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Steve Jobs goza e faz gozar

23/07/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Quem nunca ouviu uma música em torniquete, mais e mais e mais, sem parar, até sufocar-se de prazer? Ou repetiu em desatino uma palavra, um grunhido, uma risada, um gesto, ao infinito?

O êxtase é sair do seu estado, cortar-se da cronologia, fixar o presente fora do corpo e da mente. E para Kundera, viver é o difícil balanço entre a busca do êxtase e seu controle porque seu gôzo eterno é mortal.

Há também sofrimento, pena, trabalho na busca e no controle do êxtase. Viver não é brincadeira.

A verdadeira criação é movida pelo êxtase pessoal e comunicá-la é a tentativa, magicamente imprevisível, de transferência desse estado fora do estado.

Pode haver êxtase em tudo. E o orgasmo é sua manifestação mais sublime, mas o êxtase é um prazer prosaico e pode estar na contemplação obsessiva de um buraco no chão.

Pode estar também na produção de um produto, de um texto, de um comercial de 30 segundos, de um supérfluo banner na Internet.

Mas o mundo das marcas, com poucas exceções, é mecânico, cheio de modelos, cabrestos e tolhe, acoberta, policia, vulgariza, nega, assombra ou massacra, o êxtase criativo que transporta e faz nego comprar para além da razão, para além do coração, para além da sanidade.

O título sumiu (por André Kassu)

16/04/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Esse não é um texto saudosista. Não cabem aqui lembranças de um velho tempo. É simplesmente uma constatação. O título anda sumido, escanteado, não globalizado, talvez. Eu não sei quanto a vocês, mas um bom título é sempre mágico de ler. O comentário roubado, aquilo que você jura já ter pensado, mas não foi capaz de traduzir. Curtos, em dois tempos, três tempos até. Os raciocínios inteligentes que mais parecem conceitos de tão bem pensados. E por que não, a maldade, a observação precisa das mazelas humanas?

Mais uma vez, não existe aqui uma tentativa de negar os novos tempos. É só uma homenagem, resgate que seja, de uma grande arte: o título. Eu sei, todo mundo quer pensar no viral de um milhão de views, na escada rolante “moonwalk” que desce em marcha a ré tocando Billie Jean. É natural. Mas a existência de um não deveria matar o outro. O gorila da Cadbury não enterra o Michael Jordan 1×0 Isaac Newton. Assim, como nem a mais brilhante das ações pode ser considerada superior aos títulos e textos do Neil Ferreira (ou alguém duvida que a morte do orelhão é uma ação genial?).

O título é tão injustiçado que quando ele é bom e o layout é ruim, ele morre. Mas quando ele é mais ou menos e a direção de arte é bonita, ele se perpetua. Pobre coitado. Fadado a não depender nem de si mesmo. De ser chamado em pedidos de “vamos evitar aquelas gracinhas ou piadinhas”. De ser confundido com dizeres. De ser constantemente substituído pelo seu primo abaixo, o subtítulo.

O fato é que nas revistas e nos anuários, o título tem andado de lado. E é injusto. Fazer título é exercitar a arte da síntese. É mais do que nunca, saber cortar palavras. Tanta coisa genial já foi escrita que cada detalhe faz a diferença. Páginas e páginas de títulos esquentam a mão, nos fazem pensar na importância de vírgulas, pontos e pausas.

Já ouvi gente que, para menosprezar o título, diz: eu penso visualmente. Ou, eu penso no conceito como o todo. Ou, eu penso global. E aí temos uma infinidade de anúncios com o logo  pequeno no canto direito, uma imagem e um conceito com interrogação. Tudo bem. Você pode não ser um tituleiro nato, mas por favor, saber escrever é básico. Ou deveria ser. Eu tenho visto pastas de redatores com muita intimidade com ações e pouca com as palavras. Gente que certamente tem  dificuldade para escrever um texto cabine de rádio (e sim, esses jobs existem).

Eu sei que gosto de título. E gosto do texto. Cada palavra escrita pelo Fábio Fernandes (leia os diálogos dos filmes e veja se tem alguma coisa ao acaso por ali. Releia o texto da crise), o olho atento do Eugenio Mohallem, a fina ironia do Wilson Mateos, a mistura de loucura, ódio e formulinha zero do Edu Lima. A maldade angelical do Roberto Pereira, a inteligência e emoção do Olivetto, tudo do já mencionado Neil e a nostalgia que me bate ao ler o texto do Pelourinho do Nizan. O “experimente ser magra” do Peralta, “a história de um homem feliz” do Luiz Toledo e o Renato Simões que escreve muito antes de existir a categoria técnica do anuário. Escrever não deveria ser uma preocupação dos redatores, apenas. “Você bebe e não ganha nada” foi criado pelo Marcello Serpa. E matou legiões de redatores de inveja. Sem falar no André Laurentino, que saiu da direção de arte para a redação, escreveu livro e o melhor texto sobre filho único que eu já li.

O título me faz uma falta que o twitter não preenche. Ainda que o twitter prove que as palavras continuam importantes.  Os tais 140 caracteres viraram o refúgio dos tituleiros, como disse o Rodolfo Sampaio. Só que tudo vira briefing e a disputa é pelo RT.  E são tantos títulos a todo instante, que o critério e a magia se perdem.

Pode parecer antigo ou fora de moda. Pode não ser o jeito mais fácil de ganhar Leão ou fazer sucesso nos comentários anônimos. Mas um bom título é e continuará sendo sempre excelente propaganda.

(Link relacionado: Um bom título vale mais que mil imagens)

A propaganda dos fominhas e brucutus

01/04/2010 em Propaganda | Tags: , , , | 4 Comentários »

Toda agência de propaganda tem atacante fominha, lateral que dribla pra trás, meio de campo perdido e zagueiro brucutu. Para quem assiste de fora, a falta de entrosamento é a alegria dos comentaristas. Mas para quem está em campo, a bola está em jogo e não tem replay.

Como no futebol, o esquema de jogo é quase sempre caudatário do talento de alguns. A vitória é dos craques, a derrota é dos técnicos.

Toda agência de propaganda tem criação, planejamento, atendimento e mídia. Todas, inclusive as modernas, inovadoras, hypadas, desesperadas, desconectadas ou desencanadas.

Como no futebol, na propaganda existem regras do jogo.

A regra do nosso jogo é a seguinte: trabalhamos para clientes que comandam uma grana que devemos investir em veículos de comunicação que escolhemos em função das audiências que eles geram.

Não mudou muita coisa desde tempos imemoriais. Ainda temos a grana dos clientes, ainda trabalhamos com veículos de comunicação e ainda temos que investir neles.

Mas uma coisinha singela está diferente: as audiências não são mais dadas. Elas agora estão voláteis, independentes e incertas. Elas estão hoje em um bilhão de lugares e amanhã estarão em um bilhão de outros lugares. As audiências foram alforriadas.

Novas regras se impõem e novos times também.

A mídia não pode mais ser fominha e encastelar-se atrás dos dados. A criação não pode mais ser brucutu e achar que só Jesus salva. O planejamento não pode mais dar drible pra trás com sua sapiência do consumidor de ontem e o atendimento não pode mais dar dribles para trás da sua cautela.

Com essa audiência liberta, não dá mais para prescindir de esquema de jogo e não dá mais pra fazer gol sozinho.

Mais importante que criar idéias (seja lá o que isso algum dia significou), a gente tem que aprender a criar audiências e para isso, talento e umbigo não bastam.

“Não se preocupe viu”, to muito por dentro do “geral” das “coisas”

22/03/2010 em Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Todo mundo concorda que o briefing é a matéria prima do trabalho de uma agência. Também concordamos que em alguns casos ele também é usado como guilhotina,  filtradora ou frustradora, do trabalho criativo. É portanto consenso que um bom briefing deve inspirar sem castrar. E obviamente, quanto melhor a matéria prima, melhor o produto final, tanto em termos de qualidade quanto de esforço.

Se o dever de um briefing é ser musa, vamos combinar também que a transcrição das necessidades, problemas, esperanças dos clientes não são propriamente a coisa mais importante. Quando muito, compõem o cenário sobre o qual devem-se construir caminhos.

Se o pecado de um briefing é ser inquisidor, acordamos que check-lists não são necessários, desejáveis nem tampouco de-briefings cuja função sempre de empata-foda. Quando muito, pode-se considerar um incentivo ao longo do processo, um apoio moral.

Um briefing deve portanto ser preciso, correto, focado. E idealmente, se mais de um caminho se apresentar, mais de um briefing pode ser considerado.

Briefing todo abertinho ou fechadinho, onde tudo pode ou não pode, tudo é desejável ou não, tudo atende as expectativas do cliente ou não, é inútil, vide preguiçoso, vide brochante.

Um briefing não se escreve, se cria.

Finalmente, convencionou-se que agências de comunicação teriam pessoas mais próximas dos clientes, que estariam “por dentro do geral das coisas” e chamaríamos essas pessoas de “atendimento”.

Existiriam outras, no meio do caminho entre o atendimento e a criação, especializadas em dar foco ao “geral” e em dar vida às “coisas”, e essas pessoas são o que chamamos de “planejadores”.

No fundo, no fundo, é simples. Os “não se preocupe” é que complicam.

A Internet enche que até transborda

12/03/2010 em Internet | Tags: , , , | 4 Comentários »

Com a Internet, uma nova economia nasceu. Com a Internet, muitas gente ficou milionária da noite para o dia. Com a Internet, a democracia renasceu, e a política e a justiça. Com a Internet, as pessoas estão menos sozinhas, mais participativas, mais poderosas, mais instruídas, mais inseridas, mais criativas, mais, mais, mais.

E também com a Internet, o mundo está menor e mais igual. Com a Internet rouba-se mais, infringe-se mais a lei. Com a Internet o lixo tem seu lugar ao sol, a produção cultural perdeu referências de qualidade. E a produção tout court também. Até nossos valores. E nossa ética. E nossa fé. Com a Internet, ninguém quer mais saber de olhar no olho, nem tocar, nem falar, nem trepar, nem, nem, nem.

Todas as virtudes e todos os vícios: é tudo culpa da Internet.

Tem até uma patologia nova, os internetisícos, que tossem bits. Coitados, ficam doentes se não tiverem um computador, um pad, um celular, uma lan-house à mão.

E tem aqueles outros, os internetofóbicos, que ficam verdes se alguém falar “google”, azuis se ouvirem a palavra “youtube” e explodem só de ver o passarinho azul.

Se pessoas morrem em acidente de carro, não é culpa dos carros, nem das estradas, nem das montadoras. Se as pessoas engordam, não é culpa da gordura, nem da lanchonete, nem do maldito azteca que inventou o chocolate.

Tomara que chegue logo o dia em que a palavra Internet fique obsoleta, careta, saudosista ou bizarra. E que a palavra Criação ou Deus ou Liberdade cresçam e apareçam no tag-cloud.

Todo criativo é uma ilha

04/03/2010 em Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Chega uma hora que você engole um ponto de interrogação: será que isso é bom? Será que vão entender? Será original? Será que é o caminho certo?

Daí você raciocina de novo. Elabora o espírito do porto e se veste de mulher do piolho: vão rir na hora certa? E se acharem pejorativo, simplista, coloquial, formal, bobo, imbecil, cretino, estúpido, uma bosta?

É nesse momento que você desiste e apela para o infalível: a iluminação, o talento, de divino direito.

Frissons olímpicos percorrem seu corpo, o olhar voga ao infinito, a cabeleira dança em câmera lenta, e, mãos em súplica romântica, você se olha no espelho, da privada, e diz: “é isso, eu sinto que é isso!”.

É hora de enfrentar o inimigo público número um: a sua convicção, essa devassa, vendida, volúvel e carreirista.

Os caras mal olham e cospem, sem pensar, algo que você nem ouve direito.

De volta à solidão amarga, você se distrai lendo uma bobagem qualquer: uma crônica de futebol, uma fofoca, uma bizarrice, um briefing.

Um briefing que você não entende por definição, acha ruim por princípio (se fosse bom, não precisariam de você), equivocado por natureza (se estivesse certo, você teria que admitir), mal escrito por lógica (afinal de contas onde já se viu?).

Essa é a sua vida. Criar, sobre improváveis caminhos, idéias mal compreendidas de que você tem que se orgulhar para não sufocar.

O mundo seria injusto demais se não houvessem incompetentes por todos os lados.

A Londres daqui não tem a menor graça

01/03/2010 em Propaganda, Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

A gente aprendeu, a vida inteira, que a educação funciona como uma caixa de ressonância de referências. Como se, ao longo de nossas vidas, fossemos conectando-nos indelevelmente a outros aprendizados, e costurando assim,  nossas próprias referências que não passam, sempre, de recitações colhidas por aí. É por isso que apreciamos, valorizamos e enaltecemos quem tem muitas “referências”.

A gente diz “fulano é viajado, sabe das coisas”.

Dona Conceição, enviuvou e foi ver o mundo. Foi de pacote, ver os cartões postais ao vivo e a cores. Gostou muito e não parou nunca mais. Mas da primeira vez, quando voltou, trouxe muitas recordações. Chamava o povo em casa e contava que a Torre de Pisa era torta mesmo, a torre Eiffel dava enjôo de subir, a de Londres povaréu danado pra cima e pra baixo, sem falar das cantoria nos canais de Veneza e da Via Condotti, ah a via Condotti!

-       Sabe fia, essa Via Condotti que falam tanto. É muito linda mesmo. Linda demais. Mas cá entre nós, assim, não é que eu estou ficando blasé – aprendi essa, que tal? – mas a Via Condotti é mais ou menos nossa Avenida Independência aqui de Bauru, sabe?

Com o tempo, a gente vai sacando, no entanto, que tantas referencias enjoam. Das duas uma, ou a gente não consegue mais achar graça em nada ou embanana tudo. Como o Monsieur e Madame Franck.

Eles estavam aposentados, com um bom dinheiro no banco e sem genro para sustentar. Viajavam muito e mandavam cartões para todos. Mas eles já não eram mocinhos e a gente recebia uma linda foto de Madri com palavras singelas “Paris é inesquecível, salut a tous!” ou de Moscou: “Londres says hello!”.

Do outro lado do espectro, aqui da torre de marfim, a gente gargareja demais nossas incríveis referências. Conectados ao extremo que estamos, perdemos totalmente a capacidade de processamento inteligente das informação. E por processamento, entenda-se criação.

O que é sucesso no e do Brasil? Novela? Samba? Futebol? A banda Calypso? O hip hop, forró e baile funk? Ou se preferirem casos mais chiques, um tipo de arquitetura, um tipo de design, a Bossa Nova? Exemplos emblemáticos da antropofagia de referências. Quando a gente come o que vem de outros lugares, mastiga, cospe, engole de novo, mastiga de novo, faz uma mistura e cospe outra coisa. Igual mas diferente. É assim que a gente construiu nossa identidade tão gostosa. Desse talento aí de introduzir nossas coisas sem preconceito, sem arrependimento, sem vergonha.

Precisamos urgentemente de um tratamento de desintoxicação de referências na propaganda brasileira. A semi-ignorância é uma dádiva para quem tem talento.

Propaganda é um exercício de estilo

04/02/2010 em Propaganda | Tags: , , | Deixe um comentário »

Raymond Queneau escreveu um livro chamado “exercício de estilo”, em 1947, que contava a história de um jovem com longo pescoço, portando um chapéu decorado com uma trança. Ao entrar no ônibus, o personagem troca algumas palavras rudes com outro passageiro. Mais tarde, o narrador encontra novamente o sujeito do ônibus que está discutindo com um amigo que lhe aconselha fechar o botão superior de seu casaco.

A história, prosaica, no entanto é desenvolvida em 99 estilos diferentes ao longo das páginas. O exercício é tão rigoroso que não se tratam de interpretações da mesma história, que tentariam por exemplo dar explicações diferentes para o fato (o personagem teria sido zombado pelo passageiro do ônibus por causa do seu pescoço girafesco? Ou teria sido a sua trança exótica que excitou a curiosidade?).

Todos os 99 textos têm idênticos roteiros e suscitam as mesmas indagações. Mas eles são deliciosamente diferentes. E os estilos – e só os estilos – apesar de serem formas, revelam sim ao leitor interpretações muito distintas. O estilo é o único vetor de interpretação, o catalisador da história que não está traçada nas linhas mas delas emana misteriosamente.

Na literatura, a intenção do autor encontra-se muito menos na história contada e mais no estilo que sugere as interpretações do leitor.

O domínio do estilo é a única arte que importa. O domínio da forma de contar é que irá transferir intenção à mensagem.

Embora nem sempre haja intenção deliberada e consciente em uma obra artística, a propaganda é sempre premeditada. E é simples, cristalina, e objetiva essa intenção.

O criativo escreve histórias mas ele se transforma em publicitário quando domina os estilos portadores da intenção (sim, aquela do briefing), diversos e infinitos, mas sempre precisos.

Em tempo, não se pesquisa estilo em pré teste publicitário. E não se pesquisa porque não dá, simplesmente não dá. Morte aos pré-testes!