Agência, Agência digital e Agência pós digital

O que seria uma agência digital?

Uma agência que só existe na Internet, que não tem endereço físico, nem pessoas de carne e osso, em que tudo se resolve através de inteligências artificiais, fórmulas prontas, colagens, colaboração nas redes sociais engajadas que planejam, criam, veiculam no piscar de um clique? Ah não, não é nada disso não: uma agência digital é uma agência que só faz propaganda (e seus eufemismos) na Internet. Ou seja, uma agência de propaganda especializada. Assim como existem agências especializadas em outdoor ou agências especializadas em espera telefônica, agências especializadas em senhoras aposentadas e agências especializadas em futebol, acarajé e cubo mágico.

E uma agência pós digital?

Seria uma agência que tem muita gente de carne e osso, que tem muitos endereços, e salas de reunião de verdade, e promove almoços, vernissages, festas, cabarés, bordéis? Ou seria uma agência que reinterpreta,  que transcende a razão, questionando as narrativas totalizantes? Ou pós digital é uma coisa assim mais transversal, diagonal, centrífugo, holístico? Uma coisa, assim, meio Hélio Oiticica? Ou pós digital pode ser uma agência do além, do éter, habitada por espectros desencarnados, uma agência pós mortem?

Se uma agência digital é prestidigitação semântica, uma  pós digital é a mais louca das parábolas.

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Propaganda de causa e o Padre Nosso

Nem sempre interessa falar o que interessa. Interessa pensar no planeta? Pensar sim; fazer, um pouco; falar, nem tanto. Interessa pensar no futuro do sistema? Sim, um pouco, nem tanto. Interessa ser transparente, aberto, interessa ouvir, engajar, transformar? Sim, um pouco, nem tanto.

Porque boa parte da nossa vida passamos na gangorra entre o medo e a culpa, é muito mais natural tergiversar, perorar e procrastinar. E a propaganda, quando trata de assuntos sérios, é a arte vaga da evocação sutil. Tão sutil, tão sutil que só percute quem fez ou quem mandou fazer. Os outros, aqueles para quem ela se dirige, os mortais comuns, consumidores, cidadãos, essas campanhas de causas são lindas retóricas para substituir a preguiça.

Temos medo do futuro, dos futuros, do homem como espécie dominante, do planeta como éden provedor, do país como pai protetor, do próximo e do distante. E temos principalmente medo de sobreviver a um átimo de mudança. O homem é de natureza conservadora e os Estados e as empresas que nos regem, reacionários.

Mas temos culpa. Culpa dos privilégios, culpa da realidade que sempre pode ser pior, culpa original. Culpa de ter votado, de não ter votado, culpa de ter pensado, culpa de não ter pensado. Culpa da mais valia, culpa da malandragem, culpa do mau presságio, culpa da maledicência.

Por isso, fazemos propaganda, uma espécie de penitência de confessionário: “Senhor, eu pequei. Quantos Padres Nossos?”

Quando o assunto é mudar, é falar a verdade sem rodeios publicitários, é eliminar o que sabemos que faz mal, nas mensagens e nos produtos, quando o assunto é não iludir propositalmente, quando o assunto é sério assim, para que a pressa em falar?

Então talvez – vencidos os medos e as culpas – a propaganda tenha que ser a última e facultativa das teclas  a ser premida. Primeiro deve-se entender, diagnosticar, desenhar cenários, armar-se, lutar. É  necessário saber como, com que vontade, com que poder, com que paciência estamos realmente querendo mudar, transformar, unir-se, liderar.

Propaganda é fácil e não muda nada.

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Chega de propaganda moralista

Talvez seja justificado pelo enorme peso que a culpa exerce na nossa identidade ou por carência educacional, lacuna ética ou simplesmente falta de criatividade, mas é chocante perceber como a mídia brasileira – e a propaganda – gosta de assumir ora o papel de professor ora de confessor de moral e bons costumes.

Somos impactados a todo instante por mensagens de autoajuda travestidas de incentivo pessoal ou nacionalista. Vamos lá minha gente, Deus ajuda a quem se ajuda, o Brasileiro é bravo, criativo, guerreiro! São tantas histórias de homens comuns galgando os píncaros da glória, da fama, da fortuna! Espelha-se nessa grandeza, salve salve!

Muitas vezes falou-se do nosso nefasto complexo de inferioridade. Mais do que um lugar-comum, tal justificativa é causa antes de explicação. É porque o pedigree da grana e da origem martela para os vira-latas: vejam os alemães, os holandeses, os hermanos vizinhos, aquilo sim é que é gente de valor.

A elite branca que xinga a presidente no estádio se acha no direito de assumir ares de censora da ética e dos bons costumes. Essa elite que escreve editoriais arrogantes, nós branquelos publicitários ricos que redigimos manifestos de semi-deuses, nós é que somos complexados de não sermos alemães, holandeses ou argentinos.

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Mais Um, Baêa por Gustavo Soares

https://www.youtube.com/watch?v=RnzDAPcYzmE

Viram esse vídeo?
Os alemães se concentram numa cidadezinha da Bahia, Santa Cruz de Cabrália.
Por não terem sentido muita firmeza no governo brasileiro anos atrás, decidiram construir eles mesmos seu centro de treinamento.
Arrogância? Preconceito? Não, pragmatismo. Os caras não quiseram aborrecimento, pouparam a gente de mais um vexame.

Mas esse não é o ponto.
O ponto é a cidade que escolheram, Cabrália. É pertinho de Porto Seguro, e foi onde os portugas estacionaram as primeiras caravelas em 1500.
Eu já estive lá, fotografando no local exato onde fincaram a primeira cruz, diante de índios festeiros, que se fantasiaram e se paramentaram para impressionar aqueles visitantes esquisitos, e de índias loucas para dar para aqueles homens barbudos e fedorentos. Sem entender patavina, índios e índias se ajoelharam imitando os portugueses e aceitaram rezar junto, mesmo sem conhecer o deus em questão. Me parece auspicioso ver os alemães cantando o hino do Baêa nesse mesmo solo, 2014 anos depois.

Há alguns anos eu fiz um livro sobre a presença germânica no Brasil, e nas minhas pesquisas ficou mais que evidente o quanto alemães amam o Brasil, ainda que as razões nunca tenham ficado aparentes nem mesmo para eles. São inúmeros os exemplos: o navegador chefe da expedição de Cabral era alemão. Brasil, que era o nome da madeira, pode ter vindo do vocábulo alemão “brazen”, que quer dizer brasa, fogo, vermelho. E o único lugar no mundo onde o Fusca teve nome oficial foi aqui – no resto do mundo era só VW – e o nome nasceu porque os brazucas ouviam os alemães dizendo Volks com sotaque (algo como fuLcas).

Os alemães do vídeo são dois dos principais jogadores de um dos melhores times do planeta. E parecem dois turistas em pleno Carnaval, pulando com os locais numa rua sem asfalto em frente a uma birosca. Isso é Brasil, purinho. É atrás disso que o mundo vem: de ser convidado pelos nativos a pular e cantar algo incompreensível, nesse país louco, fascinante e estranho, que já tem 2014 anos e continua na fantasia de todo estrangeiro. Na capa da Folha de hoje tem outros dois jogadores, holandeses, se jogando no mar de Ipanema durante um treinamento. É dessa liberdade para fazer bagunça e sermos todos inconsequentes é que os gringos vieram atrás. Porque aqui eles podem desobedecer um pouco as regras de lá. Não precisam de um telão com a letra do hino do Bahia pra cantar junto. Até porque a letra não diz muito mesmo: “Mais um Bahia. Mais um título de glória. Mais um, mais um Bahia. É assim que se resume a tua história”.

Nós, os índios hipsters, nos ressentimos de sentir vontade de ajoelhar e rezar junto com os gringos. Rejeitamos as cantorias e as fantasias. Não queremos ser índios, mas somos, só que em vez da cruz ajoelhamos para os trens-bala japoneses, para os aeroportos reluzentes dos americanos, para o padrão Fifa das calçadas e metrôs em que vive a Europa.

A Copa não pode servir como a expurgação das frustrações com a nossa letargia, com a nossa tendência para a procrastinação, com a nossa incapacidade de lembrar que políticos eleitos são um espelho que nos reflete como sociedade. A Copa é um evento de 30 dias que deve ser de festa, não de imolação pública. Sob pena de perdermos essa identidade que é tão-somente nossa. Temos é que aproveitar para fazermos as pazes com essa identidade. O jeito brasileiro, mesmo que seja o jeitinho, que é nosso maior apelo, nosso trunfo.

Vai ter Copa sim. Só que a se continuar o conflito psicanalítico sobre a nossa incompetência, a Copa vai ser dos alemães, holandeses e todos os outros estrangeiros que estão aqui para aproveitar a vida. Abrir mão da alegria, da festa, não vai nos tornar melhores. Ainda menos nos próximos 30 e poucos dias.

Gustavo Soares

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A sensualidade do Buy

Nossa vida de zapping é cheia de compartimentos cada vez mais numerosos e mais diminutos. Precisamos dedicar tempo e energia para todas as nossas mil facetas que temos orgulho de estampar como marcas de superioridade “eu entendo disso e daquilo, falo essa e aquela língua, conheço esse e aquele, vivo aqui e ali”. Essa síndrome do “eu já vi, eu já fiz” e sua frustração “eu não vi, eu não fiz”, é o que parece mover a humanidade. Assim, acumular é um valor social.

Comprar sem sair da cadeira, não enfrentar nenhum perrengue, mal humor, mal atendimento, compra de pânico, risco da falta e da decepção, é um avanço.  Comprar na internet são muitas portas abertas para esse valor supremo. A cada buy dado, estamos preenchendo as gavetas de nosso gabinete e principalmente multiplicando-as incessantemente.

Mas o que aconteceu com a explosão de sentidos dos caravançarás, surgidos do passado dos bazares ou erigidos como templos de consumo? Aquela choque de cheiros, cores, sons e movimentos, a energia sempre mutável, excitante ou serena, frenética ou pausada, o toque, a troca, a negociação. Não há experiência online capaz de substituir esse prazer sensual.

Mas toda renúncia de prazer tem um preço.

Sentir-se enfastiado, preenchido de coisas, informações, dados, dá uma sensação de dia cheio, de vida completa, útil. O mundo emula Dubai: consumo irrigando o deserto.

Comprar, acumular, armazenar esse é o sentido da vida?

Já o prazer virou um botão “buy”. Ao invés de gozar, estamos comprando – freneticamente e sem consciência – prazeres que morrem nas nossas inúteis gavetas existenciais.

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Apresentar não é para amadores

Uma apresentação de campanha é o momento de maior eloquência de uma agência de propaganda. É sua cadenza, onde brilha, sozinha, sem interferência e como uma apoteose do trabalho de muita gente. Nenhuma pode, portanto, ser desperdiçada.

Se o momento é tão precioso, algumas regras devem ser respeitadas.

Preparação: uma apresentação tem que ser preparada. Isso não significa que basta aprontar o que será mostrado,  mas que a reunião tem que ter um cerimonial, uma ordem, uma disciplina, uma concatenação, um ritmo. Essas regras tem que ser elaboradas antes e podem depender de cada reunião ou grupo. A regra de ouro consiste nesse caso em deixar o fluxo agradável e o conteúdo lindamente apresentado.

Etiqueta: Etiqueta quer dizer ética e não snobismo ou frescura. A defeito de uma etiqueta geral corporativa (infelizmente uma raridade), pelo menos na hora da reunião algumas são universais: não povoar com pessoas sem atuação (apresentação por procuração também não funciona, a menos que muito ensaiada), quem fez sempre terá mais conhecimento de causa e transmite melhor, não entabular conversas paralelas, não interromper excessivamente, não abandonar a reunião no meio, não usar o celular ou o computador em hipótese alguma  (mesmo que seja para anotar: todo mundo ainda deveria saber caligrafar), ouvir e principalmente interagir sobre o que está sendo dito e não – nunca – visando lembrar que você está na sala. Também não tire o sapato embaixo da mesa, não boceje, não escorregue na cadeira e se tiver comidinhas, coma pouco e de boca fechada.

Intenção: É preciso também acordar entre todos os participantes qual é o objetivo da reunião, alinhar porque estamos apresentando o que estamos apresentando. Por incrível que pareça, essa regra não é fácil. Muita gente entra em reuniões achando que está ali para “fazer a sua parte” ou simplesmente “atender uma solicitação”. A intenção tem que ser outra. A apresentação é para convencer o cliente? De quê? É para agradar o cliente? Para quê? A reunião é para plantar sementes? Quais? Quais são os critérios que usaremos para considerar a apresentação bem sucedida? Qual é a pièce de resistance da apresentação? Quais são as partes menos importantes ou supérfluas? Quem serão as pessoas que deverão ganhar destaque? Por quê?

Energia: não podemos superestimar a capacidade de interpretação dos ouvintes. Interpretar é um conceito individual. Depende de repertório, sensibilidade, vaidades e agendas. Não podemos pressupor que todos irão entender a mesma coisa e não vamos nos enganar, o trabalho rui com o mínimo muxoxo do mais tímido dos participantes. Portanto, acima do conteúdo – qualquer conteúdo – com perdão da metáfora, o que convence é o brilho do olhar, a segurança dos gestos, a vibração da voz. Isso demonstra seriedade e confiança. Paixão. Se a gente sabe que conversar com o coração do consumidor é melhor do que com a cabeça, por que não fazer o mesmo? Ou será que achamos que falar para o coração é uma malandragem?

 

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Big Data

Se toda história da humanidade é um processo de evolução incessante, se Darwin só pariu sua teoria porque conhecia Lamarck, Beethoven não foi  Beethoven sem Haydn e o último prêmio Nobel da medicina não passa de uma gota no mar, se Criação só existe uma, a primeira, do big-bang, de Adão amolengado pelo Criador, se tudo o que fazemos são veleidades de primazia, se a capacidade inventiva do homem é relativa e proporcional à suas referências, mas também, se nosso cérebro não funcionasse por amostragem, seleção e esquecimento, se fossemos capazes de tudo conhecer e tudo processar, se não nos contentássemos apenas com a opinião do nossos próximos, dos nossos pesquisados, mesmo muito misturados, se a norma fosse o erro e o erro o acerto, se não estivesse provado que a grande maioria dos saltos qualitativos operam na margem de erro, no desvio padrão, se a gente tivesse a humildade para se sentir parte ínfima mas fundamental, então talvez assim, talvez enfim, a gente acreditasse que em tudo existe Lógica. Big Data, amém.

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A nova economia

Ele queria ir trabalhar de skate, pular da cama na bermuda da véspera, cabelo em desalinho calculado, ainda com eflúvios alucinógenos a lhe incensar a fala. E por falar nisso, valorizariam suas ideias obviamente novas já que ele era jovem, cheio de amigos nas redes e sintonizado com bandas e traquitanas. Ele gostava de champong bem picante, era fã de Stockhausen, de garotas cantantes islandesas, era um flea-market ambulante e discorria sobre acidentes aéreos como ninguém. Por isso tinha passado no teste para ser o bambino prodígio de alguma sucursal emergente da nova, novíssima, flamejante economia.

No primeiro dia, se atrapalhou com o crachá, sentou na baia errada e quase quebrou a perna da chefe meia idade que deu um bigspin involuntário no skate. No segundo dia, já de banho tomado, preencheu planilhas e copiou colou uma apresentação para o outro chefe do sub chefe da sua chefe. No terceiro, participou de sua primeira reunião, numa sala abarrotada com cheiro de café, barra de cereal e gel de cabelo. No quarto, ganhou camiseta, boné e até lápis. No quinto, fez uma vídeo conferencia para preparar uma reunião que irá anteceder o encontro sub-internacional a ser realizado na Nicarágua.

No sábado, perguntou para o pai: Pai, como é trabalhar no Banco?

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Por favor, me faz um desenho?

Algumas escolas introduziram o ensino de linguagem visual no currículo. Crianças aprendendo a se comunicar com imagens, desenhos, cores e formas. Quem sabe um dia a gente possa escapar das adjetivações generalizantes.

Quatro tipologias do fenômeno da incompetência escrita (para não falar verbal) ocorre notadamente no mundo corporativo.

A primeira diz respeito ao complexo da intelectualidade de Paraguaçú. Ou do motorista de taxi diplomado em universidade soteropolitana. Ou do publicitário que confunde Guimarães Rosa com Bill Bernbach. Esse tipo capricha na metáfora com uma aplicação mística. Ele crê que a compreensão é uma iluminação, que o português é uma música sem palavras e que os outros formam uma  plateia em êxtase.

A segunda é o complexo da vulgaridade modal. Ou do excitado das redes sociais. Ou do publicitário que confunde analfabetismo literário com coloquialismo. Esse é o sujeito que não perde uma tendência, um festival muito-doido-cheio-de-muito-doido e que acha foda tudo aquilo que não é foda porque as coisas fodas são as coisas fodas.

A terceira tipologia é o do tímido decorador de frase feita. O sujeito que devora léxicos corporativos e não sabe mijar fora do códex. Ele escreve como fala como se veste  como ama: papai-mamãe uma vez por mês no hotel fazenda e de meia branca. Nenhum clichê escapa de sua verve prolixa.

Finalmente a quarta e mais soberba das tipologias: o complexo do MBA de verão em Chicago, Londres ou Amarillo – Texas, dá no mesmo. Fino conhecedor dos outltets de New Jersey, ele pratica inglês nativo no  barbecue da sua penthouse de Upper East Moema com a mesma desenvoltura com que impressiona a turma sem penthouse de Lower Est Moóca.

A novidade nas escolas vai ser boa: mais vale um sticker e um gif animado do que o português atropelado.

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É só um crachá e nada mais

Nunca podemos menosprezar o ambiente gelatinoso e experimental da Internet. Uma das seduções desse universo, talvez a mais visceral, é a descoberta, a vertigem do novo, a fronteira do status-quo, da convenção, da regra, da monotonia. É essa natureza rebelde, mutável, imprevisível que fascina e vicia porque a Internet é o último reduto dos inconformados.

E quando uma onda fica ou parece muito poderosa, quando desafia a independência e a identidade, quando tenta pasteurizar os comportamentos e nivelar os gostos, quando um movimento, uma plataforma, uma marca levanta o nariz com ares de poder provinciano, quando uma ideia outrora inteligente derrapa na voracidade mercantil, quando uma empresa listada e cheia da grana vai às compras porque não consegue mais atrair boas ideias, é o começo do fim. Da noite para o dia caduca, apesar das mentiras bem contadas pelos crachás catequisados.

Esse déja vu consola.

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A Internet finge

É esse mundo sem fronteiras, em que as distâncias derretem, as geográficas, de língua, de idade, de raça, esse mundo imediato em que as relações se estabelecem sem pudores nem vergonhas, esse mundo sem privacidade nem propriedade, esse mundo sem limites, da consagração, da comunhão, é esse mundo que vivemos.

Nessa sociedade wiki, a informação flui e a dúvida derrete, a estranheza dá lugar à simples diferença, a maioria dá o tom da verdade e a mentira perde as calças, nessa sociedade o conhecimento vence o dogma e o ópio, nessa sociedade que fizemos.

Mas por que, então? Por que as velhas mágoas, as velhas disputas, as velhas identidades mortíferas? Por que branco versus não-branco, rico versus sujo, pobre versus parasita? Porque, fingimos.

Este mundo livre, esta sociedade informada e a Internet, não resolveram o tato, o faro, o químico. Só existe relacionamento entre seres de carne se existe troca de energia, de líquidos, bafo, humores, carícias, afagos, aconchegos e tapas, e beijos.

Sem toque, o preconceito persiste.

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Síndrome de mozartismo

“Ele nasceu para isso! Pequeninho já brincava de escrever e desenhar. Quantas vezes não chegava correndo na sala mostrando para as visitas as propagandas que ele tinha feito? Dava gosto. Não espanta que ele se deu bem na vida. Veio com o dom.”

Por menos que se acredite na predestinação, ainda reverenciamos a genialidade de direito divino. Como se nascêssemos dotados de pré-talentos que desabrocham no curso da vida, por uma centelha mística, em realização e reconhecimento. A educação que recebemos existe para criar uma espécie de terroir fértil para que ecloda a genialidade natural. É o dom que se aplaude.

A gente passa a vida tentando achar nosso grão de Mozart.

E ninguém nunca falou do suor do pequeno Woolfie, ninguém nunca se interessou pelo sangue escorrendo dos seus dedinhos sobre os teclados. Ninguém nunca quis saber da sua teimosia, obstinação, obsessão.

A gente gosta mesmo é da mágica e enquanto ela não vem, que tal empurrar a vida para o fim?

Experimentar é tão mais fácil do que perseverar!

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100 papos para impressionar em 2014

A vida social obriga-nos a entreter gente que não conhecemos, não nos interessa ou com as quais não temos afinidade. É para isso que existem tendências: um almanaque de assuntos de salão. Aí vão algumas boas selecionadas pela JWT Intelligence, livremente tropicalizados.

  1. As impressoras 3D estão se popularizando. Você vai se amarrar nos bibelôs de resina. A Vitoria da Samotrácia feita em casa, que tal?
  2. Já tem software que vai te transformar no Michelangelo sem tirar a mão do seu Ipad. Experimente o 3Doodler!
  3. Se você é da turma zozotérica mas acha tudo meio caído, que tal o yoga de baixo impacto? Está pegando até em Joanesburgo e consiste em se fazer as posturas de cabeça para baixo.
  4. Se você quiser investir em arte mas já não sabe onde colocar tantos Koons, Hirst e Varejão, aposte em El Anatsui de Ghana e Wangechi Mutu do Quênia.
  5. O que o suhi tem em comum com o futuro dos cosméticos? Experimente a linha Algenist da Solazyme com componentes feitos a base de alga e pare de se lambuzar com petróleo.
  6. O ambient commerce é uma palavra bonita de se usar, mesmo que sempre tenha existido. É antecipar-se ao desejo do consumidor. Se o cara correu 300 milhas, registradas no seu Nike+, está na hora dele comprar um novo tênis. Uma marketing direto recauchutado.
  7. Esqueça as filas nos aeroportos, nos museus, na catraca da Disney. Tudo virtual sem tirar o pé da pantufa e a mão do saco de pipoca. Veja o Oculus Rift virtual reality headset: um must em viagem de cadeira de rodas.
  8. Se seu filho é um retardado social e vive amolegando suas próteses virtuais, saiba que já tem tratamento para essa nova patologia.
  9. Se você acha que museu é, digamos, um museu, saiba que eles também acham. Por isso, a moda  agora é incubar artistas como se incubam ovos de  granja ou start ups.
  10. Preste atenção na Awesomeness TV, um canal do Youtube. É o ponto de encontro preferido dos coçadores de saco, metidos a vídeo-stars e diretores de criação sem ideia.
  11. Spam, não gostamos, mas Spam com pertinência, quem resiste? O Apple’s Ibeacon fisga o comprador por Bluetooth oferecendo aquele vigésimo conjuntinho preto do seu guarda roupa.
  12. Lembra do tempo que a Europa tinha 36 moedas diferentes? Está acontecendo isso na Internet. Depois do Bitcoin, já tem Namecoin, Worldcoin, Anoncoin e outros coins.
  13. E por falar em moedas do além, já tem gente trocando a moeda virtual por coisa de verdade. Por exemplo a Virgin Galactic para seus vôos espaciais.
  14. Le Corbusier dizia que o supermercado é a catedral do século XX. A Urban Outfitter e a Ikea já estão planejando bairros inteiros. Quer coisa melhor que morar numa loja?
  15. Alvo em gênero é tão bobagem quanto dizer que sexo é genético. A Johnnie Walker está focando na mulher e muitas marcas de cosméticos nos homens.
  16. Viajar no espaço não te leva a lugar nenhum, mas marcas estão querendo precisamente isso: confira a Axe Apollo Space Academy ou o concurso da KLM Claim your place in space.
  17. O Brasil está na moda já é um clássico. Em outubro, rolou o Be Brasil em Nova York com o melhor da nossa produção-além-havaianas.
  18. Dizem que São Paulo com seus museus exuberantes e galerias deslumbrantes está entre as 12 cidades artísticas do futuro. O Brasil tem futebol, mulata e arte. Tem até exposição de – adivinha quem – no novo Perez Art Museum de Miami: Beatriz Milhazes.
  19. Aplicativo novo é sempre uma boa conversa para passar o tempo. Que tal o MyBreath? Você arfa pra dentro e saem recomendações de bem estar.
  20. Primeiro o cigarro, agora as fragrâncias. Locais de trabalho já estão proibindo o uso daquele Paco Rabanne que abafa quarteirão. Quem tem faro para novidade, usa produto sem cheiro.
  21. A China já é o quinto maior produtor de vinhos do planeta. A maioria é digna da galeria Pajé mas a Decanter World Wine Awards 2013 já destacou 20 vinhos chineses.
  22. Se você ainda acha que sapato novo ou relógio tinindo vai lhe dar credenciais para galgar os píncaros do reconhecimento social, está enganado. A Patagonia está liderando uma iniciativa para reciclar produtos. Vem aí desfile de saco de lixo.
  23. Começou com barmans gatos, garçonetes hipsters, tatuagens para todo lado e muita atitude. Agora nem drink se faz mais. Atendimento é decoração porque sai tudo da chopeira, já prontinho e delicioso.
  24. O ser humano está descobrindo que é ser humano, ou seja, um bicho social. Estão em voga iniciativas comerciais suportadas pelas comunidades. Você paga por mês e recebe comida, flores e até arte. O que estive mais fresquinho.
  25. Parece que tem muita gente lendo Eckhart Tolle e seu Power of now. Empresas incentivam  consumidores a largarem o celular e viverem o momento. Provavelmente para estimular a Compra now e não tomorow.
  26. Comprar é bom mas melhor é tocar, lamber, esbanjar no ato, sair vestindo. Por isso, a pressão é toda para um delivery mais rápido e eficiente. Especialista em delivery é a carreira do futuro.
  27. Gringo é chegado num coquetel. Para a geração abstêmia e sua tia freira, que tal a nova onda de coquetéis sem álcool, os mocktails. Vai lá ver no NoMad.
  28. O deleite dos descasados, solteiros convictos ou gourmets egoístas: comprar todos os ingredientes de um prato sofisticado em mínimas porções. HelloFresh é a mais famosa opção mas já já sua tia freira que gosta de mocktail vai fazer pra vender também.
  29. Tem gente apostando na era da impaciência e a briga é boa: Amazon, eBay, Google, Walmart, Home Depot estão na guerra para a entrega em horas.
  30. Açúcar, sal, gordura, conservantes. Se você for comer algo que não foi colhido ontem e vai apodrecer amanhã, cuidado, o vilão da vez é o  colorante artificial. Em breve, na sua mesa, sorvete de pistache branco e chocolate bege.
  31. Seja lá o que for arte digital, já tem até leilão. Difícil entender mas você pode comprar um domínio, como o ifnoyes.com por exemplo. É uma espécie de screen-saver on-line assinado.
  32. Juntando duas mega-blaster-tendências – a espetacularização e a vida digital – o velório já tá na rede. Sem nada para fazer domingo à tarde? Que tal um velório online?
  33. Meu pai sempre disse que não comemora aniversário de casamento porque não se comemora o começo da guerra, só o fim. Virou moda comemorar o divórcio. Tem até bolo de descasamento.
  34. Desde que Jeff Bezos da Amazon disse que investiria em entrega por drones, já tem gente apavorada com o aviãozinho servindo detetive particular.
  35. O cigarro eletrônico que já era uma geringonça constrangedora – “aquele ali é um ex-viciado mamãe!” – também será regulado. Ainda vão regular os órgãos regulatórios por estressar a população com suas regulações.
  36. Você pede sorvete no cone ou no potinho? É super-tendência a criação de embalagens comestíveis. A WikiPearl promete tornar comestível qualquer tipo de embalagem. Já o gosto…
  37. Os homens estão se sentindo preterido pelas mulheres e estão surgindo grupos de suporte e advogados especializados em dar colo aos machos frágeis.
  38. Depois do animal-print: o planet-print. Tecidos mostrando galáxias, solo lunar, espaçonaves estão em toda parte. Você se sentia poderosa de onça? Experimente um vestido de Vênus.
  39. A vaca está pressionada por um adversário de peso: o tofu. A Chipotle, um fast food que posa de santinho já introduziu a iguaria. Em breve nos PFs e quilos do Brasil.
  40. E se você descobrir que sua cueca é feita por escravos anãos na etiópia com tripa reciclada de rinoceronte? Quem fez? Como fez? Onde fez? Com o que fez? Tudo conta. Confira a Zady, uma inimiga do fast fashion.
  41. As relações são passageiras então por que perder tempo lendo enormes perfis? O Tinder é um aplicativo que te ajuda a achar seu par só pelo feeling. Vai durar pouco mesmo, o que você tem a perder?
  42. Assim que o Google Glass entrar no mercado, um enxame de aplicativo vai parasitar. Baseado na previsão do tempo, por exemplo, um aplicativo indica quanta água você deve beber. É, a tecnologia anda pra frente e o homem pra trás.
  43. Religião sem meter Deus no meio é uma super tendência. Tem rituais e tudo mas sem padre nosso.  Só dízimo.  Dá só uma olhada na Sunday Assembly.
  44. Já imaginou um jantar entre amigos, todos portando google glass? Já tem proibição de uso do  google glass em alguns ambientes. Já legislaram sobre “google glass and drive”?
  45. Os hackers estão de olho na sua geladeira e no seu carro. Está na hora de você instalar anti-virus no seu google glass também.
  46. Tecnologias que usam sensores táteis estão em franco desenvolvimento. São versões mais modernas do vibrador. Na versão mais fofa, Huggies fez os pais sentirem como é estar grávido.
  47. Sabe aquele seu amigo de barba, camisa xadrez e bermuda e que termina cada frase cruzando os dedos em hashtag? Avisa lá que até a sua tia freira faz a mesma coisa.
  48. Você digita na privada? Já estão discutindo em Nevada, uma lei para proibir a livre digitação na rua.
  49. Você gosta da papinha cenoura e maçã do seu filho? Já pintou a versão natureba delivery. Petitorganics.com
  50. O bom da tecnologia é que você evita o toque humano, cheio de erros, bactérias e compromissos. Depende do gosto. Se você usar o aplicativo da Gatorade, pode ter contato com um personal trainer de carne e osso. Nesse caso…
  51. Você já ouviu falar em mixologistas? São pessoas especializadas em fazer misturas. E a novidade é fazer cubos de gelo com misturas de frutas, xaropes, ervas, temperos, nozes, insetos e o que mais lhe der na telha.
  52. Todo mundo já escorregou no botão enter e postou o que não devia, para sempre. Legisladores no mundo inteiro discutem o “direito de ser esquecido”.
  53. Tem gente grande para além das fronteiras da Amazon. O e-commerce Jumia da Nigéria promete ser o maior varejo do continente.
  54. Robô para todos. Faça o seu comprando o kit Lego Mindstorms EV3.
  55. Um dos poucos diferenciais que ainda restaram aos canais de TV tradicionais é a transmissão “ao vivo”. A NBC já  planeja produzir grandes musicais apenas para transmissões desse tipo. Vem aí, o inédito “a noviça rebelde”.
  56. Salões de maquiagem-express estão pipocando. Por US$ 25 você dá aquela retocada básica na Rouge New York.
  57. A maconha é a nova soja. Com a liberação controlada do consumo para fins diversos ou o exemplo avant-garde do Uruguai, já surge um mercado. Daqui a pouco vira commodity negociado em bolsa.
  58. “La donna è mobile” e o emprego também. Já pintaram uns aplicativos para ajudar você a encontrar o emprego certo pulando de uma entrevista para outra. Tente o Souktel’s JobMatch.
  59. Na onda dos comunicadores que viciam sem antídoto, os aplicativos (Line, We Chat, KakaoTalk) estão virando plataformas de e-commerce.
  60. Metadata é o palavrão da vez. Significa o estudar para quem, de quem e onde você manda mensagens online. Não importa o conteúdo. É a versão cyber-histérica do “diga me com quem andas que lhe direi quem es”.
  61. Sabe quando você percebe que a atenção dos seus ouvintes está escapulindo? Quando a busca pelo timeline perdido é mais importante do que seu discurso? É falta de mindfulness. Já tem até curso.
  62. A lua de mel era para desvirginar a vida íntima em longos cruzeiros glamorosos. Ninguém tem tempo para isso. Ganhar dinheiro é mais importante. Para casais com pressa dos finalmentes, chegaram as mini-moons. Tempo é dinheiro.
  63. E por falar no tempo escapulido, editores estão sinalizando o tempo de duração de uma leitura. Proust, 1 milhão de horas, vai encarar?
  64. Na sociedade do mínimo esforço e vício máximo, chegaram as seringas sem agulha. São jatos inseridos diretamente sob a pele em alta velocidade.
  65. Quanto mais imersivo, melhor. O headset Oculus Rift promete uma experiência sem limite. Põe a carinha no buraquinho e bem-vindo ao esquecimento absoluto.
  66. As OTT TV (Over the top TV) proliferam. Tratam-se de aplicativos na televisão que permitem acessar os conteúdos on-demand. Sim, você não precisa saber de onde vem o que você vê. Vai clicando que você acaba encontrando.
  67. Aparência é tudo na vida protética das redes sociais. Tem aplicativo de montão para deixa-lo tão sedutor quanto aquele seu amigo que já nasceu de cabelo estratégico, bigode em riste e tatuagens enigmáticas. Experimente o Facetune e arrase.
  68. Os podcasts, quem diria, estão em voga. Mas esqueça aquelas transmissões maçantes de gurus enfadonhos. O palco é todo para celebridades. Confira o Podcastone.
  69. Privacidade é como assistir documentário cabeça: todo mundo gosta mas ninguém pratica. De qualquer forma, a privacidade é discutida hoje na idealização de qualquer projeto, desde o início. É a “privacy by design”.
  70. E a privacidade é um argumento de venda. É tendência encriptar suas mensagens com o Cryptocat ou PixelKnot e arquivar dados no Personal.com ou no Respect Network, mais seguros que banco suíço.
  71. A gastronomia étnica está se superando. Chegaram as cozinhas étnicas regionais. Fondue Savoyarde é tão diferente de Boeuf bourguignon quanto sushi de pato laqueado.
  72. Se tem uma coisa que um robô pode fazer melhor que cachorro, é segurança. O Knightscope’s K5 tem visão noturna de alta definição e detecta e reconhece pessoas.
  73. Experiências imersivas continuam fascinando as pessoas. É uma espécie de teatro participativo  com roteiro e super-produções.
  74. Iogurte grego é como pão francês: é puro marketing exótico. Mas a moda continua e agora com novos sabores experimentais: pepino, girassol, chili, salmão defumado, etc.
  75. As fast-food continuam investindo no seu core business: mais fast do que food. KFC, Five Guys e McDonalds estão experimentando aplicativos em que você compra e paga online para retirar na loja sem pegar fila.
  76. Está ficando mais fácil digitar ao volante: o Q50 da Infiniti pode permanecer em uma faixa, fazer curvas e ficar a certa distância dos carros da frente sem que o motorista use as mãos ou os pés. A Mercedes e a Volvo também tem suas experiências.
  77. Uma imagem vale mais que mil palavras ao pé da letra: alguns educadores pensam em incluir nos currículos escolares aulas de expressão visual.
  78. Fazer viagens turísticas podem ser verdadeiras maratonas. Literalmente e sem metáfora. Experimente a Go! Running em Barcelona ou a City Running Tour em Nova York.
  79. Você já chutou uma vending machine? Agora elas podem chorar ou chamar a polícia. A tendência é o desenvolvimento de vending machines cada vez mais inteligentes e interativas.
  80. Você cansou de colocar meleca na cara para dar aquele up? Experimente o muco de caracol da Petit Gris.
  81. Putin é sempre assunto. As olimpíadas de inverno da paradisíaca cidade de Sochi irão custar 50 bilhões de dólares. Em matéria de destino olímpico, o Rio de Janeiro que se cuide.
  82. Os Estados Unidos são a nova Belíndia. A desigualdade econômica voltou a níveis anteriores a 1920. Na Europa, já estima-se que 43 milhões de pessoas não tem bastante comida na mesa. Que isso nos sirva de consolo.
  83. A Coréia é o novo Japão. O Soju é o novo Saquê.
  84. Como a linguagem visual vai substituir a escrita, com que precisão as palavras serão trocadas por formas e cores, não sabemos. Mas vale a pena dar uma olhada nos rótulos da Motif Wine.
  85. Mashup é a nova onda esportiva. Já tem o futegolf, por exemplo. Tipicamente inventado por alguém que não entende nada de bola. Vem aí o F1ball.
  86. Comida saudável não é necessariamente sinónimo de comida gostosa. Algumas cadeias de restaurantes como a Lyfe Kitchen e a Seasons 52 estão preferindo omitir que a sua comida é saudável, embora seja.
  87. Todo veneno tem seu antídoto. Todo talento também. Ser multitarefa já foi um diferencial competitivo. Mas quem faz tudo ao mesmo tempo não faz nada direito. A habilidade em voga é o foco.
  88. A segunda tela será a primeira. A MTV lançou  sua série Wait’til next year para tablet antes mesmo da TV. O mesmo para a Disney com sua série infantil Sheriff’s Wild West.
  89. O excesso de tecnologia pode ser uma fobia e a falta dela uma tendência.
  90. Mais e mais aplicativos estão sendo desenvolvido para diagnósticos. Peek, para problemas de vista, uCheck para diabetes, SkinVision para medir o perigo das suas pintas de pele, etc.
  91. A ubiquidade é quando o homem brinca de ser Deus. Estar aqui, ali e acolá é uma tendência com os robôs-avatar (Suitable Technologies, VGo, iRobot, Anybots etc).
  92. Sabe aquele chapéu de cangaceiro do Luiz Gonzaga? Na Austria é super moda usar lederhosen (aquele short de couro com suspensório super sexy). É o folclore na crista.
  93. Você come com os olhos ou com a boca? Se você prefere a boca, vai adorar a tendência: marcas vendem mais barato produtos defeituosos mas igualmente deliciosos, como a Wunderlinge na Australia ou a Edeka na Alemanha.
  94. Imperfeição é sexy. Seguindo a tendência dos castings “pessoas de verdade”, várias agências já selecionam modelos com o inimitável charme defeituoso. Confira a top vesga Moffy da Storm Models.
  95. Fumaçodromos para adeptos do cigarro eletrônico prometem ser o point da galera descolada. No aeroporto de Londres procure gente bonita no Vaping Zone.
  96. A vingança do alface. Sabe aquele alface decorativo que ninguém come e que pula de prato em prato? Chefs do mundo inteiro entronizaram os vegetais.
  97. Estima-se que que 10 a 15 % dos reviews de leitores são falsos. Já existem empresas especializadas em criar reviews e também empresas especializadas em autentica-los, como a Bazaarvoice.
  98. Mais uma fofurice vinda do oriente: stickers de  pelúcia.
  99. Convergência é quando tudo faz tudo e você não escolhe, submete-se. Para aumentar a confusão o XBox quer ser hub de entretenimento, competindo com o Netflix, a Amazon, etc. Até Spielberg foi contratado pela Xbox entertainment studios.
  100. Que iphone ou Galaxy que nada! A tendência é o Xiaomi, o smartphone mais hypado da galáxia, ou seja, da China.
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Redes sociais ou gabinete de curiosidades

Queiramos ou não, relacionamentos são intrincadas teias hierárquicas. Embora seja arriscado etiquetar pessoas em gavetas e vitrines – afinal de contas gente é areia movediça – um pouco de ordem conforta.

Nossos relacionamentos se organizam em redes que, embora se cruzem nos mais complexos ou em ocasiões excepcionais, estabelecem um grau de profundidade da relação assim atribuída pela de maior interação.

Vejamos.

No seu aniversário, por exemplo, existem aqueles que aparecem na sua casa antes de você acordar. Esses dividem cama e escova de dentes.

Depois tem aqueles que combinam de te encontrar para te pegar, dar um beijo, um sorriso e um vale livro.

Descendo um degrau, tem gente que te manda email. Há  tanta intimidade nas frases lapidadas!

Seguindo na hierarquia, alguns telefonam porque a vida é uma loucura mas sentem uma saudade asséptica.

Depois, temos os que mandam mensagem de texto pelo celular com palavras carinhosas e abreviadas.

E lá embaixo, junto com a catraca do trabalho que te manda um parabéns, junto com o cartão da livraria que está tão feliz por você nesse dia, tem a mensagem que calibra sua popularidade.

Lá embaixo, lá no fundo do fundo, onde você coleciona curiosidades e não relacionamentos, tem a mensagem no facebook.

É nesse lá embaixo, lá longe, que as marcas tentam ser amigas das pessoas.

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Põe a mão na sapucaia

No ano que não acaba nunca de não começar não deixaria de faltar causo da mulher do piolho.

Ela mandou dizer que já deu aquela coceira de aprontar quizomba. Coceira de cutucar bem curtinho. Coceira de acabar com a pasmaceira e tocar fogo na capoeira.

Bom de começar fazendo pergunta besta. Por que tem que ser assim? Por que tem que fazer de conta? Por que não pode perguntar por quê?

Bom de já ir dizendo não, não e não. Não quando a gente engasga com o sim, não à continência, não ao quase.

Bom de já ir dizendo sim, por que não? Quando dá coceira de certeza, sim à incontinência e sim quando é porreiro.

E se não girar a carapeta, vem mais um ano que passa sem nem doer nadinha. Mais um ano que se foi.

A mulher do piolho mandou dizer que ano incólume não volta nunca mais.

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Porque pedalamos na chucrute

Durante dez longos minutos de pura repetição, Charpentier cantava que Luís era o maior de todos os reis. Durante duas longas páginas, quando não mais haviam epítetos na língua, Camões louvava os reis de Portugal.

Elogios de circunstância ajustam a máquina, preparam o terreno, equalizam o público. Mas depois, a gente fala a que veio e diz o que tinha que dizer.

Nem sempre é assim. Nem sempre a gente tem ou sabe o que dizer. E como ninguém sabe ouvir, só sobram os salamaleques papai mamãe. E a enrolação, a pergunta óbvia, a resposta esperada, o somebody-love, o cenho franzido, o termo rebuscado, até porque, do capo ao cabo, é a pose que conta.

E tem todos os tipos de poses.

Tem a pose de quem comeu tartufo vencido e de quem nunca comeu, de quem bagunçou o cabelo e a de quem terraplanou, de quem disfarça o Givenchy e quem estufa o Chanel, de quem tem cabeça de biruta e quem empina o nariz, de quem estica a corda do bom gosto e quem massacra a formalidade.

Mas a melhor é sempre aquela de quem aquiesça a platitude.

É preocupante a queda de vendas, é magnifico o crescimento de participação, é ousado o desafio, e sim, vamos evoluir para frente, subir para cima e nunca descer para baixo. Vamos unir os esforços, trabalhar juntos em colaboração solidária para que todos de mãos dadas alcancem o bem comum da comunidade de todas as pessoas que fazem parte da nossa grande família de seres humanos, funcionários, parceiros, acionistas, consumidores, e o planeta, e o planeta, claro, o planeta.

E assim, na chucrute, na maionese, no iogurte, a gente pedala.

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Quantos TCCs você viu hoje?

Uma apresentação de TCC tem que ser bonita, divertida, moderninha, e ter muito nariz de cera para ir criando aquele clímax. Todo mundo tem que falar para demonstrar empenho e com alegria, garra, sangue nos olhos, sabe como é? No final, um pequeno agrado é de bom tom. Mas a principal pergunta a ser respondida é “será que ele vai gostar?”

Para melhorar o seu TCC, aí vão algumas outras dicas:

-       Hables portuguese. Se você estiver com dúvidas do que significa “ir de encontro”, cuidado, pode ser o contrário do que você imagina. Se você achar estranho que uma marque “cure um conteúdo”, cuidado, ele talvez esteja doente. Escreva em português, é mais fácil.

-       As pessoas sabem ler. Se você achar que as pessoas não leem, então porque você está escrevendo? Se você está escrevendo, que tal escrever de maneira que todo mundo entenda?

-       Não confunda convencido com convincente. Não fique se auto-elogiando. Não diga que sua ideia é matadora. Quanto menos adjetivos, melhor.

-       Você não é o Pelé. Nunca empregue a primeira pessoa do plural. Quem faz e fala é a marca, não você.

Mas se você quiser transformar seu TCC de cada dia  numa apresentação profissional, azar dos belos olhos do diretor de marketing: quem tem que gostar é o consumidor, não o cliente.

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O produto é trigger, seu Mané!

Venho aqui tratar de uma negligência no post anterior.

Precisamos fazer jus a outra questão de ordem importantíssima nos dias de hoje, principalmente nas longas reuniões que travamos nas agencias de publicidade, onde o futuro da humanidade é decidido.

Enquanto a marca precisa definir seu papel e atuar de maneira que ele fique claro e cristalino, da copa ao topo, estamos esquecendo do pobre do produto, empenhado numa tarefa não menos hercúlea.

Ele é o grande agente transformador dos mágicos 30 segundos. Quando ele aparece tudo muda. As situações ficam alegres, as pessoas soltam fogos de artifício, os problemas mais complexos são resolvidos. O bom fica ruim, ops, o ruim fica bom; o sol brilha mais forte e a vida atinge sua plenitude.

O produto é trigger, seu Mané!

O produto como trigger é primo do papel da marca e irmão bi-vitelino do “product as a hero”.

O problema nessa analogia é que a função do gatilho não se encerra em si só. O gatilho é só uma peça da arma que destrava o cão e dispara a bala.

Mas pouco importa. Como num quadro de Magritte, o nosso produto é um gatilho fora de contexto a serviço da ilusão marqueteira para criar uma realidade de power point.

Ele, o nosso herói, não precisa ter qualidade, nem fazer sentido no contexto mercadológico muito menos suprir uma necessidade real do consumidor. Basta ele ser trigger que está tudo garantido. Não precisamos queimar pestana, aperta o gatilho e o Kotler se encarrega do resto.

O cartucho é de festim!

E o produto é trigger, seu Mané!

Colaboração de José Porto (Deliberadamente inspirado em “O papel da marca, sua anta”.)

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O papel da marca, sua anta

Fazer propaganda é sofisticado porque tem que ser memorável, eterno, bem produzido, barato, tem que contar uma história sedurora, gerar intenção de compra, mídia espontânea de montão, engajar as massas, viralizar ultramar, ser uma causa universal, mudar uma cultura. Tem que ter um ponto de vista claro, uma identidade inconfundível e principalmente, definir claramente e com naturalidade o papel da marca, sua anta!

É muita coisa para assegurar, e por isso, a gente pergunta bastante, para todo mundo, da copa ao topo e refazemos muitas vezes para garantir que o papel da marca, sua anta, o papel da marca! E depois a gente pesquisa, tem que perguntar para o povo – voz do povo é voz de Deus – porque se não estiver claro o papel da marca, sua anta, o papel da marca! E se não estiver ali, lógico e tinindo, volta sete casas, muda a equipe, chama reforços, gente que sentiu na pele o papel da marca, sua anta, o papel da marca!

Dá um trabalhão. Tanto trabalho procurando no mercado e no supermercado, no roteiro, na mídia, nas redes, na cabeça, no coração e na vida, o papel da marca nas metas, no bônus, na cabeça do meu chefe, do seu chefe e do chefe gringo do chefe do meu chefe, tanto trabalho que a gente esquece de chamar a atenção.

Porque propaganda, afinal, é isso aí, chamar a atenção.

Para o papel da marca?

Não sua anta, chamar a atenção. Tout court.

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A internet é a reunião de condomínio

Tudo que é novo, vem carregado de paixão e promessas. Se não for, não vinga.

A gente acreditou que a Internet era libertária, que daria  vez aos escondidos, tímidos, periféricos. Daria tanta vez e voz quanto o voto representativo, o orçamento participativo, tanto quanto o a eleição direta do síndico do seu prédio.

Mas o quórum de uma reunião de condomínio costuma ser o mesmo deserto da câmara de deputados numa quinta feira ou o mesma aridez das colaborações de um orçamento transparente.

A gente acreditou na cauda longa e no jornalismo cidadão. A gente acreditou que os pequenos negócios iam florescer e dar oportunidade de emancipação financeira aos oprimidos. A gente acreditou que a manipulação das grandes grifes da imprensa ia ser desmascarada pela atuação massiva do povo.

Tudo que é novo, vem cheio de superlativos. Se não vier, não é novo.

Mas a Internet é o palco de uma extraordinária concentração nunca vista. Tudo ou quase tudo passa por meia dúzia de hubs de distribuição. Meia dúzia de marcas dominam o comércio e meia dúzia de marcas dominam a mídia, por exemplo.

Claro que os relativistas de plantão vão bradar contraexemplos, mas parece que o mundo virtual é uma selvagem cadeia alimentar.

Ainda estamos preocupados com assuntos periféricos – direito autoral, privacidade, soberania, fraudes. Mas enquanto isso, meia dúzia de síndicos – eleitos por nós –  dão as cartas.

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