Artigos na categoria ‘Internet’

Que medo de não ser à toa na vida

30/04/2010 em Internet, Sei lá | Tags: | 4 Comentários »

Primatas evoluídos conseguem criar instrumentos para obter o que precisam. Alavancas para puxar, varas para bater, pedras pontiagudas para quebrar.

Os humanos são assim também. Criam a todo instante próteses funcionais para lutar por sua sobrevivência e preservação. Alavancas, varas, pedras pontiagudas, carros, aviões e computadores.

Mas os macacos não inventaram a televisão, os telescópios, os foguetes e o iPhone. Nem nunca serão capazes disso porque só os humanos são capazes de criar e conservar. Nós criamos e aprendemos. Nós criamos e aperfeiçoamos.

Nossos primos só criam, usam, jogam fora e esquecem.

Somos o que somos porque as coisas que criamos são eternas. Nós não. Somos humanos graças às nossas criações eternamente melhoradas por uma infinita cadeia de semelhantes. Cadeia que vem de trás, quando ainda não éramos, e anda para a frente, quando não mais seremos.

Entre nós, existem dois tipos de pessoas: aquelas que buscam fama e aquelas que buscam feitos. Ou, para certos, as inconfessáveis falácias de “buscar fama para fazer” ou de “fazer para a fama”.

A fama morre com a morte. Ou morre antes, com as rugas. Ou ainda, a fama se suicida com a vaidade que a alimenta.

Em nossos tempos, a fama é fácil e rápida. Se ela é fator de reputação coletiva, a conectividade em redes descentralizadas afama num estampido iluminado ou de sorte. De 140 caracteres, por exemplo.

Mas, assim como acontece num truque instantâneo, a reputação é uma vertigem. E nada, nada se aperfeiçoa da fama depois que ela some.

O homem, sozinho, mesmo que sua fama seja enorme, é uma miragem fugaz. O homem só existe para a espécie, para sua espécie, na medida em que é capaz de aperfeiçoar os feitos de outros homens.

A apoteose dos big brothers, dos nossos craques, dos nossos bandidos é tão inútil quanto o eclipse das nossas medalhas e das nossas aspas na mídia, se não formos capazes de nos perguntar, sempre: “O que fazemos para melhorar e perpetuar a espécie?”.

Integração vem de cima

29/04/2010 em Internet | Tags: | 8 Comentários »

Quando a gente levantava as pedras do jardim, tinha umas cobras, feias, branquelas, mas inofensivas, que espalhávamos nos bolsos, debaixo dos travesseiros, nos sapatos. Até o dia da bronca e da mesada suspensa.

Integração é uma palavra mais chata que sinergia, mas quer dizer a mesma coisa, e também trezentos e sessenta graus é mais monótono do que transmídia, mas é la même chose e tuti quanti, etc. e tal.

Da série “questões que não gostamos de levantar”, por que mesmo esse papo é irritante?

Falar em integração para terceiros é como escorregar uma serpente no cangote: quer dizer que não temos ou que está mal resolvido. Não é discurso que se venda, porque ninguém precisa saber a receita pra gostar de um prato. Integração deveria ser uma palavra para se xingar só na intimidade e geralmente usada na negativa: desintegração.

Integração da mídia com a criação com o planejamento e com o atendimento não se promove em reunião. Como é cultural, é também na hora do café e do mictório coletivo. É afinação de visões mesmo que as opiniões sejam diversas. É todo mundo empurrando o fardo na mesma direção, mas concentrado na sua tarefa.

Integração é uma função direta dos perfis de profissionais e principalmente da liderança, cuja única atribuição deveria ser essa: dizer para onde vamos. E como é a liderança que escolhe os perfis, integração, contrariamente ao que se pensa, vem de cima, e não o contrário.

A gente pode até promover encontros alegres, abraços coletivos, cursos de autoajuda e outras manifestações folclóricas que tais, mas, se os caciques não sabem ou não dizem para onde temos que remar, a integração não passará nunca daqueles morvets horríveis com os quais aprontávamos quando criança.

Daí, vem a outra integração que está mais na moda. Essa vadia dessa Internet causando, como sempre.

Tenta-se de tudo: apartar os nerds dos maconheiros, misturar os virtuais com os reais, grudar os mídia-mortas com um escravo mídia-viva ou o contrário. E tem até quem pense que tem que ter uma constelação de empresas coligadas trabalhando “em nível de integração”.

Funciona por soluços: muda a estrutura e dá um salto. Daí, engasga e tem que mudar de novo pra avançar mais um pouco. É um método. Cansativo.

O outro é decidir, tiranicamente, top-down, e punir severamente quem ousar pronunciar a palavra on-line e off-line, demitir sumariamente quem perguntar “E pra Internet, o que vai ser?”. É outro método. Doloroso.

Melhor tirar esparadrapo de uma vez ou aos pouquinhos?

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Internet vicia tanto quanto brócolis

27/04/2010 em Internet | 5 Comentários »

Pipocam pesquisas, aqui e ali, documentando uma nova praga na sociedade contemporânea: o vício na Internet. E correm linhas e mais linhas bem pensantes, preocupadas, nos jornais.

O jornalismo moderno gosta de ser fiel à moral e aos bons costumes, juiz da média, do senso comum, da obviedade tranquilizante, da modorra crítica.

Os jornais adoram documentar casos de abusos aliciadores na Internet, pedófilos, traficantes, panfletários dos extremos e outros desvios que apavoram o pequeno-burguês. Agora, estaríamos no limiar de uma sociopatologia.

E claro, como opinião é risco, o hábil jornalista ampara-se em consultas credenciadas. Médicos, terapeutas, psicólogos premiam seus currículos mornos com aspas publicadas: “Os viciados [em Internet] apresentaram os mesmos sintomas de abstinência quando afastados do hábito de usar Internet que viciados em drogas ou álcool”. Doutor Zé Ninguém, professor da Universidade John Nothing de Johnson Nowhere.

O Robinson Crusoe ficou lá, perdidão na ilha paradisíaca, sozinho. Começou a ter tremores, suores, alucinações que não eram provocadas por falta de comida, sexo ou cachimbo. Ele sentiu falta de gente. Por isso encontrou ou inventou Sexta-Feira, o bom selvagem confessor. Se vício havia, era vício de ser social. Era vício de ser humano.

O mundo deu muitas voltas de lá pra cá e chegamos aqui, nesse milênio em que a forma prioritária de relacionamento é digital. Não é nem bom, nem mau. É assim.

Tirar a Internet de nossos contemporâneos é como jogar a pessoa na Ilha do Robinson. Vai dar faniquito, como daria nos nobres jornalistas se ficassem um dia sem a maçaroca de papel na soleira da porta. Vai dar crise de abstinência, como daria nos políticos privados de palanque. Vai dar fogacho e sudorese, como daria nos magnatas distantes das bolsas e dos mercados.

Comparar o hábito frequente de usar a Internet com o vício em drogas, francamente, é abstinência de inteligência.

A Televisão é melhor que a Internet para esta democracia que temos

26/04/2010 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

É tempo de eleição, e já já vamos começar a enfrentar aquele bombardeio de propostas, farpas e programas de humor. Todos são unânimes em dizer que é o ano da Internet na campanha política, seja lá o que isso quer dizer (ainda tem candidatos chamando o eleitor na Internet de internauta!).

Mas o que tem essa plataforma a oferecer aos candidatos?

Nada. Nada a não ser mais uma mídia que, por definição, exige a participação ativa das pessoas para acontecer.

Em outras palavras, se não estivermos minimamente interessados em saber o paradeiro dos candidatos, seus projetos, promessas, carismas e mentiras numéricas, é muito pouco provável que os talvez setenta milhões de votantes brasileiros estejam sensíveis às invectivas eleitorais e eleitoreiras.

Porque a Internet é muito ineficiente para o convencimento massacrante, à base de lavagem cerebral repetitiva, a televisão continua sendo o grande e ensurdecedor megafone.

A Internet é a praia da busca, racional e deliberada. E como tal, ela não vai arregimentar legiões de ovelhas carentes por disciplina e ordem, como se presume.

Mas talvez os candidatos pudessem oferecer algo aos eleitores. Essa é a questão, a única, angular, a ser feita.

A Internet se fez e se faz a partir da participação voluntária das pessoas. É assim que ela se sucede. E o corolário dessa constatação anuncia a performance: os meios online exigem vontade de sufrágio. Vontade de ouvir e agir em consequência.

Mas qual dos candidatos está preparado para atender aos votos, no sentido etimológico da palavra (desejos, aspirações), dos eleitores, após ser eleito e até o pleito?

Não é isso o que se vê por aí. O que se vê é o uso da Internet para reafirmar um sistema de poder cansado, baseado em um discurso broadcast, de poucos pouquíssimos, para muitos muitíssimos. Nada de novo.

A Internet não é uma democracia de polichinelo.

Comprei uma Rede Globo de 50 polegadas

20/04/2010 em Internet | Tags: , | 4 Comentários »

Televisão é um objeto retangular preto ou uma espécie de quadro cheio de imagens em movimento? Um CD é um disco de vidro ou um bagulho que toca músicas? Um portal é um computador cheio de fios e plaquinhas superpoderosas ou um bocado de imagem, texto, vídeo clicáveis?

Pergunta estúpida pode ajudar a dichavar os miolos.

Até outro dia, era bem fácil saber a diferença entre um macaco e outro, embora eles tivessem a mesma denominação. Era assim: quem fazia o aparelho, o troço que dá pra pegar, era um, e quem produzia o que só dava pra ver ou ouvir era outro. Diferenciação, digamos, sensorial. E ninguém se atrevia a pular no galho do outro porque podia quebrar as pernas.

Daí apareceu a Internet e um conto do vigário chamado convergência. Pronto, confundiu tudo. Os craques do conteúdo resolveram fazer o aparelho, e os do aparelho, conteúdo. Confusão danada porque os portais que pertencem a uma empresa de conteúdo também fornecem acesso à Internet. Ou seja, está tudo na mesma razão social: o computador, a imagem, o texto, o telefone, a conexão. E daí todo mundo ficou concorrente de todo mundo. Maior festa do caqui.

Tem gente muito polivalente, tipo o Mozart de Salzburg e o Wesley do Santos, ou o Seu Wagner lá de casa, que conserta portão, máquina de lavar e bicicleta. Mas esses casos aparecem uma vez na vida e outra na morte. É o que chamamos de prodígios.

Mas nêgo é sempre melhor numa coisa. Sempre. Quer ver?

Tipo o YouTube e a Rede Globo. A Globo é a melhor pra fazer conteúdo. Não tem pra ninguém. Não tem nem quem chegue perto. E o YouTube é bom de fazer portal de distribuição (de conteúdo). Bom é apelido. Quem tenta rivalizar, os danados dos meninos chegam lá, compram o concorrente e fim de papo.

Mas por que diabos a Globo tenta fazer a coisa que o outro faz melhor? E por que diabos o YouTube não quer nem saber de fazer aquilo que a Globo faz?

E viva a carochinha.

Você é jovem? Depende de quantos amigos tem

19/04/2010 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

Saint Exupéry, em Terra dos Homens, dizia que só existe um luxo verdadeiro, o das relações humanas. Ele devia ter meia dúzia.

Júlio tem 132 amigos. Luxo total. Devidamente ativos no msn, eles estão sempre a um toque de um Olá, Hey, Slt, porque, claro, eles estão espalhados nos quatro cantos. A maioria deles viu a luz nas redes sociais que Júlio freqüenta, tab sobre tab e no celular. Somando o povo todo, os amigos do msn e os amigos das redes, somam 645. Se Júlio fica acordado 14 horas por dia, e considerando q ele se comunica com o povo a cada dois dias por 3 minutos, somando os 1000 torpedos do seu pacote de celular que ele esgota todos os meses, Júlio está, o tempo todo, sem parar, se relacionando. Desconfio que Júlio faz xixi nas calças, por absoluta falta de tempo.

Urge o tempo de redefinirmos a palavra que está mais na moda no mundo: relacionamento. Amigo é coisa para se guardar em intangíveis bits.

Mas amigos, mesmo esses para os quais não dedicamos mais de 3 minutos a cada dois dias, fazem perguntas, esperam respostas, reações. Então, o jeito é ir ao sabor dos impulsos, transparentes por definição, sem pesar as palavras. A gente vai chutando as coisas, interpretando nossos relacionamentos na superfície das sensações e sem muito medo, inclusive, de mandar mensagens para as pessoas erradas ou tornar público o que poderia ser considerado intimo.

Nesse mundo fragmentado, que consumimos com crises infinitas de soluços, somos homens cebolas também nas relações. É a única proteção, inconsciente, que nos salva. A solidão é uma impossibilidade, a reflexão e a contemplação também.

Para cenaristas mais pessimistas, é o fim da individualidade. Para os mais positivos, é a re-união da espécie.

Júlio não acha nada ruim tudo isso. Não é massacrante ter que lidar com tanta gente. Anormal é perder tempo sem fazer nada. E quando a Internet cai, ele vai dormir: vai fazer o quê?

Você vai sentir falta do papel jornal?

15/04/2010 em Internet | Tags: , | 4 Comentários »

Há mais de uma geração, quase da noite para o dia – porque é assim que as grandes cagadas cagam-se – os jornais liberaram seu conteúdo de graça na Internet. E quando a merda é grande, a gente manda pra análise.

Nem precisamos falar dos coitados que nem liberar, liberaram: morreram constipados.

A maioria dos outros abriu o acesso em vários graus. Alguns acreditam que foi por entusiasmo, outros por desespero, mas talvez tenha sido só fruto da fleumática e pernóstica superioridade dos jornalistas: “isso aí não é nada não, são só as alucinações de um bando de fanáticos que passa a vida atrás de um computador”.

Num propagandeado ato de generosidade contemporânea, os jornais investiram a fundo perdido. E quando fizeram conta, sacaram que só a propaganda não pagaria. Porque a propaganda não salva, é uma Messalina aproveitadora.

E está essa zona aí: os vovôs aposentados, que pegam o jornal de pijama todos os dias, pagam a fatura dos milhões de vagabundos, Internet afora.

Como é que a gente faz agora? Porque vovô quer o jornal de cabo a rabo, do obituário às tiras, dos editoriais às fofocas, por tudo isso ele paga.

Já os vagabundos da Internet só sabem borboletear, pulam “daqui, dali, pelo vento em atropelo, seguido, vão de porta em porta, como a folha morta.”

Não, os vagabundos que já aprenderam a catar as coisas na faixa, não, eles não vão querer pagar por 99% de conteúdos que eles não querem.

E assim os jornais estão morrendo com seus últimos clientes. Talvez também porque lhes falte coragem para franquear o jornal pros assinantes de papel e cobrar o conteúdo fragmentadamente na Internet.

On / off line é papo de tiozão

14/04/2010 em Internet | 5 Comentários »

O garoto era office boy e recitava de um fôlego só todas as músicas do Racionais. Até os cactos da recepção se emocionavam. Ele queria melhorar de vida, quem sabe ser montador de lay-out. Ao invés de levar pacotes para lá e para cá, ele teria a chance de ver o que tinha dentro. Estudava comunicação à noite, dava duro, queria uma chance.

A mãe teve azar quando grávida. Tomou alguma coisa que deu errado: o garoto nasceu com um toco ao invés do braço direito. Até ali, nem atrapalhava os desafios de MCs de Cidade Ademar: ele ganhava todos. Mas com estilete e régua, não ia ser moleza. Treinou sabe-se lá quando, treinou e treinou. Em uma semana, virou o melhor montador da agência. E ainda fazia máscara bisotada que eram um show.

Está todo mundo com tênia na barriga só de pensar que,  daqui a poucos anos, o brilho de hoje não passará de  nostálgico verbete em empoeirados anuários. E a gente se esforça com falácias compensatórias: é tudo a mesma coisa, idéia é idéia e genialidade é genialidade. O que tem de tão diferente entre um filme de propaganda na televisão de outro para a Internet? Qual a diferença entre um super max plus banner e um anúncio de página dupla com apliques, encartes e pop-ups?

A gente vai pensando assim para acalmar a bicha que cresce nas tripas. Mas perde um tempo que dá até medo.

Seria, sim, tudo a mesma coisa, ou muito parecido. Seria só uma questão de adaptação das ferramentas, aprender ou ter um escravinho pra fazer. Seria a mesma coisa se todo retratista com tela e pincel tivesse aprendido a revelar um filme na câmara escura quando inventaram a fotografia. Não aprenderam e perderam a serventia.

A diferença não é a técnica. Se fosse, não seria uma revolução.

A diferença está nas pessoas que vão ver, usar, interagir, espalhar, repercutir, mash-upar nossas criações. A pessoa pode até ser a mesma, e há controvérsias, mas na mídia de antigamente, a gente é meio atrofiado do juízo. E tudo bem, é assim e não tem erro. Mas nas outras, nas novas, a gente está obsessivamente ligado, interligado, alucinadamente participativo, e muito, muito impaciente.

Então não é a mesma coisa não senhor. Isso aí muda tudo e principalmente deveria mudar nossa maneira de criar. Mas a gente ainda acha que é só aprender a usar um software.

E o tempo ruge porque tem gente que já nasceu usando a régua com o ombro e o estilete com a boca. Tem gente que acha esse troço de on/off line papo de tiozão.

E se a Criação também pensasse em rentabilidade?

13/04/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

A rentabilidade das agências de comunicação é assunto que interessa a todos: do cara da HP ao do Youtube, mas também ao cara da planilha, da coxinha, da gravata.

Se o cara da HP sabe fazer conta mas não sabe fazer anúncio, o cara do Youtube, sabe fazer anúncio mas não sabe fazer conta e isso é mais grave.

Se o cara da criação usasse um pouco seu tempo de Youtube, fffound, coolist, lifelounge ou quaisquer outras fontes inesgotáveis de inspirações conceituais, para entender de onde vem a grana, ele talvez fosse o mais interessante motor de transformação (ou sobrevivência) da nossa atividade.

Mais da metade da correspondência de Mozart a seu pai carrasco era reclamando da falta de reconhecimento financeiro pelo seu inestimável talento. São inúmeras as cartas de Van Gogh para seu irmão Théo, em que ele se preocupa com a bufunfa. O vil dinheiro não macula a verve artística, portanto.

Em um mundo em que cada vez mais freqüente se torna a remuneração variável, não tem nada de feio em se preocupar com a rentabilidade da empresa.

Pois vivemos em um mercado que soube defender uma fonte garantida de rentabilidade para as agências, sistema esse que assegura uma relativa sanidade financeira de todos os lados. Isso não é nem ruim, nem injusto.

Do outro lado, vivemos em um mundo que não está perto de encontrar uma fórmula que remunera adequadamente os agentes das novas plataformas de comunicação que, por natureza, são avessas aos modelos tradicionais. E, sempre que alguém ganha dinheiro nesse admirável mundo novo, em qualquer ponta, é através do jeito velho (o Youtube do Google que o diga).

Mas enquanto a acomodação não se dá, sejam por novas ou antigas fórmulas, o nó está na negociação, porque é evidente que a pressão existe para otimizar ad infinitum os investimentos em mídia. E não à toa, sublima-se, exagera-se in extremis, a eficiência dos novos meios, justamente aqueles que são baratos ou remuneram inadequadamente os agentes. Não é truque, é tática,   obviamente temperada por entusiasmos exacerbados. Em síntese, o mix de meios muda e a migração se dá de meios tradicionalmente bem remunerados para outros incertos.

É evidente que os argumentos que defendem as estratégias de diversificação de meios e plataformas são verdadeiros – embora exagerados. As pessoas consomem mais meios, estão mais voláteis e menos fiéis a hábitos.

E é aqui, justamente aqui, no consumo cada vez mais fragmentado de meios, que cabe nossa única força: acreditar que é da integração dos meios que seremos capazes de ser mais eficientes e rentáveis.

A integração de meios, antigos com novos, e não apenas novos com novos, vai garantir a nossa rentabilidade, pelo menos até termos tempo de experimentar novas e salvadoras fórmulas.

Mas se tem alguém vital nisso, não, não é só o cara da mídia que força meios de maior rentabilidade. Não, não é só o cara do planejamento, que cria teorias que confirmam a tese da fragmentação do consumo de informação, conteúdo e entretenimento. Não, não é só o cara do atendimento que senta numa navalha entre a satisfação do cliente e a da agência. Muito menos o financeiro que faz esforços de dignidade para não tirar as calças nas mesas de compra dos clientes.

O cara – “O” cara – está na criação, porque ele é que sabe contar uma história que consegue envolver os consumidores transversal, diagonal, horizontal e verticalmente. Nos meios novos e nos antigos, de forma que os novos não podem prescindir dos velhos e vice versa. E isso irá garantir tudo: eficiência de comunicação e rentabilidade.

Argonautas, astronautas e internautas

08/04/2010 em Internet | 4 Comentários »

Teseu foi o banbanban que conduziu uma turma para passar a mão na lã de ouro de um carneiro maluco. A expedição foi cheia de aventura, até Hercules o fortão estava lá e há controvérsias quanto ao sucesso da doideira.

Já os astronautas são uns cara super craques que vão lá nas alturas, fazer sabe-se lá o quê. Dizem que é tudo mentira, que é uma disputa aí com os russos que inclusive inventam muita história e comem criançinhas, como todo mundo sabe. Tem até um japinha bem legal que fica mandando imagens do photoshop dele direto para o twitter.

Assim como todo gregozinho do tempo antigo queria ser um argonauta quando crescesse, os americaninhos querem ser astronautas. É bacana ter uns heróis assim e no Brasil, jogador de futebol deveria se chamar futebolnauta. Faz mais sentido.

Daí, um dia surgiu um negócio aí que ligava as pessoas pelo computador. O legal é que essa invenção pegou fogo e todo mundo se ligou que era super útil namorar a distância, e até com vídeo, porque evitava aquela saia justa de levar um fora ao vivo. Fora o trânsito né? E o banco, pô, dinheiro é um troço virtual mesmo!

Chamaram o lance de Internet, e, claro, assim como para os argonautas e os astronautas, quem criou tudo foram  uns cientistas desmiolados afim de ficarem ricos e poderosos às custas da grana do exército. A gente pode até não gostar, o mundo é o que é por causa das guerras. Fazer o quê?

No começo, só tinha uns caras cheios de espinhas, geralmente magricelas mas tinha uns bem gordos também. Eles eram esquisitos porque trocavam o dia pela noite e falavam umas coisas que ninguém normal entendia. Eram os tais dos especialistas. Essa turma aí, dava medo, e tanto medo que dizem que eles tinham super poderes para entrar lá na NASA e até roubar os segredos do FBI, tudo sem tirar a bunda da cadeira e comendo pizza e M&M.

Quanto a gente tem muito medo de alguém, geralmente a gente não sabe porque, mas deve ter razão de ser. Daí, tem duas alternativas: ou a gente mata o cara ou então chama ele de maioral. É tudo guerra mesmo.

Foi por isso que chamaram os especialistas da tal da Internet de Internauta, que é tipo um astronauta do espaço virtual como o astronauta que é a mesma coisa só que do sideral.

Não dá pra saber se é a mesma mentira que os generais inventaram no caso da Internet – afinal os caras já enganaram os gregos e os americanos – mas com o tempo, a Internet, até a Dona Maria lá de casa usa. Ela é especialista em muita coisa, a Dona Maria, mas de computador, tenha dó, ela não manja nada.

No fundo, no fundo, é uma palhaçada chamar um bilhão de pessoas de internauta, especialista, herói. Se tivesse tanto banbanban, o mundo não estaria assim tão bagunçado. A maioria das pessoas que usa a Internet nem nunca ouviu falar dos argonautas!

Vamos acabar com esse negócio de chamar quem usa a Internet de internauta porque é bem ridículo.

Seu concorrente pode ser aquele maltrapilho anônimo

25/03/2010 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

A definição de competidores é uma importante função estratégica em tempos de transformação acelerada, social, econômica, cultural. Esse trabalho exige uma boa dose de pesquisa, mas acima de tudo de criatividade e sensibilidade.

A popularização da Internet balança tudo. O espaço é livre demais, amplo demais, incontrolável demais, inclusive para observar o surgimento de concorrentes, que nascem muitas vezes às margens do sistema. Quando despontam no centro das atenções já são grandes demais, perigosos demais, estruturados demais.

E de miopia endêmica sofrem os grandes produtores de conteúdo nesse cenário movediço, em que gigantes tapados soçobram e anões prodígio emergem.

A distribuição é hoje o maior gargalo da indústria. Baseada em colossais e improdutivas cadeias de intermediários, ela justifica o preço na ponta do consumidor. Fundamentados na soberba de uma mentalidade monopolista, a decisão de encarar a verdade é postergada à base de proteções legais caducas e fiscalizações ineficientes.

Mas a equação sempre foi cristalina: a principal motivação da distribuição “alternativa” de conteúdos, da pirataria, não é o gosto pela ilegalidade, não é tampouco a busca de lucro fácil. É a compreensão lógica do que mudou.

O que os caras querem? Querem distribuir o conteúdo dentro de uma nova realidade que os dinossauros não querem entender: não existe mais fronteira no mundo,  nem fuso horário, e muito menos intermediação.

O maior concorrente dos produtores de conteúdo são os piratas da Internet. E a menos que a indústria legal desista da colossal fonte de receita do passado proporcionado pela distribuição, é preciso mudar o tom.

Está mais do que na hora de encarar os robin hoods.

O capitalismo já aprendeu que numa situação concorrencial extrema, o enfrentamento é perda de tempo e economicamente inviável. A saída é compor, aliciar, trazer pra dentro do sistema.

Esses caras são concorrentes e não estão de brincadeira.

E a solução é tão, tão simples, que dá raiva:

1) Liberar o conteúdo na hora em que ele vai para o ar no centro.
2) Expurgar do custo a margem dos distribuidores parasitas.
3) Acreditar que aumentando a escala da audiência de forma colossal, a diluição do custo de produção vai proporcionar um preço na ponta decente e que estão todos dispostos a pagar.

Será que argumentos econômicos vencem ideologias concentradoras e vaidades doentias? Capaz.

Ninguém precisa de um jornal na Internet para procurar uma notícia

24/03/2010 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

A Internet é uma formidável base conectada de dados, que, no limite, liga todos os conteúdos criados pelo homem.

A Internet não é portanto uma mídia, nem uma plataforma. A Internet é um banco de dados.

Uma biblioteca é uma base de dados. Tudo bem que é bonitinho e romântico, mas, no frigir dos ovos, não passa de um agrupamento de dados. Esse agrupamento, para além de sua beleza estética, não serve para absolutamente nada se não existir um jeito de achar aquilo que se procura. A não ser para os saudosistas, não se flana numa biblioteca e por isso a coisa mais importante de uma biblioteca não é aquele monte de estantes, é a bibliotecária. “Bom dia dona Adelaide. Procuro “O alienista de Machado de Assis”, e a simpática velinha vai lá pegar o livro para a gente, não sem antes dizer, com riso malicioso “Cuidado para o Bacamarte não internar o Senhor!”

A Internet é a biblioteca da Dona Adelaide e a Dona Adelaide, na Internet, se chama Google ou Yahoo, para a velha guarda.

Uma livraria é uma enorme base de dados. Além de ser um lugar simpático, onde é bacana de ser visto, ninguém fica horas passeando entre as prateleiras. Por isso, existe uma Dona Adelaide, a vendedora: “Olá, como posso ajudar, procura algo?” e lá vem a Adelaide com o algo, comentando “tá saindo muito esse daí, viu!”.  Uma livraria também tem umas vitrines que ajudam um pouco a Adelaide a não precisar se desdobrar com os clientes. Essas vitrines exibem os lançamentos, as recomendações, as ofertas.

A Internet é a livraria da Adelaide e a Adelaide, na Internet, se chama Google. As vitrines, na Internet, se chamam veículos de comunicação.

Na Internet, quem é mais importante, a Adelaide ou as vitrines, também conhecidos como veículos de comunicação ou, se preferirem, os curadores de conteúdo?

Um veículo de comunicação, na Internet, sem uma Adelaide muito eficiente e prestativa não passa de uma vitrine empoeirada.

Identidade nas nuvens

23/03/2010 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

Riobaldo tomou um trem na Central e cochilou. O tempo, suspenso, endureceu até a parada, aleatória. De pé na estação, ele dirigiu-se, autômato com os braços dormentes, até a saída.

Muita gente ia e vinha. Pessoas sem pressa, com pressa, sem pressa, com pressa. Na rua, Riobaldo trombava, corria, tropeçava, sacudia-se.

Numa banca, ele refugiou-se para olhar o relógio, o celular, a carteira no bolso. “Tem tempo, ainda não tocou o despertador, o dinheiro está aqui”.

Uma mulher, oriental, aproximou-se, sorridente. Um homem, oriental, cutucou-lhe o sobretudo. Um velho, oriental, fazia algazarra batendo uma gamela no chão.

Riobaldo abalou-se pela rua, oriental pros lados, pra cima, pra baixo. O compromisso, seu compromisso de emprego, a entrevista final, ele não estava atrasado. Só um pouco perdido naquela china.

Um guarda, oriental, cochilava.

- Onde fica a rua do passeio, por favor?
- Nem fum, respondia com o olhar, oriental.

Riobaldo não entendia as placas, nem nada. “Meu pai! Que merda é essa?” Riobaldo tomara o trem na Central, cochilou e saltou às margens do Rio Amarelo.

Um locutório que ele adivinhou aceitou seu cartão.

Aboletou-se e descarregou suas nuvens. Seus exames de antigamente, seus treinamentos, suas referências em rede, curriculos, depoimentos gravados de colegas, ex-chefes ao vivo para uma eventualidade, tudo, e entrou na sala na hora marcada.

Fizeram perguntas cabeludas, testes esquisitos, mas foram com a cara dele. Olharam a des-papelada toda. Conferiram as habilidades.  ”O cargo é seu, Riobaldo”.

O emprego é bom: o chefe é uma máquina, a paga é boa e se  trabalha quando quer, de casa, onde quer que se more, até da Conchichina.

Agora é tarde porque a mídia é morta

16/03/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Se estamos alarmados – alguns profetizando, outros ironizando – profundas mudanças na forma como se faz propaganda, é porque, tirando todos os excessos praticados de ambos os lados (“quebra tudo” ou “bobagem”), deve haver algum tipo de transformação em curso. Esta observação é pura lógica.

O fogo que produz essa fumaça está evidentemente na estrutura de distribuição livre, incontrolável, universal, crescente, sem filtro, autoral ou mixada, legal ou nem tanto, de conteúdo na Internet. O corolário desse incêndio é que estamos, todos sem excessão, adorando, usando e estimulando o fogaréu. Querendo ou não, assustados ou excitados sopram na fogueira.

Conteúdo abissal e livre de um lado, audiência colossal e imensurável de outro. Eis o binômio da mudança: Conteúdo livre / audiência incontável.

A primeira variável provoca graves comichões nas estruturas de mídia, já que suas histórias e imagens, seus investimentos, seus patrimônios, foram construídos sobre a propriedade de conteúdos.

A mídia tradicional – e por tradicional entenda-se todas aquelas que vendem seus conteúdos direta ou indiretamente, incluindo veículos na Internet, portais, sites que vendem publicidade, etc – faz dinheiro sobre  audiências presumidas ou, mais raro, sobre audiências reais aferidas.

Os conteúdos são criados perseguindo os gostos e preferências das audiências. No entanto, a propaganda  que os financia, tem uma espécie de licença poética, quase parasitária. Os intervalos comerciais ou publicitários, surfam, aproveitando-se delas. A publicidade tradicional – e por tradicional entenda-se todas aquelas que financiam os conteúdos gerados pelas mídias tradicionais, incluindo a propaganda na Internet em quaisquer formatos – não tem “compromisso” com a geração de audiência. Tem como único objetivo “agradar” audiências dadas.

Pois se os conteúdos tendem a escapar pelo dedão do pé, se os conteúdos agora são auto-suficientes e auto-gerados, se os conteúdos estão espalhados livremente na Internet, a propaganda perde seu principal handicap: a dependência que tinha das audiências geradas pelos veículos tradicionais.

Assim pintado, o quadro é preocupante, pois a propaganda não conhece a ciência e os truques de criação de audiência. Sequer sabe como mensurá-la e usar a informação para realimentar o processo de produção “criativa”.

No entanto, trata-se de uma enorme oportunidade para chacoalhar a poeira acumulada em décadas de relativo conforto. Oportunidade para rever processos, estruturas, aferições, mensurações e talentos. Aprender a fazer conteúdo que atrai audiências. Muitas dezenas de milhões de pessoas e não alguns milhares de internautas desocupados.

E se não corrermos atrás, já já, quem sabe cativar audiências, nossos antigos parceiros, os veículos tradicionais, vão saber também seduzir e agradar nossos clientes, dispensando os intermediários românticos que nos tornamos.

A China é aqui e não tá nem aí

15/03/2010 em Internet | Tags: , | 2 Comentários »

Um amigo comprou um celular novo. Aceita dois chips, tem televisão, google maps, wifi e todos os apetrechos indispensáveis. Ainda por cima é bonitinho que só. É quase um Nokia. O iphone é uma moça, uma florzinha bem fresca perto do ching ling pau pra toda obra. Se algum gaiato resolver colocar o bichinho no liquidificador, pelo menos ele só terá perdido 250 pratas.

A ameaça do Google de sair da China é uma pendenga quixotesca. Em nome de que o Google está brigando? Dos chineses ou do nosso conceito ocidental de liberdade? A ameaça da China de expulsar o Google é de uma hipocrisia milenar. Em nome de que a China está discursando? Do comunismo de estado ou do liberalismo econômico?

Falar chinês não é mole não. Uma mudança imperceptível de pronuncia transforma “a professora é muito boa” em “a professora é um cocô fedido”. Mais ou menos por isso, a China não empunha exatamente as mesmas bandeiras que o Google ou a Nokia ou a gente.

A diferença é que a Internet na China tem 26% de penetração, ou seja, 351 milhões de pessoas, ou ainda, quase 2 vezes mais americanos com internet.

A penetração de celular na China é de 52%, ou seja, duas vezes a população inteira de americanos, incluindo cachorros, gatos e jacarés.

Se a China consegue vender um celular “Nokia” a 250 mangos, incluindo todos os “impostos informais”, alguém duvida que o “Google” chinês deve ser uma réplica mais fiel que o original?