Artigos na categoria ‘Internet’

O que perdemos se um webmaster bêbado apagar todos os blogs jamais escritos?

29/07/2010 em Internet | Tags: | 3 Comentários »

Quem sabe, um dia, alguém escreva uma “estética do blog”, mas enquanto a arte, entre aspas, de escrever blogs ainda é imatura e, graças a Deus, efêmera demais para configurar um estilo próprio, é possível ensaiar algumas tipologias dos diferentes estímulos à expressão escrita mais popular do século.

- Blogs de uma vida monótona. Esses são os blogs do tipo Diários, anotações esparsas, fragmentos de experiências, pensamentos, sentimentos. Configuram uma compensação psicológica ao drama de ter que acordar todos os dias para viver a mesma vida da véspera.

- Blogs de uma vida tolhida. Nesse tipo, o principal estímulo é libertador, escreve-se neles por falta de espaço, no sentido próprio e metafórico, nos canais alimentares. É onde pode-se dizer o que não se poderia dizer. Inclusive besteiras.

- Blogs de uma vida opaca. Já nesses, o que excita os escrivinhadores é ganhar notoriedade através de uma ebulição mental e criativa que acham merecer tornar-se pública. Esses são os blogs da sonhada fama eminente, para entreter a turma, a turba.

- Blogs de uma vida passiva. Aqui, os blogueiros são aguerridos, revolucionários, transformadores. Jogam ideias e observações mais poderosas do que toda a ação da Cruz Vermelha, dos Médicos e Jornalistas sem Fronteiras do que a ONU.

- Blogs de uma vida alienada. Esses são deliciosos retratos da contemporaneidade. São os blogs que se acham porque seus autores se acham porque disseram que todo mundo tem direito de se achar. São a expressão de ervilhas enlatadas e saltitantes. Alegres, narcisistas, exibidos. Escritos para alegrar o umbigo, sem nenhuma vergonha nem autocrítica.

Tem mais, mas esses são os mais comuns, tão comuns como comum, banal e vulgar metamorfoseia-se hoje a expressão humana.

E um dia, para nossa sorte, um webmaster bêbado, apaga os servidores.

Tanto dito e tão pouco a dizer

20/07/2010 em Internet | 3 Comentários »

Só existem dois tipos de discursos.

Aqueles que rezam pelo adágio “o maior prazer está em posar de inteligente diante de uma plateia de idiotas” e os outros que acreditam que “o maior prazer é bancar o idiota para os idiotas que posam de inteligentes”.

Os primeiros acreditam que são mais inteligentes que os outros, os segundos sabem que são tão idiotas quanto a maioria.

Os primeiros se levam a sério, os segundos só levam a sério o humor.

Toda obra literária, inclusive a dos blogs, redes sociais e outros twitters, é um exercício que balança entre esses dois extremos.

Distinguir os dois polos é toda a arte da leitura e um remédio para suportar a medíocre metralhadora à qual estamos submetidos, à nossa revelia, nesses tempos de tantas vozes e tão pouco a dizer.

O exibicionista útil e o exibicionismo star system do Twitter

19/07/2010 em Internet | 3 Comentários »

Entrar no palco, encarar uma multidão, mesmo quando as críticas são menos que as expectativas, mesmo quando a técnica escravizou a segurança, exige muito mais do que disciplina e senso do dever. O medo do outro oprime, seja ele familiar ou novo.

E, assim, a arma mais poderosa, universal e disponível para enfrentar as plateias é a vaidade.

O performer, em qualquer atividade e para qualquer finalidade – artista, político, palestrante e até numa simples reunião com meia dúzia de colegas ou clientes – precisa-se do gás e da armadura fornecida por uma dose de exibicionismo. Todos aqueles que pretendem galvanizar uma plateia – até as mais prosaicas e menos flamejantes, uma reunião de amigos até – desempenham melhor se souberem aflorar seu lado “drama queen”, carente de reconhecimento, louvor e aplausos.

Sem exibicionismo não há espetáculo, nem sedução, nem paixão.

É muitas vezes difícil aceitar, reconhecer, assumir e muito difícil admirar, mas o revés da moeda do comunicador é o exibicionismo.

Mas há uma fronteira nem sempre clara entre o exibicionismo útil e o exibicionismo do star system. O perigo é confundir os dois. O primeiro é arma; o segundo, armadilha. O primeiro traveste, o segundo escraviza.

Tantas são as tentações que embrulha o estômago, por exemplo, reconhecer o exibicionismo do “sistema da fama pela fama” das redes sociais.

É sempre mais simples, mais tentador, mais fugaz também do que disciplinar o ego e utilizar a vaidade a serviço de uma ideia e de um discurso, simplesmente para vencer o medo da plateia.

Rasga-se o soutien, mas o peito sempre cai

16/07/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Quando dissemos que a televisão estava em estado avançado de putrefação, que os jornais que embrulhavam os legumes na feira seriam substituídos por outras formas mais inteligentes de suportar conteúdos, que a propaganda tradicional estava nos estertores de mentalidades engessadas e caducas, a gente se libertou, rasgou o soutient.

Quem não passou por essa alforria dos discursos e dos paradigmas ainda não aposentou as chuteiras mas perdeu uma grande curtição.

Mas quando percebemos que o peito sempre acaba por cair, a gente encontra dois tipos de postura no mínimo surpreendentes.

A primeira é daqueles que despertaram com uma década de atraso e manifestam um entusiasmo adolescente pelas formidáveis transformações em curso. Nunca é tarde para rejuvenescer, claro, e o tempo perdido é fácil de recuperar. Basta ser capaz de observar e se observar. Mas o que irrita é quando as descobertas “recentes” dessas pessoas são mascaradas pela presunção característica da experiência. Esse tipo de atitude cega o caminho, sempre melhor, que é o do meio.

Mas a segunda é mais maluca ainda e diz respeito àqueles que já nasceram em outra realidade de consumo de meios e perseveram com o discurso e a prática revolucionária. É inacreditável que existam pessoas mais jovens que super-valorizem as mídias ditas “novas” (não tão novas), em detrimento das velhas. É como ver um comunista de 20 anos, de barba e punho em riste, em pleno século XXI, ou um yuppie com 20 primaveras que fala que os fins justificam os meios.

Nem dá raiva, dá é sono, porque a raiva pelo menos excita.

Ipad não serve pra ler, só pra ver e lamber

15/07/2010 em Internet | Tags: , | 13 Comentários »

No Brasil, as pessoas passam mais tempo na TV do que jogando videogame. Entre o game e a Internet deve ter empate técnico, mas certamente mais tempo na Internet do que fazendo amor, conversando com os filhos ou lendo um livro ou um jornal.

A gente queima as pestanas para achar os culpados. E claro, o maldito preferido é o governo, que não dá educação. Ou o presidente que é ignorante, mas já houveram outros tão incrivelmente educados, de fino trato, e coisa e tal. Ou então os portugueses, esses degenerados.  Ou a elite que não quer gente estudada para questionar o sistema de classe. Ou os pobres coitados que são uma mistura infeliz de raças preguiçosas.

Balzac passava páginas e páginas descrevendo a aparência física de uma pessoa. E, através dessas longas e precisas linhas, ele também revelava sua personalidade, sua alma, seu destino. Balzac e Swift ganhavam por linha escrita nos jornais em que publicavam seus livros.

O fato é que ninguém quer saber de ler coisa nenhuma. Para piorar, vem essa Internet que organiza ou desorganiza o conhecimento em fragmentos esparsos, sem garantia de origem, nem direitos, nem censura. E se perguntarem para 10 pessoas que desejam ardentemente o que pretendem fazer com seus iPads, nove vão responder que é para ver vídeos, ouvir música, ver fotos e papear nas redes sociais. Quem disse que o iPad vai substituir o livro ou o jornal está redondamente enganado.

O livro ou o jornal não vão ser substituídos, serão banidos de nossa existência, apesar da modernização dos suportes.

E diante desse cenário em que a cultura da imagem, do movimento, da síntese ou da imersão protolisérgica das narrativas venceram a contemplação, as descrições e o culto do estilo, não adianta sentir saudades.

A culpa está em nós. Não é o governo que não dá escola. Somos nós que não vemos mais tanto interesse em ter filhos aprendendo tabuada.

Não é o presidente que é ignorante, somos nós que lemos menos de um livro por ano e nos informamos aos frangalhos no google, no orkut ou no twitter.

Jornalismo participativo não é jornalismo de auditório

13/07/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Há uma crítica generalizada que se dirige à qualidade do assim chamado jornalismo cidadão, ou participativo. Pouco compromisso com a qualidade das fontes, responsabilidade ética duvidosa, anonimato que mascara intenções questionáveis, investigações superficiais.

Se por um lado, ainda no susto de uma incontrolável concorrência surgida sem compromissos comerciais, legais ou de reputação, a mídia tradicional reagiu (e ainda reage) com inocência, dando voz indiscriminada aos comuns cidadãos, por outro, a liberdade é inebriante para aqueles que repentinamente descobrem um canal de expressão universal, simples e sem censura.

Ainda vivemos um longo período de adaptação, no qual, uma vez vencida a pretensão magoada dos antigos e o frenesi adolescente dos novos, o tributo sociocultural que a Internet, a termo, permite é alvissareiro.

Mas parece que, por parte dos antigos detentores e distribuidores da informação, ainda há um longo caminho de compreensão do fenômeno.

O mais recorrente argumento diz respeito, evidentemente, à qualidade da informação. E é simples verificar que, de fato, quando a mídia tradicional permite, sem discriminação, a manifestação de seus leitores, o resultado é geralmente ruim, superficial, mal escrito e personalista (“eu acho” ou “para mim” são os preâmbulos de 2 em cada 3 comentários em sites de notícias). O público, ao expressar-se, não percebe com muita clareza ainda que um veículo de comunicação, seja ele em que plataforma for, deve respeitar a regra do interesse comum. Um jornal ou um blog “jornalístico” não é confessionário ou divã. Portanto, achismos são menos interessantes que argumentos.

A tese, no entanto, não deveria ser tão conclusiva, a ponto de virar axioma das redações, que ridicularizam consciente (para os mais ousados) ou inconscientemente (para os mais pretensiosos) o jornalismo participativo, reduzindo-o muitas vezes a uma espécie de sufrágio de opinião pública, obviamente sem nenhum valor.

Cabe, sim, às novas redações, aos novos jornalistas, assumir uma nova função que consiste na capacidade de lidar com um fluxo muito maior de informação, oriundo agora, para além das tradicionais fontes, dos próprios leitores. Isso exige trabalho e ferramentas, além de boa vontade. Cabe ao jornalista devidamente munido dos adequados recursos a função do filtro editorial exponencialmente extrapolado. Não se trata mais, apenas, de publicar qualquer bobagem só porque “foi dito por um leitor”. Essa “tendência” já caducou há anos e perdeu totalmente a relevância, inclusive para dar ares de modernidade às redações. Por trás de cada editor deveria existir uma espécie de trackeador de fonte, subeditores – automatizados ou não – que peneiram, na montanha de canais de recepção de informação, aquelas que realmente são capazes de enriquecer o conteúdo.

Por outro lado, um paradigma importante deve ainda ser quebrado. Ainda que as fontes explodidas vindas dos leitores possam ser difíceis de filtrar, deve-se acreditar na seleção natural. A termo, informações equivocadas ou mal intencionadas são naturalmente expelidas pelos próprios leitores e algoritmos automatizados. Se a Wikipedia tem muitos verbetes equivocados, a esmagadora maioria deles está correta ou vai se corrigir com o tempo, rapidamente. Assim sucede também com a nova função jornalística que, sem furtar-lhe o dever de filtro expandido, deverá crer na capacidade de autocorreção.

Se não queremos perder-nos no obscurantismo cultural, se não queremos que as novas gerações informem-se apenas no jornalismo humorístico de auditório e nos scraps das redes de relacionamento, é tempo de encarar a participação dos leitores com mais inteligência e menos parti-pris.

O Mundo não está perdido

12/07/2010 em Internet | Tags: , | 2 Comentários »

Semana passada, selou-se um memorável acordo: a troca de participação do mais tradicional jornal da França, “Le monde”, mais que uma empresa jornalística, uma instituição nacional.

Por mais de 100 milhões de Euros, três investidores assumem o desafio de salvar o jornal: Pierre Bergé, Xavier Niel e Matthieu Pigasse.

O que tem de surpreendente essa nova investida para enfrentar os tempos bicudos que assolam os jornais de todo mundo há vários anos? O que tem de arrojado o compromisso que derrotou a poderosa oferta do Nouvel Observateur (uma espécie de Veja no conteúdo e na ideologia), do Grupo Prisa (uma espécie de Abril nos tenáculares poderes) e da France Telecom (uma espécie de estatal privada)? O que tem de irônica essa vitória que tanto desagradou ao presidente Sarkozy, com seu apetite pela cobertura midiática e que enfrenta os piores indices de popularidade já registrados por um presidente francês?

Acima de tudo, a biografia dos novos donos da casa.

Por detrás das manchetes “people” que estampam Pierre Bergé como companheiro por décadas de Yves Saint Laurent, há também o formidável empresário que construiu a marca YSL, o homem de grandes causas como a Sidaction, a bem sucedida campanha de arrecadação de fundos para a luta contra a Aids na França, o amigo dos socialistas poderosos, o idealizador e proprietário de “Tétu”, a revista GLS mais influente do país. Bergé também é um homem com um gosto apurado pela cultura e manifestações artísticas.

Xaviel Niel é o mago da Internet que dá dinheiro. Proprietário da Free, o maior provedor de acesso à Internet na França, Niel começou sua carreira criando os endereços de encontros eróticos no Minitel (o avô francês da Internet commercial). É também um feroz e contundente defensor da liberdade na Internet, opondo-se do alto de sua imagem de “enfant terrible” do empresariado francês e 12o homem mais rico do país, à todas as tentativas de coibir, legislar ou regulamentar o acesso (como a lei Hadopi, um projeto anti-diluviano que restringe e pune os infratores do direito autoral on-line).

Matthieu Pigasse foi o mais jovem talento a assumir a direção geral do banco de investimentos franco-americano Lazard Frère, aos 34 anos. É um empresário que curte Beckett e recita Spinoza, além de ser fino conhecedor do Rock. No ano passado, adquiriu a revista Inrockuptible, um sucesso de vendas há anos na França, e talvez a mais importante publicação independente de cultura jovem do País.

O Le Monde vendeu no ano passado, em media 288 mil exemplares (dos quais 130 mil assinantes) por dia, ou seja uma repetição paulatina das quedas de tiragem dos anos anteriores: – 4%.  O grupo emprega mais de mil pessoas, dentre os quais 280 jornalistas só para o jornal.  Além do jornal, a empresa possui revistas (Télérama, La Vie, Courrier International e Monde diplomatique) e uma plataforma na Internet (lemonde.fr e lepost.fr). Apesar da diversificação e dos investimentos continuados em meios digitais de fazer inveja a qualquer periódico brasileiro, Le Monde acumulou um prejuizo de 25 milhões de Euros só em 2009.

É evidente ainda que o contrato de controle acionário prevê total e absoluta independência editorial à redação. Os novos donos do jornal não podem, por contrato, ter qualquer ingerência no conteúdo dos veículos, sendo esse integralmente controlado por um conselho editorial de jornalistas. Ainda que essa ética nos pareça ficção, principalmente no nosso país em que os principais jornais são de propriedade majoritária de famílias que nem sempre são fãs da deontologia e transparência, esse tipo de estrutura é comum no mundo, digamos, tarimbado de civilização.

Ainda que não se possa prever com exatidão quais serão os movimentos de mudança pelos quais o Le Monde irá inevitavelmente passar, é de admirar-se e encher-se de esperança com a guinada modernizadora ancorada pela biografia dos novos donos do jornal.

É de um novo protagonismo que a mídia carece, aqui como lá. De ar fresco, sangue nos olhos, menos pretensão e mais ousadia. Caso contrário, a condenação, ainda que não venha por mecanismos mercadológicos e econômicos, virá por atentados democráticos e culturais irreversíveis. Ainda que não percamos nossos respeitáveis jornais, perderemos as novas gerações.

Artigo originalmente publicado no Meio & Mensagem de 11/07/2010

“Profissão repórter”: jornalismo redentor

18/06/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

As curvas de audiência/leitores dos conteúdos jornalísticos nos principais veículos de comunicação vêm caindo (despencando?) em velocidades maiores nos targets jovens do que a queda (acomodação?) da audiência geral.

Antes de construir algumas hipóteses (alarmantes?), vale descartar a explicação fácil: se a audiência dos tradicionais está caindo e a dos novos está crescendo, isso não significa necessariamente uma transferência de um para o outro. As plataformas digitais são talvez aquelas que mais facilmente permitem superposição da atenção. A Internet é um estímulo irresistível ao comportamento multitarefa. Por outro lado, a pulverização dos meios novos (novos?) é tamanha que é impossível estabelecer quantitativamente algum tipo de correlação entre a queda de uns e o crescimento de bilhões. Por fim, se qualquer crescimento (da audiência do conteúdo jornalístico da Internet) é grande quando ele parte de muito pouco, difícil é levantar depois de uma certa, digamos, experiência.

As hipóteses a seguir são possibilidades concomitantes mas merecem ser isoladas para que a análise tente ser mais cristalina.

A primeira hipótese (catastrofista?) é a de que o gênero simplesmente não interessa mais aos jovens. É dizer que nesse mundo pós-pós-moderno, o cérebro da molecada é composto de fractais de atenção, que se multiplicam, desdobram, perdem-se, ao infinito. Nada gruda, nada pega, nada entusiasma, inflama, excita. Se assim for, o jornalismo sempre será refém das quedas de avião e dos julgamentos espetaculares. Ai do futuro dos nossos valores de outrora.

A segunda possibilidade (conformada?) é que de fato o jornalismo broadcast, de cima para baixo e ideológico caducou. Essa possibilidade confronta uma revisão da autoridade como decorrência de conhecimento e experiência. Ou seja, não acreditamos mais que a reputação de um jornalista ou de um veículo possa ser fator de seu passado e de seu pedigree intelectual e técnico. Acreditamos mais no mais próximo e nos nossos relacionamentos que procriaram repentinamente. Reputação se conquista com seguidores e não com currículo. Ai de nossos velhos dias.

Mas talvez (inshalláh!) possamos também encarar a nossa fórmula de construir o conteúdo jornalístico com um olhar de implacável crítica. O jovem, confrontado com uma realidade cada vez mais intrincada, inter-relacionada, organicamente conectada, não se excita mais com o jornalismo cortado em fatias editoriais. Qual a história das mentalidades, que decretou o fim da visão cronológica (como um salame: a Antiguidade, a Idade Média, o Renascimento, etc.) e anunciou uma visão temática do mundo (como um repolho: o amor no ocidente, a loucura, o mal), o jornalismo que fazemos deixou de ser crível e apaixonante. Economia, finanças, política, comportamento, cultura, esporte, por que não aposentar os velhos especialistas, cada vez mais arcanos e iniciados?

Por que o jornalismo não pode ser um contar de histórias (mil e uma noites?) interminável, uma novela que documenta o mundo em temas transversais e universais? Uma espécie de realismo ficcional. Queremos (jovens e velhos) consumir o mundo como uma fantástica história, cheia de perigos, esperanças e heróis.

O Twitter é uma rede egosocial

16/06/2010 em Internet | Tags: | 5 Comentários »

E agora, depois das pérolas de sabedoria com 240 caracteres, a competição no twitter é pelas pérolas de humor. É o jeito de encontrar mais seguidores no sentido mais superficial da idéia, ou seja, fãs.

O twitter é uma plataforma em gestação?

Pessoas praticam seu onanismo exibicionista com volúpia. Ou quem sabe, seja só uma espécie de incontinência de visibilidade, ao sabor das pautas do dia a dia. Tem lá sua função, catarse ou egotrip, porque desopila a mediocridade que nos achata.

Mas função mesmo individual, para além da função de se auto-propagar, pouco se encontrou.

Talvez não passe disso mesmo. Talvez o Twitter não seja uma rede social coisa nenhuma. Talvez seja só uma ferramenta de auto-promoção.

Talvez o Twitter não seja uma plataforma colaborativa coisa nenhuma. Talvez seja só um almanaque de curiosidades.

Talvez o Twitter não seja nem uma ferramenta de comunicação. Talvez seja só um divã barato e sem compromisso.

E se for só isso, tá bom né? Para que tanta onda, tanta ciência, tanta estratégia?

Nossa propaganda da geração espontânea

15/06/2010 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Faça assim: pegue uma camisa de marinheiro, dessas bem fedidas e jogue no porão de um navio. Espere alguns meses e quando você menos esperar, daquela coisa podre, nascerão milhares de horrorosos mickey mouses com peste bubônica.

O povo tem se acanhado cada vez mais em programar e defender as chamadas mídias tradicionais. É quase como se estivessemos pedindo desculpas: “olha, aqui vamos fazer uma campanha de televisão, mas não se preocupe, vão ser filminhos de 30 segundos, daqueles lá que se fazia antigamente, com atores, trilhas e tal, sabe? Mas veja que todo o suporte de mídias stroboscópicas vai complementar a estratégia”.

E até situações mais inusitadas ocorrem: “caro cliente, essa é uma coisa revolucionária, vai acontecer bem devagarzinho, nas mídias sociais, e vai crescendo, crescendo, crescendo de tal forma que não vamos precisar de nenhum único filmezinho na televisão, nem revista nem coisa nenhuma. Vai ser uma bafafá e iremos cobrir todo o nosso target apenas com a boa vontade da mídia falada, escrita e televisionada que vai se acotovelar para publicar nosso feito”.

Ou mais psicodélico ainda: “vamos criar um fato novo, que nunca ninguém sequer imaginou possível. E sabe o que vai acontecer? Não vamos fazer nenhuma mídia e sequer vamos precisar produzir nada. É uma espécie de estratégia pré-pasteuriana: vai ser tudo geração espontânea. Quem tem que nos consumir vai também nos divulgar.”

Ficou tão escalafobético mostrar um mapa de X que os mídias estão com os dias contados. Ou os planejadores já que tudo é espontâneo e intuitivo. Ou os criativos porque estão terceirizando a mão de obra com os consumidores.

E no final, para a broxada geral, a decepção e a mágoa, vem o dono da caneta que nos lembra que ele comprou um pacote de televisão. O dono da batata que avisa que no dia seguinte ele quer todas as Severinas fazendo fila na porta da loja. Ou nerd maldito: caiu o servidor. Ou o patrão que só se arrisca nos festivais.

Pergunta ingênua: qual foi a última vez que você trabalhou, como consumidor, para uma dessas campanhas de mídias sociais? Não minta: eu disse trabalhou, ou seja, acompanhou, seguiu, produziu, espalhou, tudo ao mesmo tempo, como se fosse a última coisa que você quisesse fazer na vida?

Novela: a crônica medieval no século XXI

14/06/2010 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

E antes era assim: se o cara morasse numa aldeia perdida no meio do nada, numa tapera qualquer, passaria a vida por ali, lavrando a terra e olhando para o infinito com a esperança de que, um dia, quem sabe, uma caravana o levasse para longe. Ou ele pegava a trouxa e, com vagos sonhos e muita fome de liberdade, rumava para a capital a perder-se no anonimato.

O enraizamento irremediável ditava a sorte dos desvalidos. E não faz tanto tempo assim, a televisão não era mais do que inviável realidade qual literatura que se lê mas não se vive. A novela das 8 ainda crê nesse tempo revoluto, de cartas não respondidas e esperas intermináveis e de juras escondidas nas trapaças dos vilões. Trama medieval. Literatura que não se vive.

Num piscar do computador, um encontro salvador, um apelo redentor, uma descoberta muda a vida de uma pessoa. É possível, é fácil e é irresistível.

Talvez tenhamos que reinventar o papel da dramaturgia televisiva. Retratar a vida real, nas telas, é, na melhor das hipóteses, monótono e, na pior, embrutecido. Retratar as vizinhas, as ricas, as pobres, os vilões maldosos, os bem-intencionados fodidos, temperado com tramas e diálogos de envergonhar um colegial, é achar que a Dona Maria (porque insistem em achar que Donas Marias são o target principal da televisão) é uma Severina desconectada.

Aposentem as fórmulas prontas, as pesquisas de público e os novelistas de pijama porque a realidade que está a um clique de ser vivida é mais excitante que a pretensa fantasia da televisão.

Internet: perda de tempo

01/06/2010 em Internet | 8 Comentários »

E se a Internet não passasse de um complô divino para deixar as pessoas mais confusas, menos informadas e mais superficiais?

Não é totalmente imbecil considerar a absurda hipótese, nem que seja para fins de análise de cenário. Afinal de contas, bastam algumas pequenas auto-observações para configurar a dúvida.

A nossa conexão hiperbólica consome tempo, muito tempo. É, portanto, vital para acompanhar o ritmo do mundo moderno, fragmentar nossos mergulhos – ricochetes – nos conteúdos.

Lemos manchetes cada vez mais resumidas, cada vez mais superlativas, nos portais de notícias cada vez mais sintéticos. Ou contentamo-nos com os verbetes do Google. Ou com os comentários nas nossas redes que dão conta da necessária credibilidade. Conteúdos em vídeos que passam de insuportáveis 5 minutos são zapping certo. E o tempo médio de permanência num site se mede em minutos quando o tempo médio de leitura de jornal se mede (ou media) em horas, da TV, dias.

Mas continuamos desesperadamente ocupados, com nossas vidas completamente cronometradas. E nosso lazer não se mede mais em horas, mas em minutos; nosso sono, em horas; nossa vida, em meses.

Não parece que estamos mais informados nem mais cultos. Só mais rápidos.

De concreto mesmo, por enquanto, a Internet nos trouxe falta de tempo. O resto são votos piedosos.

O jovem divorciou-se do jornalismo?

31/05/2010 em Internet | Tags: , , | 4 Comentários »

Outro dia, num evento lotado de gente bacana, jovens na maioria:

- Tem muita reportagem de televisão aqui, né?
- Pode crer. É para meus pais essa parada.

Era assim que os dois analisavam a cobertura jornalística do acontecimento, referindo-se em particular à equipe do CQC presente para seus rompantes.

Não existia possibilidade de ir para a escola e depois para a faculdade sem ter lido o jornal, de preferência a Folha, e obrigatoriamente a Ilustrada, que muitas vezes carregávamos dentro do caderno. Ler jornal era uma questão de sobrevivência social. E também era importante ver o Jornal Nacional e ler a pré-degringolada da Veja.

Responsabilizar a Internet pelo desinteresse da molecada pelo jornalismo tradicional, broadcast, encurta demais o raciocínio. Sim, a função hard-news desempenhada pelos veículos tradicionais perdeu algum sentido. Sim, a fome por liberdade e voz é incomensurável.

Mas, sem dúvida nenhuma, a responsabilidade é no mínimo compartilhada. Muito pouco ou quase nada se fez nos jornais, nas revistas e na TV – o rádio é um caso à parte – para entender o novo contexto do consumidor de notícias, particularmente o jovem.

As incorporações “participativas” do jornalismo cidadão nos veículos tradicionais são um truque muito meia-boca para dar conta do recado de reconquistar, seduzir e fidelizar o jovem. Sempre soa como um arremedo que não parece funcionar em plataformas nascidas para serem broadcast.

Por outro lado, os esforços de reforma editorial tampouco parecem ser fundamentados ou inspirados para atrair nossos leitores/espectadores do futuro. Parecem maquiagem porque pouco se ousa em nome daqueles que ainda não aposentaram seus hábitos. Quem assumiria o risco de enfrentar o vovô, enfurecido cada vez que seu jornal muda uma coluna de posição?

Por isso, talvez seja mais inteligente e rápido criar produtos paralelos, mais ousados, para aprender e experimentar o diálogo com essa galera que acha que jornalismo é coisa de paizão querendo saber o que está acontecendo com o mundo, com a rua, com o jovem.

Uma online mais careta do que a mais careta das offline

18/05/2010 em Internet, Propaganda | 9 Comentários »

E lá vem mais um gaiato pontificar enfaticamente sobre o que não sabe: o gringo da Razorfish atirou mídia contra mídia, TV contra Internet, através de um falacioso argumento. O BV seria o culpado entre a prática real do comportamento online dos brasileiros e o “dinheiro gasto pelos anunciantes em publicidade na televisão”.

Pouco importa saber sob que impulso suicida ele fez a afirmação, ele que representa uma empresa de um dos maiores grupos de agências do mundo, que, no país, tiram boa parte de suas receitas justamente da TV.

Para além da ingenuidade batida, sua conduta é no mínimo injusta e no máximo ofensiva.

Se ainda podemos discutir a tal da “lacuna entre o comportamento online do brasileiro”, é irresponsável incutir às agências um comportamento viciado e vicioso de “privilegiar” uma mídia em detrimento da outra por conta do BV. A menos que exista uma secreta pesquisa que dá conta da “boutade”.

Mas polêmica de neófito não faz verão. Sequer vende notoriedade.

O que cabe debater sim é qual é a visão que se tem do consumo de mídia das pessoas, dos brasileiros. E isso transcende o discurso comercial em muito.

Todas as pesquisas, todas as visões, todas as teorias até,  dão conta de que as pessoas consomem complementarmente todas as mídias, numa sofreguidão infinita. As escolhas são elásticas como nunca imaginávamos que fossem.

Que discursinho mais velho, careta e nanico. Vai pra casa, vai!

E a liberdade de expressão da boca pra dentro?

12/05/2010 em Internet | Tags: | 6 Comentários »

A liberdade de expressão é uma quimera que acalentamos. É um direito garantido constitucionalmente. E enche a boca de todos aqueles que se sentem minimamente atingidos ou pressionados.

No entanto, franquia de ideia e de opinião tem preço. E muito alto em tempos de incontinência comunicativa.

Nenhum insano fascista seria capaz de defender o controle da imprensa, tampouco de impor regras de censura. A imprensa livre garante o equilíbrio democrático. Esse é o chavão inapelável que rege a bem pensante burguesia.

Tampouco é possível penalizar “delitos” de opinião individuais. Todo mundo tem o direito preservado de achar o que quiser de quem quiser e do que quiser. E esse direito se estende também para qualquer forma de expressão, da conversa de bar ao libelo amador, do Facebook ao Twitter.

A imprensa, que tanto empunha a bandeira da preservação da liberdade de expressão e que em regimes razoavelmente livres tem defesa assegurada pela opinião pública, no entanto, evolui em um sistema que preserva seu direito de controle da opinião manifesta de seus funcionários. O direito da empresa (de reprimir ou demitir) se sobrepõe ao direito individual de expressão.

É ilegal discriminar, no seio de uma organização, por raça, cor, credo, opção sexual, etc. Qualquer funcionário de uma empresa pode acionar seu empregador se perceber e provar esses delitos. Ainda que a empresa possa demitir o funcionário, ela poderá ser processada. Por que não sucede o mesmo quando alguém emite uma opinião contrária à da empresa para seus colegas, sua esposa, seus amigos do bar, do Twitter, do Facebook?

A encruzilhada é difícil, mas no caso da imprensa, diferentemente de outras empresas capitalistas, é inevitável considerar de certa hipocrisia a defesa inflamada da liberdade de expressão, quando ela impõe regras na expressão livre de seus jornalistas em redes sociais.