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Pra ver a sucata passar.

04/04/1999 em Sei lá | Deixe um comentário »

Não sei quando começou mas um dia, e a partir de então cada dia mais, o homem foi ficando ansioso, aflito, estressado, histérico, acelerado ou quase maluco. De repente um monte de coisas novas pipocavam aqui e ali. Mal dava tempo de tê-las que já velhas estavam. E tal a rotatividade que em pouco tempo o importante não era mais o valor de uso mas seu valor de desuso. Não sentia ele mais tesão algum em usar pois quando vinha a usar, ele já fixara-se em algo que ainda não tinha e que viria a usar em breve. E assim até atravancar a atmosfera de intocado entulho. E as indústrias do mundo inteiro passaram a produzir sucata em escala. E os homens e mulheres do mundo inteiro passaram a desejar sucata. Entra sucata, sai sucata. Mal entra, já sai. Mal sai, já entra mais. E a terra virou um enorme estômago. Um estômago que come sucata e caga sucata.

E foi assim com tudo e todos. E é assim com tudo e todos.

Eu por exemplo me considero um glutão. De sucata, claro. Mas tem sucata que eu gosto mais que outras. Sucatas tecnológicas adoro. Um sucateiro inventou uma sucata formidável no MIT, já começo a me roer as entranhas de desejo. E quando ela é exposta nos templos cibernéticos, faço de tudo para possuí-la. Não olho o preço. Só o prazo de entrega. E quando chega bonitinha na minha casinha, isso depois de muitos pesadelos porque a rainha da sucata é uma instituição chamada correios com corpo e cabeça de sucata enferrujada, defloro a coitada no colo como se aquela fosse a última gozada da minha vida. E depois? Ué, o que se faz com sucata? Jogo fora.

Tem outras sucatas que aprecio também muito. As sucatas informativas por exemplo. Alguém falou e eu já estou como um cão tarado digerindo aquilo com sofreguidão. As sucatas de idéias também: alguém pensou e cá estou dissecando-a freneticamente. E por aí vai.

E, adivinhem quem é o símbolo da sucata de fim de milênio? Ora, a Internet, é claro. E eu ia falar dessa sucata agora, mas será que adianta? Porque seu fascínio reside na sua formidável capacidade de criar, produzir e digerir sucata.

Nesse fim de milênio, meio peixe indo pro áquario, o que interessa mesmo é o derramar, o fluxo. É como se fosse necessário deixar passar e passar o mais possível para aumentar o débito. Não importa mais armazenar e construir, só deixar passar. Porque o que está vindo agora não dá nem pro gosto. Não dá para sacar o que vem por aí. Só dá pra saber que é inevitável e quanto antes chegar melhor.

Por enquanto, o que se pode ver é que esse fluxo está provocando muitas inundações por aí, destruindo estruturas, abalando alicerces. Basta ver as crises financeiras dos últimos tempos. O dinheiro voa na velocidade da luz. Sai daqui e pinta ali num piscar de olhos e uma cochilada dos governos. O dinheiro é parte desse fluxo. E isso vai piorar. Muito e graças a Deus.

Portanto, o segredo é arreganhar as tornerinhas, abrir as comportas. Ajudar a sucata a passar. Mas antes de tudo cair na real e entender que tudo não passa de sucata. Sucata que só se justifica para alargar o débito. Alargar a banda. Mas sucata, portanto por si só, inútil.

Globalização: Universalização, Vulgarização ou Totalização?

16/03/1999 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Globalização serve hoje tanto para qualificar campanhas mundiais de grandes marcas, bolsas de valores que viraram playground dos capitais voláteis, processos de produção miraculosos e a versão chinesa da novela “A moreninha”. E essa confusão nasce porque chamam um jogador de futebol para falar da nova campanha da marca que o sustenta, um especialista em recreação infantil para analisar as crises financeiras, uma vidente para comentar reengenharias e um professor de mandarim para dar palpites novelísticos.

Falemos de globalização da comunicação, por exemplo.

Sob essa ótica ela pode ser entendida de três formas distintas:

1) Universalizar ou “Globalizar é integrar”

Quando entendemos Globalizar como uma ação que busca “integrar” ou “dar unidade a” estamos partindo do pressuposto que existem diversas ações, “espalhadas” e que elas precisam “conversar” entre si e “espelhar-se”.

Globalizar a comunicação significa Universalizá-la ou seja criar conceito de marca, identidade de marca, independentemente de qualquer conjuntura, cultura, língua ou mercado.

Assim, os benefícios dessa visão em comunicação são:

- Conceitualização precisa e abrangente;
- Construção de uma marca sólida e que se adapta naturalmente;
- Resultados escalonáveis e realistas.

Alguns exemplos ilustrativos desse tipo de visão são dados pelas campanhas do MacDonald´s e Coca-Cola.

1) Vulgarizar ou “Globalizar é Padronizar”

Agora, estaremos vendo a Globalização como sinônimo de Padronização. E este é um dos erros mais comuns.

Padronizar significa necessariamente encontrar mínimos denominadores comuns na identidade de marca em função dos diferentes mercados, conjunturas, culturas e línguas nos quais serão difundidos.

Os vícios deste raciocínio falacioso em comunicação são óbvios:

- Conceitualização vaga;
- Ao invés de aproveitar-se dos potenciais locais, eles são criados ou inventados;
- Resultados desiguais e que não levam em consideração os potenciais de cada mercado.

Exemplos: Nike, IBM, Nokia

3) Totalizar ou “Globalizar é Copiar”

Aqui, Globalizar não é mais mutilar sem sutilezas o conceito como na alternativa anterior, mas sim limitar-se a traduzi-lo literalmente ou copiá-lo.

Assim, numa Globalização entendida dessa forma, a comunicação de uma marca irá limitar-se a uma reprodução vulgar do conceito para qualquer conjuntura, cultura, língua ou mercado de forma totalizante ou totalitária.

E aqui, os erros são ainda mais fáceis de enumerar:

- Conceitualização cega;
- Desrespeito ou desprezo às particularidades locais;
- Cobrança de resultados em função daqueles obtidos na matriz.

Exemplos: Philips, L´Oréal, American Airlines, Motorola.

A conclusão é obviamente que o conceito de Globalização seja entendido da forma mais próxima possível da primeira visão: Universalização.

Existem modelos que se adaptam favoravelmente aos três conceitos, outros que insistem há décadas em reproduzir os mesmos erros e entre as duas extremadas visões, Universalizar e Copiar, o posicionamento das empresas pode também variar, mas é imprescindível que haja sempre uma chancela local (filial) às decisões globais (matriz).

Poderíamos ainda classificar as três visões conceituais de comunicação sob um prisma gerencial e dizer:

- “Globalizar é integrar” significa “Você (Local) manda, eu (Global) Cobro”.

Liberdade para ações locais e interpretações localmente corretas dos conceitos criados.

- “ Globalizar é padronizar” subentende um “Você (Local) cobra, eu (Global) mando”.

Dependência unilateral da filial que cobra da matriz leituras mais corretas dos conceitos para a realidade local.

- “Globalizar é copiar” é simplesmente a tradução de “Eu (Global) mando, eu (Global) cobro”.

Nenhuma liberdade por parte da filial que contenta-se com uma execução subserviente das decisões da matriz.

E na Internet como única mídia que já nasce global, o risco que se corre de confundir integrar, padronizar e copiar é maior ainda. Por isso, morte aos malditos guidelines internacionais e a essa maldita mentalidade neo-colonialista.

Quem estamos crucificando?

18/02/1999 em Sei lá | Deixe um comentário »

De um lado uma mídia fogosa mas virgem, a Internet. Do outro, as tradicionais, em crise de impotência. E os anunciantes com suas agências a tira colo estressados com esse eterno adolescente prodígio. Vou contar uma historinha.

Outro dia, a Procter & Gamble, um dos maiores anunciantes do planeta convocou uma reunião com suas agências para discutir os rumos de suas verbas de publicidade na Web. O nome da convenção não poderia ser mais apropriada e chamou-se FAST (Future of Advertising Stakeholders) ou, em bom português “Façam Antes que Suma o Tesão”. Na reunião, estabeleceu-se basicamente que a companhia iria estimular a utilização de novos formatos de publicidade na Web, pressionar os veículos para a adoção de formatos com maior efetividade (rich media) e ainda, sempre que possível, impor um formato de remuneração dos veículos através da taxa de click through no banner e não mais via impressões de páginas. Conclusões alvissareiras.

Mais do que depressa, outra gigante do setor, a Lever, sacudiu-se toda e convocou uma reunião igualmente bombástica e anunciou que “As idéias na propaganda e a criatividade não agregam valor nesta nova era de fragmentação proporcionada pelas novas mídias, pela aceleração da escolha do consumidor e pela interatividade one-to-one” ou, em outras palavras, “minhas agências de propaganda são incompetentes”.

A reação veio à galope e o estafeta foi o CEO da Saatchi & Saatchi que, em nome de todas as agências e em particular da sua afirmou “As agências não são dinossauros. Somos Godzillas e queremos tudo: TV, mídia impressa, infomerciais, rádio, sinais de fumaça e a web. Qualquer que seja a mídia adequada para comunicar iremos adotá-la e usá-la”.

Mas me parece que a poeira levantada foi pequena porque o mercado prescinde ainda de reforços. Os anunciantes estão um pouco fartos de tanta espuma e mais do que depressa soltam os cachorros em suas agências de propaganda. Mas se as agências devem assumir parte da responsabilidade pela lerdeza com a qual reagiram ao crescimento vertiginoso do mercado, não me parece justo culpalizá-las integralmente.

Outro grande player está dormindo no ponto também e ele se chama “Veículo de comunicação”. Ele foi relativamente rápido na hora de acompanhar a migração do interesse dos leitores da mídia impressa para a digital. O problema é que ele focou-se por demais nos leitores e por de menos nos consumidores. E aqui reside um grave impasse. O leitor chegou aos borbotões na Web mas o consumidor ficou de fora. O conteúdo está lá mas a publicidade é marginalizada senão ausente porque simplesmente esqueceram-se da grande obviedade do mercado: o leitor e o consumidor são a mesma pessoa.

E vão me dizer agora que a culpa é só das agências por não ter motivado os anunciantes a submeter a comunicação de suas marcas ao vexatório espaço criado pelos veículos?

E que não me venham com a esfarrapada desculpa da largura da banda porque este é um argumento que só se encaixa em duas categorias: a da ignorância ou a da preguiça.

Porque desse jogo tolo, quem está sendo crucificado não é o veículo, tampouco a agência. É o anunciante. E por tabela, o consumidor.

O dervixe e os web-designers.

20/01/1999 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Um dervixe reputado por sua sabedoria e paciência, qualidades raramente encontradas em uma mesma pessoa o que o tornava particularmente venerado, foi procurado por três web-designers, excitados e impacientes, qualidades muito encontradas nessa categoria de gente, o que faz delas pessoas especialmente irritantes, ainda mais para um contemplativo e sorridente ser de Luz.

Os três aventureiros aproximaram-se de Al Web Sabiah, esse era o nome do dervixe, e perguntaram:

- Al Web, você que muito sabe e muito tem para dar, diga-nos como alcançarmos o sucesso.

O dervixe, coçou pacientemente a omoplata direita e disse:

- A resposta a essa pergunta deverá ser individual, intransferível e vai exigir de vocês grandes sacrifícios.

Todos aceitaram em únissono, gritando e pulando como loucos, o que fez Al Web franzir o cenho e coçar o terceiro artelho esquerdo.

Acontece que os três compadres eram tão diferentes em intenções e saber quanto podem ser três caroços de uma mesma romã.

O primeiro Al Uno era sonhador e mentiroso. O segundo, Al Duo, por sua vez, pragmático e chato. Já Al Trio, o terceiro, era cuidadoso e medroso.

O dervixe, que já havia perdido todos os dentes de tanto morder em caroços de romã, particularmente naquela salada Fatouche do Arábia da Hadock Lobo, sabia muito bem com quem estava lidando.

Disse então Al Web para Al Uno:

- Você vai para além da transcaucasiana. Lá, você vai encontrar uma terra inóspita mas povoada de ingênuos e dóceis índios. O sucesso está lá, mas cuidado. Mentira é como leite de cabra, coalha rápido e quando coalha dá uma dor de barriga!

Para Al Duo, Al Web não poupou tampouco conselhos e disse:

- Al Duo, você vai para lá das montanhas Kut-u-Khan. Lá, você vai encontrar gente muito rica e generosa. O sucesso vai sorrir-lhe. Mas toda atenção é pouca. A caverna de tesouros, não aceita desaforos.

E a Al Trio, o mais jovem, disse o dervixe, já cansado de tanto esticar a mosca de sua barba venerável:

- Al Trio, se você quiser sucesso, você deverá ir para o deserto de Mob-id-Ikh. Lá você não vai encontrar ninguém. Ninguém para roubar-te as tâmaras da viagem. Mas, meu filho, preste atenção às cobras, às cobras, às cobras. Muito cuidado com as cobras.

O dervixe, pediu para ficar a sós e voltou-se para suas rugas cavadas em um movimento de extrema concentração meditativa ou se preferirem, sono profundo.

Os meninos foram-se ainda transtornados com os conselhos do sábio. Transtornados não. Amedrontados. Apavorados.

Al Uno partiu para a Transcaucasia e mentiu tanto, tanto e tanto que acabou contratado como bobo da côrte em Petrogrado pelo grande Czar onde fez carreira.

Al Duo, em sua montanha, roubou, roubou, mas roubou tanto que sua fama ultrapassou fronteiras e ele foi mandado buscar por Abu Pim Pol, rei da Tailandia, para um projeto meio astrônomico meio faraônico.

Al Trio, coitado, ficou lá no deserto e foi mordido por uma cobra.

E assim é contada a história em muitas feiras e caravansarás da Ásia menor. Muitos analistas modernos conseguiram identificar naquelas figuras os grandes arquétipos do homem:

O sonhador mentiroso porque nada combina mais com o sonho do que a mentira já que o sonho é sonho e só merece ser sonhado, não vivido.

O pragmático mala porque a vida sem sonho é muito chata e não merece ser vivida.

O medroso porque o medo não vale a pena. Nem na vida, nem no sonho.

A saída? Acredite, estava lá, na mensagem do presidente!

07/01/1999 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Primeiro foi assim: cantaram que a Internet era o que ligava. Desesperanças de fim de milênio, falta de grandes causas, morosidade. Talvez. Ou então, efemérides, o stress da informação, overdoses diárias. O fato é que todos embarcaram na onda, sem nenhuma preocupação com a nota falsa, o acorde troncho. Mas quem tinha o diapasão estava em outra praia mais rentável. Portanto o canal era plantar a barraca na praia, fazer um montinho na areia e esperar. Isso foi legal durante um bom tempo. Mas a ressaca já passou.

Está mesmo na hora de colocar alguns pingos nos seus respectivos.

No começo da barraquinha, os sites institucionais eram brochurewares. Tinha lá aquelas coisas que só interessam a quem se interessam por elas, com o perdão do pleonasmo. Mas lá estava, lá estava a reveladora, a profética, a bem aventurada “mensagem do presidente da companhia”.

Mas aí, foi tão fácil, tão fácil, tão fácil e barato, que alguns resolveram inventar. E aí, inventaram comunidades, conteúdos dinâmicos, discursos interativos e todo o resto que sabemos. Só que esqueçeram-se de verificar, lá na brochureware o que o presidente dizia: “qual é o core business da empresa?, qual à missão? o foco?” E aí, neguinho começou a desafinar feio.

Explico-me melhor.

Falando de conteúdo. Quais são as empresas cuja vocação é de dar conteúdo, informação? Os veículos de comunicação, certo? Certo. Agora, por que diabos uma marca de absorventes vai resolver falar da condição feminina? Sim, sim, porque tem a ver. Claro que tem. Mas qual é a vocação da empresa? Dissertar sobre a condição feminina ou estudar o volume do fluxo mensal da mulher? Ora, ora, daí a César o que é de César! E por que uma mulher iria acreditar ou confiar na visão da condição feminina que sua marca de absorvente lhe dá? Ora, ela com razão vai preferir a visão da Camile Paglia ou da Rita Cadillac e elas vão com certeza preferir falar desse assunto em veículo de comunicação, não é mesmo? Dá mais holofote, ora! Então, a regra é: Conteúdo, OK, mas apenas e apenas aquele que é da minha competência dar.

Falando de comunidade. Minha marca suscita algum tipo de ligação visceral com o consumidor? Vocês conhecem alguma mulher que resolve fazer uma tatuagem de sua marca de absorvente? Seria no mínimo original, o gerente de marketing pode até pensar em lançar a moda, fazer uma promoção e tal e coisa, mas ele vai ser chamado de lunático. Agora, por que vocês acham que a garota vai entrar em uma comunidade de usuárias de absorventes da marca X? Pra quê? Ora, ora, essas aí, vão procurar sites cuja vocação é de criar essas tais comunidades não é mesmo? Então, desista mano, de achar que sua marca é o objeto do desejo de todos os consumidores. Porque afinal de contas quantas Harley Davidson você conhece?

E por aí vai. Mas a moral dessa história é a seguinte: Que tal pararmos de querer inventar a roda? Que tal lermos a mensagem do presidente?

E que tal acreditar na Internet como mídia? Quero vincular a marca do meu absorvente à condição feminina? Então, vou atrás dos sites que tratam desse assunto e pronto, invisto minha grana lá! Simples não? Quero que as minhas consumidoras usem tatuagem de absorvente? Vou lá nas comunidades que existem aos borbotões na Web e lanço a moda anunciando a minha promoção.

É que agora, a praia é outra. A web cresceu, sofisticou-se. O internauta também. A Internet não é mais uma mídia alternativa. É de circunstância integrar as estratégias de comunicação. O diapasão que dá o tom chama-se estratégia, negócio, pesquisa e criação. Plantar sua barraquinha e inventar a roda não interessa mais a ninguém.

Crise, Credo.

12/11/1998 em Sei lá | Deixe um comentário »

Nunca fui muito chegado em crises e há quem diagnostique nisso um estado avançado de descolamento da realidade. Acho chato, chatotum, chatorum, esse papo chato de gente chata que só fala dessa chata dessa crise chata.

É um pouco por isso que trabalho com esse lance aí de Internet. Nosso negócio, aqui embaixo, não é crise não, nosso negócio é credo. Uma coisa não podia estar mais distante da outra.

Dizem que a gente deve aprender a administrar crises. Pois eu acho que isso é moleza e old fashion. Bom mesmo é aquele que sabe administrar credos.

O Prêmio About de Comunicação Dirigida – Net Marketing foi o melhor retrato que se pode ter desse pensamento.

Primeiro porque não tem a menor crise nem sombra de crise nesse negócio chamado Net.Marketing. Também não tem muito dinheiro, mas isso é outra história. O povo está trabalhando. Muito e bem. Bastaria olhar para o crescimento do número de inscrições. Mas isso não diz tanto. O que é surpreendente é a qualidade dos trabalhos.

Para quem engatinhou com esse mercado desde seu primeiro arroto, posso dizer que, estamos salvos do lixo cósmico das brochurewares do início. Os poucos e corajosos sites-catálogos inscritos não chegaram a poluir o nosso prêmio.

Adoramos ver também que ninguém mais cai na arapuca das chamadas soluções safos que prometem a lua e entregam o sapo, com bancos de dados mirabolantes, comunidades virtuais quiméricas, catálogos virtuais estratosfericos. Estamos maduros o suficiente para saber dimensionar os projetos e prometer o que podemos entregar.

Deu para perceber também que o povo está conectado, sabe o que está acontecendo lá fora, investiga, corre atrás e não tem medo de brigar com seus clientes.

Bom, isso para não falar de design, conceito, idéia, enfim. Muito melhor, mais inteligente, mais engraçado, mais focado, mais ducaraio.

Talvez coubesse aqui uma análise detalhada dos melhores trabalhos. Infelizmente não posso fazê-lo por ter participado com uma inscrição premiada e ter sido honrado com a nomeção de presidente em um juri formado por algumas das melhores cabeças pensantes do mercado.

E por falar em juri, acho que eu sou o último ser humano do planeta a ler romances de cavalarias do século XV sem cair nas pieguices quixotescas daqueles que leram Cervantes nas coxas. Qual a diferença entre Tirant Lo Blanc e Quixote? Prazerdaminhavida e Dulcinéia? Infiéis assassinos e moinhos empoeirados? A questão é não confundir Tirant, o valente, o corajoso, o sensível e Quixote, o louco, o monótono, o bobo.

Lá, naquele juri do prêmio em questão, não tinha espaço para nenhum Quixote desesperado. Nenhum espaço chato para crises chatas.

E mais. Tinha a arte cavalheiresca daqueles que acreditam no que fazem, que sabem da importância de sublimar a concorrência e têm a humildade de discutir, debater e construir juntos.

E não tem crise que vai fazer a gente desistir de rezar por esse credo.

Internet, pra quê?

08/10/1998 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

O que existe de mais fascinante na Web comercial é sem dúvida o fato de estarmos sempre exercitando as meninges, o dedilhado e o gogó à caça de soluções que raramente encontram paralelos.

Porque sempre que queremos pensar em comunidades cibernéticas, acusam-nos de neo-românticos. Se falamos que ela é content oriented, somos megalôs. Se dizemos que ela é Mídia, irão tratar-nos de estraga prazer.

Então. É sobre essas três visões que eu gostaria de raciocinar e propor uma leitura pretenciosamente histórica sobre a utilização da Web comercial.

Comunity, comunity, comunity.

A Web era uma terra de corajosos idealistas. Corajosos porque as ferramentas eram toscas e os resultados incertos. Idealistas porque a perspectiva de torná-la rentável, quimérica. Nasceu nas BBS, no IRC, nos Moos, lá longe no tempo e no espaço. De neguinho pra neguinho, broder to broder.

Um montão de comunidades nasceu e morreu. Era legal. Foi legal.

E aí, chegou o carinha mais wired de uma mega marca e resolveu catar umas migalhas no budget pra investir na web. Na ora, bingo, “O que liga é comunidade, mano!”

Tudo quanto era marca famosona resolveu entrar nessa onda. Era uma tal de comunidade de sabonete, comunidade de pasta de dentes, comunidade de chocolate em pó. Uma farra mesmo.

Era sempre assim, quer ver?

A gente entrava nesse universo e já de cara perguntavam pra gente a música que mais curtíamos, o prato que mais traçávamos, nossa marca de bola de gudes, rolemã ou sutiã. Pronto. Que lindo. A turma ia se encontrar ali, naquele paraíso comunitário e curtir momentos lindos patrocinados pela generosa multinacional.

Mas algo aconteceu, porque nem as mais festejadas comunidades sobreviveram ou se renovaram. E hoje, ninguém mais se orgulha de pertencer a esses universos. Ninguém mais tem saco para preencher aqueles formulários chatos que vão alimentar ridículos bancos de dados inúteis de usuários minguados de uma grande marca de consumo de massa.

Nessas comunidades, faltou anonimato. Faltou também sacar que o broder que entrava nelas não vestia a camisa daqueles produtos.

Os projetos soçobraram por falta de público.

Content, content, nothing but content.

E depois, ficou claro que parecia muito fácil na Web dar conteúdo. Assim nasceram a era dos Soap Opera sites. A Web comercial estava começando e poucas iniciativas profissionais de veículos de comunicação pareciam preocupar-se em criar

Quanto menor o Custo Por Mil, Menor a taxa de Click Through.

23/09/1998 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Quando acesso os mais famosos e festejados sites portais e provedores de conteúdo da Internet brasileira, estou na ladeira General Osório em véspera de Natal. É o camelô de notícias internacionais berrando as taras aborescentes do presidente yankee pra cá, o red-scare que ataca novamente na Rússia pra lá, a festa neo-renascentista de uma revista emergente, o último e indispensável lançamento da última e indispensável feira da cidade, sem falar do zumzumzum infernal dos banners competindo em sensacionalismo e mal gosto. Luto para encontrar aquela cotação do dólar que estava querendo, não sem antes tropeçar em meia dúzia de indigentes, depauperados e apavorantes conteúdos. Isso quando não resolvem desfragmentar a página e aquele meu linkezinho que eu clicava sem olhar, ali, no canto inferior da página foi parar sabe Deus e o Webmaster da página aonde.

Aí, inventaram uma tal de customização nada menos apavorante. Monto o meu site como quero com as informações organizadas do meu jeito. Arapuca dos diabos. Caramba, querem ensinar arquitetura de informação pro meu pai a essa altura do campeonato? Logo ele que fica doente cada vez que o jornal que ele lê faz mais de 40 anos resolve dar aquela modernizada!

Conteúdo de baciada, no atacado. Você entra pra comprar salsinha e sai com 5 melancias e oito pacotes de fraldas descartáveis.

Então, se para o consumidor, é esse mercado persa, o que dizer do coitado do anunciante a quem todos dizem que ele deve investir na web e coisa e tal?

Onde é que o anunciante vai amarrar seu burro, digo, seu banner?

Não ensinaram pra gente que a Web pode ser one to one e segmentada? Foco de míope esse que nos vendem por aí!

Mas afinal de contas esses tais de sites provedores de conteúdo são mídia de massa, segmentada ou uma salada de alho poró com abobrinha?

Outro dia, fiz um cálculo curioso. Somem, com os valores de tabela, todos os banners de qualquer site-veículo importante. Somaram? Então, que tal? Ridículo não é? OK, ainda tem muito espaço publicitário nos quartos e quintos níveis? Multipliquem por dois então. Continua ridículo não continua?

Tem algo de errado não tem? Como ganham dinheiro esses gajos? E quem disse que o anunciante vai querer pagar algo pelo quinto ou sexto nível? E nos primeiros níveis, tem espaço? Não tem muitos não. Se criarem algum, só se inventarem banners com meios Ks. E leva porrada o primeiro que disser que dá pra criar banner criativo de meio K.

Mas eu fico obviamente preocupado. E se continuar essa bagunça, daqui a pouco, vão popularizar-se aqui também aqueles malditos ad-filters que capam fora dos sites qualquer banner comercial. Eu até instalaria um desses softwares de tão convenientes que eles são se eu não trabalhasse com o que trabalho.

Click through ou o buraco é mais embaixo.

Solucionar essas questões tão importantes passam por um mix de saídas do lado do veículo.

De um lado o esqueleto (estrutura) e a musculatura (forma) do conteúdo devem mudar. Falo de fragmentar e dar identidades a eles. Só assim será possível oferecer ao anunciante alternativas inteligentes e segmentadas de anúncios. Só assim, será possível rentabilizar os veículos.

Por outro, a formatação dos espaços publicitários deve mudar e para isso, basta ser criativo ou ler o que os media broker (Double Click por exemplo) oferecem. O profissional de mídia em poucos anos vai sem dúvida nenhuma assumir uma importância capital. Sua competência técnica vai ser valorizada mas principalmente sua capacidade criativa.

De fato, os sites portais estão numa sinuca antropofágica. Em sua ânsia de busca por conteúdo desenfreado para justificar seus argumentos de remuneração publicitária (custo por mil), eles incham, incham, incham, os espaços minguam, minguam, minguam e os anunciantes idem, idem, idem.

Webabel ou 1.275 maneiras de enlouquecer um Web Developer.

27/08/1998 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Seu micro roda Windows 3.1, 95, 98, Irix, Solaris, Linux ou Mac OS? Tem um processador Intel, Alpha, Risc, Power PC ou 64 K? E seu Browser? É um Explorer ou Netscape? Sua versão é 2, 3 ou 4? Qual o idioma do seu sistema operacional? E o idioma do seu Browser? Que plug ins você instalou no seu micro? O Flash 2 ou 3, o Real, o G2, o VDO, o Shockwave, o Cosmo Player, Quick Time VR? E o service pack do seu sistema operacional é o 1, o 2 ou o 3? E o do seu Browser? Quais as linguagens que seu site favorito usa? HTML? DHTML pra Netscape? DHTML pra Explorer? Javascript? Que versão de JavaScript? 1.0, 1.1, 1.2? E que comandos de Javascript? Java Applets? VRML? VBScript? Jscript? CSS?

Ah, ia esquecendo! Tem algum Fire Wall na sua rede? Você tem um administrador de rede com síndrome de perseguição? Seu provedor está bem humorado? Seu Caps Lock está ligado? Choveu na Bahia ontem? O Vasco ganhou do Barcelona? E a velocidade do batimento de asas das borboletas japonesas? E a equação do fractal de Benoit Mandelbrot?

Bom, é mais ou menos nisso que um Web Developer tem que pensar na hora que está planejando um site. Isso obviamente depois de ter avaliado quem será o público que irá visitar o site, qual o conceito criativo da interface e dos textos, a arquitetura da informação, etc, etc, etc.

Três modelos de atitudes são então tomadas como praxis do ofício.

Ao primeiro deles chamaremos de reducionista e consiste em escolher alqueles padrões que coincidem em todas as plataformas, sistemas operacionais, browsers e toda a parafernália. Esta é mais ou menos a opção que foi adotada quando a lógica da Internet foi criada, um milhão de web years atrás. HTML simples e bobo.

O segundo, que eufemisticamente chamaremos de inspirado (no sentido daquela inspiração que se faz pela boca e com sucção) significa sair surfando por aí, catar um monte de códigos de programação, modificar seus parâmetros e copiar para o seu site. Nada de errado nisso, atenção! É apenas um procedimento (aliás, dos mais comuns e que fazem da Internet uma ferramenta que cresce com a velocidade procriadora de um roedor). Esta técnica é legal também porque parte-se do pressuposto que se foi implementado aquele aplicativo naquele site, é aceitável supor que foi testado em outros microcosmos plataformas/browsers/plug-ins/linguagem. Portanto, não precisamos quebrar a cuca em testar.

O terceiro, que por fim, chamaremos de quebracuca, é aquele que consiste em testar em 1.275 micros, com todas as opções possíveis da equação do começo deste artigo, e desenvolver um site com formas de indentificação automática de cada uma delas. Isso também passa por um período de testes de aproximadamente 24 horas por linha de código do programa, ou seja, algumas décadas. Mas isso não adianta nada porque mais ou menos a cada 24 horas um maluco lá do Vale do Silício inventa um fator multiplicador de nossas 1.275 alternativas. Outra saída também quebracuca é de fazer uma seleção natural de configurações e simplesmente ignorar algumas em benefício da saúde do Web Developers. O terceiro caminho também é aquele que quebra paradigmas, impõe novos modelos, revoluciona a maior de todas as revoluções e faz babar o mundo.

Padrões ou tradutores universais na Webabel, não existem, não estão perto de existir e talvez nunca venham a existir. Vá dormir com um barulho desses!