Artigos na categoria ‘Sei lá’

Porque somos alegres assim

19/11/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

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Há quem prefira o futebol, mas nossa arte plumária é metáfora para o brasileiro, seu caráter e vida.

Temos centenas de tribos, tradições, facções e simbologias peculiares, associadas à arte plumária no país. Mas o esforço de síntese exige denominadores comuns.

É da riqueza de seu colorido que o cocar brasileiro simboliza nossa gema: alegria. Sem pretensões, moldes, freios nem vergonhas. Alegres sempre vivemos.

Da variedade infinita de combinações cromáticas, que arranjam com intenção antes estética, nossos índios são tão criativos nas tradições quanto nas frouxas obediências. Criar vale mais a pena do que rezar.

Qual melhor musa podem encontrar do que inspirar a arte na natureza? O artesanal está por obra e graça da herança sobrenatural: os pássaros, emissários dos deuses. Cabe aos índios o arranjo, a preservação e a reverência. Beleza é dada.

A pena é efêmera, dura pouco, comida por insetos e pela luz inclemente dos trópicos. Mas a economia não é um conceito: os índios não sabem guardar para depois. Abundam os recursos.

É assim o brasileiro de verdade.

Nós – mestiços Europeus, Africanos ou Asiáticos – trouxemos tristeza, religiões e leis, papo cabeça, poupança para o cemitério.

E a culpa por preferir prazer, diversão e arte.

Cafonices de final de ano

30/10/2009 em Propaganda, Sei lá | 2 Comentários »

Uma vez grande, grande para sempre. O tempo não é bom juiz. Só vale comparar o agora com o agora, e saudosismo é uma patologia sócio-cultural.

Está chegando o final do ano: é hora do balanço, portanto, dos prêmios.

Vamos nessa: quais são os 3 maiores de qualquer coisa viva? Compositores ou cantores, escritores ou poetas, estilistas, arquitetos, grafiteiros, artistas, chefes, fotógrafos, jornalista também vale, publicitário também.

Se você for honesto, pode apostar que a lista vai ser a mesma ou quase igual àquela que você fez no ano passado. A mesma que há 2, 3 ou 5 anos.

Tem dois tipos de entronização: o déja vu sonolento que repete indicações e o cocô perfumado que se obriga a renovar sempre.

“De novo eles” dá desespero, vontade de sair correndo, de suicidar o tempo que não passa na velocidade da ansiedade contemporânea.

“Nunca vi mais gordo”, em compensação, embrulha o estômago, dá vontade de vomitar, de se drogar por não acreditar num mundo tão medíocre.

Premiações são só uma exploração marqueteira da vaidade, ou, parodiando Gilberto Gil um  “Red Bull da Star System”.

Premiar (uma pessoa, empresa ou marca) é o supra-sumo da cafonice que começa numa intenção cafona, critérios cafonas, troféus cafonas e festas cafonérrimas.

A carta que eu nunca queria ter escrito (por José Junior do AfroReggae)

29/10/2009 em Sei lá | Deixe um comentário »

Há 9 anos, Evandro João Silva entrou no AfroReggae como professor de informática.
Há 7 anos, ele virou coordenador do núcleo de Parada de Lucas.

Há 4 anos, Evandro criou uma oficina de música clássica em Parada de Lucas.
Há 8 meses, iniciou um projeto social no sistema prisional carioca.
Há 7 meses, discutimos dezenas de novos projetos.

Há 13 dias, Evandro me deu um abraço e me disse até amanhã.
Há 12, virou um mártir.

Desde então, nosso único alento é que mártir não morre. Vira inspiração, transforma indignação em força.

Força para que continuemos a nossa guerra.
Uma guerra da qual ele, orgulhosa e intensamente, fazia parte.
Uma guerra em que lutaremos sempre.

Mas sempre torcendo para que um dia ela acabe.

José Junior

PS: Essa carta foi publicada em diversos jornais do país. Os suspeitos do crime bem como os “bandidos fardados” que foram coniventes e/ou displicentes foram presos graças à mobilização pública que o fato suscitou.

Quem já viu uma estátua de comitê?

29/10/2009 em Sei lá | 2 Comentários »

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Guerra de 100 anos. A cidade de Calais, no norte da França é sitiada pelos ingleses e resiste heroicamente. Numa sala da prefeitura, um grupo de notáveis burgueses da cidade reúne-se mais uma vez para decidir os termos de uma possível rendição e conseqüente exílio da população ou a continuação das privações. Esgotados depois de 11 meses de fome e doenças, o comitê toma uma decisão: o sacrifício. Os seis privilegiados caminham para fora da cidade, com a corda ao pescoço, portando as chaves da cidade e do castelo para implorarem a liberação dos habitantes da cidade, em troca de suas vidas. Imortalizados pelas crônicas medievais, os burgueses foram salvos pela clemência do Rei e a cidade torna-se inglesa sem infringir aos Calaisianos a vergonha de abandonar seus lares.

Muito mais tarde, Rodin fundiu os burgueses de Calais e eternizou a decisão excepcional e heróica.

Um dos maiores empata-samba da vida de uma empresa são os comitês que formalizam o futuro em discursos, atas e frases de efeito.

Efeito zero.

O tempo que se perde em reuniões intermináveis com  alocuções técnicas de especialistas, pesquisa sonolentas e debates teóricos não passam, em sua maioria, de minuciosos diagnósticos, raríssimos planos, e quase nunca coloca-se a corda no pescoço que quem merece ou damos as chaves para quem pode agir.

Quando muito, gargareja-se a histórica análise, a visão, a missão, a vocação.

Vocação para o esquecimento.

Não há virtudes no diagnóstico, só na ação.

Herói é quem faz, mesmo que com o sacrifício da razão, da lei ou da hierarquia.

A distribuição livre da produção criativa é uma questão de sobrevivência

28/10/2009 em Internet, Sei lá | 6 Comentários »

A distribuição livre de conteúdo é um tabu e para quebrar a censura moral que nos imobiliza, nada como trepar alguns macacos em seus galhos.

A primeira mascarada diz respeito ao direito autoral, sempre ele. Por detrás de qualquer criação e produção de conteúdo, existiria uma projeção de receita perpétua. No entanto, está mais do que demonstrado que, salvo exceções irrelevantes para a média, o pinga pinga dilui-se rapidamente. Nada é tão automático assim.  A receita autoral é fator da ativação do conteúdo. A criação é remunerada no seu lançamento e cada vez que ele é reiterado com re-lançamentos. No limite, portanto, o direito autoral não seria um impeditivo para a distribuição livre de conteúdo (ou vice-versa).

A segunda macacada é vaidosa e egocêntrica. O medo de democratizar a produção “autoral” é a insegurança gerada pela falta, de crédito, de currículo, notas de rodapé, referências, lisonjas, fãs e puxa sacos. A autoria dá sentido ao vazio existencial e é um pedigree da memória. Distribuir livremente a produção é abdicar das palmas póstumas, da lápide dourada. O cemitério é cheio de autores possessivos.

Se a criação não é sopro divino mas exercício, é precisamente na capacidade de criar e produzir. sempre e sem parar, que ela se aprimora. O valor não está no “criado” mas na “capacidade de criar”. Coibir a livre distribuição criativa é preguiça. É criar para coçar o saco depois, e morrer mais rápido.

Ainda – e o argumento seria suficiente – não há meios de controles possíveis para o fluxo livre de conteúdos. Marcos regulatórios devem ser consensuais e não impositivos.

Quando a BBC percebeu que não tinha recursos suficientes para digitalizar e armazenar seu formidável arquivo de conteúdos, ela abriu geral. Sorte nossa. Não duvido que exista mais conteúdo no Youtube, livre leve e solto, do que nos porões trancafiados dos arquivos autorais.

Juju publicidade e o Clamor luzilandense

23/10/2009 em Internet, Sei lá | Tags: | 2 Comentários »

O nascimento de especialidades profissionais é muitas vezes fortuito para não dizer gratuito. Os brand builders e brand architects e outros plufts plofts que nos perdoem, mas teoria reversa não rola para certos casos.

Quem nunca ouviu falar na Juju Publicidade está por fora. É uma das mais famosas empresas de branding do país. Sabem a famosa “Pamonha, pamonha de Piracicaba”? Um fabricante encomendou uma gravação para fazer um delivery de pamonha de porta em porta. A Juju criou o jingle e vendeu a fita. De posse desse copyright, a Juju ganhou as ruas de todo o país, gravando fita atrás de fita.

Quem nunca ouviu falar de “Lucas Celebridade – O clamor Luzilandense” está por fora. É um dos mais importantes celebrity promoters do Piauí, quiça do mundo. Lucas é colunista de Luzilândia, uma pacata cidade que, como qualquer outra aglomeração humana, tem seus ídolos. Lucas abrilhanta todos os happenings sociais da região, seu blog é hype e seu twitter um must da teoria psicológica dos social networks.

Espontaneidade inspira mais do que matraca de teórico e as periferias (do mundo, das cidades e dos nossos microscópicos ambientes profissionais) são muito mais criativas.

Metade dos paranaenses é ladrão

18/09/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

O Paraná seria por acaso uma colônia pré-histórica no cafundó da galáxia? A Internet de lá funciona a lenha? Estariam seus autóctones lutando contra uma espécie de barbárie digital?

Parece que o Tribunal de Justiça de lá declarou ilícito o uso de softwares “que possibilitam a conexão às redes peer-to-peer”.

Ô Xisto (Pereira, relator da decisão) se liga na parada: quer dizer que o infrator é o neguinho que produz um software? Tipo assim, que tal você proibir as montadoras de carro porque tem nego que dirige embriagado?

Ô da toga (douto desembargador) presta atenção: o que você acha que vai conseguir com isso? Que os meliantes de direito autoral se matem por falta de opção? Que eles vão ter que sair do Estado para poder cometer seus crimes?

Ô Xistô! Acorda mano: a pesquisa F/Radar, feita pelo Datafolha, com mais de 2000 entrevistados em todo país (até no Paraná, veja só!) dá conta do seguinte:

- 48% dos brasileiros acima dos 16 anos costumam baixar músicas e filmes da Internet.

- 52% dos brasileiros acima dos 16 anos afirmam já terem comprado (e continuarão comprando) CDs piratas em camelôs (47% para DVDs)

E sabe por que a pesquisa não perguntou diretamente “baixar musica ilegal na Internet” ? Simplesmente porque ninguém ia entender a pergunta, de tão absurda. “Como assim, tem algum jeito legal?” ou “Ué, é ilegal?”

Sacou o drama? Não vai ter lei nem meganha suficiente para coibir tanto fora da lei.

“Lex non docet” não se aplica a tanta gente.

Ô Xistô, pô, tenha dó dos seus conterrâneos.

O mundo é dos Nanos

08/09/2009 em Sei lá | Tags: | 2 Comentários »

Houve um tempo em que acreditávamos que os humanos formavam uma manada que pastava entre cercas, ruminava sem saltos de humores e até consideramos que a estação de monta era sincronizada e que a procriação era uma variação estatística.

Naquela época, o sucesso era medido matematicamente: é tanto de audiência, de participação de mercado, de penetração (a outra). Como as pessoas eram segregadas em lotes com comportamentos similares, o único objetivo das atividades econômicas era crescer, crescer, crescer.

Assim nasceram os Schumacher e os Bolts, os Guiness Books e também as metas mercadológicas. O dogma do século XX é de que “uma parte sempre pode crescer mais do que o todo”. O único fator de sucesso decente era aumentar o tamanho do naco. Por isso inventou-se o anabolizante de porcentagem que manda nas nossas vidas.

Mas, para a sorte da contabilidade histórica, estamos no século XXI e para a nossa sorte, as coisas mudaram.

Alguns críticos acreditam que Dickens criou cerca de 13 mil personagens em seus romances. Só em David Copperfield, devem ter algumas centenas e, embora seja impossível lembrar-se – e por vezes entender – a intricada rede de relacionamentos que se cruzam, alguns deles são mega-celebridades por poucos parágrafos.

Acho que a digressão foi excessiva até agora já que prometi nunca ultrapassar duas laudas (laudas? Porque será que ainda se contam textos em laudas no Word?).

No século XXI, a fragmentação é tamanha que você pode ter poucos milhares de consumidores e seu market-share centesimal, mas ser melhor sucedido do que esse monte de executivos que se descabelam para atender aos fatores de sucesso do século passado.

Em pelo menos metade de todas as conversas que tenho com a geração do milênio, eu bóio à deriva: “Não, eu não conheço esse site que é um sucesso, nem esse aplicativo incrível, nem essa pessoa famosérrima, nem esse produto blockbuster, nem essa marca que TODO mundo está usando”.

Embora eu tenha vocação para a rabugice, acredito piamente nos nano-sucessos, nas nano-celebridades e nas nano-economias.

Por instinto de sobrevivência, vamos desistir de aumentar nosso pedaço de pizza porque tem outros iguais a nós, do outro lado da mesa, fingindo a mesma coisa. Os tempos hiper-modernos nos salvarão da hipocrisia.

Ministro Ayres Britto para presidente

03/09/2009 em Internet, Propaganda, Sei lá | Deixe um comentário »

O presidente Ayres Britto do TSE é um alento esclarecido no vendaval obscurantista que sopra em Brasília.

Ele já se expressou de forma contraria e inequívoca sobre o projeto de lei que tramita no congresso e que trata, entre outros assuntos, de tentar regular o uso da Internet em período eleitoral. Na qualidade de ministro do STF, ele foi mais incisivo ontem (02/09), enviando para publicação o acórdão que julga inconstitucional a lei de imprensa. Aproveitando a oportunidade, o texto qualifica a Internet de “território virtual livre” deixando natimorto aquele projeto de lei que tente enquadrá-la.

O que isso implica para além de respirarmos aliviados e aplaudirmos a autoridade?

Esse tipo de visão reconhece que a Internet é um organismo que se auto-regulamenta pela livre participação das pessoas. Aceita o fato de que esse sufrágio está em franco processo de universalização no pais. Também é possível retirar a crença na maturidade democrática do brasileiro para além dos discursos reacionários de parte de nossa elite.

Do outro lado da moeda, essas decisões também deveriam engendrar um redirecionamento importante de foco na nossa mídia.

Por que a Internet seria livre? Por que um jornal em papel, por exemplo, é sujeito a certas regras e suas versões online a nenhuma, poucas ou outras?

Talvez porque as versões online dão direito de reação livre. Talvez porque permitem a livre circulação das ideias, copy-paste, mash-ups, “recriações” ao sabor da eloqüência virtual das pessoas.

Talvez estejamos no limiar de uma formidável transformação que vai dirigir um investimento colossal para a Internet.

Qual é o produtor de conteúdo, jornalístico ou de entretenimento, que não se sente seduzido por um meio livre, sem travas, sem telhado de vidro, sem interferências? Qual é o publicitário que não fica aliviado de poder utilizar sua criatividade sem cabrestos nem hipocrisias? Qual é o ser humano que não gosta do poder de desprezar, zapear, caluniar ou destruir os conteúdos que julga irresponsáveis ou impróprios?

E a experiência vai valer a pena, mesmo que seja para se perguntar, depois, o que a gente vai fazer com tanta libertinagem.

Você tem talento? Grande coisa

01/09/2009 em Internet, Sei lá | 1 Comentário »

Outro dia, um amigo se debatia com seu futuro. Apesar de viver no século XXI, ele continua com só dois olhos, poucos dedos e um único cérebro. Azar o dele porque devem existir bilhões de jornalistas, escritores, fotógrafos e artistas. O que vai ser da gente?

Muita gente afirma, ora com vergonha, ora com orgulho, que não tem jeito pra tecnologia, não se adapta, “não é comigo”. O mundo não está dividido entre aqueles que dominam e aqueles que se atrapalham. Tecnologia que confunde é tecnologia fracassada. Tecnologia simplifica, por definição. E sim, o dino que você goza hoje, vai aprender. O mundo não é dos nerds.

Tem outros que preferem abdicar das mudanças generalistas do futuro. “Sou um especialista, manjo pacas dessa coisa aqui e ninguém é melhor do que eu”. Esta também é uma falácia. Essa renúncia atrofia o mundo. A curiosidade é um sinal mais vital que o batimento cardíaco. O mundo não é dos experts.

Finalmente tem uns que se auto-justificam com o talento. “Foi Deus que me deu”. Essa justificada ou falsa pretensão é a tabua de salvação. Mas esse naufrágio da individualidade é o bug do milênio. O mundo não é mais dividido entre aqueles que sabem (ou acham que sabem) e aqueles que não sabem. Essa barricada do talento que nega a cauda longa já não é mais rentável nem competitiva.

É arcaico saber o que ninguém sabe, e a efemeridade desse poder deixa o mais sabichão de calças curtas, em dois cliques.

É senil desprezar os bilhões de anônimos talentosos neófitos que andam por aí.

O suicídio dos hiperativos é intriga

31/08/2009 em Internet, Sei lá | 3 Comentários »

Todos os dias, toda hora, temos que ver centenas de posts, ler uma dezena de jornais nos quatro cantos em quatro línguas e ainda pensar sobre todos, produzir sobre alguns, atualizar os perfis, responder às mensagens, ser inteligente, original, analítico e histericamente curiosos. Também temos que fazer monstruosos exercícios de memorização, de associação de significados e organizar tudo em hierarquias funcionais e criativas. Meu pai só tinha dois jornais para ler. Sortudo.

Não é mole manter-se vivo hoje em dia. A menos, é claro, que a gente despreze o mundo com o ar blasé de um “isso eu já vi”, “isso passa” ou pior, “nada mudou”.

Minha tia Inha tem 103 anos. É lúcida e tem saúde. Por vezes, ela suspira “será que Deus esqueceu-se de mim?” mas enquanto ela puder ler e ver novelas, é feliz. “Sabe meu filho, eu adoro ler. Passo o dia lendo, lendo, lendo. Enquanto estou lá, no livro, fico muito curiosa, gosto demais. Mas quando chego no final, sabe de uma coisa? Já esqueci de tudo. Então, volto para o começo. Só troco de livro quando vocês me dão um novo. Mas não carece não, visse?”

Talvez tenhamos a pretensão de achar que nunca, na história do homem, a velocidade das transformações foi tão grande e profunda. Se leda presunção, complexo de insignificância ou vaidade crônica, a cobrança do mundo tempera nossa ansiedade. E vamos investindo, porque o cérebro é elástico e o tempo uma trapaça.

O pianista de redingote esbofa-se sobre a partitura para uma interpretação nova, fresca, contemporânea de uma obra composta há trezentos anos. A platéia em êxtase, trejeita muxoxos oitocentistas. Há mais de século que a cena se repete. O cara não tem facebook, nem blog, nem sabe, coitado, que ele pode dar um boost na sua popularidade twittando adoidado.

Se parte da humanidade reza “tomara que eu morra a tempo” todos os dias, a outra, felizmente, reza o contrario. Escolha e relaxe.

Quem não twitta se estrumbica

17/08/2009 em Internet, Sei lá | 1 Comentário »

A luz ainda não despontara por cima da tampa escura e Ibiajara já driblava as sombras adormecidas da floresta. Há muito ele perseguia a égua redomona. Dias percorrendo os pastos naturais, farejando as pegadas, assuntando os murmúrios do vento e as revoadas assustadas. Ela se enfronhou na mata e o capataz perseguiu sua malícia. Quando o dia salpicou o solo, o caboclo perdeu-se. Girou, girou, girou, perdeu-se. Restava-lhe o coco da safada que ele não perdera das vistas. Era seu guia no labirinto. E foi no quinto dia de breu, que ele aplacou a fome comendo do fungo alucinógeno que salvou-lhe a pele e o emprego: a redomona voltou para o picadeiro.

O elo perdido pode ter sido um cogumelo alucinógeno que nossos primos primatas comiam quando perseguiam animais pelas fezes. Foi o despertar da consciência e a consequente queda: o homem perdeu-se quando desconectou-se da Terra em troca de uma pretensiosa ligação com Deus. Nossa interdependência com o além dá-nos vantagens competitivas. O aquém está à nossa mercê, para servir.

Pois um dia, a soberba vai estrumbicar o homem.

Assim como os fungos que, há bilhões de anos, sacaram que não há possibilidade de sobrevivência sem interdependência, a Internet é nosso sistema redentor. A  moeda de inserção é a quantidade de pontos de contato e a capacidade que desenvolvemos de nos relacionarmos com eles.

A Internet e a extraordinária força das redes sociais e sistemas de co-criação reproduzem uma ecologia de interdependência entre os homens e suas obras. Mais chance de destaque e sobrevivência tem aquele com mais relacionamentos, amigos, contatos e seguidores. Mais chance de cotejar a verdade, aquelas criações com mais suporte e colaboração.

Se você acha que observar de longe, sem macular a preciosa existência é mais digno de sua superioridade, que chá você tomou para acreditar em Papai Noel?

Obrigado, Sarney

13/08/2009 em Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

Num país distante, um laboratório científico de primeira linha criou uma máquina que, através de sofisticados cálculos de cenários, confere às decisões políticas nível de assertividade incontestável. Tudo passa por ela. As nomeações para os cargos públicos têm a intenção dos indicados checadas por poderosos detectores de mentira, os discursos são escarafunchados nas entrelinhas e a vida financeira, social e íntima de todos os políticos é vigiada. Os sábios cientistas que projetaram a parafernália democrática contaram ainda com a ajuda de médiuns de variadas correntes que, graças a seus transes místicos, inter-relacionam todas as medidas com os desígnios divinos. Finalmente, Gaia também participa da vida pública: nada é feito sem o consentimento da mãe Terra, das árvores, dos golfinhos, focas, baleias, tartarugas marinhas, cracas e coquilles Saint-Jacques.

Nesse país, a imprensa investiu fundos colossais na construção da máquina e encontrou, graças aos seus dividendos, uma tábua de salvação: jornais, TVs, rádios e até os blogueiros sobrevivem hoje exclusivamente desses recursos, pagos pelo erário. Tornaram-se “diários oficiais”, house-organs do governo (ou da máquina) que, evidentemente, ninguém lê, e onde, consequentemente, nenhuma empresa anuncia.

O país é muito bem gerido, rico, promissor, respeitoso das minorias e maiorias, socioambientalmente responsável e chato de galocha.

Que graça teria viver num país assim? Que graça teria ser governado por uma Madre Teresa de Calcutá formada em Harvard? Ou um Karl Marx professor do IBMEC? Ou o Lula com PhD em astrofísica e literatura angolana? Ou pelo Sarney com voto de pobreza e sem família?

A grana é nossa, mas que o bigode cínico do Sarney é impagável, isso é.

A favela não é chique

11/08/2009 em Sei lá | Tags: | 6 Comentários »

Os Estados Unidos são o maior importador de vinho francês do mundo. Mas de que adianta, disse-me meu cunhado enólogo, o vinho viaja tanto que, quando chega, é a mesma porcaria que eles cultivam lá na Califórnia. O mesmo podemos dizer daquela água de coco de caixinha, em voga atualmente nas bacanezas da Côte d’Azur: tem gosto de água salobre.

E o mundo voga em fluxos e contrafluxos civilizatórios.

Recebi, certa vez em São Paulo, uma turma de modernos empresários. Eles estavam desbravando a Internet. Figuras quase obrigatórias em todas as listas hype de Nova York a Amsterdã, queriam investir na Pindorama. Mas era preciso impressionar os gringos. Nossa terra tem palmeiras e muita chiqueza. Fui buscar os caras no hotel, que não envergonharia Philippe Starck, e lá fomos nós pro restaurante de calar o Jacques Garcia. Lá pelas tantas, depois de muito goles, o Mark me chamou para fumar na rua (ele era americano, portanto, muito civilizado, respeitador dos pulmões alheios, disciplinado como um G.I. Joe). “Não tem um barzinho por aí mais à vontade pra gente conversar? Isso aqui parece o Titanic ancorado em Coral Gables”.  Fomos para uma calçada e  fumamos e bebemos até de madrugada. Meu patrão foi dormir feliz de ter abalado Bangu com tanta sofisticação tupiniquim. Sentir-se bem é o verdadeiro luxo. O resto é complexo de inferioridade.

É tão esquisito ver um alemão de sandália e meia em Ipanema quanto ver um brasileiro de tênis no Café de La Paix. Muito mais esquisito seria ver o branquelo descalço, ou o tupinambá calçando um sapato que não vê uma graxinha desde que saiu da loja. Mas na sua Birk, o gringo está tão confortável quanto o brasileiro de Nike Shox. O conforto é o verdadeiro luxo. O resto é cafonice exótica.

Compra sorvete do Saponga que ele é pobre

06/08/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Somos muito maniqueístas. E infelizmente a única revolução possível se dá pela dialética. Se não tem pobre, não tem rico e se não tem ricos e pobres, não tem progresso. É triste mas é verdade.

Durante quase toda a história da mídia, sensacionalista por força da audiência, o mundo além-túnel, além-rio, além-dignidade, além-respeito, além-cidadania foi tratado de forma dramática. Era apelação em cima de apelação e parecia que nunca estava pior o bastante. Quando o pobre que morria na fila do atendimento médico não levantava as sobrancelhas, “inventava-se” uma grávida estuprada pelo pai, quando a grávida não arrepiava mais, “inventava-se” um traficante cruel, quando o traficante cruel não revoltava mais “inventava-se” uma mãe descabelando-se do filho morto pela guerra das facções e quando a guerra das facções não provocava mais, “inventava-se” um genocídio de inocentes menores.

Mas até a miséria acostuma. E aos poucos uma outra agenda foi substituindo a antiga. Surge a hora do bem, do exemplo, dos símbolos raros, da flor que desabrocha na merda. Nove entre cada dez matérias falam do menino pobre que aprendeu a tocar violino, da mãe que se prostituía e virou empresária, do ex-traficante que estrela nos cinemas, da freira caridosa, do gringo que se hospeda no cortiço, da madame que ensina corte e costura na favela, do empresário que passa o fim de semana batucando no morro, do rappeiro que frequenta o templo do novo-riquismo.

Por um passe de mágica, os ex-fodidos são coqueluche da burguesia, pochetes em todos os eventos sociais, cobertos de glórias e discursos emocionados. Um otimismo histérico toma conta dos corações, uma mão de cal cobre as consciências cansadas, Madonnas caridosas pululam na high society, um amanhã fogoso se descortina e rega-se a esperança renascida com muito dinheiro incentivado e renúncia fiscal.

Está na hora de impor o terror, porque esse bom-mocismo dá preguiça. Daqui a pouco voltamos a vestir o pijama e a brindar a pobreza que nos embriaga.

Diga-me se fuma que lhe direi quem és

05/08/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

O governante, consciente de sua missão cósmica, venceu uma cruzada mística no quinhão que ele administra. A partir de amanhã, é proibido não fumar. É obrigado fumar em ambiente fechado. E se alguém à sua volta recusar um cigarro, denuncie. Extravase seu ódio soltando quatro mil e setecentas substâncias tóxicas pelas ventas.

A partir de depois de amanhã, é proibido não fumar na minha casa. Na mesma proporção da população brasileira fumante, 18% de todos os meus amigos poderão contar com esse último bastião de resistência. Só será permitido não fumar livremente no jardim.

O dia 7 de agosto de 2009 vai ficar para a história: é o fim da farra da fumaça. Fumantes, esses seres de segunda classe, serão a escória perversa da sociedade. Esses mesmos que matam, a fogo brando, uma legião de pulmões virgens. Dizem que um deles foi preso comendo uma criançinha, entre duas baforadas. Não basta o isolamento tóxico dos recintos destinados a esses párias, que fumem na sarjeta, na rua da amargura, no quinto dos infernos!

O governo da democracia da maioria venceu. E a minoria que se exploda. Que morra, de preferência. De frio, e respirando tranquilamente os escapamentos da via pública.

Sainte-Foy de Conques: fé, ouro e paixão

27/06/2009 em Sei lá | Deixe um comentário »

“Pierre, esconda-se, corra, eles estão chegando!”

Tremendo e soluçando, é dentro do baú de carvalho que o pequeno encontra refúgio, entre salames e restos de um fausto puído. Aqueles instantes gravaram-se com navalha na memória: a mãe sob tortura, sob a risada ébria, as línguas estrangeiras, o banquete de sangue.

O século era invadido de perversas heresias, sedentos conquistadores, vadiagem de bárbaras tribos. A proteção dos elmos e escudos, das muralhas e esconderijos espanta os ladrões e corruptos. Mas quem segura os sarracenos?

Pierre retira-se do mundo, mudo. Vagueia por anos, de aldeia em aldeia e da linhagem que abandonou, da família que sumiu sob a crueldade dos homens; ele conserva o pequeno missal da mãe, o crucifixo de batismo e uma fé selvagem em Cristo.

Pierre se faz eremita nos vales do Aveyron na primeira metade do século VIII. Ele se dá a Deus e nasce assim Dadon, o santo homem.

É numa pequena e verdejante depressão que ele chamaria de Conques (do latim conca, concha) edifica sua primeira capela. A fé e a dedicação consequente elevam rapidamente o pequeno santuário à consideração dos reis carolíngios que a cobrem de riqueza. Dadon legou sua fé; o poder lega o ouro.

No entanto, Conques ainda tem baixa cotação no pedigree sacro: falta-lhe
um osso, um crânio, um cabelo, um caco de cruz, uma ferrugem, uma relíquia de santo.

Aronis era um miserável. Para escapar da fome, ele se faz monge, como tantos outros homens de igreja. No mosteiro beneditino de Agen, encontra abrigo e pequenas obrigações.

Certo dia, o irmão encarregado da faxina dos tesouros adoece, e Aronis é incumbido de lustrar as imagens. Ao entrar na pequena capela escura, uma centelha de luz reverbera no mármore polido do altar. Aronis sente seu olhar guiado, sua pelas têmporas, palpita desordenadamente sob o manto. Em um nicho lateral, uma dama dourada, oferece-lhe delicada flor. O monge cai de joelhos e contempla em adoração a Santa em sua alcova.

Não houve no Ocidente medieval mais bela e pura história de amor. Uma paixão, como todas, impossível. Um monge casto e uma santa. Um homem rude e uma estátua dourada. Um coração oco e um relicário. Aronis e a memória da pequena Foy, de 12 anos, decapitada por ordem de Diocleciano.

Por dez anos, o monge devotou à Foy um incontrolável amor.

E se paixão é doença de coração, se não mata, engorda.

Um belo dia, o doido surrupiou a estátua do convento e picou a mula sem deixar vestígios. O safado foi parar em Conques e vendeu seu amor ao corrupto abade, que colocou a cidade na mais santa de todas as santas rotas, o caminho de Santiago de Compostela (Via Podiensis).

Aronis morreu por ali, anos depois, gordo e mal-amado. Foy irradia ainda hoje, e para sempre, o mais puro sorriso de compaixão.

Essa história é meia verdade, como todas as paixões.

Minha devoção à Sainte-Foy

Tenho pelo menos três inabaláveis motivos para crer na linda santinha, com suas delicadas mãos segurando minúsculos vasos de flores.

1998, copa do mundo em terra estrangeira. Vai começar o jogo, o primeiro do Brasil. Chegada a Conques, aldeia perdida no meio do nada. Turista brasileiro ali é mais raro do que Havaianas nos pés dos monges beneditinos que ainda vagueiam pela rua estreita que leva à igreja. “Será possível que não tem um único bar aberto com televisão ligada?” Finalmente, um café com televisão. Ligada. Numa porcaria de um programa de auditório. “Madame, s’il vous plait, La Coupe du Monde de football!!” Finalmente, dois canarinhos grudados na televisão. “Shuuuut” diz a velha senhora varrendo a porta para um casal de turistas alemães, em respeito à nossa concentração. Brasil 2 X 1 Escócia. Primeiro milagre de Sainte-Foy.

2000, mais uma visita a Conques. Sem motivo. Só para rever aquele “écrin de verdure” (desculpem, mas, em português, “estojo de verdura” é medonho). Dormimos no único hotel da cidade. A igreja abre até muito tarde para receber os peregrinos, mas que tal assistir a uma missa? A próxima é às cinco e pouco da manhã. As matinas! Com os monges! Lá vamos nós. Entramos na pequena capela atrasados. Seis monges e uma velha que, educadamente, nos empresta um missal. “É pra cantar alguma coisa! E agora, o que estão cantando?”. Folheio o livro, sem muita fé. E não é que ele se abre na página certa? Arrebatados, entoamos o cântico. Segundo milagre de Sainte-Foy.

2006, Conques de novo, a caminho da Provence. É tarde e estou cansado. Vamos fazer uma parada no hotelzinho da cidade. À noite, tem pouco ou nada para fazer em Conques. Vamos ligar para a Lígia e saber como está. Ainda no hospital, a pequena Júlia em seu ventre, desenganada. Drama sem palavras. “Estou em Conques, vou fazer uma promessa amanhã”. Por procuração, claro, uma vez que minha religiosidade se perdeu em algum prazer proibido. Cem velas para Sainte-Foy se minha afiliada conseguir vencer seu prematuro sofrimento. Júlia tem hoje três anos é linda e forte. Uma vencedora antes de ser gente. Terceiro milagre de Sainte-Foy.

Serviços

Para ir a Conques, é simples. Basta colocar no GPS do carro. Se não estiver de carro, tente o caminho de Santiago, a pé. Não tem muito o que indicar em Conques. Está tudo lá, à mão, sem stress, sem guia tagarela, sem galleries Lafayette e sem japonês.

Hotel só tem um razoável, o “Le Sainte Foy”. Mas se quiser um pouco mais de luxo, ali do ladinho, tem o mais confortável “Le Moulin de Cambelong”.

Comer, não tem opção. A sugestão é sempre a mesma quando você se perde na “France profonde”: uma salada qualquer, um sanduíche de camembert ou um steak-frittes.

O que ver também não tem segredos: a basílica romana (no fim da rua) e o museu com o tesouro (incluindo a belíssima Sainte Foix). Fora isso, se deixe levar pela rua, saia da aldeia, volte, saia de novo. Compre um sorvete e sente num banco olhando o tempo passar. Você nem vai perceber, mas de repente anoiteceu e você já está com saudade.

Perto de Conques existem outras etapas imperdíveis:

- Rocamadour com sua aldeia, santuário e castelo trepados no precipício.
- Albi e sua catedral fortaleza com as mais flamejantes pinturas remanescentes de um tempo em que as igrejas eram coloridas.
- Cordes sur Ciel e o silêncio dos cátaros sacrificados.
- Martel e seu mercado de flores.
- La Roque-Gageac e seu castelo debruçado no rio.
- Sarlat la Canéda e a memória de um grande poeta, La Boëtie.
- Domme e sua terraço sobre a Dordogne.

Publicado na revista Mag

Rede social (Orkut) é coisa de pobre?

26/06/2009 em Sei lá | 7 Comentários »

Quase todos os dias desvio do meu caminho para dar uma passada voyeurística por um corredor de um shopping que dá uma excelente visão sobre as telas dos computadores de uma LAN house frequentada por todo tipo de pessoas. É óbvio que a proporção de perfis do Orkut escancarados é altíssima. Concedo aos culturetes: alguns social climbers estão no Facebook e Twitter.

Por vezes, a curiosidade me corroi, e me arregalo na vitrine: “Que diabos essas pessoas tanto têm a fazer?”ou “Será que está todo mundo a perigo?” ou ainda “Pra que tanto lustre na egotrip?”.

Outro dia, conversei um pouco com o rapaz que assessora as pessoas menos familiarizadas com os insuportáveis filtros e antivírus do sistema.

- Aquela lá vem todo dia. A mãe mora em Porto Alegre. Todo dia ela fala com a mãe.

Mas a moça não estava escrevendo nenhum email, nem falando no skype, nem no MSN. Nem Facebook nem Twitter, perdoem-me, é pesquisa etnográfica, gente, não posso mentir! Ela estava no Orkut. Não, pessoal, ela não era uma pé-rapada nem me pareceu ser uma ignorantona que só sabe usar essas coisas básicas da Internet como esses caras da classe C!

O Orkut e a superpovoada rede social novo-chique, está substituindo o email.

Àqueles que acreditam em pesquisa para além do umbigo, aí vão os dados, entre pessoas que acessam a Internet no Brasil (F/Radar 2009):

- Penetração do email na classe AB: 68%
- Penetração do Orkut na classe AB: 48%
- Penetração do email na classe C: 50%
- Penetração do Orkut na classe C: 50%

Que não se apressem os analistas de plantão: há “depenetração” do uso do email maior na classe AB sem “depenetração” do uso do Orkut (em ambas).

Não vou me aventurar a comentar o fato porque vou apanhar, mas contanto que não usem o preconceito para dizer que isso acontece porque os pobres miseráveis estão usurpando a Internet, valem muitas hipóteses!

Como é gostoso o meu transtorno

25/06/2009 em Internet, Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Não posso deixar de repercutir um artigo publicado no Webinsider.

Trata-se de um pequeno “fait divers” ocorrido muito tempo atrás. Sem entrar em detalhes, até porque prefiro que leiam o original, eu só queria dizer que nunca me importei com a cópia, envergonhada ou desavergonhada, do que escrevo. Me diverte mais do que chateia.

Mas talvez o que seja fascinante, na experiência do exercício diário de escrever (com ou sem obrigação) é quando a rotina por si só motiva. Como uma espécie de superstição que controla consciente ou inconscientemente a vida. Esse conforto psicológico dá segurança, dá coragem, dá ousadia. É uma dose diária de prazer.

Extravasar um inefável Transtorno Obsessivo-Compulsivo é muito mais gostoso do que buscar quinze minutos de fama, chupando ou criando.

Deuses-Contadores ou Deuses-Compaixão?

08/06/2009 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Um bilhão de pessoas na terra estão abaixo da linha de pobreza. Centenas de milhões morrem de fome. E nós aqui preocupados em fazer xixi no banho para salvar a mata atlântica.

E entram em ação dois antagônicos argumentos: o do “melhor do que nada” e o do “não adianta”.

O do “melhor do que nada” é uma espécie de compensação falaciosa da nossa consciência. Como se Deuses-Contadores fizessem fichas-razão de débito/crédito das nossas ações. Uma moeda com conversão universal nos tornaria mais ou menos abonados para desfrutar de mais ou menos conforto no além. E no final de nossas vidas, a gente faz as contas com os donos do time-sharing do céu.

Argumento romanticamente ingênuo, principalmente quando em face do “não adianta”.

Esse poderoso argumento faz as contas antes. É mais esperto, mais informado e mais racional. Como se os Deuses fossem tolos velhinhos de infinita compaixão. As nossas esmolas nunca irão resolver a fome do mundo, nossos votos nunca serão mais poderosos do que a ganância dos poderosos. E no final das nossas vidas, a gente paga uma lápide mais ou menos rica, compra uma memória mais ou menos nobre.

Mas, enquanto isso, um terço da África está contaminada pelo vírus da AIDS, e a gente prefere dizer que a culpa é dos governos corruptos, das guerras intestinas, das rivalidades tribais ou de algum inconfessável preconceito. Ou que é culpa da classe média americana, dos interesses das multinacionais, do imperialismo (ou colonialismo) ou outro egoísmo burguês como nossas leis e direitos profanos.

E, enquanto a gente não decide que Deuses adorar, para os homens o mundo é bem pior do que quando eles foram inventados.