Archive for the ‘Sei lá’ Category

O caipira leva no papo

08/03/2010 em Sei lá | 2 Comentários »

Ele era um homem de valor. Daqueles que a gente admira.

Sua fala era direta, sem salamaleques. Ele avisava sempre “olha, gente, eu sou assim, falo o que penso”, eram sem refinamento as suas maneiras: “me perdoem, eu sou simples”, sem cerimônia suas invectivas: “seu bando de merda” e portentosa sua conta bancária, conquistada no suor do bisavô mascate.

Mas o que realmente encantava, deixava os janotas embevecidos, era o sotaque. Caipira de mascar cigarro de palha, bugre de mãos calejadas e dentadura de segunda mão. Falava arrastado, engolindo as sílabas finais, temperando o discurso com barrocas expressões. Todos babavam com esse Riobaldo com crédito até nos estrangeiros.

E como ele sabia! Seu pai dizia “filho, nunca esqueça, suas raízes estão aqui e enquanto permanecerem bem enterradinhas nessa roça, você vai dar nó em todo mundo”, enquanto sorvia seu Darjeeling Harney and Sons em compassados goles.

Era assim desde que o pai fora estudar no Sul. A escola era uma oligarquia de pó de arroz. Todo mundo mangava de sua roupa de linho engomada, tão démodée, coitado. Aprendera os modos e fora para a Europa. Apesar de treinado, por lá, o regionalismo virava exotismo. Mas nas temporadas de Gstaad, ele levava as loiras no papo e no bolso.

Quando o pai voltou para o fim do mundo, naquela terra longínqua, aquele cabrobó de dá dó, continuou assim, cultivando o jeito simplório pra inglês ver enquanto passeava sua Bentley no canavial.

De vô pra pai pra filho até que um dia nasce um príncipe encantado que põe tudo pra danar.

Quem preserva o sotaque leva no papo quem mija pra trás.

Felicidade é a NET ler o meu blog

05/03/2010 em Sei lá | Tags: | 6 Comentários »

Olá Fernand,

Meu nome é Eduardo e trabalho na área de relacionamento da NET.

Li um post no seu blog e, buscando a satisfação de nossos clientes, gostaria de te ajudar a sanar qualquer dúvida ou problema relacionado aos serviços NET. Pelos dados informados, não consegui localizar o contrato. Por favor, envie o código de assinante ou um telefone de contato para que eu possa lhe ajudar com o seu caso.

Att.
Eduardo Mendes – Relacionamento Net

Senhor Eduardo, muito obrigado. O problema já foi resolvido.

O mundo não vai acabar amanhã

05/03/2010 em Sei lá | 1 Comentário »

Dizem que um pivete bateu a carteira do Bill Gates. Foi uma comoção. Todos os veículos, revistas sérias e menos sérias, cobriram o evento. Especialistas foram convocados para discutir o impacto da gatunagem, outros cientistas, as causas do evento. Teorizou-se muito e ativistas, profetas e outros do manicômio manifestaram-se.

Investigações mais profundas, CPI’s e a Interpol, finalmente revelaram o tamanho do prejuízo sócio-financeiro: o magnata, possuidor de uma fortuna estimada em 40.000.000.000 de dólares foi surrupiado em 50.

Foi mais ou menos o que aconteceu com os 8 centímetros que se moveram no eixo da terra depois do terremoto no Chile.

Apesar de alguns que insistem em dar cobertura cataclísmica em rede nacional, com ares compenetrados e apocalípticos, fora matar menos gente do que qualquer epidemia de resfriado, derrubar menos favela do que qualquer viaduto e amplificar menos choro do que qualquer enterro de líder comunitário, o terremoto no Chile teve o efeito de um soco de pulga no saco de um elefante.

A questão que atormenta no entanto é por que será que as pessoas estão tão desesperadas para que o mundo acabe? Por que queremos tanto que tudo dê errado, que o mar esparrame, que os rios transbordem e que o planeta chupão nos castigue?

Sorte minha que vi um macaquinho no jardim hoje de manhã, que não tinha trânsito, que o meu amigo do sinal me contou uma boa e que, afinal de contas, se a mal educada da gata fez xixi na minha mochila é que está na hora de comprar uma nova.

Pai Nosso que estais no céu, fique por lá e nós ficaremos por aqui, na nossa Terra, que é, por vezes, tão bela.

Felicidade é a NET funcionando

03/03/2010 em Sei lá | Tags: | 3 Comentários »

Essa é uma história de ódio contemporâneo.

- Márcia, por favor, você pode fazer uma assinatura da Net para mim? Quero o plano mais caro, que tem tudo
- Tudo o quê?
- Não faço idéia do que seja o tudo da NET, mas peça o mais caro, assim vem tudo.
- OK
- Não quero ter nenhuma chateação, sabe? Prefiro pagar até pelo que nunca vou usar.

Fiquei feliz de ter realizado o sonho de todo profissional de marketing: o consumidor ideal,  que paga sem pestanejar e jamais reclama.

Um dia instalaram o tudo lá em casa. Internet bólida, telefone fixo que jamais irei usar, centenas de canais que dão preguiça de zapear, gravador de coisas que não terei a disciplina de programar e canais de filmes para minha empregada se aboletar no sofá nas tardes sonolentas.

Passei uma semana tranqüila, exercitando a imaginação televisiva que nunca me permitiu ir além de três canais de notícias.

Um dia, um capeta sentou no controle remoto e clicou 101 no controle remoto. Palavra mágica para um consumidor ideal: falou em pagar alguma coisa, é com ele mesmo. “Consumir, ó prazer inefável!”

Faço a operação com a mesma destreza de que saco o cartão de crédito para comprar qualquer inutilidade mágica naquelas lojas de treco caro.

“Crédito Insuficiente.”

O quê? Eu, o rico, milionário, perdulário que compra sem olhar, sem regatear e sequer usa o que comprou, portanto não usa pós venda, assistência técnica e não sabe o que significa a palavra SAC?

Me chamando de pobre? Qual é?!

Entrei na gangorra, no labirinto de mentiras, de bagunças, de diz-que-diz. Recebi técnicos em casa, trocaram as coisas, apertei centenas de vezes o controle remoto para fazer operações rocambolescas e cada vez mais criativas.

Pobre só se fode e por isso me fodi. A NET é um merda.

Coitada da idéia mal apresentada

02/03/2010 em Propaganda, Sei lá | Tags: , | 1 Comentário »

Não se nasce Kayapó ou Bororo.

Perguntaram a um índio, portador de avantajado alargador labial, se venderia o artefato. O índio respondeu: ” te dou o botoque e você me dá a sua orelha”.

Um japonês, um pigmeu ou um albino pode tornar-se tão Kayapó quanto o Raoni.  Basta agir como um Kayapó para ser aceito como tal.

O “savoir vivre” dos nossos índios ultrapassa muitas vezes nossa capacidade de entendimento.

Os Kayapós organizam-se em grandes aldeias nas quais os homens pertencem a associações independentes, com seus próprios chefes. Mas chefe entre os Kayapós não manda em ninguém. É só aquele que recebeu, por doação de tios ou avôs maternos, alguns privilégios ritualísticos.

Além disso, para legitimar a liderança da associação – da qual pertencem todos aquele que possuem um dos privilégios (uma pessoa pode ter até uma dezena de privilégios, compondo assim uma enorme combinação de possibilidades) – o homem deve possuir uma qualidade essencial à vida social Kayapó: a oratória.

Ainda criança, o pequeno índio recebe um alargador de lábios e tem as orelhas furadas. Os botoques e pesados brincos simbolizam uma espécie de amplificação simbólica dos dois sentidos mais nobres: a fala e audição (a visão é meramente funcional e “ver demais” é qualidade depreciada).

Quando há desavenças na aldeia – quando um índio ousou portar um cocar de cores não compatíveis à sua classe de privilégios ou simplesmente se um garoto chavecou uma garota casada – as questões serão resolvidas em embates de oratória entre os oponentes. Os chefes das respectivas associações tomarão a palavra e defenderão seus pontos de vista, na casa dos homens, até entendimento final entre as partes.

Entre os Kayapós, tudo se resolve no gogó. Privilégios (de qualquer natureza) não dão poder. Só o gogó. E o gogó se aprende, se desenvolve, se afia.

A gente vem subestimando demais a importância da oratória.

Capacidade de apresentação não é um detalhe de convencimento.

É com paixão e convicção, inteligência e articulação, simplicidade e humildade que se expressa e vende uma idéia.

O resto é natimorto.