Apesar de terem reinado por três séculos, os merovíngios ficaram conhecidos, principalmente no final, como reis fracos, semibárbaros, preguiçosos. Como a história oficial é sempre escrita pelos vencedores, era de se esperar que nossos reis não fossem louvados pelos capetíngios (dinastia fundada por Carlos Magno, que inventou a escola, dizem), seus sucessores.
Para azar dos reis merovíngios, os documentos que se têm da época eram escritos em papiro, um suporte muito bom em países secos e péssimo em países temperados ou úmidos. Portanto, não sobrou grande coisa escrita da época.
E, para coroar a deficiência historiográfica, ainda não tinham inventado a tipologia Times New Roman, que foi a fonte utilizada pelos grandes humanistas da Alta Idade Média. Portanto, os parcos documentos que nos restam são muito difíceis de decifrar, enquanto os documentos capetíngios eram majoritariamente escritos em pergaminho (mais durável) e numa fonte que até hoje qualquer um entende.
Em síntese, os merovíngios viraram brutamontes, ineptos e ignorantes.
Imaginemos agora uma distopia digna das traças e pragas que comiam papiro e defecavam a verdadeira história dos merovíngios: e se um vírus terrível entrasse pelos data centers do mundo inteiro e destruísse maliciosamente toda a nossa memória digital? Provavelmente, daqui a mil anos, o século XXI seria conhecido como um período de gente fraca, bárbara e preguiçosa. O século XXI seria um século das trevas, enquanto o XX teria sido o apogeu das civilizações.
Futurologias à parte, muitos estudos demonstram que nosso cérebro é programado para reter localizações espaciais. Segundo Jared Kuhne Horvath (The Digital Delusion) a memória humana não está dissociada, by design, do espaço tridimensional. O livro físico tem localização tridimensional fixa e imutável. Essa localização faz parte do aprendizado. Para quem tem o hábito de ler livros físicos, uma palavra, uma frase ou o que ela significa podem ser reencontrados depois de algumas páginas. Nossa memória também funciona assim. Num suporte digital, no entanto, as palavras, frases ou ideias mudam incessantemente de localização. Nesse tipo de leitura, uma parte essencial da nossa memória é neutralizada. Depois de alguns minutos lendo uma tela — e é fácil comprovar isso pela própria experiência —, a gente se contenta de sobrevoar o texto. O cérebro percebe que ele não consegue ancorar ou memorizar de forma durável as informações. Por isso, ele se contenta em localizar algumas palavras-chave, para ter uma ideia de conjunto.
Quando lemos um livro físico, os olhos se movem por pedaços muito regulares e previsíveis, varrendo a página por segmentos de aproximadamente 9 letras. Se seguirmos o movimento dos olhos de quem lê, veríamos uma sucessão de movimentos horizontais regulares e ritmados, da esquerda para a direita. Se a gente observar a mesma pessoa lendo numa tela, percebemos que após alguns minutos, seu olhar começa a varrer a tela verticalmente de cima a baixo, procurando apenas palavras âncoras.
Infelizmente, ninguém lê adequadamente em uma tela. Ou melhor, lê, mas de forma deficiente, com pouco aprendizado e capacidade de memorização.
Os reis merovíngios sabiam ler e escrever. Carlos Magno não. Você leu meu texto na tela, certo? Mas já esqueceu quem veio antes: capetíngios ou merovíngios?
Viva os livros de carne e osso.