinha dependurada em um caule pequeno. Foi arrancada pela roda de um carro, estacionado por uma pessoa ruim de manobra. Por muitos quilômetros, ela ficou enroscada entre a calota e o pneu do carro. Rodando, rodando, rodando, vendo o mundo como ele é, redondo e girando.

Algumas horas mais tarde, ela caiu na sarjeta escura de uma rua deserta. Ficou ali, resistindo com as derradeiras gotas de seiva que lhe restavam. Até que a superfície emborrachada de uma sola de sapato veio grudar-lhe o caule. Apanhou bastante com a compressão ritmada contra o asfalto, até ser arremessada no canteiro de uma casa.

Era noite. Lua em quarto-crescente. E lá ficou a folhinha, tímidamente recolhida, pulsando lentamente.

Na manhã seguinte, um pequeno raio de sol acariciou lentamente a terra. A folhinha molhada de orvalho, ainda estava viva. Um gota lentamente deslizou-lhe por sobre a superfície, até chegar no caule que se encontrava a poucos milímetros de um solo terroso. A gota espreguiçou-se lentamente entre a extremidade do caule e a terra. E, no momento exato de seu contato simultâneo com a terra, um mecanismo secreto operou. A folhinha sentiu um ligeiro pulsar em seus veios. Outra gota e outro pulsar. No terceiro deslize de orvalho, uma gotona se formou entre o pé frágil e a terra. Outras gotas se sucederam até formar um amontoado de terra lamacenta.

Um dia passou, e a folhinha amanheceu mais verde, mais reluzente, mais viva.

No terceiro dia, por mais um reflexo incontido, da extremidade inferior do caule, um braço esbranquiçado firmou-se no montículo.

Assim, renasceu Jibóia. A cada dia, novas pequenas raízes iam penetrando na terra, cada vez mais fundo.

Um belo dia, um pequeno e diminuto broto se juntou à única e combalida folhinha. Ela não tinha mais do que metade de meia polegada. Rapidamente, os reflexos da natureza secreta das Jibóias entraram em funcionamento, e a folhinha abriu-se, delicada e clara.

Mais manhãs, mais tardes, mais noites se sucederam, e Jibóia estava agora com várias folhas, viçosas, exuberantes. Não havia mais traços da primeira. Ela havia caído, cansada de guerra, numa bela tarde cheia de vento.

As estações passaram, os anos passaram. Muitos anos.

Quem poderia reconhecer naquela frondosa estola que cobria a fronte de Ipê aquela folhinha, trazida pelo acaso de manobras barbeiras e pisadas aleatórias?

Ipê estava em flor naquele mês de agosto amarelando a bruma da manhã.

Mais manhãs de agosto passaram-se. Mais manhãs de setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho.

E agosto novamente chegou. Mas desta vez, algo estava estranho na rua da Memória. Ninguém sabia ao certo o que acontecera. A manhã estava lá, como todas as manhãs, sim, é certo. No entanto, o ar estava cinzento.  Mais manhãs de agosto transcorreram. Cinzas. Não houve uma único sininho amarelo durante o mês inteiro. Apenas uma escandalosa cabeleira verde a embrulhar os troncos e galhos de Ipê. Folhas imensas, lascivas folhas de Jibóia.

Ipê perdera a hora, pensou Menininha, cuja janela desbruçava-se sobre o jardim.

E o tempo passou.

Ipê nunca mais sorriu para o mês de agosto. Meninha cresceu e foi ver o mundo como ele é, para além de sua janela debruçada, para além do jardim, para além de Jibóia. Jibóia também cresceu e foi ver o céu como ele é, para além da janela, para além do jardim, para além de Ipê.

Ipê morreu numa seca tarde de maio. Chovia em dezembro, quando Jibóia morreu. De saudade de Menininha. De saudade de Ipê.

Era só uma sementinha, colada no calcanhar de um pardal. Por muitas nuvens úmidas, lá ficou, agarrada e inerte. Voando, voando, voando e vendo o mundo como ele é.

O secreto mundo dos Homens, das Jibóias e dos Ipês-Amarelos.

Dormir no ar

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Acordei. Calor. Chuva. Pouco a fazer. Nada a fazer. Dia ruim. Melhor ficar na cama. Não sair. Não brincar. Dormir.

Uma avião cor-de-rosa fura o chantili. É um bolo enorme em forma de arranha-céu. Muita gente conhecida comemora um aniversário. Mas que coisa, não me lembro dos nomes! Uma pessoa gargalha muito alto, rodopiando numa cadeira giratória. Outra, dança cadenceando as ancas ao ritmo dos solavancos do riso.

Ainda chove. Ninguém na casa. Que bafo! De bruços, agora.

Uma enorme mandala de pedra vai furando o céu. Ao passar, espalha no ar brigadeiros com formas variadas. Galinha, coelho, Papai Noel, carro de bombeiro. Aqui embaixo, o povo está se acotovelando de boca aberta, para comer os doces que caem. Mas não consigo alcançar. Aquele, aquele lá! Uma boca enorme de pelicano se abre por cima e engole o brigadeiro. Talvez se eu rastejasse até aquela clareira. Tem pouca gente lá. Não me mexo direito. Muitos pés pisando nas minhas mãos. Quero acordar. Sair do sufoco.

Saio ou não saio da cama? Mais uns minutos. Talvez outra viagem. Limpar a imagem. Dormir mais.

Está ventando muito, na beira do canal. A água esverdeada reflete os telhados intrincados. É uma imagem opaca e difusa que se movimenta para os lados. Que sensação boa. Uma gôndola acena de longe e avança rapidamente em sua direção. Quando ela chegar, é só dar um pulinho por cima da mureta. O que fazer com a cesta de vime? Acho que deve ser levada. Tem salame e ovo duro. Chocolate, será que o chocolate veio? Não dá tempo de ver: o barco já chegou. Até que ele é bem grande. Tem uma enorme carranca na frente. Ela parece de carne, osso e de sorriso acolhedor. Delicia estar aqui. O vento é úmido, e o sol lambe o convés molhado. As almofadas são profundas; os tapetes, coloridos, macios. E, de todos os lados, desfilam casas carcomidas, palácios estreitos, igrejas trancadas. A brisa abraça a praça. Muito adeus jogado ao mar. O oceano se abre à frente, para acolher o piquenique náutico. A cesta se abriu. Colares, brincos, anéis de jade espalham-se no ar cobrindo as velas de brilho e cor. Quem comeu o meu salame? Não faz mal, vou dançar com a carranca e flutuar por cima do espelho abismal. Mas como é fácil voar! Um empurrão para cima, mãos atrás da nuca, é só fechar os olhos. A cidade flutuante partiu à deriva, e a gôndola mágica evaporou-se atrás da curva do céu. Como é bom voar.

Sonhei. Uma nau de chantili a deslizar no ar. A chuva parou.
O salame. Que fome! Melhor levantar.

Quem fez o mundo fundiu-se

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O Martinho era uma pessoa vulgar. Ele nascera pequeno como todos os outros Martinhos e também como todos os bebês que não se chamam Martinho.

Ainda pequeno, naquela fase em que as crianças crescem, ele adquiriu muitas e diferentes coisas. Ele adquiriu peso e compleição de humano, cores e cabelos, músculos, e os ossos se alongaram. Dentes também nasceram, e pêlos e o sexo também despertaram. Tudo crescia, quando ele crescia. Crescia também o tamanho do círculo de pessoas que ele conhecia, assim como a quantidade de lugares que ele visitava e a qualidade de tudo o que ele experimentava da vida.

Martinho, quando crescia, só crescia, acumulando vida no corpo, na cabeça, no coração e na memória.

Martinho era uma cuba enorme de misturas pastosas com o mundo e foi despejado para dentro dele, aos poucos, mas gulosamente.

Quando Martinho ficou mais velho, ele um parou de crescer na aparência, mas continuou a crescer por dentro. De vez em quando, não cabia mais nada dentro do Martinho. Então, as coisas eram comprimidas ou simplesmente transbordavam.

Um pouco depois, Martinho já estava bastante maduro e todo gostoso. Ele entrara na vida adulta, com estofo de queijo curado.

Um belo dia, e, a partir daí, em vários outros dias, Martinho começou a perder suas aquisições de todos os tipos. Elas simplesmente partiam, desapareciam e deixavam no seu lugar um buraco ou vários deles. Alguns grandes como, por exemplo, quando alguns amores morriam; outros menores, quando ele quebrava um juramento, um sonho, uma fantasia.

Martinho envelheceu e virou um queijo suíço, todo esburacado de perdas.

Martinho morreu um dia e fundiu-se não só com todos os outros Martinhos, mas também com todos os outros humanos mortos que não se chamam Martinho.

Crescer por quê?

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Aquele menino é sujo. Deve ser pobre. Não deve tomar banho direito. Será que ele tem sabonete em casa? Deve comer o sabonete para não morrer de fome. Outro dia, ele veio falar comigo. Fiquei com medo. Pediu emprestado meu compasso. Emprestei, mas acho que ele não vai devolver. Vai ver vendeu para comprar pinga para o pai bêbado. Acho que vou falar para o professor que ele roubou meu compasso. Vou esperar até amanhã. Dei muita risada ontem. O professor chamou ele na lousa. Ele tinha que resolver um problema de matemática. Era fácil, fácil. Mas ele se atrapalhou todo, ficou vermelho e não conseguiu. Levou uma bronca. Bem feito. Quem manda ele não estudar em casa. Vai ver nem mãe ele tem. Ou então tem, mas ela deve bater nele. Duvido que ela saiba matemática. Não sabe nem contar. Fico imaginando a casa dele. Deve ser na favela, cheia de rato e lama. Na certa ele dorme na mesma cama que os irmãos. Com certeza, ele tem uns doze. Sujos e feios como ele. Um deles deve ser trombadinha, só pode. Ele fica olhando `as vezes, no recreio, quando a gente brinca com os super-heróis. Ele deve ter raiva, porque não tem nenhum. Também, pudera, pobre do jeito que ele é! Ele com certeza nem entende nada de inglês. Deve falar tudo errado o nome do planeta do Batman. Dizem que tem televisão na favela. Será mesmo? Deve ser de mentira ou, então, uma que o irmão roubou. Ele nunca traz lanche. Daí fico com pena, mas eu é que não vou dar um pedaço do meu. Quem manda ele ser pobre, ter um pai bêbado e uma mãe feia? Uma vez, eu vi ele na rua. Fiquei com vontade de dar uma carona para ele, mas foi melhor não. Com certeza ia roubar nosso carro. Meu pai falou que uma das maiores causas de pobreza do mundo é a preguiça. Que isso é assim mesmo. Que ele mesmo já tinha sido pobre um dia, mas, como ele não era vagabundo, ganhou dinheiro e ficou rico. Ele vive falando isso. Até que tenho vontade de brincar com ele. Mas eu acho que meu pai não vai gostar que eu leve ele para casa. Aposto que ele deve comer com a mão. Vou ficar com vergonha. Minha tia falou que é perigoso isso. Porque ele vai saber que a minha casa tem coisas de valor. Bom, vou parar de pensar nisso. Já estou ficando com medo.

Daí eu cresci, fiquei grande e rico. Como meu pai. Mais ainda.

Fico ali, sem poder correr, sem força para dar. Hipocrisia de menino rico.

Quero ser criança novamente.

Como sempre.

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Como todos os dias da minha vida, saí de casa, pela rua, em direção à padaria tomar café da manhã. Parei o carro na esquina de sempre, na vaga habitual, atropelando os sacos de lixo normais de uma segunda feira como outra qualquer. Caminhei pela calçada que há anos está igualmente esburacada e com ervas se danando nas frestas do cimento. Mas a padaria não estava mais lá. Em seu lugar, uma placa indicava um futuro empreendimento imobiliário. Sacudi os ombros e voltei para o carro. Com fome.

Ao cruzar a avenida, preparei o troco de todos os dias para o cego sorridente. Baixei o vidro num gesto automático esticando a nota. Mas não havia cego algum. Em seu lugar, nada. Nem uma criança, nem um ambulante, nem um trombadinha. Fechei o carro novamente. Economizando migalhas.

Adiante, era aquele sinal demorado, mortalmente irritante. O truque diário era de passar colado no carro da frente, pela faixa da direita para se esconder do guardinha bigodão. Todos os policiais da minha cidade usam bigode mas esse era maior e estranhei quando ele substituiu o anterior. Tomei um susto naquele dia, mas agora sempre me divertia acompanhando os fios que se acinzentavam com o passar do tempo. Ele envelhecia e nunca me pegara passando no vermelho. Mas, naquele dia, não tinha guarda algum. Só um cachorro mijando no poste com o sinal excpecionalmente verde. Passei. Sem pressa.

Ia dar nove horas e infalivelmente aquele insuportável locutor da rádio que há anos ouço todas as manhãs, iria entrar no ar com aquela sua pronuncia empolada. Mas não veio. Segui ouvindo música.

No trabalho, minha vaga estava ocupada, estacionei na rua. O vaso estava entupido, fui mijar no banheiro das mulheres. A garrafa de café estava vazia, lavei o rosto para acordar. Minha cadeira não estava lá, catei um banquinho. O chefe não tinha chegado, li o jornal. Não choveu e fui para a praia.

Não para tudo o que eu estava acostumado.

Voltei para casa. Não tinha trânsito. Nem aquela dor no coração. Como todos os dias da minha vida.

Não, eu não estava mais só.

Você voltou.

Caça palavras

24/12/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Era uma vez um caçador solitário.

Antes de sair de casa, com diligência e método, ele se armou até os dentes. A selva se oferecia no limiar da casa. Ao redor, uma caótica vegetação acenava. Troncos centenários, cipós descabelados, folhas voluptuosas e os ecos distantes de invisíveis animais.

Ele caminhou cuidadosamente, com os sentidos tesos, movimentos calculados e uma ansiedade febril. Por debaixo da grama rasa, atrás de cada galho, além da vista e do ouvido, insondáveis perigos adormecidos. Um calor silencioso sufocava a mente.

Mas era experimentado o nosso caçador. Com cuidado, abaixou-se ao perceber uma pegada. Funda e fresca. Por longos minutos, ele observou as marcas do animal decidindo-se finalmente por uma direção. Ele não estava longe.

À medida que o caçador seguia as pistas, a tensão subia-lhe pela garganta. Consciente que estava de sua indiscrição, desvendava a intimidade despreocupada da fera: aqui, ela descansou; ali, ciscou; adiante, cagou.

Horas depois, o caçador alcançou uma diminuta clareira que concentrava uma grande quantidade de patas carimbadas na terra úmida . Eram de formas e feitios diversos, iam e vinham, apontavam para todos os lados. O homem viu-se desamparado. Ele perdera o rumo da caça.

O restante do dia, procurou reencontrar o animal que seguira com tanta parcimônia, sem sucesso. Já era tarde e era preciso voltar para casa, mastigando o infortúnio. Amanhã quem sabe?

Era assim todos os dias. Em nenhum momento de sua vida de caçador, ele encontrara presa alguma. Jamais dera um tiro sequer, nunca matara um animal.

Ao entrar em casa, calmamente, despiu-se de suas imaculadas armas. Deitou-se no catre simples e fechou os olhos até o dia seguinte. O dia seguinte que prometia mais uma caçada branca na selva escura.

Uma página branca é o mais arisco dos animais selvagens. Ao dela aproximar-se e perseguir seus rastros sem palavras, seja na maliciosa intenção de domesticá-la ou para esfaqueá-la sanguinariamente, ela se recolhe ou confunde.

Uma página branca é um temido inimigo.

A esponja

08/11/2002 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Cesco

-    Apaga, apaga ele!

Ele segurava a arma com a ponta da alma. O dedo no gatilho; o coração na boca.

-    Mata logo esse filho-da-puta!

O disparo saiu tosco, cru, rápido, muito rápido. Na sua frente, aquela espuma cinzenta borbulhando de sangue.

-    Vam´ bora, Carlinhos.

Essa foi a primeira morte de Carlinhos. Foi difícil. Ele tinha muito medo de errar. Mas o cara morreu. Filho-da-puta!

Ele correu muito, depois, com a 38 dependurada no braço.  Seu membro ganhara poder de morte. Uma terminação nervosa explosiva. No meio da fuga, Carlinhos despencou para descansar um pouco, o braço duro, tremelicando. Fechou os olhos com força. Era preciso correr, ainda correr. Mas o menino não tinha mais forças.

Ficou ali a noite inteira. Ele e seu braço de chumbo. Ninguém veio. Não houve perseguição.

Na manhã seguinte, ele levantou com o primeiro andar cadenceado na rua. Carlinhos desparafusou a 38 da mão, enfiou a arma na calça e desceu o morro. Ia lentamente, ainda amortecido pela noite em claro.

Na praia, sentou na areia, de frente para o mar. Aos poucos, os últimos vapores do crime dissolveram-se na arrebentação. Carlinhos tirou a camisa, o tênis, escondeu o revólver na roupa e correu para as ondas. A vida recomeçava ali, apagando a memória.

Ele mergulhava, nadava, pulava. Gritava também, palavras soltas, o que lhe vinha à mente. Carlinhos estava aliviado e feliz. Lá longe ficava o morro, o soco no ar, o sangue transbordando.

Dias depois, o menino assaltou de novo; meses depois, matou mais um; anos a fio, mais alguns. Foi assim a sua vida toda: roubar, matar, lavar a memória no mar.

Até que ele cansou. Cansou daquela vida. Mas já era tarde.

-    Apaga ele, apaga!

De frente para Carlinhos, um buraco negro tremia, profundo.

-    Mata logo esse merda!

O tiro saiu devagar, furando o ar. O estalido veio depois, estourando a carne, abrindo caminho no peito.

Carlinhos caiu lentamente, sorrindo de dor. Recolhido no chão, fechou os olhos sobre a esponja vermelha e negra que lhe apagava a memória, para sempre, mais forte que a vida, mais forte que o mar.