Category Archives: Internet

Os Cthulhus da Internet

Por que será que existem países e fronteiras? E por que existe voto e por que a maioria é quem decide? Por que pagamos impostos? Por que existem poucos que decidem pelo preço que muitos vão pagar? Por que tenho que provar que eu sou eu e minha presença é menos importante que minha senha? Por que tudo bem esquecer minha senha mas tenho que lembrar o nome do meu primeiro animal de estimação? Por que não posso ganhar relevância sem tem que decifrar as esfinges algorítmicas dos dois poderosos Cthulhus da Internet?

Por que a gente tem que aceitar as regras como se fossem naturais quando elas muitas vezes não passam de máscaras que ocultam defeitos (antes de representar interesses)?

Por que não pensar que os braços dos Cthulhus têm fraquezas?

Por que não pensar que atrás da aparente arrogância messiânica existe insegurança? E que a insegurança é disfarçada por uma legião de doutrinadores bem pagos?

Eles não inventaram a Internet.
A Internet inventou eles.
E a Internet não inventou a propaganda.
A mágica emoção de um consumidor vai muito além das regras do Google e do Facebook.

Os meios justificam o fim

E mais uma vez, todo mundo se perguntava como tornar a apresentação de mídia mais atraente, como tirá-la do final, quando estamos com as pernas formigando e a cabeça esfumaçada.

Pensando bem, vale a pena quebrar a cabeça se a mídia sempre esteve no centro do trabalho publicitário, inclusive, sim, inclusive quando a responsabilidade pela mídia está nas mãos de outra agência?

Lá atrás, quando o J. Walter Thompson sacou que o espaço que ele vendia nos jornais evangélicos poderia ser mais, justamente, evangelizador; antigamente também, quando o Mark Zuckerberg percebeu que os classificados científicos do Facebook ganhariam adeptos se fossem, precisamente, menos científicos; e entre um momento e outro – e desde então – o conteúdo publicitário é pautado e definido pelo meio onde será veiculado. Desde sempre, a mídia não termina mas começa a história toda.

Faz algum sentido.

Quando um general vai decidir uma manobra militar, ele primeiro pondera o território, o relevo, o clima. Só então ele decide o material e a estratégia militar que precisa. Assim, os franceses estavam tranquilos com sua cavalaria porque jamais os alemães poderiam atravessar as Ardennes montanhosas e cheias de florestas, com seus tanques,

Primeiro a mídia, depois a mensagem.

Nas agências de propaganda, no marketing dos anunciantes, é assim. Das mais antigas estruturas – as agências ditas tradicionais – às mais modernas – as chamadas digitais (ou qualquer outra nomenclatura que se queira usar), das empresas medrosas às mais destemidas, é a mídia que determina a mensagem, o meio que determina o fim.

As estruturas, as orientações gerenciais, os briefings, as ideias, tudo, consciente ou inconscientemente, assumido, presumido ou involuntário, começa pela mídia.

É por isso que a mídia é chata. Porque ela é previsível.

Mas principalmente, é por isso que é tão difícil criar de verdade e atravessar as montanhas com destemidos panzers.

Propaganda servil

Se você quer realizar o idílio de uma noite de verão, um bom hotel, com uma cama gostosa, umas garrafas borbulhantes no gelo e um banheiro cheio de espelhos talvez sirva.

Já em se querendo cobrir a parede da sala com uma linda estante, num esquadro que deixaria Pitágoras e aquela amiga decoradora roxos de inveja, é provável que um marceneiro cuidadoso sirva.

E se algum baladeiro entorpecido passar distraidamente a chave no capô de seu carro caindo aos pedaços mas que você adora, um talentoso artesão da funilaria de época serve.

Se você quer uma coca light com limão e sem gelo, um garçon experiente; um lugar em um voo seguro pra Síria, um bom site de viagens; uma flor no café da manhã do seu chefe, uma dica feminina serve. Se você quer um plano de mídia, umas propagandas e um café, uma agência serve.

Mas se você acha que nossos políticos não servem, se você acredita que feminismo é o mesmo que machismo, o mesmo que fascismo ou comunismo e que nenhum ismo serve, se você cansou de ser servido e não quer passar o resto dos seus dias servindo interesses opacos ou retrógrados, se você não quer ver sua rua, sua cidade ou seu planeta servindo de lixo, enfim, se você não quer ser submisso ao Q1, 2, 3 e 4, ao PNL, à revisão do PNL, à última das últimas revisões do PNL, à IPSOS, ao MBTI, ao IMC, ao SEO, ao ROI, aos KPIs e WTF mais inventarem para nos controlar, amordaçar e servilizar, servir não serve mais.

Servir, só se for uma causa.

A causa de organizar o conhecimento da humanidade. A causa de aproximar os humanos. A causa do desprendimento. A causa contra as estruturas, as burocracias e os corporativismos.

Servir uma causa é achar uma solução.

On e off são o mesmo lado da mesma moeda

Quando surgiu a mídia das mídias, a geleia interminável de conteúdos, constelação de interações, magma de onde tudo começa e onde tudo acaba – a Internet, nada mais prudente do que morder aos pedaços, aos poucos e com destemidos e intratáveis desbravadores, hoje conhecidos como especialistas. E não demorou para criar-se a carochinha de que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa: de um lado da linha, o novo inexplorado em constante mutação, do outro o tradicional sacramentado e estável. E desde então, toda a indústria da comunicação se equilibra nesse equador, balançando ao sabor da onda do momento.

Mas desde que o primeiro Ford T saiu da fábrica, sabe-se que a divisão do trabalho é uma técnica eficiente de produção e uma ideologia competente de opressão e alienação.

O fato é que as linhas de Nazca só podem ser observadas do alto e a linha do equador é um marco imaginário: a comunicação entre os homens não opera conectando diferentes gavetas que se conjugam em função de suas etiquetas. O cérebro humano é uma geleia, constelação e magma infinitamente mais complexo do que a Internet dos próximos séculos.

Comunicar uma mensagem para alguém ou para vários não se dá em camadas e jornadas e por mais sensível que seja o esquema, ele sempre será pobre e sujeito a insondáveis fatores de sucesso ou fracasso.

Assim como não existe esse negócio chamado de comunicação racional e emocional, não existe esse troço de comunicação online e off-line. Nenhuma descoberta aqui.

Da mesma forma, não é nenhuma descoberta dizer que a divisão do trabalho não é a mais glamorosa das vogas. O fordismo é eficiente e mais competente ainda se a mão de obra inteligente for substituída por robôs e algorítmos mais baratos, sem encargos nem chiliques.

E para eliminar qualquer poesia, aterrissando a divagação teórica, por três motivos rés do chão não é mais inteligente separar a comunicação em on e off.

Primeiro, custa mais caro porque tem duplicação de energia e recursos. Todo o pensamento que precede a execução é feito lá e cá, cobrado lá e cá. Sem falar do time-sheet da integração, dos alinhamentos, dos check-points.

Segundo, quem garante que a escolha entre os recursos, a divisão entre quem faz o que aonde, é a mais racional? Quem garante que o investimento on e off está otimizado se cada macaco puxa a brasa para o seu galho?

Terceiro, porque fazer o cerco ao consumidor com mensagens similares em todos os seus suspiros de atenção não é a forma mais convincente de conquista-lo. Poucas e boas é melhor do que muitas e fracas

A propaganda se come-se

Então, o futuro será assim. Chafurda-se em trilhões de dados e desse emaranhado abstrato, cospem-se iscas. Sincronismo absoluto entre oferta e desejo. Ninguém precisa de uma agência de propaganda em Amsterdam para fazer propaganda de água no deserto. Se o cara está com sede, então, a mensagem mais eficiente é “água aqui” e não qualquer delírio emocional.

Então, o futuro da propaganda é assim. Agências do mundo inteiro, apavoradas com os misteriosos e inteligentíssimos corredores do Vale do Silício, clamam, sem pudor, pela própria morte. Dessa apocalíptica visão, todas as reuniões das altas cúpulas publicitárias terminam do mesmo jeito: “aux armes citoyens, vamos digitalizar, se joga no big data, galera!”

Então, o futuro das agências está decidido. Que venham especialistas, e analistas autistas, criando algoritmos para servir, segundo a segundo, mensagens anódinas mas certeiras. E, porque o cobertor é curto, incha-se de um lado em detrimento do outro. Mais matemáticos, menos criativo. Quanto ao resto, o mídia, o estrategista, o atendimento, o gerente de projeto, esses então, coitados, só lhes resta vender anúncio, de porta em porta, na cauda longa do Google e do Facebook.

Mas um dia, porque sempre terá um dia, descobre-se, provavelmente no subterrâneo do Vale Diabólico, um algoritmo que cria algoritmos. Não precisamos mais de agência de propaganda nenhuma. A propaganda se auto-cria, auto-programa, auto-resolve.

E acabou-se o que era doce.

 

Ninguém segura os babuínos

Quando o ser humano era nômade e vagava desorientado em busca de alimentos pelas terras ermas, o sexo não existia e muito menos a monogamia. O ato sexual, ainda que é provável que já fosse gostoso, era um reflexo aleatório que garantia a perpetuação do rebanho. Quem já viu um grupo de babuíno solto, trepando como respira com quem aparecer na frente, tem uma boa imagem dos hábitos reprodutivos dos nossos ancestrais.

Alguns infelizes resolveram fixar-se à terra, plantar, construir habitações duráveis. Era economicamente mais interessante e principalmente era menos cansativo. A preguiça é uma qualidade atávica da espécie. Não sair do lugar também significava conviver sempre com os mesmos objetos sexuais. A variedade incidental, descompromissada, leve e livre deu lugar a experiências mais comedidas, restritas e monogâmicas. De vez em quando, os babuínos que nos habitam soltavam a franga, mas eram reprimidos.

Depois veio o casamento, o amor, o amor romântico e tudo que já conhecemos, até que a morte, a traição ou o divórcio nos separe.

Hoje é assim: em 10 minutos a gente encontra um parceiro, em 10 a gente se encontra, em 10 a gente trepa e em 10 a gente swipa para outro.

Os babuínos se soltaram dentro de nós.

Cinismos à parte, o que será feito dos relacionamentos em uma selva tão abundante e promíscua?

Pois talvez, talvez, uma coisa será uma coisa, outra coisa será outra coisa. Relacionamento será uma coisa, sexo será outra coisa. Trepar será uma coisa, às vezes em relacionamento, outras sem, e tudo ficará bem.

Enquanto isso não acontece, boom-boom-boom, swipe.

Backup pra quê?

Tempos atrás, perdi todos os meus arquivos digitais. Achei que era o fim e penitenciei-me durante dias, perdi o sono e quando ele voltou, pesadelos destruidores arruinavam meus dias. Eram décadas de diligente registro organizado, evaporados. Um pedaço de mim, grande e vital, estava definitivamente aniquilado. Me senti como uma alma penada vagando à margem da minha história. Desencarnado e sem redenção.

Tempos atrás, uma desafortunada atualização evaporou minha agenda. Chorei. A solidão me precipitou num abismo sem fim, escuro. Entrei em queda livre e o paraquedas não abriu. Senti-me como uma bactéria de uma pulga, tão pequena, tão insignificante, tão inútil que era como se jamais tivesse existido.

Tempos atrás, um espírito danado surrupiou todos os meus e-mails, de uma vez, os respondidos, os arquivados, os que jaziam à espera de resposta. Achei que o mundo ia desabar, que o destino da humanidade seria uma inexorável punição, retrocesso. Tudo ia desandar e nunca mais me ergueria.

Mas o tempo passou. Ele passou e, gozado, mais leve, mais conectado e integrado me encontrei. Para que o apego?

Mas o tempo passou mais ainda. Ele passou e tudo recomeçou. Que selvagem escravidão na qual voluntariamente encarceramo-nos?

A Internet é a nova mandioca

O que seria do homem sem a mandioca, a roda, a foice, a pólvora, sem o macarrão, o tear, a levedura, o liquidificador, a escada rolante, o telégrafo, o dinheiro, o cotonete, o minecraft e o Google? Esnobismo é delas prescindir voluntária e estoicamente como se a Criação fosse vulgarizada pela meia calça, pelo sapato, shampoo, rímel, silicone, rivotril e Facebook e qualquer síntese artificial despertasse os demônios da auto-destruição.

Tudo nem sempre pode piorar. Os efeitos colaterais do progresso nem sempre são tóxicos.

Existe algo mais charmoso e elevado do que o Facebook e o Google, e mais prodigiosamente transformador também: é a chamada economia colaborativa que só a Internet tornou possível. Por detrás do compartilhamento online da ociosidade, da sobra, do descarte e da sucata, existe uma redenção ultraliberal que dribla as estruturas calcificadas do poder, a burocracia paralisante e a selvageria dos oligopólios, cartéis e lobbys que nos oprimem.

Todas as vezes que opera-se, através das centenas de plataformas peer to peer existentes, o milagre da colaboração, sem intermediário nem burocracia, sem certidões nem firma reconhecida, o mundo fica mais leve e o homo e a “mulher sapiens” mais humanos.

Redes sociais da opressão

Não se sabe ao certo se primeiro o ovo ou a galinha, mas seja lá porque a humanidade quis ou porque a fizemos querer, inventaram uma extraordinária plataforma de comunicação, gratuita, universal, simples, sem preconceito, transnacional, simpática, popular, rica e sexy chamada rede social.

Depois de décadas da vilania centralizadora da mídia de massa, depois de séculos de luta de classes, raças, gêneros e gerações, depois de milênios em que a palavra foi usada para controlar, finalmente aparece um alto falante para nossas vozes.

Ali – prometa-se – não haverá censura, não haverá limites, não haverá moralismos aviltantes. Ali – garanta-se – não haverá lei do mais forte, nem do mais lindo, nem do mais rico. Ali – assegura-se – somos nós e nossa identidade. Ou a identidade que queremos, sonhamos, idealizamos. Ali toda brincadeira será permitida, sem consequências, sem patrulhamentos, sem lei até. Ou pouca lei.

Inventaram, para nosso usufruto e gozo a Ágora da livre expressão, a suprema utopia de todos os povos livres.

Mas eis que esta mesma tentadora e poderosa ferramenta vira a casaca. Eis que estamos perigosamente escorregando na casca de banana do gozo supremo, indizível, incontrolável, irresistível também.

Eis que nos expressamos demais, sobre tudo, sobre nada, sobre o que é da nossa conta e principalmente sobre o que não é da nossa conta.

Eis que escancaramos nosso desinteressante umbigo mas principalmente maldizemos com virulência do umbigo alheio.

Eis que toda nossa incontida raiva, ódio, inveja e ganância encontra, nos feeds inodoros de uma rede social qualquer, o esterco para crescer, contaminar, vingar, destruir. Pessoas, histórias, reputações ou sonhos.

Eis que, até sem querer, tomamos a palavra e gastamos o verbo que temos e que não temos. Por nada. Para nada. Para desabafo sem amanhã. Irresponsável. Imoral. Opressor.

E daí?

Daí que a gente começa a calar. A gente começa a parar. A gente sai, se suicida, apaga-se, deixa de frequentar e principalmente de expressar-se.

Daí que as redes sociais cerceiam a liberdade de expressão e o feiticeiro sucumbe ao próprio feitiço.

Eles são nós, sem vergonha

Sabe aquela vontade que dá de ligar para cair na caixa postal? E quando você tem que dizer uma coisa cabeluda – por exemplo que você não vai saldar sua dívida – não é melhor por mensagem de texto? Ou ainda, dizer umas verdades para o seu chefe, desabafar ou pedir aumento? Não parece mais indicado ser por e-mail? E o namoro que você quer acabar? Se for olho no olho, pode lacrimejar e arrepender-se.

Minha avó não concordaria. Nem minha mãe. Nem eu. Quer dizer, pensando bem, concordar não concordo, mas adoraria concordar.

Vem aí uma geração de pessoas que sequer sabe falar no telefone, namora por comunicador instantâneo e casa por videoconferência. E é assim e não adianta espernear, dar lição de bons costumes e forçar a barra. Acareação é o maior dos suplícios.

Vem aí uma geração de não-me-toques, não-me-veja e não se atreva a formulários complexos ou temporariamente fora do ar. Nem pense em não ser eficiente, rápido e claro no relacionamento virtual.

Para essa nova geração, a fidelidade às marcas vai até o primeiro link quebrado, à primeira mensagem fora de contexto, ao review negativo, ao preço descompassado e à falta de relevância nas buscas. Afinal de contas, tem tanta gente produzindo e comercializando as mesmas coisas, tantas opções ao alcance da mão que a primeira dificuldade é assassina.

Já não é sem tempo deles assumirem o timão para liberar a gente de pensar e agir como eles.

Vida longa à geração Z e vida curta à Y.

Esse papo de digital é belo mas estéril

O movimento artístico Zero, fundando por Heinz Mack e Otto Piene, pretendia dar um novo começo à expressão artística, questionando suportes, formatos, temas, experiências. John Cage, estreiou sua peça chamada 4’33 sentado de frente ao piano fechado durante longos 3 minutos e trinta e três segundos, sem produzir um único som e deixando o ambiente e a plateia produzir seu concerto aleatório. O Zero como o minimalismo são desses movimentos fascinantes pelo pensamento e razoavelmente estéreis na produção.

Quando a Internet surgiu para a publicidade, questionava o jeito e trejeitos da propaganda de massa, propunha a boa nova de uma comunicação mais democrática, sem fronteiras, acessível, distribuída em rede, de todos para todos. Ao contrário da comunicação tradicional broadcast, autocrática, concentradora, dominadora, a Internet era a redenção. Esse pensamento original e sedutor rapidamente conquistou porque significava uma desconcentração muito saudável dos meios. Significava também a entrada de uma nova geração de empresas mais tecno-criativas do que as tradicionais agências artístico-criativas. E principalmente, sorrateiramente, significava a pespectiva de redução de investimentos na compra de mídia e recursos criativos e de produção mais baratos.

O pensamento era interessante, a prática não deu muito certo.

Nunca antes na história da comunicação, houve tanta concentração de investimento em poucos – pouquíssimos players. Inclusive e principalmente na Internet. Nunca antes na história da comunicação, teve tanta mediocridade criativa. Sobretudo na Internet. A gente se iludiu com os evangelistas apaixonados.

Seres humanos são tumores emocionais que se nutrem de impulsos primitivos e não de doutrinas e gadgets tecnológicos.

Start-ups e os novos robber barons

Quando o primeiro fabricante da primeira batedeira ou do primeiro carro discursava para seus pares empresários, ele era entusiasta da ideia revolucionária que iria tirar a mulher de sua tarefa aviltante de bater um bolo e o homem do empurra-empurra do trem na hora do rush. Mas ele também vangloriava-se de uma nova maneira de trabalhar e de pensar seu negócio. Ele dizia “o rei morreu, viva o rei!” para todos aqueles velhos fabricantes de utensílios com manivela e carruagens. E quando negociava com a velha economia, outorgava-se o título de start-up avant la lettre.

Nem o século XXI nem a Internet inventaram o empreendedorismo.

Mas sob uma perspectiva histórica, passados tantos anos, quando a batedeira foi substituída por bolos industrializados cheios de uma química exótica e os carros perdem espaço para o túnel subterrâneo onde humanos se precipitam como roedores apressados, o que mudou naquilo que realmente importa? Nada ou pouco.

O que mudou com as inovadoras tecnologias e as revolucionárias ideias de produção e gestão?

Alguns falam do tempo, como se fosse um consolo: sim, está tudo mais acelerado. Débil conforto saber que está tudo rumando mais rápido para um futuro desconhecido.

O que esses novos empreendedores tinindo de fama e esbanjando dinheiros voláteis, o que esses florões do empreendedorismo, jovens e dinâmicos, fazem para  garantir-nos um futuro mais confortável, mais feliz, mais justo, mais convivial e – sem ter medo da palavra – mais fraterno?

Sob uma perspectiva sociológica, passados alguns anos-décadas, eles se tornaram perpetuadores do jeito antigo de fazer. Só que mais rápido. Lucro mais rápido, crescimento mais rápido, participação de mercado mais rápida, exacerbação do trabalho mais rápido. Rápido. Para compensar, muita filantropia frouxa com os ricos incentivos fiscais.

Mas raro, raríssimo ver no empreendedorismo do século XXI, o respeito ao tempo livre, ao meio-ambiente e à saúde física, mental e moral de todos, funcionários e clientes. Na prática, comem com a mão, não desgrudam das telas, cronometram reuniões, mensuram tudo com voracidade, perseguem, famintos como lobos, seus clientes e se rendem a um messianismo cego e selvagem.

São nossos novos robber barons.

A sensualidade do Buy

Nossa vida de zapping é cheia de compartimentos cada vez mais numerosos e mais diminutos. Precisamos dedicar tempo e energia para todas as nossas mil facetas que temos orgulho de estampar como marcas de superioridade “eu entendo disso e daquilo, falo essa e aquela língua, conheço esse e aquele, vivo aqui e ali”. Essa síndrome do “eu já vi, eu já fiz” e sua frustração “eu não vi, eu não fiz”, é o que parece mover a humanidade. Assim, acumular é um valor social.

Comprar sem sair da cadeira, não enfrentar nenhum perrengue, mal humor, mal atendimento, compra de pânico, risco da falta e da decepção, é um avanço.  Comprar na internet são muitas portas abertas para esse valor supremo. A cada buy dado, estamos preenchendo as gavetas de nosso gabinete e principalmente multiplicando-as incessantemente.

Mas o que aconteceu com a explosão de sentidos dos caravançarás, surgidos do passado dos bazares ou erigidos como templos de consumo? Aquela choque de cheiros, cores, sons e movimentos, a energia sempre mutável, excitante ou serena, frenética ou pausada, o toque, a troca, a negociação. Não há experiência online capaz de substituir esse prazer sensual.

Mas toda renúncia de prazer tem um preço.

Sentir-se enfastiado, preenchido de coisas, informações, dados, dá uma sensação de dia cheio, de vida completa, útil. O mundo emula Dubai: consumo irrigando o deserto.

Comprar, acumular, armazenar esse é o sentido da vida?

Já o prazer virou um botão “buy”. Ao invés de gozar, estamos comprando – freneticamente e sem consciência – prazeres que morrem nas nossas inúteis gavetas existenciais.

Big Data

Se toda história da humanidade é um processo de evolução incessante, se Darwin só pariu sua teoria porque conhecia Lamarck, Beethoven não foi  Beethoven sem Haydn e o último prêmio Nobel da medicina não passa de uma gota no mar, se Criação só existe uma, a primeira, do big-bang, de Adão amolengado pelo Criador, se tudo o que fazemos são veleidades de primazia, se a capacidade inventiva do homem é relativa e proporcional à suas referências, mas também, se nosso cérebro não funcionasse por amostragem, seleção e esquecimento, se fossemos capazes de tudo conhecer e tudo processar, se não nos contentássemos apenas com a opinião do nossos próximos, dos nossos pesquisados, mesmo muito misturados, se a norma fosse o erro e o erro o acerto, se não estivesse provado que a grande maioria dos saltos qualitativos operam na margem de erro, no desvio padrão, se a gente tivesse a humildade para se sentir parte ínfima mas fundamental, então talvez assim, talvez enfim, a gente acreditasse que em tudo existe Lógica. Big Data, amém.

A nova economia

Ele queria ir trabalhar de skate, pular da cama na bermuda da véspera, cabelo em desalinho calculado, ainda com eflúvios alucinógenos a lhe incensar a fala. E por falar nisso, valorizariam suas ideias obviamente novas já que ele era jovem, cheio de amigos nas redes e sintonizado com bandas e traquitanas. Ele gostava de champong bem picante, era fã de Stockhausen, de garotas cantantes islandesas, era um flea-market ambulante e discorria sobre acidentes aéreos como ninguém. Por isso tinha passado no teste para ser o bambino prodígio de alguma sucursal emergente da nova, novíssima, flamejante economia.

No primeiro dia, se atrapalhou com o crachá, sentou na baia errada e quase quebrou a perna da chefe meia idade que deu um bigspin involuntário no skate. No segundo dia, já de banho tomado, preencheu planilhas e copiou colou uma apresentação para o outro chefe do sub chefe da sua chefe. No terceiro, participou de sua primeira reunião, numa sala abarrotada com cheiro de café, barra de cereal e gel de cabelo. No quarto, ganhou camiseta, boné e até lápis. No quinto, fez uma vídeo conferencia para preparar uma reunião que irá anteceder o encontro sub-internacional a ser realizado na Nicarágua.

No sábado, perguntou para o pai: Pai, como é trabalhar no Banco?

É só um crachá e nada mais

Nunca podemos menosprezar o ambiente gelatinoso e experimental da Internet. Uma das seduções desse universo, talvez a mais visceral, é a descoberta, a vertigem do novo, a fronteira do status-quo, da convenção, da regra, da monotonia. É essa natureza rebelde, mutável, imprevisível que fascina e vicia porque a Internet é o último reduto dos inconformados.

E quando uma onda fica ou parece muito poderosa, quando desafia a independência e a identidade, quando tenta pasteurizar os comportamentos e nivelar os gostos, quando um movimento, uma plataforma, uma marca levanta o nariz com ares de poder provinciano, quando uma ideia outrora inteligente derrapa na voracidade mercantil, quando uma empresa listada e cheia da grana vai às compras porque não consegue mais atrair boas ideias, é o começo do fim. Da noite para o dia caduca, apesar das mentiras bem contadas pelos crachás catequisados.

Esse déja vu consola.

A Internet finge

É esse mundo sem fronteiras, em que as distâncias derretem, as geográficas, de língua, de idade, de raça, esse mundo imediato em que as relações se estabelecem sem pudores nem vergonhas, esse mundo sem privacidade nem propriedade, esse mundo sem limites, da consagração, da comunhão, é esse mundo que vivemos.

Nessa sociedade wiki, a informação flui e a dúvida derrete, a estranheza dá lugar à simples diferença, a maioria dá o tom da verdade e a mentira perde as calças, nessa sociedade o conhecimento vence o dogma e o ópio, nessa sociedade que fizemos.

Mas por que, então? Por que as velhas mágoas, as velhas disputas, as velhas identidades mortíferas? Por que branco versus não-branco, rico versus sujo, pobre versus parasita? Porque, fingimos.

Este mundo livre, esta sociedade informada e a Internet, não resolveram o tato, o faro, o químico. Só existe relacionamento entre seres de carne se existe troca de energia, de líquidos, bafo, humores, carícias, afagos, aconchegos e tapas, e beijos.

Sem toque, o preconceito persiste.

100 papos para impressionar em 2014

A vida social obriga-nos a entreter gente que não conhecemos, não nos interessa ou com as quais não temos afinidade. É para isso que existem tendências: um almanaque de assuntos de salão. Aí vão algumas boas selecionadas pela JWT Intelligence, livremente tropicalizados.

  1. As impressoras 3D estão se popularizando. Você vai se amarrar nos bibelôs de resina. A Vitoria da Samotrácia feita em casa, que tal?
  2. Já tem software que vai te transformar no Michelangelo sem tirar a mão do seu Ipad. Experimente o 3Doodler!
  3. Se você é da turma zozotérica mas acha tudo meio caído, que tal o yoga de baixo impacto? Está pegando até em Joanesburgo e consiste em se fazer as posturas de cabeça para baixo.
  4. Se você quiser investir em arte mas já não sabe onde colocar tantos Koons, Hirst e Varejão, aposte em El Anatsui de Ghana e Wangechi Mutu do Quênia.
  5. O que o suhi tem em comum com o futuro dos cosméticos? Experimente a linha Algenist da Solazyme com componentes feitos a base de alga e pare de se lambuzar com petróleo.
  6. O ambient commerce é uma palavra bonita de se usar, mesmo que sempre tenha existido. É antecipar-se ao desejo do consumidor. Se o cara correu 300 milhas, registradas no seu Nike+, está na hora dele comprar um novo tênis. Uma marketing direto recauchutado.
  7. Esqueça as filas nos aeroportos, nos museus, na catraca da Disney. Tudo virtual sem tirar o pé da pantufa e a mão do saco de pipoca. Veja o Oculus Rift virtual reality headset: um must em viagem de cadeira de rodas.
  8. Se seu filho é um retardado social e vive amolegando suas próteses virtuais, saiba que já tem tratamento para essa nova patologia.
  9. Se você acha que museu é, digamos, um museu, saiba que eles também acham. Por isso, a moda  agora é incubar artistas como se incubam ovos de  granja ou start ups.
  10. Preste atenção na Awesomeness TV, um canal do Youtube. É o ponto de encontro preferido dos coçadores de saco, metidos a vídeo-stars e diretores de criação sem ideia.
  11. Spam, não gostamos, mas Spam com pertinência, quem resiste? O Apple’s Ibeacon fisga o comprador por Bluetooth oferecendo aquele vigésimo conjuntinho preto do seu guarda roupa.
  12. Lembra do tempo que a Europa tinha 36 moedas diferentes? Está acontecendo isso na Internet. Depois do Bitcoin, já tem Namecoin, Worldcoin, Anoncoin e outros coins.
  13. E por falar em moedas do além, já tem gente trocando a moeda virtual por coisa de verdade. Por exemplo a Virgin Galactic para seus vôos espaciais.
  14. Le Corbusier dizia que o supermercado é a catedral do século XX. A Urban Outfitter e a Ikea já estão planejando bairros inteiros. Quer coisa melhor que morar numa loja?
  15. Alvo em gênero é tão bobagem quanto dizer que sexo é genético. A Johnnie Walker está focando na mulher e muitas marcas de cosméticos nos homens.
  16. Viajar no espaço não te leva a lugar nenhum, mas marcas estão querendo precisamente isso: confira a Axe Apollo Space Academy ou o concurso da KLM Claim your place in space.
  17. O Brasil está na moda já é um clássico. Em outubro, rolou o Be Brasil em Nova York com o melhor da nossa produção-além-havaianas.
  18. Dizem que São Paulo com seus museus exuberantes e galerias deslumbrantes está entre as 12 cidades artísticas do futuro. O Brasil tem futebol, mulata e arte. Tem até exposição de – adivinha quem – no novo Perez Art Museum de Miami: Beatriz Milhazes.
  19. Aplicativo novo é sempre uma boa conversa para passar o tempo. Que tal o MyBreath? Você arfa pra dentro e saem recomendações de bem estar.
  20. Primeiro o cigarro, agora as fragrâncias. Locais de trabalho já estão proibindo o uso daquele Paco Rabanne que abafa quarteirão. Quem tem faro para novidade, usa produto sem cheiro.
  21. A China já é o quinto maior produtor de vinhos do planeta. A maioria é digna da galeria Pajé mas a Decanter World Wine Awards 2013 já destacou 20 vinhos chineses.
  22. Se você ainda acha que sapato novo ou relógio tinindo vai lhe dar credenciais para galgar os píncaros do reconhecimento social, está enganado. A Patagonia está liderando uma iniciativa para reciclar produtos. Vem aí desfile de saco de lixo.
  23. Começou com barmans gatos, garçonetes hipsters, tatuagens para todo lado e muita atitude. Agora nem drink se faz mais. Atendimento é decoração porque sai tudo da chopeira, já prontinho e delicioso.
  24. O ser humano está descobrindo que é ser humano, ou seja, um bicho social. Estão em voga iniciativas comerciais suportadas pelas comunidades. Você paga por mês e recebe comida, flores e até arte. O que estive mais fresquinho.
  25. Parece que tem muita gente lendo Eckhart Tolle e seu Power of now. Empresas incentivam  consumidores a largarem o celular e viverem o momento. Provavelmente para estimular a Compra now e não tomorow.
  26. Comprar é bom mas melhor é tocar, lamber, esbanjar no ato, sair vestindo. Por isso, a pressão é toda para um delivery mais rápido e eficiente. Especialista em delivery é a carreira do futuro.
  27. Gringo é chegado num coquetel. Para a geração abstêmia e sua tia freira, que tal a nova onda de coquetéis sem álcool, os mocktails. Vai lá ver no NoMad.
  28. O deleite dos descasados, solteiros convictos ou gourmets egoístas: comprar todos os ingredientes de um prato sofisticado em mínimas porções. HelloFresh é a mais famosa opção mas já já sua tia freira que gosta de mocktail vai fazer pra vender também.
  29. Tem gente apostando na era da impaciência e a briga é boa: Amazon, eBay, Google, Walmart, Home Depot estão na guerra para a entrega em horas.
  30. Açúcar, sal, gordura, conservantes. Se você for comer algo que não foi colhido ontem e vai apodrecer amanhã, cuidado, o vilão da vez é o  colorante artificial. Em breve, na sua mesa, sorvete de pistache branco e chocolate bege.
  31. Seja lá o que for arte digital, já tem até leilão. Difícil entender mas você pode comprar um domínio, como o ifnoyes.com por exemplo. É uma espécie de screen-saver on-line assinado.
  32. Juntando duas mega-blaster-tendências – a espetacularização e a vida digital – o velório já tá na rede. Sem nada para fazer domingo à tarde? Que tal um velório online?
  33. Meu pai sempre disse que não comemora aniversário de casamento porque não se comemora o começo da guerra, só o fim. Virou moda comemorar o divórcio. Tem até bolo de descasamento.
  34. Desde que Jeff Bezos da Amazon disse que investiria em entrega por drones, já tem gente apavorada com o aviãozinho servindo detetive particular.
  35. O cigarro eletrônico que já era uma geringonça constrangedora – “aquele ali é um ex-viciado mamãe!” – também será regulado. Ainda vão regular os órgãos regulatórios por estressar a população com suas regulações.
  36. Você pede sorvete no cone ou no potinho? É super-tendência a criação de embalagens comestíveis. A WikiPearl promete tornar comestível qualquer tipo de embalagem. Já o gosto…
  37. Os homens estão se sentindo preterido pelas mulheres e estão surgindo grupos de suporte e advogados especializados em dar colo aos machos frágeis.
  38. Depois do animal-print: o planet-print. Tecidos mostrando galáxias, solo lunar, espaçonaves estão em toda parte. Você se sentia poderosa de onça? Experimente um vestido de Vênus.
  39. A vaca está pressionada por um adversário de peso: o tofu. A Chipotle, um fast food que posa de santinho já introduziu a iguaria. Em breve nos PFs e quilos do Brasil.
  40. E se você descobrir que sua cueca é feita por escravos anãos na etiópia com tripa reciclada de rinoceronte? Quem fez? Como fez? Onde fez? Com o que fez? Tudo conta. Confira a Zady, uma inimiga do fast fashion.
  41. As relações são passageiras então por que perder tempo lendo enormes perfis? O Tinder é um aplicativo que te ajuda a achar seu par só pelo feeling. Vai durar pouco mesmo, o que você tem a perder?
  42. Assim que o Google Glass entrar no mercado, um enxame de aplicativo vai parasitar. Baseado na previsão do tempo, por exemplo, um aplicativo indica quanta água você deve beber. É, a tecnologia anda pra frente e o homem pra trás.
  43. Religião sem meter Deus no meio é uma super tendência. Tem rituais e tudo mas sem padre nosso.  Só dízimo.  Dá só uma olhada na Sunday Assembly.
  44. Já imaginou um jantar entre amigos, todos portando google glass? Já tem proibição de uso do  google glass em alguns ambientes. Já legislaram sobre “google glass and drive”?
  45. Os hackers estão de olho na sua geladeira e no seu carro. Está na hora de você instalar anti-virus no seu google glass também.
  46. Tecnologias que usam sensores táteis estão em franco desenvolvimento. São versões mais modernas do vibrador. Na versão mais fofa, Huggies fez os pais sentirem como é estar grávido.
  47. Sabe aquele seu amigo de barba, camisa xadrez e bermuda e que termina cada frase cruzando os dedos em hashtag? Avisa lá que até a sua tia freira faz a mesma coisa.
  48. Você digita na privada? Já estão discutindo em Nevada, uma lei para proibir a livre digitação na rua.
  49. Você gosta da papinha cenoura e maçã do seu filho? Já pintou a versão natureba delivery. Petitorganics.com
  50. O bom da tecnologia é que você evita o toque humano, cheio de erros, bactérias e compromissos. Depende do gosto. Se você usar o aplicativo da Gatorade, pode ter contato com um personal trainer de carne e osso. Nesse caso…
  51. Você já ouviu falar em mixologistas? São pessoas especializadas em fazer misturas. E a novidade é fazer cubos de gelo com misturas de frutas, xaropes, ervas, temperos, nozes, insetos e o que mais lhe der na telha.
  52. Todo mundo já escorregou no botão enter e postou o que não devia, para sempre. Legisladores no mundo inteiro discutem o “direito de ser esquecido”.
  53. Tem gente grande para além das fronteiras da Amazon. O e-commerce Jumia da Nigéria promete ser o maior varejo do continente.
  54. Robô para todos. Faça o seu comprando o kit Lego Mindstorms EV3.
  55. Um dos poucos diferenciais que ainda restaram aos canais de TV tradicionais é a transmissão “ao vivo”. A NBC já  planeja produzir grandes musicais apenas para transmissões desse tipo. Vem aí, o inédito “a noviça rebelde”.
  56. Salões de maquiagem-express estão pipocando. Por US$ 25 você dá aquela retocada básica na Rouge New York.
  57. A maconha é a nova soja. Com a liberação controlada do consumo para fins diversos ou o exemplo avant-garde do Uruguai, já surge um mercado. Daqui a pouco vira commodity negociado em bolsa.
  58. “La donna è mobile” e o emprego também. Já pintaram uns aplicativos para ajudar você a encontrar o emprego certo pulando de uma entrevista para outra. Tente o Souktel’s JobMatch.
  59. Na onda dos comunicadores que viciam sem antídoto, os aplicativos (Line, We Chat, KakaoTalk) estão virando plataformas de e-commerce.
  60. Metadata é o palavrão da vez. Significa o estudar para quem, de quem e onde você manda mensagens online. Não importa o conteúdo. É a versão cyber-histérica do “diga me com quem andas que lhe direi quem es”.
  61. Sabe quando você percebe que a atenção dos seus ouvintes está escapulindo? Quando a busca pelo timeline perdido é mais importante do que seu discurso? É falta de mindfulness. Já tem até curso.
  62. A lua de mel era para desvirginar a vida íntima em longos cruzeiros glamorosos. Ninguém tem tempo para isso. Ganhar dinheiro é mais importante. Para casais com pressa dos finalmentes, chegaram as mini-moons. Tempo é dinheiro.
  63. E por falar no tempo escapulido, editores estão sinalizando o tempo de duração de uma leitura. Proust, 1 milhão de horas, vai encarar?
  64. Na sociedade do mínimo esforço e vício máximo, chegaram as seringas sem agulha. São jatos inseridos diretamente sob a pele em alta velocidade.
  65. Quanto mais imersivo, melhor. O headset Oculus Rift promete uma experiência sem limite. Põe a carinha no buraquinho e bem-vindo ao esquecimento absoluto.
  66. As OTT TV (Over the top TV) proliferam. Tratam-se de aplicativos na televisão que permitem acessar os conteúdos on-demand. Sim, você não precisa saber de onde vem o que você vê. Vai clicando que você acaba encontrando.
  67. Aparência é tudo na vida protética das redes sociais. Tem aplicativo de montão para deixa-lo tão sedutor quanto aquele seu amigo que já nasceu de cabelo estratégico, bigode em riste e tatuagens enigmáticas. Experimente o Facetune e arrase.
  68. Os podcasts, quem diria, estão em voga. Mas esqueça aquelas transmissões maçantes de gurus enfadonhos. O palco é todo para celebridades. Confira o Podcastone.
  69. Privacidade é como assistir documentário cabeça: todo mundo gosta mas ninguém pratica. De qualquer forma, a privacidade é discutida hoje na idealização de qualquer projeto, desde o início. É a “privacy by design”.
  70. E a privacidade é um argumento de venda. É tendência encriptar suas mensagens com o Cryptocat ou PixelKnot e arquivar dados no Personal.com ou no Respect Network, mais seguros que banco suíço.
  71. A gastronomia étnica está se superando. Chegaram as cozinhas étnicas regionais. Fondue Savoyarde é tão diferente de Boeuf bourguignon quanto sushi de pato laqueado.
  72. Se tem uma coisa que um robô pode fazer melhor que cachorro, é segurança. O Knightscope’s K5 tem visão noturna de alta definição e detecta e reconhece pessoas.
  73. Experiências imersivas continuam fascinando as pessoas. É uma espécie de teatro participativo  com roteiro e super-produções.
  74. Iogurte grego é como pão francês: é puro marketing exótico. Mas a moda continua e agora com novos sabores experimentais: pepino, girassol, chili, salmão defumado, etc.
  75. As fast-food continuam investindo no seu core business: mais fast do que food. KFC, Five Guys e McDonalds estão experimentando aplicativos em que você compra e paga online para retirar na loja sem pegar fila.
  76. Está ficando mais fácil digitar ao volante: o Q50 da Infiniti pode permanecer em uma faixa, fazer curvas e ficar a certa distância dos carros da frente sem que o motorista use as mãos ou os pés. A Mercedes e a Volvo também tem suas experiências.
  77. Uma imagem vale mais que mil palavras ao pé da letra: alguns educadores pensam em incluir nos currículos escolares aulas de expressão visual.
  78. Fazer viagens turísticas podem ser verdadeiras maratonas. Literalmente e sem metáfora. Experimente a Go! Running em Barcelona ou a City Running Tour em Nova York.
  79. Você já chutou uma vending machine? Agora elas podem chorar ou chamar a polícia. A tendência é o desenvolvimento de vending machines cada vez mais inteligentes e interativas.
  80. Você cansou de colocar meleca na cara para dar aquele up? Experimente o muco de caracol da Petit Gris.
  81. Putin é sempre assunto. As olimpíadas de inverno da paradisíaca cidade de Sochi irão custar 50 bilhões de dólares. Em matéria de destino olímpico, o Rio de Janeiro que se cuide.
  82. Os Estados Unidos são a nova Belíndia. A desigualdade econômica voltou a níveis anteriores a 1920. Na Europa, já estima-se que 43 milhões de pessoas não tem bastante comida na mesa. Que isso nos sirva de consolo.
  83. A Coréia é o novo Japão. O Soju é o novo Saquê.
  84. Como a linguagem visual vai substituir a escrita, com que precisão as palavras serão trocadas por formas e cores, não sabemos. Mas vale a pena dar uma olhada nos rótulos da Motif Wine.
  85. Mashup é a nova onda esportiva. Já tem o futegolf, por exemplo. Tipicamente inventado por alguém que não entende nada de bola. Vem aí o F1ball.
  86. Comida saudável não é necessariamente sinónimo de comida gostosa. Algumas cadeias de restaurantes como a Lyfe Kitchen e a Seasons 52 estão preferindo omitir que a sua comida é saudável, embora seja.
  87. Todo veneno tem seu antídoto. Todo talento também. Ser multitarefa já foi um diferencial competitivo. Mas quem faz tudo ao mesmo tempo não faz nada direito. A habilidade em voga é o foco.
  88. A segunda tela será a primeira. A MTV lançou  sua série Wait’til next year para tablet antes mesmo da TV. O mesmo para a Disney com sua série infantil Sheriff’s Wild West.
  89. O excesso de tecnologia pode ser uma fobia e a falta dela uma tendência.
  90. Mais e mais aplicativos estão sendo desenvolvido para diagnósticos. Peek, para problemas de vista, uCheck para diabetes, SkinVision para medir o perigo das suas pintas de pele, etc.
  91. A ubiquidade é quando o homem brinca de ser Deus. Estar aqui, ali e acolá é uma tendência com os robôs-avatar (Suitable Technologies, VGo, iRobot, Anybots etc).
  92. Sabe aquele chapéu de cangaceiro do Luiz Gonzaga? Na Austria é super moda usar lederhosen (aquele short de couro com suspensório super sexy). É o folclore na crista.
  93. Você come com os olhos ou com a boca? Se você prefere a boca, vai adorar a tendência: marcas vendem mais barato produtos defeituosos mas igualmente deliciosos, como a Wunderlinge na Australia ou a Edeka na Alemanha.
  94. Imperfeição é sexy. Seguindo a tendência dos castings “pessoas de verdade”, várias agências já selecionam modelos com o inimitável charme defeituoso. Confira a top vesga Moffy da Storm Models.
  95. Fumaçodromos para adeptos do cigarro eletrônico prometem ser o point da galera descolada. No aeroporto de Londres procure gente bonita no Vaping Zone.
  96. A vingança do alface. Sabe aquele alface decorativo que ninguém come e que pula de prato em prato? Chefs do mundo inteiro entronizaram os vegetais.
  97. Estima-se que que 10 a 15 % dos reviews de leitores são falsos. Já existem empresas especializadas em criar reviews e também empresas especializadas em autentica-los, como a Bazaarvoice.
  98. Mais uma fofurice vinda do oriente: stickers de  pelúcia.
  99. Convergência é quando tudo faz tudo e você não escolhe, submete-se. Para aumentar a confusão o XBox quer ser hub de entretenimento, competindo com o Netflix, a Amazon, etc. Até Spielberg foi contratado pela Xbox entertainment studios.
  100. Que iphone ou Galaxy que nada! A tendência é o Xiaomi, o smartphone mais hypado da galáxia, ou seja, da China.

Redes sociais ou gabinete de curiosidades

Queiramos ou não, relacionamentos são intrincadas teias hierárquicas. Embora seja arriscado etiquetar pessoas em gavetas e vitrines – afinal de contas gente é areia movediça – um pouco de ordem conforta.

Nossos relacionamentos se organizam em redes que, embora se cruzem nos mais complexos ou em ocasiões excepcionais, estabelecem um grau de profundidade da relação assim atribuída pela de maior interação.

Vejamos.

No seu aniversário, por exemplo, existem aqueles que aparecem na sua casa antes de você acordar. Esses dividem cama e escova de dentes.

Depois tem aqueles que combinam de te encontrar para te pegar, dar um beijo, um sorriso e um vale livro.

Descendo um degrau, tem gente que te manda email. Há  tanta intimidade nas frases lapidadas!

Seguindo na hierarquia, alguns telefonam porque a vida é uma loucura mas sentem uma saudade asséptica.

Depois, temos os que mandam mensagem de texto pelo celular com palavras carinhosas e abreviadas.

E lá embaixo, junto com a catraca do trabalho que te manda um parabéns, junto com o cartão da livraria que está tão feliz por você nesse dia, tem a mensagem que calibra sua popularidade.

Lá embaixo, lá no fundo do fundo, onde você coleciona curiosidades e não relacionamentos, tem a mensagem no facebook.

É nesse lá embaixo, lá longe, que as marcas tentam ser amigas das pessoas.

A internet é a reunião de condomínio

Tudo que é novo, vem carregado de paixão e promessas. Se não for, não vinga.

A gente acreditou que a Internet era libertária, que daria  vez aos escondidos, tímidos, periféricos. Daria tanta vez e voz quanto o voto representativo, o orçamento participativo, tanto quanto o a eleição direta do síndico do seu prédio.

Mas o quórum de uma reunião de condomínio costuma ser o mesmo deserto da câmara de deputados numa quinta feira ou o mesma aridez das colaborações de um orçamento transparente.

A gente acreditou na cauda longa e no jornalismo cidadão. A gente acreditou que os pequenos negócios iam florescer e dar oportunidade de emancipação financeira aos oprimidos. A gente acreditou que a manipulação das grandes grifes da imprensa ia ser desmascarada pela atuação massiva do povo.

Tudo que é novo, vem cheio de superlativos. Se não vier, não é novo.

Mas a Internet é o palco de uma extraordinária concentração nunca vista. Tudo ou quase tudo passa por meia dúzia de hubs de distribuição. Meia dúzia de marcas dominam o comércio e meia dúzia de marcas dominam a mídia, por exemplo.

Claro que os relativistas de plantão vão bradar contraexemplos, mas parece que o mundo virtual é uma selvagem cadeia alimentar.

Ainda estamos preocupados com assuntos periféricos – direito autoral, privacidade, soberania, fraudes. Mas enquanto isso, meia dúzia de síndicos – eleitos por nós –  dão as cartas.