Artigos na categoria ‘Propaganda’

Helder Araújo, por exemplo

28/07/2010 em Propaganda | 1 Comentário »

Ele tem um olhinho matreiro, cria das Gerais, e um dandismo latino, cria da bota etrusca. Mas, desconfiado, num crescendo operístico, a verve ilumina-se, sobe o tom, à medida que as ideias se desdobram, redobram e transbordam. O mineirinho de cachecol sobe no pedestal de um Antônio Conselheiro, evangelista.

Para Helder Araújo, modernidade é um ponto de uma curva em espiral ascendente. Nada é novo se não for herança, do que foi e do que será.

O vasinho da Mesopotâmia de argila cozida, que virou pote de bronze, que virou urna de vidro, que virou pipeta refratária que virará, um dia, sabe-se lá o quê. Novo é melhorar o velho e preparar o mais novo ainda. E sempre será assim: o tempo de se fazer o novo é agora, pois num piscar já fomos.

-   A gente morre; as coisas, não.

Então, Helder estudou design na Universidade Federal de Minas Gerais e na fábrica da Benetton, na Itália. Foi trabalhar com design e pesquisa de comportamento, tentando entender a criação e a inovação produzidas pela principiante espécie humana. Se queremos deixar um legado que dure mais que nós mesmos, temos que entender onde colocamos nossa força, nossa energia. Temos que questionar qual a ideia, que coisa ou que indústria estamos alimentando com o nosso suor, com o nosso pensar. Temos a chance de escolher algo para melhorar e deixar algum exemplo para quem vier? Basta se perguntar qual evolução queremos alimentar.

- Mas ainda não tinha descoberto o elo perdido.

Porque afinal, se as coisas perpetuam-se para além da nossa fugaz existência, que diabos estamos fazendo aqui? Qual o nosso papel? Se Deus existe, ele brinca de fazer a gente duvidar de seu determinismo. E nós brincamos de ensinar a Deus que a água pode ser domesticada no vasinho da Mesopotâmia, apesar da rebeldia das moléculas. E também, porque a gente desconfia que a água pode ser separada em átomos, e os átomos também, e além, a gente vai mais longe e acelera as partículas até tentar entender o Big Bang. Na volta descobrimos que tudo está codificado. A vida é informação traduzida em genoma e pode ser manipulada e artificialmente criada. Perspectivas que dão  ilusão de poder ou escancaram nossa ignorância.

- Então, talvez o que fica como nosso legado seja só somar os elos.

Conhecimento. Essa coisa se chama conhecimento. O que nos faz somar e transformar, o que nos faz melhorar as coisas que são eternas é a nossa atávica capacidade de aprender e ensinar. A modernidade é portanto só fator, e não objeto. É uma espécie de fermento. Criar é só inspirar-se no velho e inspirar o novo. Se os gregos inventaram a pólis, que se dividiu em demos, promoveu democracia  direta que virou representativa que está virando participativa. Se a Bíblia é O livro, foi necessário multiplicá-lo – a contragosto – para profaná-lo. Assim veio o Decameron, e Rabelais, e Cervantes e À procura do tempo perdido, e depois Paulo Coelho e os blogs, e as conexões entre humanos que se socializam ao sabor da grande rede. A troca de conhecimento é o que une a diversidade.

WEBCITIZEN


www.webcitizen.com.br

Há um ano, a Webcitizen surgiu com a proposta de desenvolver espaços que estimulem o engajamento cívico. Temas áridos apresentados com a mesma leveza do um game ou passatempo. Transparência muito além dos dados abertos.

No Vote na Web, um dos aplicativos desenvolvidos, não encontramos textos burocráticos ou com linguagem rebuscada que afastam o cidadão da política. Aqueles textos enormes, escritos em “congressês”, transformam-se em três objetivas linhas. Dois “cliques” e é possível saber quais são os Projetos de Lei em tramitação e quem são os políticos responsáveis por eles.  Ainda é possível votar simbolicamente contra ou a favor e visualizar em um mapa colorido o que pensam a respeito os cidadãos de cada Estado.

São mais de 5 mil usuários, sendo mais da metade com idade entre 16 e 30 anos, reunidos para discutir política. A iniciativa já chamou a atenção do mundo. Recentemente, a Webcitizen foi a primeira iniciativa apresentada em língua não inglesa para o GOV 2.0 Expo, principal evento sobre o tema, realizado em Washington. O exemplo será replicado em outros países, como Colômbia, EUA, Itália e Israel.

A tecnologia foi doada para que cada local adapte a ferramenta ao seu sistema político. A Organização das Nações Unidas, ONU, também se interessou e deve integrar a plataforma em um dos pacotes de aplicativos que oferece a países com governos democráticos.

A Webcitizen é uma plataforma participativa, que sonha reinventar a democracia através da colaboração livre dos cidadãos.

- Mas é recitando que se aprende?

Propagar conhecimento é também encurtar caminhos. É não precisar quebrar o vaso da Mesopotâmia para criar a pipeta refratável e o acelerador de partículas. Carlos Magno inventou a escola, e desde então a gente senta a bunda na cadeira para decorar que ele inventou a escola. Mas o mundo ficou mais rápido; as noites, mais curtas e os dias, uns suspiros. A gente aprendeu a aprender sozinhos, porque num clique desfila toda a enciclopédia humana em sínteses úteis.

BUSK


www.busk.com.br

Rede social, buscador e agregador de notícias. Um lugar para encontrar, colecionar e compartilhar conhecimento. Uma plataforma de educação informal, que começa com a busca de notícias.

Lá você encontra um conteúdo que passa pela curadoria da equipe do Busk. Todos os sites que participam do clube de publicadores do Busk foram convidados, um a um, a fazer parte do projeto. Sem hierarquia ou julgamentos sobre o que deve ser conhecimento e informação: moda é tão importante quanto política. Toda notícia lida pode ser colecionada em seu perfil e compartilhada por twitter, facebook, orkut ou e-mail. Ao receber a notícia, seu amigo vê como chegou até ela, e se ele clica na fonte encontra – em ordem cronológica – as últimas publicações daquele site. Ou, se clica no autor, vê tudo o que ele escreve, pensa e dissemina. Ele também pode vizualizar o seu perfil e perceber, por exemplo, através de seu mapa de consumo de informação, que você se interessa por esportes tanto quanto ele. Nesse momento, o Busk atua como rede social unindo pessoas através do conhecimento. Seguindo um perfil, você tem acesso a todo o conteúdo salvo naquela coleção e tem a oportunidade de aprender com seu amigo e dialogar sobre as notícias, no espaço, para comentários. O Busk também vai ranquear com quais dos seus amigos você tem mais afinidade.

É o conhecimento compartilhado transformando cada pessoa e suas relações sociais.

- Mas e o charme, não percamos o charme jamais.

Helder aprendeu a gostar de Gustav Klimt com Dona Dulceneia, sua professora de educação artística, mas foi conversando e viajando que ele se deu conta de que a loucura de alguns é só um tipo de imaginação mal compreendida ou não realizada. A imaginação estéril não passa de alucinação.

Omar Vulpinari, um de seus mentores na Itália, certa vez lhe disse: uma ideia só tem valor quando materializada. O charme de uma ideia está na capacidade de seduzir para transformá-la em realidade.

TEDx


www.tedxsaopaulo.com.br

Em novembro de 2009, aconteceu o primeiro evento TED no Brasil: o TEDx São Paulo, que reuniu 1.000 pensadores de diversas áreas de conhecimento e atuação para debater “O que o Brasil tem a oferecer ao mundo agora?”. Foram 14 horas de evento, com 34 palestras e quatro intervalos, para a interação entre o público e os palestrantes.

O TEDx São Paulo foi realizado por uma equipe de onze voluntários, durante um ano, desde que Helder Araújo, por ser membro da comunidade internacional,  conseguiu a licença para a realização da edição brasileira.

Na Califórnia, onde acontece desde 1984, com a proposta de apresentar “ideias que merecem ser espalhadas”, Gordon Brown, Bono Vox, Bill Gates e Al Gore já se apresentaram durante 15 a 20 minutos, o mesmo tempo que é reservado a outros palestrantes menos populares. Foi através do TED que o educador Ken Robinson ou a neurocientista Jill Bolte Taylor, por exemplo, disseminaram o que pensam sobre educação e como é passar por um derrame cerebral.

Em comum, todos os palestrantes têm um olhar renovado e impactante sobre os temas que abordam. São exemplos inspiradores.

Para ampliar e democratizar o acesso ao conhecimento, hoje, todas as palestras de eventos TED são publicadas na internet com um programa de tradução colaborativa. Algumas chegam a ser traduzidas para 12 idiomas.

A licença “X” permite a realização de eventos independentes pelo mundo, os TEDx, com a mesma filosofia. O TEDxSP foi considerado o encontro mais importante da América Latina e um dos melhores do ano de 2009, ao lado de dos TEDxTokio e TEDxParis.

Em novembro de 2010, os mesmos organizadores da edição paulista (que será bianual) realizarão o TEDxAmazônia, debatendo a “Qualidade de vida para todas as espécies” – dos corais marinhos aos seres humanos. O encontro acontecerá em Manaus, em um hotel no meio da floresta, durante dois dias. Em seguida, haverá uma expedição pelo Rio Negro, durante a qual os membros da comunidade poderão vivenciar uma experiência íntima com a realidade local.

Outra ação será o fomento de encontros dentro de universidades brasileiras, com palestras de estudantes de gradução, mestrado e doutorado. Em 2011 haverá um grande encontro, reunindo as melhores ideias apresentadas dentro das instituições de ensino, e por votação uma ideia será selecionada para receber um incentivo financeiro para sua materialização.

- Aprender com o charme do exemplo.

Que outro lugar do mundo poderia ser tão generoso, além do Brasil? O mundo tem seu ócio criativo, nós temos nossa desordem criativa. O Brasil que se banha na mistura desde sempre. O Brasil que entra na internet com fome ancestral.

O Brasil que tanto atraso precisa chacoalhar para recuperar séculos de analfabetismo. O Brasil que, sem banhos de sangue mas muito suor na camisa, pula de uma obscura ditadura para a aprovação de iniciativas populares pelo Congresso em votações inéditas.

Meu exemplo? O Brasil para o mundo.

Sem essa de subir em pedestais. Quando uma nação precisa se declarar grande, por que outra é imeditamente declarada pequena? A cidadania global valoriza as trocas, sempre mais estimulantes do que as disputas. Essa é a nossa história, nosso exemplo, nosso charme matreiro.

Planejamento: 40%; Criação e Mídia: 10%

27/07/2010 em Propaganda | Tags: | 9 Comentários »

Numa recente concorrência de agência, um anunciante estipulou assim os pesos para os trabalhos que seriam apresentados: criação, 10%; mídia, 10%; planejamento, 40%; outros: 5+5+5+5+5+5+5+5% (estrutura, cases, atendimento, etc.).

Essa forma de considerar o trabalho de comunicação é, no mínimo, surpreendente e demonstra uma tendência curiosa.

Ao ler os critérios superficialmente, podemos evidentemente enaltecer o papel da estratégia de comunicação e lamentar a irrelevância atribuída à criação ou à mídia.

No entanto, se é verdade que o papel do planejamento vem ganhando importância em função também de seu desempenho cada vez mais profissional no país, esse tipo de qualificação das áreas denota uma incompreensão patente do movimento com o qual as agências estão comprometidas, a saber, a integração das atribuições e das entregas entre todas as “especialidades”.

Houve um tempo em que a criação era muito mais valorizada, em detrimento do trabalho de planejamento, discriminado ou redundante. O balanço tende a pesar demais, hoje, para o outro lado, e isso, embora seja uma reação que busca o equilíbrio, é excessivo porque reforça um trabalho apartado, desintegrado.

A criação sempre será a parte visível de um trabalho de comunicação, portanto, a mais charmosa nos bons exemplos, ou vulgar nos maus. Por melhor que seja a estratégia, o trabalho que se vende (e aquele que vende também) é aquele que se vê.

Portanto, o critério correto de escolha de uma agência deveria concentrar-se definitivamente na criação. Por criação, no entanto, deveria avaliar-se, dentro dela, o raciocínio. Esse deveria ser o quesito planejamento a ser considerado, e não de forma independente e isolada.

Mas estamos muito longe desse ideal porque, muito antes de conseguirmos alcançar essa apoteose, ainda deveremos conseguir resolver a questão da autoria, da vaidade e das recompensas individuais.

Enquanto isso, planejadores: ao trabalho; e criativos: relaxem.

O conjunto, a essência e o detalhe

26/07/2010 em Propaganda | 1 Comentário »

Alberto Manguel, em seu livro “O amante detalhista”, descreve em um thriller psicológico um homem apaixonado por detalhes de corpos humanos que ele fotografa por minúsculos buracos. À noite, ele revela as fotos e monta partes de corpos diferentes, em um imenso e sensual quebra-cabeças. Tara apaixonada, portanto verdadeira, incontrolável, humana.

A beleza do conjunto é uma construção romântica que decorre de uma idealização da natureza. O conjunto seduz, mas só o detalhe transporta e apaixona. A cova no queixo, a careta, a ruga, o trejeito raro, o músculo tensionado do dedo mindinho.

Da mesma forma, a essência é um conceito abstrato, que parte de um raciocínio hierarquizante. O mundo é composto de partes que se complementam e se engendram de forma funcional ou aleatória em ecologias complexas. Não existe uma essência, mas várias, inúmeras, infinitas.

Trabalhar o conjunto e buscar a essência são, portanto, esforços intelectuais e abstratos.

A comunicação e a propaganda tendem sempre para esses dois extremos: o conjunto ou a essência. Os detalhes, nesse tipo de construção, são fortuitos, frutos do acaso ou simplesmente desprezados.

Quando temos pouco tempo para falar – alguns segundos que se resumem a um piscar de olhos – escolher expressar o conjunto ou a essência é não somente mais difícil e trabalhoso, mas assustadoramente pretensioso.

A comunicação publicitária possui uma contingência de mínimo denominador comum: deve-se calibrar o discurso para muitos. Encontrar uma essência ou um conjunto que seduza o máximo de pessoas, experiências e sonhos é um desafio de titãs.

Já os detalhes picantes, engraçados, emocionantes, bizarros, inteligentes constituem um universo criativo virgem e universalmente cativante.

Steve Jobs goza e faz gozar

23/07/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Quem nunca ouviu uma música em torniquete, mais e mais e mais, sem parar, até sufocar-se de prazer? Ou repetiu em desatino uma palavra, um grunhido, uma risada, um gesto, ao infinito?

O êxtase é sair do seu estado, cortar-se da cronologia, fixar o presente fora do corpo e da mente. E para Kundera, viver é o difícil balanço entre a busca do êxtase e seu controle porque seu gôzo eterno é mortal.

Há também sofrimento, pena, trabalho na busca e no controle do êxtase. Viver não é brincadeira.

A verdadeira criação é movida pelo êxtase pessoal e comunicá-la é a tentativa, magicamente imprevisível, de transferência desse estado fora do estado.

Pode haver êxtase em tudo. E o orgasmo é sua manifestação mais sublime, mas o êxtase é um prazer prosaico e pode estar na contemplação obsessiva de um buraco no chão.

Pode estar também na produção de um produto, de um texto, de um comercial de 30 segundos, de um supérfluo banner na Internet.

Mas o mundo das marcas, com poucas exceções, é mecânico, cheio de modelos, cabrestos e tolhe, acoberta, policia, vulgariza, nega, assombra ou massacra, o êxtase criativo que transporta e faz nego comprar para além da razão, para além do coração, para além da sanidade.

A propaganda é caroço duro de roer

22/07/2010 em Propaganda | Tags: | 6 Comentários »

A propaganda, talvez por missão sintética, por restrições de espaço, por objetivos massivos ou por ser simplória, concentra sua mensagem naquilo que chama de essência.

Assim, todo o trabalho de planejamento, de briefing e também de criação busca inspirar, enunciar e comunicar a essência de uma marca, de um produto, de um serviço ou de alguma ação. E convencionou-se situar a essência no centro, portanto, exercendo uma superioridade e prioridade sobre tudo aquilo que seria ou será, a partir dessa descoberta, periférico.

Graças ao nosso natural talento para a metáfora, os mais místicos chamarão essa essência de alma; os mais românticos, de coração, mas caroço é mais evocativo.

Uma alma é a etérea representação de nosso complexo de mortais, é nosso álibi de eternidade, uma alma é algo que não se expressa nem se manifesta. Um coração é só uma bomba com motor, um órgão subserviente a impulsos nervosos. Coração e alma foi o que alguns  malucos muito ignorantes colocaram no centro do DNA!

Já um caroço, assim como contém a semente que germina para a renovação, é também o que sobra quando já nos regalamos.

Por trás da busca pelo caroço, desprezamos e até rejeitamos a suculência, o prazer da superfície, a luxúria do detalhe, a sensualidade do supérfluo.

E, no mais das vezes, a essência que assombra nossa busca reduz o  discurso e a história, a provocações racionais básicas ou estímulos emocionais vagos. A  propaganda vira um megafone de argumentos (preço, features…) ou um clipe de sensações imprecisas (juventude, felicidade…).

Por que não acreditar, por vezes, que a busca da essência pode ser substituída pela descoberta da superfície?

Será que só amamos a essência ou os detalhes encantadores?

A pequena e deliciosa periferia da superficialidade tem charmes irresistíveis, capazes de mascarar os mais incorrigíveis defeitos. Essa é a mágica da sedução.

A propaganda, enquanto permanecer encarcerada na ditadura da essência, será quase sempre vulgar, desinteressante e chata pra caralho.

Na propaganda, copiar pode?

21/07/2010 em Propaganda | Tags: , | 5 Comentários »

Para Lautréamont, do encontro de um guarda-chuva e uma máquina de costura depreende-se a verdadeira beleza do improvável. O choque do sonho com a realidade.

A propaganda já foi humorística como Cervantes, realista como Zola, surrealista como Breton. Quando ela não resolve ser simplesmente estúpida como emerge dos ajustes de pesquisa ou vulgar na conclusão precoce de sua eficiência comercial, já soube (e sabe) se inspirar.

Não é pretensioso nem vergonhoso ser capaz de beber na fonte de referências artísticas para criar um produto a serviço de interesses da sociedade de consumo. Ainda é preciso conhecê-las, claro, e curti-las a ponto de poder libertar-se.

Nas artes, o “done that, been there” é uma sentença severa que precipita as obras no esquecimento ou no desprezo. Circular por caminhos já traçados e brilhantemente explorados não passa de exercícios. A obra artística verdadeira, no entanto, propõe novos desvios e jornadas.

Na propaganda, o “done that, been there” é legítimo?

Depende daquilo que se entende por propaganda.

Se a propaganda responde a objetivos mensuráveis de vendas, participação de mercado ou quaisquer outras leituras de imagem, restringe-se seu papel a uma função. Assim, a cópia, a imitação é apenas censurável na medida da sua memória. Copiar o que foi esquecido pode.

Mas, se acreditamos que propaganda também é cultura e temos convicção de que através desse desígnio elevado os objetivos mensuráveis são potencializados, a propaganda tem um papel, e não só uma função. E o “done that, been there” amplia-se para além do tempo. Copiar não pode.

Essa é a diferença entre as duas visões do ofício publicitário e marca todos os debates.

Alguns professam o “fazer” imediato, o “criar” para um fim profano.

Outros rezam o “transformar” no tempo, o “criar” para um fim sagrado.

E não é questão de escolha, mas de fé.

Rasga-se o soutien, mas o peito sempre cai

16/07/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Quando dissemos que a televisão estava em estado avançado de putrefação, que os jornais que embrulhavam os legumes na feira seriam substituídos por outras formas mais inteligentes de suportar conteúdos, que a propaganda tradicional estava nos estertores de mentalidades engessadas e caducas, a gente se libertou, rasgou o soutient.

Quem não passou por essa alforria dos discursos e dos paradigmas ainda não aposentou as chuteiras mas perdeu uma grande curtição.

Mas quando percebemos que o peito sempre acaba por cair, a gente encontra dois tipos de postura no mínimo surpreendentes.

A primeira é daqueles que despertaram com uma década de atraso e manifestam um entusiasmo adolescente pelas formidáveis transformações em curso. Nunca é tarde para rejuvenescer, claro, e o tempo perdido é fácil de recuperar. Basta ser capaz de observar e se observar. Mas o que irrita é quando as descobertas “recentes” dessas pessoas são mascaradas pela presunção característica da experiência. Esse tipo de atitude cega o caminho, sempre melhor, que é o do meio.

Mas a segunda é mais maluca ainda e diz respeito àqueles que já nasceram em outra realidade de consumo de meios e perseveram com o discurso e a prática revolucionária. É inacreditável que existam pessoas mais jovens que super-valorizem as mídias ditas “novas” (não tão novas), em detrimento das velhas. É como ver um comunista de 20 anos, de barba e punho em riste, em pleno século XXI, ou um yuppie com 20 primaveras que fala que os fins justificam os meios.

Nem dá raiva, dá é sono, porque a raiva pelo menos excita.

Você ja procrastinou em alguma reunião hoje?

17/06/2010 em Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

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O sucesso pós fabricado dos videocases

17/06/2010 em Propaganda | 2 Comentários »

Começa bem devagar, nas redes sociais, assim como quem não quer nada. Daí, vai virando, virando, virando. Daqui a pouco é uma febre incontrolável, só se pensa nisso, só se fala nisso, só se escreve sobre isso. Medimos, contamos, caçamos e deu uma baita mídia espontânea. O custo benefício é extraordinário, porque nada se cobrou portanto nada custou. E aquela manchete na terceira página da revista semanal da cidade deu um estrondoso retorno sobre o investimento.

Quem sabe a gente não devesse fazer um videocase, bem bacaninha, com música do rappeiro da hora, edição roots, e direção de arte grafitada, tremida, astral. Não vamos esquecer a reação dos populares, e todas as matérias cobrindo a tela, inclusive os blogs pra dar volume.

Ah sim, e o RP, importante para além da ficha técnica. O sucesso pós-fabricado tem que bombar nas redações, afinal de contas, que diabos esse bando de jornalista está fazendo de mais importante e útil do que divulgar feito tão influenciador e bem sucedido?

E que se dane o comercial de televisão, a estratégia de mídia, as pesquisas todas – malditas sejam.

Que se dane essa mídia de massa que atinge brutalmente as pessoas.

Mais vale a viralização imensurável do que a audiência burra.

E que se dane tudo porque é hora do recreio.

Mamãe, você acredita em pesquisa?

08/06/2010 em Propaganda | Tags: | 5 Comentários »

O arco-íris é uma cobra maléfica que reside no fundo das águas. Em tempos imemoriais, os índios e os pássaros – ainda semi-humanos – uniram-se para destruí-lo. Tiveram sucesso. Os pássaros fizeram a divisão da carcaça do monstro. E foi assim que os seres alados coloriram-se e cantaram. Os homens celebram a vitória até hoje, ornando-se de penas. Os índios acreditam no mito porque ele está impresso na intuição dos anciãos e, dessa fé, nasce a coragem para enfrentar os espíritos.

Nós acreditamos em Deus, ou no maldito, na ressureição, ou fim de tudo, no pé do homem na Lua, na Guerra do Golfo, no aquecimento global e até em campanhas publicitárias capazes de transformar marcas em ícones sagrados.

Mas duvidamos, sempre, da idade da Terra, da quantidade de mortos nas guerras, do tamanho da camada de ozônio e até da correlação entre preferência de marca e participação de mercado.

A fé não tem dúvidas, a ciência é cheia delas. Ciência e dúvida são vasos comunicantes, porque é da segunda que a primeira se nutre para evoluir.

Desde que a propaganda arvorou-se o mérito de engraxar as economias de mercado, ela careceu de cartas de nobreza, comprobatórias, que elevariam a sua arte aos pícaros da ciência. Assim nasceram as pesquisas, sepultando as crenças, a intuição, a experiência e o colhão.

Para começo de conversa, a gente precisa “sentir o pulso” do consumidor. É analisando seu comportamento, suas ambições, suas repulsas, suas esperanças e reflexos que passamos a acreditar em certos preconceitos. Nossas crenças são todas devidamente mensuradas.

A partir dessa cautelosa observação, monitoramos nossos impulsos, criamos regras e cabrestos para controlar nossa transbordante imaginação, fantasia e criatividade. Nossa intuição deve ser toreada para não trair a ciência.

Então encarceramos os preceitos “descobertos” em metodologias, decalques desavergonhados de outras mais nobres áreas do conhecimento. Assim, o mais neófito dos decorebas – sempre mais barato, mais petulante e mais ingênuo – pode contrariar com veemência a experiência adquirida com muita porrada.

Finalmente, armados até os dentes, seguros pelos números que iremos reportar e que nos servem de escudo contra imprevistos – afinal de contas, seguimos as regras da cavalaria yankee – a gente tem colhão para colocar-nos à prova.

É mais ou menos assim que a propaganda segue, de bravatas em descobertas pseudo-óbvias. A gente crê – sem fé – na propaganda científica.

Mas acreditar não é nada disso. Acreditar não se justifica, não se mede, não se duvida. A crença vem lá de dentro, de uma inefável certeza que brilha nos olhos, faz o sangue ferver e a mente perder o controle.

Quando o pregador subia na montanha e recitava parábolas que moviam multidões, ele não tinha saído de uma sala de pesquisa nem mergulhado em relatórios sem alma. Na elevação vizinha, tinha os donos da lei, os recitadores de preceitos, os estrategistas e os homens de marketing enfastiados de power-points e teias de aranha, gráficos, pirâmides, pizzas e outras representações estéreis. Mas ninguém ligava, eles eram muito chatos.

Mas como é que a gente vence, então, a inércia do briefing? Como é que a gente faz para começar? Sem pesquisa, em geração espontânea, só do umbigo pra fora?

E, depois, como é que convencemos os burocratas? Sem pesquisa, lá da Conchichina, nego não vai entender grande coisa.

Os números são armas poderosas nas mãos dos déspotas e burros. A ciência foi caudatária de todas as tiranias da história. Não é inteligente seguir números e pesquisas. É falta de originalidade, opinião e livre-arbítrio.

Em compensação, se crescemos nas pesquisas como se crê no arco-íris, talvez fôssemos capazes de romper monótonas barreiras. Talvez assim pudéssemos levantar o sonolento consumidor, entretê-lo com aquilo que ele ainda não sabe e não disse nos infindáveis interrogatórios aos quais os submetemos.

Pesquisas deveriam ser acreditadas, e não seguidas.

Artigo originalmente publicado em Meio & Mensagem, edição 07/06/2010

A Veja é só uma espécie de Arnaldo Jabor

28/05/2010 em Propaganda | Tags: , | 2 Comentários »

Na Grécia antiga, a platéia era parte do espetáculo. Ao coro que julgava, dirigiam-se os personagens. Numa tourada, o público decide quantas orelhas o matador merece, ou o rabo de glória suprema. No estádio, a torcida é camisa 12, joga e decide.

Quando a audiência passou a ser vendida ela se tornou um ponto na curva. Quando a audiência virou número, ela deixou o espetáculo e seu julgamento é tardio. Quando a mídia passou a ser hábito antes de deliberação voluntária, o público virou massa. E a propaganda nasceu.

Nessas mídias de massa, o conteúdo é comandante que move as audiências em migrações quase involuntárias.

Até que um dia, a gente acordou e sacou que tinha sido enganado. Que nosso gosto tinha sido lobotomizado por décadas de conformismo crítico. Porque de repente você vê algo que lhe emociona e que não estava na mídia. Porque você sabe de algo que a mídia omitiu ou mentiu ou traiu. E a gente vira pária da bem-pensante burguesia e do mundo.

Mas quando surgiram outras vozes, infinitas novas vozes, alguns, de massa, desceram do pedestal e foram para a vida também. Outros calcificaram-se de soberba.

Quando isso aconteceu com quem viveu a transição, foi uma revelação mas para a maioria das novas (e futuras) audiências, a Veja é só uma opinião bizarra. Para esses, a Veja não passa de um partido rarefeito.

Enquanto a mídia e a propaganda inteligentes (inclusive as de massa), seguem construindo audiência, as outras inflamam seus milhõezinhos de velinhos caretinhas ou muito burrinhos.

Propaganda, fiel da balança de audiência

24/05/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Desde que inventaram o controle remoto e sua diligente criada, a TV por assinatura, a identidade dos diferentes canais ficou difusa e por vezes caímos nas armadilhas que pasteurizam as programações.

Já se foi o tempo em que achavam que o vilão dispersor de audiência era o intervalo comercial. Mais inteligente considerar que o ponto de fuga é o mau conteúdo, todos eles confundidos, inclusive os comerciais.

Manter a saliva do telespectador no grau é, portanto, um compromisso que interessa a todos: anunciantes e veículos.

Bons conteúdos emprestam audiência para conteúdos menos bons e os ruins fazem um vácuo difícil de recuperar. É um pulso sensível manter a audiência ao longo da programação.

Este é ano de copa e de eleição. É ano de excitação econômica. Já está tudo atropelado e as entregas comerciais prometem alongar os intervalos comerciais.

Dia 23/05/2010, Fantástico, dois intervalos distintos.

Primeiro. Conteúdo premiado: Fiat Uno, Claro, Skol, VW Gol, Nextel, mas também Código do Consumidor e Unip.

Segundo. Sente o drama: Casas Bahia, Dupla Sena, Globo na copa, Hyundai, Tigre, Torpedo Campeão, Governo de SP, Sex and the City.

Zefa assiste televisão concentrada olhando a tela.

No primeiro break, atenção permanente. Audiência preservada.

No segundo, Zefa não resistiu ao comercial da Dupla Sena. Virou a cabeça para o lado e adormeceu. Audiência perdida para sempre.

Intervalo comercial é grade, e quando o comercial é chato, ela não prende ninguém.

Cases de propaganda ou como excitar Lond Dong

21/05/2010 em Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

Leporello era baixinho, gordinho e cabaço. Tentava ficar com umas rebarbas das proezas amorosas do mestre cantando seu catálogo: “Já são mil e três”. Don Giovanni seduzia com outras armas. Com as tímidas, posava o recato; com as sensuais, simulava arrojo; com as nobres, declamava; com as plebeias, jurava núpcias. Não era a quantidade que lhe orgulhava, era a estreia sempre renovada.

É enfadonho acompanhar a explanação, mesmo entusiasmada, de cases de marcas. O roteiro é sempre o mesmo.

Passa-se muito tempo enobrecendo os obstáculos. Com um rosário de superlativos, enaltece-se a posição dos concorrentes, apiedamo-nos sobre os recursos e a condição aviltada da marca.

Quando o Zorro entra em ação, ele encontra a centelha, a pedra angular, o calcanhar de Aquiles, o ponto de inflexão (vai anotando, essas palavras causam efeito).

Seu achado, seu insight, a pedra filosofal, o ovo de Colombo, a caixa de Pandora, o pó do Pirlimpimpim, Abracadabra, Catsibiriça Scarapimbauê Catinguerê (anota também, é aquele toque literário), e pronto, a gente vira a mesa, quebra o paradigma, levanta o véu, desvirgina, dichava o bagulho (essa parte é boa para dar aquela excitada básica).

Daí pra frente é só exagerar as escalas dos gráficos, dar aquela arredondada generosa, sem poupar humildade e temência à Divina Providência porque, afinal de contas, “não dependeu só da gente, contamos com a valiosa contribuição da companhia. Nós entramos com a ideia, eles, com a raça”.

E pronto, é só entrar em cena o grand finale, o arrebatamento emocional, o gozo da Kundaline, a criação.

E podem reparar, quanto maior a propaganda preliminar, maior a decepção.

Quanto maior o dote, pior a performance.

Dizem que Long Dong nunca levantou a piroca de tão descomunal. Por mais que tentasse, o membro continuava dependurado, flácido e trapalhão. Usava prótese nos filmes. Nós também.

Uma online mais careta do que a mais careta das offline

18/05/2010 em Internet, Propaganda | 9 Comentários »

E lá vem mais um gaiato pontificar enfaticamente sobre o que não sabe: o gringo da Razorfish atirou mídia contra mídia, TV contra Internet, através de um falacioso argumento. O BV seria o culpado entre a prática real do comportamento online dos brasileiros e o “dinheiro gasto pelos anunciantes em publicidade na televisão”.

Pouco importa saber sob que impulso suicida ele fez a afirmação, ele que representa uma empresa de um dos maiores grupos de agências do mundo, que, no país, tiram boa parte de suas receitas justamente da TV.

Para além da ingenuidade batida, sua conduta é no mínimo injusta e no máximo ofensiva.

Se ainda podemos discutir a tal da “lacuna entre o comportamento online do brasileiro”, é irresponsável incutir às agências um comportamento viciado e vicioso de “privilegiar” uma mídia em detrimento da outra por conta do BV. A menos que exista uma secreta pesquisa que dá conta da “boutade”.

Mas polêmica de neófito não faz verão. Sequer vende notoriedade.

O que cabe debater sim é qual é a visão que se tem do consumo de mídia das pessoas, dos brasileiros. E isso transcende o discurso comercial em muito.

Todas as pesquisas, todas as visões, todas as teorias até,  dão conta de que as pessoas consomem complementarmente todas as mídias, numa sofreguidão infinita. As escolhas são elásticas como nunca imaginávamos que fossem.

Que discursinho mais velho, careta e nanico. Vai pra casa, vai!

Fazer bonito pra ninguém ver é bico

14/05/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Na Internet, na revista, no jornal, se tu não curte a propaganda tu não dá bola ou pula. Na televisão só dá sono porque tem mesmo é que segurar as pontas. E mesmo que tu tenha o trampo de gravar as paradas pra ver depois. Ai que preguiça!

Mas tu entra lá em qualquer best off de qualquer festival e só vê coisas legais que capaz de tu curtir mais do que o que vem depois ou antes do intervalo. Até porque vamos combinar que propaganda legal pode ser mais bacana que certos folhetins, botocados de auditório e peladas.

Então porque é que nego não inventa um prêmio por categoria de audiência. Não interessaria comparar carro com carro, geladeira com geladeira, bebida com bebida. O que liga aqui é comparar o que se vê muito com o que se vê muito, o que se vê médio com o que se vê médio, o que se vê pouco com o que se vê pouco.

É assim, presta atenção. “Ouro” vai pro melhor da categoria acima de XXXX pessoas impactadas. Se ganhar cerveja, carro ou lançamento imobiliário, não interessa. Vai ganhar ouro a melhor propaganda vista por mais gente. E “prata”, “bronze” e “papel” pra níveis inferiores de audiência (XXX, XX e X pessoas). E se forem diferentes mídias, tudo bem, os patamares mudam (porque não seria justo comparar a audiência da revista DBO com a do Globo Rural na TV)

Não inviabiliza nenhuma outra competição, mas pelo menos assim a gente vai sacar que é difícil pra cacete fazer propaganda boa que muita gente vê e bem mais fácil fazer propaganda boa que ninguém vê.

Capaz de ganhar “ouro” um monte de porcaria e o prêmio “papel” ir para os ouros de Cannes, D&AD, Clio, Festival de Londres e CCSP.