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Kony 2012 e nossas lágrimas de crocodilo

Stalin dizia que matar uma pessoa é uma tragédia; matar milhares é uma estatística.

É importante refletir sobre essa frase, à luz da hipocrisia de nossas lágrimas de crocodilo ocidentais. Milhões de bem nutridos ao redor do mundo chacoalham-se, consternados, em arrepios de vergonha, diante do mais básico dos apelos: uma criança que prefere a morte às abomináveis provações de que é vítima. O simplório documentário Kony 2012 é um entre centenas, milhares de pedidos de socorro que chegaram de toda parte do mundo, em particular da África, nos últimos anos.

No começo da década de 90, quase um milhão de ruandeses tutsis foram assassinados em menos de 100 dias por ensandecidos hutus. Isso dá 7 assassinatos por minuto sob o olhar estéreo do ocidente. Todos os dias, centenas de apelos como o do documentário blockbuster chegavam às redações dos jornais e nos gabinetes dos governos, da ONU, das ONGs. Especialistas acreditam que com poucos milhares de homens bem treinados, armados e com licença para agir, o genocídio teria sido evitado. Como o garoto que prefere morrer a continuar vivo, milhares de hutus inocentes preferiam matar a morrer, por recusar-se a colaborar com o esforço de limpeza étnica (muitas vezes armado com armas ocidentais, claro).

Em 1996, um poder contrário ao governo que apoiava o Poder Hutu, reunido nessa mesma Uganda e no antigo Zaïre (atual República Democrática do Congo), majoritariamente constituído por Tutsis refugiados, retomou controle da situação e forçou mais de um milhão de Hutus a refugiar-se também, aonde?, em Uganda e no Zaïre. Foi o maior fluxo de pessoas desesperadas de que se tem notícia na história da Terra.

Dessa vez, os crocodilos compadeceram-se e montaram colossais campos de refugiados nos países vizinhos a Ruanda, sob a proteção dos governos ocidentais, da ONU, das ONGS e o olhar atento de centenas de jornalistas.

Um milhão de hutus que haviam assassinado um milhão de tutsis recebiam um milhão de dólares por dia de ajuda humanitária (muito mais do que a renda média diária dos sobreviventes em Ruanda).

Em outras palavras, ignoramos o genocídio e ajudamos os “genocidaires“, com a maior das inocências.

Moral da história, somos bilhões de idiotas governados por milhares de cretinos.

Kony 2012 – sei não. Mas se 40 milhões de pessoas doarem mínimos 10 dólares por mês, isso soma quase 5 bilhões por ano. Dinheiro pra acabar com muita miséria.

No entanto, a hipocrisia ocidental é maior do que a sede de líderes iluminados por apelos transcendentais (como Kony): é suficiente derramar lágrimas sinceras, elevar preces inócuas e fazer documentários virais nas redes sociais.

Internet, bela viola

Muitas guerras foram urdidas, fomentadas, incentivadas nas redações e muitos jornais foram idealizados, formados e impressos no front.

A política, através de sua representação estilizada mais perfeita – a guerra – forma com a imprensa um casal sinistro, disfarçado por um manto de respeitabilidade. Para a política, é o disfarce da democracia. Para a imprensa é o da liberdade de expressão. Mas a política é avesso da imprensa. A imprensa é a sombra da política.

A menos que se creia em neutralidade.

Então, se a imprensa mudou, espalhando-se, atomizando-se, individualizando-se, não será apenas forma? A voz do cidadão antes isolado, tonitruando para bilhões nas redes sociais, é esperança de paz?

A menos que se sonhe com neutralidade, nada muda assim.

As redes sociais, quando fomentam revoltas e derrubam poderes, fomentam revoltas e derrubam poderes. A nova imprensa permanece um fermento da guerra. E a guerra permanece o catalizador da imprensa, da nova e da velha.

A Internet não redime nada. É só uma bela (nem tão bela) viola.

Se tá barato, eu preciso

Por que diabos tem tanto guarda chuva nesse voo? É moda apoiar-se nele com nonchalance pra ver o povo desfilar na Oscar Freire?

–       Moça, o que são esses guarda chuvas?
–       Como, você não sabe?
–       Não. Perdi alguma coisa?
–       Sim, a liquidação da Victoria Secret.

Três garotas conversam animadamente ao meu lado, como se tivessem saido de um encontro tupiniquim de Sex in the city.  Ah, estão planejando momentos idílicos em Nova York. Eis então que sacam do guia da cidade, um xerox. Deve ser alguma dica preciosa. Alongo o olhar para um mapa do Outlet de New Jersey todo marcado com as estações da procissão projetada: Mac, Prada, Gucci, Lacoste, Vicotria Secret, claro.

As pessoas não vão mais aos Estados Unidos, se é que algum dia foram. Vão ao mall mais barato e diverso do planeta para os brasileiros.

De quebra, aproveitam um museuzinho básico para o alibi cultural. Ou um restaurante hip para criticar os preços de São Paulo. Ou um musical da Broadway para poder dizer “só os americanos!”.

Mas são as malas transbordando de inúteis utilidades que vão dar a confortante sensação de que afinal de contas nós  somos eles amanhã.

Cala a boca Mané

Temos hoje infinitas formas de nos comunicar. A cada dia, surge uma nova e excitante ferramenta. Como é que o mundo funcionava quando nossas bisavós precisavam mandar o filho com um recadinho para a parteira vir socorre-la? Hoje ela mandaria um viber para cinco médicos diferentes, a família e os padrinhos. Ou, mais simples, faria um parto monitorado remotamente com uma junta médica internacional pelo Skype.

Mas ao mesmo tempo que ganhamos tempo e qualidade, perdemos objetividade. O moleque, a menos que resolvesse dar um mergulho no rio e roubar uma manga da vizinha, era o único mensageiro. Hoje, tudo é compartilhado, pedimos a opinião de Deus e o mundo, e as mensagens se esfacelam na velocidade da luz.

O email é o exemplo mais gritante de inoperância.

Alguém manda uma solicitação por email para os envolvidos diretamente e para uma penca de outros que precisam participar da decisão “vai-quê!” (também conhecidos como fyi). Todos respondem para todos, inclusive os “vai-quê!”. O que era uma distribuição de tarefas vira um sufrágio de opiniões. O que era um recado, vira uma assunto, o que era um assunto, vira um colóquio, o que era um colóquio vira uma eleição, o que era uma eleição vira uma Babel.

Por isso, todo email, além de CC e BCC deveria ter um CBM (Cala a Boca Mané) e um QMA (Quem Manda Aqui).

Vaidade e poder

A matéria prima de uma agência de comunicação é o talento criativo e por isso, seu centro nervoso é a capacidade de atração de talentos humanos.

O sucesso é portanto diretamente proporcional a esse magnetismo encarnado, alimentado pelos investimentos aparentemente irracionais nas vistosas premiações ou em campanhas de auto-promoção. Magnetismo, premiação e auto-promoção soam como vaidades mas são armas, conscientes ou inconscientes, de retenção e atração de talentos.

A relação entre mestre e discípulo muito mais do que patrão e empregado estabelece o núcleo propulsor da reputação criativa de uma agência. Só dinheiro compra mas não fideliza e é uma espécie de equação que conjuga admiração e inveja, respeito e submissão que cimenta a relação.

Talentos são vaidosos por defesa e reflexo de sobrevivência. Mas a vaidade tem poder corrosivo de personalidades e contatos humanos, portanto, agências de comunicação estariam vaticinadas por uma auto-imunidade destrutiva?

Sim, quando a vaidade se eterniza mais por poder e menos por talento. Não, quando a vaidade se transmuta em reconhecimento e transferência.

Vaidade poderosa é tirania. Vaidade humilde é sabedoria.

Quanto mais técnica, mais ignorância

Passamos anos e anos apurando a nossa técnica de pensar, de falar, de agir. Reconhecemos nossos pares e com essa aliança, rimos dos confusos e ignorantes.

Toda técnica disfarça, por detrás da assertividade, falta de imaginação e insegurança. Toda técnica, por mais eficiente que seja, é um escudo de poder e opressão.

O mecânico, o cara de TI, o despachante, mas também o engenheiro, o arquiteto, o músico, o rei das normas empresariais, o tradutor das siglas, das linguas bizarras que são tantas formas místicas de proteger territórios, tem para todo lado.

Pode reparar: quando a palavra que você não entende é entoada com rapidez, sotaque esdruxulo ou vem acompanhada de biquinho, você pode estar diante de um ataque de tecniquite.

Analise seu interlocutor. Das duas uma, ou ele é uma máquina programada para regurgitar formulas prontas e ele é estúpido, ou ele é perigoso e está querendo te pegar.

A imensa maioria dos técnicos é do primeiro tipo. Nesses casos, a tecniquite é só mediocridade intelectual. Não vale a pena perder tempo. Se você tiver que conviver com eles, mais fácil aprender a meia duzia de bobagem que vomitam. Você vai perceber que quanto mais incompreensível lhe parecer o discurso, mais raso ele é.

Mas tem os outros, os inventores, os generais. Esses criaram os termos, as metodologias, as línguas, siglas e códigos para submeter um bando de imbecil que está a sua disposição para tentar te aliciar. Se você deparar-se com um desses ogros, melhor fazer-se passar por um dos seus soldados.

Mas tem um outro jeito, mais gozado. Seja sincero e diga que não entendeu. Peça para explicar. Faça pose de loira burra. Se o cara for medíocre, ele vai tentar te explicar e você vai se divertir. Se ele for o general artífice de poder, ele vai te mandar a merda e você se livra dele para sempre.

Nem desmamou já quer ser diretor

Uma coisa lá em cima brigava com outra là em baixo. Não se entendiam sobre as qualidades que os seres vivos que acabavam de inventar deveriam ter. Finalmente, chegaram a um acordo, um conceito fundador, uma regra determinante, uma lei magna sob a égidie da qual, a Criação inteira deveria reger-se: a temporalidade.

A temporalidade foi definida no tratado criador como “direito ao gozo fugaz”. Até hoje, não se sabe ao certo quem defendeu o gozo – se Deus ou o Diabo – e quem adjetivou – se o Senhor ou o Maligno. Mas o fato é que desde sempre, fomos abençoados e condenados na mesma sentença.

É por isso que vivemos e morremos, por exemplo. É por isso que a flor murcha, que o riso amarela, que o prazer acaba e que a saudade nos move.

Mas o homem antes de cair de pé comeu uma maçã enfeitiçada. E essa maçã tinha uma sabedoria. Nem là em cima nem là em baixo, ninguém percebeu. A sabedoria ensinou um truque poderoso: o gozo é fugaz mas quanto mais longo o prè-gozo, maior o gozo.

Tem uma gente jovem e bonita que não aprendeu dessa maçã. Ou foram as maçãs que ficaram desalmadas.

Queremos ficar inteligentes, cultos e poderosos já,  imediatamente. Ricos, muito ricos, cada vez mais ricos  amanhã. Nem saiu das fraldas, já se vê presidente, mandando, arrotando, cacarejando e se estufando.

O pré-gozo ficou tão curtinho que o gozo depois é bem   murchinho. Pula-se de gozo em gozinho, cada vez mais zinho. Até morrer um dia, e nem sacar o gozo que pode ser.

Calma gente!

O debate cansa a beleza

Foi-se um tempo em que eramos educados no espírito de porquismo. Por definição, eramos do contra, antes mesmo de ouvir. O jogo da racionalidade exigia essa dialética. Não ocorria a ninguém, minimamente educado, ouvir um sermão, uma palestra, uma aula, silenciosamente. O espírito combatente aflorava na mais vaga e sutil tentativa de catequese ou difusão indireta de ideais, quaisquer que fossem. Foi assim que foram às ruas de Paris em 68. Foi assim que tiraram as roupas em Woodstock em 69.

E o que mudou de lá pra cá? Nas idéias e nas descobertas intelectuais, pouco, muito pouco avançamos para além da  sede de participação, de liberdade, de colaboração, de conexão, de ativismo. As ferramentas mudaram, mas o pensamento atrofiou-se confortavelmente. Iludimo-nos com as inovações mas elas operam na superfície. Requentamos as idéias, revestindo-as de uma tradução contemporânea e só.

A tecnologia nos ilude e a despeito de pensar, brincamos com gadgets intelectuais.

Mas o que mudou de lá pra cá? Se nada ou pouco nas idéias, muito na forma. A forma evangélica, identidária, inflamada e enebriante tomou o lugar dos longos embates intelectuais, irreconciliáveis, sanguíneos, guerreiros.

A festa dócil mobiliza mais do que o debate. O pensamento fragmentado seduz mais do que a construção teórica. A reciclagem é mais tentadora do que a originalidade.

Não tem errado nem certo, nem melhor ou pior. Errado só a pretensão de uns e outros. A pretensão inconformada dos jovens de antes e a pretensão messianica dos jovens de agora. Certo mesmo é não se levar a sério.

Nova York, Nashville e Charleston

Um outoor enorme acolhia as pessoas que entravam em Nova York: “bem-vindo a Nova York, a única cidade em que você pode declarar abertamente ser gay mas tem vergonha de ser republicano”. É assim que a América recebia os emigrantes com o sorriso pétreo da estátua da liberdade.  Uma terra onde tudo é possível, tolerado e incentivado.

Nashville, miolão mais pro Sul dos Estados Unidos, e suas duas quadras que se auto-intitulam a Mecca da música country. Grand Ole Opry, o templo dessa Mecca e seu hall da fama de chapéu de cowboy. O show é Country Classic, cover da Patsy Cline e tudo. A plateia é branca, mais velha e comedida. O apresentador do show transmitido ao vivo para uma radio que intercala as bandas com spots da loja de equipamentos de pesca e do salão de cabeleireiros, tem intimidade com o panteão que por ali desfilou. O Grand é uma espécie de Canecão, um Carnegie Hall, uma Ópera de Milão.

Eis que, para galvanizar a platéia, o mestre de cerimônia resolve sentir a temperatura da sala: “pessoal, essa semana, matamos Bin Laden!”. Os minutos que se seguiram foram de extase coletivo. De pé, as pessoas gritavam “Yeahhh, estamos ganhando de novo!”.

Sim, não é a turma hip de Nova York que manda seus garotos para as guerras. Sim, a América, sempre mobilizada, é diversa e dessa diversidade nasceu sua força.

Mas como acreditar que esses mesmos que inflamaram-se, sangue nos olhos com a morte do assassino, podem desabrochar o coração, despir-se dos preconceitos, e abrir-se para uma cultura mestiça, bastarda, sangue ruim, como a nossa? Sei não.

Sei não, mas quem sabe, um dia, veremos aqueles executivos de terno mal cortado, arrastando uma maleta de rodinha, num hotel cenográfico em Charleston West Virginia, sede de alguma multinacional, e se enternecer. Quem sabe entederemos, um dia, que o poder é o alibi da mediocridade.

A panela de ferro e Rivaldo por Mário Daloia

Neste mundo onde craques e nem tão craques se comportam como grandes craques, um grande craque despertou-me a atenção neste último sábado dia 30, dia que eu iria ao Japão. Fora dos holofotes, e diferente daqueles craques e não tão craques para quem qualquer candeeiro ou lamparina é Cannes ou Hollywood, tive um dia de trabalho comum, dia de externa em um lago, de comida de fogão a lenha e panela de ferro meio que sem querer, de andar de barco de alumínio e motor minúsculo pela represa grande e cheia de braços que fez me sentir no amazonas.

Quando voltei das novidades, seria um dia só de estrada havia eu previsto, Santos e São Paulo jogavam a semifinal do campeaonato paulista. Daí vi um troço incrível. Com Paulo Henrique Ganso e Rivaldo em campo, o mais novo grande meia-esquerda e o último grande meia-esquerda que o país do futebol produziu, Rivaldo o gigante que foi já escolhido melhor do mundo, que fez o Nou Camp lotado, o estádio de Barcelona, 85 mil catalães, balançar seus lenços brancos quando fez um gol de bicicleta no último minuto de jogo contra um Valência enorme, depois de já ter feito outros dois no mesmo jogo e o adversário ter sempre empatado, e valia título, Rivaldo o gigante, que fez o Giuseppe Meazza, o estádio de Milão, lotado, 90 mil milaneses pedirem em coro para que ele ficasse quando, ciente que não passava por boa fase e ganhando salário de grande craque, foi ao gramado de terno pedir desculpas e dizer que iria embora (disseram na época que um problema com a esposa, ela o teria abandonado, e por não ter 100 loiras de calça gang no seu camarote, o levou a um momento de reclusão).

Esse gigante que com Ronaldo, o fenômeno, ganhou uma Copa para o Brasil, num time em que jogava os nem tão craques Kleberson e Gilberto Silva, esse gigante jogou aos 38 anos a semifinal nesse dia 30. Diferente dos craques e não tão craques que se comportam como grandes craques, Rivaldo o gigante, saiu do banco de reservas e correu e tocou na bola como jogador em inicio de carreira, buscava a bola mais atrás, coisa que pouco fazia quando mais moço, e nessa semifinal, sem opção para genialidades, já que o Santos adversário estava fechado fechado, e afinal aos 38 anos ele não é mais um Messi aos 22 anos, Rivaldo tocava e corria para receber, e tocava e corria e tocava e corria, parecia querer agradar à torcida e ao técnico. Jogou como um iniciante, provavelmente como ele próprio jogou quando chegou de Pernambuco, antes de ser o Rivaldo, o gigante, o genial, o bailarino magnífico de 1,90 de altura, o meia-esquerda elegantíssimo, de passadas imensas. Nesse dia 30, dia que não fui ao Japão, e da panela de ferro, saltou aos olhos essa lição de humildade desse retirante genial, neste mundo cheio de craques e não tão craques que se tratam como grandes craques. E Rivaldo nem muito fez, mas correu, se entregou, e nem precisava.

Lembrou-me do dia que Jean-Baptiste Mondino, grande craque fotógrafo, veio apertar a mão de um menino estagiário, que lavava prato no plateau do estúdio (mal comparando foi como se você fosse apertar a mão e dizer bom dia e obrigado para aquela mulata vestida de copeira para quem você dá a taça vazia de champagne). Rivaldo o gigante talvez mesmo por timidez, comporta-se de maneira única, só dele, não vestiu o estereótipo mais a mão, mais fácil e no final mais ridículo, comporta-se como um homem de verdade, único, humilde e solene, um gigante.

Ficou a impressão que o resto é lixo que a gente recolhe e descarta para o caminhão levar.

To indo pra JWT. Feliz

– Aí pessoal, esse cara navega no site!

Foi essa a recepção que arranquei, o primeiro elogio, o primeiro enigma.

Depois, fiquei sabendo que era uma piada interna que nunca me explicaram direito, mas era mais ou menos um sinônimo de outro apelido que ganhei depois, Alphen o Interneteimoso.

Quando acordo, 13 anos depois, ainda estou navegando, às vezes à deriva, às vezes bêbado, inquieto e febril.

Sorte ter havido esse mar enorme, cheio de correntes e vida, a F/Nazca, onde tive a chance de remar.

Agora vou dar em outras praias. Sempre navegando.

A AES Eletropaulo é uma mãe

Ficar sem luz é charmoso, tomar banho frio é bom pra pele, não falar no telefone evita aborrecimentos, não ligar a televisão poupa a sanidade mental, não entrar na Internet antecipa as férias, doar sangue para pernilongo é caridoso e ligar para a sua fornecedora de eletricidade (no caso, a AES Eletropaulo) é uma lição de paciência na espera, de compaixão quando você é atendido e auto-controle quando lhe respondem que não há previsão de retorno. A AES é uma mãe pra nós.

A AES Eletropaulo é uma empresa prestativa, lhe ensina muito enquanto você se delicia com sua seleção musical new age, você fica sabendo por exemplo que talvez haja problemas na sua fiação, que é importante verificar se também falta luz nos vizinhos, e que agora, ela também resolveu facilitar a sua vida porque você pode mandar um SMS dando-lhe as boas novas, gratuitamente.

A AES Eletropaulo é muito atenciosa também quando lhe acalma, contando histórias tristes, de árvores caídas, de equipes espalhadas pela madrugada úmida, de fios partidos e postes abalroados.

A gente só se lembra da eletricidade quando ela falta.

Com a AES Eletropaulo é diferente: todo mês, você se lembra dela quando paga a conta. Já quando falta luz: esquece!

A cultura da abundância

Armários de família costumavam ser herdados. Eram parte de um patrimônio físico e emocional inestimável e não havia uma única casa de classe média da Europa que não possuísse um desses grandes móveis de carvalho, trabalhados nas portas, que ao abrir-se exalava outros tempos, outros amores, outros sofrimentos e alegrias. A  moda era uma preocupação supérflua de minorias. A cultura da reposição era o passatempo dos nobres enfadados com o ócio. A abundância também virou aspiração da burguesia, que rivalizava assim com os carcomidos de sangue azul e o mesmo com o trabalhador face ao burguês abonado: o sonho de passear imensos carrinhos na Ikea e aumentar os limites no cartão de crédito.

No século XXI, o valor supremo das sociedades dominantes é quantitativo. Prosperidade é fator da velocidade do sucateamento. E o armário de família foi para o mercado das pulgas ou para o guarda-móvel, substituído pelo closet abarrotado.

O maior problema dos países em crise é o excesso de abundância e a falta de pobres em quantidade suficiente para consumir o descarte dos ricos.

A nossa “vantagem”, da China, da Índia, é ainda termos muitos pobres. Mas nosso azar é que só sabemos curar excesso de abundância com mais abundância.

Entrar em outlet de Miami abarrotado de brasileiros é a visão dantesca de uma catástrofe anunciada: o culto da abundância versão mortos de fome.

Triste Monte

Belo Monte é o florão do Programa de Aceleração do Crescimento. A usina será construída no Estado do Pará, numa região do rio Xingu chamada Volta Grande, a um custo orçado em 30 bilhões (dólares ou reais, faz alguma diferença?) quase totalmente financiados pelo BNDES, de mãe pra filho empreiteiro.

Apesar de controvérsias técnicas que dão conta de uma obra cujo potencial é hiperdimensionado em função da sazonalidade do rio, apesar de controvérsias sociais que dão conta de condicionantes impostas pelo IBAMA e pela FUNAI que não foram atendidas na pré-licença de construção do canteiro, apesar de controvérsias ambientais que dão conta do impacto na vazão do rio que irá comprometer espécies e populações, apesar de controvérsias econômicas que dão conta da matriz energética brasileira que privilegiará, nesse caso, indústrias consumidoras de muita energia (alumínio por exemplo) e que o mundo socioambientalmente consciente refuga para a periferia do mundo (nós), apesar de uma lista infindável de mais apesares, no apagar das luzes entre governos, na carona obscura de desastres midiáticos de grandes proporções, depois de demissões sucessivas de técnicos que se opunham à construção, Belo Monte vai ser construída.

Depois de 30 anos, a ganância, a miopia, o imediatismo e o poder sem controle vencem. O Brasil precisava de dinheiro internacional para construir Belo Monte há 30 anos. Mas o dinheiro foi negado, à época, por excesso de apesares pairando sobre a obra. Agora somos ricos, não precisamos mais da grana de ninguém, a gente tem soberania e aqui, no Brasil, é assim: manda quem pode; quem não pode se sacode.

Mas o que é Belo Monte? Mais uma hidrelétrica, dentro do programa da construção de mais 60 que irão represar todos os rios da Amazônia no futuro. Depois, só vai faltar azulejar a floresta e ligar o ar-condicionado.

Mas se não acreditarmos no aquecimento global, se não acreditarmos nos impactos negativos da emissão de gás metano na atmosfera produzido pelo alagamento de florestas, se não acreditarmos que 60% do território brasileiro, a Amazônia, é a maior reserva de água potável do mundo e que essa reserva é ecologicamente dependente da floresta, se não acreditarmos que a política brasileira é financiada pelas empreiteiras, se acreditarmos que índio é quase bicho e que a gente que mora longe, lá na Amazônia, é menos gente que a gente, a gente deveria pelo menos se perguntar por que diabos o Egito interessa muito mais a gente do que a nossa terra? Por que a bomba relógio no mundo árabe nos toca mais do que a que enterraram sob o nosso nariz?

O Egito Antigo foi uma das civilizações mais prósperas e desenvolvidas do mundo antigo. Construíram obras faraônicas para perpetuar seu brilho por milenares. O que aconteceu com o fausto de outrora?

As pirâmides estão hoje situadas numa abjeta periferia do Cairo. Bombas de um passado remoto. Quem dera fosse por isso que a queda de Mubarak tanto nos fascina. Quem dera o Egito de hoje fosse a visão fantasmagórica do nosso futuro com esse Triste Monte que iremos construir.

Artigo originalmente publicado na edição de 13/02/2011 de O Globo

O Gouveia Mão de Banha

O Gouveia foi um grande idealista, muito bem-sucedido e admirado em seu ramo de atividade. Depois de sua morte, a reputação continuou viva, influenciando as gerações. A empresa que criou e que porta até hoje seu nome atua no lucrativo ramo de adesivos e outros amálgamas grudentos.

Gouveia, fundador de cultuada memória, gostava de aforismos de efeito. Por exemplo, confessou certa vez que “quem nasce grudado morre grudando” ou ainda “a cola pode ser bonita, mas, se não cola, não cola”.

Mão de Banha era um batalhador ambicioso que entrou na Gouveia como Assessor da Diretoria de Soluções Rápidas para Problemas Difíceis. Sua voz, seu porte e principalmente seu aperto de mão, bambo mas volumoso, foram rapidamente recompensados com promoções sucessivas.

Mão de Banha desatou, desmanchou, desesperou, desinfetou a Gouveia, tornando-se o fiel escudeiro do próprio Gouveia Tataraneto, herdeiro do império. A Gouveia, com Mão de Banha, virou um fenômeno.

Mão de Banha pode não ter sido um grande frasista, mas como ele sempre dizia:  “quem tem mão de banha leva na mão grande”.

Declaração de intenção

Ontem, o senhor que mora em uma casa pendurada no barranco, prestes a desabar, conversava, positivo e sorridente, com um repórter solene.

– O que o senhor está sentindo neste momento de dor?
– Dor.

A obviedade é um recurso estilístico de ênfase ou é só burrice. A imprensa usa tanto esse subterfúgio para povoar suas linhas que podemos separar duas posturas claras. A primeira é a de uma imprensa partidária, ideológica. Bate na tecla que acaba entrando na caixola. A segunda é só de burrice. Às vezes as duas posturas se encontram felizes também. É a imprensa pedro-bó.

Já o positivismo pode ser uma espécie de bálsamo de sofrimento ou é só passividade. Não há nada mais comum do que uma imprensa de autoajuda, cheia de pérolas de sabedoria para os aflitos. Também tem aquela outra que relata sem opinião, sem crítica, com compaixão budista. E, quando tem as duas coisas, é o que chamamos de imprensa feng-shui.

Pra variar, poderíamos imaginar uma outra cena. Por exemplo, o repórter chega sorridente para o morador chorando e pergunta se o senhor está com fé. Ele recebe uma porrada como resposta.

Pra variar também, a válvula de escape, mal-humorada e negativa, pode ser divertida. Essa é a imprensa “bad hair day”.

Um Novo Brasil e uma Nova América

Restaurante em Nova York. Na mesa ao lado, a mesma face de moedas de latitudes opostas conversam.

O primeiro é brasileiro, novinho-rico.

Não confundir com o novo-rico, esbanjador descontrolado, nem com o novo-riquinho, filho deste. O novinho-rico acabou de ganhar algum dinheiro, ainda dá um duro danado e já projeta seu status futuro em todas as falas.

Nosso espécime vomita manchetes da revista Exame, pontua banalidades econômicos e na falta de pontos de exclamação, abusa dos gestuais para suprir seu vernáculo primitivo. Por isso sua.

Do outro lado, o sujeito é americano, benzinho-nascido.

Não confundir com o bem-nascido, discreto mas empinado, nem com o bem-nascidinho, seu neto. O benzinho-nascido tem a grana necessária para o clube de golfe e as férias no Colorado, mas não suficiente para viver de pijama.

O Yankee é treinado para ouvir sem dar atenção, aquiescer sem concordar, franzir o cenho sem enrugar. Por isso finge.

O primeiro, de moleton comprado em outlet de New Jersey, quer o status presumido do segundo.

O segundo, de gravata amarela e lenço bem dobrado no bolso, quer a grana suposta do primeiro.

Apesar de completamente diferentes são idênticos na essência: ignorantes, preconceituosos, provavelmente machistas, certamente de direita.

O primeiro é o novo Brasil, trabalhador arrivista. O segundo é a nova América do Norte, esnobe interesseira.

Big ideia é big por quê?

“Lemos seu post de ontem em seu blog. Acreditamos que uma ideia ali delineada pode se consolidar em um negócio realmente big. Somos um grupo de investidores interessado em mapear e incubar iniciativas de negócios online. Caso tenha interesse, favor entrar em contato com fulano de tal blá-blá-blá-blá-blá.”

O post foi mesmo um sucesso. Foi tanto que a ficha caiu quando recebi o e-mail do tal grupo de investidores: deve ter muita gente patenteando o que era para ser, apenas, um ensaio irônico-malicioso.

É até possível que alguém fique rico com minhas tímidas ideias, vomitadas sem censura, sem preocupação de viabilidade e pelo simples prazer de distribuir indiretas a torto e à direita.

Mas de que valem as ideias? As big?

Esta semana acontece uma feira de empreendedores em São Paulo. Centenas de ideias big, bad e esdrúxulas se atropelam em algum pavilhão lotado de “investidores interessados”. Centenas, milhares de ideias se apertam nas gavetas de milhares de cientistas, técnicos, aposentados e publicitários. Deve ter mais ideia vagando no espaço do que realizações humanas. Mais ideia perdida na blogosfera do que livro na biblioteca do congresso americano. Deve ter tanta ideia big nos lixões, nos arquivos, nas memórias frustradas, que a oferta abundante deprecia seu valor de forma infinitesimal.

“Prezados investidores interessados,

A ideia que vocês consideraram big no meu artigo é de vocês. Façam dela o que quiserem.

Só peço um único pagamento: avisem-me se ela for realizada. Pode ser por vaidade – admito e agradeço-lhes por terem me despertado tão nobre sentimento – mas meu interesse é nutrir um certo mau humor inconformado.

Não me parece adequado julgar uma ideia em função de sua capacidade de gerar “big negócios”. Tampouco me parece que o valor de um criador está na big ideia que ele um dia, num desatino inspirado, resolveu realizar.

O valor de uma big ideia só se mede pela sua aplicabilidade. O valor de um criador só se mede pela capacidade de gerar novas e incessantes outras big ideias.”