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Esses vídeos-muleta para animar uma apresentação

31/03/2011 em Propaganda | Tags: , , | 6 Comentários »

A moda pegou, mas pegou mesmo. Virou uma mania (e lugar-comum) da nação de planejadores e criadores: colocar a viseira e sentar na cadeira de diretor para produzir minidocumentários ou videozinhos para apresentar suas ideias.

Não tem derrapada, gaguejo nem cacoete; tudo é lindo, rápido, sintético e, principalmente, não suscita interrupção.

É a grande evolução dos power-points com pessoas pulando e jovens sorrindo, que substituíram aqueles com imagens-conceito de lâmpadas, escadarias e tiro ao alvo.

Como se subitamente todo o mundo fosse acometido de mudez envergonhada. Faz-se uma pequena introdução e lá vem o play com uma música animada, imagens lindas, textos de impacto e outras referências chupadas no parnaso descolado.

O improviso, o senso de oportunidade, a condução diligente a partir da observação, a body language e a sedução foram enlatados e trocados por imagens roubadas.

Em breve, tudo será feito por videoconferência com atores construídos em 3D.

Em breve, a saudade da vida real vai ser compensada por algum reality armado e vulgar a que assistiremos de cueca velha em casa.

Mas não há nada mais convincente que o não dito, mais sedutor que o deslize, mais poderoso que o subliminar que só a presença física, de carne, osso, voz e olhar pode produzir.

Coitada da idéia mal apresentada

02/03/2010 em Propaganda, Sei lá | Tags: , | 1 Comentário »

Não se nasce Kayapó ou Bororo.

Perguntaram a um índio, portador de avantajado alargador labial, se venderia o artefato. O índio respondeu: ” te dou o botoque e você me dá a sua orelha”.

Um japonês, um pigmeu ou um albino pode tornar-se tão Kayapó quanto o Raoni.  Basta agir como um Kayapó para ser aceito como tal.

O “savoir vivre” dos nossos índios ultrapassa muitas vezes nossa capacidade de entendimento.

Os Kayapós organizam-se em grandes aldeias nas quais os homens pertencem a associações independentes, com seus próprios chefes. Mas chefe entre os Kayapós não manda em ninguém. É só aquele que recebeu, por doação de tios ou avôs maternos, alguns privilégios ritualísticos.

Além disso, para legitimar a liderança da associação – da qual pertencem todos aquele que possuem um dos privilégios (uma pessoa pode ter até uma dezena de privilégios, compondo assim uma enorme combinação de possibilidades) – o homem deve possuir uma qualidade essencial à vida social Kayapó: a oratória.

Ainda criança, o pequeno índio recebe um alargador de lábios e tem as orelhas furadas. Os botoques e pesados brincos simbolizam uma espécie de amplificação simbólica dos dois sentidos mais nobres: a fala e audição (a visão é meramente funcional e “ver demais” é qualidade depreciada).

Quando há desavenças na aldeia – quando um índio ousou portar um cocar de cores não compatíveis à sua classe de privilégios ou simplesmente se um garoto chavecou uma garota casada – as questões serão resolvidas em embates de oratória entre os oponentes. Os chefes das respectivas associações tomarão a palavra e defenderão seus pontos de vista, na casa dos homens, até entendimento final entre as partes.

Entre os Kayapós, tudo se resolve no gogó. Privilégios (de qualquer natureza) não dão poder. Só o gogó. E o gogó se aprende, se desenvolve, se afia.

A gente vem subestimando demais a importância da oratória.

Capacidade de apresentação não é um detalhe de convencimento.

É com paixão e convicção, inteligência e articulação, simplicidade e humildade que se expressa e vende uma idéia.

O resto é natimorto.