Archive for the ‘Ex-crianças’ Category

Ai, se!

16/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Ai se,

Quando Germaine pôs o ovo, ela não sentiu aquele alívio matinal. Ela virou-se, dobrou a cabeça de um lado, de outro e caiu de joelhos. O ovo era vermelho.

Matilde tirou a cabeça para fora da toca e farejou o ar, mas o céu estava escuro apesar da hora. Ela pôs as patas no focinho e se assustou.

Se Adélia soubesse o que lhe esperava quando mergulhou, ela não teria saído: a água tinha deixado lugar a uma lama escura. Voltou apressadamente para a borda do lago, muda.

Mesmo insistindo, Marcelinho não conseguia ir para frente. O chão andava e para trás. As árvores, as nuvens, as pedras no caminho, tudo para trás. E sua memória retrocedia também.

E foi parecido também com Valéria, cujo cabelo amanheceu crespo, com Sílvio, que teve suas economias dilapidadas de repente, Maricota, que cresceu vinte centímetros, Abelardo, que saiu voando quando abriu a janela. Noêmia não acordou e Felisberto perdeu o sono; cresceu um pelo no nariz do pequeno Carlos e Clotilde cuspiu chocolate, Gláucia e Luzinete e Deolinda e também Fábio, Graciliano e Olívio gargalharam no enterro das avós, enquanto Fátima, Cristiano e Lucila choraram sem motivo algum.

O souflé cresceu demais e o pudim espatifou, o vento entornou e o rio encolheu, a chuva esquentou e as pedras todas rolaram montanha acima. As formigas brincaram de estátua e os colibris cochilaram, os jacarés gargalhavam no pântano que secara, e todos os cachorros latiam em inglês.

Meu relógio cantou pagode, minha poltrona preferida me engoliu, meus sapatos ficaram pequenos, minha gravata bateu asas e até a geladeira se encheu de sorvete de morango.

O mundo e meu coração soluçam juntos nesse todo dia que, de tão igual, dá saudade de nascer.

Alegria

13/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Todo dia é dia de alegrias. Pequenas, tímidas, particulares. Tem a alegria de acordar. Abrir os olhos, levantar, esticar-se e dar aquele grunhido bem longo. E coçar a planta do pé, esfregar os olhos e bagunçar os cabelos. O cheiro da toalha seca, a água escorrendo, o xixi delicioso, a boca lavada.

Quando Jim Musc despertou, não abriu logo os olhos. Farejou, tateou, arrepiou. Nada estava como antes. Mas o que era o antes? E o que era diferente? Finalmente ele abriu os olhos. Nem forma, nem cor, nem movimento. Só nada em cima, nada embaixo, nada dos lados.

Ele levantou-se quando percebeu que já estava de pé. Então, deitou-se. Mas ele estava deitado. Também. Caminhou, e não saiu do lugar porque nada não tem referência.

Lembrou-se dos outros, mas duvidou se eram, tinham sido ou haverão de ser. E tudo virou uma grande fumaça transparente. O redemoinho de memórias evaporou-se.

Pôs se a pensar, mas o devir desfez-se diante da lógica e o que era não era mais.

E aos poucos, Jim Musc esqueceu-se de Jim Musc. Perdeu-se. Sumiu.

Jim tinha morrido durante o sono. Sem perceber. Sem caretas nem choro. Sem despedidas nem remorsos.

Nem alegrias particulares nunca mais.

Nada como não se ser-se

06/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

De manhã, quando acordava, corria para o espelho do banheiro.

E conversava longamente com seu avô:

- Vô, lembra daquele dia que a gente fazia barragem no riacho atrás de casa? Lembra quando alagou o jardim? Lembra da bronca?

Com a vó:

- Vovó, me leva para colher ervilha no jardim? Quantos ovos você acha que tem hoje? Se eu acertar, você faz bolo cru só pra mim?

Com o tio ele só pensava, não falava:

- Que diabo tem de tão importante em calçar uma meia? Primeiro tem que dobrar de jeito a enfiar a ponta do pé, esticar tudo certinho e ir desdobrando, até ficar que nem pele.

Para o pai, ele queria dizer coisas, e sempre mudava de assunto:

- Vamos de carro? Posso ir na frente? Posso hoje?

E lá dentro, remoia:

- Conta de novo aquela história dos índios? E aquela outra quando você brigava nas festas? De novo, de novo.
Com a mãe, ele sempre queria dizer a mesma coisa, mas ficava com vergonha:

- Te amo, te amo, te amo, te amo, te amo. E que mais? Ué, te amo.

Não faltava assunto. Nunca.

O reflexo do espelho, que não era ele, mas os que eram um tantinho dele. Saudade. E eles que eram o que os outros tinham sido. Saudade. E nós que somos o que outros hão de ser, no espelho, um dia. Que saudade danada!

Elefantes e outros humanos

03/02/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

Para Suda

Nossa história aconteceu num reino distante, num triângulo dourado, confluência de raças e destinos, terra de tráfegos intensos e futuros incertos.

O monarca, que pertencia a uma dinastia obscura e usurpadora, cultivava o excêntrico protocolo de dividir o trono com seus animais de estimação: galinhas ornamentais, najas domesticadas e elefantes sopranos.

Galináceos pela manhã, cobras à tarde e paquidermes à noite. Os dias de Fonte Única de Prazer eram divertidos, barulhentos, emocionantes e grandiosos. Nos entreatos a logística era sofrida, uma vez que najas comem galinhas e só existe uma coisa que tira uma naja do sério: competições entre membros tubulares. O risco era, portanto, da naja se regalar com a penosa e do elefante gabar-se com seu avantajado priapismo trombal.

Nenhum sábio jamais tinha sido capaz de resolver a questão de forma harmônica: A Ira dos Quatro Pontos Cardeais não suportava a idéia de ficar um instante sequer sem o suporte dos animais. Portanto, eram necessários  estoques inesgotáveis, imprevisíveis e caros dos animais.

Um dia, chegou ao reino um ancião que resolveu a charada,
propondo substituir os animais do protocolo. Os ministros entraram em polvorosa com a idéia. Cobriram o velho de ouro e mulheres.

Restava, no entanto, encontrar os tais animais. Tentaram trocar a naja por um gato, mas o bicho era egoísta e entediava Sono da Humanidade. Tentaram urso para o lugar da galinha, mas ele era preguiçoso e dormia demais. Um tigre pelo elefante, mas quem suportava o bafo? A arca inteira desfilou: animais exóticos, polares, temperados e tropicais, aquáticos, aéreos e terrestres, da carochinha, do além e dos infernos.

Outro dia, apareceu naqueles debates outro velho sábio. Embora ele concordasse com a tese inicial, sua proposta foi ainda mais revolucionária: o problema era a frágil galinha e a ciumenta naja. Portanto, a solução era colocar três galinhas ou três najas. Presentearam o gênio com montanhas de Viagras e dentaduras

Novamente, grandes estudos foram entabulados. Qual seria a melhor composição? Galinhas ou najas? O Senhor de Todos os Infinitos Sexos não podia ser envolvido, ocupado que estava com suas ciumentas concubinas, ou com cínicos e fofoqueiros eunucos.

Simularam a operação com um dos muitos sósias de Inigualável, Inimitável e Inclonável Poder do Oriente. Mas o resultado foi desastroso. As fogosas do sexo frágil entraram em cacarejante conflito com os interesses do harém. Já as serpentes, envenenaram os eunucos que se amotinaram.

Finalmente, aportou no reino um secular naturalista, filósofo, e astrônomo. Foi imediatamente assediado com o assunto e inquirido de resolver tão grave problema de Estado.

O homem deu graças às soluções apresentadas
anteriormente, que, por força da lógica, conduziam a uma única possibilidade: três elefantes deveriam suceder-se no trono de Luz da Terra, do Céu, dos Mares e de todos os Zoológicos. Ele saiu do país com incontáveis plásticas, implantes e vitaminas geriátricas.

Os três paquidermes guiaram por décadas o ócio de Bússola do Universo, cantando, pintando, dançando, fazendo tricô, macramê e petits-points com ele.

E quando A Memória do Mundo descansou, os animais choraram pesadas lágrimas de dor e saudade.

Elefantes são seres humanos mais humanos do que todos os humanos.

Coração de legionário

30/01/2009 em Ex-crianças | Deixe um comentário »

ParaJunior

Criado por avós aristocratas, falava línguas, estudara os clássicos e jogava críquete quando os compromissos filantrópicos o deixavam em paz.

Um belo dia, numa festa regada a muita gargalhada e olhares de raios X ele se recolhera ao bar para refrescar-se das dramaturgias sociais. Estava lá um sujeito que, não estivesse completamente afundado no copo, estaria totalmente deslocado da opereta rega-bofe. Sua elegância rude destacava-se da figuração cheia de atitude que pululava em todo canto. O homem era um legionário, daqueles de palavra e pouca fala, reflexo e pouco cálculo, honra e pouca fé.

As pálpebras murchas do lordezinho desabrocharam nesse dia e ele mudou-se para um país africano, numa zona sombria, onde as leis de sangue valem mais que as de papel. Ele virou um matador sem raça, sem credo, sem escrúpulo nem viadagem. Ninguém nunca mais ouviu falar dele, nem ele de mais ninguém.

Legionário não planeja, age: passados muitos anos, ele naufraga de volta na sua terra.

Assim que atracou no primeiro bordel, já saiu degolando um advogado, um cirurgião e um banqueiro. Logo que encalhou no primeiro bar, tratou de supliciar um ministro, um cardeal e um jogador de futebol. Quando amargou a primeira cadeia, estuprou o capelão, o chefe do tráfico e o emissário dos direitos humanos.

E de colunas de “faits divers” para policial, de policial para comportamento, de comportamento para social, de social para política, sua fama ia galgando escalões.

Tornara-se assunto obrigatório em qualquer roda: de pária para assassino, de assassino para psicopata, de psicopata para excêntrico, de excêntrico para visionário.

Há quem não duvide que ele seria agraciado com o Nobel, não tivesse fatalmente desmaiado com a morte da mãe do Bambi.