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Esse papo de digital é belo mas estéril

O movimento artístico Zero, fundando por Heinz Mack e Otto Piene, pretendia dar um novo começo à expressão artística, questionando suportes, formatos, temas, experiências. John Cage, estreiou sua peça chamada 4’33 sentado de frente ao piano fechado durante longos 3 minutos e trinta e três segundos, sem produzir um único som e deixando o ambiente e a plateia produzir seu concerto aleatório. O Zero como o minimalismo são desses movimentos fascinantes pelo pensamento e razoavelmente estéreis na produção.

Quando a Internet surgiu para a publicidade, questionava o jeito e trejeitos da propaganda de massa, propunha a boa nova de uma comunicação mais democrática, sem fronteiras, acessível, distribuída em rede, de todos para todos. Ao contrário da comunicação tradicional broadcast, autocrática, concentradora, dominadora, a Internet era a redenção. Esse pensamento original e sedutor rapidamente conquistou porque significava uma desconcentração muito saudável dos meios. Significava também a entrada de uma nova geração de empresas mais tecno-criativas do que as tradicionais agências artístico-criativas. E principalmente, sorrateiramente, significava a pespectiva de redução de investimentos na compra de mídia e recursos criativos e de produção mais baratos.

O pensamento era interessante, a prática não deu muito certo.

Nunca antes na história da comunicação, houve tanta concentração de investimento em poucos – pouquíssimos players. Inclusive e principalmente na Internet. Nunca antes na história da comunicação, teve tanta mediocridade criativa. Sobretudo na Internet. A gente se iludiu com os evangelistas apaixonados.

Seres humanos são tumores emocionais que se nutrem de impulsos primitivos e não de doutrinas e gadgets tecnológicos.

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A sensualidade do Buy

Nossa vida de zapping é cheia de compartimentos cada vez mais numerosos e mais diminutos. Precisamos dedicar tempo e energia para todas as nossas mil facetas que temos orgulho de estampar como marcas de superioridade “eu entendo disso e daquilo, falo essa e aquela língua, conheço esse e aquele, vivo aqui e ali”. Essa síndrome do “eu já vi, eu já fiz” e sua frustração “eu não vi, eu não fiz”, é o que parece mover a humanidade. Assim, acumular é um valor social.

Comprar sem sair da cadeira, não enfrentar nenhum perrengue, mal humor, mal atendimento, compra de pânico, risco da falta e da decepção, é um avanço.  Comprar na internet são muitas portas abertas para esse valor supremo. A cada buy dado, estamos preenchendo as gavetas de nosso gabinete e principalmente multiplicando-as incessantemente.

Mas o que aconteceu com a explosão de sentidos dos caravançarás, surgidos do passado dos bazares ou erigidos como templos de consumo? Aquela choque de cheiros, cores, sons e movimentos, a energia sempre mutável, excitante ou serena, frenética ou pausada, o toque, a troca, a negociação. Não há experiência online capaz de substituir esse prazer sensual.

Mas toda renúncia de prazer tem um preço.

Sentir-se enfastiado, preenchido de coisas, informações, dados, dá uma sensação de dia cheio, de vida completa, útil. O mundo emula Dubai: consumo irrigando o deserto.

Comprar, acumular, armazenar esse é o sentido da vida?

Já o prazer virou um botão “buy”. Ao invés de gozar, estamos comprando – freneticamente e sem consciência – prazeres que morrem nas nossas inúteis gavetas existenciais.

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A nova economia

Ele queria ir trabalhar de skate, pular da cama na bermuda da véspera, cabelo em desalinho calculado, ainda com eflúvios alucinógenos a lhe incensar a fala. E por falar nisso, valorizariam suas ideias obviamente novas já que ele era jovem, cheio de amigos nas redes e sintonizado com bandas e traquitanas. Ele gostava de champong bem picante, era fã de Stockhausen, de garotas cantantes islandesas, era um flea-market ambulante e discorria sobre acidentes aéreos como ninguém. Por isso tinha passado no teste para ser o bambino prodígio de alguma sucursal emergente da nova, novíssima, flamejante economia.

No primeiro dia, se atrapalhou com o crachá, sentou na baia errada e quase quebrou a perna da chefe meia idade que deu um bigspin involuntário no skate. No segundo dia, já de banho tomado, preencheu planilhas e copiou colou uma apresentação para o outro chefe do sub chefe da sua chefe. No terceiro, participou de sua primeira reunião, numa sala abarrotada com cheiro de café, barra de cereal e gel de cabelo. No quarto, ganhou camiseta, boné e até lápis. No quinto, fez uma vídeo conferencia para preparar uma reunião que irá anteceder o encontro sub-internacional a ser realizado na Nicarágua.

No sábado, perguntou para o pai: Pai, como é trabalhar no Banco?

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É só um crachá e nada mais

Nunca podemos menosprezar o ambiente gelatinoso e experimental da Internet. Uma das seduções desse universo, talvez a mais visceral, é a descoberta, a vertigem do novo, a fronteira do status-quo, da convenção, da regra, da monotonia. É essa natureza rebelde, mutável, imprevisível que fascina e vicia porque a Internet é o último reduto dos inconformados.

E quando uma onda fica ou parece muito poderosa, quando desafia a independência e a identidade, quando tenta pasteurizar os comportamentos e nivelar os gostos, quando um movimento, uma plataforma, uma marca levanta o nariz com ares de poder provinciano, quando uma ideia outrora inteligente derrapa na voracidade mercantil, quando uma empresa listada e cheia da grana vai às compras porque não consegue mais atrair boas ideias, é o começo do fim. Da noite para o dia caduca, apesar das mentiras bem contadas pelos crachás catequisados.

Esse déja vu consola.

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A Internet finge

É esse mundo sem fronteiras, em que as distâncias derretem, as geográficas, de língua, de idade, de raça, esse mundo imediato em que as relações se estabelecem sem pudores nem vergonhas, esse mundo sem privacidade nem propriedade, esse mundo sem limites, da consagração, da comunhão, é esse mundo que vivemos.

Nessa sociedade wiki, a informação flui e a dúvida derrete, a estranheza dá lugar à simples diferença, a maioria dá o tom da verdade e a mentira perde as calças, nessa sociedade o conhecimento vence o dogma e o ópio, nessa sociedade que fizemos.

Mas por que, então? Por que as velhas mágoas, as velhas disputas, as velhas identidades mortíferas? Por que branco versus não-branco, rico versus sujo, pobre versus parasita? Porque, fingimos.

Este mundo livre, esta sociedade informada e a Internet, não resolveram o tato, o faro, o químico. Só existe relacionamento entre seres de carne se existe troca de energia, de líquidos, bafo, humores, carícias, afagos, aconchegos e tapas, e beijos.

Sem toque, o preconceito persiste.

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Redes sociais ou gabinete de curiosidades

Queiramos ou não, relacionamentos são intrincadas teias hierárquicas. Embora seja arriscado etiquetar pessoas em gavetas e vitrines – afinal de contas gente é areia movediça – um pouco de ordem conforta.

Nossos relacionamentos se organizam em redes que, embora se cruzem nos mais complexos ou em ocasiões excepcionais, estabelecem um grau de profundidade da relação assim atribuída pela de maior interação.

Vejamos.

No seu aniversário, por exemplo, existem aqueles que aparecem na sua casa antes de você acordar. Esses dividem cama e escova de dentes.

Depois tem aqueles que combinam de te encontrar para te pegar, dar um beijo, um sorriso e um vale livro.

Descendo um degrau, tem gente que te manda email. Há  tanta intimidade nas frases lapidadas!

Seguindo na hierarquia, alguns telefonam porque a vida é uma loucura mas sentem uma saudade asséptica.

Depois, temos os que mandam mensagem de texto pelo celular com palavras carinhosas e abreviadas.

E lá embaixo, junto com a catraca do trabalho que te manda um parabéns, junto com o cartão da livraria que está tão feliz por você nesse dia, tem a mensagem que calibra sua popularidade.

Lá embaixo, lá no fundo do fundo, onde você coleciona curiosidades e não relacionamentos, tem a mensagem no facebook.

É nesse lá embaixo, lá longe, que as marcas tentam ser amigas das pessoas.

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A internet é a reunião de condomínio

Tudo que é novo, vem carregado de paixão e promessas. Se não for, não vinga.

A gente acreditou que a Internet era libertária, que daria  vez aos escondidos, tímidos, periféricos. Daria tanta vez e voz quanto o voto representativo, o orçamento participativo, tanto quanto o a eleição direta do síndico do seu prédio.

Mas o quórum de uma reunião de condomínio costuma ser o mesmo deserto da câmara de deputados numa quinta feira ou o mesma aridez das colaborações de um orçamento transparente.

A gente acreditou na cauda longa e no jornalismo cidadão. A gente acreditou que os pequenos negócios iam florescer e dar oportunidade de emancipação financeira aos oprimidos. A gente acreditou que a manipulação das grandes grifes da imprensa ia ser desmascarada pela atuação massiva do povo.

Tudo que é novo, vem cheio de superlativos. Se não vier, não é novo.

Mas a Internet é o palco de uma extraordinária concentração nunca vista. Tudo ou quase tudo passa por meia dúzia de hubs de distribuição. Meia dúzia de marcas dominam o comércio e meia dúzia de marcas dominam a mídia, por exemplo.

Claro que os relativistas de plantão vão bradar contraexemplos, mas parece que o mundo virtual é uma selvagem cadeia alimentar.

Ainda estamos preocupados com assuntos periféricos – direito autoral, privacidade, soberania, fraudes. Mas enquanto isso, meia dúzia de síndicos – eleitos por nós –  dão as cartas.

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Humanidade bonsai

A vida é a deliciosa ilusão de tentar se encontrar indivíduo.

Talvez nosso mais importante discriminante seja a capacidade que temos de formar um gosto e seu corolário, o senso crítico. É o que nos define, identifica, diferencia, individualiza.

A maturidade não é nada mais nada menos do que o desabrochar do senso crítico.

Mas a modernidade é uma corrente contrária: um contra-fluxo poderoso que incentiva a padronização e premia a vulgaridade.

O gosto que formamos, hoje, se dá através da reputação e da fama em detrimento do conhecimento. Quanto mais estrelas um livro tiver, mais recomendável ele se torna. Quanto mais likes uma notícia, mais relevante. Quanto mais views um fato, mais verdadeiro.

Não importa a opinião referenciada. Não importa a fonte. Não importa a prova. Só importa o sufrágio.

O que será de nós quando a grandeza de uma obra literária será atribuída através da quantificação robotizada de pseudo-inteligentes algoritmos? A Amazon, ou melhor dizendo, o robô da Amazon, monopolista e perdulário, será o crítico definitivo, absoluto, inquestionável, universal, plenipotenciário.

É, muita internet infantiliza. Atrofia.

 

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Milhares de amigos afora

Quantas vezes você ficou aflito pensando numa resposta que você não deu numa rede social, num email que você não respondeu, num texto que você postou mas pensando bem, talvez tivesse sido melhor esperar? Quantas vezes você teve a sensação de estar perdendo algo porque ficou digitalmente abstêmio por alguns instantes?

Quanto tempo você costuma ficar sem olhar no celular? Quantas tempo em média você fica com quantas pessoas? Quantos toques, olhares, afagos você troca? Quando foi a última vez que você falou de você com sua própria língua para uma pessoa a menos de 10 metros de distancia, olhando nos seus olhos, talvez segurando na sua mão, sem hora marcada? Quantos amigos você adentra?

Compara com a última vez que você mandou um email, gostou de uma foto, postou um comentário ou uma cena real que você viu para fotografar, comentar, cacarejar, milhares de amigos afora?

Na batalha do tempo, quem venceu? E se quanto mais amigos afora você tivesse, menos amigos adentro você curtisse?

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Desligar o Facebook não mata ninguém

Sabe aquele seu amigo que sabe de tudo, lê tudo, indica coisas que você nunca suspeitou que existissem? Sabe aquele cara que é sempre o primeiro a dar uma informação, aquele máquina de dados? O cara que posta opinião sobre tudo e todos, com farta exemplificação? Em suma, o sujeito que lê todas as revistas e principalmente aquelas de auto-ajuda empresarial? Você não morre de inveja de suas citações tão apropriadas, de sua memória, de seus “veja bem”, “olha só”, “você não leu na Fast Company”?

De dar complexo de inferioridade.

Mas a revanche é pensar que muitos não passam de  empreendedores de social games, terroristas de apartamento, revolucionários de power points, artistas de mash-up. Replicam com sofreguidão, muitas vezes sem filtro nem senso crítico, o que peneiram por aí.

Quem muito planeja, pouco se arrisca. Tanta erudição é um disfarce para esconder limitações criativas ou só muita insegurança.

Essas pessoas são pródigas e, depois que inventaram a Internet, elas se multiplicaram assustadoramente. A tal ponto, que as vezes, é de se pensar que a facilidade de acesso à informação é um veneno, uma trava, um inibidor de coragem e criatividade.

Menos Internet as vezes é um bom remédio. Mas que difícil.

 

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Google e Facebook morte lenta

Quando, finalmente, esganamos ou escravizamos nossos inimigos, o barrigão cresce e a  libido fica preguiçosa.

O Google, como todo monopólio, estão perdendo o viço. É natural: até ganhar louros e dinheiro cansa. Mas a semente da senilidade, nesse caso, é outra e se chama liberalismo insano.

Claro que tudo ainda está muito encoberto por um estrondoso sucesso de público e dinheiro.

Mas já faz algum tempo que o Google deixou de ser uma ferramenta de busca por conteúdo e tornou-se um repertório comercial organizado por relevâncias pagas ou espertas. Já faz algum tempo que o Youtube virou um shopping center de vídeos no mais clássico estilo do cinema de laboratório. O Gmail, a grande arapuca do marketing direto, já afirmou que seu compromisso não era nem nunca foi com privacidade.

Evidente que eles ganham todos os holofotes e todos os dinheiros do mundo.

Só que está ficando fastidioso buscar algo no Google sem ser invadido por uma farta oferta comercial. Páginas e mais páginas de inutilidades antes de encontrar uma informação. Tente procurar, por exemplo, Victor Hugo: vai ter as marcas, os filmes, os restaurantes, as livrarias, os hotéis, as lavanderias e até quitanda online, muito antes de ter alguma coisa realmente interessante sobre o autor da Lenda dos séculos. Não surpreende depois que Debussy seja um teatro, um restaurante, uma empresa de pintura, antes de ser compositor.

E o problema não é a propaganda paga, é justamente a “gratuita”. O SEO está matando a relevância. Melhor procurar logo as velhas marcas do passado, os jornais, as enciclopédias, as obras de referencias, os dicionários. Ou claro, a Wikipedia, esse patrimônio da humanidade.

O Facebook, e suas ejaculações sociais, não passa, nem nunca passou, de uma troca superficial de conteúdos pré-digeridos. Nunca se interessou em ser um arquivo organizado de fatos e histórias, nunca sequer se perguntou para que existia além da óbvia ganância. Então, não vale nem perder muito a pena para decifrar sua missão.

Mas a Internet é rebelde e tem tempo. Todo monopólio é um corpo estranho nesse ambiente anárquico, orgânico e que acalenta os gênios da contravenção ideológica. Ainda bem.

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Viralização pela hora da morte

É gozado como as tendências no mundo da propaganda operam em surtos calibrados pelo nível de sofisticação de quem os lança. Ainda tem gente falando de “estratégias de redes sociais” por exemplo, como se fosse o último grito das passarelas ou de “branded content” achando que descobriram a pólvora para economizar na mídia. Mas um termo que vira e mexe contamina os discursos é o bem-aventurado vídeo viral.

É como se existissem regras de “viralização” que quando seguidas garantem o contagio. Mas as regras são desejos insondáveis porque os vídeos mais chatos e mais engraçados, mais caretas e revolucionários, mais inteligentes e mais dementes, mais papai mamãe e mais pornográficos, podem viralizar de forma inesperada.

Mas o que faz dessa tendência uma falácia extraordinária, no entanto, é que a forma como mensura-se o sucesso da pretensa estratégia (quantidade de vezes que o vídeo foi visto, comentado, compartilhado, etc.) não subtrai o investimento feito (muitas vezes às escondidas) em mídia.

Assim desnuda-se a tendência da viralização para descobrir que viralizou porque veiculou (sic). Descobre-se também que o investimento por visualização ou compartilhamento é menos competitivo do que se esperava. Mas tudo bem, a estratégia foi um sopro de modernidade.

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O esnobismo às avessas das agências digitais

Quem arrota mais leva a fama, mas o come quieto leva a grana. E se tem uma coisa que é unha e carne com a propaganda é amplificar qualquer mínima ideia. Até a mais prosaica, a mais falsa, a mais inviável delas, vira um case prodigioso.

Mas as agências tradicionais, os mastodontes que encabeçam a lista das maiores entre as maiores, com centenas de formigas diligentes e obedientes, processos e métodos, intrincadas teias políticas e vetusta imagem comem quieto quando se trata de demonstrar sua vitalidade no frisson digital.

Não é muito lógico, logo elas, especialistas em cacarejar, parecem tímidas adolescentes diante das flamejantes agências digitais. Essas, que preferem nomes mais barrocos, tirados de um baú pseudo-intelectual, tomam a mídia e as salas de reunião de assalto com o argumento pirlimpimpim: nós somos o novo.

E toda a arrogância e a pretensão das gigantes é reinterpretada com megalo-nanismo (de nanismo e onanismo) pelas digital-agencies ou outras nem tão digitais mas igualmente off-Madison.

Por quê?

Complexo de inferioridade mau curado? Para disfarçar estruturas em construção? Imaturidade? Ou simplesmente por que está dando certo? Talvez só instinto de sobrevivência.

Mas a verdade oculta é que os dinossauros tiraram o pó e são habitados hoje pelos mesmos milleniums de sneekers volumosos. A verdade é que a entrega e a qualidade da produção “digital” ou integrada das velhacas é a mesma. A verdade é que as mesmas referências, os mesmos congressos e festivais, as mesmas pesquisas, o mesmo slang erudito são os mesmos gadgets nas apresentações dos pesos pesados, pesos médios e pesos pena.

A título de confirmação irônica, chamar uma digital agency de digital agency é uma heresia que ninguém ousa pronunciar.

Quando o dinheiro era pouco, ele migrava para as alternativas. Agora que ele é muito, o jogo é outro.

O que interessa as marcas, as empresas, os anunciantes não é a “novidade” ou a “subversão”. Não é ser grande, médio ou pequeno. O que interessa é a entrega, integrada, pensada, nova, original. O resto é esnobismo às avessas.

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Escambo.net

- Meu Deus, os caseiros levaram de novo a batedeira! Vou lá… Bom dia Seu Francisco.
– Salve patrão.
– Por acaso a batedeira lá de cima está aqui?
– Está sim Senhor.
– Sabe, Seu Francisco, eu acho bonito esse jeito do Senhor.
– Qual jeito, patrão?
– Esse jeito “o que é meu é seu, o que é seu é meu”.
– Obrigado, patrão.
– Mas sabe qual é o problema: o Senhor não tem nada, então sempre me dou mau.

O Estado – e o nosso mais do que muitos – é um monstro de muitas cabeças egoistas. O Brasil do século XXI é um país submisso a um poder exacerbado, centralizador e burocrático. Nem o nosso jeitinho tão criativo consegue mais driblar os tentáculos públicos. Eles estão nas leis, nos tributos, nos financiamentos, nos programas sociais, em todas as obras de infraestrutura e interferem na atividade comercial e empreendedora.

O Estado brasileiro é uma colônia de carrapatos.

Isso não significa, é claro, que do outro lado, no privado, existam santos oprimidos. Ninguém é mártir nesse jogo e os vasos são promiscuamente comunicantes.

Para o cidadão comum, só lhe resta duas alternativas: sofrer ou parasitar.

Mas existe uma terceira via. Sem jeitinho nem cambalacho. Sem masoquismo nem paralisia.

Quando uma pessoa vende ou aluga um bem seu para uma outra pessoa – uma casa, uma geladeira, um carro, um passeio de cachorro, uma jardinada – o Estado não existe. Não existe imposto, nem burocracia, nem jogos de poder, nem corrupção.

É o peer to peer, que faz bem para as pessoas porque descolam um dinheiro, faz bem para o planeta controlando o desperdicio, faz bem para a alma porque dá o troco no Estado e nos seus financiadores privados ao mesmo tempo.

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Cuidado com o espelho

Intimidade ou privacidade são palavras muito fora de moda. É de se perguntar porque as pessoas ainda usam roupas para esconder as vergonhas. E vergonha é outra palavra que deveria ser extinta do vocabulário contemporâneo. Assim como compostura e senso do ridículo.

As redes sociais são infalíveis espelhos da natureza do nosso tempo.

No começo vemo-nos refletidos com cautela e recato. E aos poucos, a gente solta a mão, o verbo, a cerimônia. Quando menos percebemos, estamos de cueca na mão, saltando numa banheira de hidromassagem, fazendo pose pra câmera, exibindo-se sem nenhum filtro, com doses cavalares de pretensão. Com o tempo, nossas ambições pueris tornam-se públicas.

E quando vem a ressaca, perguntamo-nos: quem somos? Aquele exibido da suruba pública, que só revelávamos em sonhos, terapias ou confissões?

Em “A noite de Varrenes”, filme do Ettore Scola, Marcello Mastroiani faz Casanova, o velho nobre de tantas conquistas e corações partidos. Em determinada cena, ele adentra um banheiro público com sua monumental nécessaire. Senta-se no vaso e de frente para o espelho, retira a peruca, limpa o rosto e mostra-se. Feio, muito feio: “as pessoas não merecem minha decadência”. Ao segundo suspiro, retoca a maquiagem, penteia a cabeleira e sai, lindo, sedutor, irresistível.

Nas redes sociais, a caricatura oculta é o retrato público.

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Na Internet, não adianta anunciar o que você quer vender

Porque os mapas nos situam e mostram o caminho, eles são um leme existencial. Mapa é uma coisa linda porque seus intricados desenhos transformam o caos em lógica serena. Mas sobretudo, adoramos mapas porque não precisamos mais manuseá-los para a gente se achar. A busca no GPS faz isso por nós.

Antigamente, a gente viajava cheios de mapas que nunca conseguíamos dobrar nos vincos certos.

Antigamente, a gente viajava na Internet na mesma lógica que nos ensinaram. Todos os conteúdos estavam agrupados em enormes portais que classificavam os assuntos em complexos mapas de navegação e menus. A Internet era uma espécie de enorme biblioteca. Impossível se achar nos seus infinitos corredores sem mapa.

Mas tanta organização é incompatível com a natureza da Internet: anárquica, orgânica, complexa, inefável, promíscua e mística.

O GPS da Internet são as ferramentas de busca. Essa obviedade é importante porque mudou ou tem que mudar a forma como fazemos comunicação.

Há tempos atrás, na Internet, quando uma marca queria vender uma coisa, criava um lugar na Internet para essa coisa e um mapa (através de inúmeras formas de fazer propaganda) para que os consumidores chegassem lá.

Mas ninguém quer saber de mapa na Internet. Procura o GPS (mais conhecido como Google).

Portanto, a lógica é outra: se você quer vender uma coisa, não adianta anunciar o que você quer.

Primeiro, descubra o que o consumidor quer de você. Se o que ele quer de você não coincide com o que você quer dele, fisgue-o primeiro pelo que ele quer e depois ofereça o que você quer dele.

Simples assim.

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Vender online não é coisa de nerd

Fato: O e-commerce nos Estados Unidos representa menos de 5% das vendas do comércio. Está crescendo a taxa de roedor, mas a Amazon já tem quase 18 anos de vida.

Fato: 80,6% de todo trafego referenciado do e-commerce, nos Estados Unidos (alguém clicou em um link para chegar em uma loja) se origina no Google enquanto que apenas 9,7% vem do Facebook.

Mais e mais gente está comprando mais e mais coisas na Internet e as lojas físicas muitas vezes não passam de um showroom. Vamos as lojas físicas para ver, tocar, cheirar e compramos online pelo menor preço, não necessariamente na versão online da loja que visitamos.

Porque será que o comércio virtual não ultrapassou ainda o comércio de rua? Excetuando-se a justificativas surradas – falta de posse de computador / acesso à Internet ou falta de confiança nos sistemas de pagamento / segurança / privacidade – talvez exista uma razão que está no DNA da sociedade de consumo: comprar é um prazer sensorial e comprar na Internet é eminentemente um comportamento racional.

Por isso, o Google, uma ferramenta robotizada, é tão importante para referenciar sites de e-commerce. Por isso, o Facebook, um ambiente de relacionamento, tem pífia participação no referenciamento. Quem quer comprar não procura o Facebook, vai para o Google.

Mas isso evidentemente não significa que para que o comércio eletrônico cresça mais rapidamente, o Google precisa ficar mais sexy ou que o Facebook tenha que ser mais (mais ainda?), digamos, feio.

Significa sim que as iniciativas de e-commerce tem que evoluir sensivelmente na experiência de compra, se pretendem substituir o comércio off-line (mais caro, mais arriscado, etc etc).

Comprar na Internet pode ser muito eficiente, rápido, competente, mas raramente é uma experiência que dá tremedeira consumista, aquele reflexo incontrolável que devasta contas de cartão de crédito.

Uma loja de rua investe muito mais energia para permitir que o consumidor interaja com o produto do que com o check-out. Já uma loja de e-commerce parece investir mais energia na operação comercial. Por melhor que seja a iniciativa de tornar a experiência de compra on-line sexy, perto de uma loja física, parece brincadeira de criança.

A tecnologia de manipulação virtual de produtos em exposição está cada vez mais sofisticada assim como as bandas de acesso a Internet não param de crescer. Mas talvez, para além desse aspecto técnico, faltam duas outras prioridades que podem fazer o comércio eletrônico crescer mais rapidamente.

Uma de natureza filosófica não prioriza, nas lojas virtuais, as inúmeras possibilidades de fazer com que a experiência de compra seja sensorial. O que interessa é levar o comprador para o caixa.

Outra prioridade é o gosto. O bom gosto. O mau gosto estético parece ser uma diretriz na grande maioria das lojas virtuais.

Na Medina de Fès, no Marrocos, as lojas se atropelam umas as outras, ofertando praticamente a mesma mercadoria. O que faz uma pessoa comprar as babuchas de seus sonhos em uma loja em detrimento da outra não é o preço ou o tamanho da fila no caixa. É a experiência de entrar numa caverna de Ali-baba, tomar um chá de hortelã com o dono e ser assaltado por uma profusão pornográfica de estímulos sensoriais. Você queria babuchas e acabou comprando tapetes, copos de vidro, móveis marchetados, lustres coloridos e aquele indispensável suporte de tenda berbere.

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Deus fez uma boneca de argila e apertou “on”

On significa ligado. Ou seja, estar on quer dizer estar conectado a um fluxo de energia. Um liquidificador tem botão de on e botão de off e, ligado, essa máquina se move, recebe informação, vive.

O progresso existe para humanizar as máquinas.

Off significa estar desligado. Ou seja, estar off quer dizer estar desconectado, fora de alcance, fora de circuito. Mas inventamos o computador, a internet, o celular e o facebook.

O progresso existe para maquinar-nos.

Tomara que um dia, as máquinas sejam always on. Tomara que um dia a tecla off não tenha a função que Deus lhe deu.

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Prometeu não roubou a Internet do Olimpo

E se voltássemos por um instante à pergunta original: o formidável avanço das comunicação encarnada pela Internet, fez ou faz um mundo melhor?

Se pouco importa a intenção diante do fait accompli, se o mundo ficou pequeno da noite para o dia, não é fútil colocar as tendências em perspectiva, nem que seja para não cair num banal entusiasmo de primeira viagem, nem que seja para não alienar o poder de transformar. O que inventamos, desinventamos ou melhoramos. É só querer. Nenhum Prometeu roubou nenhuma Internet do Olimpo.

Qual o fogo, a Internet é um instrumento. Qual o fogo, aquece e queima. Qual o fogo, ilumina e cega. Qual o fogo, depende do cérebro para ser bom ou ruim.

Antigamente, algo acontecia do outro lado do mundo e depois de meses e incontáveis filtros chegava em outras praias. Quando a comunicação tornou-se instantânea, o tsunami lá longe, bate na nossa bunda no mesmo instante.

Da mesma forma que um medíocre documentário faz soluçar centenas de milhões de ingênuos mundo afora, a sede de vingança no Iraque explode bombas no ocidente. Da mesma forma que todas as notícias do mundo estão a um clique de distância, as fontes de informação preferidas são os 140 caracteres do vizinho.

O homem, afinal de contas, não mudou grande coisa. Só vive mais tempo mas continua não enxergando muito além do seu próprio nariz.

No entanto uma coisa esquecemos: o tempo é o melhor conselheiro.

Se a Internet encurtou o tempo, ela também atrofiou o tino.

Se pudéssemos ao menos nos dar um tempo antes de reagir, talvez fossemos menos escravos de nossos instintos. Se pudéssemos ao menos nos dar um tempo antes de responder, clicar, curtir, espalhar, talvez não responderíamos, clicaríamos, curtiríamos, espalharíamos.

O que é bom pode esperar. O que é ruim pode ser jogado fora. E entre o bom e o ruim, melhor dar tempo ao tino.

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Cada um tem o like que gosta

O debate da moda é a likabilidade.

Muitas linhas já foram derramadas sobre esse tema e o consenso é meio óbvio: o like é o novo viewed, a quantidade de likes corresponde à antiga medida de pages viewed. Portanto a likabilidade é uma medida de atividade, ou se preferirmos uma metáfora ainda mais antiga, é cobertura: um like é um impacto em uma pessoa.

Portanto, like não quer dizer like nem engajamento, nem envolvimento. É só uma confusão típica de quem, ingênua ou maliciosamente, viu na Internet uma revolucionária nova fronteira – para a comunicação ou para ganhar dinheiro. A Internet e o Facebook estão cheios dessas armadilhas: assim como like não é like, fan não é fan.

Mas é bom ter muitos likes, claro que é. É sinal que a página não é um cemitério periférico. Tem fluxo. E como o excesso de métricas atrapalha o raciocínio: no fim do dia, o que se procura mesmo é o beabá dos beabás desde que inventaram a palavra mídia: likes (fans), ou seja, audiência. A “Internet” nos enganou vendendo sua improvável mensurabilidade in extremis.

Então qual seria a métrica ideal? Outras mais complexas são inventadas todos os dias. E assim tiramos do baú mais palavras falsas que convencem para justificar a falta de likes.

Talvez um dia a gente consiga praticar a “engajaganda”, mas certamente não será através do artifício esperto de confundir like com like.

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