Artigos na categoria ‘Propaganda’

Faz aí, jaz aí

03/02/2012 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

O faz aí é uma nova tendência do mercado de comunicação.

Funciona mais ou menos assim: a gente chama um moderador aí (mas pode ser de casa mesmo), contrata um grupo aí (mas pode ser uns amigos), faz uma dinâmica aí (mas pode ser uma cerveja no bar), faz um relatório aí (mas pode ser um storytelling), uma reunião aí (mas pode ser um workshop), faz um posicionamento aí (mas pode ser uma plataforma de conteúdo), faz uma campanha aí (mas pode ser uma estratégia multiplataforma), faz aí, faz aí, faz aí.

Faz aí, tudo online, co-created, nas owned-media e earned-media.

Faz aí um departamento de marketing, faz aí uma agência de propaganda, faz aí um facebook bombado.

Faz uns fantasma aí, faz aí uns copy-paste no relatório do instituto, faz aí uns video-case, faz aí umas mídia esponânea, faz aí.

Faz aí, com muita palavra bonita surrupiada da última leitura de ponte aérea, da última palestra turística, do último best seller que seus amigos das redes sociais cacarejaram como último grito da modernidade.

Jaz aí a crença na boa comunicação.

A infantilização do mercado de comunicação

16/01/2012 em Propaganda | Tags: , , | 6 Comentários »

Para que serve uma agência de comunicação para além da retórica e do fácil gorjeio para cliente deleitar-se?

A confiança na independência é a lógica fundadora e muitas vezes esquecida pelos dois lados do balcão, veículos e anunciantes.

Na teoria, a relação entre uma empresa anunciante e uma veículo de comunicação se basta. De um lado quer-se atingir pessoas passíveis de consumir um produto, do outro quer-se financiar a produção de conteúdo que pessoas passíveis de consumir um produto querem.

Não precisa-se – nem precisava-se – de ninguém no meio do caminho, basta o anunciante pagar pelo espaço que irá ocupar no espaço vendido pelo veículo e preenche-lo com conteúdo sobre sua marca/produto/serviço.

No entanto, para que a relação seja justa, o veículo deve convencer que é capaz de atingir aqueles que interessam ao anunciante. Para que a relação seja eficiente, o anunciante também deve fornecer conteúdo que interessa ao público. Se o convencimento não for honesto e o conteúdo de má qualidade, a prova frustra a ambos.

A história da propaganda começou mais ou menos assim: o veículo convencia o anunciante com dados e o anunciante convencia o veículo com conteúdos. E no meio do caminho, pouco ligava-se para quem consumia – os conteúdos e os produtos – mais conhecido como consumidor. Até porque o veículo tinha todo interesse em comprovar que encontrava os consumidores e o anunciante todo interesse em comprovar que seu conteúdo era correto. Veículo fornecendo pesquisa, anunciante criando conteúdo, ambos sobre si.

Ninguém é inocente no mundo e ainda que fosse, o espelho só devolve imagens processadas pelo cérebro. Ou seja, todo espelho é mentiroso, consciente ou inconscientemente. Como confiar nas verdades do veículo? Como acreditar nas do anunciante?

Foi assim que nasceram as agências: para ser o meio do caminho entre as verdades de ambos os lados do balcão, com o cidadão consumidor como juiz. Para ser o auditor dos dados do veículo, para ser o criador dos conteúdos dos clientes.

A confiança na independência do intermediário, a agência, é o que garante (garantia) que a relação do anunciante com o veículo seja proveitosa.

Foi sobre essa lógica cristalina que as agências especializaram-se no consumidor, tanto do lado científico das informações, quanto do lado criativo dos conteúdos.

Mas muitas décadas depois, ainda existem anunciantes e veículos que se arriscam perigosamente para reestabelecer uma pré-histórica relação. Anunciantes tentando criar seus próprios conteúdos, veículos tentando justificar seus próprios públicos. Esse pensamento jurássico proporciona a infantilização dos recursos humanos fazendo malabares com verbas colossais, a frustração das especializações e, in-extremis, a desestabilização de uma trinca que se justificou na prática, fazendo o sucesso comercial das marcas, das mídias e das agências.

Histórias não fazem o boi dormir

11/01/2012 em Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

O que muita gente esquece quando enaltece o “storytelling” na construção de um discurso de comunicação, é que o “telling” é infinitamente mais importante que o “story”.

A arte não está na história em si. Seria simples demais. A literatura inteira, universal, em todos os tempos, é feita de poucas histórias. Muito poucas. Mas por falta de interesse no “contar”, por falta de talento no “escrever”, mata-se por uma “boa história”. Recorre-se à pilatrangem de buscar histórias com ingredientes superficiais, fáceis de tocar, fazer chorar e fazer rir. Vemos novelas demais. Lemos jornais demais. Novelas e jornais são compêndios de histórias. Todas as mesmas, chatas, bobas, embrutecedoras.

A arte está na escrita, flui da linguagem e não dos fatos. São as palavras que constroem a verdadeira experiência. A história não passa de um suporte para a expressão. Por pouco que pareça, qualquer história serve a quem sabe escrever, contar. Conte-me a história de Don Quixote, ou Moby Dick, ou o Vermelho e o Negro. Capaz de não sair nada além de uma série de descrições de personagens com uma trajetória heroica até seus fins. Cervantes e Melville e Stendhal contaram-nos essas histórias parecidas, em milhares de páginas, febres, lágrimas, tremores, transformações pela – e somente pela – escrita, única, inimitável, imortal.

O resto, bem, o resto é o resto. Pode até vender refrigerante, sabonete e carro. Para quem já quer refrigerante, sabonete, carro. É pouco. Pouco demais.

Quem leva a melhor?

06/01/2012 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 1 Comentário »

Por motivos que pertencem aos insondáveis labirintos escuros da mente, competimos uns com os outros para aplacar uma insaciável carência de afeto e atenção. Para justificar esse embate de egos, inventamos talentos e habilidades particulares e diferenciadores. É mais ou menos por isso – e talvez por outros álibis menos nobres – que nas agências de comunicação existem macacos trabalhando em galhos diferentes, em volta de um tronco.

Se a metáfora está correta, existem árvores na floresta com galhos mais desenvolvidos e valorizados do que outros. Criação portentosa e planejamento mirrado. Planejamento super-irrigado e criação raquítica. Por exemplo.

Maçãs não ligam para o tamanho do galho. Quem acha que a maçã de um galho musculoso é melhor do que que aquela de um fiapo, desconhece tudo da botânica publicitária. Maçãs-comunicação se desenvolvem a partir do concurso equilibrado e harmônico da árvore toda, da raiz abissal à mais débil das folhas. Bonsais, mesmo lindos, caros e raros produzem frutas insípidas.

O mercado brasileiro – quiçá global – é uma dessas esdrúxulas florestas de anomalias.

O cliente faz a colheita nessa selva artificial. Aqui ele prefere o planejamento, ali a criação, acolá a mídia, e outras bizarrices circunstanciais. E come maçãs belas mas ocas, feias mas rechonchudas, saborosas mas feias e ocas.

E mesmo assim, competimos. E por isso ouvimos que o cliente gostou do planejamento mas não comprou a criação. Adorou a criação mas roncou no planejamento. Curtiu o planejamento e a criação mas a mídia era banal. Ou aquele que detestou tudo mas contratou por causa da estratégia de mídias sociais. Ou ainda aquele que tudo amou mas refutou porque não curtiu o wobler de gôndola.

Parabéns, vamos nos dar os parabéns

16/12/2011 em Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Parabéns, você conseguiu entregar os briefings no prazo. Parabéns. Parabéns, as reuniões foram bem sucedidas. Parabéns, deu para testar tudo a tempo de entrar no planejamento do ano. Parabéns que deu para preencher todos os itens da última previsão. Parabéns que tinha o que dizer para cada uma dos objetivos. Parabéns que deu para apresentar tudo para seu chefe, os chefes do seu chefe, os chefes dos seus chefes e ainda os chefes deles, por call. Parabéns que você foi bem na reunião de review na matriz. Parabéns que deu para motivar e engajar os revendedores, os funcionários, que eles riram e aplaudiram. Parabéns que a grana deu e ainda parabéns porque você conseguiu economizar sem parecer pobre ou pão duro. Parabéns que você sempre fez cara de exigente, de inteligente e muito parabéns porque todo mundo acreditou que você é um grande parceiro, amigo compreensivo e profissional acima de tudo. Parabéns porque ninguém percebeu que você arranjou alguns números, parabéns porque você atendeu as metas, fez a pesquisa que precisava, enfatizou o slide que as comprovava e passou batido naquele que as contradizia.

Parabéns, você conseguiu atender aos briefings. Parabéns, conseguiu aprovar com os chefes, da criação, do planejamento, da mídia e até do atendimento. Parabéns porque, depois de idas e vindas, madrugadas e fins de semana, todo mundo acha mesmo que você se dedica muito. Parabéns porque ninguém percebeu que você se inspirou aqui, se apoiou ali, maquiou acolá. Parabéns, porque em todas as reuniões, ninguém viu sua cara de sono ou de ressaca. Parabéns porque você conseguiu encaixar, nas mesmas madrugadas e fins de semana, aqueles jobs que vão fazer você brilhar nos festivais. Parabéns. Parabéns que todo mundo te acha engraçado, inteligente e irônico. Até o cliente. Parabéns pelos apelidos que você criou. Pelas piadas que você vomitou. Parabéns porque você arrancou umas duas propostas no ano por causa daquela madrugada e fim de semana que você surrupiou no briefing do cliente praquele jobezinho que te fez brilhar nos festivais. Parabéns porque você é o primeiro a ter aquele mini-cooper novo, o primeiro a ter aquele rolex novo. Parabéns porque você fez um rinque de boxe na sala de sua casa, um canto japonês no seu terraço e um estúdio de gravação na casa da praia. Parabéns.

Parabéns.

Ainda bem que a gente lembra de tudo isso. Senão, capaz da gente achar nossas campanhas bem fraquinhas.

Tanta ideia boa e tanto aborto por aí

14/12/2011 em Propaganda | Tags: , , , , | Deixe um comentário »

Se de boas intenções o inferno está cheio, de boas ideias o mundo está de saco cheio e nem por isso está melhor.

Ideias pululam, se multiplicam, se atropelam porque são muito frágeis.

A esmagadora maioria das ideias que brotam aos borbotões até das fontes mais improváveis, morre por incapacidade de expressão, paixão ou realização. É por isso que tem tanto aborto por aí.

Primeiro é preciso saber expressar a ideia. E é aqui que entra a linguagem, a técnica e o suor. Talentoso não é aquele que tem ideia – isso não vale muito – mas aquele que consegue dar-lhe forma, simbólica. Publicitariamente falando, é fácil parir uma big-idea, cabe numa frase tosca, geralmente mal escrita, seguida do aviso “olha, não estamos criando, viu? É só um ponto de partida. É pra inspirar!”. O enrosco vem quando tenta-se dar cara e sex-appeal para isso sem cair na banalidade do power-point “inspirador”.

Segundo tem que saber convencer. É aqui que entra o sangue nos olhos, a segurança e uma certa dose de malandragem, mais conhecida como maturidade. Publicitariamente falando, uma big-idea com um lindo estímulo não passa nem na primeira reunião com o último dos aprovadores da escala hierárquica. Difícil é saber driblar a preguiça, a falta de tesão, o bônus incerto, os testes atrofiantes, o cronograma, a vaidade, a dor de barriga, o mau humor e outras espinhas.

Terceiro é bom saber se dá para fazer. E se o fazer não vai destruir a ideia, vulgarizar a expressão e corromper a paixão. Por algum desvio evolutivo, convencionou-se separar a “criação” da “realização”. Tem o cara da torre de marfim e o outro no chão da fábrica. Publicitariamente falando inclusive. Realizar significa não somente respeitar a expressão, mas também o bolso, o tempo e principalmente os objetivos do briefing. Os festivais curam as frustrações mas não enchem a barriga.

As agências de propaganda foram, estranhamente, constituídas a partir dessas três funções distintas. Tem o cara da ideia, o da expressão e o da realização. As atribuições variam, mas sempre cada macaco em seu galho. Por exemplo: se a ideia é do atendimento, ninguém mete a mão na cumbuca. Se a expressão é da criação, não me toques. Se o convencimento é do planejamento, não enche meu saco. E se a realização é da mídia, money talks. É por isso que tem tanto aborto por aí.

ROI é mixo

08/12/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Apostar com entusiasmo em segmentação não é sempre a melhor estratégia. É também desprezar os inefáveis pulsos do consumidor acreditar que seu perfil, seja ele sócio-demográfico, seja ele psico-atitudinal, deve ser o primeiro estágio da peneira de esforços de comunicação. Muitas vezes, um tiro de canhão mata mais andorinhas do que mil arqueiros de elite.

Por que será que uma marca de luxo precisa comunicar-se com comuns mortais? Por que uma marca mais humilde precisa dialogar com o olimpo sócio-financeiro? Por que é importante falar de uma marca de golfe para jogadores de futebol e vice versa? Não é porque queremos convencer os peladeiros que jogar golfe é determinante na sua escalada social, nem o esnobe do taco que ele precisa sentir cheiro de povo para valorizar sua Ferrari. É porque é determinante na decisão de compra de qualquer marca, qualquer que seja seu “target”, construir reputação. Não se ergue a fama de nada nem ninguém chovendo no molhado.

É sub-estimar demais o poder da comunicação investir cirurgicamente em potenciais clientes com intenção de compra e perfil confirmados. É mixo.

Desde que a Internet surgiu como plataforma de comunicação, a gente tem se preocupado demais em vender o tiro certeiro. Fazemos comunicação super hiper calculada e cirúrgica. Será falta de sensibilidade desacreditar assim na criatividade? Será falta de ambição acreditar que só convencemos quem está convencido?

Por uma lógica perversa, compramos carros de luxo também porque aqueles que não compram sabem que não é para eles. Compramos cola de dentadura porque sabemos que o bacana que faz implante também é impactado pela comunicação da marca que gostamos.

Sim, não é lógico, mas quem gosta de lógica não dá pra propaganda.

Criação e planejamento, a gangorra

29/11/2011 em Propaganda | Tags: , , , | 7 Comentários »

Há quatro diferentes maneiras de fazer planejamento de comunicação em uma agência.

A primeira é quando planejar significa exatamente planejar, ou seja, concatenar ações, mensagens e estratégias no tempo. Esse “tempos e movimentos” é uma administração crucial mas deixou a área de planejamento para incorporar-se nas disciplinas de atendimento. Não é planejamento, pelo menos como se define hoje a área, mas gerência de projeto.

A segunda forma de planejar nasceu nos luais psicanalíticos e ripongas. Defendida pela turma das ciências sociais, por inflamadas tietes de Lacan ou Lair Ribeiro (dependendo do pedigree acadêmico), esse é o planejamento pesquiseiro e enfezado, que se vê, projeta e faz amor com arquétipos. Numa agência de comunicação, essa turma faz o que chamamos de retroplanejamento: “chama a bigoduda para provar que minha ideia é incrível”.

A terceira prática foi sevada na opressão tirânica da Criação das agências. Um ódio selvagem e reprimido contra as musas que iluminam infantilizados criativos formou planejadores intelectuais, super-hipertendência, que dissertam sobre Bocuse e Marcuse com a mesma flatulência. Em uma agência de comunicação, esse pessoal moderno faz o protoplanejamento: “manda aqueles moleques mimados da criação executarem nosso power-point”.

Finalmente, a quarta maneira de planejar, como reação à segunda – subserviente – e à terceira – pretensiosa, é o antiplanejamento. Esses planejadores são híbridos assumidos, camaleões com talento para as artes circenses. Escorrega-se aqui pelas práticas, de acordo com as circunstâncias, os objetivos e as plateias. O planejamento de comunicação é aqui retro ou proto, abre-alas ou anunciação, pedestal ou redenção, alavanca e contra-peso, depende. Depende da ideia, depende da necessidade.

Esse é o planejamento que não acredita na tabuada das pesquisas, nem no blablablá metafísico. O planejamento dos bastidores assumidos, que existe para que brilhe o que deve brilhar. Nem dados, nem teorias, nem metodologias, nem egos, mas a comunicação que vai pra rua, que vai ser vista, curtida, lembrada, que influencia, cria desejo e prazer.

A inspiração não nasce da reação de fórmulas previamente experimentadas. Ela tem sua dose incidental e mágica. Por isso é refratária ao método quando ele se impõe dogmaticamente.

Criar e planejar parecem práticas inconciliáveis a menos que ambas sirvam de alacanca uma para a outra, qual uma gangorra equilibrada e divertida.

Quem pensa em dinheiro é pobre

07/11/2011 em Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Uma Ferrari custa caro, mas se você usá-la para conduzir celebridades mediante um cachê exclusivo, cobrar couvert artístico dos transeuntes que ficam no sereno vendo a comitiva passar, se você vender com exclusividade a cobertura dos eventos na mídia e comercializar espaços publicitários nos intervalos do show, se você ainda conseguir patrocínios para envelopar o veículo, oferecer kits patrocinados para dar um up na experiência, se você cobrar vaga no estacionamento para glamourisar os restaurantes, hotéis, motéis,  drive-ins e se calhar de uma top model em fim de carreira ressuscitar sua glória passada com atitudes midiaticas a própria Ferrari vai emprestar o bólido para tão brilhante holofote.

Você já viu a isca filosofal “dinheiro não é um problema, se vocês nos apresentarem uma idéia genial”.

Dinheiro é só uma questão de ponto de vista. Nenhum cliente é pobre.

A culpa  sempre foi e sempre será sua, incompetente interesseiro.

O consumidor é mais humano do que queremos

04/11/2011 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Antes, comprava-se para ter ou para usar. Na primeira alternativa, o confortante sentimento de posse constituia uma perspectiva mascarada ou explícita de investimento. Na segunda, o consumo era motivado por necessidades funcionais ou psicilógicas.

Mas consumir reveste-se de mais baixas motivações, subvertendo aquelas primeiras e transformando-as em justificativas ou alibis. Ter ou usar não passa de retórica expiatória.

Consome-se por uma míriade de motivos reais, cuja profundidade do impulso varia e que pode nos ensinar como e onde apertar os interruptores da sedução publicitária.

Compensação existencial é comprar para preencher lacunas de tempo ou de tempos estúpidos. Compra-se de tudo sem correlação entre uso e troca, preço e benefício. A satisfação dá-se na experiência, é momentânea e fugaz.

Compensação produtiva é comprar para satisfazer merecimentos presumidos. Compra-se porque ganha-se e nesse caso, o preço é fator determinante: o poder de se saber apto a pagar é a motivação principal.

Compensação humanística é comprar porque faz bem para si, para o outro, para a sociedade, para o futuro. Essa compra hedonista ou altruísta é filosófica, transcendente, messiânica. Aqui, importa a palavra e o exemplo antes do benefício funcional e emocional.

É importante entender o consumidor, seus valores, seus sonhos e frustrações. Mas o modismo de debruçar-se sobre esses elevados objetivos engana e constrói catedrais de lógica sedutora que flutuam em nuvens intelectuais. O comportamento do consumidor flutua e varia muito mais do que querem crer nossos edifícios conceituais. Antes de sobrevoar em fascinantes viagens, que tal aterrisar um pouco nas inconfessáveis motivações do pobre coitado que chamamos de consumidor?

Perfil PJ da PF no Facebook

31/10/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 2 Comentários »

Compostura e entusiasmo são qualidades difíceis de conliliar.

Ensinaram-nos a ter atitudes diferentes no ambiente do trabalho e na vida particular. No trabalho, devemos assumir uma persona focada, educada, séria. Na vida particular, podemos largar as amarras, ser quem se é. Se na vida de todos os dias, podemos controlar as pressões sociais com alguma maleabilidade, das 9:00 às 18:00 a máscara deve ficar no prumo.

Mas várias coisas mudaram. Vivemos uma crise de disponibilidade e portanto de identidade. A vida não é mais compartimentada em trabalho e não trabalho. As invasões de território entre nossas duas vidas são porososas, indefinidas, difíceis de gerir.

Lidamos com fusos horários que não respeitam o sol e com prazos que escorregam velozmente. Em algum lugar do mundo, há sempre alguém nos solicitando, impaciente e desrespeitoso.

Lidamos com plataformas de comunicação que cruzam-se e chafurdam em bacanais digitais. Nossas vozes são públicas, privadas e profissionais, num cruzamento despudorado.

Lidamos com marcas que lutam por envolvimentos cada vez mais umbilicais. Somos agentes e vítimas de relacionamentos pornográficos com estratégias mercadológicas.

O lado nefasto dessa Sodoma é que vibramos e dependemos da sacanagem.

A nova revolução capitalista invade a vida privada, operando uma mais valia sorrateira, insondável, contagiosa.

A nova revolução anarquista ocupa a vida profissional, operando uma desordem maliciosa, envergonhada, escondida.

Trabalhamos fazendo amor e fazemos amor trabalhando.

Brochante.

Vamos abrir um perfil Pessoa Jurídica nas redes sociais e curtir com entusiasmo as engajadoras estratégias digitais dos nossos clientes.

Você pode precisar desses aforismos

28/10/2011 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

Dois aforismos contaminam o mundo:

1. “Para todo problema complexo, existe uma resposta  simples e errada.”

Esse é o mundo do pouca prática ou do pelos na mão. O mundo do mamulengo, maria mole, mente sebosa e disfunção criativa. Ele povoam as baixas esferas, o sub mundo dos pequenos poderes que somam a totalidade da mediocridade da raça humana.

Esse é o mundo pago para fazer pelo outro, pago para pensar.

2. “Para todo problema simples, existe uma resposta complexa e errada”

Essa é a praia do garganta ou da torneira de clichés. Quem está nessa praia tem pose, pompa e circunstância. Padece de burrice camuflada, teimosia pedante e verborragia compulsiva. Habita as altas funções e o mundo dos comitês. Sabe como poucos galgar as escadas da ineficiência corporativa.

E esse é o mundo que paga a conta.

Só tem uma vacina para essas pragas: pousar de loira burra e rir com seus botões.

Publicitários e profissionais de marketing: vítimas da própria criação

19/10/2011 em Propaganda | Tags: , | 6 Comentários »

Cada vez que o assunto aqui é pesquisa de comunicação, a curva de audiência alcança os pícaros dos 15 minutos de fama.

E quanto mais radical for a opinião, quanto mais direta, quanto mais destruidora, mais júbilo. O jargão assinado tira da reta o reto de quem cita. Só isso é um sinal.

As pesquisas de comunicação fazem muito mais estrago  nos resultados objetivos das marcas do que na moral dos publicitários e profissionais de marketing, ambos vítimas conformadas da própria criação.

O problema concentra-se na presunção da verdade.

Pesquisas do tipo alegado são contratadas como pitonisas. Prevendo o futuro com o insidioso poder de manipular seus   atores, não passam de catalisadoras de mentiras e interpretações corrompidas.

Primeiro porque não existem verdades quando tratamos de emoções humanas. Não existem verdades em intenções, pulsos, reflexos e sonhos.

Segundo porque, na vida, não há causa e efeito nem determinismo. Consumidores são pessoas, portanto, como nós, vogam ao sabor de seus desejos e à deriva.

Terceiro porque o consentimento social é mais poderoso do que a opinião. A aprovação do grupo altera a verdade íntima, a memória e até as convicções mais sangúineas.

E quarto porque quem lidera, modera, interpreta e decide as pesquisas também é gente, ou seja mente,  divaga e teme  o próximo.

A propaganda é um teatro grostesco em que marionetes cambaleantes fingem a verdade nas mãos de gepetos manipuladores.

A Internet está mídia de massa

14/10/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 5 Comentários »

A redenção proporcionada pela liberdade de escolha na Internet é uma mascarada. A cavalar maioria das pessoas recorre a uma ferramenta de busca para iniciar qualquer navegação. E outra estúpida maioria passa mais tempo em alguma rede social de sua escolha, do que nossas avós na televisão. A promessa de universalidade permanece potencial, mas se dissipa na prática.

Todas as grandes iniciativas na Internet têm por objetivo a concentração. Afunilando todas as portas de entrada – buscas, videos, mapas, tradutores, redes sociais, canais de compra, etc – se a Internet é anárquica na sua estrutura, é um ambiente fértil para ambições monopolistas.

A livre competição é presunção e a sonhada segmentação das audiências, uma quiméra. Qualquer portal minimamente agressivo, se é vertical no discurso, acalenta secreto desejo de abraçar novos e diversificados focos de interesse.

A Internet comercial é movida em primeira instância pela audiência e a lógica não é muito diferente da velha mídia. Claro que o discurso é outro, que vendem-se outros modernos argumentos, mais pertinentes, mais modernos, mais precisos. Mas nas entranhas inconfessáveis dos grandes atores da Internet, o dogma do “mais” em detrimento do “melhor” permanece inalterado.

Se o ovo ou a galinha, se porque as pessoas não gostam de  escolha ou se porque não lhes é dada escolha, não há, nem houve revolução alguma. A Internet mudou hábitos, não mentalidades. Ainda.

Internet e a arte do veja bem

10/10/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 3 Comentários »

Nem tudo que vem do “velho novo mundo” (a Internet) é necessariamente novo ou bom ou eficiente.

Mas apresentar uma plataforma digital é mais fácil porque é necessariamente desconhecido ou barato. Então, mesmo que não seja criativo, veja bem, funciona. Mesmo que não funcione, veja bem, engaja. Mesmo que não engaje, veja bem, temos aquele índice que mensura o envolvimento místico da ação potencializado pelo crescendo exponencial da existência contemporânea, lúdica e holística, acachapante. E veja bem, ainda é cedo para concluir. E veja bem, tem aquela meta digital do seu bônus.

É por isso que qualquer estratégia digital deve vir acompanhada de bula e manual de instruções que percorrem os sete portais iniciáticos do Mistério.

Os incrédulos são heréticos, velhos e caretas demônios da velha mídia, agentes malignos do capitalismo capeta.

Criatividade na velha nova mídia tem outros critérios. Crê-se no veja bem acima da lógica, da experiência e da sensibilidade. Uma espécie de transcendencia esperta.

Criatividade é como honestidade, não tem veja bem.

Grude gringo

07/10/2011 em Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Você já deve ter ouvido que o Brasil é a bola da vez um milhão de vezes e, embora isso possa ser animador, o  grude gringo preocupa.

Eles estão suspirando no nosso cangote, com olhão de inveja na nossa vitalidade, vampirizando nossa energia e trucando com seus molambos de poder.

Prometem, douram a pílula, distribuem abraços e beijos, e com metralhadoras, distribuem saraivadas de elogios “brasileiro é tão bonzinho, criativo, engraçado, descontraído, carinhoso!”

Tem uns que se arrepiam com o interesse cafajeste: abrem a casa, pousam sexy na Hola e arrepiam-se com a misantropia dessa nata do B.

Mas nosso sangue não é purinho, cambada! Derreter-se nesses bailes de elogios é para debutante.

O que esses guys não sabem é que aprendemos tropeçando, levando rasteira, upa neguinho na estrada.

Nesse momento de transfusão de recursos in-extremis, toda malandragem será perdoada.

 

Talento é pouco

03/10/2011 em Propaganda | Tags: , | 3 Comentários »

É difícil acreditar que um bom profissional de criação, cheio de referências e festivais na cabeça, possa sentir orgulho de estar em algumas fichas técnicas. Por mais cínico que seja:  “afinal de contas é apenas propaganda”, por mais conformado: “o cliente tem mau gosto”, perdedor: “a pesquisa estragou tudo” ou preconceituoso: “o consumidor é burro”, ainda assim, a grande maioria desses criativos, coeteris paribus, é melhor do que aquilo do que ele coloca na rua.

Talento e inspiração não são fatores de sucesso. O que mais então precisa?

Capacidade de trabalho talvez e a energia para baixar a cabeça, produzir opções, caminhos, pontos de vista conflitantes ou em cadeia. Espremer-se até a última gota de criatividade, esgotar-se até desmaiar exsangüe e em crise: tem alguma coisa nessa pilha? Essa é a técnica da dúvida perpétua.

Aguçar o julgamento também e, com o coração, descartar o que não presta, rápido, sem pena nem arrependimento. Fixar-se num prazo e número: “tenho até amanhã para selecionar 3 ideias”. Essa é a técnica da faxina sem pena.

Finalmente engolir o choro e acreditar messianicamente no talento, na capacidade de trabalho e na força do julgamento. É a fase do guerreiro em transe que não conhece dúvida nem pena. A fase do descarte do processo e da fé no resultado.

Dúvida, julgamento e fé. Mas como é difícil não embaralhar tudo e julgar antes de tentar ou acreditar antes de julgar.

Mais coisas e menos bits

30/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 4 Comentários »

Os que creem no além túmulo, dizem que lá é tudo virtual, nada existe, que tudo não passa de fantasmagoria. Fantasmagorréia, isso sim, porque se além é esse “não me toques” todo, então viver é a celebração da pegação. A diferença entre uma alma penada e uma alma pegada é que uma pena e outra pega.

Mas por que diabos eu quero mais uma prótese virtual? Por que diabos vocês inventam esse monte de virtualidades para falar comigo?

Vocês acham mesmo que a gente não gosta de tocar, cheirar, beijar, abraçar, comer? Que a gente não gosta de ver com os próprios olhos, apalpar com as próprias mãos, lamber com a própria língua, chorar com as próprias lágrimas, sorrir com os próprios dentes? Que desistimos de olhar no olho das pessoas e dizer “te curto irmão”? Que perdemos o prazer de brincar com coisas de verdade, brigar com pessoas de verdade e bolinar pessoas de verdade? Que “de mentira” é melhor, mais bonito e mais barato que “de verdade”?

Então parem, por favor, com tanto desalmamento.

Quero uns óculos gigantes para ler no meu ipad. Quero um mega fone para ouvir meu ipod. Quero uma mega bolsa para carregar meu iphone. E que tudo seja bonito e dure muito mais do que preciso para poder trocar e trocar e trocar. Tá legal, podem ser sustentáveis, recicláveis, descartáveis, mas quero um gato, sapato, acetato e móvel, automóvel, de carne, osso, e alma.

E se quiser falar, comunicar, propagandear, dialogar, engajar, seduzir, apaixonar a minha pessoa pela sua coisa, seja homem, e não um inefável monte de cocô.

Jornalista é chato e publicitário, bobo

29/09/2011 em Propaganda | Tags: , | 6 Comentários »

Quando já não sabemos mais a fronteira entre conteúdos jornalísticos e publicitários – se é que algum dia houve tal distinção – está cada vez mais difícil identificar a diferença de talentos exigidos pelas respectivas profissões. Porque as duas profissões têm uma relação de sado-masoquísmo ancestral, a conjugação conceitual das duas técnicas e éticas, tem sentido.

Há quem diga que o jornalista dirige e o publicitário é carona. Outros diriam o contrário: que o publicitário é a ama de leite, o jornalista o bebê chorão. Mas se bons jornalistas podem ser bons publicitários e vice versa, a cerca está a cada dia mais fácil de pular porque a amizade entre as empresas de mídia e as agências é colorida.  Ainda mais quando quem paga a conta, o anunciante, rege a discórdia pacífica: “to pagando, pô”.

Há quem diga que o repertório jornalístico é erudito e denso, que o publicitário é popular e superficial. Outros preferem dizer que jornalista é chato e publicitário,  piadista. Mas se bons jornalistas fazem publicitários prolixos e bons publicitários fazem jornalistas preguiçosos, a troca de pontos de vista pode ser boa.

Há quem diga que a imprensa é ranzinza e padece de senilidade precoce. Há quem diga que a publicidade é debilóide e com espinhas incuráveis.

A internet matou as entrelinhas. #snif (por Rafael Buciani)

28/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 8 Comentários »

Quanto tempo faz desde que você contou uma piada pra meninada da internet no mundo real?  Você se lembra quanto tempo ela demorou para entender a sacadinha? Precisou fazer algum gesto com as mãos? Sacou um gravador com uma daquelas risadas fakes de sitcoms americanos?

Eu não duvido que isso um dia ocorra.

Me explico.

Na internet, o subentendido tem legenda. Piada vem com “kkkkk”. Ironia vem com “#not”. Sarcasmo vem com “:-)”.

Antes não era assim.

O ser humano nunca precisou de artifícios para passar uma ideia.  Machado de Assis nunca colocava “#not” nas suas ironias.  Tampouco Woody Allen escrevia roteiros seguidos de #hahahaha.

Ao mesmo tempo que qualquer porcaria vira piada (afinal de contas, basta uma legenda), citações inteligentes correm o risco de se tornarem indecifráveis para futuras gerações.

Será que estamos ficando burros?

Não sei. Mas já garanti meu gravador com risadas fake. #not