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Ninguém segura os babuínos

Quando o ser humano era nômade e vagava desorientado em busca de alimentos pelas terras ermas, o sexo não existia e muito menos a monogamia. O ato sexual, ainda que é provável que já fosse gostoso, era um reflexo aleatório que garantia a perpetuação do rebanho. Quem já viu um grupo de babuíno solto, trepando como respira com quem aparecer na frente, tem uma boa imagem dos hábitos reprodutivos dos nossos ancestrais.

Alguns infelizes resolveram fixar-se à terra, plantar, construir habitações duráveis. Era economicamente mais interessante e principalmente era menos cansativo. A preguiça é uma qualidade atávica da espécie. Não sair do lugar também significava conviver sempre com os mesmos objetos sexuais. A variedade incidental, descompromissada, leve e livre deu lugar a experiências mais comedidas, restritas e monogâmicas. De vez em quando, os babuínos que nos habitam soltavam a franga, mas eram reprimidos.

Depois veio o casamento, o amor, o amor romântico e tudo que já conhecemos, até que a morte, a traição ou o divórcio nos separe.

Hoje é assim: em 10 minutos a gente encontra um parceiro, em 10 a gente se encontra, em 10 a gente trepa e em 10 a gente swipa para outro.

Os babuínos se soltaram dentro de nós.

Cinismos à parte, o que será feito dos relacionamentos em uma selva tão abundante e promíscua?

Pois talvez, talvez, uma coisa será uma coisa, outra coisa será outra coisa. Relacionamento será uma coisa, sexo será outra coisa. Trepar será uma coisa, às vezes em relacionamento, outras sem, e tudo ficará bem.

Enquanto isso não acontece, boom-boom-boom, swipe.

Backup pra quê?

Tempos atrás, perdi todos os meus arquivos digitais. Achei que era o fim e penitenciei-me durante dias, perdi o sono e quando ele voltou, pesadelos destruidores arruinavam meus dias. Eram décadas de diligente registro organizado, evaporados. Um pedaço de mim, grande e vital, estava definitivamente aniquilado. Me senti como uma alma penada vagando à margem da minha história. Desencarnado e sem redenção.

Tempos atrás, uma desafortunada atualização evaporou minha agenda. Chorei. A solidão me precipitou num abismo sem fim, escuro. Entrei em queda livre e o paraquedas não abriu. Senti-me como uma bactéria de uma pulga, tão pequena, tão insignificante, tão inútil que era como se jamais tivesse existido.

Tempos atrás, um espírito danado surrupiou todos os meus e-mails, de uma vez, os respondidos, os arquivados, os que jaziam à espera de resposta. Achei que o mundo ia desabar, que o destino da humanidade seria uma inexorável punição, retrocesso. Tudo ia desandar e nunca mais me ergueria.

Mas o tempo passou. Ele passou e, gozado, mais leve, mais conectado e integrado me encontrei. Para que o apego?

Mas o tempo passou mais ainda. Ele passou e tudo recomeçou. Que selvagem escravidão na qual voluntariamente encarceramo-nos?

A Internet é a nova mandioca

O que seria do homem sem a mandioca, a roda, a foice, a pólvora, sem o macarrão, o tear, a levedura, o liquidificador, a escada rolante, o telégrafo, o dinheiro, o cotonete, o minecraft e o Google? Esnobismo é delas prescindir voluntária e estoicamente como se a Criação fosse vulgarizada pela meia calça, pelo sapato, shampoo, rímel, silicone, rivotril e Facebook e qualquer síntese artificial despertasse os demônios da auto-destruição.

Tudo nem sempre pode piorar. Os efeitos colaterais do progresso nem sempre são tóxicos.

Existe algo mais charmoso e elevado do que o Facebook e o Google, e mais prodigiosamente transformador também: é a chamada economia colaborativa que só a Internet tornou possível. Por detrás do compartilhamento online da ociosidade, da sobra, do descarte e da sucata, existe uma redenção ultraliberal que dribla as estruturas calcificadas do poder, a burocracia paralisante e a selvageria dos oligopólios, cartéis e lobbys que nos oprimem.

Todas as vezes que opera-se, através das centenas de plataformas peer to peer existentes, o milagre da colaboração, sem intermediário nem burocracia, sem certidões nem firma reconhecida, o mundo fica mais leve e o homo e a “mulher sapiens” mais humanos.

Redes sociais da opressão

Não se sabe ao certo se primeiro o ovo ou a galinha, mas seja lá porque a humanidade quis ou porque a fizemos querer, inventaram uma extraordinária plataforma de comunicação, gratuita, universal, simples, sem preconceito, transnacional, simpática, popular, rica e sexy chamada rede social.

Depois de décadas da vilania centralizadora da mídia de massa, depois de séculos de luta de classes, raças, gêneros e gerações, depois de milênios em que a palavra foi usada para controlar, finalmente aparece um alto falante para nossas vozes.

Ali – prometa-se – não haverá censura, não haverá limites, não haverá moralismos aviltantes. Ali – garanta-se – não haverá lei do mais forte, nem do mais lindo, nem do mais rico. Ali – assegura-se – somos nós e nossa identidade. Ou a identidade que queremos, sonhamos, idealizamos. Ali toda brincadeira será permitida, sem consequências, sem patrulhamentos, sem lei até. Ou pouca lei.

Inventaram, para nosso usufruto e gozo a Ágora da livre expressão, a suprema utopia de todos os povos livres.

Mas eis que esta mesma tentadora e poderosa ferramenta vira a casaca. Eis que estamos perigosamente escorregando na casca de banana do gozo supremo, indizível, incontrolável, irresistível também.

Eis que nos expressamos demais, sobre tudo, sobre nada, sobre o que é da nossa conta e principalmente sobre o que não é da nossa conta.

Eis que escancaramos nosso desinteressante umbigo mas principalmente maldizemos com virulência do umbigo alheio.

Eis que toda nossa incontida raiva, ódio, inveja e ganância encontra, nos feeds inodoros de uma rede social qualquer, o esterco para crescer, contaminar, vingar, destruir. Pessoas, histórias, reputações ou sonhos.

Eis que, até sem querer, tomamos a palavra e gastamos o verbo que temos e que não temos. Por nada. Para nada. Para desabafo sem amanhã. Irresponsável. Imoral. Opressor.

E daí?

Daí que a gente começa a calar. A gente começa a parar. A gente sai, se suicida, apaga-se, deixa de frequentar e principalmente de expressar-se.

Daí que as redes sociais cerceiam a liberdade de expressão e o feiticeiro sucumbe ao próprio feitiço.

Esse papo de digital é belo mas estéril

O movimento artístico Zero, fundando por Heinz Mack e Otto Piene, pretendia dar um novo começo à expressão artística, questionando suportes, formatos, temas, experiências. John Cage, estreiou sua peça chamada 4’33 sentado de frente ao piano fechado durante longos 3 minutos e trinta e três segundos, sem produzir um único som e deixando o ambiente e a plateia produzir seu concerto aleatório. O Zero como o minimalismo são desses movimentos fascinantes pelo pensamento e razoavelmente estéreis na produção.

Quando a Internet surgiu para a publicidade, questionava o jeito e trejeitos da propaganda de massa, propunha a boa nova de uma comunicação mais democrática, sem fronteiras, acessível, distribuída em rede, de todos para todos. Ao contrário da comunicação tradicional broadcast, autocrática, concentradora, dominadora, a Internet era a redenção. Esse pensamento original e sedutor rapidamente conquistou porque significava uma desconcentração muito saudável dos meios. Significava também a entrada de uma nova geração de empresas mais tecno-criativas do que as tradicionais agências artístico-criativas. E principalmente, sorrateiramente, significava a pespectiva de redução de investimentos na compra de mídia e recursos criativos e de produção mais baratos.

O pensamento era interessante, a prática não deu muito certo.

Nunca antes na história da comunicação, houve tanta concentração de investimento em poucos – pouquíssimos players. Inclusive e principalmente na Internet. Nunca antes na história da comunicação, teve tanta mediocridade criativa. Sobretudo na Internet. A gente se iludiu com os evangelistas apaixonados.

Seres humanos são tumores emocionais que se nutrem de impulsos primitivos e não de doutrinas e gadgets tecnológicos.

A sensualidade do Buy

Nossa vida de zapping é cheia de compartimentos cada vez mais numerosos e mais diminutos. Precisamos dedicar tempo e energia para todas as nossas mil facetas que temos orgulho de estampar como marcas de superioridade “eu entendo disso e daquilo, falo essa e aquela língua, conheço esse e aquele, vivo aqui e ali”. Essa síndrome do “eu já vi, eu já fiz” e sua frustração “eu não vi, eu não fiz”, é o que parece mover a humanidade. Assim, acumular é um valor social.

Comprar sem sair da cadeira, não enfrentar nenhum perrengue, mal humor, mal atendimento, compra de pânico, risco da falta e da decepção, é um avanço.  Comprar na internet são muitas portas abertas para esse valor supremo. A cada buy dado, estamos preenchendo as gavetas de nosso gabinete e principalmente multiplicando-as incessantemente.

Mas o que aconteceu com a explosão de sentidos dos caravançarás, surgidos do passado dos bazares ou erigidos como templos de consumo? Aquela choque de cheiros, cores, sons e movimentos, a energia sempre mutável, excitante ou serena, frenética ou pausada, o toque, a troca, a negociação. Não há experiência online capaz de substituir esse prazer sensual.

Mas toda renúncia de prazer tem um preço.

Sentir-se enfastiado, preenchido de coisas, informações, dados, dá uma sensação de dia cheio, de vida completa, útil. O mundo emula Dubai: consumo irrigando o deserto.

Comprar, acumular, armazenar esse é o sentido da vida?

Já o prazer virou um botão “buy”. Ao invés de gozar, estamos comprando – freneticamente e sem consciência – prazeres que morrem nas nossas inúteis gavetas existenciais.

A nova economia

Ele queria ir trabalhar de skate, pular da cama na bermuda da véspera, cabelo em desalinho calculado, ainda com eflúvios alucinógenos a lhe incensar a fala. E por falar nisso, valorizariam suas ideias obviamente novas já que ele era jovem, cheio de amigos nas redes e sintonizado com bandas e traquitanas. Ele gostava de champong bem picante, era fã de Stockhausen, de garotas cantantes islandesas, era um flea-market ambulante e discorria sobre acidentes aéreos como ninguém. Por isso tinha passado no teste para ser o bambino prodígio de alguma sucursal emergente da nova, novíssima, flamejante economia.

No primeiro dia, se atrapalhou com o crachá, sentou na baia errada e quase quebrou a perna da chefe meia idade que deu um bigspin involuntário no skate. No segundo dia, já de banho tomado, preencheu planilhas e copiou colou uma apresentação para o outro chefe do sub chefe da sua chefe. No terceiro, participou de sua primeira reunião, numa sala abarrotada com cheiro de café, barra de cereal e gel de cabelo. No quarto, ganhou camiseta, boné e até lápis. No quinto, fez uma vídeo conferencia para preparar uma reunião que irá anteceder o encontro sub-internacional a ser realizado na Nicarágua.

No sábado, perguntou para o pai: Pai, como é trabalhar no Banco?

É só um crachá e nada mais

Nunca podemos menosprezar o ambiente gelatinoso e experimental da Internet. Uma das seduções desse universo, talvez a mais visceral, é a descoberta, a vertigem do novo, a fronteira do status-quo, da convenção, da regra, da monotonia. É essa natureza rebelde, mutável, imprevisível que fascina e vicia porque a Internet é o último reduto dos inconformados.

E quando uma onda fica ou parece muito poderosa, quando desafia a independência e a identidade, quando tenta pasteurizar os comportamentos e nivelar os gostos, quando um movimento, uma plataforma, uma marca levanta o nariz com ares de poder provinciano, quando uma ideia outrora inteligente derrapa na voracidade mercantil, quando uma empresa listada e cheia da grana vai às compras porque não consegue mais atrair boas ideias, é o começo do fim. Da noite para o dia caduca, apesar das mentiras bem contadas pelos crachás catequisados.

Esse déja vu consola.

A Internet finge

É esse mundo sem fronteiras, em que as distâncias derretem, as geográficas, de língua, de idade, de raça, esse mundo imediato em que as relações se estabelecem sem pudores nem vergonhas, esse mundo sem privacidade nem propriedade, esse mundo sem limites, da consagração, da comunhão, é esse mundo que vivemos.

Nessa sociedade wiki, a informação flui e a dúvida derrete, a estranheza dá lugar à simples diferença, a maioria dá o tom da verdade e a mentira perde as calças, nessa sociedade o conhecimento vence o dogma e o ópio, nessa sociedade que fizemos.

Mas por que, então? Por que as velhas mágoas, as velhas disputas, as velhas identidades mortíferas? Por que branco versus não-branco, rico versus sujo, pobre versus parasita? Porque, fingimos.

Este mundo livre, esta sociedade informada e a Internet, não resolveram o tato, o faro, o químico. Só existe relacionamento entre seres de carne se existe troca de energia, de líquidos, bafo, humores, carícias, afagos, aconchegos e tapas, e beijos.

Sem toque, o preconceito persiste.

Redes sociais ou gabinete de curiosidades

Queiramos ou não, relacionamentos são intrincadas teias hierárquicas. Embora seja arriscado etiquetar pessoas em gavetas e vitrines – afinal de contas gente é areia movediça – um pouco de ordem conforta.

Nossos relacionamentos se organizam em redes que, embora se cruzem nos mais complexos ou em ocasiões excepcionais, estabelecem um grau de profundidade da relação assim atribuída pela de maior interação.

Vejamos.

No seu aniversário, por exemplo, existem aqueles que aparecem na sua casa antes de você acordar. Esses dividem cama e escova de dentes.

Depois tem aqueles que combinam de te encontrar para te pegar, dar um beijo, um sorriso e um vale livro.

Descendo um degrau, tem gente que te manda email. Há  tanta intimidade nas frases lapidadas!

Seguindo na hierarquia, alguns telefonam porque a vida é uma loucura mas sentem uma saudade asséptica.

Depois, temos os que mandam mensagem de texto pelo celular com palavras carinhosas e abreviadas.

E lá embaixo, junto com a catraca do trabalho que te manda um parabéns, junto com o cartão da livraria que está tão feliz por você nesse dia, tem a mensagem que calibra sua popularidade.

Lá embaixo, lá no fundo do fundo, onde você coleciona curiosidades e não relacionamentos, tem a mensagem no facebook.

É nesse lá embaixo, lá longe, que as marcas tentam ser amigas das pessoas.

A internet é a reunião de condomínio

Tudo que é novo, vem carregado de paixão e promessas. Se não for, não vinga.

A gente acreditou que a Internet era libertária, que daria  vez aos escondidos, tímidos, periféricos. Daria tanta vez e voz quanto o voto representativo, o orçamento participativo, tanto quanto o a eleição direta do síndico do seu prédio.

Mas o quórum de uma reunião de condomínio costuma ser o mesmo deserto da câmara de deputados numa quinta feira ou o mesma aridez das colaborações de um orçamento transparente.

A gente acreditou na cauda longa e no jornalismo cidadão. A gente acreditou que os pequenos negócios iam florescer e dar oportunidade de emancipação financeira aos oprimidos. A gente acreditou que a manipulação das grandes grifes da imprensa ia ser desmascarada pela atuação massiva do povo.

Tudo que é novo, vem cheio de superlativos. Se não vier, não é novo.

Mas a Internet é o palco de uma extraordinária concentração nunca vista. Tudo ou quase tudo passa por meia dúzia de hubs de distribuição. Meia dúzia de marcas dominam o comércio e meia dúzia de marcas dominam a mídia, por exemplo.

Claro que os relativistas de plantão vão bradar contraexemplos, mas parece que o mundo virtual é uma selvagem cadeia alimentar.

Ainda estamos preocupados com assuntos periféricos – direito autoral, privacidade, soberania, fraudes. Mas enquanto isso, meia dúzia de síndicos – eleitos por nós –  dão as cartas.

Humanidade bonsai

A vida é a deliciosa ilusão de tentar se encontrar indivíduo.

Talvez nosso mais importante discriminante seja a capacidade que temos de formar um gosto e seu corolário, o senso crítico. É o que nos define, identifica, diferencia, individualiza.

A maturidade não é nada mais nada menos do que o desabrochar do senso crítico.

Mas a modernidade é uma corrente contrária: um contra-fluxo poderoso que incentiva a padronização e premia a vulgaridade.

O gosto que formamos, hoje, se dá através da reputação e da fama em detrimento do conhecimento. Quanto mais estrelas um livro tiver, mais recomendável ele se torna. Quanto mais likes uma notícia, mais relevante. Quanto mais views um fato, mais verdadeiro.

Não importa a opinião referenciada. Não importa a fonte. Não importa a prova. Só importa o sufrágio.

O que será de nós quando a grandeza de uma obra literária será atribuída através da quantificação robotizada de pseudo-inteligentes algoritmos? A Amazon, ou melhor dizendo, o robô da Amazon, monopolista e perdulário, será o crítico definitivo, absoluto, inquestionável, universal, plenipotenciário.

É, muita internet infantiliza. Atrofia.

 

Milhares de amigos afora

Quantas vezes você ficou aflito pensando numa resposta que você não deu numa rede social, num email que você não respondeu, num texto que você postou mas pensando bem, talvez tivesse sido melhor esperar? Quantas vezes você teve a sensação de estar perdendo algo porque ficou digitalmente abstêmio por alguns instantes?

Quanto tempo você costuma ficar sem olhar no celular? Quantas tempo em média você fica com quantas pessoas? Quantos toques, olhares, afagos você troca? Quando foi a última vez que você falou de você com sua própria língua para uma pessoa a menos de 10 metros de distancia, olhando nos seus olhos, talvez segurando na sua mão, sem hora marcada? Quantos amigos você adentra?

Compara com a última vez que você mandou um email, gostou de uma foto, postou um comentário ou uma cena real que você viu para fotografar, comentar, cacarejar, milhares de amigos afora?

Na batalha do tempo, quem venceu? E se quanto mais amigos afora você tivesse, menos amigos adentro você curtisse?

Desligar o Facebook não mata ninguém

Sabe aquele seu amigo que sabe de tudo, lê tudo, indica coisas que você nunca suspeitou que existissem? Sabe aquele cara que é sempre o primeiro a dar uma informação, aquele máquina de dados? O cara que posta opinião sobre tudo e todos, com farta exemplificação? Em suma, o sujeito que lê todas as revistas e principalmente aquelas de auto-ajuda empresarial? Você não morre de inveja de suas citações tão apropriadas, de sua memória, de seus “veja bem”, “olha só”, “você não leu na Fast Company”?

De dar complexo de inferioridade.

Mas a revanche é pensar que muitos não passam de  empreendedores de social games, terroristas de apartamento, revolucionários de power points, artistas de mash-up. Replicam com sofreguidão, muitas vezes sem filtro nem senso crítico, o que peneiram por aí.

Quem muito planeja, pouco se arrisca. Tanta erudição é um disfarce para esconder limitações criativas ou só muita insegurança.

Essas pessoas são pródigas e, depois que inventaram a Internet, elas se multiplicaram assustadoramente. A tal ponto, que as vezes, é de se pensar que a facilidade de acesso à informação é um veneno, uma trava, um inibidor de coragem e criatividade.

Menos Internet as vezes é um bom remédio. Mas que difícil.

 

Google e Facebook morte lenta

Quando, finalmente, esganamos ou escravizamos nossos inimigos, o barrigão cresce e a  libido fica preguiçosa.

O Google, como todo monopólio, estão perdendo o viço. É natural: até ganhar louros e dinheiro cansa. Mas a semente da senilidade, nesse caso, é outra e se chama liberalismo insano.

Claro que tudo ainda está muito encoberto por um estrondoso sucesso de público e dinheiro.

Mas já faz algum tempo que o Google deixou de ser uma ferramenta de busca por conteúdo e tornou-se um repertório comercial organizado por relevâncias pagas ou espertas. Já faz algum tempo que o Youtube virou um shopping center de vídeos no mais clássico estilo do cinema de laboratório. O Gmail, a grande arapuca do marketing direto, já afirmou que seu compromisso não era nem nunca foi com privacidade.

Evidente que eles ganham todos os holofotes e todos os dinheiros do mundo.

Só que está ficando fastidioso buscar algo no Google sem ser invadido por uma farta oferta comercial. Páginas e mais páginas de inutilidades antes de encontrar uma informação. Tente procurar, por exemplo, Victor Hugo: vai ter as marcas, os filmes, os restaurantes, as livrarias, os hotéis, as lavanderias e até quitanda online, muito antes de ter alguma coisa realmente interessante sobre o autor da Lenda dos séculos. Não surpreende depois que Debussy seja um teatro, um restaurante, uma empresa de pintura, antes de ser compositor.

E o problema não é a propaganda paga, é justamente a “gratuita”. O SEO está matando a relevância. Melhor procurar logo as velhas marcas do passado, os jornais, as enciclopédias, as obras de referencias, os dicionários. Ou claro, a Wikipedia, esse patrimônio da humanidade.

O Facebook, e suas ejaculações sociais, não passa, nem nunca passou, de uma troca superficial de conteúdos pré-digeridos. Nunca se interessou em ser um arquivo organizado de fatos e histórias, nunca sequer se perguntou para que existia além da óbvia ganância. Então, não vale nem perder muito a pena para decifrar sua missão.

Mas a Internet é rebelde e tem tempo. Todo monopólio é um corpo estranho nesse ambiente anárquico, orgânico e que acalenta os gênios da contravenção ideológica. Ainda bem.

Viralização pela hora da morte

É gozado como as tendências no mundo da propaganda operam em surtos calibrados pelo nível de sofisticação de quem os lança. Ainda tem gente falando de “estratégias de redes sociais” por exemplo, como se fosse o último grito das passarelas ou de “branded content” achando que descobriram a pólvora para economizar na mídia. Mas um termo que vira e mexe contamina os discursos é o bem-aventurado vídeo viral.

É como se existissem regras de “viralização” que quando seguidas garantem o contagio. Mas as regras são desejos insondáveis porque os vídeos mais chatos e mais engraçados, mais caretas e revolucionários, mais inteligentes e mais dementes, mais papai mamãe e mais pornográficos, podem viralizar de forma inesperada.

Mas o que faz dessa tendência uma falácia extraordinária, no entanto, é que a forma como mensura-se o sucesso da pretensa estratégia (quantidade de vezes que o vídeo foi visto, comentado, compartilhado, etc.) não subtrai o investimento feito (muitas vezes às escondidas) em mídia.

Assim desnuda-se a tendência da viralização para descobrir que viralizou porque veiculou (sic). Descobre-se também que o investimento por visualização ou compartilhamento é menos competitivo do que se esperava. Mas tudo bem, a estratégia foi um sopro de modernidade.

O esnobismo às avessas das agências digitais

Quem arrota mais leva a fama, mas o come quieto leva a grana. E se tem uma coisa que é unha e carne com a propaganda é amplificar qualquer mínima ideia. Até a mais prosaica, a mais falsa, a mais inviável delas, vira um case prodigioso.

Mas as agências tradicionais, os mastodontes que encabeçam a lista das maiores entre as maiores, com centenas de formigas diligentes e obedientes, processos e métodos, intrincadas teias políticas e vetusta imagem comem quieto quando se trata de demonstrar sua vitalidade no frisson digital.

Não é muito lógico, logo elas, especialistas em cacarejar, parecem tímidas adolescentes diante das flamejantes agências digitais. Essas, que preferem nomes mais barrocos, tirados de um baú pseudo-intelectual, tomam a mídia e as salas de reunião de assalto com o argumento pirlimpimpim: nós somos o novo.

E toda a arrogância e a pretensão das gigantes é reinterpretada com megalo-nanismo (de nanismo e onanismo) pelas digital-agencies ou outras nem tão digitais mas igualmente off-Madison.

Por quê?

Complexo de inferioridade mau curado? Para disfarçar estruturas em construção? Imaturidade? Ou simplesmente por que está dando certo? Talvez só instinto de sobrevivência.

Mas a verdade oculta é que os dinossauros tiraram o pó e são habitados hoje pelos mesmos milleniums de sneekers volumosos. A verdade é que a entrega e a qualidade da produção “digital” ou integrada das velhacas é a mesma. A verdade é que as mesmas referências, os mesmos congressos e festivais, as mesmas pesquisas, o mesmo slang erudito são os mesmos gadgets nas apresentações dos pesos pesados, pesos médios e pesos pena.

A título de confirmação irônica, chamar uma digital agency de digital agency é uma heresia que ninguém ousa pronunciar.

Quando o dinheiro era pouco, ele migrava para as alternativas. Agora que ele é muito, o jogo é outro.

O que interessa as marcas, as empresas, os anunciantes não é a “novidade” ou a “subversão”. Não é ser grande, médio ou pequeno. O que interessa é a entrega, integrada, pensada, nova, original. O resto é esnobismo às avessas.

Escambo.net

– Meu Deus, os caseiros levaram de novo a batedeira! Vou lá… Bom dia Seu Francisco.
– Salve patrão.
– Por acaso a batedeira lá de cima está aqui?
– Está sim Senhor.
– Sabe, Seu Francisco, eu acho bonito esse jeito do Senhor.
– Qual jeito, patrão?
– Esse jeito “o que é meu é seu, o que é seu é meu”.
– Obrigado, patrão.
– Mas sabe qual é o problema: o Senhor não tem nada, então sempre me dou mau.

O Estado – e o nosso mais do que muitos – é um monstro de muitas cabeças egoistas. O Brasil do século XXI é um país submisso a um poder exacerbado, centralizador e burocrático. Nem o nosso jeitinho tão criativo consegue mais driblar os tentáculos públicos. Eles estão nas leis, nos tributos, nos financiamentos, nos programas sociais, em todas as obras de infraestrutura e interferem na atividade comercial e empreendedora.

O Estado brasileiro é uma colônia de carrapatos.

Isso não significa, é claro, que do outro lado, no privado, existam santos oprimidos. Ninguém é mártir nesse jogo e os vasos são promiscuamente comunicantes.

Para o cidadão comum, só lhe resta duas alternativas: sofrer ou parasitar.

Mas existe uma terceira via. Sem jeitinho nem cambalacho. Sem masoquismo nem paralisia.

Quando uma pessoa vende ou aluga um bem seu para uma outra pessoa – uma casa, uma geladeira, um carro, um passeio de cachorro, uma jardinada – o Estado não existe. Não existe imposto, nem burocracia, nem jogos de poder, nem corrupção.

É o peer to peer, que faz bem para as pessoas porque descolam um dinheiro, faz bem para o planeta controlando o desperdicio, faz bem para a alma porque dá o troco no Estado e nos seus financiadores privados ao mesmo tempo.

Cuidado com o espelho

Intimidade ou privacidade são palavras muito fora de moda. É de se perguntar porque as pessoas ainda usam roupas para esconder as vergonhas. E vergonha é outra palavra que deveria ser extinta do vocabulário contemporâneo. Assim como compostura e senso do ridículo.

As redes sociais são infalíveis espelhos da natureza do nosso tempo.

No começo vemo-nos refletidos com cautela e recato. E aos poucos, a gente solta a mão, o verbo, a cerimônia. Quando menos percebemos, estamos de cueca na mão, saltando numa banheira de hidromassagem, fazendo pose pra câmera, exibindo-se sem nenhum filtro, com doses cavalares de pretensão. Com o tempo, nossas ambições pueris tornam-se públicas.

E quando vem a ressaca, perguntamo-nos: quem somos? Aquele exibido da suruba pública, que só revelávamos em sonhos, terapias ou confissões?

Em “A noite de Varrenes”, filme do Ettore Scola, Marcello Mastroiani faz Casanova, o velho nobre de tantas conquistas e corações partidos. Em determinada cena, ele adentra um banheiro público com sua monumental nécessaire. Senta-se no vaso e de frente para o espelho, retira a peruca, limpa o rosto e mostra-se. Feio, muito feio: “as pessoas não merecem minha decadência”. Ao segundo suspiro, retoca a maquiagem, penteia a cabeleira e sai, lindo, sedutor, irresistível.

Nas redes sociais, a caricatura oculta é o retrato público.

Na Internet, não adianta anunciar o que você quer vender

Porque os mapas nos situam e mostram o caminho, eles são um leme existencial. Mapa é uma coisa linda porque seus intricados desenhos transformam o caos em lógica serena. Mas sobretudo, adoramos mapas porque não precisamos mais manuseá-los para a gente se achar. A busca no GPS faz isso por nós.

Antigamente, a gente viajava cheios de mapas que nunca conseguíamos dobrar nos vincos certos.

Antigamente, a gente viajava na Internet na mesma lógica que nos ensinaram. Todos os conteúdos estavam agrupados em enormes portais que classificavam os assuntos em complexos mapas de navegação e menus. A Internet era uma espécie de enorme biblioteca. Impossível se achar nos seus infinitos corredores sem mapa.

Mas tanta organização é incompatível com a natureza da Internet: anárquica, orgânica, complexa, inefável, promíscua e mística.

O GPS da Internet são as ferramentas de busca. Essa obviedade é importante porque mudou ou tem que mudar a forma como fazemos comunicação.

Há tempos atrás, na Internet, quando uma marca queria vender uma coisa, criava um lugar na Internet para essa coisa e um mapa (através de inúmeras formas de fazer propaganda) para que os consumidores chegassem lá.

Mas ninguém quer saber de mapa na Internet. Procura o GPS (mais conhecido como Google).

Portanto, a lógica é outra: se você quer vender uma coisa, não adianta anunciar o que você quer.

Primeiro, descubra o que o consumidor quer de você. Se o que ele quer de você não coincide com o que você quer dele, fisgue-o primeiro pelo que ele quer e depois ofereça o que você quer dele.

Simples assim.