Category Archives: Sei lá

Mais Um, Baêa por Gustavo Soares

https://www.youtube.com/watch?v=RnzDAPcYzmE

Viram esse vídeo?
Os alemães se concentram numa cidadezinha da Bahia, Santa Cruz de Cabrália.
Por não terem sentido muita firmeza no governo brasileiro anos atrás, decidiram construir eles mesmos seu centro de treinamento.
Arrogância? Preconceito? Não, pragmatismo. Os caras não quiseram aborrecimento, pouparam a gente de mais um vexame.

Mas esse não é o ponto.
O ponto é a cidade que escolheram, Cabrália. É pertinho de Porto Seguro, e foi onde os portugas estacionaram as primeiras caravelas em 1500.
Eu já estive lá, fotografando no local exato onde fincaram a primeira cruz, diante de índios festeiros, que se fantasiaram e se paramentaram para impressionar aqueles visitantes esquisitos, e de índias loucas para dar para aqueles homens barbudos e fedorentos. Sem entender patavina, índios e índias se ajoelharam imitando os portugueses e aceitaram rezar junto, mesmo sem conhecer o deus em questão. Me parece auspicioso ver os alemães cantando o hino do Baêa nesse mesmo solo, 2014 anos depois.

Há alguns anos eu fiz um livro sobre a presença germânica no Brasil, e nas minhas pesquisas ficou mais que evidente o quanto alemães amam o Brasil, ainda que as razões nunca tenham ficado aparentes nem mesmo para eles. São inúmeros os exemplos: o navegador chefe da expedição de Cabral era alemão. Brasil, que era o nome da madeira, pode ter vindo do vocábulo alemão “brazen”, que quer dizer brasa, fogo, vermelho. E o único lugar no mundo onde o Fusca teve nome oficial foi aqui – no resto do mundo era só VW – e o nome nasceu porque os brazucas ouviam os alemães dizendo Volks com sotaque (algo como fuLcas).

Os alemães do vídeo são dois dos principais jogadores de um dos melhores times do planeta. E parecem dois turistas em pleno Carnaval, pulando com os locais numa rua sem asfalto em frente a uma birosca. Isso é Brasil, purinho. É atrás disso que o mundo vem: de ser convidado pelos nativos a pular e cantar algo incompreensível, nesse país louco, fascinante e estranho, que já tem 2014 anos e continua na fantasia de todo estrangeiro. Na capa da Folha de hoje tem outros dois jogadores, holandeses, se jogando no mar de Ipanema durante um treinamento. É dessa liberdade para fazer bagunça e sermos todos inconsequentes é que os gringos vieram atrás. Porque aqui eles podem desobedecer um pouco as regras de lá. Não precisam de um telão com a letra do hino do Bahia pra cantar junto. Até porque a letra não diz muito mesmo: “Mais um Bahia. Mais um título de glória. Mais um, mais um Bahia. É assim que se resume a tua história”.

Nós, os índios hipsters, nos ressentimos de sentir vontade de ajoelhar e rezar junto com os gringos. Rejeitamos as cantorias e as fantasias. Não queremos ser índios, mas somos, só que em vez da cruz ajoelhamos para os trens-bala japoneses, para os aeroportos reluzentes dos americanos, para o padrão Fifa das calçadas e metrôs em que vive a Europa.

A Copa não pode servir como a expurgação das frustrações com a nossa letargia, com a nossa tendência para a procrastinação, com a nossa incapacidade de lembrar que políticos eleitos são um espelho que nos reflete como sociedade. A Copa é um evento de 30 dias que deve ser de festa, não de imolação pública. Sob pena de perdermos essa identidade que é tão-somente nossa. Temos é que aproveitar para fazermos as pazes com essa identidade. O jeito brasileiro, mesmo que seja o jeitinho, que é nosso maior apelo, nosso trunfo.

Vai ter Copa sim. Só que a se continuar o conflito psicanalítico sobre a nossa incompetência, a Copa vai ser dos alemães, holandeses e todos os outros estrangeiros que estão aqui para aproveitar a vida. Abrir mão da alegria, da festa, não vai nos tornar melhores. Ainda menos nos próximos 30 e poucos dias.

Gustavo Soares

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Big Data

Se toda história da humanidade é um processo de evolução incessante, se Darwin só pariu sua teoria porque conhecia Lamarck, Beethoven não foi  Beethoven sem Haydn e o último prêmio Nobel da medicina não passa de uma gota no mar, se Criação só existe uma, a primeira, do big-bang, de Adão amolengado pelo Criador, se tudo o que fazemos são veleidades de primazia, se a capacidade inventiva do homem é relativa e proporcional à suas referências, mas também, se nosso cérebro não funcionasse por amostragem, seleção e esquecimento, se fossemos capazes de tudo conhecer e tudo processar, se não nos contentássemos apenas com a opinião do nossos próximos, dos nossos pesquisados, mesmo muito misturados, se a norma fosse o erro e o erro o acerto, se não estivesse provado que a grande maioria dos saltos qualitativos operam na margem de erro, no desvio padrão, se a gente tivesse a humildade para se sentir parte ínfima mas fundamental, então talvez assim, talvez enfim, a gente acreditasse que em tudo existe Lógica. Big Data, amém.

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Síndrome de mozartismo

“Ele nasceu para isso! Pequeninho já brincava de escrever e desenhar. Quantas vezes não chegava correndo na sala mostrando para as visitas as propagandas que ele tinha feito? Dava gosto. Não espanta que ele se deu bem na vida. Veio com o dom.”

Por menos que se acredite na predestinação, ainda reverenciamos a genialidade de direito divino. Como se nascêssemos dotados de pré-talentos que desabrocham no curso da vida, por uma centelha mística, em realização e reconhecimento. A educação que recebemos existe para criar uma espécie de terroir fértil para que ecloda a genialidade natural. É o dom que se aplaude.

A gente passa a vida tentando achar nosso grão de Mozart.

E ninguém nunca falou do suor do pequeno Woolfie, ninguém nunca se interessou pelo sangue escorrendo dos seus dedinhos sobre os teclados. Ninguém nunca quis saber da sua teimosia, obstinação, obsessão.

A gente gosta mesmo é da mágica e enquanto ela não vem, que tal empurrar a vida para o fim?

Experimentar é tão mais fácil do que perseverar!

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Põe a mão na sapucaia

No ano que não acaba nunca de não começar não deixaria de faltar causo da mulher do piolho.

Ela mandou dizer que já deu aquela coceira de aprontar quizomba. Coceira de cutucar bem curtinho. Coceira de acabar com a pasmaceira e tocar fogo na capoeira.

Bom de começar fazendo pergunta besta. Por que tem que ser assim? Por que tem que fazer de conta? Por que não pode perguntar por quê?

Bom de já ir dizendo não, não e não. Não quando a gente engasga com o sim, não à continência, não ao quase.

Bom de já ir dizendo sim, por que não? Quando dá coceira de certeza, sim à incontinência e sim quando é porreiro.

E se não girar a carapeta, vem mais um ano que passa sem nem doer nadinha. Mais um ano que se foi.

A mulher do piolho mandou dizer que ano incólume não volta nunca mais.

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Obrigado pastor

Numa mega-igreja de Ohio, onde 4 mil ovelhas se encontram cada domingo para um show de fé, alguns aproveitam para fazer uma pós-graduação religiosa oferecida pela corporação evangélica. O temente a Deus pode escolher diplomar-se em “oração aos nossos soldados em guerra contra os inimigos do povo americano” ou “a cura do homossexualismo”, por exemplo.

Entre doações para a construção de um estúdio de gravação ou para sustentar os missionários evangelizadores de povos atrasados, a pequena burguesia caipira do cinturão da bíblia americano – aquela mesma que elege os grandes guerreiros do império e que acalenta legionários domésticos para combater a tirania – luta contra a culpa cristã.

Não poderia ter sido mais caricato do atoleiro institucional e cultural em que nos encontramos, do que eleger como presidente um pastor homofóbico e racista convicto para a Comissão de Direitos Humanos e de Minorias da Câmara.

Vivemos momentos turbulentos. Quando conchavos políticos sinistros contrariam o bom-senso civilizatório mais elementar e quando as instituições que nos representam fazem vista grossa, é um déja-vu na história dos povos: prelúdio de trevas.

Mas o pastor insignificante e irrelevante talvez esteja fazendo-nos um favor. Quem sabe, graças a ele, não abra-se o debate sobre questões importantes da sociedade como o preconceito em todas as suas formas.

Ou questões ainda maiores, como esse poder oculto, insidioso, perverso, organizado por uma espécie de ressurgimento religioso em todos os lados do espectro da fé: do papa dos pobres careta ao ambicioso pastor.

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Aprender a escrever é falcultativo

Milhares de americanos já morreram porque se enganaram lendo a receita do médico. Ao invés de mandar todos os médicos para um supletivo do Mobral, 45 estados americanos decidiram que o estudo da caligrafia será opcional nas escolas a partir do ano que vem. Opcional como o estudo do grego, a prática da esgrima, o tricô.

Seja por causa dos médicos preguiçosos, seja porque escrever à mão dá uma trabalheira danada, o fato é verídico.

Difícil julgar se a medida é boa ou ruim, mas a sensação de acentuada dependência de próteses tecnológicas aumenta ainda mais. Como se estivéssemos transferindo nossas fraquezas para soluções externas a nós, ao invés de procurar resolvê-las com o que temos. Como se estivéssemos paulatinamente atrofiando a suprema qualidade que tivemos, como animais em evolução, de, precisamente, evoluir. Como se a tecnologia fosse um remédio para o cansaço. Um entorpecente do drama da existência.

Não andamos mais, não caçamos mais, não colhemos mais, falamos cada vez menos e, em breve, não escrevermos mais.

Quem não experimentou o torpor físico depois de uma caminhada, o fôlego desatado de uma perseguição na floresta, o frio na barriga de trepar na árvore para catar jabuticaba, quem nunca rabiscou, rasurou, amassou, rasgou uma carta, duas cartas, três cartas de amor, mil cartas de amor comeu a vida e nem mastigou.

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Escambo.net

- Meu Deus, os caseiros levaram de novo a batedeira! Vou lá… Bom dia Seu Francisco.
- Salve patrão.
- Por acaso a batedeira lá de cima está aqui?
- Está sim Senhor.
- Sabe, Seu Francisco, eu acho bonito esse jeito do Senhor.
- Qual jeito, patrão?
- Esse jeito “o que é meu é seu, o que é seu é meu”.
- Obrigado, patrão.
- Mas sabe qual é o problema: o Senhor não tem nada, então sempre me dou mau.

O Estado – e o nosso mais do que muitos – é um monstro de muitas cabeças egoistas. O Brasil do século XXI é um país submisso a um poder exacerbado, centralizador e burocrático. Nem o nosso jeitinho tão criativo consegue mais driblar os tentáculos públicos. Eles estão nas leis, nos tributos, nos financiamentos, nos programas sociais, em todas as obras de infraestrutura e interferem na atividade comercial e empreendedora.

O Estado brasileiro é uma colônia de carrapatos.

Isso não significa, é claro, que do outro lado, no privado, existam santos oprimidos. Ninguém é mártir nesse jogo e os vasos são promiscuamente comunicantes.

Para o cidadão comum, só lhe resta duas alternativas: sofrer ou parasitar.

Mas existe uma terceira via. Sem jeitinho nem cambalacho. Sem masoquismo nem paralisia.

Quando uma pessoa vende ou aluga um bem seu para uma outra pessoa – uma casa, uma geladeira, um carro, um passeio de cachorro, uma jardinada – o Estado não existe. Não existe imposto, nem burocracia, nem jogos de poder, nem corrupção.

É o peer to peer, que faz bem para as pessoas porque descolam um dinheiro, faz bem para o planeta controlando o desperdicio, faz bem para a alma porque dá o troco no Estado e nos seus financiadores privados ao mesmo tempo.

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Caniços, sim, pensantes, nem tanto

Muitas vezes lidamos com pessoas incapazes de digerir perguntas existenciais. As questões fundamentais passam ao largo de suas vidas: a morte, a vida, a ilusão, o tempo e o espaço, as conexões, os mistérios, a Terra e o espaço sideral, Deus, o Verbo. E para não questionar-se, empurram os dias com a barriga, dissipando-se na rotina até serem surpreendidas pelo “mas já?” fatal.

A dificuldade no entanto não se concentra apenas na metafísica. Pessoas – muitas – só questionam pelo gosto da retórica ou por cerimônia, sem verdadeiramente esperar respostas. Quantas vezes a resposta está na pergunta? Quantas vezes a resposta bate oca no interlocutor? Quantas e quantas vezes o ponto de interrogação é apenas uma inflexão musical estéril?

E por que, nós, caniços pensantes, resistimos inconscientes à pergunta? Por que driblamos com maestria aquelas que realmente precisam ser feitas, quaisquer que sejam as circunstâncias?

Por que não fazemos as perguntas certas?

Porque temos medo das respostas.

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Contra a violência, só o desabafo?

Hoje no trânsito, um casal foi assaltado na entrada de um túnel. Tudo muito rápido, difícil de entender, impossível de ensaiar reação. A mão armada é poder para os covardes e impotência para as vítimas.

Mas choca e a gente quer contar, como uma catarse ou um gesto – covarde também – de contra-ataque. Conversa mais banal impossível. Todo mundo tem a sua própria história e geralmente pior. Então a gente baixa os braços, engole o choro e enfia a cena na gavetinha dos assuntos para conversas aleatórias.

Se fosse nos Estados Unidos, pessoas teriam sacado suas armas automáticas do porta-luvas em nome da “liberdade contra a tirania”. E a vítima teria ido chorar as mágoas no clube de tiro ou numa escola primária.

Se fosse no Pará, a gente mandava uns matadores atrás dos safados que roubaram a bolsa e o celular. E seriamos vingados sem consequência nenhuma.

Quando a justiça hierarquiza os crimes, se existem os “crimes comuns”, então, o crime pode ser banal, corriqueiro, natural.

No dia 3 de abril, começa o julgamento dos assassinos do José Claudio Ribeiro da Silva e da Maria do Espírito Santo Silva em Marabá, extrativistas defensores da floresta, mortos em 2011. Duas pessoas comuns, como são também comuns outras dez pessoas eliminadas em Rondônia em 2012.

Da violência contra pessoas comuns, a mídia faz como fiz, hoje de manhã, no trânsito: dá de ombros. O Papa vende mais. Para a justiça, também é comum. O mensalão dá mais fama para os juízes.

Enquanto isso, nós todos, brasileiros comuns, não passamos de vítimas silenciosas e conformadas do silêncio da mídia e da justiça.

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O país na bolha

A frustração é um sentimento que decorre da relação entre expectativa gerada e possibilidade de realização.

É como custo X benefício: para melhorar a relação, você pode reduzir o custo com o mesmo benefício, aumentar o benefício com o mesmo custo ou simultaneamente reduzir o custo e aumentar o benefício.

Para reduzir a frustração, você pode diminuir sua expectativa, aumentar a possibilidade de realização ou ambas as coisas.

Exemplificando.

No Brasil, vivemos numa bolha de expectativas eternas. Queremos andar de bicicleta nas cidades, consumir produtos orgânicos, ter uma vida mais sustentável. Queremos também consumir marcas internacionais e conhecer o mundo. Queremos probidade pública e transparência.

Mas no Brasil, as vias públicas são esburacadas, ainda temos gente que não come direito e estamos azulejando a Amazônia. Compramos Goyard em 20 prestações e nossos aeroportos são à imagem e semelhança do site da TAM. Nossa democracia eternamente em construção balança dialeticamente entre a prepotência de uma direita com veleidades sociais e uma esquerda populista regada à estímulos desenvolvimentistas ultrapassados.

Em suma, nossas expectativas são altas e nossas possibilidades de realização atravancadas.

Só existe um jeito de ser feliz e não sonhar com o impossível idílio de picar a mula: baixar as nossas expectativas. Ou pelo menos, calibrá-las às nossas – brasileiras – reais capacidades de realização.

Furar a bolha.

Graciliano Ramos foi um dos maiores escritores de sua época. Morreu mais pobre do que nasceu. Em sua única viagem internacional, foi à antiga União Soviética e aproveitou para conhecer algumas capitais europeias. Ficou maravilhado com tudo que viu mas disse que nada daquilo era para ele, que ainda preferia o Brasil, apesar do atraso, porque aqui tem calor em todas as declinações possíveis.

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A liberdade de matar 27 pessoas

O choque, a dor e principalmente a dúvida: por quê? Por que um garoto de 20 anos mata 27 pessoas numa escola? Essa dúvida atormenta tanto quanto a perda porque ela expõe a ferida da condição humana: a imprevisibilidade dos nossos reflexos. Este descontrole é a antítese da vida em sociedade. Por isso existem as leis, os costumes e até os tabus: colocar limites na imprevisibilidade da condição humana.

Controle, para muitos no país do massacre, além e aqui embaixo, significa tolher a liberdade.

Conservadores falando de liberdade e progressistas falando de controle. É nesse ponto que chegamos.

Mas a liberdade é um conceito utópico. A liberdade é uma moeda de negociação necessária para a vida em sociedade: Quanto liberdade devemos tolher? Quanta liberdade devemos tolerar? Qual é a liberdade que nossos valores aceitam ou defendem?

Mas como a liberdade é um conceito elástico, ela virou chantagem retórica, cortina de fumaça, desvio de foco. É irreconciliável procurar “porquês” partindo de um terreno tão pantanoso.

E os porquês passam para o campo do absurdo. Já ouve-se que a posse de armas é um alicerce da democracia, que a posse de armas sustenta o combate à tirania, que há loucos soltos. Ouve-se até que a solução dos massacres está na mega-church.

Afirmar que a democracia americana se formou sobre a liberdade de possuir armas é confundir História com Sabedoria. O passado é sangrento demais para servir de modelo.
Falar de armas para combater a tirania é defender a lei do mais forte. Tirania para esses paladinos da liberdade é tudo aquilo que é diferente. A diferença tem que ser combatida e aniquilada com todas as armas. É por isso que esses super-heróis maniqueístas acham que o massacre foi perpetrado por um diferente, um louco. E que esses diferentes da média rastejante são culpados, que precisamos de armas para nos defender dos loucos, dos diferentes.

E claro, nessa hora, a bíblia não pode faltar. A bíblia é um arsenal de defesas: olho por olho. É a palavra de Deus. Nas palavras de reverendos-business-men, a matilha de conservadores acha o que procura: God bless the National Rifle Association.

O problema é complexo – e qualquer simplificação estatística está na sua origem – mas enquanto não resolvemos o drama de nossa condição humana, bom senso e lógica: uma faca mata menos.

Afirmar que possuir armas é liberdade é o mesmo que defender a liberdade de matar 27 pessoas.

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O mau humor é crime e a crítica, pecado

Viver em um mundo cada vez mais apertado tem suas desvantagens, e uma delas é escancarar as diferenças.

Se, algum dia, os estágios de desenvolvimento dos países já pareceram consequência da evolução histórica de suas culturas e portanto, o atraso era tolerável, hoje ele é desesperador.

A evolução não é necessariamente progressista, linear e tampouco inexorável. O pobre pode ficar mais pobre. O ignorante mais ignorante, o doente mais doente, o careta mais careta. Portanto tudo pode piorar e como dá muito menos trabalho piorar do que melhorar, essa é a regra.

No Brasil, no entanto, uma espécie de miopia patriótica contaminou nosso senso analítico. É atávico acreditar que as coisas vão sempre melhorar. E porque dias melhores sempre virão – é nossa bandeira – a gente não exercitou a dialética. Não sabemos e não gostamos de pensar, elaborar, argumentar.

Por aqui, toda crítica de ideias vira crítica pessoal. Os debates não terminam em proposições mas em abraços ou tapas. Tem-se medo do confronto, por simples covardia, falta de argumentos ou preguiça.

No Brasil, a pior piada vence a melhor das teses, sempre.

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Talento ou suor? Carisma ou Argumento?

Maldita mania de tudo engarrafar, rotular e receitar conforme a necessidade. Ou mau-humor de sempre achar falta no oposto do que abunda.

Mas se subirmos a um dos Olimpos das vaidades e pretensões humanas, por exemplo naquelas profissões que lidam com intangíveis KPIs – como a criatividade – a mania e o mau-humor viram regra de convivência e cobrança: onde sobra talento, falta suor; onde falta carisma, sobra argumento. Quando o lado direito do cérebro (talento e carisma) transforma a vaidade em ridículo, exija-se mais do lado esquerdo (suor e argumento). E vice versa.

Mas perceber-se é difícil. Portanto, a regra só funciona para o outro, nunca pra si.

Talvez fosse melhor e menos cínico, tirar as qualidades de seus compartimentos.

E se talento fosse fator de suor? Se carisma, da capacidade de argumentar? Se o carisma fosse tributário do talento? Se capacidade de argumentar, de suor?

Se o talento só fosse irrigado pelo trabalho, árduo, penitente, obstinado? Se o carisma só fosse ativado com o exercício intelectual, dialético, questionador?

E se Sorte e Trabalho não fossem amantes enrustidos?

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O Brasil ensaiado de dar dó

O Brasil hip é pobre de dá dó. Não só porque é molenga e comedido mas porque é abortivo de qualquer autenticidade e energia.

O enfrentamento entre o Brasil de cartão postal e o Brasil da Oscar Freire é o maior obstáculo à nossa identidade. De um lado, um país bananeiro, de outro um arremedo de Dubai; de um lado o gigante adormecido, de outro o anão plastificado; de um lado as bundas, do outro a falta delas.

Não tem charme nem graça esse Brasil que rebola com discrição e elegância. Nem para nós, sejamos francos: não curtimos o minimalismo, o meticuloso, o calculado, o lentamente masturbado. Curtimos o fogo, o sanguíneo, o reflexo, o precocemente parido.

Então essa participação xoxa do Brasil na festa de encerramento dos jogos olímpicos de Londres é simbólico dessa identidade em cima do muro. O desafino das Bachianas, as mulatas de neon, os índios de aparelhagem, o gari globeleza, o malandro do Leblon, o negão pós Oiticica: aquarela do Brasil aguada. De Brasil ali, de Brasil de verdade ali, talvez só mesmo sua majestade, nosso rei Pelé.

Se ainda temos complexos de pobres periféricos, se não somos capazes de assumir nossa mestiçagem, nossa promiscuidade cultural, nossa intelectualidade malandra, por que não desgrudamos do expressionismo circense da novela?

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A avenida de nosso Brasil

Nosso über Brasil do futuro é um sonho incerto. Mas como somos povo de fé inquebrantável, ainda navegamos com ginga, driblando as marés novelísticamente.

No entanto, talvez já possamos aprender com os calos incipientes: não percamos a inocência e a humildade. Nascemos ontem e cabulamos a escola.

O sinal perverso vem dos valores invertidos de uma prosperidade recente. A afluência não é fruto do esforço mas do desejo: compro porque quero e não porque posso.

Em tempos de um presumido pleno emprego, em tempos em que o dinheiro é o valor supremo, estudar não garante emprego, nem dinheiro.

Somos uma nação de ignorantes com televisão de 50 polegadas, uma nação de caipiras experts em tendências, uma nação de iletrados com desenvoltura tecnológica, uma nação de festeiros.

Já viu a novela?

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Kony 2012 e nossas lágrimas de crocodilo

Stalin dizia que matar uma pessoa é uma tragédia; matar milhares é uma estatística.

É importante refletir sobre essa frase, à luz da hipocrisia de nossas lágrimas de crocodilo ocidentais. Milhões de bem nutridos ao redor do mundo chacoalham-se, consternados, em arrepios de vergonha, diante do mais básico dos apelos: uma criança que prefere a morte às abomináveis provações de que é vítima. O simplório documentário Kony 2012 é um entre centenas, milhares de pedidos de socorro que chegaram de toda parte do mundo, em particular da África, nos últimos anos.

No começo da década de 90, quase um milhão de ruandeses tutsis foram assassinados em menos de 100 dias por ensandecidos hutus. Isso dá 7 assassinatos por minuto sob o olhar estéreo do ocidente. Todos os dias, centenas de apelos como o do documentário blockbuster chegavam às redações dos jornais e nos gabinetes dos governos, da ONU, das ONGs. Especialistas acreditam que com poucos milhares de homens bem treinados, armados e com licença para agir, o genocídio teria sido evitado. Como o garoto que prefere morrer a continuar vivo, milhares de hutus inocentes preferiam matar a morrer, por recusar-se a colaborar com o esforço de limpeza étnica (muitas vezes armado com armas ocidentais, claro).

Em 1996, um poder contrário ao governo que apoiava o Poder Hutu, reunido nessa mesma Uganda e no antigo Zaïre (atual República Democrática do Congo), majoritariamente constituído por Tutsis refugiados, retomou controle da situação e forçou mais de um milhão de Hutus a refugiar-se também, aonde?, em Uganda e no Zaïre. Foi o maior fluxo de pessoas desesperadas de que se tem notícia na história da Terra.

Dessa vez, os crocodilos compadeceram-se e montaram colossais campos de refugiados nos países vizinhos a Ruanda, sob a proteção dos governos ocidentais, da ONU, das ONGS e o olhar atento de centenas de jornalistas.

Um milhão de hutus que haviam assassinado um milhão de tutsis recebiam um milhão de dólares por dia de ajuda humanitária (muito mais do que a renda média diária dos sobreviventes em Ruanda).

Em outras palavras, ignoramos o genocídio e ajudamos os “genocidaires“, com a maior das inocências.

Moral da história, somos bilhões de idiotas governados por milhares de cretinos.

Kony 2012 – sei não. Mas se 40 milhões de pessoas doarem mínimos 10 dólares por mês, isso soma quase 5 bilhões por ano. Dinheiro pra acabar com muita miséria.

No entanto, a hipocrisia ocidental é maior do que a sede de líderes iluminados por apelos transcendentais (como Kony): é suficiente derramar lágrimas sinceras, elevar preces inócuas e fazer documentários virais nas redes sociais.

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Internet, bela viola

Muitas guerras foram urdidas, fomentadas, incentivadas nas redações e muitos jornais foram idealizados, formados e impressos no front.

A política, através de sua representação estilizada mais perfeita – a guerra – forma com a imprensa um casal sinistro, disfarçado por um manto de respeitabilidade. Para a política, é o disfarce da democracia. Para a imprensa é o da liberdade de expressão. Mas a política é avesso da imprensa. A imprensa é a sombra da política.

A menos que se creia em neutralidade.

Então, se a imprensa mudou, espalhando-se, atomizando-se, individualizando-se, não será apenas forma? A voz do cidadão antes isolado, tonitruando para bilhões nas redes sociais, é esperança de paz?

A menos que se sonhe com neutralidade, nada muda assim.

As redes sociais, quando fomentam revoltas e derrubam poderes, fomentam revoltas e derrubam poderes. A nova imprensa permanece um fermento da guerra. E a guerra permanece o catalizador da imprensa, da nova e da velha.

A Internet não redime nada. É só uma bela (nem tão bela) viola.

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Se tá barato, eu preciso

Por que diabos tem tanto guarda chuva nesse voo? É moda apoiar-se nele com nonchalance pra ver o povo desfilar na Oscar Freire?

-       Moça, o que são esses guarda chuvas?
-       Como, você não sabe?
-       Não. Perdi alguma coisa?
-       Sim, a liquidação da Victoria Secret.

Três garotas conversam animadamente ao meu lado, como se tivessem saido de um encontro tupiniquim de Sex in the city.  Ah, estão planejando momentos idílicos em Nova York. Eis então que sacam do guia da cidade, um xerox. Deve ser alguma dica preciosa. Alongo o olhar para um mapa do Outlet de New Jersey todo marcado com as estações da procissão projetada: Mac, Prada, Gucci, Lacoste, Vicotria Secret, claro.

As pessoas não vão mais aos Estados Unidos, se é que algum dia foram. Vão ao mall mais barato e diverso do planeta para os brasileiros.

De quebra, aproveitam um museuzinho básico para o alibi cultural. Ou um restaurante hip para criticar os preços de São Paulo. Ou um musical da Broadway para poder dizer “só os americanos!”.

Mas são as malas transbordando de inúteis utilidades que vão dar a confortante sensação de que afinal de contas nós  somos eles amanhã.

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Cala a boca Mané

Temos hoje infinitas formas de nos comunicar. A cada dia, surge uma nova e excitante ferramenta. Como é que o mundo funcionava quando nossas bisavós precisavam mandar o filho com um recadinho para a parteira vir socorre-la? Hoje ela mandaria um viber para cinco médicos diferentes, a família e os padrinhos. Ou, mais simples, faria um parto monitorado remotamente com uma junta médica internacional pelo Skype.

Mas ao mesmo tempo que ganhamos tempo e qualidade, perdemos objetividade. O moleque, a menos que resolvesse dar um mergulho no rio e roubar uma manga da vizinha, era o único mensageiro. Hoje, tudo é compartilhado, pedimos a opinião de Deus e o mundo, e as mensagens se esfacelam na velocidade da luz.

O email é o exemplo mais gritante de inoperância.

Alguém manda uma solicitação por email para os envolvidos diretamente e para uma penca de outros que precisam participar da decisão “vai-quê!” (também conhecidos como fyi). Todos respondem para todos, inclusive os “vai-quê!”. O que era uma distribuição de tarefas vira um sufrágio de opiniões. O que era um recado, vira uma assunto, o que era um assunto, vira um colóquio, o que era um colóquio vira uma eleição, o que era uma eleição vira uma Babel.

Por isso, todo email, além de CC e BCC deveria ter um CBM (Cala a Boca Mané) e um QMA (Quem Manda Aqui).

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