Artigos na categoria ‘Internet’

Relacionamentos online: a inclusão que dá

23/07/2009 em Internet | Deixe um comentário »

João procura as botas do diabo até hoje. Disseram que, nas quebradas em que ele se esconde, tem pouca chance de ser alguém na vida. Até o “marvado” se perdeu por lá. João bem que tentou de tudo que é jeito: foi entregador de jornal, contínuo e hoje, pra escapar da exclusão, ele persevera falando com Deus e o mundo, em sua baia de telemarketing. João tem a idade de Pedro, que  estuda e viaja e até tem carro. João é um dos 323 amigos de Pedro, e Pedro um dos 362 amigos de João.

João nunca leu “Terra dos Homens”, mas ele sabe que só existe um luxo verdadeiro, o das relações humanas. No Orkut ele é tão rico quanto Pedro. Tão popular, ativo e bacana.

Assim como já foi para as salas estéreas onde se batia papo com estranhos, as redes sociais são hoje a maior razão para se conectar. E 92% de todos os internautas brasileiros já se relacionaram online.

A mãe de Pedro sempre lhe ensinou a ser discreto. A mãe de Pedro não tem perfil no Orkut, porque ela tem vergonha. Sua vida e a das suas amigas é regida pelo “que não vão dizer?”. Ela não entende seu filho que passa o dia escarafunchando a vida dos outros e se devassando online.

A Internet é a terra do quem-te-viu-quem-te-vê e 60% dos 45% de internautas que já colocou algum conteúdo online foram motivados para ilustrar ou contar algo sobre sua vida pessoal.

João comprou um celular bacana numa promoção. Mais do que para falar, o celular serve mesmo para fotografar. João virou um repórter do seu mundo e da sua vida. E, quando os 23% de bacanas que reclamam da conexão de Internet em casa dão uma folga, ele atualiza seu perfil com suas novas descobertas, como 39% de todos aqueles que ativamente usam a Internet para existir.

João que pertence à metade de todos os Internautas brasileiros e Pedro, à outra metade, nasceram para ser diferentes, mas em algum lugar eles são iguais, e isso faz toda a diferença.

Brasil um país de, ainda, e-excluídos

22/07/2009 em Internet | Deixe um comentário »

Aqui se vota na urna eletrônica e ainda tem político comprando voto a troco de chinelo.

Aqui se faz declaração de imposto de renda pela Internet e a sonegação mora nas barbas do poder.

Aqui se faz BO pelo computador e ainda tem filas kafkianas no Detran.

Aqui 50% da penetração das pessoas que acessam a Internet ganham menos de 2 salários mínimos de renda familiar, e 50% das famílias ainda ganham menos de 2 salários mínimos.

Aqui acesso à Internet não tem nada a ver com renda. Somos o país das correlações arrevesadas.

A penetração de Internet no Brasil é de 35%, segundo a última pesquisa F/Radar. Vamos nos comparar primeiro com outros pobres anabolizados: na Rússia é 26%, incluindo as matrioscas; no México, 23%, sem contar os zapatistas; na China 23%, segundo o mais democrático governo do mundo, e na Índia 6%, incluindo as vacas sagradas.  Isso significa que somos o mais digital dos nossos primos.

Já nos Estados Unidos, a penetração de Internet é de 73% e nos países europeus, por aí também. Essa diferença tem alguma coisa a ver com grana?

Pois vejamos: a renda per capita dos Estados Unidos é de 46 mil dólares (ou era, antes do catastrobushismo, sei lá).  A do Brasil é de quase 8 mil dólares.

Ou seja, somos quase 6 vezes mais pobres mas só 1,6 vez menos conectados.

Então, se ainda somos mais pobres do que Botsuana – aqui 31% estão abaixo do nível de pobreza contra 30% no país africano –, a gente deu um jeito e já dá pra falar em inclusão de acesso (e não digital). Obrigado, informalidade.

Já o acesso em casa são outros quinhentos. A penetração é ridícula ainda: pouco mais de 20%: 63% nas classes AB, 19% na C e ridículos 2% na DE.

Mas será que isso tem alguma importância? Talvez não tenha, na teoria, afinal de contas, se a Internet é canal de relacionamento, não precisamos estar em casa para xavecar, nem convém. Se Internet é informação, idem. Se Internet é atividade profissional, menos ainda. Quem tem tempo em casa de fazer muito mais do que dormir?

Mas tem sim: para comprar. Onde já se viu “comprar pela Internet fora de casa?” 72% dos internautas que já fizeram compras pela Internet o fizeram de casa. Vai saber por quê!

Em outras palavras, se a maioria das pessoas no Brasil acessa a Internet fora de casa (77%), esse monte de gente nunca comprou.

Aí está o nosso novo desafio, o gargalo que não tem nenhuma importância pra quase tudo, menos para aquilo que parece ser uma das salvações da lavoura da economia: o comércio eletrônico.

Esta é a nova fronteira: a inclusão comercial.

Interatividade é para os brutos que nos tornamos

16/07/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

Quando Constantinopla foi tomada pelo exército otomano, em 1453, os soldados do islã invadiram Santa Sofia e impressionaram-se com as imagens sacras que ornavam a catedral. Chocaram-se também com a ousadia de contrariar a palavra de Maomé que proibira a imagem como representação do divino. O dilema se armara entre a destruição daquelas maravilhas e o respeito à palavra santa. Trataram então de revestir as imagens com suas descrições, num inebriante entrelaçado de frases e palavras.

Não muito longe dali mas séculos depois, quando os colonizadores trouxeram o cinema para a Argélia – cinema propagandístico das glórias do exército – eles convidavam os notáveis das aldeias para a avant-première. Os muçulmanos, naquele tempo, ainda respeitavam a palavra do profeta: era ímpio reproduzir o ser humano. Preocupados com a recepção, os generais colocavam as cadeiras de costas para a tela para receber os convidados. Quando a tela se acendia, um narrador descrevia para a plateia as imagens, mudas ainda, que se sucediam.

Ler parece meio fora de moda. Precisamos de imagens, movimento, som. Carecemos de estímulos sensoriais para despertar. Crescemos as telas, aceleramos a ação, aumentamos o som. Como se a vida moderna, ao invés de agitar nossas sinapses, as calcificasse. O sentir passa a ser fator de volume e intensidade.

É nesse turbilhão que se insere o apelo à interatividade. A nova fronteira do estímulo sensorial são esses simulacros de participação – que ensaiamos no cinema, nos games, nos ARGs – e toda a parafernália tecnológica que não cessam de nos excitar. O sussurro do vento, o rugir do mar, a voz a capela, o canto do realejo não despertam mais.

Minha mãe dizia que, quando tomava o bonde no Rio de Janeiro, adorava concentrar-se na ponta da orelha de algum passageiro à sua frente. Invariavelmente, após alguns instantes, ele virava o rosto e respondia ao chamado. Hoje, entupimos nossos tímpanos com fones de ouvido, penetramos no game, e de todo jeito ausentamo-nos do mundo simulando participação nas narrativas.

Não é saudosismo, é como tem de ser. E se a nova descoberta for a imersão neurológica, que assim seja.

Mas minha sobrinha continua encantada quando lhe conto pela enésima vez a história triste da pequena vendedora de fósforos: “fazia um frio terrível, caía a neve e estava quase escuro, a noite descia: a última noite do ano…”

Histórias interativas: ai que preguiça!

15/07/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

Em Marrakesh tem uma praça mágica. É uma zona gigantesca, cheia de barraqueiros, amestradores de macacos, encantadores de cobras, ambulantes sinistros, fantasmas que perambulam numa densa fumaça de temperos exóticos. E tem contador de histórias. Muitos. Um deles me atraiu. Ele gesticulava, falava pouco, olhava muito. E fiquei ali, muito tempo, paralisado e enfeitiçado sem entender uma única palavra do que o barbudo contava.

Ontem, a noite era fria e silenciosa. Me larguei na frente do computador, como todo dia, e comecei a chafurdar na Internet. Aqui, ali, de todos os lados. Ao compasso dos cliques, a adrenalina subiu, a ansiedade martelando nas meninges. Me deu náuseas e, apesar da atividade frenética do meu cérebro, me senti profundamente desamparado. Larguei o aparato todo e despenquei no sofá. Liguei a TV no primeiro canal que minhas forças me permitiram ligar. E ali fiquei, muito tempo. Deu um calorzinho gostoso.

Uma história exige linearidade, uma cronologia, um começo, um meio, um fim. Uma história precisa de um narrador (ou mais de um) que tece o fio, passo a passo, segura a atenção. Ele é o foco, o centro. Se uma porta se abrir, se pessoas conversarem ao fundo, se o seu vizinho te cutucar ou roncar, a história desmorona como um castelo de areia. Para que a história fisgue, a relação que se estabelece entre o contador e o ouvinte é de atividade-passividade.

Claro que uma história pode ser interativa. Mas uma interatividade “passiva”, não “intrusiva” e quanto menos “colaborativa”, melhor para a história.

Eu preciso de passividade e atividade, atividade e passividade. Preciso ser e estar. Ser ativamente e estar passivamente.

Quando quero ouvir uma história, ainda prefiro um livro onde a página dois vem depois da um, e a três depois da dois. Ou um filme, uma novela, onde o segundo minuto vem depois do primeiro.

Quando quero uma história, eu quero um contador e quero que ele não conte comigo para fazer o seu trabalho.

A redenção da política

14/07/2009 em Internet, Propaganda | Deixe um comentário »

Com ou sem Ben Self (diretor de tecnologia do partido democrata) se o marketing na rede não vai eleger os candidatos, ao menos vai ajudar muito a riscar do mapa uma legião de safados.

Acabou de ser aprovada na câmara uma lei que regulamenta a propaganda na Internet. A lei é ingênua e vaga, como todas que se referem à desfronteira, mas é um avanço. Tímido, mas avanço. Proíbem, por exemplo, a propaganda em sites comerciais, mas autoriza aqueles não comerciais a veicularem mensagens políticas, inclusive redes sociais e que tais. Como se fosse possível hoje, em tempos de posts patrocinados, discernir o que é “comercial” do que não é! Como se possível fosse proibir, tout court, na Internet!

Mas o fenômeno Obama excita as mentes. E muitos se excitam superestimando o aparato de marketing digital que a equipe do presidente desenvolveu. Obama não ganhou por causa, nem graças ao marketing e muito menos suportado ou amplificado pela Internet. O marketing foi consequência e não causa da eleição.

A Internet não é um palanque eleitoral e todos aqueles que a usarem como uma carreata espetaculosa vão quebrar a cara. Propaganda eleitoral paga, daquela que reproduz a lógica da mídia de massa, na Internet, não carece de controle nem proibição, é contrapropaganda.

A Internet é um fenômeno de sociedade baseado na espontaneidade, na voz individual sincera. É claro que pode-se fazer barulho, influenciar multidões de seguidores por algum tempo. Mas a Internet é muito mais pródiga em desmascarar e desnudar.

A lógica é inversa àquela da propaganda tradicional: a mentira convincente, porque bem contada, paradigma da propaganda de massa, tem vida breve nas mídias sociais e é totalmente incontrolável. Cedo ou tarde, o julgamento é avassalador e destroi reputações mal-intencionadas.

A propaganda eleitoral e a doação de campanha têm que ser totalmente livre na Internet, uma vez que a rede é autorregulamentada. E nesse território, a política se redime, pois a mentira, a manipulação, a sem-vergonhice, tem perna curta.

Se Obama ganhou as eleições foi devido ao fato de ele ser sincero e acreditar no seu discurso. E talvez seu opositor, mesmo afirmando suas convicções retrogradas teria tido outra performance, não tivesse sido ele suportado por anos de propaganda mentirosa.

Candidato, minta à vontade nas mídias tradicionais, ainda funciona um pouco. Mas, se quiser usar esse espaço livre, é melhor ser sincero, ou o eleitor te pega nas curvas da teia.

Twittiqueta urgente!

07/07/2009 em Internet | Deixe um comentário »

Há um complô na mídia brasileira para bombar o Twitter.

Ele está em 10 de cada 10 assuntos abordados nos mais variados terreiros: ele engendra elucubração geopolítica, derruba autoridades, pré-mata ou enterra personalidades, crucifica e beatifica opiniões.

O Twitter é mesmo uma espécie de Stefany da Internet: pega mal estar por fora, ou é “muito barulho por pouco”.

Entretanto ele é um perigo, não somente porque contagia mais do que cacoete, mas também porque conta muito sobre seus autores ou disseminadores. E, pela primeira vez na história dos costumes humanos, as confissões, no Twitter, são autorais e, melhor ainda, catalisadas pela deliciosa ilusão de ser seguido por uma legião de fãs.

O Twitter revela o caráter de alguns, as frustrações de outros e os complexos de todos aqueles que acreditam no extraordinário terremoto socioantropopsiquiátrico do piu- piu.

O Twitter pode transformar todo mundo em rei nu. A plateia vira gozadora e o confesso, bobo da corte.

“Criação” (entre aspas?) publicitária

07/07/2009 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

It’s not where you take things from – it’s where you take them to. (Jean-Luc Godard)

Autenticidade é quase um defeito de caráter na profissão publicitária. O estilo é escravo da idéia, quase sempre oca, porque corroída por infinitas camadas de referências.

Ser criativo na propaganda é antes “conexão” do que “intuição”. É antes colocar na mesa (ou ocultar maliciosamente) uma tonelada de déjà-vu, do que exercício de estilo. Estilo, esse tão maltratado conceito na propaganda.

E que mal a Internet (os anuários de propaganda impressos do passado anabolizadíssimos) faz!

A propaganda virou escrava do “novo”, só que o novo com a Internet não existe.

E os criativos (e planejadores) viraram cool-hunters digitais, máquinas de pesquisa, browseadores alucinados.

Mas, se criar não é um ato de inspiração pura, divina, se criar não é conectar-se com o éter místico, não é baixar o santo, o que é criar?

Será criação a busca pela ideia? Nova?

Quando a busca é pela ideia, a tentação pelo novo é quase irresistível. Peneira-se o que “ainda não foi feito, dito, mostrado” e isso significa balizar a criação, relativizá-la no tempo e no espaço. O que não foi feito AQUI ou que não foi feito FAZ TEMPO (ou o que ninguém sabe que foi feito). E esse referenciamento justifica a obra em inspirações do passado. A referência, a bagagem, o aprendizado, a vivência quase sempre sobrepõem-se a uma autenticidade que só a visão individual pode imprimir. A ideia (original?) é banalizada porque desprovida do estilo que redime e projeta uma nova visão sobre ela.

Mal traduzindo Proust: “Porque o estilo, para o escritor, assim como a cor para o pintor, não é uma questão de técnica, mas de visão. Ele é a revelação, que seria impossível por meios diretos e conscientes, da diferença qualitativa que existe na forma como o mundo se revela para nós, diferença essa que, se a arte não existisse, permaneceria o segredo eterno de cada um”.

A fotografia é o mais simples dos exemplos. A beleza de uma foto não está no objeto fotografado, sempre o mesmo, imortal e imutável no clique, mas no olhar do fotógrafo. E olhar é estilo.

Criar é olhar e interpretar, linguagem e estilo. Criar é recolhimento e contemplação interior.

Claro que isso não significa fechar as portas e janelas para o mundo, ainda que isso fosse possível. Deve-se cuidar para preservar as referências no inconsciente, onde elas produzem seu efeito catalisador de onde emergem no estilo único de cada criador.

Ou talvez a gente tenha que assumir que a propaganda não está “criando” coisa nenhuma, e o mal só esteja em dar um nome pretensioso, “criação”, a um ofício automático, muitas vezes com uma ética duvidosa. Se assim for, vale ser o Max Blogosfera, o Merlin do YouTube, o Chupachups supernerd, o Mister Hype da Oscar Freire, o Lord street, o oportunista de plantão que viu primeiro ou antes.

Mas a propaganda pode ser criação, pura, tocante, que nos devolve transformação, quando ela consegue recriar o mundo com o estilo, original do autor. Quando a gente resolve assumir que todo mundo já sabe que a Terra é azul, que as mães amam seus filhos, que um carro é testosterona, que as mulheres não querem ser suas mães, que uma geladeira é símbolo de status, que cerveja cria cumplicidade, que a gente quer serviços sob medida, que comer um chocolate é um orgasmo, que uma moto é liberdade ou afirmação ou individualidade ou simplesmente um meio de locomoção barato e rápido. Quando a gente saca que não há descoberta possível nos DNAs banais das marcas, a não ser pelo jeito como olhamos para elas. Não há possibilidade de emocionar, a não ser pelo estilo próprio e único que desenvolvemos sobre aquilo que já foi dito um milhão de vezes.

Por que será que quase dez entre cada dez porcarias que vemos na propaganda foi submetida aos consumidores em ambiente de teste e aprovada com louvor? Porque, simplesmente, é dito o que todos já sabem, do jeito que todos já conhecem. Conforta confirmar o óbvio. E a repetição, a frequência exaustiva fazem seu papel bruto de convencer. A boa propaganda é aquela que rentabiliza a exposição porque toca de cara, quase à primeira vista. E toca porque devolve-nos, através do estilo, o original, e não o “novo”.

Um dos nós górdios da audiência na Internet

02/07/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

Existe um número mágico que mede o alcance de algumas mídias, em particular as impressas. Estima-se, há muitos anos, que cada exemplar de um jornal e revista seja lido por 3,5 pessoas em média. Esse número, embora queiramos crer que em algum momento tenha sido comprovado, é uma convenção. Ele serve de base para todos os cálculos e, assim, permite uma aproximação mais realista da audiência desses veículos. É claro que ele é discutido, pois é provável que uma revista, por exemplo, de conteúdo adulto ou de variedades seja lida por mais pessoas do que uma de engenharia ou de caminhoneiro. Da mesma forma que convenções de discurso como “bom-dia” e “obrigado” são salutares ao bom convívio social, esses multiplicadores de alcance são universais e benéficos.

No entanto, o número mágico não se aplica aos conteúdos publicados on-line. Há uma lógica por detrás disso, é claro. A Internet, como mídia, está baseada num fundamento matemático: tudo pode ser medido com exatidão. Sabe-se a quantidade de visualizações de um conteúdo, a quantidade de visitantes únicos, o tempo de permanência dos visitantes naquele conteúdo, etc. A Internet é uma mídia precisa. Porém, assim como não é aceitável considerar que uma revista seja lida apenas por um único leitor (o dono da revista), ainda que um conteúdo na Internet seja lido em primeiro grau por apenas uma pessoa (ninguém empresta seu computador ou celular), existe um componente nunca mensurado nas pesquisas, a saber, o potencial de viralização do meio.

É, portanto, válido aceitar que um conteúdo publicado (ou veiculado) em um site tem um coeficiente multiplicador, na medida em que ele pode ser facilmente difundido, seja através de um simples copy-paste num email, seja através de RSS ou reproduções automáticas. Em decorrência disso, um mesmo conteúdo (integral, em trechos ou modificado) pode alcançar muito mais pessoas do que simplesmente o visitante de primeiro grau quantificado pelas estatísticas de mensuração. É precisamente nessa qualidade intrínseca do meio on-line que reside seu poder diferenciador. É exatamente aí que reside um dos nós da audiência na Internet e, por falta de raciocínio a respeito, uma parcela significativa do impacto de um conteúdo é expurgado de todos os cálculos.

Antes de propor uma solução (ou uma tentativa de), é importante relativizar a comparação entre a mídia referida no início (jornal ou revista) e a Internet (em qualquer meio, jornal ou revista on-line, blog, rede social, etc). Na mídia tradicional, o que define o multiplicador é o suporte físico do conteúdo. É uma espécie de fator da “durabilidade” do meio. Um jornal ou revista só pode ser lido por certo número de pessoas, porque a temporalidade é limitada. E, assim, convencionou-se que essa validade é de 3,5 leitores por exemplar. A Internet, por sua vez, é uma mídia autorrenovável. Não existe vida útil de um conteúdo publicado on-line. Ele pode perpetuar-se inumeravelmente como uma fênix.

Podemos dizer que um conteúdo on-line tem sua vida útil condicionada a dois fatores: a pertinência ou simplesmente o interesse, por um lado; e a capacidade de viralização de cada pessoa impactada, por outro. Em relação ao primeiro, quanto mais “interessante” for o conteúdo, maior a capacidade de reprodução. Esse é o dado intangível e impossível de mensurar. Vai de sua criatividade, impacto, estilo, originalidade, etc. Propomos, portanto, não nos aventurarmos em tentar quantificar tal fator, para não entrarmos em divagações conceituais.

Quanto ao segundo, a capacidade de viralização de cada pessoa impactada, esse sim, talvez seja possível mensurar ou convencionar.

Tomamos como base a visitação do conteúdo. É o ponto de partida que deveria, portanto, ser multiplicado por um fator. Vamos aceitar como referência de cálculo os número de visitantes únicos do conteúdo, dado simples de obter.

A Internet proporciona diferentes atitudes por parte de seus visitantes. Alguns contentam-se com a interação do zapping. São visitantes passivos, na medida em que frequentam a Internet apenas e tão somente para ler, assistir ou ouvir conteúdos produzidos por outros. Esta é a primeira classificação de atitude. A segunda atitude diz respeito àqueles que, além de serem passivos, em maior ou menor grau também produzem seus próprios conteúdos (um email é um conteúdo produzido, assim como um blog, um comentário em uma comunidade, etc.). A terceira atitude refere-se aos que viralizam conteúdos produzidos por terceiros, seja através de um simples copy-paste ou de qualquer edição mais ou menos sofisticada.

A proposta aqui é, por conseguinte, encontrar a parcela de pessoas que possuem um comportamento de “viralizadores” na Internet. Esse número não é difícil de obter. É um valor que só se mensura por declaração dos entrevistados, mas ele é possível. Ele pode ser mensurado em clusters ou pela média (viralizadores gerais da Internet, viralizadores entre usuários de determinado tipo de conteúdo, entre usuários de redes sociais, etc).

O segundo fator a ser pesquisado é encontrar ou estimar o número de contatos de cada pessoa. Ou seja, o número médio de pessoas com os quais cada indivíduo se relaciona na Internet. Mais uma vez, o resultado pode variar de acordo com o tipo de cluster, número de contato gerais médio da Internet ou em determinada rede, o que também pode ser obtido facilmente e de duas maneiras: por declaração em pesquisa ou por informação do cluster estudado, quando se trata de uma rede social, por exemplo.

Se multiplicarmos a porcentagem de pessoas que viralizam conteúdo pelo número médio de contatos, podemos obter um aceitável multiplicador de visitantes.

É claro que nesse número estão expurgados os graus subsequentes, mas é mais razoável ater-se ao primeiro grau: já que procuramos estabelecer uma convenção, é prudente encontrar um número bastante conservador.

Para fins comparativos, é possível também estabelecer diferentes convenções para cada tipo de categoria em que se insere o conteúdo: o potencial de viralização de uma rede social, por exemplo, é certamente maior do que o de um portal, para categorizar em apenas dois grupos.

Para ficar ainda mais fácil de entender o princípio, vamos a um exemplo:

Digamos que determinado site da categoria “portal” tem 1.000 visitantes únicos por mês. O número médio geral de “viralizadores” é digamos 20%, e o número médio geral de contatos é 20. Portanto, a audiência desse site é de 1.000 + (1.000 x 20% x 20) = 5.000. O multiplicador convencionado de um “portal” seria, portanto, 5.

Se esse mesmo conteúdo estiver inserido em uma rede social com o mesmo número de visitantes únicos, teremos um cálculo de audiência diferente, já que há um número maior de viralizadores entre aqueles que pertencem a redes sociais, assim como é maior o número médio de contatos desse ambiente. Por exemplo, se o número de viralizadores é de 40% em redes sociais e o numero médio de contatos for 50, a audiência desse conteúdo passa a ser 1.000 + (1.000 x 40% x 50) = 20.000. O multiplicador convencionado de uma rede social seria, assim, 20.

Esse cálculo pode fazer toda a diferença para efeitos comparativos do impacto potencial de um conteúdo publicado em uma determinada mídia on-line e outra. Ainda, esse número pode ajudar a parametrizar a Internet na mesma lógica de outras mídias tradicionais.

A presente proposta é, evidentemente, uma idéia; entretanto, já é mais do que tempo de nos debruçarmos sobre esse tema, para não corrermos o risco de continuarmos considerando a Internet uma mídia misteriosa e de difícil apreensão. Dessa forma, quanto mais cedo criarmos essas convenções, mais rápido poderemos converter inteligências para um cenário de mídia que a cada dia cresce em complexidade.

Finalmente, o número multiplicador resolve apenas parte do problema, uma vez que a lógica da Internet como mídia deve continuar a ser alvo de estudos e raciocínios próprios. Devemos cessar de raciocinar com adaptações acochambradas, imprecisas, e míopes, ou o controle fundamental das ferramentas de mensuração inviabilizará definitivamente o mercado editorial e publicitário tradicional. Ou tentamos desatar os nós, por mais inexatas que pareçam essas tentativas, ou a esfinge nos engolirá.

Michael Jackson morreu antes de ter morrido

29/06/2009 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

Quando Napoleão voltou de sua campanha na África, ainda como general, sua máquina de propaganda tratou de enviar notícias de suas vitórias. Ele apanhou feio em algumas batalhas, mas, mesmo assim, entrou em Paris como filho pródigo da Revolução, coberto de glórias. Afinal de contas, a verdade sempre foi – e sempre será – um fator diretamente proporcional à intensidade e à velocidade das notícias, mesmo quando elas são falsas.

Pouco mudou de lá pra cá: quem fala primeiro ganha. Na pior das hipóteses, 15 minutos de fama. Na melhor, reputação ilibada.

Michael Jackson morreu uma hora antes no site de celebridades TMZ do que nos principais veículos de comunicação. Se ele morreu mesmo, de verdade, pouco importa. O que importa é a expectativa de sua morte. É isso que segura a audiência, é o que dá fome de notícia, é o que excita o planeta. Depois do fato consumado – ou seja, quando a notícia virou unanimidade – a audiência desloca-se para outras mentiras temporárias: teria sido suicídio? Ou autodestruição? Os filhos são dele mesmo? Ele ainda é rico?

É na construção da expectativa da verdade, na criação de mentiras temporárias que reside o segredo da audiência. E quanto mais quente for a mídia, mais importante essa máxima. Na Internet, na TV, no rádio.

Entre a barriga e o furo, o furo, mesmo que ele seja uma potencial barriga. Depois desmente-se, relativiza-se, justifica-se, aluga-se outro furo e administra-se outra barriga.

Já estou vendo os bem-pensantes de plantão me xingando: “E a ‘credibilidade’? A ‘respeitabilidade?’”

Claro que de vez em quando é bom acertar, isso é óbvio. Mas não é disso que estamos falando. Jornalismo é diferente de História. E tampouco vamos filosofar se isso é bom ou ruim, se a verdade existe ou é uma quimera.

Por que a Internet enferruja as mídias antigas? Por que as mídias antigas tornam-se velhas? Há muitos argumentos; um deles, porém, pouco debatido, consiste nessa lógica da credibilidade, da checagem de fontes, das regras éticas. Na Internet parece haver uma licença para ser menos realista que o rei, porque a lógica não está mais no furo, mas na precedência do furo.

A noticia, o fato, o furo em si não interessam tanto quanto a história que o precede. É o suspense que segura a audiência, e não a morte da bezerra. E se não confirmarmos sua morte, o furo passa a ser sua ressurreição.

Como é gostoso o meu transtorno

25/06/2009 em Internet, Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Não posso deixar de repercutir um artigo publicado no Webinsider.

Trata-se de um pequeno “fait divers” ocorrido muito tempo atrás. Sem entrar em detalhes, até porque prefiro que leiam o original, eu só queria dizer que nunca me importei com a cópia, envergonhada ou desavergonhada, do que escrevo. Me diverte mais do que chateia.

Mas talvez o que seja fascinante, na experiência do exercício diário de escrever (com ou sem obrigação) é quando a rotina por si só motiva. Como uma espécie de superstição que controla consciente ou inconscientemente a vida. Esse conforto psicológico dá segurança, dá coragem, dá ousadia. É uma dose diária de prazer.

Extravasar um inefável Transtorno Obsessivo-Compulsivo é muito mais gostoso do que buscar quinze minutos de fama, chupando ou criando.

Sexo virtual, fim de papo

23/06/2009 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

Muitos anos atrás, uma revista bacana me convidou a colaborar. Aceitei o tema livre de imediato. Resolvi falar sobre comportamento online. No primeiro artigo, recebi a seguinte avaliação: “nosso leitor é uma pessoa outdoor, que se realiza em atividades esportivas e culturais. Não curte essa coisa de computador”. Esses eram os termos aproximados do recado. Enfureceram-me confesso muito mais por ter me qualificado de troglodita digital do que pela miopia neo-hippie.

Até hoje, o hit parade dos meus artigos chama-se “namorodromos existem”. Bem que eu gostaria de ser uma espécie de Palmirinha da cibercoisa e ter compaixão e senso de humor suficientes para responder calmamente às dezenas de comentários que recebo até hoje sobre esse texto decano.

Mas hoje não tem mais polêmica ou mistério supor que muita gente – quase todo mundo – se relaciona através na Internet e que esse relacionamento ultrapassa em muito as fronteiras da decência vitoriana. Inclusive os surfistas da revista que me rejeitou.

Uma coisa é elaborar uma hipótese qualitativa razoavelmente embasada em meia dúzia de buscas, outra é escancarar um numero.

A penúltima pesquisa F/Radar de agosto de 2008 quis perguntar para os sessenta e cinco milhões de brasileiros que têm acesso à Internet no país se eles já tinham se relacionados intimamente com pessoas que tinham conhecido virtualmente e também se tinham tido alguma troca, digamos, mais intensa.

11% responderam afirmativamente à primeira questão, (segundo recente pesquisa do Ministério da Saúde, 7,3% da população adulta do país já conheceram um parceiro sexual pela Internet). Como sempre nesse tipo de pergunta embaraçosa, é de duvidar da resposta honesta. Portanto, o truque é indagar para as pessoas, na sequência, se “conhecem quem fez sexo com alguém que conheceu na Internet”. A resposta mais que dobra: 38%, ou seja, 24 milhões de pessoas. Já sobre o tal sexo virtual, 25% das pessoas (16 milhões) já fizeram ou conhecem quem já fez.

Como esse número não foi publicado em lugar algum, achei interessante divulgá-lo. Não apenas para encarnar o fantasma quantitativamente, mas simplesmente para encerrar o caso. Não interessa mais falar nesse assunto. Não é caso de vergonha pública. Só normalidade, sem interesse.

Redes sociais é eufemismo

22/06/2009 em Internet | Deixe um comentário »

A gente tem mania de categorizar os fenômenos depois do sucesso de uma marca: lâmina de barbear, sandália de borracha, leitor de MP3, ferramentas de busca, redes sociais.

Ninguém quer pagar duplicidade na Rede Globo, mas esses nomes são pretensiosos, feios e falsos.

A última pesquisa F/Radar confirma: redes sociais no Brasil tem um nome, Orkut. As outras simplesmente não existem. O Facebook e o Twitter são fenômenos apenas nas redações e nos papos descolados, enquanto quarenta milhões de indivíduos são orkuteiros convictos. A pesquisa, que tem 2 pontos percentuais de margem de erro, não consegue ler nada desses grandes booms midiáticos.

Então, vamos falar sério: esse papinho de redes sociais é um eufemismo.

E por falar em Orkut, a pesquisa revela interessantes conclusões.

O Orkut é um fenômeno interessantíssimo porque atinge todas as classes sociais com igual importância. É claro que, considerando que a penetração da Internet praticamente não tem mais para onde crescer nas classes AB, ele cresce mais nas classes CDE. O mesmo, considerando as faixas etárias: todo jovem tem Orkut e o incremento mais importante se dá, portanto, entre os tiozinhos. Preparem-se para o Orkut continuar crescendo avassaladoramente.

Por outro lado, perguntou-se qual é o tipo de “colaboração” mais frequente na Internet. A maioria das pessoas usa a Internet e, portanto, o Orkut para publicar fotos e textos sobre sua vida pessoal. Como se a Internet e, portanto, o Orkut fosse uma carteira de identidade, um atestado de existência. Um perfil na Internet e, portanto, no Orkut nivela todas as classes, todas as idades, todos os preconceitos. A Internet e, portanto, o Orkut é a grande ágora dos cidadãos, uma espécie de chuveiro coletivo, um praia, uma mesa de cirurgia, uma estrada congestionada, uma fila na Polícia Federal, um instituto médico legal. A diferença se faz notar pelos predicados, e não pelos penduricalhos. Pelos dotes, e não pelas próteses. É justamente por isso que o Orkut é assim, a Internet brasileira.

A Internet e, portanto o Orkut, ou melhor, o Orkut e, portanto, a Internet é o que interessa. Não vamos perder tempo com o resto.

O mea-culpa da mídia de massa

18/06/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

“O jovem está menos na TV por causa da Internet”, “O hábito de consumo de mídia mudou por causa da Internet”, “A TV e o jornal morreram por causa da Internet”, Blá-blá-blá-blá-blá.

Profetiza-se muito sobre o futuro das mídias e, apesar disso secretar uma interrogação perturbadora, uma
espécie de dor de cotovelo ou um entusiasmo reacionário, ninguém ousa mais revelar suas angústias.

“A plataforma não interessa mais”, “As plataformas são complementares”, “A TV tem que convergir pra Internet”, “A Internet tem que convergir pras outras mídias”, Blá-blá-blá-blá-blá.

A conclusão de dez entre dez raciocínios bem-pensantes do “novo papel das mídias” passa inconscientemente por uma espécie de fatalismo: “Vamos nos adaptar, a Internet é uma realidade”. Conclusão essa que resulta num mash-up trágico: conteúdo televisivo na Internet, internauta na televisão, e por aí vai para citar só alguns.

E agora, a questão não é mais apenas entender o funcionamento de cada mídia, o papel do conteúdo em cada plataforma, o formato, a gramática e a linguagem de cada meio.

Talvez seja mais construtivo entender a Internet como consequência e não causa. Não é “por causa da Internet que a TV deve ser isso ou aquilo”, mas porque a TV é isso ou aquilo, que a Internet é o que é.

Em outras palavras, energia de mais é investida em adaptar as mídias antigas ao ambiente digital e energia de pouco em pensar como as mídias antigas deveriam se adaptar às novas demandas das pessoas. Não é por causa da Internet, é por causa das pessoas.

Antes de assumir a derrota, deveríamos assumir os erros. Antes de pensar na Internet, deveríamos pensar nas nossas mídias “antigas”. E pensar nas mídias antigas não deve significar necessariamente “internetizá-las”.

Não é só porque as pessoas querem participar, não é porque as pessoas não aceitam mais a estrutura hierárquica da difusão de informação e entretenimento, que as mídias antigas estão ameaçadas. É porque elas erram em outras lógicas próprias, de formato e linguagem, que elas despertaram nas pessoas essas vontades.

Essa inversão de raciocínio é muito mais excitante e desafiadora: como é que voltamos a ter importância, como é que voltamos a cativar o jovem, como é que voltamos a ser hábito, sem mexer uma única linha na lógica das mídias de massa, por definição de poucos para muitos e com uma postura passiva das audiências?

Ondas não broxam

26/05/2009 em Internet | Deixe um comentário »

A grande polêmica na França atualmente é um tal de projeto de lei chamado Hadopi, sobre um desejado controle dos downloads “ilegais” na Internet que “infringiriam” direitos autorais. Debate já velho e monótono. Não há muito a comentar sobre o projeto em si, obviamente autoritário e que segue uma política de restrição de direitos individuais, patrulhamento policial e preservação desesperada de instituições caducas à beira da falência (como gravadoras, editoras e associações de artistas matusalém). Elton John teria feito um apelo recente implorando o “fim” da Internet para preservar os direitos autorais!

Hadopi é uma sigla que significa “Haute Autorité pour la Diffusion des Oeuvres et la Protection des droits sur Internet” ou seja “Alta Autoridade para a Difusão das Obras e a Proteção dos Direitos sobre Internet”. Trata-se de um organismo independente mas é importante ressaltar a pretensão do nome! O assunto está tão quente que recentemente, um diretor da televisão pública francesa TF1 foi demitido sumariamente pelo ministro responsável por ter discordado do projeto em uma entrevista.

Para além do aspecto risível das medidas sugeridas, vale dizer, falhas, inoperantes e caríssimas (existe uma quantidade enorme de dicas de usuários de como é simples e rápido driblar qualquer controle, por exemplo, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=08ZLvNGFPsQ); para além dos discursos inflamados e hilários (um ministro, ao ser indagado sobre a impossibilidade de controle de uma lei francesa sobre downloads que podem ter origem em outro país em que não há legislação restritiva, teria dito que esse não era o problema, porque a enorme maioria dos downloads tem uma origem próxima do destinatário, uma vez que “demora muito tempo baixar algo de um país distante”!), o que choca mesmo é a incompreensão do benefício do intercâmbio livre ou livremente regulado da criação intelectual.

Não se entende que existam ganhos formidáveis no todo e que a possível perda individual é diluída no dínamo criativo da troca e colaboração desregulada. Muito surpreende também que os governos outrora liberais que pregavam a autorregulamentação preguem o controle do Estado na Internet. E espanta perceber que, para muitos, o mundo ainda é um intrincado quebra-cabeças de minúsculas comunidades isoladas.

Mas ainda que se possa lamentar o passado, que se admita um certo saudosismo dos privilégios de alguns sobre a maioria, é tristemente cômico acompanhar as “vacas” que os dinossauros do direito autoral tomam, nas suas tentativas de criar diques impossíveis.

Em tempo, discussões semelhantes às da Lei Hadopi acontecem no Brasil mas, sorte nossa, em bocas menos influentes.

O twitter é

28/04/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

Uma espécie de confessionário?
Um espelho opaco?
Um livro de horas?
Um calendário com pérolas de sabedoria?
Um manual de doutrinação?
Um saco de pancada?
Um avatar da fama?
Uma Casa do Saber gratuita e sem piruagem?
Uma Caras da ZL?
Um clipping em 140 caracteres?
Um “consolo” de mal-amados?
Um mega fone das vaidades?
Um diário sem vergonha?
Uma travesti no armário?
Uma rede social e todo o blábláblá que qualquer wiki-man resolve dar quando indagado sobre algo que (como?!) ele não conhece ainda.

Sei lá eu. É twitter.

Tudo que é muito novo excita e assusta.
E, no início, o mundo se divide em dois:

Os excitados devassos.
Os assustados vitalinos.

Só pensamos naquilo

24/04/2009 em Internet | Tags: , , , | Deixe um comentário »

Todos vocês já devem ter notado como estamos ficando mais rápidos, mais informados, mais inteligentes e preparados. São os bônus dos tempos pós-pós-modernos.

Não é um problema de estresse pelo excesso de conteúdo informativo. Acreditamos na quase infinita capacidade de expandir a nossa percepção.

Não precisamos de curadores. Desejamos amplificadores de informação.

Não queremos um guru. Queremos milhões de sacerdotes da palavra.

Não gostamos de economia nem de essência. Gostamos de fartura e de multiplicidade.

Somos desplanejados e imediatistas, graças a Deus.

Mas também estamos ficando com mais olheiras, piores motoristas e muito mal-educados.

“O que vou escrever no meu twitter, facebook, blog etc”. Dormimos cada dia mais tarde porque temos que ler tudo que queremos ler, escrever em todas as comunidades que precisamos alimentar. Haja creme anti-age, compressa de chá de camomila, botox ou óculos escuros.

O trânsito está um caos. Sorte das redes sociais, dos blogs, dos aplicativos de celular. E só tende a piorar, porque é um olho no carro da frente, outro no celular. Uma mão no volante e a outra no teclado. Um neurônio na rua e três bilhões nas infovias. O trânsito não é um problema, é uma solução.

E como é bom descobrir todos os dias os milagres da vida: “Como é que eu vivi tantos anos sem isso e isso e aquilo!” Não dá mais para almoçar com os amigos sem verificar o nível de decibéis da sala, se a mesa está no prumo, qual é a temperatura (presumida e falsa) em Moscou. É falta de educação, mas estão todos na mesma, às vezes postando no twitter o que iremos ver segundos depois entre uma garfada de frango e uma goiabada (tudo no mesmo prato, claro).

No fundo, são poucos os prejuízos, não é mesmo? Porque, para os possíveis danos cerebrais, basta dar um reboot, de vez em quando, e bem rápido. Crtl-Alt-Del em algum lugar bem primitivo, ridiculamente ultrapassado, tipo um spa, uma viagem de avião sem internet ou uma noite, dormida.

E pronto, estamos novos de novo pra só pensar naquilo.

Ressuscitem São Tomé

14/04/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

No último relatório da Organização Sul-Africana para o Desenvolvimento da Pesquisa Científica (SACR), pesquisadores da ou University of Cape Town anunciaram o isolamento de um vírus de computador de incontrolável efeito. Nada de muito novo, não fosse esse um vírus de verdade, como os que nós humanos pegamos a torto e a direito. Um vírus orgânico.  Para Jackson Jukjevick, autor da descoberta, “a agressividade desse vírus é tal, que ele atua não somente nos softwares e sistemas operacionais, mas nos circuitos internos dos computadores”.

Uma lei acaba de ser aprovada pelo Senado francês: pessoas que se apropriam de conteúdos regidos pelas leis universais dos direitos autorais copiando-os em seus ambientes digitais são passíveis de prisão inafiançável. Embora a lei não pareça surpreendente, um dispositivo especial também foi aprovado, segundo o qual não são necessárias provas formais da cópia, bastando apresentar uma impressão de tela do conteúdo copiado para caracterizar crime.

Um hacker inglês entrou mês passado nos servidores da Wikipédia em sua versão romena e, fazendo uso de um robô, alterou todas as definições ali encontradas, negando todas as afirmações. Todas. Por exemplo: onde se lia “a Mona Lisa foi pintada por Leonardo da Vinci”, lê-se agora “A Mona Lisa não foi pintada por Leonardo da Vinci”. O engraçadinho ainda teve requintes de substituir autorias como, por exemplo, no caso da lei geral da gravidade, o hacker atribui a formulação ao obscuro cientista romeno Vladislav Marinono.

É tudo verdade? Não. Essas afirmações foram integralmente criadas para o propósito desse artigo. Mas digamos que essas pequenas mentiras tenham sido publicadas blogosfera afora e que elas tenham tido alto poder de contaminação. Em tempos de informação fragmentada, em tempos de desvirtuação das autorias, em tempos de bagunça virtual, a veracidade é diretamente proporcional à capacidade de reprodução. Toda mentira tem seu momento de glória na Web.

Ainda vivemos em um momento de incipiente anarquia. Mas ela promete piorar muito. Ainda convivemos com o conforto proporcionado por velhas (decrépitas) instituições. Enciclopedistas ainda existem. Dicionaristas idem. E livros e publicações e outras mídias centenárias. Mas não por muito tempo. A menos que…

A mídia (velha) morre a cada dia um pouco, quando tenta competir com criação e produção de informação. Como competir com milhões, bilhões de autores ensandecidos? Como competir com a gratuidade dos conteúdos postados por qualquer mané? Como competir com bilhões de correspondentes que testemunharam o fato in loco? A menos que…

A menos que a velha mídia ressuscite e cumpra um novo papel. E seu papel talvez tenda a ser uma espécie de “autenticador de veracidade”. Em vez de criar, validar e dar provas.

E, em tempos de informação push, recebemos o que nos interessa a qualquer momento, em todas as plataformas. A velha mídia ganhará um renovado valor quando ela for capaz de vender a comprovação.

Vem aí, em breve, o reconhecimento de autenticidade on-line que filtra o joio do trigo, o gato da lebre, a verdade da mentira. Uma espécie de São Tomé virtual.

O emergir do consumidor

20/03/2009 em Internet, Propaganda | Tags: , , | Deixe um comentário »

É fato, no progresso econômico e, portanto, no conforto do sistema, a emergência de uma população ontem apartada. Muito se relaciona o ingresso de milhões de pessoas no mercado consumidor à rebarba da bonança econômica no qual o Brasil surfou e a certas políticas públicas – de assistencialismo para alguns, de justiça social para outros. O fato é que tais pessoas estão aí, e esse novo mercado interno pode significar um lampejo de esperança para um mundo atolado em recessão e desespero. Um novo mercado significa um novo Brasil para os milhões de sobreviventes de séculos de abandono.

Mário mora na periferia do Rio. Ele tem pouco mais de 20 anos e ganha trezentos e poucos reais com um emprego no supermercado. Mas uma coisa faz do garoto um cara diferente de seus pais, imigrantes nordestinos. Mário faz um bico vendendo DVDs piratas que ele mesmo confecciona. Dá pra tirar uns quinhentos por mês, dependendo da temporada de lançamentos. Mário também não dispensa o celular, o computador, o pen-drive pendurado no pescoço e está negociando um home theater para sua mãe (negociando, porque vai um pouco de dinheiro guardado, uma moto encostada e um pequeno empréstimo pessoal que ele conseguiu aprovar numa financeira). Mário faz sucesso e não deixa barato: capricha no visual, nas roupas da moda, perfume e produtos de beleza. Sabe tudo o que pega e o que rola.

Essa é a diferença: o desejo de consumo.

Então seria a tal da nova economia uma das novidades desse novo Brasil? Sempre houve informalidade no Brasil. Todo mundo sempre fez bico. A cauda longa é velha nossa conhecida. Só não tinha nome bonito nem frequentava dez entre cada dez congressos para bonitos executivos.

Mas vamos conversar com o Mário. O Mário tem internet faz tempo e também faz tempo que a Internet para Mário não é só uma grana a mais. Mário vai nos blogs, frequenta comunidades, se liga nas novidades. Sabe mais de tendências do que a maioria dos bacanas que aplaudem a cauda longa.

Informação universalizada, democraticamente distribuída não quer dizer apenas mais instrução e mais consciência. Não quer dizer apenas mais oportunidades econômicas. Também quer dizer mais desejo.

E o desejo é o reforço positivo indispensável para emergir da sobrevivência.

A Internet é um convento cheio de putas

12/03/2009 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

No início, ninguém dava muita bola para o que saia na Internet, para o que se falava nos seus inescrutáveis meandros. Era uma molecada que brincava de ser jornalista, publicitário, comediante, cineasta.

A confusão está apenas começando.

A Internet é um megafone

Toda confusão começa com uma boa intenção. A boa intenção de falar a verdade, de ser franco, de ser uma bandeira de oprimidos, incompreendidos. Mas toda causa tem um efeito. Falar o que se quer e bem se entende sempre dá confusão. E falar num megafone como a Internet, mais ainda. E o que era apenas um suspiro de frente para o espelho vira um manifesto público multiplicado ao infinito e sem controle. A vida é assim – e não só na Internet: quem te apoia avisa. Quem não te apoia se vinga sem avisar.

Pra abrir o bico, tem que ter peito

Portanto, não adianta muito bancar o jovem imaculado descobrindo o mundo cruel, o artista inspirado no seu mundo cercado de virtualidades. O mundo não é um aquário cheio de peixes Nemo. Todo mundo tem ideias e, pior, interesses próprios. A inveja é a nossa gasolina. A Internet não é diferente de nada. Ainda que ela possa parecer livre de leis – e em larga medida é – não é livre de gentes, de pessoas. E pessoas podem ser muito mais repressoras do que a mais repressora das leis.

Quinze reais de fama

A imensa possibilidade de liberdade de expressão que a Internet proporciona está na raiz utópica do sucesso dos blogs e que tais. E, por detrás dessa sede de oratória e autoria, tem a vontade de ser visto. E, por detrás da vontade de ser visto, tem a fama e uns trocos.

Mas a confusão começa quando pingam os primeiros dinheiros. Ganhar dinheiro não é tão fácil quanto parece. Não basta dizer coisas inteligentes ou fazer macacadas. Se tem dinheiro envolvido, tem regras e leis e – queiramos ou não – elas devem ser seguidas. Podem espernear, fazer campanhas, mas pintou dinheiro, pintou confusão. Esse povo tão “liberal”, tão “paz e amor” vai se chatear.

Dinheiro e espontaneidade não ornam

E a maior confusão se arma então, quando tudo fica de pernas para o ar.

Os produtores de conteúdo, os da grande mídia, acham que essa “garotada da Internet” pode dar uma renovada. Aí a molecada vai para a grande mídia com aquela farta experiência dos seus blogs e views no YouTube. Se os brothers curtem, a Dona Maria vai curtir.

As agências de propaganda, sedentas de novidades, transferem a presumida liberdade de expressão da Web para a TV. Ao invés de comprar mídia, dá-se uma ajuda de custo àqueles que irão disseminar a mensagem. Uma espécie de suborno à legitimidade.

E as marcas, elas também, começam a achar que o que liga não é fazer propaganda, mas uma espécie de brand content ou qualquer outro anglicismo bacaninha. Tipo Merchandising 2.0

Os heróis dos blogs, porém, começam a ganhar dinheiro das marcas através de suas agências de propaganda. E o dinheiro estraga tudo.

Estraga o conteúdo, que por sua vez estraga a criação publicitária, que estraga a marca. E qualquer estrago é caro, mesmo que tenha custado três tostões.

As redes sociais e a democracia

03/11/2008 em Internet | Tags: , , | Deixe um comentário »

Redes Sociais: duas entre cada dez palavras pronunciadas por qualquer bem pensante hoje em dia, em papos de “Abalar Bangu”. Mais um daqueles inúmeros fenômenos que surgem para acrescentar alguns charts às palestras dos gurus Best Sellers. Mais um tema para excitar os especuladores, os caçadores de talentos e os vendilhões de empresas.

Tudo nas novas plataformas de informação são reedições corrigidas e ampliadas. Os luditas e blasés adoram dizer isso. Portanto, para eles, redes sociais são espécies de “Rotary(s) Clubes” digitais.

Esse tipo de desmistificação é sempre um divertido argumento para brochar os excessivamente excitados mas é quase sempre um álibi intelectual para uma inépcia de entendimento das mudanças de comportamento que estão por detrás dessas “velhas novidades”.

Mas o que me interessa mais nos clubinhos virtuais é uma espécie de panacéia democrática que por ali grassa. Sem querer intelectualizar demais o papo, já é lugar comum dizer que a molecada tem um interesse muito passageiro, para não dizer inexistente, por política. A não ser em momentos de euforia ideológica, como a atualmente em curso no ringue das eleições norte-americanas, ela tem um desprezo absoluto por qualquer lógica majoritária.

É que de fato, essa coisa de submeter-se a qualquer decisão da “maioria”, é frustrante em tempos de liberdade de expressão absoluta e universal, de cauda longa, de morte do direito autoral e etc.

Em nossa democracia, é muito baixa a possibilidade de decidir e intervir. A única delas é o voto, pouco para um exército acostumado a clicar, a escolher tudo a toda hora.

É essa falência do “majoritário” que motiva e apaixona as redes sociais em todas as suas manifestações.

No limite, é como se estivéssemos encubando uma nova ordem mundial em que os humanos se agrupassem em torno de idéias compartilhadas, interesses ou polemicas comuns, gostos e simpatias antes de geografias, línguas e qualquer outro tipo de aglutinação física.

No limite, as redes sociais configuram os novos “Estados” que trocam o majoritário pela unanimidade. E não há “exclusividade” nem “limite” de “nacionalidades”. Pode-se pertencer ao quantos “países” quisermos, com múltiplas “identidades” até e “desertá-los” quando eles não mais interessarem ou outros mais atraentes surgirem.

Antes de tratar-se de uma utopia, a experiência da nova ordem e sua possibilidade virtual, vai corroendo todos os organismos e reinventando as relações sociais irremediavelmente.