Artigos na categoria ‘Propaganda’

Os fantasmas são os atos secretos dos festivais

17/09/2009 em Propaganda | 6 Comentários »

Já se disse que “notícia é tudo aquilo que alguém não quer ver publicado, o resto é propaganda”. Propaganda e imprensa são partidos irreconciliáveis. No limite, a imprensa é o avesso da propaganda – ou vice versa. São dois “do contra” que dividem o mesmo espaço. É por isso que existe uma separação inequívoca entre os dois conteúdos. E a gente aceita que notícia é o que se coloca no avesso da propaganda, ou o contrario. Cristalino e ético.

Festivais de propaganda promovem a escolha dos melhores trabalhos. E melhor quer dizer melhor, comparativamente. Trata-se de comparação entre os trabalhos inscritos. Se o recordista mundial de uma prova não participa de um campeonato, ainda assim haverá um medalha de ouro e ele será considerado o melhor, tenha ele ou não batido o recorde.

Da mesma forma, se peças publicitárias foram ou não eficientes para os objetivos que foram delineados, objetivos de marketing, é rigorosamente irrelevante. Da mesma forma e no limite, se aquilo que se julga foi ou não veiculado, não interessa a mínima.

Por uma questão de lógica o debate do fantasma é estúpido. Festivais não existem para apontar recordistas mundiais de eficiência mercadológica.

E convenhamos, não vamos super-estimar o valor de um prêmio. Não é propriamente a coisa mais importante da nossa profissão, ou não deveria ser.

Que organizadores de festivais vetem a inscrição de peças assinadas por marcas que não foram consultadas ou não aprovaram a participação parece correto. Tratam-se de atos de falsidade ideológica censuráveis.

Mas o que dizer quando os festivais, como que adormecidos, por décadas, num berço ético, ficam furiosos por terem premiado peças não veiculadas? Não teriam aceito dinheiro sujo? O benefício da dúvida é sinônimo de hipocrisia quando tem dinheiro, muito dinheiro (de inscrição) envolvido.

O marketing cria?

15/09/2009 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Coco Chanel, até os últimos dias de sua vida, além de se debruçar de giz em punho sobre os moldes, freqüentava os ateliers de suas costureiras, seus fornecedores de rendas, tecidos e flores, assistia aos desfiles do alto da mítica escadaria espelhada da rue Cambon, supervisionava as sessões de fotos, revisava textos de divulgação, treinava as modelos como se fossem animais de estimação e dirigia todas as campanhas publicitárias.

Não havia Marketing na Maison Chanel. Ou melhor, o marketing era uma atribuição criativa, portanto, Madame cuidava. A divulgação e a propaganda era parte do produto. Ainda é assim na indústria da alta moda: uma marca é construída com conteúdos criativos que começam no produto e terminam no pós venda, passando pela propaganda.

O marketing, que me perdoem os clássicos, é uma muleta operacional. Uma espécie de anomalia do processo criativo. Embora o marketing competente saiba se travestir de idéias e conte para isso com especialistas (agências por exemplo – de propaganda, de tendências, de pesquisas, etc), quanto mais distante do processo produtivo, quanto mais longe dos laboratórios e protótipos, mais alienado da criação. Muitas vezes ainda, o criador, o mestre da fórmula, o talento original aposentou-se e terceirizou a criação para o marketing. Quem faz não cria mais, só executa as estratégias pensadas no andar de cima.

É precisamente para suportar uma utilidade que o marketing se sofistica, produz teorias, ensaios, metodologias, gramáticas de qualificação das marcas, léxicos interpretativos, pesquisas e mais pesquisas, mensurações e mais mensurações.

Se competência se mede em incrementos de vendas, então o marketing é uma ferramenta. Real.

Mas o marketing que se pratica hoje tem veleidades de poder e ao debruçar-se sobre o processo criativo, perora, tergiversa em inutilidades teóricas paralisantes.

E aqui, se a competência se mede em incrementos de imagem, então o marketing pode não passar de uma quimera. Virtual.

O despertar digital das majestades

10/09/2009 em Internet, Propaganda | 1 Comentário »

“O consumidor ganhou a oportunidade não só de tomar decisões de compra melhores…mas também de decidir quem serão as empresas que farão parte de suas vidas.”

“A Internet é uma ferramenta muito poderosa. Mudou a relação entre pessoas e marcas.”

“É bom quando as pessoas têm direito de se expressar de forma totalmente livre.”

“Nas redes sociais, você pode conhecer gente que você não conhecia.”

“O Twitter é uma ferramenta de disseminação muito poderosa.”

“O Google é um motor de busca muito completo.”

“O Youtube é uma biblioteca de vídeos.”

“Tem sites muito interessantes.”

“A Amazon foi pioneira.”

“Ah, A Internet!”

Essas pérolas foram colhidas hoje, por aí, nas dezenas de veículos especializados que cobrem (ou desnudam) o mercado publicitário (de orgulho e rídiculo). Hoje, dia dez de setembro de dois mil e nove! (e não citarei a fonte e seus autores porque nenhum dos veículos é creative commons: nóis gosta mesmo é de pirataria).

Me perdoem a falta de contexto, mas até estuprador é inocente se soubermos que o pai surrava a mãe e comia a irmã.

Mas a incontinência literária da blogosfera tem o poder de despertar múmias ou tirar belas adormecidas do coma.

Quem já viu um consumidor ter insight em pesquisa?

04/09/2009 em Propaganda | 12 Comentários »

Quem fundamenta suas opções em pesquisas de mercado, tem uma relação de amor e ódio com metodologias, análises e conclusões. Somos animais inseguros e presunçosos por definição e nesse equilibrismo caminhamos.

As pesquisas são por vezes muletas, por outras, guias. E por isso, as pesquisas estão mais a serviço de preconceitos do que de aprendizados. Mais úteis para quem pesquisa do que para quem é pesquisado.

Pouco importa a técnica, das mais tradicionais às mais moderninhas, das mais científicas às mais intuitivas, das mais isentas às mais dirigidas, pesquisa não esclarece, confirma.

Fazia 21 anos que a General Motors pesquisava sua queda de participação de mercado. E ano a ano, as mensurações seguiam a mesma ladainha: vamos desaparecer.

Pesquisas são muito úteis para antecipar e inúteis para evitar.

Ainda que as pesquisas possam ter intenções exploratórias, nossa compreensão só alcança aquilo que fomos treinados a entender. Passamos desesperadamente ao largo – bem longe – de tudo aquilo que não estava registrado no script consciente de nosso cérebro. Insights só existem em pesquisas póstumas.

Se você quer estudar um elefante, de que adianta ir ao museu de história natural? Se você quer entender um fenômeno social, de que adianta encarcerá-lo em metodologias e técnicas?

Pois para que servem, então, as pesquisas? Para muita coisa mas pouco para aprender e inspirar-se.

Ministro Ayres Britto para presidente

03/09/2009 em Internet, Propaganda, Sei lá | Deixe um comentário »

O presidente Ayres Britto do TSE é um alento esclarecido no vendaval obscurantista que sopra em Brasília.

Ele já se expressou de forma contraria e inequívoca sobre o projeto de lei que tramita no congresso e que trata, entre outros assuntos, de tentar regular o uso da Internet em período eleitoral. Na qualidade de ministro do STF, ele foi mais incisivo ontem (02/09), enviando para publicação o acórdão que julga inconstitucional a lei de imprensa. Aproveitando a oportunidade, o texto qualifica a Internet de “território virtual livre” deixando natimorto aquele projeto de lei que tente enquadrá-la.

O que isso implica para além de respirarmos aliviados e aplaudirmos a autoridade?

Esse tipo de visão reconhece que a Internet é um organismo que se auto-regulamenta pela livre participação das pessoas. Aceita o fato de que esse sufrágio está em franco processo de universalização no pais. Também é possível retirar a crença na maturidade democrática do brasileiro para além dos discursos reacionários de parte de nossa elite.

Do outro lado da moeda, essas decisões também deveriam engendrar um redirecionamento importante de foco na nossa mídia.

Por que a Internet seria livre? Por que um jornal em papel, por exemplo, é sujeito a certas regras e suas versões online a nenhuma, poucas ou outras?

Talvez porque as versões online dão direito de reação livre. Talvez porque permitem a livre circulação das ideias, copy-paste, mash-ups, “recriações” ao sabor da eloqüência virtual das pessoas.

Talvez estejamos no limiar de uma formidável transformação que vai dirigir um investimento colossal para a Internet.

Qual é o produtor de conteúdo, jornalístico ou de entretenimento, que não se sente seduzido por um meio livre, sem travas, sem telhado de vidro, sem interferências? Qual é o publicitário que não fica aliviado de poder utilizar sua criatividade sem cabrestos nem hipocrisias? Qual é o ser humano que não gosta do poder de desprezar, zapear, caluniar ou destruir os conteúdos que julga irresponsáveis ou impróprios?

E a experiência vai valer a pena, mesmo que seja para se perguntar, depois, o que a gente vai fazer com tanta libertinagem.

A criação autista

02/09/2009 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

O autismo é uma doença que decorre de extrema sensibilidade e a conseqüente dificuldade de se comunicar com o mundo. E já há teses científicas que dão conta de uma espécie de epidemia de autismo. Isso é sério. Até aqui não estou ironizando.

Mas o autismo da propaganda não é uma epidemia. É um vício.

Os autistas fecharam-se numa bolha de mimos e auto-elogios patrocinados pelo narcisismo dos pais criadores do negócio. E como vivem em redes etéreas, virtuais, fantasiosas, mal se comunicam entre eles.

Nesse vácuo geracional nasceu uma criação que não sabe mais o que é propaganda, nem comunicação e muito menos que esse é um negócio. Ou nunca soube porque se nutre da compra do elogio de poucos.

Tristes os “11 de setembro” que cometem.

Preguiça de Internet

01/09/2009 em Internet, Propaganda | 1 Comentário »

Todos os artigos, todas as reuniões, todos os briefings, eventos, Power-points, showcases e papos de corredor comungam o mesmo mantra: “Internet geeennnte!” e de carona, ainda dá pra ouvir “se tu quer fazer algo na Internet, se liga que tu não vai poder ter controle sobre tudo, se liga que é tudo pulverizado, se liga que dá pra mensurar, se liga que ninguém quer ouvir uma marca, blablabla”.

A unanimidade também faz uma novena: “Mídia morta geeennnte” e na boléia ainda se cacareja “se liga que GRP é uma medida aproximada, as audiências estão caindo ou são artificialmente infladas, o jovem odeia isso, a classe C é aquilo, os formadores de opinião aquilo outro, tralala”.

Perdeu a graça. Todo mundo concorda tanto com tudo que já dá vontade de torcer para que caiam todos do cavalo. Todos os arautos do fato consumado, os profetas da obviedade e os evangelistas da causa ganha.

Parece mais difícil fazer um comercial blockbuster do que uma estratégia de mídias sociais acachapante. E a matemática da fantasia faz um baita efeito nas apresentações.

Sabe a meta do milhão da Internet que vale mais do que dez milhões na TV (média de um programa meia bomba num horário idem na rede Globo)? A menos que a gente seja mulher de malando, o milhão quimérico de lá deve custar mais que os dez milhões garantidos de cá.

Não é desejo de polêmica, é desejo de justiça. O pêndulo está bêbado novamente. Visionário aquele que fizer uma campanha que não tenha nada na Internet nem brand-experience, nem brand-content, nem brand-coisa-nenhuma.

Youtube e Rede Globo são concorrentes sim

28/08/2009 em Internet, Propaganda | 3 Comentários »

Quando o fundador do Youtube afirma que a mídia Internet vai acabar com a Televisão, não podemos nos deixar enganar pela já clássica falácia que confunde a plataforma com o conteúdo. A plataforma é a máquina, o conteúdo é o que a máquina exibe.

O que o cara está portanto dizendo pode ser visto de duas maneiras.

Plataformísticamente, o computador (ou que tais) vai acabar com o aparelho de televisão. É a HP versus a Phillips, por exemplo.

Conteúdísticamente, aquilo que se exibe na Internet, da forma como se exibe e da forma como se assiste é que está espezinhando os formatos tradicionais da televisão. Queiramos ou não, é sim o Youtube versus a Rede Globo.

Discutir plataforma é perda de tempo porque é nessa praia que a convergência rola, e bem.

Conteúdos e forma de produzi-los é uma discussão muito mais fértil.

O Youtube se diz uma plataforma de exibição. Ora, as emissoras de televisão também. Portanto, são concorrentes desse lado da moeda.

As redes de TV produzem ou adquirem conteúdos. Ora, o Youtube apesar de não ter estúdios e claquetes, também.

É que o Youtube sacou antes e melhor o que significa “produzir / adquirir” conteúdos hoje.

Ele sacou primeiro que direito autoral é uma vaga e fracassada utopia de dominação.

Entendeu que existem muito mais autores do que deixam supor as peneiras da Rede Globo.

Foi mais esperto porque entendeu que ninguém tolera mais o cabresto das grades de programação mas deseja o vôo semi guiado por algoritmos de relevância (audiência, cruzamentos de preferências, ratings, etc).

Ainda, o Youtube sabe da fragmentação da audiência e da atenção e que é muito chato ficar horas assistindo certos conteúdos quando se pode ir diretamente aos livremente editados. E “livremente” é palavra chave na afirmação como o contrário de “curado, escolhido por curadores”.

Por fim, o Youtube vai mais fundo na sua ciência e desenvolve ferramentas de produção / criação para seus fornecedores de conteúdo, inclusive seus concorrentes (com ou sem autorização). Ele dá espaço, ele dá interação, ele dá conexão e, vejam que louco, ele dá audiência.

E tudo isso, sem falar de medição de audiência e da maioridade do Youtube fechando contratos de exibição com estúdios.

Então deixemos de meias palavras: ou a televisão entende e aceita, e rápido, o que é produzir conteúdo hoje, ou ela aceita que é concorrente do Youtube. Ou vai dormir ou vai pra cima.

Bye bye dead tree society

26/08/2009 em Internet, Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Minha irmã acaba de escrever um livro (muito lindo) para a maior editora da França. Jabá orgulhoso feito, ela contou-me como se dá o lançamento.

Que a Internet já mudou toda a cadeia produtiva e de divulgação de muitos setores, todo mundo sabe. Mas é de se alegrar quando uma indústria tão empoeirada, que tira seu sustento precisamente daquilo que está moribundo – a coisa publicada em papel – desperta, do alto de suas sábias rugas.

Quando o livro ainda está manuscrito, a editora envia uma copia, digitalmente é claro, para cerca de 200 leitores que se interessam pelo tipo de literatura em questão. Até aí, nada de novo: as editoras sempre fizeram esse tipo de teste.

Mas o que é diferente é que esses leitores estão devidamente conectados com seus próprios blogs e redes. A turma do sem-blog não serve, assim como não interessa quem só escreva em veículos especializados dead tree society.

A segunda novidade é que essas pessoas estão autorizados a divulgar criticas e o que quiserem do livro para seus leitores, mesmo que seja para destruir a obra ou xupinhá-la. Já sacaram que censura, jabá cozinhado e controle de pirataria é feitiço contra o feiticeiro.

Tudo isso acontece muitos meses antes do lançamento. Depois de um tempo, a editora analisa as repercussões, dos blogueiros e da audiência. Isso irá pautar o tipo de lançamento, o investimento na divulgação, e, claro, a tiragem do livro.

Simpática formula de lançamento.

Mas perguntei-me o que seria da imprensa tradicional.

Pois bem, a imprensa tradicional corre atrás. Ela corre atrás dos blogs, lê os trechos divulgados, acompanha os comentários e depois de solicitar o livro para a editora, planeja sua cobertura. Simples assim: atrasadinha que só. E, eventualmente, para recuperar o tempo perdido, ela resolve patrocinar o lançamento se associando na empreitada. Faz publicidade no livro e nos blogs que já “lançaram” o livro. Como se a Rede Globo resolvesse anunciar no livro do Paulo Coelho lançado pela Planeta (chamando por exemplo para um seriado sobre o autor na TV).

A estratégia é tão cristalina e lógica, que assim contada, parece óbvia. E é.

Só assusta um pouco perceber que, com marginais exceções de nicho, o Brasil ainda valoriza conceitos tão antigos como exclusividade, jabás pagos, reverência aos veículos tradicionais, peneiradores de conteúdo e controle de direito autoral.

Sei não, mas no mercado editorial, na imprensa tradicional, nas agências de propaganda e além,“I see dead people”.

Rede Record que Deus lhe pague

19/08/2009 em Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Pascal apostou. Ninguém sabe se Deus existe mesmo, então considere as seguintes alternativas. Se Deus não existe e você morrer infiel, até que você não se dá mal. Já se Ele não existe e você morrer temente a Deus, nada de errado com seus days after. Agora, se ele existir e você nunca comungou de sua palavra, você está ferrado. E se ele existir e você pagou penitência, ajoelhou no milho e pagou o dízimo, o reino dos céus será seu novo lar. O filósofo, matemático, físico e carola vivia no século 17. Seu cristalino raciocínio fez um strike nos céticos iluministas, que já namoravam na época com um pensamento mais livre e agnóstico.

Muita água rolou debaixo da ponte depois disso. Veio a revolução francesa que baniu a igreja do poder de estado. Vieram outras culturas, outras crenças, a liberdade de culto e o melting pot religioso. Vieram também as revolução de costumes, o respeito às minorias, a democracia lutando contra os tiranos e os tiranos contra os libertos.

E hoje as mídias temperam nossa existência. Ver e interagir, criar e colaborar, publicar e sonhar com a fama, declaram nossos novos direitos de humanos.

Que uma igreja tenha todo direito de ter um canal de televisão, uma plataforma de mídia, políticos e lobistas não está em pauta. Que uma igreja possa fazer mágicas dogmáticas com a aposta de Blaise Pascal, entre quatro abóbodas sacralizadas de neon e batalhões de evangelizadores, não interessa. Ela é senhora de sua pregação. Se ela está afim de passar o chapéu, de surrupiar as economias dos fieis em troca do loteamento do céu, azar do latifundiário divino e dos sem-nuvem.

Mas quando uma igreja transforma seu templo em Shopping Center, quando uma igreja entra na lógica do sistema e o óbolo presumidamente espontâneo vira fonte de financiamento, a aposta é outra. Quando a palavra de Deus lastreia um negócio e os vendilhões invadiram o templo, a esmola é lucro e como tal deve ser taxada.

Deixai a Rede Record em paz e transformai sua igreja em contribuinte.

Xixi no banho faz bem pro ego

12/08/2009 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

Todos os dias inventam uma dieta e todos os dias um novo sintoma da gripe suína. E todos os dias também cria-se uma forma de salvar o planeta do pesadelo que nem Noé salvará.

Para emagrecer, é mais importante a disciplina do des-comer do que o que se ingere. Não duvido que a fumaça dos fumantes é vetor do vírus H1N1. E fazer xixi no banho, acredite ou não, além de economizar água, é um ato de altruísmo: devolve para a natureza ureia e água limpa.

Nem toda invenção pega. E pouco importa pegar porque a intenção dessas ideias não é de incentivar a bulimia, nem internar os proscritos em quarentena, nem riscar do mapa as válvulas criminosas.

As campanhas de conscientização são quase sempre chatas, professorais ou de uma pieguice emocional digna de PowerPoints virais. A ciência presumida não tem nenhuma importância, ela é só um artifício de mobilização, uma chamada, um motivo para se comunicar. É justamente por acreditar demais na precisão científica que essas campanhas são ineficientes.

Por que será que um assunto sério não pode ter humor ou pelo menos fazer sorrir? Por que será que tem que desaposentar o Cid Moreira cada vez que queremos dar um alerta comunitário urgente?

Nas mais otimistas das previsões, em 50 anos, 50% de todas as praias do mundo vão desaparecer. É muito provável que seu sonho de surfar na Micronésia se torne inoperante em breve. Você acredita nisso? Não. Nem eu.

Você acredita que fazer xixi no banho é bom pro planeta? Não. Nem eu.

Mas, de tanto me divertir com o assunto, economizar água virou pauta: fecho a torneira enquanto escovo os dentes, morro de frio me ensaboando e sim, fiz xixi no banho hoje.

E ri sozinho do meu sarcasmo humilhado pelo bom humor.

70 mil publicitários demitidos

11/08/2009 em Propaganda | 14 Comentários »

Quando a crise é conjuntural, a gente espera. Quando ela é estrutural, a gente se adapta. Mas quando ela é existencial, melhor sair correndo.

Segundo estatísticas, 70 mil publicitários perderam o emprego com a recessão.

Uma parte deles foi demitida porque as verbas publicitárias são bipolares: investimento na bonança, despesa quando tem que tirar o pai da forca. Essa é a crise de conjuntura. Passa.

Uma outra porção grande deve ter saído e ainda vai sair porque o modelo de negócio entrou numa puberdade tardia e autodestrutiva. Ainda tem gente do métier defendendo a desregulamentação, que coloca em risco as conquistas do passado. Esse cada-um-por si e a Globo por todos é estrutural. Dá-lhe jogo de cintura.

Mas quando a profissão de publicitário vira uma espécie de meca dourada, que atrai pessoas com veleidades e vaidades artísticas, mimadas, um soluço do mercado vira crise existencial. Não é capricho.

O mercado não está só em crise porque o mundo está em crise. Nem só por conta e obra exclusiva dos tubarões social climbers.

A crise é de descolamento da realidade e teimosia amargurada. É a crise da autorreferência ignorante e pretensiosa. A crise da curiosidade seletiva e, portanto, burra.

Ainda tem publicitário com preconceito de comunicador instantâneo, que tem medo de rede social e que defende a censura da Internet com malditos filtros de conteúdo.

70 mil ex-publicitários é pouco!

Em tempo:  Lemonade Movie

Se não cabe em 30, não cabe

04/08/2009 em Propaganda | Deixe um comentário »

Numa aldeia perdida, o velho poeta debatia-se com uma folha em branco. Nenhum comichão, nenhum lampejo e as musas de pijama tomavam chá, displicentes. A constipação era tal que a menor brisa roubava-lhe o olhar, e o cheiro do feijão cozinhando sereno na panela zombava de sua falta de inspiração. Nem mesmo os livros boquiabertos na escrivaninha curavam a modorra indecisa.

Depois de horas desérticas, ele saiu. O andar trôpego lambia o caminho. Uma enorme tempestade armava-se no horizonte, mas ele seguiu, empurrado para frente, decidido a não voltar enquanto durasse o vazio.

Quando começou a chover, já estava longe de casa, arrasado de cansaço. Abrigou-se numa casa abandonada e esqueceu-se do tempo. Impossível voltar sob aquelas condições. Impossível chamar, impossível. Foi então que ele rabiscou. Três linhas, métrica e rima, poucas palavras no que restava de terra seca. Sua última obra prima.

“Doente em viagem
Sonho em secos campos
Ir-me enveredar”

Um sinal fechado para impressionar a garota do carro ao lado, uma única cena para cativar o espectador, um gole de prazer para despertar, um sorriso para apaixonar, 140 caracteres para mudar o mundo, oito palavras num ônibus que passa, 30 segundos para dar vontade de tomar cerveja. A expressividade é caudatária da dificuldade.

A Capela Sistina não cabe entre dois pack shots, nem a “Missa em Si Menor”, nem a “Porta do inferno”. Mas, o intervalo vale o tempo de um xixi, e 30 segundos são uma eternidade para um Hare Baba interrompido.

A exiguidade do espaço é a única arte que se dá na propaganda.

Quem tem medo da censura?

03/08/2009 em Internet, Propaganda | Deixe um comentário »

Muitos confundem democracia com vontade da maioria. O sufrágio do povo grassa com a mesma fertilidade em regimes democráticos quanto em tiranias totalitárias, que, em ambos os casos, legitimam-se graças a ele.

Dizer “vamos decidir democraticamente atendendo a opinião da maioria” é uma falácia, se a frase não for seguida de “e respeitando as minorias”.

Ainda, a ciência é aliada tanto dos déspotas quanto dos regimes democráticos. Em tempos remotos, a ciência comprovava que mulheres eram inaptas, os negros e judeus, raça inferior e os gays, doentes.

Finalmente, a bobagem suprema reside em confundir estado de direito com justiça democrática. Assim como respeitar a lei, infringi-la não tem nada a ver com a democracia.

Isso nos coloca numa enrascada: como então invocar seu santo nome?

Em tempos da liberdade desregulada que a Internet fermenta, a censura é a perversão dos tempos modernos,  o recurso extremo que trai duplamente o pensamento democrático.

Censurar é sobrepor uma vontade escura ou escusa à liberdade de expressão. É uma atitude antidemocrática por definição inquestionável.

No entanto, a censura na Internet é o veneno que mata o feiticeiro porque, ainda que fosse aplicável, é um amplificador da intenção perversa do seu autor.

Recentemente o site de uma agência foi hackeado, substituindo a página de abertura por ofensas, justificadas ou não, pouco importa. Ato contínuo, típico de um mercado que autoexcita sua vaidade na mídia, muitos veículos reproduziram a graça. Ainda que a importância da notícia fosse proporcional à sua irrelevância, muitos manifestaram-se sobre o tema naqueles blogs que incentivam o frenesi participativo. E ficou por isso mesmo, até que a agência em questão – coup de théatre – apelasse e um desses blogs fosse censurado com aparato legal.

Que o blog não tem nenhuma responsabilidade, qualquer rábula poderá atestar. Que os hackers agiram fora da lei, é tão óbvio quanto a improbabilidade de encontrá-los. Que a ação da agência é antidemocrática, é tão certo quanto a propaganda espontânea que ela promoveu.

E a ingenuidade do dono da agência é tão tocante quanto é lamentável sua nova reputação.

Caro T.

30/07/2009 em Propaganda | Deixe um comentário »

Obrigado pelo seu email mas não sei ao certo porque estou respondendo. Sim, a vida que levamos nos torna mal educados. Ou então mais impulsivos e verdadeiros, se entendermos que educação é a arte de esconder a sinceridade por detrás de pílulas douradas. Administrar o tempo é a formula da sobrevivência e nem sempre fazemos as escolhas mais simpáticas.

Li seu email e, apesar dos salamaleques, você fala um pouco das suas duvidas, genéricas e grandiosas. E elas me trouxeram uma gostosa nostalgia. Uma certa saudade desse tempo em que eu nadava aflito no aquário, com aquelas impenetráveis paredes de vidro que me projetavam um mundo de infinitas possibilidades.

Mas levei o assunto um pouco mais a serio quando você me acusa de retratar uma realidade crua. Foi então que fiquei preocupado. Realidade e crueza são termos redundantes no meu vocabulário.

A realidade é crua e só conheço um jeito de engolir: voltar para o aquário. Voltar a ser inquieto e louco para fazer grandes coisas impossíveis.

Minha confissão é a expressividade. O fauvismo me cativa mais do que o impressionismo, o preto no branco mais do que o cinza, a opinião mais que o consenso, o extremo mais que o mínimo denominador comum.

T., o único conselho que posso lhe dar é você aprender a equilibrar convicção com curiosidade. A sinceridade sempre será premiada. A coluna do meio pode até te dar dinheiro, mulheres e fama mas se não é só isso que você procura, então talvez você goste desse mundo. Se você acredita em responsabilidade e utopia, o clichê não vai matar a sua fome, nem o truque, nem a grana.

A imaginação é mais importante que a ciência, e quem disso isso foi o maior cientista do século XX.

Na propaganda, ainda tem quem ache melhor adormecer do que despertar. O desconforto é melhor do que o chinelão passe-partout, e quem diz isso é o peixinho que lhe escreve.

Bater com o dos outros gozar com o seu

28/07/2009 em Propaganda | Deixe um comentário »

Uma empresa é uma cultura de bactérias taradas e, para procriar nesse ambiente, uma dieta se impõe. Aí vão três possíveis dicas de como gozar nessa sopa.

1.    Senso crítico: consuma sem moderação

O senso crítico não é uma qualidade, é uma postura. É dizer não ao senso comum, vulgar justamente porque comum. A banalidade é um entorpecente cheio de radicais livres: envelhece e mata. A poção da fertilidade é destruir a golpes de espírito de a solução na ponta da língua.

2.    Autocrítica: coma escondido

A autocrítica não é um talento, é um exercício. É se olhar no pior ângulo, forçar a barriga, não tomar banho para se lembrar que somos fedidos por natureza. É uma prática privada, íntima, solitária, porque autocrítica em público é pornográfico.

3.    Não se levar a sério: a última garfada

O não se levar a sério é uma espécie de barra de energia. Dá uma força na última estocada. Quando o senso crítico e a autocrítica se esgotam, e até a mais perigosa posologia – a boa vontade e o carinho – sucumbem, relaxe porque sempre vai ter um papai sabe-tudo de plantão para te dar de mamar.

Pesquisa qualitativa é espiritismo

27/07/2009 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Quando era adolescente, apesar dos alertas místicos da minha mãe, eu adorava fazer a brincadeira espírita. Em volta do copo emborcado, cercado pelas letras do alfabeto, entoávamos, concentrados, “Esprit, es tu lá?” e a entidade rangia respondendo a nossas perguntas.

Certa vez, manifestou-se o avô de um amigo, jazzista famoso, que pediu ao neto para sentar ao piano. O copo bailou em infinitos círculos sobre a mesa. Outra: baixou o espírito do meu tio-avô, em cuja homenagem carrego meu nome. Ele revelou não ter morrido limpando a espingarda, mas suicidando-se em nome de um amor proibido.

Pesquisas qualitativas são sessões espíritas onde a moderadora é o copo, e o espírito esconde-se atrás do espelho.

Se é verdade que esses exercícios são tão previsíveis quanto deseja-se antecipadamente, os consumidores são mentirosos contumazes. Charlatões diplomados, eles vituperam opiniões, concentrados nas coxinhas e na gratificação.

Se as pesquisas qualitativas são um PowerPoint de revelações, elas são um tributo à obviedade, uma demonstração de fé de charlatão, um maldito instrumento de poder e um analgésico da pressão gerencial.

Meu amigo tinha acabado de perder o avô que nunca soube que ele tocava tão bem. Premido pela inocente paixão, eu perguntava-me se a morte era legítima demonstração de amor.

A inocência é filha bastarda da manipulação.

Não brincávamos com o copo para reconciliar-nos com a fé. Antes queríamos a manifestação de nossa vontade reprimida.

Não devemos brincar de pesquisa qualitativa para ver o espírito da verdade apontar o caminho. Antes devemos vê-la como o necessário alívio da nossa intuição.

Marketing global que estais no céu

20/07/2009 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Na sala de reunião abarrotada de executivos, prepostos dos acionistas de férias nas Maldivas, um frenesi criativo agita as mentes. Ali irá decidir-se o destino de uma marca e como ela irá formular seus mantras planetários. É também a ocasião de ouro para surrupiar uns minutinhos de fama e ambicionar um memorando de recomendação para posto mais confortável em um país inútil. Há aqueles que sonham em ser CEO da Romênia, ou, quem sabe, CMO na Ucrânia, e os domadores profissionais, matracas de frases de efeito.

Num canto, uma inglesa gigantesca, cabelos tristes e olhar desbotado por décadas de transcrições aproximadas dessas orgias burocráticas, castiga seu notebook. Seu gato persa, está em algum lugar da casa, abandonado à própria agonia. A sobrinha escreve-lhe queixando-se do namorado machão. Há meses que ela não visita a mãe no asilo e, à noite, seu namorado de anos talvez lhe peça finalmente em casamento.

O workshop de café requentado e paletós amassados, ferve a cada palavra nova, fresca, nunca usada em nenhum encontro da “mediocracia” mundial. As missões são alinhavadas na mais vaga das ambições: vamos dominar o mundo com entusiasmo e dedicação.

A inglesa sabe que tudo acaba às seis. Mais meia hora para assassinar um PowerPoint, disparar o email sagrado aos quatro cantos do tabuleiro e correr para comprar para o jantar duas fatias de rosbife e uma geleia de laranja enlatada.

A tarde transcorre e o baile continua, os dribles, os golpes baixos e os transes inspirados.

Lá no escritório central, a masturbação termina e ejacula-se, mundo afora, das mãos da solteirona escriba.

A megatendência: o dijaine

20/07/2009 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Num conto futurista (Tofler, ou seria Bradbury? ou Asimov?), a sociedade era comandado por um computador provedor e um sistema ideológico de controle das tarefas dos homens. Uma espécie de “Tempos Modernos” exacerbado: “Aperta seu parafuso, Mané, e nem pense em saber em que porca ele irá se meter”. Um dia, a máquina pifa, e os Mané se apavoram sem saber como restabelecer a ecologia do mundo. Até descobrirem o último desempregado generalista capaz de colar os infinitos destroços da humanidade.

O mundo é uma ecologia de destroçados. Um quebra-cabeças de… de… como podemos chamar isso? …sei lá eu… dijaines?

Dijaine gráfico, Web dijaine, dijaine de interior, dijaine de moda, hair dijaine, dijaine odontológico, cirurgia de dijaine estomacal e dijaine futebolístico. Dijaine de parafusos e porcas. Dijaine molecular, atômico, subatômico, quântico.

Já que não sabemos mais descrever as moscas que penteamos, a gente usa a mais dijaine das tendências literárias: dijaine.

E a ditadura do dijaine nos persegue, encarcera, oprime. Se não for dijaine, é primitivo. Dijaine é o avesso de natural. Dijaine é o contrario de intuitivo.

Adão comeu a maçã e criou o dijaine para disfarçar seus pudores.

O dijaine é o prozac hype para o drama de nossa condição de primatas metidos a besta.

(em tempo: dijaine é marca registrada de Ricardo Freire dijainer de viagens)

A crise do retardamento mental na propaganda

17/07/2009 em Propaganda | Deixe um comentário »

Pronto, virou moda. A crise saiu da economia e entrou na propaganda. Crise de retardamento mental.

A moda agora é o saudosismo megalomaníaco e super produzido, a auto-ajuda coletiva, o clichê do clichê da propaganda do Estado Novo, da propaganda maoísta, neo-fascista. É o País-que-vai-pra-frente-em-berço-esplêndido-heil-mein-führer!

As cenas são Pedro Alexandrinos over-pós-produzidos; os textos, Stefan Zweig nanico; as locuções, pompas fúnebres; as trilhas ora singelas aquarelas, ora bandas sinfônicas de coreto e as mensagens comemoram o suor, o esforço e a perseverança tabajara.

O humor não é mais de circunstância: a ordem do dia é a grandiloqüência. A leveza e a poesia são coisa de veado. Contemporâneo é marchar de cabeça erguida varonil.

Por que será que nos deu esse surto de complexo de inferioridade? Os tenentes de pijama saíram do armário!