Monthly Archives: January 2000

Um dia de sol.

Morávamos na Lapônia. 7 meses de noite por ano. Sol gelado, frio de dar dó.

Um feio dia, encarapuçados até a alma, vimos um cartaz na agência de viagens local anunciando: “Sol de rachar, praia e coqueiros: férias calientes em Bora Bora”. O apelo era irresistível.

Economias amealhadas, avião fretado, de cuecas aportamos na praia dourada. Patinhos feios, corríamos como loucos, expondo nossa diáfana morbidez sem nenhuma vergonha. Ríamos aos borbotões apesar do comportamento estranho dos autóctones à sombra das palmas: dormiam e abanavam-se displiscentemente esnobando o paraíso.

Ao fim do primeiro dia, o sol ainda espreguiçava-se por sobre a lámina verde do mar, as fogueiras foram acesas na areia. Rodopiando ao redor do fogo, dançarinas nuas ardiam em brasas em um transe enlouquecedor. Bem de longe ouvíamos o canto e os tambores: lapônios encapuzados ardiam em brasas na UTI local.

Quando leio as recentes matérias dos principais periódicos, não consigo deixar de lembrar-me, apavorado, do cartaz da agência de viagens: “Internet revoluciona o mundo”, “Faça seu Business Plan e fique rico com Wall Street”, “Garotão fica milionário com gibis virtuais”, “A Lapônia invadiu o mundo”.

O sol é lindo mas queima rápido. Neguinho fica lendo essas coisas e acaba largando tudo por um dia de sol no paraíso.

Sejamos mais racionais.

O que é a Internet? Uma nova fonte de energia barata e inesgotável? A vacina contra a velhice? O tele-transportador? Ora, menos, bem menos: é apenas uma porrada de terminais comunicando-se através de um tipo de código morse.

E tem mais: o computador não foi inventado para a Internet. A linhas telefônicas, fibras óticas, cabos e outros bichos, tampouco. Portanto, não tem invenção alguma. No máximo uma adaptação original.

A grande verdade é que ainda estamos todos babando na frente da vitrine da agência de viagem. Tudo está para acontecer mas nada aconteceu ainda. Nada.

A Internet não revolucionou o mundo coisíssima nenhuma. Ainda. As dot.com´s ainda mamam na grana da indústria, do comércio, dos bancos que há mais de um século revolucionaram o mundo com uma invenção chamada Capitalismo.

Você não vai ficar rico com Wall Street que revolucionou o sistema capitalista com uma grande invenção chamada mercado de capitais. Quem vai ficar rico é Wall Street. Com você. Com um belo business plan, o máximo que pode acontecer é você virar bancário.

Se os garotões vão ficar rico, pode até ser. O fato é que gibi na Internet ainda é gibi e a Internet não inventou o gibi.

Claro, a Internet isso e aquilo, puxa vida, e como!

Mas quem vende livro, vende livro. Se é numa loja na rua 25 de março ou na Internet, ele é um livreiro e não um interneteiro. Quem vende verdura, vende verdura. Se é numa quitanda ou na Internet, ele é um verdureiro e não um interneteiro. Quem vende comunicação, vende comunicação. Se é em folhas de papel ou na Internet, ele é um comuniqueiro e não um interneteiro.

E como é que se vendem livros, verduras e comunicação? Duas alternativas: pergunte ao livreiro, verdureiro e comuniqueiro ou ao banqueiro disfarçado de interneteiro.

Você é que sabe porque no final, o Lapônio é você!

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Internet não existe

Eu me lembro, no comecinho, a gente se reunia para desabafar: “será que essa coisa de Internet vai dar certo?” e todos começavam a chorar as pitangas.

Mas o fato é que o entusiasmo era diretamente proporcional à nossa miséria.

Mas de repente, alguém descobriu uma mina de ouro lá em Wall Street e começou a corrida do ouro e sua consequente corrida de diligências que, nas palavras da maior revista do país, vai mudar o mundo.

Das duas uma: ou os editores da tal revista passaram a semana em Jericoacoara e perderam a razão ou estão totalmente descronizados.

Para mim, falar da Internet nesses termos alucinados soa estranho.

Este endeusamento antropomórfico da Internet é um despropósito.

O que diabos é essa tal de Internet? Porque raios estamos querendo reinventar a roda, estressando milhões de pessoas com tábulas da lei fajutas?

Fala-se da Internet como se ela existisse, como se fosse possível cercá-la e defini-la. Não importa o caminho que os impulsos nervosos fazem para acionar a minha mão quando cato milho no teclado. O que interessa é a natureza desses impulsos que diferem dos outros que percorem minhas sinapses quando coço o coco.

Na tal de Internet é a mesma coisa.

Querem ver um exemplo absurdo?

Reunem-se notáveis empresários para discutir o impacto e a importância da eletricidade nos seus respectivos ramos de atividade. A conversa começa e se encerra em dois minutos, simplesmente porque não há o que conversar. Se o tema da conversa é eletricidade que chamem eletricistas para debater. Com o assunto Internet é assim: está na ordem do dia e os mais inacreditáveis paraquedistas da face da terra acham que a Internet vai revolucionar o mundo. O mote é o seguinte: “não sei o que vou fazer mas seja o que for, vai ser na Internet e vou arrotar milhões em poucos meses”. Ou, retomando a analogia acima, “não sei o que vai ser, mas não importa, se tiver eletricidade, vou ficar rico”. Perceberam o ridículo?

Desse raciocínio enviezado inventaram uma nova categoria de empresas, as glamorosas “dot com companies”. É tão absurdo chamar uma livraria virtual de “dot com company” quanto dizer que a padaria do Manoel é uma “Electicity company” porque os fornos de assar pão são elétricos.

Não percamos mais o nosso tempo falando de Internet pelo amor de Deus. Vamos queimar as pestanas pensando em negócios. Vamos vender livros? OK. Qual será a estratégia? Para quem? De que forma? Com que investimentos? Quais as pessoas, recursos, etc? Que vai ser na Internet é tão óbvio quanto apertar um interruptor e ver a luz irromper no ambiente.

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