Artigos na categoria ‘Propaganda’

Boa propaganda mata mais do que inspira

14/07/2011 em Propaganda | Tags: , | 15 Comentários »

Excesso de escolhas mata a escolha. Como aqueles cardápios infinitos que dão preguiça de ler, como aqueles templates que escolhemos afoitamente quando testamos um aplicativo, como entrar na Bloomingdales. Dá pânico. Dá pânico ler guia de cidade turística, o Louvre dá pânico, o controle remoto também e o manual da nova câmera.

Desespera saber que o Bach Werke Verzeichnis (o catálogo de músicas de Bach) tem 1126 obras e que todas universos de infinita imaginação. Dá tremedeira buscar referências. Dá dor no peito e de barriga olhar um short list ou qualquer best of. Dá suor frio browsear as melhores campanhas do mundo. Dá medo. Trava mais do que inspira.

Nossa disciplina, muitas vezes irrelevante para o consumidor, de jamais criar algo que de longe lembre outra coisa, o pavor do olhar crítico de nossos semelhantes, extirpam muita alegria do trabalho.

Para o planejador, referências são como cintos de castidade: exasperam e criam desvios perigosos. O que já foi dito e pensado leva-nos para o que sobra. E talvez não seja a tôa: sobrou porque é ruim.

Para culminar a opressão, ainda lidamos com um caminhão de ferramentas e metodologias. Para os micos amestrados, são um save my ass. Mas para os inspirados, atrapalham e frustram.

Antes de sair enchendo os braços com cabides e mais cabides, antes de metralhar seu repertório com pesquisas e mais pesquisas, que tal pensar no briefing com a cabeça vazia, sem parti pris, sem medos nem referências? Que tal uma dieta de internet, de festival, de conferências? Jejum de todas as metodologias. A propaganda está te deixando chato e medíocre. Pare de ver propaganda imediatamente.

Quanto mais técnica, mais ignorância

11/07/2011 em Propaganda, Sei lá | Tags: , | 2 Comentários »

Passamos anos e anos apurando a nossa técnica de pensar, de falar, de agir. Reconhecemos nossos pares e com essa aliança, rimos dos confusos e ignorantes.

Toda técnica disfarça, por detrás da assertividade, falta de imaginação e insegurança. Toda técnica, por mais eficiente que seja, é um escudo de poder e opressão.

O mecânico, o cara de TI, o despachante, mas também o engenheiro, o arquiteto, o músico, o rei das normas empresariais, o tradutor das siglas, das linguas bizarras que são tantas formas místicas de proteger territórios, tem para todo lado.

Pode reparar: quando a palavra que você não entende é entoada com rapidez, sotaque esdruxulo ou vem acompanhada de biquinho, você pode estar diante de um ataque de tecniquite.

Analise seu interlocutor. Das duas uma, ou ele é uma máquina programada para regurgitar formulas prontas e ele é estúpido, ou ele é perigoso e está querendo te pegar.

A imensa maioria dos técnicos é do primeiro tipo. Nesses casos, a tecniquite é só mediocridade intelectual. Não vale a pena perder tempo. Se você tiver que conviver com eles, mais fácil aprender a meia duzia de bobagem que vomitam. Você vai perceber que quanto mais incompreensível lhe parecer o discurso, mais raso ele é.

Mas tem os outros, os inventores, os generais. Esses criaram os termos, as metodologias, as línguas, siglas e códigos para submeter um bando de imbecil que está a sua disposição para tentar te aliciar. Se você deparar-se com um desses ogros, melhor fazer-se passar por um dos seus soldados.

Mas tem um outro jeito, mais gozado. Seja sincero e diga que não entendeu. Peça para explicar. Faça pose de loira burra. Se o cara for medíocre, ele vai tentar te explicar e você vai se divertir. Se ele for o general artífice de poder, ele vai te mandar a merda e você se livra dele para sempre.

Seleção das espécies empresariais

07/07/2011 em Propaganda | Tags: , , | 7 Comentários »

-       Qual é sua formação?
-       Tenho doutorado em cibernética aplicada à física quantica dos elementos cósmicos.
-       Você tem algum hobby?
-       Sou regente de uma orquestra filarmônica jovem de periferia, jogo pólo, golf e badmington, já fiz cinco exposições de minhas instalações holográficas, participei de 2 bienais internacionais e estou escrevendo meu segundo ensaio, desta vez sobre o papel do riso na história da literatura medieval do ocidente.
-       Já exerceu algum cargo de liderança? Sim, fui chefe do laboratório de uma empresa de nano-tecnologia, fui diretor de operações de 3 empresas que estão no ranking das 10 maiores empregadoras do país.
-       Você tem que idade?
-       Faço 30 anos no mês que vem.
-       Qual é seu maior sonho?
-       Gostaria que nos amassemos uns aos outros. Darwin na Origem das Espécies, escreveu que, na natureza, vence o mais forte. Mas ele só disse isso 2 vezes. No entanto, ele escreveu 98 vezes a palavra amor. O homem se tornou o animal mais poderoso da natureza porque é capaz de colaborar com seus próximos. Não foi porque é mais forte. Sonho com isso.
-       Você fala inglês?
-       Espanhol, italiano, francês, húngaro e mandarim. Inglês não.
-       Ai, que pena. Precisamos de alguém fluente em inglês. Sabe como é, né?
-       Posso lhe indicar o bell captain do meu hotel. Deve servir.

A propaganda é compra de indulgências

04/07/2011 em Propaganda | Tags: , , , | 2 Comentários »

Qualquer crítica que se faça à propaganda é empunhada instantaneamente como bandeira revoltosa.

Do didatistmo de Chomsky ao código de defesa do consumidor, quanto mais simplificado for o discurso, mais barulhento o ativismo. E quanto mais contundente e próspera a indústria da propaganda for, maior o alvo.

A propaganda que sustenta e patrocina os meios de comunicação seria uma estratégia urdida pelo poder capitalista para embrutecer o povo. A equação é tão cristalina quanto ingênua. O jornal Libération, criado por Sartre, tentou retornar à fórmula clássica da imprensa: não haveria propaganda para não haver rabo preso. Falhou como falham os orgãos de imprensa independentes que, se negam a publicidade privada, mamam no dinheiro público para sobreviver.

A Internet noticiosa é a prova mais cabal da regra que se impõe nas sociedades pós-revolução da informação: tentar cobrar do consumidor pela informação, de forma direta e transparente, é um caminho de tortuosas incertezas que poucos ousam arriscar. Por outro lado, a explosão das fontes e dos meios não garante nem qualidade nem audiência. Continuamos a nos pautar, mesmo nas mídias individuais, blogs e redes sociais, nos meios de comunicação tradicionais financiados pela publicidade.

Mas Chomsky talvez tenha mesmo razão, pois a propaganda além de combustível do sistema dá a cara a tapa com soberba. A propaganda é o bode expiatório preferido da nossa envergonhada adesão ao sistema no qual vivemos.

Cannes faz-de-contas

29/06/2011 em Propaganda | Tags: , , | 5 Comentários »

Fui ao Palácio de Versalhes com meu sobrinho, na época com 8 anos. Ao final do passeio, com um ar aborrecido, Gabriel achou o palácio pequeno. “Ué, ele não era o sol?”

O Taj Mahal é mirrado, a capela Sistina parece uma HQ, Paris é uma aldeia provinciana.

É de bom tom voltar do festival de Cannes blasé: “não vi nada que já não tivesse visto antes” ou “nossa, todos aqueles publicitários de bermuda jeans, que brega!”.

É também legal dizer que a qualidade criativa do festival é duvidosa, que passamos vergonha, que é mais do mesmo, que já não é um festival de criação mas uma feira de negócios, que o Carlton é careta e que os restaurantes são caros e vagabundos.

Mas no caso do festival de Cannes, o ar blasé não é só um disfarce cool.

Existem evidências demais do que o Festival de Cannes não é.  Não avalia a melhor criação, nem a melhor agência, não sedia as melhores palestras nem as melhores reuniões nem as melhores festas.  Até porque, tudo que rola lá, rola on-line e on-time sem torrar em euros.

Mas todo mundo emenda o feriadão de Cannes porque continua sendo o maior leilão de head-hunting da publicidade. O festival é um monstruoso circo montado para negociar salários, fees, honorários, in loco ou a distância, na hora ou mais tarde.

Um faz de conta que as agências financiam para roubar ou perder os melhores, ou os melhores faz-de-conta.

Cannes e os anônimos-famosos

21/06/2011 em Propaganda | Tags: , , | 6 Comentários »

Faz tempo que os festivais de publicidade celebram as marcas nanicas e suas proezas criativas que ninguém viu mas todo mundo adora.

Ninguém mais acredita na inocência dos jurados. Eles têm total consciência de que aquilo que estão premiando praticamente inexiste. Um restaurante, uma banda de música, uma escola de linguas são negócios pequenos em qualquer lugar do mundo. Não é esse tipo de marca que movimenta a indústria da propaganda.

A primeira explicação para esse fenômeno é poética. Como no cinema, boa arte não significaria sucesso de bilheteria.

Mas a indústria da propaganda é menos hipócrita, menos inocente também. Afinal de contas, fazer propaganda e vender são quase sinônimos. Não existe criação pela criação.

Então por que tantos cases nanicos entronizados?

Uma espécie de compensação? O gosto do pódium pelo pódium, da medalha pela medalha? Vaidade de rei nu?

A indústria da propaganda é mais séria, mais profissional também. Afinal de contas, não são só nossos irmãos de armas, publicitários, que babam com as grandes-minúsculas ideias. Os clientes também aplaudem.

Mas existe uma mensagem escandarada na celebração pública do nanismo. Quanto maior a marca, maior o risco. Quanto maior o risco, mais firme o cabresto. E quanto mais firme o cabresto, mais chata a propaganda.

Em tempo: espero que tenha ficado claro que a crítica não foi dirigida aos publicitários, desta vez.

O Planejamento de tanto querer ser muito acabou sendo nada

17/06/2011 em Propaganda | Tags: | 10 Comentários »

Palavras são por definição generalizações e simplificações das manifestações que elas simbolizam.

Convenciona-se chamar uma coisa em que se senta a bunda de cadeira, por exemplo. Aquilo em que não se senta a bunda não é cadeira. Uma cama é aquilo em que se deita para dormir. Mas se você não deita para dormir numa determinada cama, então você não pode chamar aquilo de cama. Você pode chamar essa coisa de sofá por exemplo. Se você usar a cadeira apenas para alcançar um livro na estante, você não deveria chamar a cadeira de cadeira mas de escada que é a coisa que assim se convencionou denominar para esse uso.  As palavras são portanto tentativas de organizar confusões e imprecisões.

Chamamos Planejamento uma área de uma agência de comunicação que tem por função ou missão pensar no tempo e no espaço como as iniciativas de uma marca irão concatenar-se, organizar-se, disciplinar-se, evoluir, transformar-se. Deve ser isso que o Planejamento, cujo nome é preciso, faz. Mas não é. Porque ele faz outras coisas também. E essas outras coisas são mais importantes. O Planejamento cria insights, raciocinia os canais, dá um verniz filosófico ao discurso comercial, e mais um monte de outras coisas. Palavras, palavras, palavras e mais palavras.

Em suma o Planejamento de uma agência de comunicação é uma cadeira que não serve para sentar a bunda, uma cama que não serve para deitar. É uma cadeira que é uma escada, uma cama que é um sofá.

Planejamento é um nada que é muita coisa. Ou muita coisa que não é nada.

Planejamento não é nem cadeira, nem escada, nem cama nem sofá. Planejamento é bengala ou seja, aquilo que usamos para se apoiar e ajudar o membro mais fraco, atrofiado ou doente a andar.

Big Idea: muito big e pouco idea

13/06/2011 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

Fomos disciplinados que a ideia é origem de onde nascem e explodem todas as iniciativas de comunicação de uma marca. Como Lancelot, perseguimos com o coração puro e convicção inamovível, o graal fundador, a big idea.

É muito comum no entanto perseguir-se uma big with idea ao invés de simplesmente uma idea. Superlativar uma idéia é um pleonasmo, a menos que o significado de big seja algo como caro ou barulhento. Assim – e muitas vezes – o que é big tem mais importância do que é idea. Uma celebridade loira, um jogador de futebol, um gordo que anda de avião, um cantor supersticioso ou outro socio-fóbico, desde que seja muito difícil de conseguir e custe os olhos da cara, é uma big idea.

Quem cunhou o termo pela primeira vez, pode ter tido uma intenção diferente, talvez ele tenha simplesmente pensando em diferenciar essas ideias daqueles suspiros originais tão comuns, daqueles gadgets criativos que costuma-se perseguir na falta que faz uma certa liberdade necessária para quebrar regras. Pois se estamos tolhidos por pesquisas e opiniões precoces, resta-nos procurar as centelhas microscópicas. Mas a big idea enquadrou-se, aviltou-se, e virou simplesmente uma ideia que se encaixa nos cabrestos conservadores com voz portentosa. E por que tem que se moldar às mediocridades hierarquizadas, perde seu pedigree de ideia.

Uma ideia antes de ser grande ou pequena, tem que ser boa. E para que seja boa, ela tem que ser nova, pertinente  e surpreendente. Só isso e não é pouco.

Mas a brisa megalonanica sopra.

Nem desmamou já quer ser diretor

09/06/2011 em Propaganda, Sei lá | Tags: , | 13 Comentários »

Uma coisa lá em cima brigava com outra là em baixo. Não se entendiam sobre as qualidades que os seres vivos que acabavam de inventar deveriam ter. Finalmente, chegaram a um acordo, um conceito fundador, uma regra determinante, uma lei magna sob a égidie da qual, a Criação inteira deveria reger-se: a temporalidade.

A temporalidade foi definida no tratado criador como “direito ao gozo fugaz”. Até hoje, não se sabe ao certo quem defendeu o gozo – se Deus ou o Diabo – e quem adjetivou – se o Senhor ou o Maligno. Mas o fato é que desde sempre, fomos abençoados e condenados na mesma sentença.

É por isso que vivemos e morremos, por exemplo. É por isso que a flor murcha, que o riso amarela, que o prazer acaba e que a saudade nos move.

Mas o homem antes de cair de pé comeu uma maçã enfeitiçada. E essa maçã tinha uma sabedoria. Nem là em cima nem là em baixo, ninguém percebeu. A sabedoria ensinou um truque poderoso: o gozo é fugaz mas quanto mais longo o prè-gozo, maior o gozo.

Tem uma gente jovem e bonita que não aprendeu dessa maçã. Ou foram as maçãs que ficaram desalmadas.

Queremos ficar inteligentes, cultos e poderosos já,  imediatamente. Ricos, muito ricos, cada vez mais ricos  amanhã. Nem saiu das fraldas, já se vê presidente, mandando, arrotando, cacarejando e se estufando.

O pré-gozo ficou tão curtinho que o gozo depois é bem   murchinho. Pula-se de gozo em gozinho, cada vez mais zinho. Até morrer um dia, e nem sacar o gozo que pode ser.

Calma gente!

Esse blablabla das marcas

31/05/2011 em Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

Somos piedosos missionários, diligentes evangelizadores, profetas da sacralidade das marcas. Mas como é monótono esse discurso, repetitivo e tão banal que dá preguiça de atentar.

E é simples e divertido mudar os parâmetros. Inspirador de outras análises.

Na rua e na vida, marcas são símbolos de quatro tipos, conte-se a história que se queira contar.

A Dimensional. Seu principal atributo é o conforto. Não vi, não lembro, não me importa. Passou batido, não trocamos nenhum íon. Mas uma marca Dimensional da enchimento ao vazio selvagem e aleatório da natureza.

A Córporea. Seu principal atributo é a segurança. Procuro, vou atrás, me garante. Gosto de tê-la por perto porque ela me ajuda a separar o que presta do que não presta. Uma marca Córporea dá sentido e ordem à vida.

A Imagética. Seu principal atributo é a projeção. Sei para que serve, me dá cobertura, máscara, armadura e armas. Me tira do conforto, da segurança. Uma marca Imagética me dá coragem para mudar a vida.

A Metáfísica. Seu principal atributo é a definição. Perdi a noção de onde ela começa e onde termino. É uma marca que exala e inala minha personalidade, meus valores. Uma marca Metafísica é o que sou, enquanto sou aquilo que quero ser.

Os quatro tipos não são excludentes, nem estágios de maturidade.

Conforto-me com a o queijinho na geladeira. Chego tarde à noite, com fome. Não preciso pensar nem ter trabalho. Descasco e como, fofão.

Assegura-me saber que tem aquele sabonete na gôndola. Sei escolher porque aquela marca é quem me dá certeza de não errar. Vai me lavar com cheirinho gostoso.

Projeto-me naquele carro que dirijo. Ele diz sobre mim o que nem sempre sei que sou. Me anuncia, é meu batedor e protetor. Me leva onde desejo ir com sinopse.

Defino-me com o perfume que borrifo. Sem ele, não acordei, não fui parido, não sou ainda. Sou meu perfume em estado gazoso.

As marcas, assim definidas, devem trabalhar o atributo definidor e podemos ir mais longe na análise. Não há certo ou errado. Há adequado ou inadequado, harmonioso ou dissonante, correto ou exagerado.

E principalmente, há um outro olhar, porque os que recitamos, recitamos cansados.

O novo criativo, das profundezas e superfícies

30/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 7 Comentários »

A grande sorte da “criação” das agências de comunicação é elas terem, de todos as estabelecidas áreas, o melhor nome: Criação. Criar é uma atividade que conjuga a habilidade para expressar-se de forma escrita com aquela para fazê-lo de forma visual. Criar significa também e principalmente, ambas  as linguagens confundidas, aprofundar-se na essência de uma ideia. Pensar o conteúdo para além da forma.

Assim usurpado o sagrado coração da profissão, os impostores desenvolveram proteções ardilosas que empurram as outras “especialidades” numa periferia necessária mas acessória.

Sem querer entrar na retórica cliché de “agência de ideias em todas as áreas”, um mutável virus introduziu-se na indústria da comunicação: a o big bang dos meios, a Internet. As habilidades de redator e diretor de arte não parecem mais suficentes para Criar. Uma garotada domina outra linguagem, que, embora pareça suja de graxa, é curiosamente celebrada nos grotões novos ricos da indústria tecnológica. A primeira reação é enquadrar os energumenos que nascem nesse mar subterrâneo numa lógica conhecida: designers digitais e programadores – tipos novos de produtores. Assim (e ainda), para salvar a proteção territorial, incorporam-se esses novos à “criação”.

Mais vale, no entanto, entender que linguagem “nova” é essa que as plataformas digitais demandam? Certamente não se trata apenas de uma habilidade específica para produzir em ambientes virtuais.

De forma sintética, os novos “criadores” são pessoas que possuem talento ou desenvoltura, para “criar” horizontalmente, numa multitude encadeada e estratégica de meios. Não são designers nem programadores – embora possam sê-lo, assim como podem ser diretores de arte ou redatores clássicos – mas falam uma língua que pensa transversalmente mídias afora. Podem ser também mídias, planejadores, atendimentos.

E por que essa “habilidade” é uma habilidade que soma (e integra) e não substitui?

Voltemos à definição de “criativo” do primeiro parágrafo: “criar” é aprofundar-se na essência de uma ideia. Como era esse o talento necessário para tornar-se um dos bons (e não só um original pirilampo), com o tempo, as atividades acessórias aproximaram-se desse olimpo, e em particular o planejamento. Até chegarmos ao momento em que “planejar” e “criar” confundem-se na busca da conceituação profunda de mensagens, discursos e histórias que seduzam, envolvam e fidelizem o coração dos consumidores. “Criar” é (ou era) portanto verticalidade, essencialidade.

Isso funcionava, e bem, em um mundo em que poucas e domesticáveis são as interfaces com os consumidores. Não funciona mais depois do big bang.

Criar é portanto, hoje, verticalidade e horizontalidade ao mesmo tempo. É a habilidade indissociável de intuir e pensar profunda e superficialmente, na largada, desde o primeiro briefing. E essa nova Criação está na mídia de um novo tipo, no atendimento de um novo tipo, na “criação” de um novo tipo e principalmente no planejamento de um novo tipo.

Falta bom senso nas estratégias de redes sociais

25/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , | 11 Comentários »

Todos os dias ouvimos falar dos tsunamis de reputação que abalam o mundo. O poder insidioso e contagiante de um post ingênuo em alguma rede social, arrepia, apavora, paraliza.

Quando se bate com o martelinho naquele ponto sensível do joelho, a perna dá um coice, geralmente desproporcional à força do impacto. Todo reflexo, quando bem estimulado, é superlativo.

O bom senso escorrega tão rápido quanto a coragem de assumir riscos, principalmente quando estamos lidando com o desconhecido sub-mundo digital. E via de regra, a retranca é ordenada: “se não estou preparado para entrar nas redes sociais, se tenho telhado de vidro, deixa quieto”.

Mas é evidente que essa política, de enterrar a cabeça no chão com a bunda de fora, excita os atiradores de elite.

Ocorrem portanto dois movimentos que se anulam. O extase iluminado e a covardia de procuração. Exageramos os impactos justamente acreditando que eles podem despertar da letargia: “cuidado, sua marca está a mercê de qualquer consumidor histérico!”. E a reação, o reflexo, é seu corolário: “a ordem vem de cima, me desculpa, mas é melhor não mexer no vespeiro”. Mas as vespas não são nem tão histéricas nem tão inocentes.

Talvez devessemos começar a medir, ou estimar, os riscos: qual é o potencial de contagio? Talvez devessemos criar mais alarmes do bem, e menos alarmes do mal. Ao invés da chantagem “cuidado, você está correndo perigo!”, o estímulo “olha o tamanho da oportunidade”.

E talvez, mas principalmente, tenhamos que conter nossos impetos catastrofistas do lado de cá.

E do lado de lá, não acreditar na máxima “falem mal, mas falem de mim”, porque, afinal de contas, falar mal é muito mais legal.

Falamos (inglês) antes de pensar (em português)

23/05/2011 em Propaganda | Tags: , | 6 Comentários »

Nosso big mac é igual ao big mac dos outros, nossa bolsa Kelly é igual às bolsas Kelly das outras, nossas campanhas publicitárias são de nível internacional.

Tem um lado bom contar com as mesmas referências dos gringos, nem que seja para aprender com suas derrapadas ou copiar sem vergonha.

Mas desde que o consumo virou o maior (e único) embaixador cultural do mundo, a Paris Hilton é nossa referência inconfessável.

A indústria “cultural” de massa carrega valores de mínimo denominador comum quando exportada. É seu jeito: simplificar para reinar. E cá estamos: são os valores do strip mall Americano que consumimos com sofreguidão. Não é a New Yorker que nos pauta, é a Fox News.

Disseram-nos que o inglês é a língua do futuro. Disseram-nos isso quando mal falávamos português. Quando mal sabíamos pensar. Quando mal sabíamos que referência não é espelho, é inspiração.

Publicitários são pedreiros sem pedreira

19/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 5 Comentários »

Muitos desenham enormes raciocínios para tentar revisar a segunda palavra de nossa denominação: publicidade, propaganda, ideias, comunicação, etc. Somos agências de publicidade, propaganda, ideias, comunicação, etc. Vá lá que hajam diferenças, semânticas e de fato, em cada uma das entregas.

Mas muito pouco ou quase nunca se discute a primeira palavra: assumimo-nos sem questionamento como agências. E agênciar significa que intermediamos serviços de terceiros. Por isso somos remunerados.

No entanto a palavra “agência” subentende que nada ou pouco se obra. Usamos recursos intelectuais, criativos, produtivos de terceiros que escolhemos (nem sempre) e organizamos (mais ou menos).

Não é humildade nem abnegação muito menos compartilhamento generoso. É que os publicitários secretam a crença de que o trabalho intellectual – ou criativo – abstrato, inspirado, de fonte secreta, misteriosa e portanto de valor inefável, vale mais do que o trabalho produtivo, que faz coisas, que suja as mãos, que pode se mensurar, se equacionar e automatizar. Conceber é mais do que fazer.

Ainda que a mística criativa encanta e seduza, a capacidade de produzir é uma arte em si que não deveria ser tão menosprezada e desvalorizada.

Quem cria também faz, pelo menos é assim na indústria mais flamejante do século, na teconologia da informação ou seja lá como chamemos o ramo de atividade da Apple, do Google, do Facebook. Quem inventou a Internet não a concebeu numa prancheta e intregou seus rabiscos a excutadores diligentes, sentou a bunda na cadeira e programou. Quem cria faz e quem faz cria.

Por que agências continuam sendo agências, que nada fazem, nada produzem? Até quando essa crença na lâmpada, na maçã, na banheira, no estalo divino, concedido e não obrado?

Só que vivemos um mundo mais complexo e histérico que no passado. Mais competitivo e com recursos mais escassos do que queremos crer. E se não formos capazes, rapidamente, de usar nossa inteligência e sorte para fazer ao invés de agenciar, corremos o enorme risco de virarmos resignados executores de criações alheias.  Pedreiros sem pedreira.

O paroxismo da comunicação sem mensagem

18/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 1 Comentário »

No começo era o verbo. Milhares de anos depois o verbo não resolveu o caos. E de tradução em interpretação, o sentido se perdeu e verbo significou comunicação e muito blablablá.

Para o pensador Georges Haldas, verbo é o que une sujeito e objeto, dentro e fora, “em cima” e “em baixo”. Verbo é conexão.

Mas para aterrissar as discussões mais metafísicas, façamos um exercício gramatical para entender o que é essa conexão.

Na sentença “Maria (sujeito) ama (verbo) chocolate (objeto)”, o verbo é o que une Maria ao chocolate. Mas o verbo não é só forma, é também, e principalmente, sentido. “Maria detesta chocolate” dá um sentido diferente à conexão entre Maria e o chocolate.

Se cavarmos um pouco mais o raciocínio, destituindo-lhe de todo brilho filosófico, o verbo é o meio que une sujeito e objeto, o meio que une emissor e receptor. É um raciocínio semelhante que nos fez, um dia, acreditar que a comunicação era a engrenagem do nosso sistema. A comunicação é o verbo (relação) entre um emissor e seus muitos potenciais receptores.

Investimos por décadas na tese de que o meio prevalece sobre a mensagem. Tese extremamente bem sucedida em toda lógica broadcast de transmissão de mensagens. Em outras palavras: fale, grite, repita, à exaustão, qualquer coisa, ou qualquer coisa bem simples, mínimo denominador comum, que o meio se encarrega do mais importante: convencer.

Gastei todo esse verbo aí para chegar no cliché do cliché, que um dia foi genial: o meio é a mensagem.

E veio a Internet, veio o quantum leap e os meios viraram um googol tendendo ao infinito. Incontrolável, com geração expontânea e exponencial.

Como é que faz agora? Ah, já sei: mídia de massa significa de um para muitos e de preferência para todos. Ficamos anos soltando pum sem pedir a opinião de ninguém ou de poucos. O povo ficou puto, inventou a Internet e ferrou a gente mas vamos ferrar eles de volta. Vamos abrir o canal. Vamos fazer a via ser dupla. Vamos ouvir essa gente diferenciada, dar voz à negrada e pronto, tá resolvido. Vamos ser interativos, colaborativos e o escambau.

Mas comunicação é só conexão? Adianta abrir retorno? Verbo não era conexão com sentido? Cadê o sentido?

Às vezes, não dá a impressão que estamos destituindo a conexão de sentido?  A mensagem que uma dia foi substituída pelo meio não estaria agora sendo mais uma vez subvertida pela interação ainda mais vazia de sentido?

A mensagem escrava do meio agora é escrava da interação e assim perde o pouco do sentido, vulgar, que ainda lhe restava.

O nome na ficha enquanto o nome na porta não vem

29/04/2011 em Propaganda | Tags: , | 3 Comentários »

Tem muita coisa que mudou, mas tem um porão que dá medo de encarar: o “nome na porta” ou sua versão menos ambiciosa “na ficha”.

É deliciosamente reveladora a procissão que se arrasta todo ano atrás dos holofotes de led chinês de Cannes. Não por Cannes, nem pelo vinho, nem pela farra, nem pelo glamour murcho da riviera. Ela começa antes, muito antes. Aliás ela não começa nem acaba, ela se persegue. Estar na ficha e quem sabe um dia em letras douradas na porta, é um incentivo que vale o ridículo de mendigar 3 linhas em algum jornal, o ridículo de colecionar estátuas, o ridículo de usar todo esse ridículo para barganhar um aumento, enquanto o nome na porta não chega.

Mas essa vaidade toda é toda a virtude. Se fosse só para vender mais o bônus do cliente, se fosse só para agradar mais o bônus do cliente, se fosse só para mais bônus para nós também, ainda estaríamos batendo lata na rua do comércio. Se fosse só para fazer esse vulgar insight, esse vulgar check list, essa vulgar pesquisa, qualquer software vulgar daria essa luz.

Essa é a cruz e a calderinha do publicitário, sempre entre o ridículo e o vulgar. Dureza.

Don Draper dança minueto

20/04/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 7 Comentários »

O que o melômano sem formação teórica percebe da música são melodias e harmonias e, vez por outra, surpreende-se com as estruturas. Não por acaso, a música é popular não somente quando as melodias e harmonias são simples, mas porque as estruturas são intuitivas, sem sofisticação.

A criação publicitária ficou nesse mesmo “been there, done that” por décadas. Ainda que o pensamento tenha evoluído e “as ideias estão em toda a parte” seja um leitmotiv (planejamento criativo, mídia criativa, atendimento criativo, criação criativa), o clichê nem sempre é real.

Nas novas plataformas de comunicação, é um equívoco isolar-se das estruturas, sempre novas, que movimentam o comportamento das pessoas. A mídia display, recentemente ainda soberana, perde espaço para as novas experiências de engajamento dos consumidores. É preciso, sim, envolver-se com mecanismos mais técnicos, caso contrário a criação – como ela ainda é – não passa de decorativa.

É difícil quebrar o ritmo, chacoalhar as mentalidades calcificadas por sistemas embriagadores que funcionaram por tantos anos. Os festivais e prêmios publicitários, apesar do esforço de renovação, são o exemplo mais evocativo do vício do qual a criação publicitária clássica padece.

A menos que resignifiquemos a palavra criação publicitária, ela não passará em breve de uma especialização, uma necessária mas não crucial atividade, perdendo sua centralidade e atratividade para as marcas. Decoração versus arquitetura.

Mad Man é charmoso mas, se ainda parece que os modelos de trabalho atuais são parecidos com os da Sterling Cooper, então continuamos fazendo minuetos e sarabandas na criação publicitária.

Consumidores primatas e especialistas brilhantes

13/04/2011 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Os consumidores mentem. São influenciados. Não têm opinião própria. São burros e ignorantes. Repetidores treinados que não sabem emitir julgamentos novos, suas referências são lugares comuns. Gostam de dar opinião, mesmo que não acreditem ou não entendam o que elas significam.

Esse bando de chimpanzés, esse rebanho de ovelhas são o que somos, na média, todos nós. Essas bestas que somos compram. Por isso precisamos delas. E, porque dependemos de suas escolhas, ouvimos o que elas têm a dizer.

Especialistas sabem dar opinião, acreditam no que dizem e entendem o que lhes perguntam. Especialistas são pessoas que dedicaram muitos anos de suas vidas fazendo a mesma coisa. Essas coisas que fizeram tanto mobiliam o imaginário e moldam a lógica.

Essa seleção de amestrados, esse clube de pacientes malabaristas são pessoas que precisamos para nos ajudar a entender os animais que compram. Dependemos de suas opiniões e de suas inteligências treinadas.

Como esperar inovação ou frescor do calejado especialista que decodifica a massa sem forma, sem cheiro, sem graça? Porque muitas vezes os papeis se invertem: especialistas pensam como consumidores e consumidores como especialistas.

Por que será que não podemos selecionar consumidores diferentes, cuidadosamente pinçados por suas habilidades originais? Por que será que não podemos escolher especialistas puros, sem vícios, sem experiência para ouvir e relatar? Para experimentar, divertir-se ou inspirar.

Os novos fantasmas da propaganda

12/04/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 12 Comentários »

Muitos anos atrás, a Internet era uma curiosidade intelectual, como o hermafroditismo dos cavalos marinhos ou o matriarcado das sociedades celtas primitivas. Como é da natureza de todas as idéias divergentes, com o tempo, o assunto tornou-se alvo de ideários inflamados, com argumentos simplórios, como as boutades conservadoras do premier israelense ou de algum ditador africano.

Mas já há alguns anos, a Internet tornou-se uma coceira agradável no discurso de muitos profissionais de comunicação. Uma feridinha que a gente acalenta com prazer, um pecadinho, íntimo, gostoso.

É que na Internet, muitas frustrações se acobertam e o ambiente sorri de volta a ambições fora de moda.

Se a mídia tradicional fechou suas portas para experimentações e ousadias desconexas, temos a Internet para veicular nossas quimeras no Youtube. Se a mídia tradicional encafifou com a forcinha espontânea que sempre deu a idéias originais, sempre haverá um blog “muito influente” afim de dar cobertura gratuita.

Então vemos surgir defesas mirabolantes para investimentos eufemisticamente corajosos: “põe na Internet que a coisa se espalha!” ou “vai dar mídia espontânea”. O intangível e incontrolável justifica.

É assim que nascem os cases de vaudeville que se empilham nos festivais de propaganda.

Prêmios de propaganda e a guerra imaginária

07/04/2011 em Propaganda | Tags: , , | 11 Comentários »

No começo, você se surpreende, feliz, com a recompensa gratuita que premia um trabalho bem-sucedido. O prêmio, que você esperava ou não, é a coroação sem compromisso do seu esforço.

Depois, você percebe também, satisfeito, que as pessoas olham para você diferente, que elas comentam antes as medalhas e depois os feitos de guerra. Seus distintivos deixam então de parecer merecimento e passam a ser uma patente que lhe qualifica.

Quando você se dá conta, orgulhoso, de que seu uniforme paramentado atrai as atenções, você passa também a agir diferente, com mais segurança e condescendência. A lapela decorada justifica a gamela nem sempre saborosa, o catre nem sempre confortável, as ordens nem sempre gentis, as mortes nem sempre justas.

Os generais também gostam de se cercar de oficiais com feitos reconhecidos. Quando assinam-se tratados, alianças e declarações, quanto mais medalhas, maior o pio. E quanto maior o pio, maior a partilha, os provimentos, as honras e mordomias.

Até que um dia, a guerra que se faz no estado-maior não tem mais nada a ver com a das trincheiras. Você se bate do bunker, vocifera ordens imaginárias e leva um tiro do mais raso dos soldados.

No começo, você ganha um prêmio em um festival de propaganda e fica feliz. Não esperava. Chora de emoção.

Depois, você ganha um aumento, uma promoção ou uma proposta e percebe que isso não caiu do céu, caiu do palco de Cannes.

Então, já com a estante a preencher-se, você facilmente perde a paciência. Sempre que o cliente parece ruim demais, o briefing tosco demais e os consumidores burros demais, você se consola nos braços dos leões.

No seu clube, entre amigos, todos são iguais porque todos têm prateleiras cheias. La a vida é cheia de piadas, trocadilhos, e compete-se pelo apelido mais criativo. Já nas salas de reunião, você tem chiliques e poses.

Até que um dia, toda propaganda que você não fez é feia, suja e maltrapilha.

Até que um dia, a propaganda que você não fez ganha nas salas de reunião e ganha a rua.

Até que um dia, a propaganda que você fez vai para o YouTube.