Backup pra quê?

Tempos atrás, perdi todos os meus arquivos digitais. Achei que era o fim e penitenciei-me durante dias, perdi o sono e quando ele voltou, pesadelos destruidores arruinavam meus dias. Eram décadas de diligente registro organizado, evaporados. Um pedaço de mim, grande e vital, estava definitivamente aniquilado. Me senti como uma alma penada vagando à margem da minha história. Desencarnado e sem redenção.

Tempos atrás, uma desafortunada atualização evaporou minha agenda. Chorei. A solidão me precipitou num abismo sem fim, escuro. Entrei em queda livre e o paraquedas não abriu. Senti-me como uma bactéria de uma pulga, tão pequena, tão insignificante, tão inútil que era como se jamais tivesse existido.

Tempos atrás, um espírito danado surrupiou todos os meus e-mails, de uma vez, os respondidos, os arquivados, os que jaziam à espera de resposta. Achei que o mundo ia desabar, que o destino da humanidade seria uma inexorável punição, retrocesso. Tudo ia desandar e nunca mais me ergueria.

Mas o tempo passou. Ele passou e, gozado, mais leve, mais conectado e integrado me encontrei. Para que o apego?

Mas o tempo passou mais ainda. Ele passou e tudo recomeçou. Que selvagem escravidão na qual voluntariamente encarceramo-nos?

O ego e o prêmio

Em tempos de espetacularização de tudo, em tempos da celebridadização de todos, e principalmente em tempo da aclamada colaboratização criativa, onde e como se coloca o papel da autoria?

Se tudo vira festa, se tudo vira palco, se tudo é de todos, qual é o papel da criação? Talvez estejamos caminhando para um mundo em que o progresso será tão mecanizado e seus frutos tão compartilhados que não haja mais sentido para o gênio humano.

Filhos pródigos de infinitos progenitores, a criação se vulgariza na partilha da fama e na propagação imediata de presumida autoria. Autor não é mais quem cria mas quem grita.

O mundo celebra a fama acima da obra e o prêmio faz mais barulho do que ela. Até porque a obra que se celebra é tantas vezes imaginária.

Mas o autor – o verdadeiro – cria a revelia deste sistema porque não tem alternativa. Criar é sua energia vital e a fama sua kriptonita. A essa força que surge de uma necessidade profundamente individual dá-se o nome de vaidade do ego.

A verdadeira vaidade não é aquela que se contenta com o brilho da ribalta e sua reverberação social. Isto não é vaidade, é estupidez. Mas o que seria do mundo sem esse desejo que queima? A gruta de Lascaux, a enxada, a capela Sistina, a máquina a vapor, Guernica, o supersônico, a pirâmide do Louvre, o iphone não teriam existido sem essa vaidade nutritiva.

Osho era costumeiramente chamado de ególatra. Seus Rolls Royce traiam sua pregação de libertação do ego, ao que ele retrucava “como é que vamos nos libertar do ego se não temos um ego? Quanto maior o ego, maior a libertação”.

A Internet é a nova mandioca

O que seria do homem sem a mandioca, a roda, a foice, a pólvora, sem o macarrão, o tear, a levedura, o liquidificador, a escada rolante, o telégrafo, o dinheiro, o cotonete, o minecraft e o Google? Esnobismo é delas prescindir voluntária e estoicamente como se a Criação fosse vulgarizada pela meia calça, pelo sapato, shampoo, rímel, silicone, rivotril e Facebook e qualquer síntese artificial despertasse os demônios da auto-destruição.

Tudo nem sempre pode piorar. Os efeitos colaterais do progresso nem sempre são tóxicos.

Existe algo mais charmoso e elevado do que o Facebook e o Google, e mais prodigiosamente transformador também: é a chamada economia colaborativa que só a Internet tornou possível. Por detrás do compartilhamento online da ociosidade, da sobra, do descarte e da sucata, existe uma redenção ultraliberal que dribla as estruturas calcificadas do poder, a burocracia paralisante e a selvageria dos oligopólios, cartéis e lobbys que nos oprimem.

Todas as vezes que opera-se, através das centenas de plataformas peer to peer existentes, o milagre da colaboração, sem intermediário nem burocracia, sem certidões nem firma reconhecida, o mundo fica mais leve e o homo e a “mulher sapiens” mais humanos.

As abelhas e o marketing

Tinha uma colmeia de abelhas no telhado de casa. Elas eram agressivas no verão mas resisti bravamente. Afinal, a longevidade dos apicultores é a mais elevada de todas as ocupações humanas. Não iria desperdiçar essa fonte da juventude. Minha resiliência durou alguns meses até que li que só nos acostumamos com a dor depois de oitocentas picadas. Mesmo contabilizando as minhas, das visitas e dos vizinhos, não chegavam a dez.

Quando o apicultor chegou, pedi encarecidamente que retirasse a colmeia sem dor nem prejuízo ao valoroso trabalho das aguerridas defensoras da primavera de minha jaboticabeira. Foi difícil e demorado pois a rainha escondia-se na laje, bem protegida e inalcançável. Não achamos a sua majestade e portanto só havia duas soluções: eliminar a colmeia ou suportar estoicamente mais setecentos e noventa fisgadas.

Eu já estava desistindo quando o apicultor disse: “olha, uma colmeia tem por vocação a acumulação de mel. Elas acumulam, acumulam, acumulam, até que um dia, não tem mais espaço para a reprodução também incessante da rainha. É então que a colmeia migra ou morre. A sua já é bem antiga”.

Alguns meses depois, minha relação sadomasoquista com as abelhas terminou e minha jaboticabeira nunca mais floresceu como antes.

As abelhas são como a gente, afinal. Um dia, não cabemos mais de tanta coisa, pessoas e lembranças. Um dia, nossa vida fica apertada, e, como a casa de Colin em a espuma dos dias, de tanto comprimir, morremos ou migramos, como creem os devotos.

As empresas são assim também. Como as abelhas que dão a volta da terra – quarenta mil quilômetros – para amealhar um quilo de mel, o marketing dá de tudo para aumentar, crescer, multiplicar sua participação de mercado. Até um dia.

Mas o maior mistério do mundo das abelhas é seu instinto de sobrevivência: a média da produção de abelhas de uma colmeia urbana é três vezes maior do que a de uma rural. Não porque elas preferem, é claro, mas porque o ecossistema das abelhas caipiras está tão tóxico que elas preferem as cidades.

Existe uma mensagem de esperança também nesse comportamento: apesar da sujeira, do concreto, da agitação da cidade, elas seguem produzindo uma fonte de energia abundante e luxuosa.

É uma questão de vida ou morte também que empresas entendam que suas estratégias de marketing de crescimento, outrora bem sucedidas, entoxicaram o mundo irremediavelmente e que é preciso adaptá-las e acomodá-las, para sobreviver. Todos por um marketing menos tóxico!

O time-sheet e a qualidade

Como é difícil e principalmente demorado dar a luz a qualquer realização humana digna.

Das singelas linhas de um cartão postal a uma correspondência formal, de um instantâneo que capta a essência de um olhar a um mural evocativo de fantasmagórica cena, de um castelo de areia a um de açúcar ou pedra, de uma canção monódica a uma construção polifônica, do mais singelo haiku às Mil e Uma Noites, de um título de oito palavras a uma saga cinematográfica de oito horas, a qualidade é dependente e tributária do tempo, da maturação, do descanso de que a obra precisa para exprimir-se e da indispensável contemplação do autor.

Mas este mundo atribulado e nosso sistema histérico transformam uma sensação abstrata – o tempo – em unidade real. Essa compressão, artificial, pasteurizada, matemática e enlatada sequestrou, em sua contagem opressora, o valor das coisas e das pessoas.

Assim, a qualidade vira sinônimo de pressa e o trabalho de frações cronológicas. Fazer no prazo é mais importante do que bem fazer.

Não extraímos mais o melhor mas o que de melhor foi permitido. Aos poucos – e mesmo nas mais elevadas manifestações artísticas – insidiosamente, a mediocridade infiltra-se e transcende. Aos poucos – e antes nas atividades comerciais – embrutecem-se as mentes.

Devolvam-nos o tempo perdido nas contabilidades vulgares. Devolvam-nos o tempo perdido!

Brief: primeiro era o verbo

Quando um escritor, um músico, um chefe de cozinha, inicia um trabalho, qual pulso o move a ultrapassar as fronteiras do fazer por obrigação, por dinheiro, por hábito?

Alguns dirão que toda e qualquer produção criativa transcendente é uma filosofal reação química, mágica, mística. O autor é emissário e tradutor de uma pulsão e conexão que sensibiliza uma religação. Religar religioso.

Mas para além da inefável mecha iniciadora, o que conduz a termo a mágica manifesta, a criação do poema, da canção, do regalo, da campanha publicitária?

É esse fio de Ariadne que poderíamos chamar de brief, no sentido bíblico da palavra. Brief é a quintessência da matéria, sua redução primal, explosiva e durável. Brief é portanto o que vem antes. O verbo.

Brief não é nem especulação nem tradução, muito menos o superficial e modorrento relato de um objetivo vulgar. Ao contrário, um brief deve insuflar e excitar, deve ser o derradeiro e único folego da jornada criativa.

Então um brief deve ter:

  • Uma missão clara e desafiadora. Quem e o que devemos desvendar, matar, capturar. Qual é a missão da empreitada?
  • Uma ambição que sintetize onde queremos chegar com a missão desempenhada a contento. Ambição é desenhar cenários.
  • Uma paixão, a alma do processo: qual fogo iremos insuflar no produto ou na obra final capaz de apaixonar muito além da razão.
  • Uma vontade que explicita a quantidade e qualidade do esforço que iremos dedicar à missão.
  • Um caminho original, que suscite curiosidade, um primeiro passo, uma isca, um canto de sereia.

Redes sociais da opressão

Não se sabe ao certo se primeiro o ovo ou a galinha, mas seja lá porque a humanidade quis ou porque a fizemos querer, inventaram uma extraordinária plataforma de comunicação, gratuita, universal, simples, sem preconceito, transnacional, simpática, popular, rica e sexy chamada rede social.

Depois de décadas da vilania centralizadora da mídia de massa, depois de séculos de luta de classes, raças, gêneros e gerações, depois de milênios em que a palavra foi usada para controlar, finalmente aparece um alto falante para nossas vozes.

Ali – prometa-se – não haverá censura, não haverá limites, não haverá moralismos aviltantes. Ali – garanta-se – não haverá lei do mais forte, nem do mais lindo, nem do mais rico. Ali – assegura-se – somos nós e nossa identidade. Ou a identidade que queremos, sonhamos, idealizamos. Ali toda brincadeira será permitida, sem consequências, sem patrulhamentos, sem lei até. Ou pouca lei.

Inventaram, para nosso usufruto e gozo a Ágora da livre expressão, a suprema utopia de todos os povos livres.

Mas eis que esta mesma tentadora e poderosa ferramenta vira a casaca. Eis que estamos perigosamente escorregando na casca de banana do gozo supremo, indizível, incontrolável, irresistível também.

Eis que nos expressamos demais, sobre tudo, sobre nada, sobre o que é da nossa conta e principalmente sobre o que não é da nossa conta.

Eis que escancaramos nosso desinteressante umbigo mas principalmente maldizemos com virulência do umbigo alheio.

Eis que toda nossa incontida raiva, ódio, inveja e ganância encontra, nos feeds inodoros de uma rede social qualquer, o esterco para crescer, contaminar, vingar, destruir. Pessoas, histórias, reputações ou sonhos.

Eis que, até sem querer, tomamos a palavra e gastamos o verbo que temos e que não temos. Por nada. Para nada. Para desabafo sem amanhã. Irresponsável. Imoral. Opressor.

E daí?

Daí que a gente começa a calar. A gente começa a parar. A gente sai, se suicida, apaga-se, deixa de frequentar e principalmente de expressar-se.

Daí que as redes sociais cerceiam a liberdade de expressão e o feiticeiro sucumbe ao próprio feitiço.

Reproduzir, Inovar, criar

É uma questão de segurança mental encontrar âncoras, balizas, rótulos, modelos. É graças a eles também que conseguimos reproduzir experiências e visionar sucessos. O mecanismo de encaixe entra em ação por reflexo a cada situação de nossa vida: “isso vem de onde? Para onde isso me leva? É o quê? O que isso me lembra?”

O sistema no qual vivemos e trabalhamos incentiva o exercício de referenciar tudo.

Mas nesse processo mental, existem situações típicas que confrontam a dificuldade de encontrar as gavetas numeradas e catalogadas nas quais iremos classificar as situações específicas.

A primeira diz respeito ao talento racional. A inteligência resulta da capacidade de repertoriar ao máximo.

A segunda é do domínio da intuição. Inovar é ser capaz de colocar, em gavetas novas, situações que elas jamais hospedaram antes.

A terceira é inspiração. Criar é ser capaz de inventar gavetas novas, nunca antes imaginadas.

É difícil entender a diferença e, muitas vezes, os inteligentes se acham inovadores e os inovadores se veem criativos.

Por vezes, o que se espera de uma profissão, é essa lucidez classificatória. Um engenheiro, um médico, um advogado, um administrador de qualquer ramo será tanto mais bem sucedido quanto mais desenvolver a capacidade de apreender e classificar.

Por outras, o profissional será exigido para inventar formas diferentes (e não novas) de ver o mundo. Um designer, por exemplo, um publicitário.

Finalmente, existem aquelas vocações que escrutinam além das fronteiras do bem-pensante politicamente correto mundo burguês. Um cientista, um artista, por exemplo.

E quanto mais paquerarmos, com promiscuidade assumida, com a grana e o comércio, mais próximos estaremos de um mundo ordeiro, organizado, seguro. O mundo dos inteligentes bem-sucedidos.

Mas se não fossem aqueles desinteressados, os marginais indomáveis, os visionários apaixonados, talvez estivéssemos vivendo em um mundo mais brutal, mais cinzento, mais prosaico.

Eles são nós, sem vergonha

Sabe aquela vontade que dá de ligar para cair na caixa postal? E quando você tem que dizer uma coisa cabeluda – por exemplo que você não vai saldar sua dívida – não é melhor por mensagem de texto? Ou ainda, dizer umas verdades para o seu chefe, desabafar ou pedir aumento? Não parece mais indicado ser por e-mail? E o namoro que você quer acabar? Se for olho no olho, pode lacrimejar e arrepender-se.

Minha avó não concordaria. Nem minha mãe. Nem eu. Quer dizer, pensando bem, concordar não concordo, mas adoraria concordar.

Vem aí uma geração de pessoas que sequer sabe falar no telefone, namora por comunicador instantâneo e casa por videoconferência. E é assim e não adianta espernear, dar lição de bons costumes e forçar a barra. Acareação é o maior dos suplícios.

Vem aí uma geração de não-me-toques, não-me-veja e não se atreva a formulários complexos ou temporariamente fora do ar. Nem pense em não ser eficiente, rápido e claro no relacionamento virtual.

Para essa nova geração, a fidelidade às marcas vai até o primeiro link quebrado, à primeira mensagem fora de contexto, ao review negativo, ao preço descompassado e à falta de relevância nas buscas. Afinal de contas, tem tanta gente produzindo e comercializando as mesmas coisas, tantas opções ao alcance da mão que a primeira dificuldade é assassina.

Já não é sem tempo deles assumirem o timão para liberar a gente de pensar e agir como eles.

Vida longa à geração Z e vida curta à Y.

Apresentação de agência: la vem o coral senta-levanta

Se você tem dor no peito, você procura um cardiologista, se for dificuldade de respirar, pneumologista, se sente um incômodo na vértebra, melhor um ortopedista. Mas se a dor for na tróclea fibular do calcâneo e não souber que troço é esse? Nesse caso, procure um médico.

Por mais estranho que pareça, nem todo cardiologista, pneumologista, ortopedista é médico.

Em algum momento de sua curta história, a Propaganda resolveu que dividir as tarefas em disciplinas de especialidades técnicas seria uma boa forma de aumentar a eficiência das agências. Assim nasceram as que conhecemos (e aquelas que todos os dias ainda são inventadas para dar ares de renovação).

Com o tempo, essas disciplinas se sofisticaram. Não é incomum, hoje, uma pessoa se auto-intitular Mídia ou Planejamento com a segurança de um Cardiologista ou um Trocleafibularcalcaneologista. Existem até Clubes, Sociedades, Grupos constituídos, defensores de suas missões e valores, com seus festivais, encontros, viagens e pactos “por uma mídia mais inovadora”, “por um planejamento mais filosófico”, “por uma criação mais laureável”, “por um atendimento mais estratégico”.

Mas se tomarmos algum recuo – e vale salientar que essa especialização se reproduz muitas vezes nos clientes – é comum perceber que os interesses de cada disciplina, consciente ou inconscientemente, nem sempre se harmonizam. A mídia defende a verba, a criação a micro-ideia rompedora, o planejamento o álibi intelectual, o atendimento o sorriso do cliente. Você será um mídia valorizado no mercado se comprar muita coisa importante. Você será um criativo caro se ganhar muito prêmio. Você será um planejador brilhante se tergiversar com empáfia lacaniana. Você será um atendimento candidato a CEO se tiver o celular dos maiores empresários do país.

Mas não necessariamente você será reconhecido, valorizado, idolatrado pelos pares, se os objetivos do briefing do cliente forem atingidos (quando os objetivos do briefing do cliente também não estiverem contaminados por essas anomalias)

Uma apresentação de campanha não passa, muitas vezes, de uma lição de anatomia idealizada por um estripador grosseiro.

Numa ficha de hotel, o que você preenche no campo “Profissão”? Mídia, Planejamento, Criação, Atendimento ou Publicitário?

É claro que todo mundo que chegou aqui vai responder publicitário. É claro que ninguém veste a carapuça. É claro que todo mundo concorda com o ponto de vista. Mas, no dia a dia, o que seu chefe te cobra? Como seu colega da Sociedade, Clube ou Grupo que você cultua te vê?

A propaganda e a culpa

Costumamos subvalorizar a importância sociocultural da propaganda, seja por desinteresse seja porque reconforta encontrar álibis redentores: a propaganda é só um lubrificante da máquina econômica, é amoral, aética, apolítica.

As defesas, das mais vagas – é uma atividade auto-regulamentada – às mais cínicas – se não é proibido vender, por que seria proibido anunciar? – são muitas. Mas pouco importa, não é possível negar a influência extraordinária que a propaganda exerce sobre comportamentos, valores, movimentos sociais.

É evidente que fazer o processo de uma atividade tão insidiosamente intricada nas tripas do capitalismo é perda de tempo. Mas isso não anula a responsabilidade que todo professional assume como cidadão, mesmo que entrincheirado atrás dos crachás.

Mas como fazer? E quando o briefing é maniqueísta – “faça as pessoas se entupirem com meu produto, sem ver o dia de amanhã”? E quando ele é ingenuamente messiânico, fanático, fundamentalista – “estamos fazendo as pessoas serem mais lindas, alegres, felizes”? E quando só você enxergou monstros, pragas, chagas, devastação e está todo mundo achando normal vender AK47 para crianças?

Você pode pensar nas pensões que tem que pagar, na prestação do iate, no cartão de crédito estourado. Pode pensar que você não está sozinho, que não pode estar todo mundo errado. Você pode também olhar para o infinito e declamar o fundo do pensamento, vomitar sua angústia, rabiscar cenários apoteóticos e aceitar as ironias, as piadas, a indiferença. Você pode. Ninguém vai dizer nada. A culpa é do sistema.

Se o inimigo parece com moinhos de vento e esfinges, talvez a melhor saída não seja enfrentá-los nem desvendá-los. Talvez você possa estar em dia com sua consciência trabalhando em silêncio, inserindo um desafio adicional e invisível em todos os seus briefings. Uma camada íntima, um filtro pessoal que não precisa ser explicitado nem defendido: será que esta ideia está contribuindo para minimizar os estragos? Será que existe um outro jeito, ideia, caminho, que seja tão convincente, inspirado, consistente, embasado quanto aquele caminho mais curto? Mesmo que a piada seja mais fácil e rápida, mesmo que a sacada inteligente com duplo sentido seja mais tentadora, mesmo que a ideia se transforme num louro líquido e certo, existe – sempre existe – uma alternativa que minimiza os danos colaterais.

Não é tão difícil assim saber que aquele produto polui, engorda, vicia, isola, deseduca, quebra. Não é difícil perceber que aquela marca está mentindo ou prometendo demais. Ou exagerando, ou subestimando, ou segregando, ou tergiversando.

Porque educamos nossos filhos para eles não poluírem o meio ambiente, tomarem cuidado com o que consomem, não se deixarem cair em tentações fáceis, colaborarem uns com os outros, estudem, cuidem do seu dinheiro, porque temos valores, e esses valores guiam nossas vidas, por que não podemos importá-los para a prancheta, sem alarde, sem bravatas, sem medo?

Esse papo de digital é belo mas estéril

O movimento artístico Zero, fundando por Heinz Mack e Otto Piene, pretendia dar um novo começo à expressão artística, questionando suportes, formatos, temas, experiências. John Cage, estreiou sua peça chamada 4’33 sentado de frente ao piano fechado durante longos 3 minutos e trinta e três segundos, sem produzir um único som e deixando o ambiente e a plateia produzir seu concerto aleatório. O Zero como o minimalismo são desses movimentos fascinantes pelo pensamento e razoavelmente estéreis na produção.

Quando a Internet surgiu para a publicidade, questionava o jeito e trejeitos da propaganda de massa, propunha a boa nova de uma comunicação mais democrática, sem fronteiras, acessível, distribuída em rede, de todos para todos. Ao contrário da comunicação tradicional broadcast, autocrática, concentradora, dominadora, a Internet era a redenção. Esse pensamento original e sedutor rapidamente conquistou porque significava uma desconcentração muito saudável dos meios. Significava também a entrada de uma nova geração de empresas mais tecno-criativas do que as tradicionais agências artístico-criativas. E principalmente, sorrateiramente, significava a pespectiva de redução de investimentos na compra de mídia e recursos criativos e de produção mais baratos.

O pensamento era interessante, a prática não deu muito certo.

Nunca antes na história da comunicação, houve tanta concentração de investimento em poucos – pouquíssimos players. Inclusive e principalmente na Internet. Nunca antes na história da comunicação, teve tanta mediocridade criativa. Sobretudo na Internet. A gente se iludiu com os evangelistas apaixonados.

Seres humanos são tumores emocionais que se nutrem de impulsos primitivos e não de doutrinas e gadgets tecnológicos.

Porque não voto no Aécio

A política no Brasil, principalmente nessas horas febris que antecedem um pleito importante, é uma pantomima nervosa e ensaiada, em que os autores são profissionais de prestidigitação, os atores uma gangue vaidosa e mentirosa e a plateia – nós – uma penca de marionetes adestradas.

No fogo cruzado de acusações , números  e realizações aleatórias, tudo não passa de um jogo no qual todos – políticos e eleitores – deixam-se levar ao sabor da melhor frase e do melhor jargão.

Metade dos eleitores acredita no que a outra metade desacredita justamente para poder acreditar no contrário.

Eu já não sei mais nada, não confio em nada, enjoei do jogo.

É por isso que voto, pra mim, é uma questão de pele. É extra-sensorial, intuitivo. Minha démarche é propositalmente irracional para ser verdadeira e sincera. E não ligo se me acusam de fanático inconsciente. Minha escolha – e não quero que ninguém me siga, nem acredite – vem das vísceras.

A Dilma é uma senhora obtusa, mal educada e gauche. O Aécio um fantoche de margarina, ensebado, feito de plástico reciclado.

Mas hoje de manhã, a Maria me disse: “ele vai ganhar e a gente está ferrado se ele ganha. A gente, eu digo gente como eu, pobre, não como o Senhor”. Quem sou eu para ter a pretensão de duvidar da Maria? Do alto dos meus diplomas, minha grana, minha vida ganha? Quem sou eu para saber o que é bom pra Maria?

Aécio me dá coceira.

Start-ups e os novos robber barons

Quando o primeiro fabricante da primeira batedeira ou do primeiro carro discursava para seus pares empresários, ele era entusiasta da ideia revolucionária que iria tirar a mulher de sua tarefa aviltante de bater um bolo e o homem do empurra-empurra do trem na hora do rush. Mas ele também vangloriava-se de uma nova maneira de trabalhar e de pensar seu negócio. Ele dizia “o rei morreu, viva o rei!” para todos aqueles velhos fabricantes de utensílios com manivela e carruagens. E quando negociava com a velha economia, outorgava-se o título de start-up avant la lettre.

Nem o século XXI nem a Internet inventaram o empreendedorismo.

Mas sob uma perspectiva histórica, passados tantos anos, quando a batedeira foi substituída por bolos industrializados cheios de uma química exótica e os carros perdem espaço para o túnel subterrâneo onde humanos se precipitam como roedores apressados, o que mudou naquilo que realmente importa? Nada ou pouco.

O que mudou com as inovadoras tecnologias e as revolucionárias ideias de produção e gestão?

Alguns falam do tempo, como se fosse um consolo: sim, está tudo mais acelerado. Débil conforto saber que está tudo rumando mais rápido para um futuro desconhecido.

O que esses novos empreendedores tinindo de fama e esbanjando dinheiros voláteis, o que esses florões do empreendedorismo, jovens e dinâmicos, fazem para  garantir-nos um futuro mais confortável, mais feliz, mais justo, mais convivial e – sem ter medo da palavra – mais fraterno?

Sob uma perspectiva sociológica, passados alguns anos-décadas, eles se tornaram perpetuadores do jeito antigo de fazer. Só que mais rápido. Lucro mais rápido, crescimento mais rápido, participação de mercado mais rápida, exacerbação do trabalho mais rápido. Rápido. Para compensar, muita filantropia frouxa com os ricos incentivos fiscais.

Mas raro, raríssimo ver no empreendedorismo do século XXI, o respeito ao tempo livre, ao meio-ambiente e à saúde física, mental e moral de todos, funcionários e clientes. Na prática, comem com a mão, não desgrudam das telas, cronometram reuniões, mensuram tudo com voracidade, perseguem, famintos como lobos, seus clientes e se rendem a um messianismo cego e selvagem.

São nossos novos robber barons.

Agência, Agência digital e Agência pós digital

O que seria uma agência digital?

Uma agência que só existe na Internet, que não tem endereço físico, nem pessoas de carne e osso, em que tudo se resolve através de inteligências artificiais, fórmulas prontas, colagens, colaboração nas redes sociais engajadas que planejam, criam, veiculam no piscar de um clique? Ah não, não é nada disso não: uma agência digital é uma agência que só faz propaganda (e seus eufemismos) na Internet. Ou seja, uma agência de propaganda especializada. Assim como existem agências especializadas em outdoor ou agências especializadas em espera telefônica, agências especializadas em senhoras aposentadas e agências especializadas em futebol, acarajé e cubo mágico.

E uma agência pós digital?

Seria uma agência que tem muita gente de carne e osso, que tem muitos endereços, e salas de reunião de verdade, e promove almoços, vernissages, festas, cabarés, bordéis? Ou seria uma agência que reinterpreta,  que transcende a razão, questionando as narrativas totalizantes? Ou pós digital é uma coisa assim mais transversal, diagonal, centrífugo, holístico? Uma coisa, assim, meio Hélio Oiticica? Ou pós digital pode ser uma agência do além, do éter, habitada por espectros desencarnados, uma agência pós mortem?

Se uma agência digital é prestidigitação semântica, uma  pós digital é a mais louca das parábolas.

Propaganda de causa e o Padre Nosso

Nem sempre interessa falar o que interessa. Interessa pensar no planeta? Pensar sim; fazer, um pouco; falar, nem tanto. Interessa pensar no futuro do sistema? Sim, um pouco, nem tanto. Interessa ser transparente, aberto, interessa ouvir, engajar, transformar? Sim, um pouco, nem tanto.

Porque boa parte da nossa vida passamos na gangorra entre o medo e a culpa, é muito mais natural tergiversar, perorar e procrastinar. E a propaganda, quando trata de assuntos sérios, é a arte vaga da evocação sutil. Tão sutil, tão sutil que só percute quem fez ou quem mandou fazer. Os outros, aqueles para quem ela se dirige, os mortais comuns, consumidores, cidadãos, essas campanhas de causas são lindas retóricas para substituir a preguiça.

Temos medo do futuro, dos futuros, do homem como espécie dominante, do planeta como éden provedor, do país como pai protetor, do próximo e do distante. E temos principalmente medo de sobreviver a um átimo de mudança. O homem é de natureza conservadora e os Estados e as empresas que nos regem, reacionários.

Mas temos culpa. Culpa dos privilégios, culpa da realidade que sempre pode ser pior, culpa original. Culpa de ter votado, de não ter votado, culpa de ter pensado, culpa de não ter pensado. Culpa da mais valia, culpa da malandragem, culpa do mau presságio, culpa da maledicência.

Por isso, fazemos propaganda, uma espécie de penitência de confessionário: “Senhor, eu pequei. Quantos Padres Nossos?”

Quando o assunto é mudar, é falar a verdade sem rodeios publicitários, é eliminar o que sabemos que faz mal, nas mensagens e nos produtos, quando o assunto é não iludir propositalmente, quando o assunto é sério assim, para que a pressa em falar?

Então talvez – vencidos os medos e as culpas – a propaganda tenha que ser a última e facultativa das teclas  a ser premida. Primeiro deve-se entender, diagnosticar, desenhar cenários, armar-se, lutar. É  necessário saber como, com que vontade, com que poder, com que paciência estamos realmente querendo mudar, transformar, unir-se, liderar.

Propaganda é fácil e não muda nada.

Chega de propaganda moralista

Talvez seja justificado pelo enorme peso que a culpa exerce na nossa identidade ou por carência educacional, lacuna ética ou simplesmente falta de criatividade, mas é chocante perceber como a mídia brasileira – e a propaganda – gosta de assumir ora o papel de professor ora de confessor de moral e bons costumes.

Somos impactados a todo instante por mensagens de autoajuda travestidas de incentivo pessoal ou nacionalista. Vamos lá minha gente, Deus ajuda a quem se ajuda, o Brasileiro é bravo, criativo, guerreiro! São tantas histórias de homens comuns galgando os píncaros da glória, da fama, da fortuna! Espelha-se nessa grandeza, salve salve!

Muitas vezes falou-se do nosso nefasto complexo de inferioridade. Mais do que um lugar-comum, tal justificativa é causa antes de explicação. É porque o pedigree da grana e da origem martela para os vira-latas: vejam os alemães, os holandeses, os hermanos vizinhos, aquilo sim é que é gente de valor.

A elite branca que xinga a presidente no estádio se acha no direito de assumir ares de censora da ética e dos bons costumes. Essa elite que escreve editoriais arrogantes, nós branquelos publicitários ricos que redigimos manifestos de semi-deuses, nós é que somos complexados de não sermos alemães, holandeses ou argentinos.

Mais Um, Baêa por Gustavo Soares

https://www.youtube.com/watch?v=RnzDAPcYzmE

Viram esse vídeo?
Os alemães se concentram numa cidadezinha da Bahia, Santa Cruz de Cabrália.
Por não terem sentido muita firmeza no governo brasileiro anos atrás, decidiram construir eles mesmos seu centro de treinamento.
Arrogância? Preconceito? Não, pragmatismo. Os caras não quiseram aborrecimento, pouparam a gente de mais um vexame.

Mas esse não é o ponto.
O ponto é a cidade que escolheram, Cabrália. É pertinho de Porto Seguro, e foi onde os portugas estacionaram as primeiras caravelas em 1500.
Eu já estive lá, fotografando no local exato onde fincaram a primeira cruz, diante de índios festeiros, que se fantasiaram e se paramentaram para impressionar aqueles visitantes esquisitos, e de índias loucas para dar para aqueles homens barbudos e fedorentos. Sem entender patavina, índios e índias se ajoelharam imitando os portugueses e aceitaram rezar junto, mesmo sem conhecer o deus em questão. Me parece auspicioso ver os alemães cantando o hino do Baêa nesse mesmo solo, 2014 anos depois.

Há alguns anos eu fiz um livro sobre a presença germânica no Brasil, e nas minhas pesquisas ficou mais que evidente o quanto alemães amam o Brasil, ainda que as razões nunca tenham ficado aparentes nem mesmo para eles. São inúmeros os exemplos: o navegador chefe da expedição de Cabral era alemão. Brasil, que era o nome da madeira, pode ter vindo do vocábulo alemão “brazen”, que quer dizer brasa, fogo, vermelho. E o único lugar no mundo onde o Fusca teve nome oficial foi aqui – no resto do mundo era só VW – e o nome nasceu porque os brazucas ouviam os alemães dizendo Volks com sotaque (algo como fuLcas).

Os alemães do vídeo são dois dos principais jogadores de um dos melhores times do planeta. E parecem dois turistas em pleno Carnaval, pulando com os locais numa rua sem asfalto em frente a uma birosca. Isso é Brasil, purinho. É atrás disso que o mundo vem: de ser convidado pelos nativos a pular e cantar algo incompreensível, nesse país louco, fascinante e estranho, que já tem 2014 anos e continua na fantasia de todo estrangeiro. Na capa da Folha de hoje tem outros dois jogadores, holandeses, se jogando no mar de Ipanema durante um treinamento. É dessa liberdade para fazer bagunça e sermos todos inconsequentes é que os gringos vieram atrás. Porque aqui eles podem desobedecer um pouco as regras de lá. Não precisam de um telão com a letra do hino do Bahia pra cantar junto. Até porque a letra não diz muito mesmo: “Mais um Bahia. Mais um título de glória. Mais um, mais um Bahia. É assim que se resume a tua história”.

Nós, os índios hipsters, nos ressentimos de sentir vontade de ajoelhar e rezar junto com os gringos. Rejeitamos as cantorias e as fantasias. Não queremos ser índios, mas somos, só que em vez da cruz ajoelhamos para os trens-bala japoneses, para os aeroportos reluzentes dos americanos, para o padrão Fifa das calçadas e metrôs em que vive a Europa.

A Copa não pode servir como a expurgação das frustrações com a nossa letargia, com a nossa tendência para a procrastinação, com a nossa incapacidade de lembrar que políticos eleitos são um espelho que nos reflete como sociedade. A Copa é um evento de 30 dias que deve ser de festa, não de imolação pública. Sob pena de perdermos essa identidade que é tão-somente nossa. Temos é que aproveitar para fazermos as pazes com essa identidade. O jeito brasileiro, mesmo que seja o jeitinho, que é nosso maior apelo, nosso trunfo.

Vai ter Copa sim. Só que a se continuar o conflito psicanalítico sobre a nossa incompetência, a Copa vai ser dos alemães, holandeses e todos os outros estrangeiros que estão aqui para aproveitar a vida. Abrir mão da alegria, da festa, não vai nos tornar melhores. Ainda menos nos próximos 30 e poucos dias.

Gustavo Soares

A sensualidade do Buy

Nossa vida de zapping é cheia de compartimentos cada vez mais numerosos e mais diminutos. Precisamos dedicar tempo e energia para todas as nossas mil facetas que temos orgulho de estampar como marcas de superioridade “eu entendo disso e daquilo, falo essa e aquela língua, conheço esse e aquele, vivo aqui e ali”. Essa síndrome do “eu já vi, eu já fiz” e sua frustração “eu não vi, eu não fiz”, é o que parece mover a humanidade. Assim, acumular é um valor social.

Comprar sem sair da cadeira, não enfrentar nenhum perrengue, mal humor, mal atendimento, compra de pânico, risco da falta e da decepção, é um avanço.  Comprar na internet são muitas portas abertas para esse valor supremo. A cada buy dado, estamos preenchendo as gavetas de nosso gabinete e principalmente multiplicando-as incessantemente.

Mas o que aconteceu com a explosão de sentidos dos caravançarás, surgidos do passado dos bazares ou erigidos como templos de consumo? Aquela choque de cheiros, cores, sons e movimentos, a energia sempre mutável, excitante ou serena, frenética ou pausada, o toque, a troca, a negociação. Não há experiência online capaz de substituir esse prazer sensual.

Mas toda renúncia de prazer tem um preço.

Sentir-se enfastiado, preenchido de coisas, informações, dados, dá uma sensação de dia cheio, de vida completa, útil. O mundo emula Dubai: consumo irrigando o deserto.

Comprar, acumular, armazenar esse é o sentido da vida?

Já o prazer virou um botão “buy”. Ao invés de gozar, estamos comprando – freneticamente e sem consciência – prazeres que morrem nas nossas inúteis gavetas existenciais.

Apresentar não é para amadores

Uma apresentação de campanha é o momento de maior eloquência de uma agência de propaganda. É sua cadenza, onde brilha, sozinha, sem interferência e como uma apoteose do trabalho de muita gente. Nenhuma pode, portanto, ser desperdiçada.

Se o momento é tão precioso, algumas regras devem ser respeitadas.

Preparação: uma apresentação tem que ser preparada. Isso não significa que basta aprontar o que será mostrado,  mas que a reunião tem que ter um cerimonial, uma ordem, uma disciplina, uma concatenação, um ritmo. Essas regras tem que ser elaboradas antes e podem depender de cada reunião ou grupo. A regra de ouro consiste nesse caso em deixar o fluxo agradável e o conteúdo lindamente apresentado.

Etiqueta: Etiqueta quer dizer ética e não snobismo ou frescura. A defeito de uma etiqueta geral corporativa (infelizmente uma raridade), pelo menos na hora da reunião algumas são universais: não povoar com pessoas sem atuação (apresentação por procuração também não funciona, a menos que muito ensaiada), quem fez sempre terá mais conhecimento de causa e transmite melhor, não entabular conversas paralelas, não interromper excessivamente, não abandonar a reunião no meio, não usar o celular ou o computador em hipótese alguma  (mesmo que seja para anotar: todo mundo ainda deveria saber caligrafar), ouvir e principalmente interagir sobre o que está sendo dito e não – nunca – visando lembrar que você está na sala. Também não tire o sapato embaixo da mesa, não boceje, não escorregue na cadeira e se tiver comidinhas, coma pouco e de boca fechada.

Intenção: É preciso também acordar entre todos os participantes qual é o objetivo da reunião, alinhar porque estamos apresentando o que estamos apresentando. Por incrível que pareça, essa regra não é fácil. Muita gente entra em reuniões achando que está ali para “fazer a sua parte” ou simplesmente “atender uma solicitação”. A intenção tem que ser outra. A apresentação é para convencer o cliente? De quê? É para agradar o cliente? Para quê? A reunião é para plantar sementes? Quais? Quais são os critérios que usaremos para considerar a apresentação bem sucedida? Qual é a pièce de resistance da apresentação? Quais são as partes menos importantes ou supérfluas? Quem serão as pessoas que deverão ganhar destaque? Por quê?

Energia: não podemos superestimar a capacidade de interpretação dos ouvintes. Interpretar é um conceito individual. Depende de repertório, sensibilidade, vaidades e agendas. Não podemos pressupor que todos irão entender a mesma coisa e não vamos nos enganar, o trabalho rui com o mínimo muxoxo do mais tímido dos participantes. Portanto, acima do conteúdo – qualquer conteúdo – com perdão da metáfora, o que convence é o brilho do olhar, a segurança dos gestos, a vibração da voz. Isso demonstra seriedade e confiança. Paixão. Se a gente sabe que conversar com o coração do consumidor é melhor do que com a cabeça, por que não fazer o mesmo? Ou será que achamos que falar para o coração é uma malandragem?