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Merovíngios, capetíngios e digitalíngios

Apesar de terem reinado por três séculos, os merovíngios ficaram conhecidos, principalmente no final, como reis fracos, semibárbaros, preguiçosos. Como a história oficial é sempre escrita pelos vencedores, era de se esperar que nossos reis não fossem louvados pelos capetíngios (dinastia fundada por Carlos Magno, que inventou a escola, dizem), seus sucessores.

Para azar dos reis merovíngios, os documentos que se têm da época eram escritos em papiro, um suporte muito bom em países secos e péssimo em países temperados ou úmidos. Portanto, não sobrou grande coisa escrita da época.

E, para coroar a deficiência historiográfica, ainda não tinham inventado a tipologia Times New Roman, que foi a fonte utilizada pelos grandes humanistas da Alta Idade Média. Portanto, os parcos documentos que nos restam são muito difíceis de decifrar, enquanto os documentos capetíngios eram majoritariamente escritos em pergaminho (mais durável) e numa fonte que até hoje qualquer um entende.

Em síntese, os merovíngios viraram brutamontes, ineptos e ignorantes.

Imaginemos agora uma distopia digna das traças e pragas que comiam papiro e defecavam a verdadeira história dos merovíngios: e se um vírus terrível entrasse pelos data centers do mundo inteiro e destruísse maliciosamente toda a nossa memória digital? Provavelmente, daqui a mil anos, o século XXI seria conhecido como um período de gente fraca, bárbara e preguiçosa. O século XXI seria um século das trevas, enquanto o XX teria sido o apogeu das civilizações.

Futurologias à parte, muitos estudos demonstram que nosso cérebro é programado para reter localizações espaciais. Segundo Jared Kuhne Horvath (The Digital Delusion) a memória humana não está dissociada, by design, do espaço tridimensional. O livro físico tem localização tridimensional fixa e imutável. Essa localização faz parte do aprendizado. Para quem tem o hábito de ler livros físicos, uma palavra, uma frase ou o que ela significa podem ser reencontrados depois de algumas páginas. Nossa memória também funciona assim. Num suporte digital, no entanto, as palavras, frases ou ideias mudam incessantemente de localização. Nesse tipo de leitura, uma parte essencial da nossa memória é neutralizada. Depois de alguns minutos lendo uma tela — e é fácil comprovar isso pela própria experiência —, a gente se contenta de sobrevoar o texto. O cérebro percebe que ele não consegue ancorar ou memorizar de forma durável as informações. Por isso, ele se contenta em localizar algumas palavras-chave, para ter uma ideia de conjunto.

Quando lemos um livro físico, os olhos se movem por pedaços muito regulares e previsíveis, varrendo a página por segmentos de aproximadamente 9 letras. Se seguirmos o movimento dos olhos de quem lê, veríamos uma sucessão de movimentos horizontais regulares e ritmados, da esquerda para a direita. Se a gente observar a mesma pessoa lendo numa tela, percebemos que após alguns minutos, seu olhar começa a varrer a tela verticalmente de cima a baixo, procurando apenas palavras âncoras.

Infelizmente, ninguém lê adequadamente em uma tela. Ou melhor, lê, mas de forma deficiente, com pouco aprendizado e capacidade de memorização.

Os reis merovíngios sabiam ler e escrever. Carlos Magno não. Você leu meu texto na tela, certo? Mas já esqueceu quem veio antes: capetíngios ou merovíngios?

Viva os livros de carne e osso.

Refletindo com os Grackles

Em Austin, tem um passarinho algazarrento chamado grackle. Ele anda em bandos e é o dono das ruas, dos parques, dos estacionamentos. Observá-lo nos gramados, saltitando nos galhos dos carvalhos-vivos, é um panegírico à liberdade de ir e vir.

Numa palestra sobre a resistência de líderes minoritários à brutalidade ignorante da polícia de fronteira e do ICE em Minneapolis, Austin e Filadélfia, uma senhora pegou o microfone: “Sou venezuelana. Saí do meu país porque não tinha trabalho. Tenho cidadania americana, mas me escondi no banheiro ontem, quando suspeitei de um controle no restaurante mexicano onde comia.” E, visivelmente emocionada, perguntou: “O que posso fazer? Me digam, o que faço?”. Enxuguei duas lágrimas e tive vontade de abraçá-la. Mais tarde, a grande Jane Fonda parafraseou a pequena Greta e, num brado inspirado, disse: “Quando começamos a agir, a esperança está em todos os lugares”. E, para lutar contra a repressão, a injustiça, a selvageria na Tailândia, na China, nos Estados Unidos, em outra sala, alguns palestrantes falavam de resistência encriptada em memes e metadados.

Procurei palestras sobre agentes de inteligência artificial que nos ajudem a lutar contra um mundo cada vez mais fragmentado e cheio de outro tipo de agentes: os da intolerância, da brutalidade e da ignorância. Não me parece que já tenham surgido empreendimentos que não tenham sido otimizados apenas para o engajamento, a velocidade e o lucro, mas também para a verdade, a liberdade e a sabedoria. Parece bem distante o tempo em que acreditávamos na internet como um espaço de redenção da opressão e dos desequilíbrios sistêmicos.

Mas achei muitos gritos de resistência no SXSW. Alguns mais políticos me deliciaram: Stacey Abrams, James Talarico e Kamau Bell; e outros mais filosóficos me confortaram: a inteligência artificial é uma ferramenta fabulosa, mas não irá roubar nosso futuro enquanto formos capazes de cultivar nossa sensibilidade e exercitar o músculo cerebral. Enquanto ainda soubermos interagir com troca de fluidos, valorizar o capricho, o detalhe e o esforço como na linda palestra de Greg Greenberg sobre seu trabalho para a Apple na TBWA\Media Arts Lab, dá para maravilhar-se.

Por vezes, soava apenas ansiolítico e, virada a página, tudo recomeçaria ainda mais distópico.

Mas hoje de manhã acordei muito cedo para voltar para casa. Mais cedo do que precisava. Eu queria correr na praça do Capitólio, sem fone de ouvido. Eu queria ouvir os grackles despertando o céu com seus cantos articulados e estridentes. Parei e deitei-me na grama gelada. Tomei tempo para dialogar com eles.

Enquanto não sucumbirmos ao fácil, ao rápido, à performance vulgar, em detrimento da originalidade, do olhar oblíquo e do charme, ainda há muito o que fazer.

Enquanto resistirmos à tentação dos entorpecentes da inteligência, somos livres.

 

Para além das filas e curadorias

Ao começar este texto, fiquei me perguntando quem iria ler. Ou melhor, se iriam ler.

Depois, pesquisei e dei-me conta de que todo mundo está escrevendo sobre a mesma coisa e de que a maioria dos textos parece ter sido escrita pela mesma pessoa — ou, melhor dizendo, por pessoa nenhuma (se é que me entendem). Finalmente, tive que reconhecer que ninguém lê coisa alguma, que muito pouca gente presta atenção às palestras e que, por isso mesmo, é melhor pedir para alguma inteligência artificial fazer resumos — ou resumos dos resumos.

Então, pensei se valeria a pena escrever alguma coisa. Porque, se ninguém lê o que as pessoas fingem que escrevem sobre palestras que mal veem, então por que eu escreveria?

Quase não escrevi, mas me pareceu que fazer tanto slalom entre hotéis, salões e ballrooms seria injusto com o que me sobra de inteligência natural.

Pois vou destacar só o que não foi abundantemente comentado, ad nauseam.

Descobri, por exemplo, em uma palestra comandada por Philippe Cousteau (o neto do seu maravilhoso avô), que existe uma região do oceano chamada zona crepuscular (ou mesopelágica), fascinante, habitada por seres extraordinários, coloridos e graciosos. Essa região é vital porque esses seres consomem o fitoplâncton que captura o CO₂ da atmosfera. E o santo cocô desses incontáveis animais maravilhosos constitui uma bomba biológica de carbono. O mesmo acontece com os peixes que, à noite, migram para a superfície para se alimentar e, de dia, descem para essa região, onde também fazem um cocô capturador de carbono. É a maior migração animal do planeta. Pois eu não sabia disso e também não sabia que o transporte alucinado das bugigangas que compramos da China está, literal e metaforicamente, espalhando merda — e, portanto, desregulando o clima.

Em outro encontro, três empreendedores, após alguns anos em empresas “normais”, resolveram fazer o que sempre lhes disseram para não fazer. Um deles era o criativo de uma agência. Como as suas melhores campanhas eram reprovadas por medinhos e pré-testes, ele montou sua empresa de bebida, a Liquid Death. Está bombando e ele mesmo aprova o que vai para o ar. Um outro queria fazer o iogurte que o avô dele fazia: “Ah, os americanos não consomem mais esses iogurtes porque engordam, são caros, é isso e é aquilo”, disseram-lhe. Ele fez, e a Siggi’s é uma delícia. Uma outra amava a meleca deliciosa que é esse macarrão extra mole misturado com muito queijo megaengordativo. E por que não criar uma empresa de mac & cheese? Disseram-lhe que estava louca, que a tendência era isso e aquilo, que a Gen Z era isso e aquilo, e toda a ladainha clássica. Está ficando milionária com a Goodles (até o nome é nojento), e a propaganda dela é um monte de Gen Z jogando macarrão um na cara do outro. “Ah, vai ter chuva de posts críticos? Que bom, vai vender mais.”

E, para não me alongar demais — depois volto com mais —, fui ver a maravilhosa Stacey Abrams, que salvou o estado da Georgia de uma vergonhosa roubalheira de votos nas eleições americanas, e Skye Perryman, CEO do movimento Democracy Forward. Elas falaram, claro, de democracia e de como o tempo do diagnóstico já foi, já passou, já era. Todo mundo (a mídia, as redes, nossos feeds) já sabe que os Estados Unidos e o mundo estão à beira de tombar em regimes autocráticos (quando já não estão). A hora é de lutar “com suas próprias armas e não com as dos feitores”. A plataforma 10 Steps (https://10stepscampaign.org/) é a iniciativa que vieram divulgar no SXSW 2026. Mas, para além do que foi dito e debatido na palestra — e que talvez interesse mais a quem acompanha de mais perto a política americana —, o que foi epifânico para mim foi beber da inteligência dessas pessoas excepcionais. Ouvir pessoas que fazem coisas muito importantes, muito mais importantes do que os blablablás fabricados das futuristas e outras Amy Webbs.

Porque, na boa, vir ao SXSW para ver o que vai poluir o feed de todo mundo que você segue é perda de tempo.

O weird de verdade se esconde onde não há fila nem curadoria.

Alhos e bugalhos

Morgana disse ao Arthur: cuidado com as palavras, elas têm poder.

Só quem já teve que criar a vigésima sétima campanha de verão de uma marca de cerveja-que-refresca-do-calor ou o quadragésimo terceiro lançamento de um carro-lindo-e-poderoso, sabe o pânico que a tela em branco dá.

Só quem já teve que escrever o centésimo terceiro briefing de um xampu-para-um-cabelo-lindo, um plano de celular-que-te-liga-com-as-pessoas, um investimento-que-te-dá-mais-do-que-você-tinha-antes, uma coleção de moda-que-vai-te-deixar-na-moda, um-aplicativo-pra-melhorar-sua-vida, sabe o pânico que a tela em branco dá.

De ambos os lados da fronteira, saímos em desespero, no fogo cruzado de informações, no bombardeio de inspirações, metralhados por referências, tentando se entrincheirar para respirar, pensar, ouvir alguma sussurrante musa soprar no ouvido, uma imagem, uma experiência, uma palavra.

Quem sabe, lá no meio da balburdia, uma palavrinha se insinua, tímida e inocente, fresca como a rosa do Pequeno Príncipe que desperta toda amassada, depois de intermináveis preparativos. Quem sabe, ali, no meio do briefing do cliente, no meio do briefing criativo, nas informações, inspirações e referências, tem uma palavra de alento, de conforto, de poder.

E aí você espreme, decanta, distila tudo e acha a palavra que todos os briefings, orais e escritos, invariavelmente entronizam, como a fonte de todos os poderes. A rainha das palavras em cem por cento dos estímulos criativos: ducaralho.

Ducaralho é totalizante, o alfa e o ômega, o yin e o yian, o absoluto e o vazio. Ducaralho é o orvalho da manhã no céu que nos protege de uma insustentável leveza. Ducaralho são 9 letrinhas todas bonitinhas fáceis de dizer ditas por você. Ducaralho é o ser e não ser. O ser e o nada. Principalmente o nada.

Ducaralho são alhos e bugalhos.

Militemos pelo fim do ducaralho e seu estéril superlativo dugrandecaralho.

A Inteligência Artificial vai nos livrar de muito mal

Vamos ser honestos: se as Inteligências Artificiais forem capazes – como parecem ser – de substituir e desmascarar os imbecis, os incompetentes e principalmente, todos aqueles que usam as IA’s para parecer menos imbecil e menos incompetente, por que não ficaríamos felizes?

Platão dizia que Sócrates tinha um medo enorme de que, no dia que eles começassem a escrever, a memória dos humanos acabaria.  Desde aquela época, a tese de que a externalização de nosso cérebro nos tornaria menos inteligentes, existe. É óbvio que não é verdade. O que essas externalizações fazem é acelerar aquilo que nós faríamos de forma mais lenta, ou mais deficiente. Assim como um binóculo nos permite ver aquilo que não podemos ver a olho nu, as Inteligências Artificiais, por enquanto pelo menos, nos permitem acelerar trabalhos que levariam mais tempo. Como não achar isso libertador?

E o medo visceral de que essas ferramentas substituam as ocupações menos qualificadas e que hordas de desempregados vaguem desesperados? Pois, por que não imaginar que é o contrário? Ferramentas como as Inteligências Artificiais são criadas para melhor executar algumas tarefas.  Mas por que investir bilhões de dólares para substituir os menos qualificados? Depois de calar os imbecis e incompetentes, as IA estão mais focadas em substituir aqueles que se outorgam poder e dinheiro por saberem mais. Faz mais sentido substituir médicos, advogados, engenheiros com Inteligência Artificial do que pintores, músicos, carteiros, pedreiros, jardineiros. Ou, corrigindo o tiro, substituir aqueles médicos, advogados e engenheiros que atribuem sua importância àquilo que sabem e não aquilo que criam. Que atribuem seu poder àquilo que aprenderam e não à interação, à compaixão, ao dom de si. Como não ver nisso uma redenção?

Nenhuma inovação é ganha-ganha. Sócrates tinha razão: ninguém sabe recitar as armas e os barões assinalados nem batatinha quando nasce. Perdemos memória, mas ganhamos diversidade, agilidade, universalidade. Ninguém mais vai saber a idade, o telefone, o aniversário, o nome e a genealogia de ninguém. Ninguém mais vai tremer com um diagnóstico, se descabelar com um data-vênia, se acidentar por um erro de cálculo. Não é nem bom nem ruim. Assim será.

Mas quem sabe também, talvez, quando a gente se libertar dos imbecis aparentes e disfarçados, todo mundo vire artista ou jardineiro e a gente salve a humanidade e o planeta. Se der tempo.

Dar opinião é diferente ter opinião

Já reparou que quanto mais tentamos entender um assunto, mais perdidos ficamos? Quanto mais aprofundamos, mais boiamos? Então por isso, melhor desistir de qualquer complexidade e abandonar-se à tentação do scroll histérico, da opinião ejaculada e da postagem precoce?

Se a opinião não tivesse importância, se aquilo que falamos e postamos fosse apenas um reflexo involuntário, como respirar ou coçar, nenhum mal faríamos em distribuir, sem filtro, ideias ao vento. Mas ninguém é uma ilha. Todo mundo é influencer de alguém.

Mas será realmente importante dar opinião? Será que precisamos tomar partido e posição sobre tudo? Por quê? Pra ser o primeiro da classe, da turma, do grupo a vomitar, qual telefone sem fio, uma imprecação categórica? Uma informação que circulou, editada em cada nó de retransmissão, sem fonte, sem contexto? Uma opinião adjetivada, numa língua frágil, imprecisa, mas radical?

A viagem pode ser tão mais gostosa que a chegada. A descoberta é tão mais legal. E tudo bem não chegar ao fundo. Tudo bem perder-se nos meandros infindáveis do pensamento complexo, tudo bem não saber quem tem razão – o que é ter razão? – na guerra da Ucrânia, na guerra da Palestina, na guerra no Cazaquistão no Alto Carabaque.

E principalmente, tudo bem recolher-se para pensar, meditar, rezar ao invés de postar como se faz cocô, opiniões fisiológicas.

A travessia do deserto

Tive o privilégio de visitar, há duas semanas, uma aldeia do povo Kamaiurá, no Alto Xingu e assistir a um Kwarup, a convite do Cacique Kotok Kamaiurá.

Para boa parte dos brasileiros, a frase acima inspira enigmas exóticos, entusiasmos lisérgicos ou interrogações jocosas. Não é a intenção desse texto desvendar, incentivar ou bater boca. Mas a experiência me fez refletir para além dos clichés circunstanciais e dos frissons indigenistas que percorrem a Sociedade de Privilégios, a minha. Arrependidos da indiferença ancestral, tanto os neófitos quanto os engajados, colocaram a causa dos povos indígenas no centro de seus interesses e debates. E pouco importa se é para turismo de aldeia, experiências mágicas ou fazer um décor levemente étnico em casa, a pauta arrepia muitas conversas.

Mas o que não dá pra negar porque é visível, respirável e triste, quando se faz a travessia terrestre, de Goiânia até Gaúcha do Norte e de Gaúcha do Norte até uma aldeia do Alto Xingu, é que falhamos miseravelmente. Falhamos miseravelmente – ainda que se tenha tentado – para encontrar meios de garantir o futuro da humanidade que não passe pela exploração desalmada dos recursos naturais. Entre Goiânia e Gaúcha (15 horas de estrada), criamos um deserto (e já são tantos outros Brasil afora). Não tem passarinho, não tem inseto, não tem gente. Nos arrabaldes do horizonte bem-pensante da Grande Pinheiros, arrepiada com a causa indígena, tem um deserto, enorme, quente, feio e que, incontrolável, espalha suas ramas.

O que não dá pra negar, porque é visível, respirável e alegre, quando se faz a travessia, é que lá, na aldeia, as cores vibram, a vida é solta e o sorriso orgulhoso. Lá, na aldeia Kamaiurá do Alto Xingu a gente conseguiu – ainda que se tenha tentado impedir – conservar beleza, riqueza e origem. Quanto à bem pensante Grande Pinheiros, ao exibir braceletes de miçangas e tomar florais amazônicos, ela está por fim aderindo a uma onda maior, irreversível, mundial. Pouco importa se é modismo, oportunismo, culpa reprimida ou reflexiva convicção e pouco importa como se manifesta: se para preservar as culturas tradicionais ou encontrar saídas criativas para os desertos que pululam.

O que interessa é que ela existe, é forte, é legítima, é nossa. O que interessa é que tem a força de reverter.

Ainda dá tempo de atravessar o deserto sem morrer de desesperança.

Eu sou nem-nem

O que é uma crise? É um demi-monde entre aquele que está morrendo e aquele que ainda não nasceu. É a resistência disfarçada do mundo putrefato lutando contra a arrogância do que ainda não saiu das fraldas.

O sistema capitalista, que norteia a prosperidade por meio do consumo, esconde os abusos sem volta com retóricas bem-pensantes e outras ESGs. Um marketing de boas intenções para ocultar a extraordinária produção de sucata material e cultural que nos encobre. Mas, no fundo, o que se quer é mais e mais descarte. O sistema – e seus discursos cheios de propósitos factícios – alimenta a ilusão de que está indo em uma direção sustentável, mas isso não passa de uma exploração sem dó da culpa que temos de envenenar o planeta e as mentes. É tanta palestra, tanta reunião e tanta pauta fofa e cheia de boas intenções que é de se desconfiar que algo está muito podre, nem que seja só pela falta absoluta de contraditório.

Talvez haja um consolo para essa deriva, ainda que hipócrita: o outro mundo, aquele que está para nascer, excela em mediocridade, falta de argumentos e clara ignorância. Em um desfile de estudos de casos cheios de páthos e visivelmente manipulados para abalar, o ativismo das novas fronteiras não consegue desenvolver as teses de forma prática, simplesmente porque também não sabe como realizar o que é defendido. Então, a histeria lacrimosa, a chantagem de baixo calão e o cancelamento covarde são armas fáceis.

Mas a verdade é que estamos no demi-monde, repleto de fantasmas e monstros primitivos: os fantasmas do que já era e os monstros do que não é. Talvez a solução à crise não seja enfrentar as entidades, mas, sim, bailar com elas. Talvez seja mais inteligente – ou prático, ou mentalmente saudável – o diálogo sereno, uma tolerância que aceita a complexidade sem tomada de posição. Talvez o nem-nem seja mais pacífico e rume para um futuro que, por uma vez, não admita mais as dialéticas mortíferas.

Tempos de cólera

Como em todas as grandes gestações, em qualquer campo de atuação humana, elas convivem em igualdade de força, atuação e principalmente perspectiva. Na esfera dos costumes, enquanto uma ordem plena das individualidades é defendida por um grupo, de outro lado, uma horda clama pela defesa de regras mais conservadoras. No campo das ideologias econômicas, políticas mais estatizantes eletrizam os debates contra aqueles, mais liberais, a favor do mercado. Tem gente que levanta as armas pelo consumo de proteína animal com a mesma força daqueles que defendem o direito animal. Em todos os casos, há argumentos que merecem atenção e conversa.

Mas vivemos em tempos de radicalismos à flor da pele, sem gosto pela complexidade. É mais fácil tomar partido, levantar bandeiras, bradar palavras de ordem e clichês nas redes anônimas ou nas privadas. Afinal de contas, parece preferível ser aprovado por poucos do que ouvir muitos.

Enormes interesses defendem um mundo fragmentado, cheio de grupos microscópicos, de comunidades provincianas, que se bastam e ignoram as demais. Quanto mais fragmentadas forem, mais isoladas, e principalmente mais influenciáveis e manipuláveis serão. Esses grupelhos têm seus códigos e seus dogmas. Esses clãs desenvolvem razões para justificar o cimento comunitário. Essas cavernas se defendem das outras com armas e dentes. Grupos, grupelhos, clãs, cavernas. Gangues.

E estranhamente, nunca se falou tanto em diversidade.

Existe uma tendência a fazer uma amálgama entre diversidade e divisão. Assim, defender a diversidade significaria enaltecer diferenças e particularidades. Diversidade seria uma espécie de afirmação de identidades – sempre legítima – mas que coabita tantas vezes com radicalismos e intolerâncias. Mas é entender de forma rápida as duas palavras.

Divisão tem como significado etimológico “separar para conhecer” (di – separar, videre – conhecer). Separar para conhecer. Dividir os sexos, os gêneros, as raças, as crenças, é reconhecer identidades e reconhecer identidades é acolher.

Já diversidade, por razões variadas foi uma palavra apropriada para qualificar principalmente o acolhimento de sexos, gêneros e raças. Mas podemos também entender que defender a diversidade pode representar outras lutas por representatividade e igualdade. A das crenças, ideologias e opiniões, por exemplo.

É outra definição, mais complexa, humanista, universalista, cosmopolita, profundamente democrática. O respeito à diversidade, assim, passa a ser sinônimo de tolerância e escuta. É dar passos em direção aos outros, sem esperar retribuição. É acolher o outro que é diferente, pensa diferente ou age diferente. É, também, não confundir debate de opinião com processo de opinião.

Defender a diversidade talvez não seja exigir respeito às minhas diferenças, mas respeitar as do próximo.

Somos musaranhos etruscos

O musaranho etrusco tem uma pelagem marrom acinzentada, um focinho pontudo, olhinhos inteligentes e apesar do tamanho, ele não tem nenhuma dúvida de que pertence à mesma classe de animais que uma vaca ou um rinoceronte. O musaranho, embora desconhecido, não é um animal em extinção. Ele acredita que sua sobrevivência está garantida por sua incrível capacidade de assustar os predadores: se ameaçado ele levanta-se nas patas traseiras e abre os braços para o alto com agressividade. Tudo isso do alto de seus 3 centímetros de altura.

Já achamos que um post poderia destruir a reputação de uma marca e que uma mensagem nas redes poderia derrubar um tirano. Acreditamos que do alto dos nossos centímetros de influência seríamos capazes de amedrontar os predadores.

Ainda seremos destemidos musaranhos enquanto os interceptadores de nossa liberdade de expressão e ação forem regulados e controlados por poderes públicos democráticos. Ainda seremos etruscos destemidos enquanto não trocarmos o senso crítico por alguns seguidores venais. Enquanto o mais frágil dos mamíferos, o humano, defender sua liberdade acima de tudo, ele terá forças para assustar o maior dos predadores.

A gente é tudo Cuiabá

No centro de Cuiabá, tem uma linha de trem abandonada. Todo mundo conhece essa história: projeto faraônico para enriquecer poucos safados às custas da credulidade da população.

A cadeia e a vaidosa frieza dos juízes não inibe ninguém. A falsidade de uma certa elite não é páreo para essas pantomimas televisivas. Colocam atrás das grades os mais vistosos, os mais burros ou azarados.

Quanto aos larápios que se safam, esses que desfilam suas indignações nas redes sociais, eles continuam indiferentes às veleidades moralistas.

Sabe quando você está parado, e pela janela, vê outro avião, manobrando para decolar? A sensação é de que o seu também está saindo, mas na verdade, não saiu do lugar. Ainda não é a sua vez. Quando a gente olha uma parte do mundo desenvolvido pela janelinha, é como se mal tivéssemos saído do lugar há décadas.

Apesar da miragem do Brasil decolando, fomos com muita sede ao pote. Apesar do chamego político-judiciário, perdemos o slot de decolagem e fomos para o final da fila.

Não há bolsa-família nem lava a jato capaz de resistir à nossa hipocrisia gingada.

Porque, apesar das demonstrações folclóricas de verde amarelo, lá e cá, ainda fazem a lei nos garimpos ou transformam o lindo cerrado num transgênico deserto verde.

Cuiabá é o Brasil.

Vida esfarelada

Se o mundo está se esfacelando para todos os lados, acentuando separatismos e identidades, e radicalizando visões com simplismo, não é a toa. Nossa vida – já esfarelada – alimenta a britadeira global.

A visão do todo, da história e da evolução, escapam das nossas mãos à medida em que nos auto-bombardeamos de estímulos, informações e distrações.

O foco, biruta, metralha para todos os lados. E o tempo, perdido, esvai-se em sinuosos e hyperlinkados linhas do tempo. A apreciação dos conteúdos é naturalmente superficial, e não é possível escapar, numa exposição ou num cardápio, à necessária bula explicativa.

Nas relações humanas, o mesmo: encontros, envolvimentos e afeições fugazes. Também pudera, quem tem tempo e saco?

Mas parece irreversível. A febre da fragmentação é extraordinariamente rentável e contagiante. Uma indústria que perpetua o consumismo compensatório e a solidão narcisista.

É o fim do luxo.

Do luxo de banhar-se numa longa e intricada história, do luxo de envolver-se com conversas que são como picadas na floresta, do luxo de se jogar no sofá, um domingo à tarde, só para curtir Proust, uma integral das sonatas de Beethoven, um abraço apertado até a noite cair.

Crise de quê?

Existem muitas teorias sobre a crise menos porque saber as causas ajuda a tratar, mas principalmente porque ajuda a suportar as consequências.

Mas a psicologia das causas são um objeto de estudo divertido.

Politização das causas públicas, corrupção, paternalismo do Estado, falta de infraestrutura, de educação, blablabla. Todas elas, sem exceção, terceirizam a responsabilidade, porque também faz parte daquele mesma dinâmica: encontrar um álibi intelectual para sofrer menos e se for a culpa dos outros, melhor.

Todas elas também são causas opacas, complexas e em cuja relatividade reside uma espécie de mística para manter afastada das discussões a grande massa ignara.

Mas esqueceram uma: a crise, esta crise, também é uma crise de fé.

“Não tem jeito. O Brasil não tem. Isso não vai funcionar aqui. Aqui é diferente, nem adianta tentar.”

Essa mesma gente que se empoleira atrás das causas arcanas, suportadas por números transcendentais, é a mesma gente que nunca teve um pingo de fé. Fez de conta que acreditava mas no fundo, não queria porque acreditar significa abalar privilégios.

Mas tem gente que ainda acredita. Muita gente acredita até porque tem pouca alternativa.

E como antes, é essa gente que não tem opção senão acreditar que vai fazer a gente sair da crise. Com ou sem políticos dinamarqueses, com ou sem infraestrutura alemã, com ou sem educação coreana.

O time-sheet e a qualidade

Como é difícil e principalmente demorado dar a luz a qualquer realização humana digna.

Das singelas linhas de um cartão postal a uma correspondência formal, de um instantâneo que capta a essência de um olhar a um mural evocativo de fantasmagórica cena, de um castelo de areia a um de açúcar ou pedra, de uma canção monódica a uma construção polifônica, do mais singelo haiku às Mil e Uma Noites, de um título de oito palavras a uma saga cinematográfica de oito horas, a qualidade é dependente e tributária do tempo, da maturação, do descanso de que a obra precisa para exprimir-se e da indispensável contemplação do autor.

Mas este mundo atribulado e nosso sistema histérico transformam uma sensação abstrata – o tempo – em unidade real. Essa compressão, artificial, pasteurizada, matemática e enlatada sequestrou, em sua contagem opressora, o valor das coisas e das pessoas.

Assim, a qualidade vira sinônimo de pressa e o trabalho de frações cronológicas. Fazer no prazo é mais importante do que bem fazer.

Não extraímos mais o melhor mas o que de melhor foi permitido. Aos poucos – e mesmo nas mais elevadas manifestações artísticas – insidiosamente, a mediocridade infiltra-se e transcende. Aos poucos – e antes nas atividades comerciais – embrutecem-se as mentes.

Devolvam-nos o tempo perdido nas contabilidades vulgares. Devolvam-nos o tempo perdido!

Mais Um, Baêa por Gustavo Soares

https://www.youtube.com/watch?v=RnzDAPcYzmE

Viram esse vídeo?
Os alemães se concentram numa cidadezinha da Bahia, Santa Cruz de Cabrália.
Por não terem sentido muita firmeza no governo brasileiro anos atrás, decidiram construir eles mesmos seu centro de treinamento.
Arrogância? Preconceito? Não, pragmatismo. Os caras não quiseram aborrecimento, pouparam a gente de mais um vexame.

Mas esse não é o ponto.
O ponto é a cidade que escolheram, Cabrália. É pertinho de Porto Seguro, e foi onde os portugas estacionaram as primeiras caravelas em 1500.
Eu já estive lá, fotografando no local exato onde fincaram a primeira cruz, diante de índios festeiros, que se fantasiaram e se paramentaram para impressionar aqueles visitantes esquisitos, e de índias loucas para dar para aqueles homens barbudos e fedorentos. Sem entender patavina, índios e índias se ajoelharam imitando os portugueses e aceitaram rezar junto, mesmo sem conhecer o deus em questão. Me parece auspicioso ver os alemães cantando o hino do Baêa nesse mesmo solo, 2014 anos depois.

Há alguns anos eu fiz um livro sobre a presença germânica no Brasil, e nas minhas pesquisas ficou mais que evidente o quanto alemães amam o Brasil, ainda que as razões nunca tenham ficado aparentes nem mesmo para eles. São inúmeros os exemplos: o navegador chefe da expedição de Cabral era alemão. Brasil, que era o nome da madeira, pode ter vindo do vocábulo alemão “brazen”, que quer dizer brasa, fogo, vermelho. E o único lugar no mundo onde o Fusca teve nome oficial foi aqui – no resto do mundo era só VW – e o nome nasceu porque os brazucas ouviam os alemães dizendo Volks com sotaque (algo como fuLcas).

Os alemães do vídeo são dois dos principais jogadores de um dos melhores times do planeta. E parecem dois turistas em pleno Carnaval, pulando com os locais numa rua sem asfalto em frente a uma birosca. Isso é Brasil, purinho. É atrás disso que o mundo vem: de ser convidado pelos nativos a pular e cantar algo incompreensível, nesse país louco, fascinante e estranho, que já tem 2014 anos e continua na fantasia de todo estrangeiro. Na capa da Folha de hoje tem outros dois jogadores, holandeses, se jogando no mar de Ipanema durante um treinamento. É dessa liberdade para fazer bagunça e sermos todos inconsequentes é que os gringos vieram atrás. Porque aqui eles podem desobedecer um pouco as regras de lá. Não precisam de um telão com a letra do hino do Bahia pra cantar junto. Até porque a letra não diz muito mesmo: “Mais um Bahia. Mais um título de glória. Mais um, mais um Bahia. É assim que se resume a tua história”.

Nós, os índios hipsters, nos ressentimos de sentir vontade de ajoelhar e rezar junto com os gringos. Rejeitamos as cantorias e as fantasias. Não queremos ser índios, mas somos, só que em vez da cruz ajoelhamos para os trens-bala japoneses, para os aeroportos reluzentes dos americanos, para o padrão Fifa das calçadas e metrôs em que vive a Europa.

A Copa não pode servir como a expurgação das frustrações com a nossa letargia, com a nossa tendência para a procrastinação, com a nossa incapacidade de lembrar que políticos eleitos são um espelho que nos reflete como sociedade. A Copa é um evento de 30 dias que deve ser de festa, não de imolação pública. Sob pena de perdermos essa identidade que é tão-somente nossa. Temos é que aproveitar para fazermos as pazes com essa identidade. O jeito brasileiro, mesmo que seja o jeitinho, que é nosso maior apelo, nosso trunfo.

Vai ter Copa sim. Só que a se continuar o conflito psicanalítico sobre a nossa incompetência, a Copa vai ser dos alemães, holandeses e todos os outros estrangeiros que estão aqui para aproveitar a vida. Abrir mão da alegria, da festa, não vai nos tornar melhores. Ainda menos nos próximos 30 e poucos dias.

Gustavo Soares

Big Data

Se toda história da humanidade é um processo de evolução incessante, se Darwin só pariu sua teoria porque conhecia Lamarck, Beethoven não foi  Beethoven sem Haydn e o último prêmio Nobel da medicina não passa de uma gota no mar, se Criação só existe uma, a primeira, do big-bang, de Adão amolengado pelo Criador, se tudo o que fazemos são veleidades de primazia, se a capacidade inventiva do homem é relativa e proporcional à suas referências, mas também, se nosso cérebro não funcionasse por amostragem, seleção e esquecimento, se fossemos capazes de tudo conhecer e tudo processar, se não nos contentássemos apenas com a opinião do nossos próximos, dos nossos pesquisados, mesmo muito misturados, se a norma fosse o erro e o erro o acerto, se não estivesse provado que a grande maioria dos saltos qualitativos operam na margem de erro, no desvio padrão, se a gente tivesse a humildade para se sentir parte ínfima mas fundamental, então talvez assim, talvez enfim, a gente acreditasse que em tudo existe Lógica. Big Data, amém.

Síndrome de mozartismo

“Ele nasceu para isso! Pequeninho já brincava de escrever e desenhar. Quantas vezes não chegava correndo na sala mostrando para as visitas as propagandas que ele tinha feito? Dava gosto. Não espanta que ele se deu bem na vida. Veio com o dom.”

Por menos que se acredite na predestinação, ainda reverenciamos a genialidade de direito divino. Como se nascêssemos dotados de pré-talentos que desabrocham no curso da vida, por uma centelha mística, em realização e reconhecimento. A educação que recebemos existe para criar uma espécie de terroir fértil para que ecloda a genialidade natural. É o dom que se aplaude.

A gente passa a vida tentando achar nosso grão de Mozart.

E ninguém nunca falou do suor do pequeno Woolfie, ninguém nunca se interessou pelo sangue escorrendo dos seus dedinhos sobre os teclados. Ninguém nunca quis saber da sua teimosia, obstinação, obsessão.

A gente gosta mesmo é da mágica e enquanto ela não vem, que tal empurrar a vida para o fim?

Experimentar é tão mais fácil do que perseverar!

Põe a mão na sapucaia

No ano que não acaba nunca de não começar não deixaria de faltar causo da mulher do piolho.

Ela mandou dizer que já deu aquela coceira de aprontar quizomba. Coceira de cutucar bem curtinho. Coceira de acabar com a pasmaceira e tocar fogo na capoeira.

Bom de começar fazendo pergunta besta. Por que tem que ser assim? Por que tem que fazer de conta? Por que não pode perguntar por quê?

Bom de já ir dizendo não, não e não. Não quando a gente engasga com o sim, não à continência, não ao quase.

Bom de já ir dizendo sim, por que não? Quando dá coceira de certeza, sim à incontinência e sim quando é porreiro.

E se não girar a carapeta, vem mais um ano que passa sem nem doer nadinha. Mais um ano que se foi.

A mulher do piolho mandou dizer que ano incólume não volta nunca mais.

Obrigado pastor

Numa mega-igreja de Ohio, onde 4 mil ovelhas se encontram cada domingo para um show de fé, alguns aproveitam para fazer uma pós-graduação religiosa oferecida pela corporação evangélica. O temente a Deus pode escolher diplomar-se em “oração aos nossos soldados em guerra contra os inimigos do povo americano” ou “a cura do homossexualismo”, por exemplo.

Entre doações para a construção de um estúdio de gravação ou para sustentar os missionários evangelizadores de povos atrasados, a pequena burguesia caipira do cinturão da bíblia americano – aquela mesma que elege os grandes guerreiros do império e que acalenta legionários domésticos para combater a tirania – luta contra a culpa cristã.

Não poderia ter sido mais caricato do atoleiro institucional e cultural em que nos encontramos, do que eleger como presidente um pastor homofóbico e racista convicto para a Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara.

Vivemos momentos turbulentos. Quando conchavos políticos sinistros contrariam o bom-senso civilizatório mais elementar e quando as instituições que nos representam fazem vista grossa, é um déja-vu na história dos povos: prelúdio de trevas.

Mas o pastor insignificante e irrelevante talvez esteja fazendo-nos um favor. Quem sabe, graças a ele, não abra-se o debate sobre questões importantes da sociedade como o preconceito em todas as suas formas.

Ou questões ainda maiores, como esse poder oculto, insidioso, perverso, organizado por uma espécie de ressurgimento religioso em todos os lados do espectro da fé: do papa dos pobres careta ao ambicioso pastor.

Aprender a escrever é falcultativo

Milhares de americanos já morreram porque se enganaram lendo a receita do médico. Ao invés de mandar todos os médicos para um supletivo do Mobral, 45 estados americanos decidiram que o estudo da caligrafia será opcional nas escolas a partir do ano que vem. Opcional como o estudo do grego, a prática da esgrima, o tricô.

Seja por causa dos médicos preguiçosos, seja porque escrever à mão dá uma trabalheira danada, o fato é verídico.

Difícil julgar se a medida é boa ou ruim, mas a sensação de acentuada dependência de próteses tecnológicas aumenta ainda mais. Como se estivéssemos transferindo nossas fraquezas para soluções externas a nós, ao invés de procurar resolvê-las com o que temos. Como se estivéssemos paulatinamente atrofiando a suprema qualidade que tivemos, como animais em evolução, de, precisamente, evoluir. Como se a tecnologia fosse um remédio para o cansaço. Um entorpecente do drama da existência.

Não andamos mais, não caçamos mais, não colhemos mais, falamos cada vez menos e, em breve, não escrevermos mais.

Quem não experimentou o torpor físico depois de uma caminhada, o fôlego desatado de uma perseguição na floresta, o frio na barriga de trepar na árvore para catar jabuticaba, quem nunca rabiscou, rasurou, amassou, rasgou uma carta, duas cartas, três cartas de amor, mil cartas de amor comeu a vida e nem mastigou.