Artigos na categoria ‘Internet’

Censurar ou não censurar conteúdos colaborativos

04/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

Na propaganda eleitoral gratuita, um ex-presidente enaltece a “transparência” suscitada pela “Internet e Facebook” como uma nova exigência pública que transforma os comportamentos políticos. Mas é tão ingênuo acreditar que a Internet é causa quanto crer no poder transformador de uma ferramenta.

A origem das invenções humanas se perde na noite dos tempos e sua gênese raramente está associada à necessidade. Os Mayas inventaram a roda, usada em brinquedos de crianças, mas nunca a utilizaram como ferramenta porque não viam nela nenhuma aplicação técnica. O princípio do pistão a vapor também remonta a muito antes da era industrial, mas quem é que poderia achar útil substituir milhares de escravos baratos e com capacidade de autorreprodução por máquinas? A Internet não causa nada, nem o Facebook.

É evidente que após um tempo toda ferramenta se autoalimenta de necessidades, transformando-se. Dessa forma nascem afirmações como a do ex-presidente, falsas na explicação, mas possíveis na prática. Na Internet, mentira tem perna curta (talvez não por causa, mas por consequência).

Mas essa afirmação também é ingênua.

Os governos totalitários, assustados com a capacidade de propagação de ideias subversivas, tiveram como comportamento inicial a censura ou o controle da Internet. Mas já há algum tempo que esses próprios governos – os menos imbecis – perceberam que a Internet pode ser utilizada a favor de suas ideologias e que isso é mais eficiente e barato do que proibir. Assim, fazem exatamente o mesmo que seus opositores, a saber, difundem-se publicitariamente.

A mesma regra, simples e lógica, deveria ser entendida amplamente também pelas marcas.

Com a Internet, a censura tem pernas muito mais curtas do que a mentira.

Os clubes das inutilidades coletivas

01/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 19 Comentários »

Não, eu não quero comprar a nova safra de nenhum vinho. Não, eu não quero desconto na academia. Não eu não quero branquear meus dentes, nem uma pizza de graça na compra de uma esfiha.

Não, não e não, eu não quero comprar nada que eu não queira. Já sou bem crescidinho pra saber que, se eu quiser um desconto de 50% em alguma coisa, é só juntar uma galera com a mesma intenção.

Alô, gênios, essa revolução aconteceu séculos atrás quando descobrimos que, quanto maior a demanda, maior a economia de escala e, portanto, menor o preço.

É justamente por isso que a gente faz propaganda para um monte de gente, partindo da premissa de que as pessoas têm desejos inconscientes de coisas que eles nunca imaginaram querer. É o que chamamos de geração de demanda. Gerando demanda, o preço cai, parabéns aos brilhantes garotos que inventaram os famosos clubes de compra online.

Parabéns também aos milhões de dementes que se conectam com esses clubes porque eles certamente irão fazer incríveis negócios, mesmo que jamais os realizem. Toda mulher de malandro sabe disso: se não encontra afago positivo, leva porrada. E gosta. Afinal de contas, quem resiste a uma liquidaçãozinha? Mesmo que não seja o seu tamanho nem sua cor preferida, com esse desconto também, pudera!

Toda essa genialidade reunida balançou o rabo na cauda longa e a cauda longa deu a pata. A mídia também, sedenta de um assuntozinho qualquer para preencher a editoria de Nova Economia, já vaticinou a surpreendente, estonteante tendência. E lá vai a velha economia, do alto de seu empoeirado poleiro, solicitar planos, estratégias, para abocanhar também este novo mercado.

Enquanto a economia da miséria humana consome emagrecimentos milagrosos e outras mezinhas, tem gente enchendo a pança, vendendo a privacidade alheia.

60% da receita publicitária do Facebook é a-agência

27/01/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 11 Comentários »

O Facebook faturou no ano passado 1.86 bilhões de dólares em propaganda. Para uma empresa que ainda usa fraldas, é um resultado e tanto. Se esse número não chega a embevecer as megacorporações da mídia, o que impressiona é que 60% desse resultado é a chamada propaganda self-service, portanto sem agência de propaganda alguma no meio.

Em Nova York, depois que os fast-foods viraram o capeta da supercalórica fome americana, a nova tendência de comida barata (sim, tendência não é só pra arroto de rico) é invenção nossa: o serve-serve-a-quilo. Pelo menos enquanto a comilança a quilo não vira alvo da nova ativista Obama. O serve-serve-a-quilo é a proeza do paga  quanto pode comer. Ideal, mas constrangedor, seria pesar o cliente antes e depois da refeição, numa espécie de success-fee. Mais ou menos como a propaganda-monte-seu-prato do Facebook.

Aqui no Brasil, a miséria é pretexto sem-vergonha. Para um certo tipo de turismo, por exemplo. Para um certo tipo de diversão. Para um certo tipo de arte. É nossa maneira de esconder e aliviar a vergonha. Dilúvio sem precedente: lá vem aquela enxurrada de ajuda voluntária. Nego mora na tosqueira: lá vem aquele desfile cheio de brilho e nobreza. Cidade horrenda e suja: grafitti é arte, gente! Mais ou menos como a propaganda-faz-de-conta das grandes marcas na Internet.

Pangloss, o profeta do “tudo está bem no melhor dos mundos possíveis” acabou pedindo esmolas, sem perna nem braço. Filosofar sem mau humor dá nisso.

Rede social: a festa do cabide

17/01/2011 em Internet | Tags: , | 4 Comentários »

Nenhuma festa suporta penetra de porre. Mas se o abelhudo for cativante e educado, pode até virar vedete e roubar a cena.

Metida e petulante, a propaganda é a arte de se meter onde não se é chamado. Uma definição interessante para a boa propaganda é quando ela consegue tornar essa intromissão menos atrapalhada e desagradável.

Em mágicas situações, a propaganda honra o espaço que nos surrupia, ilustrando, ifluenciando e inspirando nossa rotina. É quando a sogra comenta com o genro: “Você viu aquela propaganda?”. Deve ser o que gostam de chamar de conteúdo para dar cartas de nobreza à profissão.

Tem muita gente que ainda entende que a propaganda é legítima convidada. Afinal, ela paga caro. Mas como nenhum convidado da festa recebe um centavo por isso, sua situação piora muito. Quem paga para aparecer comprou o título de nobre falido. É novo-riquismo, arrivismo, esnobismo, puxa-saquismo. O farsante não falsificou o convite, mas comprou o promoter que, se não enganou o anfitrião, ludibriou os convivas.

Deve-se portanto, estudar antes de driblar a segurança. Como se vestem, do que falam, o que olham, o que comem, como se portam os festeiros. É preciso adaptar-se ao ambiente e, paulatinamente, mimetizar-se. Só quando a confiança está ganha a sedução pode desdobrar-se diabolicamente.

Imagine agora que a festa não é daqueles convescotes cheios de interesses mascarados, em que a pose é mais importante que o discurso. Que a festa não é de firma, nem de negócio. A balada é convivial, entre amigos. A gente quer falar, fofocar, trocar, aprender. A gente quer tocar, amolengar, aconchegar, xamegar, afagar e, quem sabe, kcuf kcuf no final. Ou, mais careta, o  encontro existe para suprir a necessidade de sobreviver na selva do drama humano, de se segurar uns aos outros, de se atribuir relevância existencial, mesmo que fugaz, de se espelhar, de se dar gozo, de se consolar no próximo.

Imiscuir-se nessa barafunda de desejos e pulsões potencializa o desafio do penetra. Afinal de contas, o malandro tem interesses escusos. E muitas vezes quer vender enciclopédia a analfabetos.

Podemos chamar essa festa de rede social e pouco importa se ela é virtual ou presencial.

Já se disse que o prodígio do capitalismo acnegênico, Mark Zuckerberg, inventou o Facebook porque não comia ninguém. Essa é a poética das redes sociais: quem participa tem fome.

E que diabo pode uma marca patrocinar nessa suruba de potencial ou de direito?

O erro clássico consiste em nutrir a quimera de achar que nas redes sociais as marcas podem, mais naturalmente, integrar-se, fazer parte, ser atrizes antes de agentes. E a tentação é grande porque festa mais barata parece catraca livre.

Não é bem assim porque as marcas são e sempre serão, qualquer que seja a plataforma de comunicação, de agora ou daqui a pouco, intrusas.

Os esforços mais bem-sucedidos são eminentemente promocionais e como reza a ortodoxia do marketing, esse P custa muito caro.

Se uma marca não consegue intrometer-se com delicadeza, educação, inteligência e criatividade na televisão, por exemplo – festa bem mais família e comportada – não é nas redes sociais que ela vai conseguir resolver sua prática canhestra de catequese, convencimento ou engajamento. Se ela não consegue,  nas mídias ditas tradicionais, conter a gritaria, a demonstração piegas, a apelação batida, nas redes sociais a truculência fica ainda mais ridícula. E cara, caríssima, carissíssima.

É quando a tendência, sempre excitante, mascara a ferida.

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem de 17/01/2011

Orkut X Facebook em Cajamarca

17/01/2011 em Internet | Tags: , , | 9 Comentários »

De um lado, o velho comandava sua pequena força de sessenta cavaleiros e cento e poucos homens a pé. Do outro, o imperador pimpão à frente de um exército de 60 mil homens.

Por que Pizarro venceu Atahualpa, em Cajamarca? Cansados soldados venceriam um exército 400 vezes maior, bem alimentado, defendendo sua própria terra e seu Deus Soberano? Estratégia e desespero poderiam dar cabo de um império que dominara seus inimigos de forma implacável?

As probabilidades, felizmente, não explicam tudo. Muito menos a Wikipedia.

Mas a história é bem conhecida.

Pizarro tinha maldade no coração: convidou o imperador para parlamentar e o fez prisioneiro. Recebeu resgate riquíssimo mas descumpriu o trato e matou Atahualpa.

Mas Pizarro é um acidente de percurso que, com boa vontade, só acelerou em poucos meses a vitória. A Espanha teria aniquilado o império Inca com ou sem Pizarro.

Os brancos tinham eficientes montarias – os cavalos – armaduras resistentes – de aço – armas poderosas – com pólvora.

Dizem que o Facebook (4% de penetração) cresce no Brasil a taxas de 400% ao ano. O Orkut (40% de penetração) pula de 30% em 30%.

O Facebook tem os milhões do Goldman Sachs, e o Orkut, a soberania preguiçosa do Google.

O Facebook tem a fanática evangelização Yankee. O Orkut come pão de queijo, sem pressa.

Ainda torcemos, mas já vimos esse filme em Cajamarca, quase 500 anos atrás.

Vender ou ler

13/01/2011 em Internet | Tags: , | 3 Comentários »

No Ipad não dá pra ler o último livro do Jonathan Safran Foer. O livro, todo recortado, página por página, mais parece uma lápide à mais formidável invenção humana: o livro.

As bibliotecas bocejam, os autores se aborrecem, as editoras soçobram. O imenso auto da fé e o pesadelo de Ray Bradbury em Farenheit 451 na porta da Apple: Ipads saindo de roldão.

O que será da promessa de universalização do conhecimento com os e-readers? O que será da democratização da cultura e da informação com a alforria das florestas de papel?

Vai ser mais barato, mais prático, mais rápido, comprar, ler, instruir-se, divertir-se, enriquecer-se?

No dia que um teleférico subir o Everest, o Everest não será mais o Everest. No dia do teletransporter, viajar não será mais uma viagem. No dia do sexo sem limite, obstáculo ou possibilidade do fracasso, o sexo divorcia-se-á do desejo.

Nem tudo que simplifica e espalha, enobrece.

Vender mais livro digital, por enquanto, só significa que se vende mais livro digital. E vender só significa vender. Vender, vender e vender não é nada além de vender.

70% de desconto? Fala sério

12/01/2011 em Internet | Tags: , | 10 Comentários »

Se você tem a sorte (ou o azar) de estar na Europa ou nos Estados Unidos na época das liquidações, é muito comum deparar-se com histéricos compradores se arrancando produtos de marca com 50 ou 70% de desconto. A famosa liquidação anual da Harrods faz parte do calendário turístico de Londres, muda o trânsito na região e tem até mapinha, distribuído nas semanas que a antecedem, anunciando onde estarão espalhadas as ofertas. Uma verdadeira estratégia de guerra é preparada com cuidado, com treinamento especializado para acolher com sorriso os desesperos consumistas. É comum também ver hordas de brasileiros deambulando pelos corredores dos outlets americanos, delirando.

O pânico consumista tem efeitos psicológicos e conseqüências econômicas evidentes, embora navegue a léguas de distância da elegante tendência do consumo consciente. Às favas a responsabilidade!

O consumismo é o mais eficiente anti-depressivo psicológico e econômico.

No ambiente virtual, também temos nossas Mecas e são os famosos clubes de compras, esses flash-mobs comerciais que acotovelam-se nas redes sociais.

Posto de lado o balsamo espiritual que o consumo inútil provoca, é evidente que os clubes de compra coletiva têm por terreiro fértil os empreendimentos da cauda longa. Se o Marc Jacobs de Nova York pode oferecer 70% de desconto na sua loja porque não as clínicas de branqueamento dentário tupiniquins?

Ademais a metafísica da precificação da economia de mercado (preço não tem nada a ver com valor, como dizia o velho barbudo), uma marca dita “séria” pode ver vantagens em escancarar descontos faraônicos nesses clubes.

Uma pessoa sensata – se é que existe – ficaria com o gostinho amargo de ter sido ludibriada nos 364 dias em que a promoção não está vigente. Nenhuma economia de escala explica 50% ou 70% de desconto.

Mas uma marca pode e deve utilizar-se dos clubes de compra coletiva na linha “sampling” de seu budget de comunicação. E para isso eles podem ser incrivelmente úteis.

Mas fala sério! Não estamos no terreno da razão mas da compra por impulso.

A marca segura a vela do nheque nheque

04/01/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

O que veio primeiro, o ovo ou a galinha, o bolo ou o recheio, as redes sociais ou o interesse das marcas por novas formas de comunicar-se com seus consumidores?

Na grande maioria das vezes, a tendência é mais excitante que o objetivo. Mas ela só é tendência quando tem algum objetivo por detrás. Senão, não passa de um surto aleatório, por certo divertido, mas gratuito.

Pois redes sociais foram criadas para conectar pessoas, ou grupos de pessoas. Essas conexões existem para atender nossa inata necessidade, tão atravancada nos dias de hoje, de viver em sociedade. Nossa necessidade de sobreviver na selva do drama humano, de se segurar uns aos outros, de se atribuir relevância existencial mesmo que fugaz, de se espelhar, de se dar gozo, de se consolar no próximo.

A gente quer falar, fofocar, trocar, aprender. A gente quer tocar ainda que virtualmente, amolengar, aconchegar, xamegar, afagar, e nheque nheque no final.

Inserir-se publicitariamente nessa barafunda de desejos e pulsões, é um tremendo desafio.

É por isso que as iniciativas dão tanto trabalho, são tão efêmeras e oportunistas.

E daí? Daí que não tem nada de realmente novo. A propaganda é intrometida por definição.

O erro clássico consiste em nutrir a quimera de achar que nas redes sociais, as marcas podem, mais naturalmente, integrar-se, fazer parte, ser ator antes de agente. Não podem porque são e sempre serão, qualquer que seja a plataforma de comunicação de agora ou daqui a pouco, intrusas.

Nosso trabalho consiste tão somente em tornar o penetra que produzimos, mais agradável, interessante e divertido. Mas penetra é e penetra será, sempre.

Menos slush em 2011

03/01/2011 em Internet | 3 Comentários »

Pote de amendoim. Você só sossega quando passa o dedinho no fundo pra chupar o salzinho que sobrou. Twitter: você só sossega quando o último dos seus seguidores foi dormir. É assim que se engorda em calorias e em asneiras públicas.

Terapia incontinente. Não se dá um pum sem comentar com o psicanalista. Facebook: você se condiciona a soluçar o dia inteiro nos murais dos seus amigos. É assim e assado que você vive em função do seu reflexo que nem sempre está no melhor ângulo.

Órgão de churrascaria. Toca piano, orgão e safona, batuca em rumba, samba e minueto. Smartfone: manda sms, responde email, checa a bolsa, escolha o restaurante e tira dúvida na wikipedia. Tudo ao mesmo tempo, portanto sem tempo, portanto sem concentração, foco e continuidade.

Muito ketchup no fast food. É carne de minhoca, queijo de plástico e fritura de papel: com muito petróleo vermelho ardente, arremata o gosto. Ética digital: me add qq um, td amigo, td igual. Relacionamentos que se constroem na velocidade de uma espirrada de ketchup e se acabam na primeira lambida.

Resolução de ano novo: mais meditação igual menos expiação.

A Internet é lenta

14/12/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

No recente relatório da Advertising Age sobre macrotendências do consumo de mídia, uma delas chama a atenção: “Apesar da Internet, estamos assistindo mais e não menos TV”.

Em média, um ser humano assiste 3 horas e 12 minutos de TV por dia (crescimento de 3 minutos nos Estados Unidos só em 2009).

São várias as inferências possíveis a partir da afirmação, mas a mais óbvia é o movimento que as próprias emissoras e produtoras fazem, em todos os países, para melhorar a sua programação, oferecendo as mais variadas grades, para maiores públicos e com um esforço qualitativo notável.

A televisão permanece com uma combinação de trunfos imbatíveis.

O primeiro deles é a qualidade das transmissões. Embora esse diferencial tenda a perder importância em função do progresso tecnológico, quando se fala de qualidade não é apenas “qualidade de imagem” mas qualidade de curadoria, de escolha de programação. Espera-se que uma televisão faça um filtro editorial no seu conteúdo. Na Internet ainda prevalece a regra do “deixa que acho” e o lixo que parasita em volta, caudatário das equações de busca, pode causar muita frustração e afastamento.

O segundo trunfo – que quando combinado com o da qualidade – ainda é, de longe, o mais poderoso, capaz de atrair cada vez mais audiências: o “ao vivo”. A Internet é tosca, confusa e muito lenta – porque exageradamente variada – para a transmissão ao vivo de qualidade. Não é à toa que os programas ao vivo são recordistas de audiência: programas esportivos (Copa do Mundo ou Super Bowl) ou jornalismo (guerra na favela, eleição ou queda de avião). A própria dramaturgia também caminha para ser cada vez mais “ao vivo”, como é o caso do American Idol ou o Big Brother no Brasil.

Vivemos na era da instantaneidade, característica que tanto beneficia a Internet na sua capacidade de atrair populações incontinentes, mas o fenômeno também contagia a televisão que surpreende as profecias mais negativas, fazendo valer-se de sua ainda extraordinária capacidade de oferecer conteúdos de qualidade ao vivo.

Salvo nichos de consumo, a televisão como meio de massa tem de ser a televisão da sua própria pré-história: sem edição, em moto contínuo de transmissão, no pulso da rua e da vida das pessoas.

A receita publicitária da Internet é uma peneira para as agências

10/12/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 6 Comentários »

Dizem que 10% de todo o dinheiro investido em propaganda é na Internet (e subindo). Dizem também que desse dinheiro não pinga grande coisa nas agências. Também pudera.

Se acreditarmos que a utilidade final do trabalho de uma agência é decorrente de sua capacidade que um conteúdo publicitário tem de impactar, convencer ou engajar consumidores, faz algum sentido acreditar que esse valor é fator tanto do conteúdo quanto do veículo no qual ele será inserido. No entanto, duas lógicas justificam o cálculo de remuneração de uma agência como mais dependente da mídia do que da criação do conteúdo.

A primeira é óbvia. Como em qualquer trabalho intelectual, é impossível estabelecer uma correlação matemática entre qualidade de um conteúdo e quantidade de horas/pessoas que trabalharam nele. Logo, é impossível precificar, com alguma racionalidade, a remuneração de uma agência.

Por outro lado, um conteúdo mal veiculado, por melhor que seja, não tem valor. Um conteúdo bem veiculado, por pior que seja, tem valor. E o melhor conteúdo bem veiculado tem muito valor.

Existem formas, já clássicas, de gerar receitas atrelando-se a remuneração ao sucesso. No entanto, além desse controle ser difuso, ele não é exclusivamente dependente do produto final da agência. Remuneração por resultado pode ser muito bom ou péssimo para a agência, independentemente da qualidade do conteúdo publicitário que ela criou.

Como agências precisam ganhar dinheiro para existir, parece fazer algum sentido que esse dinheiro seja oriundo de um cálculo feito sobre “a mídia” veiculada. Além da correlação de dependência ser mais clara e lógica, é mais transparente e mais fácil de calcular e justificar.

Só que na Internet tem cliente que compra direto dos veículos e tem veículo que vende direto para o cliente. Só que na Internet tem empresas que compram mídia sem cliente e depois vendem picado para aqueles que aparecerem. Só que na Internet tem agência que acha que a Internet é um bicho diferente e de tão diferente não sabe como cobrar. Só que na Internet tem cliente que acha que a Internet é um paraíso esquisito em que tudo pode e tudo pode de graça.

A crise nos jornais não é culpa da Internet, é culpa de quem achou que na Internet tudo era diferente. Conteúdo de graça igual a receita pelo ralo.

E vem crise por aí, também nas agências, porque toleram veículo bom de drible, agência boa de moita e cliente bom de papo.

Conteúdo na Internet é Conteúdo?

07/12/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

Cinquenta e sete por cento dos brasileiros que acessam a Internet declaram que costumam “colocar” conteúdos online. Esse percentual sobe para quase 75% entre os jovens de 12 a 25 anos. Cinquenta e dois por cento desse conteúdo são fotos, surpreendentes 20% de texto (não estão inclusos aqui comentários) e estonteantes 19% de vídeos. O meio preferido – de longe – para postar esse conteúdo é evidentemente o Orkut.

Não existem estatísticas para se avaliar a qualidade dos conteúdos produzidos. Mas, ao invés de cair em análises mal-intencionadas, analisando de forma estatística quem são essas pessoas, em que classe estão e que nível de instrução possuem, para então avaliar a qualidade dos conteúdos produzidos – método clássico de reprodução de clichês retrógrados – mais revelador é passar algumas horas a esmo em plataformas de compartilhamento de fotos e vídeos, por exemplo.

Se formos capazes de usar da inocência e da boa-fé que nos restam, é muito provável que, ao cabo dessa experiência, duas constatações simples nos perturbem a mente.

Por um lado, iremos perceber que o tipo de conteúdo que a imensa maioria das pessoas “posta” difere muito daquele que produzimos profissionalmente. Ele é antes uma expressão do que uma elaboração, antes um pulso que uma premeditação, antes um reflexo do que uma intenção, antes uma forma do que propriamente um conteúdo. “Colocar” conteúdo online tem serventia. É uma ponte. É meio, e não finalidade. Já o nosso conteúdo (ou aquele dos nossos clientes), aquele que criamos para essas mesmas plataformas universais, é um avesso, seja por vício, seja por incompreensão. Um avesso que muitas vezes arrevesa.

Por outro lado, se não torcermos imediatamente o nariz, esse monte de fotos, textos e vídeos não respondem propriamente aos ditames da boa produção, são conteúdos que subvertem qualquer regra de fotografia básica, o vernáculo, a lógica narrativa e, por que não, por vezes, uma certa correção moral, ética e legal. No entanto, numerosas vezes esses conteúdos “duvidosos” alcançam audiências fabulosas. Assim, seremos compelidos a redefinir a nossa noção de qualidade. Qualidade, nesse ambiente online, é antes fator de espontaneidade, improviso, sinceridade e, principalmente, acima de tudo, liberdade. Já o nosso conteúdo ou aquele que somos convidados (compelidos?) a criar é cheio de regras, contingências e ambições que travam, de tanto perfeccionismo formal.

Conteúdo, se conteúdo devemos criar e suscitar, não é o conteúdo que concebemos. Qualidade, se qualidade buscamos e filtramos, não é a qualidade que sublimamos.

Na Internet vencerá sempre a Expressão Livre antes do Conteúdo de Qualidade.

As pesquisas reiteram preconceitos

06/12/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

Por mais moderna que seja a pesquisa de marketing e comunicação, todas partem de  filtros classificatórios por região, sexo, idade e classe social. Para fins analíticos, ainda que as conclusões não tenham por objetivo segregar, é inevitável.

Faz cada vez menos sentido avaliar diferenças de comportamentos em função de critérios que não levam em consideração as profundas mudanças que a sociedade da informação trouxe.

O sentido de identidade regional é uma abstração que se baseia menos nas  diferenças e mais por simples necessidade organizadora. O pertencimento cultural é fator de gosto e preferência antes de estar enraizado na  tradição geográfica. A preferência por um conteúdo ou uma marca no Acre pode ter exatamente as mesmas motivações que as do Rio Grande do Sul porque os dois estados estão separados por um clique rápido, simples e gratuito.

O exemplo vale também para a segregação sexista, etária e de nível socioeconômico, por razões diferentes. Homens e mulheres, velhos e jovens, ricos e pobres são mais iguais do que diferentes em seus gostos, visões de mundo, ambições e sonhos. E cada vez mais iguais com o tremendo e incontrolável curto-circuito de informações que a Internet proporciona, indiscriminadamente. Mas insistimos com a lógica classificatória por falta de imaginação ou preguiça metodológica.

É evidente que não interessa muito analisar o comportamento de homens quando se vende absorvente feminino, ou de crianças quando se vendem carros, no entanto, as pesquisas clássicas são preconceituosas na largada quando classificam os analisados por critérios sociodemográficos.

E o preconceito é muito latente quando o corte é por nível de renda, instrução ou classe social.

É esse tipo de pesquisa, por exemplo, que reitera que a classe C tem dificuldades cognitivas e que, por isso, a comunicação para esses “pobres coitados” tem de ser racional, simplória e repetitiva. Que a classe C, feia e gorda, gosta de celebridades cacarejantes e clichês aspiracionais. Que a classe C, ignorante e desconectada, entende melhor a gritaria, o splash, o demo de produto, a fórmula problema-solução e não entende patavina de narrativas, de histórias, de linguagem clipada.

Vá la que até pouco tempo atrás era difícil pensar em outro tipo de recrutamento de pesquisa que não usasse de filtros sociodemográficos.

No entanto, já existe um terreno muito fértil, as redes sociais, para um tipo de pesquisa muito mais inspiradora.

Uma rede social agrupa indivíduos que se encontram e interagem por afinidades antes de sê-lo por região, sexo, idade e classe. É nas redes, e em seus agrupamentos, que podemos encontrar tipologias humanas cujas similaridades de comportamento e gosto são muito mais determinantes no processo de decisão de compra de uma marca ou de um conteúdo do que sua tradição regional, seu sexo, sua maturidade, instrução ou capacidade de consumo.

Em tempos de redes abertas, o preconceito, ainda que inconsciente, é uma simplificação intelectual ineficiente.

Já somos 81,3 milhões em ação

29/11/2010 em Internet | 10 Comentários »

Há 3 anos, a F/Nazca faz um estudo aprofundado (F/Radar) sobre fenômenos sociais impulsionados pela popularização da Internet no país. Alguns paradigmas foram quebrados ao longo do estudo, e os dados falam por si só.

A pesquisa é quantitativa e abrangente: compreende todos os brasileiros acima de 12 anos, em 143 municípios de todo o Brasil, e tem margem de erro estatístico de dois pontos percentuais. O campo é realizado pelo Datafolha. Seguem alguns pontos mais polêmicos da última leitura (segundo semestre de 2010):

- Universalidade e democratização relativa

O país tem hoje 54% de pessoas acima de 12 anos que costumam acessar a Internet. A penetração é de 84% na classe AB, 51% na C e 23% nas classes DE. Noventa e um por cento dos jovens de 12 a 15 anos costumam acessar a Internet, sendo que esse número cai sucessivamente nas outras faixas etárias.

No entanto, se podemos nos surpreender com a extrema rapidez do “hábito de acesso” (diferente de “ter acesso”), a penetração em casa segue em patamares baixos: apenas 27% dos brasileiros possuem conexão com banda larga em casa e 6% com conexão discada.

O acesso em casa determina uma série de comportamentos diferenciados quando comparados com o acesso fora de casa e consubstancia uma fronteira social: 73% da classe AB possui acesso em casa, enquanto que na classe C são apenas 24%. Vale salientar ainda que a posse de Internet tem um crescimento pífio nas classes CDE.

O acesso em casa é, por exemplo, o principal gargalo para a popularização do comércio online. Apenas 25% dos brasileiros costumam fazer compras online e há uma relação direta entre classe social e compras online.

- A Internet é um dos principais fatores de emancipação cultural

Apesar dos rumores alarmistas que correm na mídia e que dão conta do excesso de informação, distração, superficialidade cultural e patologia social, a Internet é vista pelos brasileiros como uma chave para a vida moderna.

Noventa e três por cento dos brasileiros se consideram mais informados, 89% mais práticos, 88% mais comunicativos, 88% mais conectados, 88% mais instruídos e 60% mais independentes, desde que começaram a usar a Internet. A Internet só é vista como negativa por uma pequena minoria dos brasileiros.

- Colaboração na Internet é relacionamento e identidade.

Quando perguntado sobre colaboração voluntária e “autoral” na Internet, 57% dos brasileiros afirmam que “costumam colocar algum conteúdo feito por si próprio na Internet”. Esse percentual vem crescendo à base de 5% por semestre.

Os principais conteúdos são fotos (52%), textos (20%) e vídeos (19%), e a principal motivação é relacionar-se com alguém (30%) e ilustrar ou contar algo sobre a vida pessoal (20%).

- Colaboração na Internet chama-se Orkut

Cinquenta e cinco por cento das pessoas que costumam acessar a Internet de forma ativa dizem fazê-lo por meio de seu perfil ou por meio de comunidades no Orkut (40% e 15% respectivamente).

As demais (e ruidosas) redes são incipientes. Apesar de terem taxas de crescimento significativas, o Twitter e o Facebook só respondem por 7% e 4%, respectivamente, das menções a “colaboração online”.

- Mídia de informação se chama Google

A única mídia de informação que mantém relevância estável em todas as faixas etárias são as ferramentas de busca (leia-se Google), mantendo-se em torno de 50% para todas as faixas etárias.

O comportamento de consumo de notícias do brasileiro possui, no entanto, uma enorme diferença em função da faixa etária.

Embora a televisão continue sendo a mídia de consumo de informação preferida (45%), seguida pela Internet (40%), pelo rádio (7%), pelo jornal impresso (4%) e pela revista (2%), os jovens de 12 a 24 anos se informam prioritariamente nas suas redes sociais (80% entre 12 e 15 anos, 60% entre 16 e 24 anos) e nas ferramentas de busca (55% de 12 a 15 anos e 52% entre 16 e 24 anos).

Os portais, sites de mídia impressa e blogs só possuem relevância para os mais velhos.

- Jogar: uma mania nacional, mas uma mania gratuita ou pirateada

Quarenta e dois por cento da população brasileira costuma jogar através de algum dispositivo (29% pelo celular, 27% pelo computador, 23% por videogame tradicional e 6% por videogame portátil).

Esse número tem evidentemente penetração muito maior entre os mais jovens (90% de 12 a 14 anos e 70% de 16 a 24 anos), e os jogos mais populares são disparadamente os de futebol (27%).

No entanto, quando perguntado onde obtêm seus jogos, 81% dos brasileiros que jogam o fazem gratuitamente: 36% através daqueles obtidos das operadoras de celular gratuitamente, 29% emprestados de amigos, 22% baixados sem pagar em sites de compartilhamento de arquivos e 19% entrando sem pagar em sites de jogos em rede. Apenas 19% afirmam comprar seus jogos, sendo que um terço destes compra jogos em camelôs e banquinhas de rua (leia-se piratas).

Mais informações sobre o F/Radar em www.fnazca.com.br
Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem do dia 29/11/2010

A rede é um masturbadromo

25/11/2010 em Internet | Tags: | 10 Comentários »

Desde que a Internet surgiu, somos confrontados, com uma frequência nunca antes vista, a muitos paradoxos que revelam contradições entre propósito e prática. É de ficar tonto.

E as redes sociais são o laboratório mais eloquente da alma humana e suas patologias sociais.

- Propósito: as redes sociais aproximam as pessoas, intensificam a comunicação interpessoal e os relacionamentos.

- Prática: as pessoas usam as redes para promover-se, destacar-se ou, simplesmente, existir. É o atávico complexo de identidade e individuação que motiva as pessoas, que prevalece sobre a necessidade de interação.

A rede social é vitrine antes de sala de estar. Os relacionamentos atravessam o show-room rara ou superficialmente.

A interação que realmente interessa é apreciativa, “gostei/não gostei”. E quanto mais formos gostados, mais seremos apreciados, replicados, referenciados. A rede me aproxima de mim mesmo.

Em alguns casos, as redes sociais são um estilingue de reputação; em outros, um bumerangue. Projetam e ridicularizam. Douram ou denigrem as identidades.

Integração, convivialidade, aproximação não passam de álibis intelectuais para mascarar o hedonismo. Troca de informação, intercâmbio de ideias, e os debates são desculpas para justificar o exibicionismo.

Mark Zuckerberg inventou o Facebook porque não comia ninguém

18/11/2010 em Internet | Tags: , | 22 Comentários »

O fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, é um exemplo de como não é preciso ser um gênio para ter boas ideias. Ou vai ver ele só posa de loiro burro para as plateias que o aplaudem. Outra possibilidade é que só inventou o Facebook porque tinha tanta espinha que não pegava ninguém.

O desespero é a melhor inspiração, a melhor incubação de ideias bilionárias.

Por exemplo:

-  Sabe aquele desejo desesperado de um cigarro às 3 da manhã? Parece que o mundo inteiro está em coma e você ali, subindo pelas paredes. Vale para um chocolate, uma camisinha, um anel de noivado, ou outros vícios lícitos e ilícitos. O Midnight Desperate é uma rede social na qual você publica quanto você é capaz de pagar para receber em casa o consolo desejado. Você faz o lance reverso e espera que uma alma caridosa (ou gananciosa) venha lhe socorrer (ou espoliar). É simples, eficiente e permite uma série de aplicações que qualquer roteirista de Polishop é capaz de inventar.

- Você está numa reunião, num workshop sonolento e percebe uma agitação incomum a poucas cadeiras da sua. Pessoas sorriem e parecem se divertir sem mesmo se falar. E você ali, viajando no Power Point. O Steal Smiles é um aplicativo que permite instantaneamente escanear todos os SMS enviados em um raio de poucos metros através do bluetooth do seu celular. Serve também como delação e escuta sigilosa.

- Você recebe dezenas de respostas por e-mail por dia que te fazem perder um tempo louco explicando novamente o que você já havia dito. Na grande maioria dos casos, não se trata de burrice do remetente, mas de leituras precoces. O Re-read é um aplicativo instalado nos servidores de e-mails que só permite apertar a tecla reply quando o receptor da mensagem tiver lido duas vezes o e-mail recebido. Para os mais tapados ou distraídos, podem ser escolhidas mais de 2 leituras obrigatórias.

- Você está numa festa e alguém vem comentar com você a última fofoca que grassa sobre uma celebridade ali presente. Você não faz a menor ideia do que ele está falando nem de quem. O Celebrity Scan é um aplicativo de iPhone que fotografa pessoas e, como os identificadores de música tipo Shazam, através da consulta a uma base de dados People, lhe dá as informações básicas: nome, idade, quem já comeu e quem está comendo. O Celebrity Scan também pode ser usado para aquele “grande amigo” de quem você esqueceu o nome que lhe cumprimenta com entusiasmo.

- Você recebe toda hora currículos fantásticos cheios de títulos, cases e indicações. Mas não consegue se decidir a dedicar tempo para um tête-à-tête com os candidatos para preencher a vaga. O Social Network Clipping é uma base de dados que seleciona os melhores momentos das postagens das pessoas nas redes sociais. Os posts são divididos em categorias, como “constrangimento extremo”, “tagarelice compulsória”, “tudo pela fama”. É muito útil também para criar categorias humorísticas nos seus grupos de amigos nas redes.

- Você está ali olhando as fotos de vítimas potenciais. Ou, simplesmente, quer ver a cara de quem está te seguindo ou adicionando. O Dephotoshop, como o nome indica, é um aplicativo que permite eliminar efeitos embelezadores. É muito útil também para desmascarar seu amigo que jura de pés juntos que nunca tingiu o cabelo, nunca fez plástica, nem lipo.

- Você está de bobeira e resolve ler os feeds em alguma rede social. Começa a ler um monte de baboseira velha que aumenta sua repulsa à mediocridade da humanidade. O Já Vi Mané é um botãozinho que você clica para qualificar os posts. Mais divertido que curti e não curti, também pode ser usado na opção Anonimyzer. Na mesma pegada, tem o botão Arrependi, quando você posta e percebe instantaneamente a imbecilidade que você acaba de enviar para seus trocentos seguidores. Ainda tem o aplicativo Descompra para sites de e-commerce, quando você se lembra de que já entrou no cheque especial ou que a pessoa que você mais odeia tem aquele mesmo tênis que você acaba de comprar. Tem também o Xaveco Rating, que é um classificador de xavecados nas categorias Bom, Regular, Péssimo, Só quer papo e A perigo.

E por aí vai.

Exercite o desespero. É o melhor conselheiro para sua gana pecuniária.

De lá para cá, são vinte anos de Internet já

16/11/2010 em Internet | 4 Comentários »

Lá, para ler, aprender, criar dava um trabalhão. Tinha que se investir. Tempo, concentração, disciplina, curiosidade, coragem, dinheiro também.

Cá, está tudo (ou muito) à mão. Ler, aprender, criar dá tanto trabalho quanto conectar-se.

Lá, todo o conteúdo era “pull”.

Cá, é “push” e, quando muito, “um search” precoce.

Lá, tinha que povoar a memória e interconectar tudo com tudo. A dificuldade era fator de êxito e realização.

Cá, a memória e as conexões são dadas. A facilidade é tanta que dá até preguiça.

Gian Gastone Di Medici foi o último herdeiro dos grandes estadistas, homens de fé e mecenas Duques da Toscana. No final da sua existência, ele não saia mais da cama onde comia muito e a todos. A vida era um push de facilidades. Sem pull, depravou-se. A facilidade abilola.

Claro que voltar para lá não é uma solução, muito menos uma opção.

Mas o grande desafio do século não é mais prover conforto e facilidade, é reinventar o ensino, reinventar o método. E, por método, subentenda-se aqui reintroduzir dificuldades excitantes no aprendizado e na formação das pessoas, transformar o ensino em  programas de “reality” onde a maior das provas é desplugar.

Tem tanto fornecedor online que deve dar dinheiro esse negócio

08/11/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , | 4 Comentários »

Às vezes, a sensação que temos não é de que o cliente jogou um DDDrin na gente e saímos correndo para todos os lados como baratas tontas, atolados em prazos e sem saber exatamente por que estamos saindo do ralo?

Às vezes não dá a sensação de que a Internet é tão vasta, tão movediça, tão intempestiva, que estamos sempre enxugando gelo e que nossos eventuais sucessos são obras do acaso?

Para fazer frente a esses percalços, a gente doura a pílula. De um lado fazendo retroestratégias fiando todas as iniciativas em um colar troncho. De outro, construindo cases lindos, animados e entusiastas que já são criações das criações.

Difícil saber se é consequência ou causa, mas o fenômeno também se caracteriza pela multiplicação profícua de fornecedores de serviços digitais, de agências online, estrategistas, arquitetos, designers e outras denominações ainda mais criativas. Não é incomum constatar que muitos anunciantes, embora concentrem a sua estratégia de comunicação em poucas agências, na hora do assim chamado “online”, têm especialistas pra tudo.

Existem vários adendos explicativos ou hipóteses para esse fato, por exemplo, o velho argumento protecionista de que o mundo “online” é diferente e cheio de microespecificidades. Ou ainda, de que quem está autorizando essa miríade de fornecedores gosta de experimentar na maquiavélica (no sentido próprio da palavra, e não pejorativo) tática de dividir para reinar.

Mas é bem provável que, assim como é melhor fazer barba, cabelo, bigode, unha e depilação em um mesmo lugar, é mais inteligente, econômico e, principalmente, estratégico concentrar suas iniciativas de comunicação sob um único chapéu.

De quem a culpa, da agência que não vê estímulos financeiros para investir? Do anunciante, que não vê complementariedade entre as plataformas online e offline? Provavelmente ambos.

O fato é que o resultado que vemos por aí, quase sempre, só faz diferença nos videocases do umbigo pra dentro, só é relevante nos power-points pra gringo ver.

Quem tem medo do espelho?

04/11/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Quantas vezes não gaguejamos de dúvidas, muitas vezes inconfessáveis, sobre a qualidade do que produzimos?

Desenhistas seguram seus desenhos na frente do espelho para apreciar o resultado. Músicos fazem gravações para avaliar sua interpretação. Desencarnar-se da criação é um ato violento, mas emancipa o julgamento.

Outro jeito é submeter-se à apreciação dos demais para formar a imagem. Todo sufrágio avaliza a qualidade. Só os elogios ou perjúrios dos semelhantes é capaz de julgar.

Quem é mais sincero? O espelho ou o outro?

Você faz careta para seu reflexo ou pose para as fotos?

Depende da patologia social, e a atual aposentou o espelho cruel.

Likes no Facebook, seguidores no Twitter e número de conexões nas redes sociais são as novas patentes do século.

Se a sociedade de consumo entronizou a massa, a sociedade da informação beatificou a fama quantitativa.

Quando qualidade vira número, a autoimagem perde importância; a individualidade, o sentido, e toda criação vira mash-up, remix vulgar, mínimo denominador comum.

“Agradeço aos eleitores na rua e no Twitter”

03/11/2010 em Internet | Tags: , , , | 7 Comentários »

Em democracias mais maduras, os órgãos de imprensa costumam declarar suas opções políticas e eleitorais. Na França, um dos maiores jornais do país, o Libération, se anuncia “anti-Sarkozy” convicto.

No Brasil, boa parte da mídia abriga-se sob o manto de uma confortável e aparente neutralidade. Portanto, se Obama pode eventualmente agradecer o inequívoco apoio do New York Times à sua campanha, o mesmo não poderia José Serra fazer à Veja.

O sonho hegemônico dos principais veículos de imprensa no país justifica essa neutralidade de opereta que transborda um falso apartidarismo.

Justifica em parte também a propaganda eleitoral gratuita, porque, por trás da máscara (furada) da neutralidade, os órgãos de imprensa fazem perniciosas campanhas. A neutralidade presumida é um poderoso argumento de convencimento. Era.

O candidato derrotado à eleição para presidente, em seu discurso logo após o resultado da apuração, agradeceu  aos seus eleitores “nas ruas e no Twitter”.

Singela delicadeza, já que seguidores são eleitores potenciais e ele também poderia ter agradecido aos leitores da Veja – que devem ser os mesmos, inclusive.

Mas mídias sociais são diferentes porque o conteúdo editorial é necessariamente “partidário”, portanto, honesto. Sem essa de fingir neutralidade.

Embora não se possa calcular ainda a importância da Internet nessas últimas eleições, já se pode perceber que a maior parte da imprensa brasileira “tradicional” teve muito pouca.

A imprensa tradicional brasileira está perdendo capacidade de mobilização também por falta de transparência?