As agências teimosas

A missão fundadora de uma Agência de Comunicação é de construir marcas, o que por sua vez, catalisa todas os demais objetivos possíveis (aumentar participação de mercado, rentabilizar o investimento de mídia, aumentar valor de mercado, capacidade de atrair investimentos, participação responsável como agente de transformação, etc).

Apesar da obviedade muitas vezes desprezada por tantas pressões, metas imediatistas, vaidades ou outras irracionalidades, ninguém duvida que a função primeira da propaganda, inclusive das “de performance”, é atribuir a uma marca um valor que transcende a racionalidade, estabelecendo conexões emocionais profundas entre consumidores e os produtos que eles compram.

Mas porque será tão difícil uma Agência de Comunicação aplicar essa mesma receita à sua própria marca? E a resposta não é tão óbvia quanto parece.

A dificuldade básica de advogar em causa própria, ou seja, construir uma marca (de Agência de Comunicação) através da construção de marca dos outros (os Clientes) seria a mesma que pedir para fazer uma empresa de cerveja alcançar seus objetivos de aumentar o consumo per-capita, incitando seus funcionários ao alcoolismo ou um banco cuja meta é aumentar sua carteira de empréstimo pessoal, forçando o endividamento dos seus colaboradores. Pedir a um profissional de “construção de marca” para construir a sua própria é tão cascudo quanto experimentar em si a letalidade de um veneno.

Várias ideias de opereta são tentadas: criar factoides de reputação, catapultar personalidades da agência para as ribaltas da fama, investir-se em iniciativas bondosas, contratar workshops mirabolantes e até a mais bufa das ideias que é de contratar uma empresa concorrente para criar sua própria campanha. Como se a Coca-cola perguntasse à Pepsi como fazer refrigerante.

Então talvez não tenha saída a não ser tentar aplicar as regras que as Agências costumam doutrinar, com mais radicalismo e pureza em si próprio do que nos clientes.

Por exemplo, não se costuma pregar que um cliente tem que ter posicionamento e que posicionamentos, por definição, têm que ser claros e duráveis?

Por exemplo, não se adora dizer aos clientes que eles não têm que sucumbir ao curto prazo e devem pensar no futuro?

Por exemplo, não se coloca o dedo no nariz do cliente cada vez que ele faz demonstrações de falta de ousadia?

Por exemplo, não se critica o cliente que desiste fácil, não teima e não luta?

Por exemplo, não se xinga o cliente que está disposto a mudar de posicionamento se o concorrente aparenta ser mais bem-sucedido?

Por exemplo, não se reclama da falta de criatividade ou senioridade os clientes?

E quando os clientes usam de pressão financeira-global-transcendental para impor-se, as Agências cedem ou desafiam?

As Agências de Propaganda já foram acusadas de intransigentes, pouco flexíveis e idealistas. Esse já foi o posicionamento das melhores. Aquilo que alguns chamavam de teimosia, outros entendiam como fé. Esse já foi e é o segredo das poucas que tiveram ou têm uma marca.

Empregos sumindo. Culpa da Internet.

A indústria da propaganda sempre foi um acurado termômetro da economia. Quando ela está anabolizada e a confiança dos consumidores animada, as agências e os veículos crescem, contratam, distribuem bônus apetitosos, fazem festas glamorosas, quebram paredes e fazem 99 quebras de paradigmas de arrebatar a tietagem. Mas no primeiro sinal de desânimo, na primeira sobrancelha levantada do ministro da economia ou na reunião de emergência do board, pode esperar: lá vem facão. Em outras palavras, se esta indústria está demitindo, pode escrever, vem recessão aí.

Essa lógica sempre foi mais precisa do que qualquer outro indicativo por vários motivos. O primeiro deles é que a propaganda é um setor da economia muito pequeno, com uma administração emocional e uma gestão poética apesar da (saudosa) opulência. Isso significa que a racionalidade das medidas é relativa, a capacidade estratégica do negócio impulsiva e a aversão ao risco, patológica. Em outras palavras: está tudo bem? Gasta. Está menos bem? Corre.

Mas esse não é um motivo sério. O motivo verdadeiro é que os anunciantes cortam primeiro o que é mais fácil cortar, portanto, aqueles investimentos que num piscar de olhos viram despesas. Como a propaganda.

Ainda, a mágica da propaganda é dependente do desejo e do sonho das pessoas. Se esse sonho é abalado por qualquer fator, se o desejo sucumbe à responsabilidade (se um dia acordo e penso no futuro ao invés de pensar no presente) não há propaganda que possa me convencer de colocar a mão no bolso para torrar, e muito menos com aquilo que faz a economia capitalista rodar: o supérfluo.

O medo e a culpa são inimigos da prosperidade econômica e da propaganda eficiente.

Mas alguma coisa mudou ou está mudando: pela primeira vez na história, em período de prosperidade relativa (no resto do mundo desenvolvido, digo) o setor está contratando menos e cada vez menos.

É claro que existe um fator mais superficial, embora tenha um efeito devastador. O suspeito é o de sempre: a Internet está destruindo os empregos da indústria da propaganda. Como o duopólio (Facebook e Google) não está classificado como integrante da assim chamada “indústria da propaganda”, e como a migração de mão de obra para essas plataformas é massiva (das agências e também das mídias ditas tradicionais), a indústria está encolhendo.

Mas vale mais raciocinar porque o Facebook e o Google não são considerados parte dessa indústria.  A resposta é evidente: a propaganda para eles é uma interface, um software, uma utilização inteligente – e cada vez mais inteligente – de dados. Propaganda, para eles, não é manipulação de ideias e conteúdos, mas manipulação de dados. Portanto não é propaganda. E mesmo quando essas plataformas se fazem de parceiras da indústria da propaganda tradicional, essa intimidade é oportunista, superficial e promíscua.

Por outro lado, e aprofundando o raciocínio, a promessa de performance comercial que só a Internet permite realizar é eficientíssima. E essa prática (que já deixou de ser discurso há anos) é muito mais sedutora do que a aposta de construção de marca de longo prazo. Entre um curto prazo que funciona e um longo prazo de fé, a escolha é fácil demais para causar dúvidas.

É nesse momento em que surge a pergunta que 10 entre 10 gestores de agência se fazem todos os dias: “por que diabos então a gente não faz isso, não migra nossa máquina para isso?”

Uma possível resposta é que esses gestores não curtem a Internet e 9 entre 10 gestores de agências (ou veículos ditos tradicionais) tapam o nariz antes de entrar na sede (ou nos dashboards) do Facebook ou do Google. Mas isso não é suficiente para entender tanta aversão disfarçada.  A verdade é que performance é assunto de máquina e não de gente. E máquina não precisa de intermediário: quem tem que pilotar as máquinas do Facebook, do Google, das DSP e que tais, são os anunciantes. Nesse contexto, uma agência, cheia de inteligências caras, é dispensável.

Mas vamos ousar perguntas mais filosóficas: o desejo acabou? O sonho acabou? Onde foram parar?

É óbvio que não, e óbvio também que enquanto existirem, a propaganda como era entendida, estará mais viva e indispensável do que nunca.

Talvez tenha chegado o momento de olhar para o encolhimento com um pouco de pragmatismo. Talvez seja a hora de superar a vaidade, relativizar o sucesso e deixar de saudosismo.

É claro que algumas agências vão tentar assumir o clássico papel do “isso e aquilo”, se debatendo para reconciliar o curto prazo com o longo prazo na sua oferta estratégica. Até agora, essa foi a estratégia da maioria dos grupos que costuram parcerias e intrincadas integrações. Quando sabem definir de forma inteligente as missões de cada parceiro e garantir qualidade em todos as pontas, pode fazer sentido. E haja bolso e calmante para tratar dos egos ofendidos.

Mas a gente sabe que esse caminho é tortuoso e ainda não foi propriamente um sucesso. De verdade, a saída tem sido financiar um lado depauperando o outro.

A outra solução, mais à mão, é concentrar-se naquilo que por enquanto, nenhuma máquina é capaz de fazer (nem a mais prodigiosa das máquinas): criação entendida como geração de ideias que não são deduções lógicas ou estatísticas mas inspiração transcendente. Criação como a capacidade de processar experiências mas principalmente sentimentos e transformá-los em expressões imprevisíveis.

E isso, não é inchando as estruturas com treinados batalhões de operadores das ferramentas de cálculo que sabem pilotam como precisão qualquer painel de controle que a propaganda vai ser capaz de fazer o mais anestesiado e frio dos consumidores verter uma lágrima ou abrir um sorriso. A menos, é claro, que a gente desista da profissão e da nossa parcela, acuada, de humanidade.

(com a colaboração de Renato Duo)

As agências agonizantes. Culpa da Internet.

Até o começo dos anos 2000, trabalhar numa Agência de Propaganda era o grande sonho de uma legião de jovens com atração pela modernidade, ambição financeira e veleidades artísticas. Ser selecionado pelo funil exigente e falsamente inclusivo das Agências famosas era o objetivo dourado dos milhares de estudantes de comunicação do país. Claro que a maioria naufragava, mas isso só reforçava o mito.

Não é preciso ir muito longe para perceber que o desejo evanesceu. E isso é apenas um dos sintomas que denunciam a crise daquela Meca glamorosa e rica do passado. Existem muitos outros, dolorosos e declinantes: os salários, as receitas, a rentabilidade, as projeções.

Basta ver a recente estatística que dá conta da migração de profissionais que saíram do maior grupo de comunicação do mundo em direção ao Google ou Facebook. Segundo Scott Galloway (The Foor 2017), o fluxo teve um saldo de 1.636 pessoas em direção ao Google e 591 em direção ao Facebook enquanto o sentido inverso foi respectivamente de 107 do Google para a WPP e somente 17 do Facebook para o grupo. Ainda que se possa imaginar a hipótese de que as Agências não estejam demitindo – o que é incerto – podemos nos perguntar de onde vieram as reposições.

Vamos tentar alguns elementos de resposta, no Brasil.

Remuneração. Há décadas que os agentes do mercado criticam os modelos de remuneração das Agências – em particular no Brasil. Qualquer remuneração baseada em volume de investimento do cliente e/ou condicionada à veiculação é obviamente o nó da questão. Esse assunto é muito debatido e tem muitas nuances.

No entanto, vale colocar a equação da remuneração em perspectiva já que existe uma tendência forte e inexorável dos anunciantes serem responsáveis pelas suas próprias estratégias de mídia. Parece que as Agências estão paulatinamente perdendo esse controle, e tudo começou com as mídias ditas de performance. Se o anunciante planeja, compra e controla a sua própria mídia, a remuneração clássica das agências passa a ser colocada em questão. Ainda que algumas agências tenham oferecido outras mais originais formas de remunerarem-se, muitas vezes elas não passam de simples disfarce, ou artimanha retro-calculada para garantir algum escape em caso de mudança do privilégio monárquico concedido pelos veículos dominantes e consentido pela assembleia dos agentes.

É evidente que enquanto esse debate não se conclui, a consequência é obviamente desfavorável para as agências que perdem, ano após ano, rentabilidade. Na prática, os agentes seguem defendendo os privilégios nos palanques e o mercado, invisível mas implacável, se ajusta corroendo dramaticamente as margens.

E se as margens são menores, paga-se menos. Simples assim.

O C level. Talvez por excesso de proteção ou soberba, as cabeças dirigentes das Agências de comunicação, quaisquer que sejam suas gerações, têm pouca boa vontade para entender as transformações provocadas pela Internet nos negócios e nos hábitos dos consumidores. E é perfeitamente compreensível: porque mudar se está bom assim? Mas é claro, essa máxima, ruminada no particular, não ousa mais aparecer nos posicionamentos oficiais das Agências. Os discursos são modernos, embora óbvios, mas as práticas são antigas e a contabilidade é pré-histórica. A dificuldade não está apenas na compreensão das lógicas capazes de capturar a atenção dos consumidores, engajá-los na experiência e fidelizá-los com as marcas, mas curtir essa nova forma de fazer.

E quando entendem não acreditam. E quando acreditam, não gostam. A maioria não entende, não acredita e não curte a Internet. É difícil mesmo querer surfar na onda lutando contra ela. Quando ela começou, décadas atrás, o neófito que tivesse algum tino desbravador era recusado ou muito rapidamente incorporado. Até os chamados digitais nativos acomodaram-se à base de caviar e Sauterne e louvam a mídia hegemônica com maestria. Mas de uns anos para cá, o doutrinamento ficou mais difícil, anacrônico e, por vezes, ridículo. Então, aos poucos, mas de forma irreversível, os melhores sequer cogitam trabalhar em Agências de comunicação “tradicionais” com pessoas que não entendem, acreditam ou curtem a Internet (sejam elas novas, antigas, digitais ou não digitais –  a denominação também é factícia).

Assim, as Agências já não conseguem atrair as melhores cabeças. Simples assim.

Mídia. Ainda que chamar a Internet de mídia seja uma grande simplificação que induz a uma infinidade de equívocos, analisar o impacto do crescimento da Internet como alternativa crescente e muitas vezes predominante nas estratégias de comunicação dos anunciantes, acaba inexoravelmente colocando em dúvida o papel do departamento de Mídia das agências.

A chamada Mídia das agências sempre foi antes um departamento responsável pela negociação e compra de espaços publicitários do que pela estratégia. É claro que não é o que dizem as Agências. Para dar-lhes relevância perante o cliente, diz-se que a Mídia das agências embasa suas recomendações em análises complexas e técnicas e que a negociação e execução é uma mera formalidade.

Mas isto é um segredo de polichinelo em um país onde a oferta de mídia é basicamente um oligopólio. É um exagero quando as ferramentas que auxiliam nesse planejamento são simples e iguais para todos os concorrentes. É uma mentira quando se sabe o peso que os bônus de veiculação têm na receita das Agências.

Mas, no momento em que o mercado muda e que os anunciantes passam a contar, com sucesso, com outras formas de comunicar-se com seus consumidores, e de uma forma cuja lógica é totalmente ancorada em dados e experimentação, o profissional de mídia que possui mais inteligência comercial do que técnica fica obsoleto.

Indo mais longe ainda: no momento em que essa técnica passa a ser automatizada pelos próprios veículos (tradicionais ou não) então até mesmo o profissional de mídia mais técnico é desnecessário nas estruturas das agências.

Sem falar da iminência do oligopólio (que já não vende mais mídia mas conteúdo multi-plataforma) perceber que o valor agregado das Agências não compensa sua própria queda de rentabilidade e que o anunciante que já tem mesas de compra de mídia incorporadas a sua estrutura por conta das outras mídias digitais, pode perfeitamente fazer o mesmo com as mídias off-line.

Qual é o profissional que vai se sentir atraído por um departamento de mídia tão depauperado? Ele obviamente vai preferir ir onde tem pulso, inteligência e dinheiro. Nos veículos e nos anunciantes. Simples assim.

Criação. No passado, a Agência de propaganda tinha  extraordinária capacidade de atração de talentos criativos com ambição financeira (o contrário também). A agência parecia ser o melhor emprego do mundo para quem queria ganhar dinheiro com seu talento, sua originalidade, sua habilidade verbal ou estética. Não é à toa que Fernando Pessoa, Henry Miller ou Paulo Leminski trabalharam em Agências de propaganda. Esse poder de cooptar mentes brilhantes também se dava em outras especialidades além da Criação, e assim, pessoas “criativas” eram recebidas e bem remuneradas nas Agências, quaisquer que fossem suas habilidades específicas.

Este demonstrou ser ao longo dos anos o principal diferencial das Agências. Era a Criação que amealhava todas os fatores de sucesso e onde desabrochavam todas as vaidades. A Criação era – e é – o superprotegido centro nervoso de uma Agência de propaganda.

A Criação, super mimada, também acreditou que sua singularidade, sua mística venerada, justificava uma práxis e dogmas sagrados. Qualquer mudança ou questionamento podia ser julgado e condenado sumariamente. A Criação subiu ao Olimpo nos anos 80 e lá permaneceu, defendendo com unhas e dentes o direito divino da autoria.

Esse playground também cativava os clientes para além, muitas vezes, do mensurável resultado. E é aqui que a equação mudou.

A mensuração sempre foi estatística, demorada, imprecisa e o tratamento dos dados muito manipulável. Mas com as mídias digitais, mensurar resultados não somente é simples, rápido e confiável, como estabelece os fatores de sucesso de qualquer ação num piscar de olhos em todas as etapas do funil de conversão de um cliente. E na medida em que as mídias digitais amadurecem, a simples dedução baseada em pesquisas estatísticas (demoradas e caras) é muito pouco para garantir o sucesso.

O teste não é mais um “save my ass” mas um infalível recurso criativo. Essa mudança caracteriza uma virada de mesa radical na cabeça da enorme maioria dos profissionais de criação. É uma subversão total. É um estupro do dogma segundo o qual o maior valor está na ideia.

Mas a realidade tem que ser consentida e aceita antes de subverter anos e anos de modus operandi. Existe um novo Criativo. E ele é a salvação da lavoura.

O novo Criativo é aquele que pilota sua criatividade balanceando sempre o dado e a ideia. Um olho no painel de controle e outro na prancheta. É também um cenário em que prosperam menos as verdades prontas e mais as experimentações. Menos apego e mais abertura.

É graças a esse novo ou renascido profissional que o negócio das agências tem chances de sobreviver. É colocando esse profissional centauro, com pernas de mídia e cabeça de Criativo no centro do posicionamento das agências que existe espaço para o renascimento. Talvez o Planejador de anos atrás tenha sido o profissional que mais se aproximou dessa inteligência. Mas ele foi cooptado para servir de ponte entre a cozinha e o Olimpo. O Planejador virou o escravinho do Criativo rempli de soi même.

Algumas agências ainda tentam o inverso, sevando cabeças de Mídia com pernas de Criativo por oportunidade ou desespero. Muitas ditas “Digitais” fazem isso inclusive. Mas é sempre uma solução de curto prazo, que não acredita que o ser humano é um animal dotado de linguagem complexa, com um cérebro frontal 9 vezes maior do que seu primo chimpanzé.

O futuro é formar ou atrair profissionais híbridos que saibam que o dado é o insumo e não o cabresto do gênio. Um Criativo que curta, sem preconceito, pilotar tanto as informações quanto a linguagem. Esse cara é o cara. O único capaz de trazer real valor para a atividade. Enquanto as agências não entenderem isso e assumirem o atraso, ele cisca em outros terreiros, feliz, realizado e recompensado. O outro terreiro se chama novas mídias e novos anunciantes.

Nas agências que não gostam de se olhar no espelho, os leftovers só conseguem atrair a rebarba que aceita trabalhar nas sobras de contas que ainda concentram suas verbas em espaços publicitários decadentes.

(com a colaboração crítica de Renato Duo)

Suave Mari Magno

Você já sentiu alegria pelo sofrimento do outro? Quando aquela pessoa humilhou, debochou ou foi indiferente com você e de repente ela escorrega e se esborracha no chão, fisicamente e de forma escandalosa e você tem aquele prazer indizível mas incontrolável? Quando cai o queixo do pérfido e sua soberba é desarmada, e para curtir esse momento, você vira para o lado e dá aquela risadinha de Muttley? Isso se chama Schadenfreude ou mauvaise joie.

Agora pense no sentimento inverso, quando você entra numa fossa obscura e solitário por causa da felicidade do outro? Quando aquela pessoa que você mal conhece e que, portanto, não tem nenhum motivo para ser tão alegre, saltitante e sortuda, escancara, debaixo do seu nariz, uma vida idílica, despreocupada, agressivamente realizada? E para cutucar mais fundo a sua dor, apunhalando seu amor próprio e tingindo de negro a sua inveja, você aperta o botãozinho de coração, fingindo um like sincero?

Então para compensar, você simula uma pose, retoca as olheiras, reforça o biceps, capricha no sorriso blasé, e de costas para um  microambiente cautelosamente pinçado no meio do cenário desolador que lhe envolve, clica a foto e acrescenta uma frase de efeito, levemente inspirada, discretamente evocativa de sua felicidade de Penélope Charmosa.

Este sadomasoquismo filtrado, a maior curtição do nosso tempo se realiza, nas redes sociais, a ficção nossa de cada instante.

Me responde Zé. Estou com saudade.

Numa carta datada de 1865, o alfaiate Schneider cobrava Monsieur De Pléxis du Four, oficial do exército francês que estava em missão no México, despesas não pagas de fardas elaboradas para sua promoção. Para desespero do artesão a carta voltou, dois anos depois, com uma anotação diligente do carteiro informando que o oficial em questão estava desaparecido. Não é dito se Schneider estava vivo quando recebeu a resposta. Talvez tenha ido morrer na Prússia servindo a França em 1870 mas a carta aterrissou numa bancada do mercado de pulgas de Lyon e na minha coleção de selos no Brasil mais de um século depois.

Quantas dívidas, notícias, óbitos e carinhos de comerciantes, amigos, parentes e amigos naufragaram nas caixas de correio? Quantas preocupações, alegrias, tristezas e saudades dormiam de um sono agitado nos corações dos homens antes dos comunicadores pessoais móveis existirem? Antes de sermos a cada instante informados e solicitados pelas incansáveis pressas e aflições dos outros.

Antes da pipoca infinita das notificações, a espera era sofrida. Mas o que aconteceu que ainda estamos distantes e tão sós?

A cachaça da instantaneidade fez tudo piorar. Ou deu ressaca.

Piorou porque se bombardeamos na velocidade da luz , esperamos respostas na mesma velocidade. Piorou porque o que era uma espera exógena, de agentes terceiros, hoje é deliberada: Por quê será que ele não responde? Será que ele não quer responder?

Piorou porque estamos lá e cá, esperando e sendo esperados constantemente. Piorou porque não somos respondidos e não respondemos. Piorou porque estamos o tempo todo carentes e em falta. Pela latência correspondida. E ficamos cada vez mais sós. Cada vez mais egoístas.

Não que fosse melhor antes. Mas não ficou melhor agora.

Não ficou porque continua-se sem saber porque De Pléxis du Four não respondeu ao alfaiate Schneider nem porque o Zé não me responde.

A propaganda é conversa fiada

Quando os pioneiros sonham com um novo mundo, a fantasia é uma mistura de desejo e delírio. Não existe projeto sem essa química. O desejo encontra satisfação no delírio e por isso o novo sai das cabeças para as mãos.

A Internet prometeu muito. Prometeu dar voz a todos, prometeu compartilhar conhecimento, prometeu desburocratizar o mundo, prometeu que os pequenos seriam ouvidos. Desejávamos isso, e o que parecia delírio, aconteceu ou está acontecendo.

Também acreditávamos que a Mídia e sua costela – a Propaganda –  iriam deslocar-se de estruturas verticais e autoritárias, para outras ecologias em redes complexas e auto-sustentadas. Que os grandes grupos de mídia, controladores da mensagem e da difusão, iriam implodir de dentro e que os grandes grupos de propaganda, criadores dos formatos e das narrativas iriam desmembrar-se. E que tudo isso ia acontecer porque essas estruturas foram criadas em outro contexto de sociedade e que elas são vítimas de seu sucesso.

Embora isto ainda não tenha acontecido, dá sinais claros de progresso.

A transformação da mídia é a mais aparente. Não faz (mais) sentido que aquele que cria a mensagem ou o conteúdo seja também o único ou exclusivo detentor da difusão porque essa relação é promíscua em um contexto aberto e de acesso universal à informação, entretenimento e conhecimento. Essa concentração de poder – conteúdo e distribuição – é inaceitável.

Por outro lado, a doença dos grandes grupos de propaganda é menos visível porque eles operam nos bastidores e, afinal de contas, são submissos obligés dos protagonistas da mídia.

A indústria da propaganda já entendeu que suas estruturas não se justificam economicamente e por isso, consolidam e integram as operações numa velocidade que beira o desespero por um lado, e por outro, multiplicam os serviços para catar as migalhas das verbas que administravam e que hoje foram automatizadas, incorporadas ou assumidas pelo contratante ou por parceiros mais especializados e ágeis. Mas isso é apenas um reflexo de afogado: agarra-te ao primeiro toco.

A transformação é mais profunda e transcende as estruturas.

É a própria ideia de que é possível convencer, aliciar e viciar com mensagens superficiais, propagadas em massa ou segmentadas, a passivos consumidores ávidos por estímulos emocionais que deem sentido a suas existências medíocres, que deixou de funcionar.

Essa hipocrisia festiva está custando caro demais a quem paga a conta, o próprio consumidor.

Essa cortina de fumaça para as mentiras que ela acoberta, retroalimenta e encoraja, está desmascarada.

Em quem você confia mais para te influenciar, recomendar ou aconselhar? Uma mensagem divertida ou emocionante, bem produzida e sexy feita para tocar os mais profundos instintos de milhões de dóceis ovelhas ou as mensagens que você trocou com aquele amigo que você admira, curte ou acredita?

Antigamente, a questão era econômica: como não era possível individualizar, era necessário padronizar, encontrar suportes (mídia) e formatos (propaganda) que permitissem transmitir mensagens “mínimo denominador comum” ao o máximo de pessoas, de forma economicamente viável. Tinha-se que inventar a mídia de massa, tinha-se que inventar a propaganda, tinha-se que inventar o consumo de massa.

No entanto, da mesma forma que a mensagem de massa ainda convence, a mensagem individualizada e difundida peer to peer através das mais variadas redes ganha um poder de influência inquestionável e exponencial. E talvez mesmo não haja substituição e sim complementaridade, mas em outras bases.

É evidente que ainda estamos vivendo uma espécie de desajuste diante de uma mudança tão profunda.

Segue havendo uma espécie de controle concentrado de poder na mão dos poucos novos parceiros do butim deixado pela mídia pré-aposentada. Mas a força que desenvolvem imana exclusivamente do sufrágio livre dos usuários, numa competição transparente de competências e não é baseada em favoritismos e interesses opacos, como foi com a mídia de massa. Isto por si só já representa uma enorme diferença.

Por outro lado, nas chamadas novas mídias, observa-se uma dinâmica nova de aprisionamento das opiniões em função das próprias dinâmicas de elaboração das redes de cada indivíduo – só convido e aceito aqueles que me são simpáticos ou parecidos – e isso estreita de forma provinciana os debates.

Mas nenhuma dessas questões fundamentais interfere na dinâmica da transformação radical da mídia e da propaganda em curso. É cristalino que a mídia de massa e seu fiel consorte, o negócio das agências de propaganda de massa, estão se debatendo em agonia.

Antes tinha que propagar o mínimo o que não dava para conversar o máximo. A mídia de massa faz terraplenagem, saneamento, infraestrutura. Trabalho pesado e sujo. Mas quem garante a sintonia fina, o foco, a sedução é a conversa interpessoal.

Porque é exatamente isso que a Internet está fazendo com a gente, tirando-nos dos rebanhos em que ruminamos por tanto tempo e ressuscitando-nos como indivíduos libertos e onívoros.

Madeleine Castaing: chique à francesa

Ela ficou conhecida do grande público em 1989, quando posou para seu amigo, o fotógrafo de moda e celebridades François-Marie Banier, em uma foto monumental na entrada de uma exposição no Centro Pompidou em Paris. Ela tinha 95 anos e aparecia despenteada, de camisola, com um sorriso de espanto e um olhar desfocado. Aquela frágil senhora era Madeleine Castaing, possivelmente uma das mais aclamadas referências da decoração de interiores do século vinte.

O fotógrafo estava longe de se importar com a polêmica já que também foi acusado de abuso de inocência com Liliane Bettencourt, uma das maiores fortunas da França. Intrusão infame na intimidade? Interesses sujos? Oportunismo? Sensacionalismo? Madeleine Castaing merece mais do que essa discussão moralista.

Nascida em uma família da pequena burguesia tradicional do Sul da França, Madeleine conheceu, ainda adolescente, seu primeiro marido, o crítico de arte Marcellin Castaing, herdeiro de uma fortuna fabulosa, 20 anos mais velho do que ela. Menor de idade, ela foge, e retorna à família dias depois anunciando o casamento. Uma paixão à primeira vista que vai durar mais de cinquenta anos.

O casal, muito unido, coleciona obsessivamente os maiores artistas da primeira metade do século 20, e em particular o pintor emigrado russo Chaïm Soutine por quem nutre uma amizade cheia de sobressaltos. Eles sustentam o pintor durante muitos anos e compram muitas das suas obras para salvá-las da crítica implacável e destrutiva do próprio artista. A relação triangular do casal Castaing e Soutine é cheia de reviravoltas febris dignas de uma série blockbuster.

Mas o que distinguia Madeleine era a erudição que inspirava suas criações. “Faço casas como outros escrevem poemas”. E não se tratava da pretensão piegas, superficial e afetada que reveste tantos discursos comerciais atuais, em particular nessa atividade.

Madeleine abriu seu antiquário durante a segunda guerra mundial e por décadas foi um grande polo de atração da Rîve Gauche em Paris. Ela filtrava sua clientela e recusava-se a vender ou projetar para aqueles clientes que não demonstrassem algum tipo de sensibilidade artística ou conhecimento das referências que nutriam seu arsenal criativo. Assim, milionários de todos os calibres, origens e repertório imploravam à sua porta. Mas ela era inflexível com o mal gosto do novo-rico ou a ignorância dos poderosos.

Se o leitor tiver a curiosidade de entender o estilo Castaing, comece buscando seu oposto. Por exemplo o apartamento de Donald Trump e potentados brasileiros que nele se inspiram. Ou aquela planta decorada de tantos apartamentos de alto luxo com 8 garagens, adega e deck molhado. Ou exposições de ambientes decorados onde a colcha de renda conversa com a cortina de tule que por sua vez pisca para a cômoda restaurada de um lixão, tudo integrado num ambiente pensado para ficar “combinandinho”.

O estilo Castaing é um luxuriante patchwork de estilos, formas, cores e texturas. É uma fantasia desordenada e vivida. Madeleine criou cores (como o famoso azul Castaing) e mandava fazer infiltrações nos apartamentos vizinhos para que á água que se espalhava pela laje desenhasse arabescos orgânicos e musgos mutantes no teto dos seus clientes. Seus interiores eram, como estalactites, a obra do tempo e da história dos felizes contratantes. Castaing tinha horror do funcional, nojo do desenho em série e culto total ao conforto e à fantasia despretensiosa. A narrativa onírica de seus ambientes era avessa às rígidas escolas de arquitetura de interiores e inimiga dos modismos exibicionistas.

Ao longo de uma vida exuberante, Madeleine, lindíssima na juventude, cultivou uma vaidade iconoclasta. Sempre discretamente elegante, Madame Castaing disfarçava a gastura da idade com desenvoltura: luvas de pelica para as mãos e uma peruca com franja que ela fixava habilmente com um elástico em volta do queixo, o que lhe permitia também um leve repuxo da papada.

Em tempos tão castigados pela padronização do gosto, a vida e obra de Madeleine Castaing são um exemplo. A foto da frágil nonagenária é uma demonstração de força, liberdade e coragem. Vergonha é de quem faz pose e não ousa.

Publicado originalmente no FFW

Agências digitais: efêmeras ilhas de prosperidade

Eis que surgem as assim chamadas – a gosto ou contragosto – agências digitais, em toda a sua fabulosa multiplicidade.

Surgiram em geração espontânea no vácuo da lentidão, acomodação e arrogância das assim chamadas – a gosto ou contragosto – agências de massa, em toda a sua glamorosa mesmice.

E se todos os grandes grupos de propaganda foram atrás, tentando garantir uma fatia do bolo que iria migrar cedo ou tarde para os especialistas, era tanta inércia que até os mais rebeldes se deixavam mimar. Cedo ou tarde, foi uma areia movediça que atraia todas as tentativas de entender as novas dinâmicas para dentro das regras de ouro da propaganda do século passado.

Até mesmo quando as unidades eram apartadas e independentes – cada macaco em seu galho com uma retórica integração para cliente ver – o complexo de superioridade de uns e inferioridade dos outros acabava convergindo para os mesmos velhos jeitos, incluindo suas divergências para o ego curtir.

Mas em se supondo que sobrevivam essas estruturas “digitais”, que pelo menos entendem da técnica e acompanham os movimentos frenéticos das regras da mídia, cogitando que elas conseguissem se manter ilesas das influências e dos assédios desesperados dos transatlânticos da mídia velha, qual é a perspectiva de longo prazo? Por quanto tempo ainda, o exército de técnicos e analistas de performance, que colocam em marcha investimentos cada vez mais volumosos, não serão substituídos por plataformas automatizadas? Por quanto tempo ainda, os anunciantes vão ver vantagem em remunerar da mesma velha forma proporcional essas agências “digitais”, quando compreenderem que estão terceirizando o coração de seu negócio?

Quando isto e aquilo acontecer – e já acontece faz tempo em vários segmentos – não vai fazer mais nenhum sentido contratar agências antigas que se especializaram numa mídia decadente e ineficiente a termo. Não vai ter lógica conservar uma agência digital tampouco porque é mais eficiente e barato cuidar da sua própria cozinha.

Nesse momento – e o momento é agora – os anunciantes vão sentir uma saudade enorme daquelas agências que vendiam ideias ao invés de mídia. Vendiam ideias ao invés de operações tentaculares, lentas e viciadas. Por opção ou imbecilidade dos gestores das estruturas tradicionais, a vida inteligente terá desertado para outras bandeiras mais enxutas, independentes e criativas. E é para lá que o dinheiro irá, está indo, foi. Salve se quem puder.

Propaganda: estratégia pra quê?

Até muito pouco tempo atrás, não se concebia dar um passo nos negócios se ele não estivesse inserido em uma estratégia, com começo meio e fim e fundamentada em uma visão de longo prazo. A visão, uma espécie de pitonisa, antecipava o futuro construído sobre valores sagrados. A estratégia era uma profecia revelada ao cabo de muita reflexão e experimentação. Era um assunto sério.

Mas não há nada mais fora de moda do que estratégia. É quase uma palavra esnobe, pronunciada por poetas que flutuam em nuvens conceituais. Desenhar estratégias é sonhar com o impossível e faltar com o pragmatismo necessário para realizar.

É mais ou menos como a diferença entre ciência e tecnologia. A ciência projeta leis teóricas que muitas vezes carecem de comprovação experimental mas orientam, conduzem e preparam o progresso da vida humana. Ciência é estratégia. A tecnologia, por oposição, é uma série de táticas práticas a serviço do mercado. A ciência pensa no futuro, a tecnologia pensa no presente. A ciência antecipa, a tecnologia aplica. O Vale do Silício não investe em ciência, nunca investiu. Investe em tecnologia. Ele não está a serviço do progresso do homem first (outra palavra fora de moda) mas a serviço do crescimento dos negócios only.

Descendo do Olimpo, para o mundo subterrâneo da propaganda e do marketing, pensar estratégias para as marcas é não somente desprezado como inútil. Os consumidores que orientam as decisões também não projetam mais suas vidas estrategicamente. Todo mundo vive o momento, fugaz, na velocidade de um scroll, de um swipe. A atenção é tão fragmentada e dispersa, que não sobrou tempo para o tempo. Então de que serve conceber e seguir estratégias que projetam o comportamento do consumidor se ele age apenas em função dos estímulos do momento? Todos os dias nascemos, vivemos e morremos. Apesar da cronologia do timeline, é a postagem daquele instante, respondendo a algoritmos que não controlamos (portanto aleatória ou manipuladora) que ritma a vida.

A boa prática do marketing de hoje é não inferir nem antecipar. A boa prática é testar e medir, testar e medir. Um olho no BI e outro no gatilho, atirando mais rápido do que a sombra. A boa prática da propaganda não suporta mais cronogramas e briefings. A boa prática é fazer e subir, já.

A propaganda morre com a mídia que a nutre

Edward Bernays, sobrinho de Freud, foi o inventor da propaganda moderna. Leia-se aqui, moderna como predecessora da contemporânea, vide, em vias de ser considerada clássica, barroca, medieval.

Sua tese era simples: a propaganda para ser convincente e, portanto, cumprir sua promessa comercial, deve operar sobre o desejo ao invés de ser um catalizador da necessidade objetiva. A propaganda deve suscitar frissons rebeldes e involuntários ao invés de acionar o cérebro analítico e conservador. A propaganda precisa flechar o coração ao invés de cutucar a razão.

Em síntese, a propaganda é uma manipulação de paixões ao serviço do interesse comercial.

Mas dois tsunamis colocam em xeque esse raciocínio tão eficiente.

O primeiro é o e-commerce que por definição é a plataforma da racionalidade. Comprar em um site, por impulso, é quase impossível tamanha a oferta de opções e de comparações. Claro que existem os poetas da navegação flanada, que flutuam ao sabor das imagens e dos estímulos. Mas a compra na Internet é antes de tudo pragmática. É preço contra preço, oferta contra oferta, review contra review. Há pouco, muito pouco espaço para a vulnerabilidade do desejo. Fazer propaganda na Internet (será propaganda?) segue a lei do mais tático e do mais rápido. Não é coisa para sonhadores estrategistas.

A segunda plataforma que desestabiliza o princípio fundador da propaganda (de massa) é a própria virada de mesa da mídia que deixa paulatinamente de falar de um para todos, para ser essa multiplicação ad infinitum dos emissores. Para Bernays, uma vez que a propaganda é a manipulação calculada do desejo, a credibilidade do meio que veicula a mensagem publicitária (e que acredita o desejo)  é um fator decisivo na capacidade de convencimento. Quanto mais independente e poderoso for o veículo, mais potencial terá a propaganda de tocar a sensibilidade das pessoas. Mas com a explosão das redes sociais que tendem a concentrar exponencialmente a atenção das pessoas, a propaganda está migrando a passos largos. E lá, credibilidade e reputação são quase irrelevantes uma vez que o que orienta os planos de mídia são algoritmos que calculam afinidades de targets com pouca relevância para o conteúdo. É da própria natureza das novas mídias que importam na Internet (Google e Facebook) serem neutras e insignificantes.

É claro que nada é tão simples nem definitivo e que ainda estamos no início das transformações. Mas também não adianta lutar contra moinhos: a propaganda está morrendo com a mídia de massa que a nutre. Para o bem e para o mau.

Santa Genoveva, Emile Glöge, Peggy Roche e Audrey Munson

landowki-sainte-genevieveNo sítio de Paris de 451, os temidos Hunos estavam prestes a ocupar a cidade subindo o rio Sena. Genoveva, notável membro do parlamento da cidade, convoca a população apavorada: “Que os homens fujam, se quiserem, se não forem capazes de lutar. Nós mulheres ficaremos e suplicaremos sozinhas a Deus”. A história não conta se os homens permaneceram, o que se sabe é que Genoveva se instalou sozinha na ponta de uma ilha para fazer prova de que a população estava pronta para a luta. Os sanguinários, assustaram-se com a corajosa aparição e fugiram dali para nunca mais voltar.

Genoveva virou santa e foi a musa que inspirou o escultor Paul Landowski (o mesmo do Corvovado) para a estátua do Ponte de Tournelle sobre o Sena.

Emilie Glöge você também conhece: ela foi a amante de Gustav Klimt (obrigado à leitora Daise Daiane pela dica). Ela está retratada em várias obras do pintor, dentre as quais o luxuoso “Beijo” que alguns críticos mal-amados viram como uma representação da submissão feminina mas que é uma quase lisérgica intepretação da união de duas pessoas apaixonadas. Emilie foi mais do que uma modelo que se entrega em poses encomendadas, ela era uma renomada estilista em Viena e incorporou na moda todas as tendências avant-garde.

Emilie não foi só a amante do grande pintor, foi a musa que, graças a seu estilo, com simetrias geométricas bizantinas, constituiu a tela de fundo da originalidade de Klimt.

Peggy Roche foi uma estilista ícone da revista Elle francesa na década de 50/60. Símbolo do chique parisiense, com seu look delicadamente masculino, Peggy desfilou para Givenchy e Guy Laroche, antes de conhecer a grande romancista feminista independente Françoise Sagan (Bonjour tristesse) e virar sua amante por 20 anos. Mais tarde, Peggy lança sua marca que lamentavelmente não sobrevive à sua preguiça comercial.

Peggy era uma musa e um esteio para a escritora que, pulando de crises de desintoxicação para crises de nervos, contava com a amante para ressuscitá-la. As duas estão enterradas lado a lado desde a morte de Sagan, em 2004.

As musas são mediadoras entre o divino e criador. Musas não são entes passivos, nem mandados. São entidades que através de suas habilidades específicas acendem e iluminam os artistas.

O criador, em transe, precisa ser tomado pela musa – ser divino, polimorfo, assexuado – para conceber.

Audrey Munson, que você talvez conheça pelas suas várias estátuas em Nova York (como por exemplo na frente do hotel cafona-glam Plaza, na ponte Manhattan ou em frente da biblioteca pública da cidade) foi uma modelo inspiradora. Sua vida, contada em “A maldição da beleza” de James Bone é uma aventura rocambolesca e triste. Além de ter sido a primeira atriz a se despir no cinema, Audrey, que nasceu em 1891, foi o maior frisson dos ateliers americanos. Seu corpo foi imortalizado nas curvas evanescentes do gosto belle époque mas sua vida terminou de forma melancólica em um asilo psiquiátrico onde permaneceu por 60 anos.

Musa e modelo não são a mesma coisa embora, muitas vezes hipnotizados, costumamos dizer que tal modelo é musa.

Modelos como tantas Audrey só inspiram.

Musas como Genoveva, Emilie ou Peggy inspiram e possuem.

Colaborou para esse artigo Renato Duo
Originalmente publicado em FFW

Alexandra David-Néel nas montanhas sagradas do Tibete

Captura de Tela 2017-03-29 às 10.22.24Sabe quando você chega em casa, depois de um dia longo e a única vontade que tem é de vegetar na frente da televisão? Sabe quando você vai dormir, tenta retroceder no tempo e percebe que ainda lhe restam 20, 30, 50 anos de vida?

Então você pega um livro na cabeceira: muito prazer Alexandra David-Néel!

Com dois anos de idade, seu pai, um ativista huguenote e maçom leva a pequena para assistir o massacre de 147 resistentes revolucionários naquela que foi chamada a primeira experiência bolchevique da história (na época ainda cheia de idealismo e pureza), a Comuna de Paris, em 1871.

Um batismo e tanto para quem se transformaria numa grande especialista do Oriente, Budista de primeira hora no Ocidente, tanto na teoria quanto na prática, gastando a sola do sapato e a coragem em longos périplos pelos mais inóspitos continentes. Isso depois de ter sido diva de ópera, cantado Violetta da Traviatta em Túnis e Hanoi por exemplo. Sem falar que ela foi  uma das maiores feministas da Europa que não se contentou com desfiles burgueses e protegidos segurando cartazes com sacadas publicitárias, mas que acreditava que a mulher precisava provar antes de manifestar.

Mas sua conquista mais inimaginável foi de ter sido a primeira  ocidental a entrar na cidade santa de Lhasa, no Tibete. Este feito  equivale mais ou menos a descobrir um outro planeta habitado por seres inteligentes.

Alexandra, que se banhou na literatura mais intelectual do século mas também na Doutrina Decreta de Blavatsky e no Livro dos Espíritos de Kardec casa-se aos 36 anos com o marido Philippe, engenheiro, homem de números. Não acreditam no casamento nem no amor mas nunca se separam. Ou melhor dizendo, as cartas nunca os separam porque dez dias depois do casório, Alexandra viaja para a Índia onde fica dois anos em uma caverna com um Iogue tântrico. Depois vai para a China, Japão, Coréia. Ao todo, quatorze anos s em reencontrar Philippe.

Mais tarde, Alexandra que já é uma das poucas mulheres lama, adota um discípulo, Yongden, que irá, com ela, penetrar o Tibete finalmente independente, mas sob influência inglesa. Várias vezes é expulsa, barrada, perde-se na neve e no frio. E depois de tentar despistar sua identidade, fazendo inacreditáveis desvios que a levam até o deserto de Gobi, acaba, quase por acaso, chegando em Lhasa, vestida de andrajos, tingindo a pele de cinzas e o cabelo de pelo de iaque. É dia de festa na cidade santa e uma explosão de cores e ritmos parecem recepcionar os dois fantasmas maltrapilhos. Mas Alexandra não consegue maravilhar-se e já planeja seu retorno.

Se a extraordinária trajetória dessa mulher de letras, jornalista e exploradora e de tirar o fôlego e que pelo excesso de feitos nos desespera ao invés de inspirar, nem por isso, ela não era como a gente, cheia de medos e fraquezas, sonhos e desejos, pecadinhos escondidos e grandezas superlativadas.

Para a reverência iluminada nos templos sagrados de Lhasa ou para a glória alcançada nos quase 30 livros publicados, para enfrentar seus demônios ou lutar pela própria independência, para provar-se a si mesma ou mostrar a todos que só a coragem é capaz de vencer os papéis que nos atribuem, Alexandra morreu em 1969, aos 101 anos, refletindo nos olhos todos os brilhos dos Himalaias.

Essa coluna foi originalmente publicada no FFW
Colaborou com esse artigo Jean-Pierre Loctin e Renato Duo

O Van Gogh do imã de geladeira

Na manchete de uma das milhares de telas que fazem um cerco exaustivo à nossa atenção, estava sendo noticiado que milhares de obras de um grande museu tinham sido repertoriadas pelo grande irmão de Mountain View. Uma notícia anódina, de press-release xoxo. Mas claro, é esperançoso saber que o maior bisbilhoteiro da vida alheia queira nos dar, e de graça, um pouco de beleza. Assim, na ponta dos nossos dedos, entre um pop-up de um varejista histérico, o retoque de um selfie e emoticons expressivos pipocando por todo canto, Rembrandt e Van Gogh vão dar as caras.

No entanto, o extraordinário altruísmo filantropo do esclarecido irmão nem era o que chamava atenção. Era o título que o jornalista escreveu: “Agora, as pessoas terão acesso a milhares de obras classificadas por data, popularidade e cor”. Data, popularidade e cor. Claro, quando quero ornar de um fundo erudito a capa do meu perfil numa rede social, melhor selecionar uma obra que combine com o verde maçã do meu cachecol. Se quero mostrar como aproveitei bem minha razia consumista em Paris, fica mais legal fazer uma graça pinçando o seio de uma beldade renascentista. E depois, se alguém resolver fazer perguntas indiscretas, como por exemplo se vi os azuis de Velasquez, ainda bem que aprendi que além de uma Pizzaria famosa, é o nome de um pintor.

Sempre achou-se que a democratização da cultura era um caminho útil e necessário para, um dia, aspirar a uma humanidade mais refinada, instruída, feliz.

Sempre achou-se que temos que começar ouvindo um bombom clássico tocado ao vivo por uma orquestra desafinada, entre um sanduíche de frango frio e um cochilo no parque, para um dia emocionar-se em uma sala de concerto num silêncio concentrado e respeitoso.

Sempre achou-se que é melhor começar lendo gibi, literatura de cordel, jornal sensacionalista e nosso feed do facebook para gradativamente abrir um livro que contenha mais do que pérolas de sabedoria.

Sempre achou-se que a gente começa gostando de grafiti para depois se interessar pelo pintor colorido dos gabinetes políticos.

Mas será que com a ajuda dos gentis engenheiros hipsters, um dia a gente vai querer saber o nome de quem pintou o imã de geladeira vermelho que compramos no camelô do Masp?

Os cobaias da Internet

Visitando um doente nos confins da Amazônia, meu pai, que não era médico mas doutor, administrou-lhe alguma das parcas medicinas de que dispunha, tintura de arnica, violeta de genciana e alguma cachaça bem forte. A família agradeceu e o paciente se acalmou. Passando por ali meses depois, encontrou a esposa do paciente.

– Como está o Severino?
– Ah, Doutor, ele faleceu.
– Puxa, meus pêsames.
– Mas olha, Doutor, ele morreu tão melhorado!

Quantas pessoas tiveram muita dor de barriga experimentando novas drogas ou posologias. Quantos morreram para que outros vivessem graças a suas coragens involuntárias?

A Internet nasceu redentora na teoria e artesanal na prática mas ainda precisou piorar muito antes de melhorar. Não são poucos aqueles que pintam com cores demoníacas os efeitos perversos dessa massificação do acesso: da criancinha sendo seduzida por perversos adultos ao exibicionismo constrangedor das redes sociais, das ameaças à sobrevivência da produção autoral à manipulação voluntária da opinião através das mecânicas obscuras dos algoritmos publicitários.

A idade da pedra em que vivemos nos transforma todos em cobaias, ou pioneiros dependendo do ponto de vista.

Nos Estados Unidos, as assinaturas de conteúdos estão aumentando significativamente nos últimos meses. Tende a desaparecer aquela utopia de que todo conteúdo tem que ser gratuito. Essa regra estabelece como alternativa para a sustentação da produção que a audiência aumente e que os canais se remunerem pela publicidade. Em outras palavras, uma regra velha, muito velha, de mídia velha, muito velha, para uma realidade nova, muito nova. Essa regra nos leva inevitavelmente para um círculo muito vicioso: conteúdo gratuito, audiência grande – audiência grande, qualidade baixa – qualidade baixa, audiência baixa. Foi assim com a mídia de massa, foi assim com a mídia por assinatura, ainda não é assim com as celebradas plataformas de massa porque, apesar da tentação da produção do mínimo denominador comum, as assinaturas ainda crescem, o que evita o deslize.

Mas as novidades se concentram principalmente nas novas alternativas de canais segmentados que conseguem se sustentar – e produzir qualidade – atingindo nichos de pessoas que estão dispostas a pagar para sair do plantel obediente.

Embora seja difícil ver a luz no fim do túnel e ainda esteja distante o tempo em que as promessas de igualdade de oportunidades e universalização do conhecimento se concretizem, alguns sinais aparecem de que o povo não é o gado disciplinado que os grandes monopólios da nova (e velha) era manipulam.

Morreremos todos muito melhorados.

Kiesler ou Lamarr?

Você está muito provavhedy-lamarrelmente segurando uma caixinha delicada que, além de te fazer conhecer mulheres incríveis aqui no FFW, também ajuda a ser mais pontual nos seus compromissos, a se sentir seguro com seus muitos desconhecidos amigos, não te deixa esquecer um único aniversário nem uma conta para pagar e muito menos a sua mãezinha do coração que adora ouvir o que você fez de manhã, de tarde e de noite, uma vez por dia.

Você deve imaginar que essa coisinha maravilhosa, mais conhecida por celular, sem a qual você não vive foi inventada por um nerd de óculos e espinhas, que desmanchava seus relacionamentos amorosos por total incapacidade de conversar, que não tinha quase nenhum amigo, nem contas para pagar, tinha acessos de introspecção criativa que duravam longos meses sem banho nem barbeiro e ligava para a mãe de manhã, ligava de novo à tarde e mais uma vez à noite e antes de dormir também.

Esse gênio poderia ser austríaco, filho de uma legítima jewish mama, ter feito seu début científico provavelmente para a aviação na segunda guerra mundial, se chamar Hedwig Kiesler e emigrar para os Estados Unidos para fugir da perseguição onde continuou sua obra ao sol da Califórnia.

Poderia, só que esse que queremos homenagear não era um nerd, era uma nerd. Uma nerd que passou a se chamar Hedy Lamarr e foi trabalhar no cinema, do jeito que os estúdios dos anos 40 (e certos presidentes) viam as atrizes: estonteantemente lindas, dóceis e burras. Casada 6 vezes, e viciada em operação plástica, suas interpretações lânguidas e olhares hipnóticos estavam muito longe da imagem que se faz de um gênio tecnológico: estonteantemente feio, chato e inteligente.

Fugindo do primeiro marido austríaco doente de ciúmes com a participação da esposa na primeira cena que explora a sensualidade feminina no cinema (mais inocente que qualquer beijo de shopping-center), levando, é claro, todas as suas joias, Edwig Kiesler, aliás Hedy Lamarr, instalou-se em 1938 em Hollywood onde estrelou, por exemplo, Sansão e Dalila entre muitos outros sucessos. Ela foi considerada por seus milhões de fãs a mulher mais linda do mundo.

Mas pelo jeito, Hedy ficava entediada com o esforço de posar de maravilhosa e, nas horas vagas, voltava a ser Kiesler. E, como todo Kiesler que se preza é cientista, ela inventava, como, por exemplo, o frequency hopping (que idealizou com o compositor George Antheil, autodidata como ela). A invenção que deu origem ao desenvolvimento do celular – coinsinha maravilhosa – e do wifi, tinha como objetivo auxiliar os torpedos teleguiados a passarem desapercebidos dos radares. Ela tinha aprendido muita coisa apenas observando os negócios de seu primeiro marido com o exército nazista. Hedy, pró-americana convicta, ofereceu a invenção à marinha que só iria utilizá-la de fato, anos depois, na crise cubana, quando a patente já tinha vencido.

Nada mal. Mas quer mais? Então dizem que ela também inventou um produto muito parecido com o Sonrisal, muito antes dele aliviar nossos abusos digestivos.

Artigo originalmente publicado no FFW

A diferença entre fama e fome

 “Você nunca me viu na teleCaptura de Tela 2017-02-03 às 15.04.31visão, você nunca viu histórias sobre mim. O tipo de papel que eu tentei desempenhar foi de juntar peças de onde organizações possam surgir. Minha teoria é que pessoas fortes não precisam de líderes fortes”

Você provavelmente nunca ouviu falar da Ella Baker. Mas se você já sofreu ou já viu quem sofre de qualquer tipo de discriminação, cor, gênero, crença, preferência sexual, corrente política, gosto, mania, time do coração ou altura da barra da saia, deveria reverenciar essa defensora americana dos direitos civis.

Ninada na infância pelas histórias heroicas de seus antepassados, negros libertos que se revoltavam contra a escravidão, Ella já foi chamada de “Martin Luther King de saias”, o que por si só já esconde um preconceito do comum senso. Como se uma mulher precisasse de uma comparação com um homem para se destacar. Como se disséssemos que o Martin Luther King foi o Gandhi negro porque um negro para se notabilizar precisaria ser comparado com um branco, e o Gandhi um JFK oriental porque um indiano desse tamanho é suspeito.

Mas de fato, Ella fundou ou ajudou a fundar um número sem fim de organizações pelos direitos dos afro-americanos (inclusive a SCLC de Luther King). Em uma participação histórica, com estudantes negros, ela convenceu os jovens que suas batalhas eram muito maiores que “um hamburger e até que uma coca-cola tamanho gigante”  – ou seja, não vale a pena brigar por tão pouco – e que é através da ação de uma organização própria que podiam ir atrás de ideais mais ambiciosos.

A luta de Ella consistia em fazer as pessoas entenderem que todos têm um poder e que esse poder só pode ser usado através de uma ação grupal de contenção da violência. A não-violência inspira não-violência.

Quando nos interessamos por um personagem histórico, o vício consiste em procurar listar seus feitos, suas glórias, suas vitórias, suas medalhas. Mas muitas vezes, esse currículo, esse arco do trinfo, não passa de atribuições póstumas, exageradas e meias verdades. A gente gosta do título e dos superlativos: “personalidade mais influente do século”, “aquela que fez o homem mais poderoso da terra ajoelhar-se” ou “a mulher mais rica e que tinha a maior coleção de perucas do universo”.  Mas nada disso se aplica a Ella porque sua atuação era de incentivo e inspiração. Ela ia para a rua, para os palanques, para as trincheiras e barricadas, e, com o gogó, discursava, incentivava e principalmente dava às pessoas uma razão para lutar e nunca desistir.

Também adoramos pessoas que inflam o peito, falam alto, posam e requebram. Como se a fama não fosse consequência mas causa. “Sou famoso e por isso posso apoiar grandes causas, dar conselhos, dar exemplo”. “É porque sou famosa que minha foto no jatinho particular com meu namorado rapper vai inspirar milhões de pessoas a serem como eu, linda e rica”. Ou linda, portanto, rica. Ou rica, logo, linda.

Nada podia ser mais distante dessa mulher extraordinária porque ela acreditava na bandeira e no grupo. Ella não fazia da humildade uma qualidade, mas uma arma. Ser humilde, não sobrepor seu nome à causa, não era uma opção de boa moça, era a própria causa. A humildade fortalece o grupo e o grupo sempre será mais forte do que a soma de pessoas, ainda que fortes individualmente.

Ella Baker tinha fome e não fama. Ela queria que as pessoas, organizadas e conscientes, tivessem fome também. Fome para igualdades de oportunidades para negros e não negros, mulheres e não mulheres, gays e não gays, muçulmanos e não muçulmanos, americanos e não americanos. Sua bandeira, mesmo que situada em um contexto histórico da causa dos direitos civis para afrodescendentes, transcende todas as épocas pelo símbolo que representa.

Em tempos de fundamentalismos brancos, heteros e cristãos, a mensagem de Ella não poderia ser mais motivadora. Em tempos de líderes que se vendem fortes e autoritários, lembrar-se de Ella Baker, que morreu em 1986 sem nunca transpirar nada sobre sua vida pessoal, é um conforto.

Mais sobre Ella no filme “Fundi, The story of Ella Baker”

Fernand Alphen é garimpeiro amador, empreendedor e tem medo de Donald TrumpColaboraram neste artigo Grégory Mertl e Renato Duo

Publicado originalmente no FFW

 

O chique, o esnobismo e o espírito

Ela morreu encavernada numa favelinha que tinha construído com os restos dos lambris de madeira de sua casa.

Mas a Condessa Greffulhe vestida com as criações de Charles Frédéric Worth, Nina Ricci e Jeanne Lanvin, apoiou e financiou, entre outros, o cientista Édouard Branly, o compositor Gabriel Fauré, o empresário artístico Diaghilev, e inspirou Marcel Proust, o maior escritor francês do século 20 a construir um dos personagens mais chiques e apaixonantes de sua obra colossal, À Procura do Tempo Perdido na Paris da Belle Époque: Madame de Guermantes.

A moda para a condessa era antes um reflexo de seu interesse intelectual e artístico do que de sua extraordinária fortuna.

A Paris da Belle Époque era o canto do cisne de uma elite que valorizava, acima do dinheiro e do nascimento, l’esprit, cuja definição transcende, é claro, o sentido literal de espírito. Ter esprit significa uma combinação de sensibilidade e capacidade de expressão. Uma pessoa d’esprit navega confortavelmente nos mais democráticos ambientes e sabe fazer-se notar, conciliando humildade e originalidade. L’esprit não ostenta nem tampouco recata-se.

O Salon da Condessa (termo que indica, em francês, uma espécie de círculo artístico-social) recebia quem se destacasse e pouco importa se morria de fome como a cientista Marie Curie, não tomava banho, como o compositor Erik Satie, ou tinha preferências sexuais liberais, como o dandy Robert de Montesquiou. Eram as faculdades do espírito e não as físicas ou da fortuna o verdadeiro passaporte para o chique convívio de Madame de Greffulhe.

Porque chique (do alemão Schick) significa capacidade de sedução intelectual, habilidade do espírito. Portanto, ser chique não é desfilar grifes nem malhar o abdômen, não é a mesa posta com porcelana e cristal, não é o guarda-roupa em degradê, não é a boca chupada nem a primeira fila do desfile, não é a instafoto produzida e filtrada. Isso é esnobismo.

Na Inglaterra do século dezenove, quando a burguesia começava a enviar seus filhos aos colégios antes reservados aos bem-nascidos, as nobres crianças, divertidas com os modos exibidos dos seus novos colegas, colocavam placas em seus dormitórios nas quais escreviam Sine Nobile (sem nobreza). Esnobismo é essa necessidade de demonstrar mais beleza, mais riqueza, mais relacionamento, do que se tem. Esnobismo é pose, esnobismo é selfie. Nada a ver com chique que, com o uso, esqueceu-se da origem e virou mais ou menos um esnobismo não pejorativo.

Madame De Greffulhe morreu pobre mas com todos os visons para aquecer seus 92 anos. Em sua residência, em Paris, palco de tantas festas, permaneceram as coleções que jamais quisera vender, apesar da penúria na qual seu marido a deixou quando a preteriu por uma mais jovem, mais simples e mais dócil. Chique na riqueza e na pobreza.

Na cabeceira de sua cama, o maior romance do século, que ela em parte inspirou, nunca tinha sido aberto. Seria esnobe demais envaidecer-se com a homenagem imortal.

Publicado originalmente no FFW

Publicitário, ora poeta, ora trator

Costuma-se classificar, para simplificar, toda mensagem com objetivo comercial, de propaganda apesar de todas as suas variantes, que vão do mais ficcional dos enredos ao mais prosaico dos apelos racionais. Mas também podemos tentar inverter o ponto de vista. Por exemplo, o entretenimento, também tem suas graduações e pode ir do conteúdo mais artístico e puramente experimental até o mais explícito dos veículos de consumo. O jornalismo pode ser puramente documental e exploratório ou flagrantemente ideológico e manipulador, com todos os tons de cinzas (mais comuns) intermediários.

Se, da noite para o dia, a indústria de petróleo deixasse de existir, o mundo entraria em colapso. Se, da noite para o dia, os bancos, as companhias aéreas, deixassem de existir, idem. Mas se, um gênio maroto decidisse que todas as agências de propaganda iriam desaparecer repentinamente, muito pouco mudaria: os estúdios, as emissoras, fariam propaganda, os escritores criariam títulos, roteiros e textos, os fotógrafos, imagens e o mundo seguiria até o dia em que alguém resolvesse inventar o já inventado.

Talvez, o drama da propaganda como profissão ou negócio, seja precisamente sua falta de identidade.

O exercício de inverter os focos, mesmo que puramente teórico, pode ser esclarecedor sobre algumas das principais motivações e frustrações da indústria da propaganda.

Em outras palavras, o publicitário vive em permanência um problema de identidade insolúvel porque convencionou-se chamar de “boa propaganda” aquela que emociona e “má propaganda” aquela que explica. Ou, “boa propaganda” aquela que entretém e “má propaganda” aquela que martela. Até porque, tanto a “boa” quanto a “má” propaganda vendem.

O trabalho de um publicitário – ou o de seu contratante, o cliente, o marketing – é decidir, ao longo do processo de elaboração do seu trabalho, quantas camadas de distrações, digressões, metáforas, ornamentos, ele irá colocar por cima do objetivo definido, sempre muito vulgar. Mas esse processo nem sempre é consciente e assumido, porque é boa prática fazer precisamente o contrário: começar pela ideia, inocente, desinteressada, pura, sensorial e emocional, para encapsular em algum momento um ricochete, escorregão, sutil lapso comercial.

Um publicitário seria, portanto, aquele cara que coloca graça e elegância naquilo que não tem e insere vulgaridade e pragmatismo naquilo que é só beleza, luxo e volúpia.

Não é fácil sair do armário para assumir uma identidade, ao invés de ficar nesse desconfortável papel de se fingir ora poeta, ora trator.

Quem tem ginga para o back-log?

Na indústria de tecnologia, a pedra angular do sucesso não é a ideia nem a grana. Não é o eureka matinal que vai mudar sua vida, a sociedade e o mundo, nem sua capacidade de convencer os investidores com mirabolantes planos de negócios maquiados.

Não é nem sua capacidade de trabalho ou seu talento. Não são as noites mal dormidas com o fogo cruzado de estratégias voando na sua cabeça nem sua ímpar habilidade para intuir, expressar-se e convencer um mundo de seguidores que baba por sua augusta benção.

O sucesso não está na equipe nem nos workshops disruptivos. Não são aqueles guys que andam de skate, alisando o bigode e comendo raw-food nem os paetês de post-its que coroam reuniões enérgicas.

Também não são os KPIs ou os meetings de 35 minutos. Não é nem alcançar os targets cuspidos pela legião de burocratas que não tem ideia de onde cai o balão nem aqueles calls trans-nacionais supereficientes e focados, nos quais todos esperam seu momento de dar uma tirada inteligente que demonstre que ele não está apenas rezando para alguém chutar a tomada.

No mundo de hoje, o que vale é você saber o que você vai fazer antes do quê. É saber gerenciar o back-log.

Para simplificar, um back-log é uma lista de implementações que você ordena em função de prioridades lógicas, inteligentes e financeiras.

Quanto maior o back-log, mais perspectivas terá sua empreitada e quanto mais poroso, mais inovador. Mas se ele for longo demais e se você abusar das ideias, gerencia-lo pode ser impossível. Back-log é equilíbrio, yan e yan.

Ninguém é dono do back-log. Ele é uma espécie de kolkhose onde os meios e recursos são apenas fator das prioridades e todos os agentes tem pesos e vozes equivalentes. Portanto ele não se administra à toque de crachá mas de argumentos.

O back-log é a coluna vertebral do negócio porque é da equilibrada concatenação das decisões de implementação que dependerá o sucesso da empreitada.

Mas o mais legal é que esta lógica redentora é o vírus letal que destrói as organizações piramidais e hierárquicas, onde os poucos bem nutridos no topo tomam as decisões. Quanto mais encastelados estão em seus aquários sonorizados, quanto mais refugiados atrás de suas reuniões superficiais, quanto mais ocupados em viagens de prestação de contas, quanto mais relatórios devem defender, mais distantes ficam das dinâmicas do negócio e mais incompetentes para decidir a ordem dos fatores.

Nestas organizações, o back-log é substituído por outras coisas, chamadas de Estratégias e Processos, compêndios de ideias enfeitadas por complexos diagramas. Rigidez e ordem ao invés de maleabilidade e equilíbrio. Progresso ao invés de crescimento. Marcha ao invés de rebolado.

Por que tudo tem que parecer tão sério?

Sabe aquele professor que termina a aula anunciando, saltitante, que ficará no recreio para responder às dúvidas dos alunos? Sabe aqueles que preferem ficar para aprofundar o problema de trigonometria?

Quem já piscou numa planilha de mídia – uma das mais excitantes criações humanas – ou bocejou num relatório de pesquisa – uma das mais profundas reflexões sobre o dramático devir da humanidade, quem já esteve naquelas solenes reuniões de apresentação de campanha com duas dúzias de figurantes, dignitários paraquedistas e intermináveis salamaleques e jargões da moda, sempre se pergunta porque estragaram o recreio.

Propaganda é assunto sério. É caro e sério. Mas por que tem que ser pretencioso e rempli de soi même?

Talvez por nervosismo, talvez por falta de prática mas na maioria das vezes por não entender o que os clientes buscam de mais precioso: um olhar inocente e divergente.

A propaganda que não sabe meter o dedo no bolo ou na tomada não tem graça. A propaganda sem ingenuidade é medíocre.