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Big ideia é big por quê?

“Lemos seu post de ontem em seu blog. Acreditamos que uma ideia ali delineada pode se consolidar em um negócio realmente big. Somos um grupo de investidores interessado em mapear e incubar iniciativas de negócios online. Caso tenha interesse, favor entrar em contato com fulano de tal blá-blá-blá-blá-blá.”

O post foi mesmo um sucesso. Foi tanto que a ficha caiu quando recebi o e-mail do tal grupo de investidores: deve ter muita gente patenteando o que era para ser, apenas, um ensaio irônico-malicioso.

É até possível que alguém fique rico com minhas tímidas ideias, vomitadas sem censura, sem preocupação de viabilidade e pelo simples prazer de distribuir indiretas a torto e à direita.

Mas de que valem as ideias? As big?

Esta semana acontece uma feira de empreendedores em São Paulo. Centenas de ideias big, bad e esdrúxulas se atropelam em algum pavilhão lotado de “investidores interessados”. Centenas, milhares de ideias se apertam nas gavetas de milhares de cientistas, técnicos, aposentados e publicitários. Deve ter mais ideia vagando no espaço do que realizações humanas. Mais ideia perdida na blogosfera do que livro na biblioteca do congresso americano. Deve ter tanta ideia big nos lixões, nos arquivos, nas memórias frustradas, que a oferta abundante deprecia seu valor de forma infinitesimal.

“Prezados investidores interessados,

A ideia que vocês consideraram big no meu artigo é de vocês. Façam dela o que quiserem.

Só peço um único pagamento: avisem-me se ela for realizada. Pode ser por vaidade – admito e agradeço-lhes por terem me despertado tão nobre sentimento – mas meu interesse é nutrir um certo mau humor inconformado.

Não me parece adequado julgar uma ideia em função de sua capacidade de gerar “big negócios”. Tampouco me parece que o valor de um criador está na big ideia que ele um dia, num desatino inspirado, resolveu realizar.

O valor de uma big ideia só se mede pela sua aplicabilidade. O valor de um criador só se mede pela capacidade de gerar novas e incessantes outras big ideias.”

Memória de um amnésico

Existem muitas metáforas animalescas para uma grande corporação: uma galinha, porque ela não consegue sair de um círculo pintado no chão; uma abelha, que obedece atavicamente a uma rainha manca; uma barata, que mesmo guilhotinada continua mexendo as patinhas.

Existem vários fatores que fazem de uma grande organização um organismo acéfalo ou, no mínimo, amnésico. Mas o mais comum é a rotatividade promíscua dos funcionários por áreas e filiais. É sinal de dinamismo e de ascensão na carreira rodar a bolsinha e, na primeira ocasião que surge, pontificar suas “experiências” em outras freguesias.

Não há cartilha empresarial (que se costuma chamar de cultura) que segure o ímpeto do neófito. Chega com muita energia para arranhar de sua grife o modus operandi. Com um crédito de boa vontade, cases pretensamente construídos alhures, currículos místicos e os dentes ensanguentados para produzir resultados rápidos, a memória fica relegada a um punhado de pesquisas assimiladas em treinamentos precoces.

Memória é saudosismo careta e aprendizado, tentativa e erro.

Dizem que o maior plantador de florestas é o esquilo. Ele passa o verão inteiro catando nozes e armazenando-as em buracos aleatórios. Dizem que 80% de tudo o que ele esconde para comer no inverno acaba germinando na primavera porque ele não tem GPS nem muita memória. Por isso, ele morre de fome e prefere passar o inverno nas cidades, fuçando lixeiras.

Já o Wahrtog, aquele javali bonitinho dos desenhos animados, é uma presa divertida. Quando vê um leão diante de si, sai correndo. Anda uns cem metros e esquece por que está correndo. Como também fazemos, ele acaba dando meia volta para ver se lembra do que esqueceu. E lá está a boca aberta do leão.

Matar e morrer pela audiência

Um agregador de conteúdo de informação compila o que está disponível, organiza, ranqueia e, geralmente, cita a fonte do material. A Internet criou esses megaclippings gigantes e gratuitos. São muito úteis.

Os produtores de conteúdo de informação não estão muito contentes, claro, porque acreditam que perdem audiência (sic) e, consequentemente, receita. Eles alegam que não é muito justo porque produzir custa caro, enquanto que agregar não custa nada (sic). Também dizem que esses ladrões estão ganhando às suas custas (sic).

O nó górdio do debate, no entanto, não está nesses agregadores (Yahoo News, Google News), mas sim em duas regrinhas que decorrem do hábito de consumo de conteúdo na Internet: nada é exclusivo e nada é pago. Portanto, a justa remuneração de todos os jogadores deve advir da venda da audiência gerada. Matar e morrer pela audiência.

Produtores e agregadores só deveriam preocupar-se em geração de audiências, massivas, qualificadas, segmentadas, fidelizadas e, para isso, é preciso entender as audiências, pesquisá-las, atendê-las, convidá-las a participar. Ouvi-las.

Produtores de conteúdos de informação ouvem pouco suas audiências. Medem muito, mas ouvem pouco.

Agregadores só ouvem. Ouvem muito e mudam muito.

Existem duas formas típicas de se informar. A passiva, o hábito; e a ativa, a procura. Os produtores de conteúdo de informação investem – sempre investiram – em estimular, acalentar ou criar o hábito. Já seus novos concorrentes só querem saber de adaptar-se aos hábitos das audiências.

O bonde está passando. Não é dando as mãos que a gente vai segurá-lo.

Ambientalismo é controle de natalidade

Por ano, nascem 16 mil bebês só na cidade de Campinas e quando eu nasci, a população do mundo era metade da atual.

Se tem tanta gente no mundo, escolhas são feitas, na marra ou na paz, não tem solução porque não cabe tantos humanos consumindo, comendo e cagando. Não se faz censo de morcego, embora eles sejam a maior população de mamíferos da Terra, nem de vírus, os manda-chuvas do planeta, mas alguns deles contaram que antigamente era mais ou menos o mesmo número. Enfim, o homem não é nada sustentável e por mais que se esforcem os discursos que abraçam árvores, a única solução sustentável é sustar a parição ou conformar-se com o leite derramado.

Os ambientalistas são os novos inquisidores e, travestidos de pacíficos silvícolas de bem com a vida, o dedo está sempre em riste no seu nariz ou – pior – o punhal cravando sua consciência a cada bala que você compra, come e cospe fora. Mas ficou muito fora de moda falar de controle de natalidade – coisa de chinês totalitário – e sequer se arriscam eles a debater o aborto que já ajudava um pouco (dizem que no Brasil, tem um milhão de abortos clandestinos).

Tem uns até mais alucinados que acreditam que o homem foi criado por Deus e da costela do primogênito pedaço de lama moldada, nasceu a mulher. E vociferam com a Bíblia na mão: não matarás e não treparás com camisinha.

No fundo, no fundo, todo ambientalista secreta uma mórbida torcida pela vingança de Gaia, pelos tornados, terremotos e tsunamis para poder gargarejar: “não falei que você não pode jogar sua guimba no bueiro?”

Nunca se viu um único dizendo “ufa, que bom, menos gente na Terra, logo mais aquifoláceas naturais pro meu chimarrão de cabaça orgânica”.

É triste a terra ardendo mas é mais triste a criança chorando.

Vida cronometrada

Que tal ler enquanto pedalo e respondo às mensagens, dou uma paradinha para ligar para minha mãe que não vai nem perceber que estou ofegante porque ela fala muito e quando terminar passo ali para dar um beijo na minha amiga, mas a caminho bebo água, dou uma olhadinha nos e-mails e já organizo a saída daqui, a passada no supermercado, aproveitando para pegar as roupas no tintureiro, aproveitando para pegar dinheiro e aproveitando para também ir lendo os e-mails de novo e aproveitando para ligar para os recados do dia que, claro, já estarão dormindo, mas tudo bem, eu não quero mesmo falar, e aproveitando também para abastecer para economizar o tempo de amanhã, que vai ser todo aproveitadinho também porque, se Deus quiser, vou pegar um avião e aproveitar para dormir os 40 minutos que desaproveitei quando despencou a arara de roupa do closet.

A nossa vida está assim, aproveitadinha, que otimiza nosso tempo multitarefado, multiplataforma,  multiconectado, multi-trans-midia-story-teller.

Temos que ser incrivelmente organizados, desumanamente disciplinados e extraordinariamente focados.

Nossa cabeça é uma checklist de geração espontânea, um processador de abreviações, um curto-circuito de reminders, uma agenda milimetricamente preenchida.

Afogados em minutos superaproveitados, a vida segue sem revisão, com a autocrítica disciplinada pela supervalorização da autoestima.

Um dia, nasceu uma flor no planeta do Pequeno Príncipe. Naquele planetinha tão pequeno, uma flor. Quem sabe viera de uma nuvem de pássaros em migração interestelar, ou sempre estivera lá, germinando sem fim. O Pequeno Príncipe extasiou-se com o botão da bela. Desenhou-lhe uma cúpula, fez-lhe guarda permanente, afinal, algum carneiro desavisado surgido de um mal ajambrado rabisco poderia ceifar seu desabrochar. Mas a flor não terminava de aprumar-se, maquiar-se, encher-se de formosura. Ela era muito vaidosa e seu admirador, muito solitário. Até que um belo dia ela despertou num raio de sol e, vendo-se refletida nos olhos do menino, chorou: “Meu Deus, estou tão despenteada!”.

E num piscar de olhos, aproveitando o cochilo do anjo da guarda, a gente morre, deixando uma vida muito mal aproveitada.

Vigário Geral virou geral

Ontem, na inauguração do Centro Cultural Waly Salomão do Afroreggae, em Vigário Geral, no Rio.

– A senhora mora aqui há quanto tempo?
– Estou na comunidade há 25 anos.
– Esse centro cultural incrível vai mudar muita coisa por aqui, né?
– Você já foi a um abatedouro, filho?
– Já.
– Esse era o cheiro, filho. Carniça. De gente.

Cultura oferecida

É quase impossível driblar o malho em qualquer evento cultural hoje. Se é para beneficiar-se de incentivos fiscais, para aliviar a  consciência atormentada, obter retorno de imagem ou gosto, não importa: tem grana de marca sendo investido. É bom e a gente gosta.

Se de um lado, os produtores estão mais abertos com as incursões comercias, os investidores estão cada vez mais ousados. E no limite, uma prosmiscuidade constrangedora ocorre.

Tudo bem se vivemos uma espécie de euforia, tudo bem se “cultura é hype” (sic), tudo certo, daqui a pouco tudo se acomoda.

Mas quando as manifestações culturais, de qualquer tipo, inclusive as muito populares, as muito eruditas, as muito vanguardistas, viram plataforma de mídia, isso incomoda.

O televisor de plasma na entrada, na saída, no mictório, é a praga mais recente. Mas tem também os quiosques sorridentes distribuindo brindes com trocadilhos infames e quando o João Doria resolver “investir em cultura” (sic), o audio guide vai ser patrocinado por uma concessionária de estradas, as plaquinhas indicativas por uma siderúrgica, a moldura por um fabricante de esquadrias, a iluminação vai ter intervalo comercial antes de acender e o papel higiênico vai ser oferecimento de uma ONG pela ética na política. Tudo com muita adequação, originalidade e vagabundice extrema.

Estamos virando uma espécie de casa de tolerância cultural (sem eufemismo, eu quis dizer puteiro).

“Você entra com a bossa, eu entro com a boçalidade”

Perguntaram outro dia “você é sempre do contra?” e pensei que talvez valesse a pena, excepcionalmente, falar um pouco em primeira pessoa.

Viver não é uma opção, é uma contingência. Ver, sentir, pensar, escrever também. Morrer é a única decisão que tomamos, no reflexo do viver.

E se assim for, muito além dos fluxos e refluxos que nos conduzem, assumir o leme das decisões, ver-se como centro irradiador de causas, criador das marés, influenciador do futuro é o alimento da vida. Melhor morrer do que curtir a deriva.

O homem não teria criado o fogo e a roda, fundido os metais, construído estradas, edificado templos, eliminado inimigos, vencido o espaço sideral e sonhado com a eternidade se nunca tivesse duvidado do determinismo e das leis de causa e efeito. O homem nunca teria sido homem se não tivesse duvidado de Deus.

O drama da existência só tem sentido quando extravasamos ou no mínimo assumimos que somos contra tudo e todos. A crítica, ainda que não seja opção, é a base da vida.

Só vale a pena beneficiar dos minutinhos de atenção dos bem aventurados leitores desse blog se for para ser contra. A turba do “a favor” já é grande demais.

iPad ou a arte do vazio

A maior mentira do milênio é acreditar que a tecnologia é uma mola do progresso.

Desde que ela saiu dos escaninhos, tomou marca e mercado, uma espécie de parnasianismo troncho nos empossou. E, assim, o desejo de transpor fronteiras e cercar-se de potencialidades materializadas por próteses tecnológicas tornou-se irresistível.

Passamos a querer e possuir o inimaginável, o ainda não sonhado. E o encanto dura até que o mistério dos recursos anunciados seja desvendado ou desmascarado. O valor do produto é diretamente proporcional às suas promessas. Quando elas caem por terra, o charme é quebrado. Até a próxima novidade.

Cercamo-nos de sucata em gestação, cada vez mais efêmera, cada vez mais vazia. O nome do bicho hoje é o e-reader, mas daqui a pouco será outra belezura ainda mais cheia de juras.

Então cá estamos nessa situaçãozinha ridícula.

– Funcional significa algo que não sei como usar e que provavelmente nunca vou aprender. E, se aprender, deixará de ser “funcional.

– Beleza – ou uma palavra mais in: design – significa funcionalidade. Portanto, quanto mais “funcional” for uma coisa, mais bela ela será.

– E, no limite, desejamos belas potencialidades vazias.

Assim, o livro vazio, sem uma linha escrita, o disco sem a mais tímida melodia, a partitura sem nota, sem ideia nem forma, ganha valor. E quanto maior a possibilidade de TUDO, quanto maior o NADA, mais valor.

Se tecnologia é sinônimo de progresso, de que progresso estamos falando?

Os Lusíadas valem nada perto de um iPad virgem.

Brasileiro: DNA Creative Commons

Não se pode levar muito a sério as generalizações que rotulam países, culturas e povos. Mas é um papo que enche a boca de muitas conversas. “O francês é mal-humorado; o português, literal; o italiano, conquistador; o americano, adolescente; o argentino, cabeludo; o mexicano, bigodudo; o indiano, fedido; o australiano, caipira; o japonês, tarado; o chinês, dissimulado; o russo, extravagante”, e por aí vai. É aquela conversinha mole que arrota “Sou viajado, tá?”.

O brasileiro seria, nessas qualificações precoces, alegre, se o viajante veio no carnaval; simpático, se ele se perdeu na Avenida Paulista; feliz, se ele se esticou nas areias; luxuriante, se ele comeu feijoada; gritalhão, se ele assistiu ao big brother local; caipira, se ele foi ao shopping; arrivista, se ele se derreteu na Oscar Freire. Sorridente ou desdentado, natural ou botocudo, sexy ou britânico, esperto ou disciplinado, o brasileiro pode ser tudo isso. O francês, também. O queniano, idem.

Mas se não deveríamos cometer tais derrapadas no atual milênio de extinção saudosa dos regionalismos, o brasileiro é o mais improvável dos povos e possui a mais impossível das identidades. A tolerância imposta pela miscigenação incontrolável nos deu essa zona poderosa.

Não tem nada mais falso e bobo do que um brasileiro que se esforça em ser americano, inglês ou argentino. Fazer como os americanos, os ingleses ou os argentinos. Pensar como os americanos, ingleses ou argentinos. Não tem nada mais provinciano.

Se o Brasil exporta sandália de dedo, avião a jato, dentistas e boleiros, ele tem para exportar a malemolência com o formalismo, a falta de vergonha, o aconchego cultural. Nosso DNA mestiço no sangue e mestiço no gosto. Nossa natureza copyleft. Nossa cultura mashup.

Ídolo é coisa de boiola

– Dilson, quem você admira?
– Admira? Sei lá, mano.
– Seu pai, sua mãe?
– Tá louco? Gosto deles, mas não admiro, não.
– O Adriano, o Ronaldo, o Love?
– É, pode ser, um pouco.
– O Maluco, o Beira Mar?
– É. Foda.

Em Portugal, o Lobo Antunes e o Saramago dão autógrafos na rua. Escritores, poetas e menestréis são ídolos nacionais.

Os nossos são jogadores de futebol, atores de televisão, socialites e bandidos.

Se o Niemeyer, o Rubem Fonseca ou o Wesley Duke Lee tomarem o metrô, no máximo cedem o assentos pros coroas. Capaz de ninguém dar bola pro Paulo Coelho nem pro Romero Brito. Mas qualquer big brother é assediado dentro de casa.

Tiradentes não é um herói nacional, nem os Dom Pedro, Antonio Conselheiro, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, Aurélio Buarque de Holanda, nem o Betinho, o Chico Mendes, o Casaldaglia, os Vilas Boas.

Talvez o Padim Ciço, o Dom Helder, a Mãe Menininha, o Chico Xavier, mas esses são do reino do além como a Bispa Sonia e o Padre Marcelo.

Como não tem prova de redação pra se dar bem, a gente não lê. E como a gente não lê, não vamos  babar ovo pra quem não conhece!

Mas, se a gente é instruído mesmo, tipo a nata, classe A, aprendemos nos livros que ensinam como se dar bem em 12 lições. Ou fica por dentro com as coisas que estão rolando nas palestras, nos workshops da firma, nos eventos da HSM. Coisa fina. E boa.

Tá bom assim, porque a gente é da farra e se basta.

Que medo de não ser à toa na vida

Primatas evoluídos conseguem criar instrumentos para obter o que precisam. Alavancas para puxar, varas para bater, pedras pontiagudas para quebrar.

Os humanos são assim também. Criam a todo instante próteses funcionais para lutar por sua sobrevivência e preservação. Alavancas, varas, pedras pontiagudas, carros, aviões e computadores.

Mas os macacos não inventaram a televisão, os telescópios, os foguetes e o iPhone. Nem nunca serão capazes disso porque só os humanos são capazes de criar e conservar. Nós criamos e aprendemos. Nós criamos e aperfeiçoamos.

Nossos primos só criam, usam, jogam fora e esquecem.

Somos o que somos porque as coisas que criamos são eternas. Nós não. Somos humanos graças às nossas criações eternamente melhoradas por uma infinita cadeia de semelhantes. Cadeia que vem de trás, quando ainda não éramos, e anda para a frente, quando não mais seremos.

Entre nós, existem dois tipos de pessoas: aquelas que buscam fama e aquelas que buscam feitos. Ou, para certos, as inconfessáveis falácias de “buscar fama para fazer” ou de “fazer para a fama”.

A fama morre com a morte. Ou morre antes, com as rugas. Ou ainda, a fama se suicida com a vaidade que a alimenta.

Em nossos tempos, a fama é fácil e rápida. Se ela é fator de reputação coletiva, a conectividade em redes descentralizadas afama num estampido iluminado ou de sorte. De 140 caracteres, por exemplo.

Mas, assim como acontece num truque instantâneo, a reputação é uma vertigem. E nada, nada se aperfeiçoa da fama depois que ela some.

O homem, sozinho, mesmo que sua fama seja enorme, é uma miragem fugaz. O homem só existe para a espécie, para sua espécie, na medida em que é capaz de aperfeiçoar os feitos de outros homens.

A apoteose dos big brothers, dos nossos craques, dos nossos bandidos é tão inútil quanto o eclipse das nossas medalhas e das nossas aspas na mídia, se não formos capazes de nos perguntar, sempre: “O que fazemos para melhorar e perpetuar a espécie?”.

Há vida lá fora

Um pingüim pousou numa árvore do estacionamento. Segundo um observador, ele chega pela manhã, cansado, e passa o dia cochilando antes de retomar a lida, quando o sol se põe. Para um atento especialista de plantão, trata-se de um raríssimo bem-te-vi rei, expulso do bando por infringir os códigos de conduta do bando.

Tem gente correndo no parque a qualquer hora do dia. Jovens, nem tão jovens, pessoas rodopiando com um rumo concentricamente obsessivo. Dá até para surpreender pensamentos ofegantes: “mais uma, mais uma”, “hoje eu vou conseguir”, ou “acho que já deu, já deu”.

E há aqueles que desmaiam nos bancos. De costas, com os braços em súplica sobre o peito, pernas abraçando o concreto, pescoço teso. Sonhando talvez, curando o porre, curtindo um hiato de tempo, um resfolego inocente ou cheio de culpa.

Um desinfeliz bate a cabeça insistentemente, concreto adentro. A cada estocada, solta um grito sob a marquise ou talvez um gemido de dor ou de prazer. Deve ser a coceira que dá não ter dó vida ou quem sabe um telefone sem fio com a alienação. Ou nós é que somos alienígenas.

A colônia de urubu e a comunidade de patos do jardim japonês caga tanto que embranquece as folhas e desertifica a relva parca. Dialogam às vezes, graves as rapinas, em falsete os pés-chatos. Convivem e nem dão bola se uns são brancos e outros negões.

E quando um raio de sol safado abre uma picada pelas congéias floridas, dá aquela luz alaranjada que disfarça o cansaço. É fim do dia, já já. Vamos pra rua, pra casa, pra cama, pros braços do nosso amor.

Quando a vida lá fora não inspira, assunta. Que bom.

O caipira leva no papo

Ele era um homem de valor. Daqueles que a gente admira.

Sua fala era direta, sem salamaleques. Ele avisava sempre “olha, gente, eu sou assim, falo o que penso”, eram sem refinamento as suas maneiras: “me perdoem, eu sou simples”, sem cerimônia suas invectivas: “seu bando de merda” e portentosa sua conta bancária, conquistada no suor do bisavô mascate.

Mas o que realmente encantava, deixava os janotas embevecidos, era o sotaque. Caipira de mascar cigarro de palha, bugre de mãos calejadas e dentadura de segunda mão. Falava arrastado, engolindo as sílabas finais, temperando o discurso com barrocas expressões. Todos babavam com esse Riobaldo com crédito até nos estrangeiros.

E como ele sabia! Seu pai dizia “filho, nunca esqueça, suas raízes estão aqui e enquanto permanecerem bem enterradinhas nessa roça, você vai dar nó em todo mundo”, enquanto sorvia seu Darjeeling Harney and Sons em compassados goles.

Era assim desde que o pai fora estudar no Sul. A escola era uma oligarquia de pó de arroz. Todo mundo mangava de sua roupa de linho engomada, tão démodée, coitado. Aprendera os modos e fora para a Europa. Apesar de treinado, por lá, o regionalismo virava exotismo. Mas nas temporadas de Gstaad, ele levava as loiras no papo e no bolso.

Quando o pai voltou para o fim do mundo, naquela terra longínqua, aquele cabrobó de dá dó, continuou assim, cultivando o jeito simplório pra inglês ver enquanto passeava sua Bentley no canavial.

De vô pra pai pra filho até que um dia nasce um príncipe encantado que põe tudo pra danar.

Quem preserva o sotaque leva no papo quem mija pra trás.

Felicidade é a NET ler o meu blog

Olá Fernand,

Meu nome é Eduardo e trabalho na área de relacionamento da NET.

Li um post no seu blog e, buscando a satisfação de nossos clientes, gostaria de te ajudar a sanar qualquer dúvida ou problema relacionado aos serviços NET. Pelos dados informados, não consegui localizar o contrato. Por favor, envie o código de assinante ou um telefone de contato para que eu possa lhe ajudar com o seu caso.

Att.
Eduardo Mendes – Relacionamento Net

Senhor Eduardo, muito obrigado. O problema já foi resolvido.

O mundo não vai acabar amanhã

Dizem que um pivete bateu a carteira do Bill Gates. Foi uma comoção. Todos os veículos, revistas sérias e menos sérias, cobriram o evento. Especialistas foram convocados para discutir o impacto da gatunagem, outros cientistas, as causas do evento. Teorizou-se muito e ativistas, profetas e outros do manicômio manifestaram-se.

Investigações mais profundas, CPI’s e a Interpol, finalmente revelaram o tamanho do prejuízo sócio-financeiro: o magnata, possuidor de uma fortuna estimada em 40.000.000.000 de dólares foi surrupiado em 50.

Foi mais ou menos o que aconteceu com os 8 centímetros que se moveram no eixo da terra depois do terremoto no Chile.

Apesar de alguns que insistem em dar cobertura cataclísmica em rede nacional, com ares compenetrados e apocalípticos, fora matar menos gente do que qualquer epidemia de resfriado, derrubar menos favela do que qualquer viaduto e amplificar menos choro do que qualquer enterro de líder comunitário, o terremoto no Chile teve o efeito de um soco de pulga no saco de um elefante.

A questão que atormenta no entanto é por que será que as pessoas estão tão desesperadas para que o mundo acabe? Por que queremos tanto que tudo dê errado, que o mar esparrame, que os rios transbordem e que o planeta chupão nos castigue?

Sorte minha que vi um macaquinho no jardim hoje de manhã, que não tinha trânsito, que o meu amigo do sinal me contou uma boa e que, afinal de contas, se a mal educada da gata fez xixi na minha mochila é que está na hora de comprar uma nova.

Pai Nosso que estais no céu, fique por lá e nós ficaremos por aqui, na nossa Terra, que é, por vezes, tão bela.

Felicidade é a NET funcionando

Essa é uma história de ódio contemporâneo.

– Márcia, por favor, você pode fazer uma assinatura da Net para mim? Quero o plano mais caro, que tem tudo
– Tudo o quê?
– Não faço idéia do que seja o tudo da NET, mas peça o mais caro, assim vem tudo.
– OK
– Não quero ter nenhuma chateação, sabe? Prefiro pagar até pelo que nunca vou usar.

Fiquei feliz de ter realizado o sonho de todo profissional de marketing: o consumidor ideal,  que paga sem pestanejar e jamais reclama.

Um dia instalaram o tudo lá em casa. Internet bólida, telefone fixo que jamais irei usar, centenas de canais que dão preguiça de zapear, gravador de coisas que não terei a disciplina de programar e canais de filmes para minha empregada se aboletar no sofá nas tardes sonolentas.

Passei uma semana tranqüila, exercitando a imaginação televisiva que nunca me permitiu ir além de três canais de notícias.

Um dia, um capeta sentou no controle remoto e clicou 101 no controle remoto. Palavra mágica para um consumidor ideal: falou em pagar alguma coisa, é com ele mesmo. “Consumir, ó prazer inefável!”

Faço a operação com a mesma destreza de que saco o cartão de crédito para comprar qualquer inutilidade mágica naquelas lojas de treco caro.

“Crédito Insuficiente.”

O quê? Eu, o rico, milionário, perdulário que compra sem olhar, sem regatear e sequer usa o que comprou, portanto não usa pós venda, assistência técnica e não sabe o que significa a palavra SAC?

Me chamando de pobre? Qual é?!

Entrei na gangorra, no labirinto de mentiras, de bagunças, de diz-que-diz. Recebi técnicos em casa, trocaram as coisas, apertei centenas de vezes o controle remoto para fazer operações rocambolescas e cada vez mais criativas.

Pobre só se fode e por isso me fodi. A NET é um merda.

Coitada da idéia mal apresentada

Não se nasce Kayapó ou Bororo.

Perguntaram a um índio, portador de avantajado alargador labial, se venderia o artefato. O índio respondeu: ” te dou o botoque e você me dá a sua orelha”.

Um japonês, um pigmeu ou um albino pode tornar-se tão Kayapó quanto o Raoni.  Basta agir como um Kayapó para ser aceito como tal.

O “savoir vivre” dos nossos índios ultrapassa muitas vezes nossa capacidade de entendimento.

Os Kayapós organizam-se em grandes aldeias nas quais os homens pertencem a associações independentes, com seus próprios chefes. Mas chefe entre os Kayapós não manda em ninguém. É só aquele que recebeu, por doação de tios ou avôs maternos, alguns privilégios ritualísticos.

Além disso, para legitimar a liderança da associação – da qual pertencem todos aquele que possuem um dos privilégios (uma pessoa pode ter até uma dezena de privilégios, compondo assim uma enorme combinação de possibilidades) – o homem deve possuir uma qualidade essencial à vida social Kayapó: a oratória.

Ainda criança, o pequeno índio recebe um alargador de lábios e tem as orelhas furadas. Os botoques e pesados brincos simbolizam uma espécie de amplificação simbólica dos dois sentidos mais nobres: a fala e audição (a visão é meramente funcional e “ver demais” é qualidade depreciada).

Quando há desavenças na aldeia – quando um índio ousou portar um cocar de cores não compatíveis à sua classe de privilégios ou simplesmente se um garoto chavecou uma garota casada – as questões serão resolvidas em embates de oratória entre os oponentes. Os chefes das respectivas associações tomarão a palavra e defenderão seus pontos de vista, na casa dos homens, até entendimento final entre as partes.

Entre os Kayapós, tudo se resolve no gogó. Privilégios (de qualquer natureza) não dão poder. Só o gogó. E o gogó se aprende, se desenvolve, se afia.

A gente vem subestimando demais a importância da oratória.

Capacidade de apresentação não é um detalhe de convencimento.

É com paixão e convicção, inteligência e articulação, simplicidade e humildade que se expressa e vende uma idéia.

O resto é natimorto.

A Londres daqui não tem a menor graça

A gente aprendeu, a vida inteira, que a educação funciona como uma caixa de ressonância de referências. Como se, ao longo de nossas vidas, fossemos conectando-nos indelevelmente a outros aprendizados, e costurando assim,  nossas próprias referências que não passam, sempre, de recitações colhidas por aí. É por isso que apreciamos, valorizamos e enaltecemos quem tem muitas “referências”.

A gente diz “fulano é viajado, sabe das coisas”.

Dona Conceição, enviuvou e foi ver o mundo. Foi de pacote, ver os cartões postais ao vivo e a cores. Gostou muito e não parou nunca mais. Mas da primeira vez, quando voltou, trouxe muitas recordações. Chamava o povo em casa e contava que a Torre de Pisa era torta mesmo, a torre Eiffel dava enjôo de subir, a de Londres povaréu danado pra cima e pra baixo, sem falar das cantoria nos canais de Veneza e da Via Condotti, ah a via Condotti!

–       Sabe fia, essa Via Condotti que falam tanto. É muito linda mesmo. Linda demais. Mas cá entre nós, assim, não é que eu estou ficando blasé – aprendi essa, que tal? – mas a Via Condotti é mais ou menos nossa Avenida Independência aqui de Bauru, sabe?

Com o tempo, a gente vai sacando, no entanto, que tantas referencias enjoam. Das duas uma, ou a gente não consegue mais achar graça em nada ou embanana tudo. Como o Monsieur e Madame Franck.

Eles estavam aposentados, com um bom dinheiro no banco e sem genro para sustentar. Viajavam muito e mandavam cartões para todos. Mas eles já não eram mocinhos e a gente recebia uma linda foto de Madri com palavras singelas “Paris é inesquecível, salut a tous!” ou de Moscou: “Londres says hello!”.

Do outro lado do espectro, aqui da torre de marfim, a gente gargareja demais nossas incríveis referências. Conectados ao extremo que estamos, perdemos totalmente a capacidade de processamento inteligente das informação. E por processamento, entenda-se criação.

O que é sucesso no e do Brasil? Novela? Samba? Futebol? A banda Calypso? O hip hop, forró e baile funk? Ou se preferirem casos mais chiques, um tipo de arquitetura, um tipo de design, a Bossa Nova? Exemplos emblemáticos da antropofagia de referências. Quando a gente come o que vem de outros lugares, mastiga, cospe, engole de novo, mastiga de novo, faz uma mistura e cospe outra coisa. Igual mas diferente. É assim que a gente construiu nossa identidade tão gostosa. Desse talento aí de introduzir nossas coisas sem preconceito, sem arrependimento, sem vergonha.

Precisamos urgentemente de um tratamento de desintoxicação de referências na propaganda brasileira. A semi-ignorância é uma dádiva para quem tem talento.