Artigos na categoria ‘Internet’

Quem leva a melhor?

06/01/2012 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 1 Comentário »

Por motivos que pertencem aos insondáveis labirintos escuros da mente, competimos uns com os outros para aplacar uma insaciável carência de afeto e atenção. Para justificar esse embate de egos, inventamos talentos e habilidades particulares e diferenciadores. É mais ou menos por isso – e talvez por outros álibis menos nobres – que nas agências de comunicação existem macacos trabalhando em galhos diferentes, em volta de um tronco.

Se a metáfora está correta, existem árvores na floresta com galhos mais desenvolvidos e valorizados do que outros. Criação portentosa e planejamento mirrado. Planejamento super-irrigado e criação raquítica. Por exemplo.

Maçãs não ligam para o tamanho do galho. Quem acha que a maçã de um galho musculoso é melhor do que que aquela de um fiapo, desconhece tudo da botânica publicitária. Maçãs-comunicação se desenvolvem a partir do concurso equilibrado e harmônico da árvore toda, da raiz abissal à mais débil das folhas. Bonsais, mesmo lindos, caros e raros produzem frutas insípidas.

O mercado brasileiro – quiçá global – é uma dessas esdrúxulas florestas de anomalias.

O cliente faz a colheita nessa selva artificial. Aqui ele prefere o planejamento, ali a criação, acolá a mídia, e outras bizarrices circunstanciais. E come maçãs belas mas ocas, feias mas rechonchudas, saborosas mas feias e ocas.

E mesmo assim, competimos. E por isso ouvimos que o cliente gostou do planejamento mas não comprou a criação. Adorou a criação mas roncou no planejamento. Curtiu o planejamento e a criação mas a mídia era banal. Ou aquele que detestou tudo mas contratou por causa da estratégia de mídias sociais. Ou ainda aquele que tudo amou mas refutou porque não curtiu o wobler de gôndola.

ROI é mixo

08/12/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Apostar com entusiasmo em segmentação não é sempre a melhor estratégia. É também desprezar os inefáveis pulsos do consumidor acreditar que seu perfil, seja ele sócio-demográfico, seja ele psico-atitudinal, deve ser o primeiro estágio da peneira de esforços de comunicação. Muitas vezes, um tiro de canhão mata mais andorinhas do que mil arqueiros de elite.

Por que será que uma marca de luxo precisa comunicar-se com comuns mortais? Por que uma marca mais humilde precisa dialogar com o olimpo sócio-financeiro? Por que é importante falar de uma marca de golfe para jogadores de futebol e vice versa? Não é porque queremos convencer os peladeiros que jogar golfe é determinante na sua escalada social, nem o esnobe do taco que ele precisa sentir cheiro de povo para valorizar sua Ferrari. É porque é determinante na decisão de compra de qualquer marca, qualquer que seja seu “target”, construir reputação. Não se ergue a fama de nada nem ninguém chovendo no molhado.

É sub-estimar demais o poder da comunicação investir cirurgicamente em potenciais clientes com intenção de compra e perfil confirmados. É mixo.

Desde que a Internet surgiu como plataforma de comunicação, a gente tem se preocupado demais em vender o tiro certeiro. Fazemos comunicação super hiper calculada e cirúrgica. Será falta de sensibilidade desacreditar assim na criatividade? Será falta de ambição acreditar que só convencemos quem está convencido?

Por uma lógica perversa, compramos carros de luxo também porque aqueles que não compram sabem que não é para eles. Compramos cola de dentadura porque sabemos que o bacana que faz implante também é impactado pela comunicação da marca que gostamos.

Sim, não é lógico, mas quem gosta de lógica não dá pra propaganda.

Os novos normais

05/12/2011 em Internet | Tags: | 2 Comentários »

Nunca vi relatório de tendência dando conta do aumento da violência, da intolerância, do racismo, do egoísmo. Relatório que se preza tem sempre um componente de positivismo, bom mocismo e compaixão. Tendência é misto de observação com desejo. Todo guru é profeta de autoajuda.

Assim, hipocrisias à parte, compilamos aqui as novas tendências para 2012:

1) Anti-cafonismo. Chega de policiar o próximo. Quem quiser usar sapatênis ou andar de mini-cooper, tudo certo. Se você preferir passar as férias num hotel fazenda ou no Vietnã, tudo certo. Calça de prega ou saruel, anglicismos ou móoquismos, Facebook ou Orkut, cafona é chamar o outro de cafona. É definitivamente tendência defecar para a opinião alheia.

2) Anti-luxo. Chega de confundir shopping center com antidepressivo. O controle tarja preta do Rivotril é prejudicial à sanidade mental da humanidade. Parcelamentos sem juros, editoriais de certo e errado, modelos esquálidas e clínicas de rejuvenescimento, curadores e formadores de opinião, já eram. Uma bolsa Goyard a tiracolo é tão fora de moda quanto a pochette do Didi mocó.

3) Anti-virtual. Chega de mandar mensagem de aniversário no Facebook. Mande flores. Ou melhor, leve as flores. Ou melhor, apareça com um bolo, organize uma festa surpresa, com bexiga e apito. É a mais definitiva de todas as tendências ler livro e ultrapassado posar com ipad.

Belo Monte: é a gota d’água

16/11/2011 em Internet, Sei lá | Deixe um comentário »

É a Gota D’ Água +10 from Movimento Gota d' Agua on Vimeo.

Curtir propaganda é clicar no botão curtir?

16/11/2011 em Internet | Tags: , , , | 4 Comentários »

Talvez devessemos mudar as nomenclaturas do enorme saco de gatos daquilo que chamamos de comunicação. Isso evitaria uma série de mal-entendidos e expectativas nos briefings que parimos diariamente.

Já não é de ontem que o mantra universal para qualificar a boa comunicação é avaliar o potencial que seus conteúdos têm para emocionar receptores (ou consumidores ou seres humanos, pessoas, gente, comedores, dorminhocos, cagadores, amantes, mámiferos bípedes dotados de cérebro avantajado). Sem medo de errar, esse se tornou também o grande balizador de qualquer iniciativa para uma marca. Estratégias vencedoras devem emocionar, mas existem também todas as muitas outras, que, quando muito, informam.

A partir desse critério, portanto, encontramos dois formatos: o formato cuja vocação é tocar o consumidor no coração (emoção), o outro que deve atingir sua cabeça (razão). Sabe-se que o primeiro, quando bem executado, tem um poder soberano sobre o segundo porque o coração age mais rápido e de forma incontrolável. Já o segundo é escravo da comparação, portanto mais frágil.

Vale o adendo aqui de que os dois formatos são excludentes. Qualquer tentativa de despertar um ou outro dos sistemas (emocional e racional) elimina qualquer possibilidade de atuação do segundo. A confusão é comum e muitos acreditam ser possível emocionar e racionalizar simultaneamente.

Dando crédito de confiança à tese do tiro bilateral (emoção e razão), devemos portanto começar priorizando e, assim, todo e qualquer briefing deveria começar definindo, sem qualquer julgamento de valor, a sua prioritária vocação: emocionar ou informar?

Se o objetivo é emocionar, deve-se evidentemente dar livre curso à imaginação baseando-se em evidências ou descobertas motivadoras. O insumo criativo aqui são os pulsos, comportamentos, valores, aspirações, sonhos, frustrações ou recalques. Aqui não estamos falando com consumidores mas pessoas. Aqui o que importa são as  “Multiple Mind Motivations” e os “Points to Feel”.

Já se o objetivo é informar, o trabalho consiste em levantar os atributos concretos, funcionais, pragmáticos, operacionais daquilo que pretendemos comunicar. O insumo criativo é criar uma ordem, um foco, uma escolha em cada uma das informações colhidas em função das necessidades e das expectativas, corretamente alinhadas com as razões para crer na entrega. Aqui estamos com consumidores e não pessoas. Aqui o que importa é a “Single Mind Proposition” e o “Reason to Believe”.

O segundo passo portanto de um briefing deve ser definir, dependendo da primeira escolha (emocionar ou informar), qual é o Multiple Mind Motivations e o Points to Feel, em um caso, e o Single Mind Proposition e o Reason to Believe, no outro.

Isso seria relativamente simples se não tivesse surgido a Internet para bagunçar o trabalho. A Internet extrapola em vários sentidos o que nos acostumamos por décadas a chamar de mídia. E um dos erros clássicos incorre em chamar a Internet de mídia. Ela é mídia, inclusive, mas é também serviço: meio de comunicação interpessoal (como o telefone), espaço de entretenimento (como os games) e de negócios (como as feiras e shoppings), é plataforma de transação (como bancos, correios, serviços públicos) e por aí vai.

Para resolver a definição do que seria comunicação em uma era pós-Internet, decidiu-se pela solução mágica e imprecisa de substituir “comuicação” por “conteúdo”. E assim, tudo seria conteúdo (o emocional e o racional e esse monte de outras coisas que a Internet permite).

Mas essa é uma solução gauche ou na melhor das hipóteses que redefine para além do prático o papel das agências (ex-agências de propaganda, ex-agências de comunicação e agora agências de conteúdo).

Existe no entanto uma forma mais simples de resolver o nó  do briefing, contemplando agora o maremoto vago e polivalente das possibilidades nascidas pela Internet (ou digital pra ser mais genérico ainda).

Como vimos, o briefing deveria dizer se o trabalho deve priopritariamente emocionar ou informar. Pois talvez seja a hora de acrescentar a terceira variável: o trabalho deve prioritariamente emocionar, informar ou servir?

Assim, e inclusive na Internet, é possível definir a “question one” do briefing e, de forma precisa, o papel de cada canal.

Assim também, e de forma clara, não correriamos mais o risco de tentar emocionar numa mala direta, nem informar  em diárias na home do Youtube. Não tentaríamos, como cegos em tiroteio, arrepiar nossos públicos com estratégias de redes sociais ou de search. Isso também nos livraria da batalha das campanhas de preços e features que aterrorizam dispendiosamente os horários nobres da televisão.

Finalmente, poderíamos também julgar o que é boa “comunicação” e não dizer que uma caralhada de likes no Facebook é do caralho.

Perfil PJ da PF no Facebook

31/10/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 2 Comentários »

Compostura e entusiasmo são qualidades difíceis de conliliar.

Ensinaram-nos a ter atitudes diferentes no ambiente do trabalho e na vida particular. No trabalho, devemos assumir uma persona focada, educada, séria. Na vida particular, podemos largar as amarras, ser quem se é. Se na vida de todos os dias, podemos controlar as pressões sociais com alguma maleabilidade, das 9:00 às 18:00 a máscara deve ficar no prumo.

Mas várias coisas mudaram. Vivemos uma crise de disponibilidade e portanto de identidade. A vida não é mais compartimentada em trabalho e não trabalho. As invasões de território entre nossas duas vidas são porososas, indefinidas, difíceis de gerir.

Lidamos com fusos horários que não respeitam o sol e com prazos que escorregam velozmente. Em algum lugar do mundo, há sempre alguém nos solicitando, impaciente e desrespeitoso.

Lidamos com plataformas de comunicação que cruzam-se e chafurdam em bacanais digitais. Nossas vozes são públicas, privadas e profissionais, num cruzamento despudorado.

Lidamos com marcas que lutam por envolvimentos cada vez mais umbilicais. Somos agentes e vítimas de relacionamentos pornográficos com estratégias mercadológicas.

O lado nefasto dessa Sodoma é que vibramos e dependemos da sacanagem.

A nova revolução capitalista invade a vida privada, operando uma mais valia sorrateira, insondável, contagiosa.

A nova revolução anarquista ocupa a vida profissional, operando uma desordem maliciosa, envergonhada, escondida.

Trabalhamos fazendo amor e fazemos amor trabalhando.

Brochante.

Vamos abrir um perfil Pessoa Jurídica nas redes sociais e curtir com entusiasmo as engajadoras estratégias digitais dos nossos clientes.

Comprar pela Internet não é seguro. Banco Itaú, socorro!

25/10/2011 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

Já virou esporte, uma espécie de hobby malicioso contemporâneo: acompanhar as faturas dos cartões de crédito, linha por linha e perder-se deliciosamente em seus emaranhados insondáveis.

Já virou esporte receber avisos pelo celular de compras dantescas oriundas de sites paradisíacos.

Já virou esporte deleitar-se ao telefone com atendentes muito simpáticas e diligentes, confirmando dados e mais dados, repetindo as mesmas informações mil vezes repetidas.

Já virou esporte cancelar cartões, solicitar novos, lembrar-se de todas as faturas que caem e ligar para os estabelecimentos solicitando a troca de cartões.

Já virou esporte decifrar os procedimentos de segurança, mandar emails ou fax solicitando reembolso de despesas que você lamenta não ter feito.

Já virou esporte, mas você não perde peso, não ganha músculos, não economiza um tostão e não dá uma risada.

Às vezes dá vontade de largar o osso, cancelar tudo, não usar mais a Internet, não usar mais celular, voltar ao velho e bom dinheiro vivo e fedorento agarrado com um clip no bolso.

Os bancos e a Internet são uma combinação perfeita. Ambientes igualmente secretos e opacos, igualmente indispensáveis e vitais.

Mas que não é seguro, nem um pouco seguro, comprar pela Internet com cartões do Itaú, mordo a língua, mas não é.

A Internet está mídia de massa

14/10/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 5 Comentários »

A redenção proporcionada pela liberdade de escolha na Internet é uma mascarada. A cavalar maioria das pessoas recorre a uma ferramenta de busca para iniciar qualquer navegação. E outra estúpida maioria passa mais tempo em alguma rede social de sua escolha, do que nossas avós na televisão. A promessa de universalidade permanece potencial, mas se dissipa na prática.

Todas as grandes iniciativas na Internet têm por objetivo a concentração. Afunilando todas as portas de entrada – buscas, videos, mapas, tradutores, redes sociais, canais de compra, etc – se a Internet é anárquica na sua estrutura, é um ambiente fértil para ambições monopolistas.

A livre competição é presunção e a sonhada segmentação das audiências, uma quiméra. Qualquer portal minimamente agressivo, se é vertical no discurso, acalenta secreto desejo de abraçar novos e diversificados focos de interesse.

A Internet comercial é movida em primeira instância pela audiência e a lógica não é muito diferente da velha mídia. Claro que o discurso é outro, que vendem-se outros modernos argumentos, mais pertinentes, mais modernos, mais precisos. Mas nas entranhas inconfessáveis dos grandes atores da Internet, o dogma do “mais” em detrimento do “melhor” permanece inalterado.

Se o ovo ou a galinha, se porque as pessoas não gostam de  escolha ou se porque não lhes é dada escolha, não há, nem houve revolução alguma. A Internet mudou hábitos, não mentalidades. Ainda.

Internet e a arte do veja bem

10/10/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 3 Comentários »

Nem tudo que vem do “velho novo mundo” (a Internet) é necessariamente novo ou bom ou eficiente.

Mas apresentar uma plataforma digital é mais fácil porque é necessariamente desconhecido ou barato. Então, mesmo que não seja criativo, veja bem, funciona. Mesmo que não funcione, veja bem, engaja. Mesmo que não engaje, veja bem, temos aquele índice que mensura o envolvimento místico da ação potencializado pelo crescendo exponencial da existência contemporânea, lúdica e holística, acachapante. E veja bem, ainda é cedo para concluir. E veja bem, tem aquela meta digital do seu bônus.

É por isso que qualquer estratégia digital deve vir acompanhada de bula e manual de instruções que percorrem os sete portais iniciáticos do Mistério.

Os incrédulos são heréticos, velhos e caretas demônios da velha mídia, agentes malignos do capitalismo capeta.

Criatividade na velha nova mídia tem outros critérios. Crê-se no veja bem acima da lógica, da experiência e da sensibilidade. Uma espécie de transcendencia esperta.

Criatividade é como honestidade, não tem veja bem.

Mais coisas e menos bits

30/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 4 Comentários »

Os que creem no além túmulo, dizem que lá é tudo virtual, nada existe, que tudo não passa de fantasmagoria. Fantasmagorréia, isso sim, porque se além é esse “não me toques” todo, então viver é a celebração da pegação. A diferença entre uma alma penada e uma alma pegada é que uma pena e outra pega.

Mas por que diabos eu quero mais uma prótese virtual? Por que diabos vocês inventam esse monte de virtualidades para falar comigo?

Vocês acham mesmo que a gente não gosta de tocar, cheirar, beijar, abraçar, comer? Que a gente não gosta de ver com os próprios olhos, apalpar com as próprias mãos, lamber com a própria língua, chorar com as próprias lágrimas, sorrir com os próprios dentes? Que desistimos de olhar no olho das pessoas e dizer “te curto irmão”? Que perdemos o prazer de brincar com coisas de verdade, brigar com pessoas de verdade e bolinar pessoas de verdade? Que “de mentira” é melhor, mais bonito e mais barato que “de verdade”?

Então parem, por favor, com tanto desalmamento.

Quero uns óculos gigantes para ler no meu ipad. Quero um mega fone para ouvir meu ipod. Quero uma mega bolsa para carregar meu iphone. E que tudo seja bonito e dure muito mais do que preciso para poder trocar e trocar e trocar. Tá legal, podem ser sustentáveis, recicláveis, descartáveis, mas quero um gato, sapato, acetato e móvel, automóvel, de carne, osso, e alma.

E se quiser falar, comunicar, propagandear, dialogar, engajar, seduzir, apaixonar a minha pessoa pela sua coisa, seja homem, e não um inefável monte de cocô.

A internet matou as entrelinhas. #snif (por Rafael Buciani)

28/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 8 Comentários »

Quanto tempo faz desde que você contou uma piada pra meninada da internet no mundo real?  Você se lembra quanto tempo ela demorou para entender a sacadinha? Precisou fazer algum gesto com as mãos? Sacou um gravador com uma daquelas risadas fakes de sitcoms americanos?

Eu não duvido que isso um dia ocorra.

Me explico.

Na internet, o subentendido tem legenda. Piada vem com “kkkkk”. Ironia vem com “#not”. Sarcasmo vem com “:-)”.

Antes não era assim.

O ser humano nunca precisou de artifícios para passar uma ideia.  Machado de Assis nunca colocava “#not” nas suas ironias.  Tampouco Woody Allen escrevia roteiros seguidos de #hahahaha.

Ao mesmo tempo que qualquer porcaria vira piada (afinal de contas, basta uma legenda), citações inteligentes correm o risco de se tornarem indecifráveis para futuras gerações.

Será que estamos ficando burros?

Não sei. Mas já garanti meu gravador com risadas fake. #not

Literatura na Internet

28/09/2011 em Internet | Tags: , | 2 Comentários »

A ampulheta está cheia em cima e caindo. Lentamente. Dá tempo de escrever. Contar.

Vai caindo. Mais rápido. Pode-se elencar. Síntese.

Cai rápido. Só dá pra reagir. Espasmos.

Fim.

Quanto mais perto do fim, mais rápida corre a areia.

Em Moby Dick, Melville escreve trezentas páginas para avistar a baleia e mais trezentas para caçá-la. Um século depois, a mesma história teria mais personagens, mais ação e menos páginas. No cinema não passam de 80 minutos nas versões mais longas. Nesse blog, vai dar algumas frases. Em versão 140 caracteres: “A baleia Moby Dick comeu a perna do véio. O man ficou trolado e foi a caça.”

Lê-se mais, dizem, por causa da Internet.

Não se contam mais histórias. Nem se curtem mais as histórias.

Gosta-se de matar baleias. Sem enrolação, sem blablabla, muitas baleias. Nível 1, 2, três mil. Mais baleias que os amigos. O récorde de baleias.

Antes a gente contava.
Hoje só a síntese conta.
E já já, espasmos.

Desmiliguimos no tempo que escorrega na velocidade do fim de uma ampulheta.

O Facebook está catatônico

27/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 2 Comentários »

Ainda está chegando gente aos borbotões, atropelando-se e os amigos acotovelam-se para encontrar um lugar no mural do próximo. Talvez essa febre esteja no início, e quem sabe um dia, conseguiremos dar sentido à euforia. O vício é confortante. É blasé remar contra.

Mas a sinceridade nunca pode ser acusada de cafona.

Mesmo sendo uma bandeirinha que reafirma a existência num mar de conformismo preguiçoso, mesmo sendo o “hey eu existo” nosso de cada minuto, mesmo sendo um antídoto ao drama existencial, O Facebook estabelece contatos de primeiro grau, fortuitos e quase sempre gratuitos.

Então se não serve para celebrar laços, talvez seja apenas distração, entretenimento, deliciosa inutilidade solitária. Parece que já inventamos a literatura, o cinema, o video-game com outras mais envolventes imersões egoistas. Meia boca esse Facebook.

E se fosse só um amplificador verbal, para transbordar energia, um ladrão para nossa caixa de bobagens? Ou quem sabe sirva para aplacar nossa sede de bisbilhotagem, nossa curiosidade doentia pelo outro presumidamente melhor ou pior que a gente?

O Facebook talvez seja essa colcha de retalhos aí, esse repositório de interesses, um molambento e telegráfico consolo.

Mas isso não é nada. O problema é que desde que virou menino prodígio das manchetes e xodó da nova publicidade, o Facebook virou um feirão vulgar e confuso. Esquizóide. Catatonico. Nenhuma feiura será perdoada.

Que papo é esse de integração on-off line?

26/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 4 Comentários »

Parece que a imprensa especializada não vai parar nunca mais de gaguejar “on-line isso” e “off-line aquilo”. É falta de assunto ou gosto pela retórica: afinal de contas, por que será que ainda andam falando tanto de integração de disciplinas? Por que tanta energia é gasta para ensaiar modelos vencedores e apontar do dedo estratégias perdedoras?

Um marciano que resolva estudar a respeito, vai perceber que nos últimos 10 anos, as agências esnobaram, depois integraram, depois apartaram, depois integraram, depois apartaram, depois integraram, depois apartaram e continuam sem saber o que fazer. Se compram, se educam, se fazem parceria, se aculturam, se, se, se.

Essa busca por uma fórmula é vício mais do que virtude e entorpece um pouco a tomada de decisão.

O foco, por si só, já parece um contrasenso pois foco mais parece uma contingência financeira do que um default de largada. Já faz muito tempo que a comunicação deixou de ser passiva. Faz tempo que o ponto de partida de qualquer briefing de comunicação não é mais a verba ou a mídia: “tenho tanto dinheiro, otimize” ou “comprei isso, veicule nisso”. Pelo menos na ambição, não preenchemos espaços comprados. Os canais estão a serviço de um conteúdo e não o contrário.

E essa lógica, portanto, anula o raciocínio do foco na mídia e reestabelece o foco no conteúdo. A mídia forte não atrai, não engaja, não convence, a não ser pela repetição. Já um conteúdo forte atrai, engaja, convence por si só, onde quer que ele esteja disponível.

Que papo é esse de foco? Que papo é esse na integração das disciplinas on-line e off line? Que foco? Que discplinas?

Só existem duas disciplinas em uma agência de comunicação: a daqueles que focam nas mídias e a dos que focam nas pessoas. A primeira é velha, mesmo que on-line. A segunda é nova, mesmo que off-line.

Email e a bunda mole

06/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Na imigração, entrando nos Estados Unidos:

-       O Senhor trabalha com quê?
-       Propaganda.
-       Mas o Senhor acabou de vir fazem poucos dias.
-       É para uma reunião.
-       Eles não acreditam em email, na propaganda?

Também não acredito. Nem em muitas outras formas de comunicação presumidamente contemporâneas.

Já repararam no estrago que um email pode fazer, principalmente com aquela fila interminável de copiados? Aqueles que devem tomar uma providência, aqueles que devem ficar sabendo, aqueles que devem aprovar, aqueles que podem ter uma ideia, aqueles que não tem nada a ver mas é de bom tom que sejam copiados, aqueles para quem devemos demonstrar empenho, aqueles que devemos integrar. Os que devem tomar providencias aguardam a aprovação de quem aprova, mas os que devem ficar sabendo aprovam o que não devem, aqueles que copiamos por educação tomam providencias, aqueles que devemos impressionar respondem e quase sempre os que devem ser integrados apavoram com ideais do além.

E depois da confusão, aparece um bunda mole para dizer “não falei?!”

A modernidade não faz milagres: para melhorar tem que simplificar. E vivemos numa era em que todas as melhoras convergem para uma única obsessão: encurralar o tempo numa jaula. Agilizar, estreitar, encortar. E encurtar vem de cortar.

Tudo seria tão mais simples se levantassemos a bunda da cadeira com mais frequência.

Muita gerência e pouco projeto

25/08/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 5 Comentários »

A vida é cheia de projetos. O projeto de ficar com corpinho em cima, o projeto de casar, o projeto de viajar, o projeto de ficar rico, o projeto de relaxar com a pressão hedonista, o projeto de divorciar-se, o projeto de ficar mais em casa, o projeto de aproveitar mais a vida, e o projeto de ter menos projetos.

Para tocar tantos projetos, temos que saber administrá-los, gerenciá-los. Planilhas, listinhas, cronogramas, agendas, alarmes e vamos partindo a vida como salame, abusando da nossa capacidade de assoviar e chupar cana ao mesmo tempo.

Além de sermos homens, mulheres, pais, filhos, amantes, amados, caseiros, bohemios, responsáveis, desmiolados, profissionais, cantores, atores, esportistas, antropólogos, astronautas, arqueólogos e publicitários, também temos que ser gerentes de projetos, de tantos projetos.

Gerenciar projetos significa aproveitar o máximo. Ou seja, otimizar recursos. Ou seja, espremer. Até o último caldinho.

Em outras palavras, gerenciar projetos significa acabar com a preguicinha, a piadinha, o pipizinho, a piadinha.

Ainda, gerenciar projeto é perder um tempo enorme gerenciando e um tempo mínimo projetando.

O Anúncio da Kia, réu duas vezes

25/07/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , , , | 1 Comentário »

Tudo que o homem cria estará voando em nuvens virtuais de instantâneo acesso, mas enquanto estivermos encarcerados em pele, osso e músculos, a matéria será  nossa âncora existencial.

É de péssimo gosto usar o correio e pior ainda uma rede social para enviar um convite de casamento que deve ser impresso com letra caligrafada. Por que milhões se atropelam nos museus se há séculos somos capazes de precisas e fiéis reproduções? Tudo que se escreve estará digitalizado e a leitura dar-se-á em dispositivos apropriados, mas os livros ainda reinarão para as obras dignas de papel e tinta. Obras dignas de materiazar a criação.

Semana passada, cassaram leões de um anúncio de mídia impressa, sim impressa! O anúncio da Kia foi duplamente réu.

Menos importa o coro escandalizado dos puritanos. Já não interessa tal inveja. Culpa velha.

Mais interessante é o choro dos modernos. Nada mais vale e muito menos essa mídia morta que nos sepulta. Agora só é digno de nota, de esforço, de prêmio, o que flutua na rede, o que se integra em múltiplas plataformas, o que desdobra-se, multiplica-se, em incontáveis canais, insondáveis engajamentos, inefáveis resultados. Um anúncio, criado para papel e tinta, em linguagem de HQ, veiculado numa revista que se vende em bancas? Bobageira e cafonice. Moderno sou eu!

Não tem digital integrated, então não presta?

Já tarda o tempo de inverter a lógica: não tem mídia morta, não merece nem um anúnciozinho, um filmezinho na televisão? Talvez a idéia não seja nem tão boa, tão digna, tão nobre, tão merecedora de posar, em papel e tinta, no  anuário de criação.

Celebridades e a redenção da Internet

21/07/2011 em Internet | Tags: , , , , | 5 Comentários »

Tenho uma grana sobrando. Quem me aconselha melhor? O amigo do peito que tem uns trocos investidos ou no desconhecido que manja de dinheiro?  Tenho uma proposta de trabalho. Quem me aconselha melhor? O parceiro que me conhece como ninguém ou meu ex-chefe que admiro? Vou ao cinema. Quem me aconselha melhor? Meus contatos do facebook ou o chatonildo que escreve no jornal sobre cinema?

Em quem confio mais?

Na sabedoria do povo ou no poder da sabedoria?

Essas prosaicas interrogações estão no centro da revolução cultural que vivemos. Desde que quebraram-se as estruturas de poder da circulação de informação e conhecimento, vivemos uma enorme crise de confiança e navegamos à deriva, num mar de incertezas.

O primeiro movimento creditou muita energia no sufrágio da maioria. Na sabedoria do povo. Quando a Internet abriu a porteira da livre expressão, fomos enebriados pela extaordinária produção represada de conhecimento, que emanava da maioria anônima. Foi nessa febre que estabeleceu-se uma equação nunca antes imaginada entre colaboração e qualidade. Wikis, jornalismo cidadão, blogs colaborativos, redes de conhecimento alternativas, etc. Esse primeiro estágio era uma reação do tamanho da opressão que vivíamos: o poder concentrado (da informação e conhecimento) ditava o rumo da cultura. Era a tirania do braodcast em todas as esferas: nas instituições políticas, na mídia, na iniciativa privada, no poder paralelo das grandes marcas.

Mas parece que já estamos vivendo um contra-fluxo e o sinal precursor desse movimento é o novo poder que emerge agora: o poder da celebridade. Não há dinheiro nem poder suficiente para fazer uma marca ganhar relevância se ela não associar-se com uma celebridade. As marcas (de produtos, de imprensa, de instituições, etc) estão a cada dia mais dependentes desses imãs de relevância. Principalmente na Internet (que é o que importa).

O que isso significa?

Significa que as pessoas, novamente, estão buscando credenciais culturais para aderir ou acreditar. O amigo do peito ou da rede não dá mais segurança suficiente para aconselhar. Nem a soma dos amigos do peito ou da rede. E se hoje, acredita-se na celebridade, é uma transição para voltar a acreditar também na reputação construída sobre conhecimento e não apenas intimidade (amigo do peito) ou fama (celebridade).

Cala a boca Mané

20/07/2011 em Internet, Sei lá | Tags: | 5 Comentários »

Temos hoje infinitas formas de nos comunicar. A cada dia, surge uma nova e excitante ferramenta. Como é que o mundo funcionava quando nossas bisavós precisavam mandar o filho com um recadinho para a parteira vir socorre-la? Hoje ela mandaria um viber para cinco médicos diferentes, a família e os padrinhos. Ou, mais simples, faria um parto monitorado remotamente com uma junta médica internacional pelo Skype.

Mas ao mesmo tempo que ganhamos tempo e qualidade, perdemos objetividade. O moleque, a menos que resolvesse dar um mergulho no rio e roubar uma manga da vizinha, era o único mensageiro. Hoje, tudo é compartilhado, pedimos a opinião de Deus e o mundo, e as mensagens se esfacelam na velocidade da luz.

O email é o exemplo mais gritante de inoperância.

Alguém manda uma solicitação por email para os envolvidos diretamente e para uma penca de outros que precisam participar da decisão “vai-quê!” (também conhecidos como fyi). Todos respondem para todos, inclusive os “vai-quê!”. O que era uma distribuição de tarefas vira um sufrágio de opiniões. O que era um recado, vira uma assunto, o que era um assunto, vira um colóquio, o que era um colóquio vira uma eleição, o que era uma eleição vira uma Babel.

Por isso, todo email, além de CC e BCC deveria ter um CBM (Cala a Boca Mané) e um QMA (Quem Manda Aqui).

A lenga-lenga da Internet

19/07/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 6 Comentários »

Desde que a Internet virou uma coqueluche que saiu do guetto de meia dúzia de pioneiros, a pressão tem sido grande por uma mudança radical nas qualificações de profissionais de agências de comunicação.

Vamos desobstruir o vazadouro para aliviar.

Especialista não existe. Todos, inclusive os desejados “digital natives”, sentem-se como surfista em dia de ressaca: muito desejo e apreensão nutridos diante da imprevisibilidade do ambiente digital. Os pretensos experts encastelam atrás de supostas técnicas de mensuração. A mística é sedutora mas vale-se mais da fé do que da matemática. Ou quando muito e como sempre foi, prevêm o futuro baseados no passado, portanto chutam, com muita técnica, mas chutam. Especialista é quem admite a incerteza.

Por outro lado, é cômico perceber que quanto mais envolvidos são os profissionais com o suposto novo mundo, mais histéricos detratores se tornam do velho. É como se só pudessem construir sobre as cinzas. O contrário também existe, mas está tão – mas tão fora de moda – que nenhum cético ousa posar de bacana. Mas é irônico perceber que o velho tende a comprar o novo com mais competência. E aqueles que muito esbravejam acabam mordendo a língua, lustrando a imaturidade (já caducando, aliás).

Finalmente, “saber fazer” não significa “saber pensar”, assim como “saber pensar” não significa “saber fazer”. Saber projetar e implementar uma plataforma complexa de mídias sociais não significa necessariamente que a ideia seja boa. Assim como ter uma boa ideia não garante sucesso sem viabilidade de execução. Engana-se aquele que justifica uma ideia na execução assim como aquele que sacrifica a ideia para que seja exequível.  Mais parecem defesas recíprocas pois ideia e execução são irmãs xipófagas.

E se ao invés da pressão, a Internet servisse como banho de humildade para ambos os lados da quimérica separação entre on-line e off-line?