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Porque não voto no Aécio

A política no Brasil, principalmente nessas horas febris que antecedem um pleito importante, é uma pantomima nervosa e ensaiada, em que os autores são profissionais de prestidigitação, os atores uma gangue vaidosa e mentirosa e a plateia – nós – uma penca de marionetes adestradas.

No fogo cruzado de acusações , números  e realizações aleatórias, tudo não passa de um jogo no qual todos – políticos e eleitores – deixam-se levar ao sabor da melhor frase e do melhor jargão.

Metade dos eleitores acredita no que a outra metade desacredita justamente para poder acreditar no contrário.

Eu já não sei mais nada, não confio em nada, enjoei do jogo.

É por isso que voto, pra mim, é uma questão de pele. É extra-sensorial, intuitivo. Minha démarche é propositalmente irracional para ser verdadeira e sincera. E não ligo se me acusam de fanático inconsciente. Minha escolha – e não quero que ninguém me siga, nem acredite – vem das vísceras.

A Dilma é uma senhora obtusa, mal educada e gauche. O Aécio um fantoche de margarina, ensebado, feito de plástico reciclado.

Mas hoje de manhã, a Maria me disse: “ele vai ganhar e a gente está ferrado se ele ganha. A gente, eu digo gente como eu, pobre, não como o Senhor”. Quem sou eu para ter a pretensão de duvidar da Maria? Do alto dos meus diplomas, minha grana, minha vida ganha? Quem sou eu para saber o que é bom pra Maria?

Aécio me dá coceira.

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Fé na mentira

Trabalhar com propaganda é uma questão de fé antes de talento.

Essa é a lógica:

O cliente te conta um monte de mentiras sobre sua marca (ele não iria mesmo de te contar o tamanho do bônus que ele vai ganhar se alcançar a meta).

Os consumidores te contam um monte de mentiras sobre suas vidas (afinal de contas segredos de divã custam muito mais do que murchas coxinhas).

Tudo aquilo que você consegue entender sobre os concorrentes também é um monte de mentiras (eles não são burros de serem tão óbvios).

As pessoas com as quais você trabalha mentem estupidamente quando apostam num conceito (não é consenso, é preguiça ou amor ao crediário do Shopping).

Por sobre esse vale de mentiras, faz-se propaganda numa vã esperança de zerar as polaridades, mentindo.

Clientes vendem mentiras que consumidores consomem mentindo. Seria pretencioso achar que cabe à propaganda a celeste missão de reconciliar mentirosos patológicos.

E seremos os melhores se melhor mentirmos. Se mentirmos dizendo que acreditamos nas mentiras dos clientes, dos consumidores e de todos os outros mentirosos que nos cercam. A fé é o único talento.

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Jovens sexagenários e velhos adolescentes

Em Cordes-Sur-Ciel, no sudoeste da França, tem um edifício venerando com hera nas paredes rachadas, manchas obscuras derramando-se na fachada. O turista do midwest do Morumbi desembarca suas Goyard novas em folha, depois de uma razia excitante em Paris:  “Meu Deus, vou matar minha secretária que reservou essa espelunca!”.

O hotel “Le grand ecuyer” ocupa a antiga residência de caça do Duque de Toulouse, tem oito suítes decoradas com móveis de época e um restaurante estrelado. Nosso riquíssimo industrial da construção, sua esposa sem idade definida, os dois filhos adolescentes, o personal-trainer-motorista-bilíngue e dois amiguinhos-pochete são recebidos por um maître-d’hôtel de redingote que lhes apresenta seus aposentos.

Já de robe, untando-se o pescoço com novíssimo creme bronzeador, a beldade que transpôs as vicissitudes do tempo com o empenho de um arquiteto de Las Vegas observa para o marido: “Tão chique e tão caindo aos pedaços, como pode!?”.

É reverenciada a pirâmide de influências que dá conta de que adolescentes e coroas babam ovo para os jovens da faixa etária entre 18 e 24 anos. Muitas estratégias foram desenhadas e aplicadas para colocar no centro do desenvolvimento de produtos esse público-alvo, já que ele seria aspiracional para todos os demais. É daí que saem os argumentos para campanhas publicitárias: “Se tornarmo-nos desejáveis para essa garotada, é a coroa sarada e rica que não vai resistir. Quem não quer ter 20 anos?”.

Tem gente que não quer, por exemplo, os vintões. A tendência vem se invertendo drasticamente e já perdeu o viço a recauchutagem angular, ou seja, aquele disfarce de idade que só fica bem em ângulos e iluminação precisos. Quem nunca observou a ginástica necessária para capturar um ângulo enganador, quando não se tem mais 20 anos? São verdadeiros shows de poses e rigidez que se desfazem no segundo gin-tônica.

Hoje, a mulher e o homem de 40 anos são muito diferentes dos balzacos de 20 anos atrás. Têm as mesmas performances físicas (inclusive sexuais) de seus filhos, podem se dar ao luxo de não gostar de qualquer coisa, têm bufunfa e savoir-faire. Basta circular por aí para perceber que a pirâmide se inverteu: jovens se envelhecendo propositalmente. A prova mais irônica é quando a garota resolve, no frescor de seus 20 anos, fazer um retoquezinho aqui, um retoquezinho ali, e fica com a cara da mãe que acha que tem a cara da filha.

Desse pêndulo, entre jovens amadurecidos e velhos rejuvenescidos, quem sabe se chegue a um equilíbrio confortável. Entre o esmero e o desleixo, entre o plastificado e o ressecado, não passe uma brisa serena, revigorante e verdadeira. Quem sabe entre a jovem de sandália franciscana e a sexagenária de minissaia de couro rosa, a gente encontre um jeito de ser o que somos, sem querer ser o que seremos ou deixamos de ser.

– Pai, olha que garota linda!
– Ela não é linda, filho, ela tem 20 anos.

Artigo originalmente publicado no FFW

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Declaração de intenção

Ontem, o senhor que mora em uma casa pendurada no barranco, prestes a desabar, conversava, positivo e sorridente, com um repórter solene.

– O que o senhor está sentindo neste momento de dor?
– Dor.

A obviedade é um recurso estilístico de ênfase ou é só burrice. A imprensa usa tanto esse subterfúgio para povoar suas linhas que podemos separar duas posturas claras. A primeira é a de uma imprensa partidária, ideológica. Bate na tecla que acaba entrando na caixola. A segunda é só de burrice. Às vezes as duas posturas se encontram felizes também. É a imprensa pedro-bó.

Já o positivismo pode ser uma espécie de bálsamo de sofrimento ou é só passividade. Não há nada mais comum do que uma imprensa de autoajuda, cheia de pérolas de sabedoria para os aflitos. Também tem aquela outra que relata sem opinião, sem crítica, com compaixão budista. E, quando tem as duas coisas, é o que chamamos de imprensa feng-shui.

Pra variar, poderíamos imaginar uma outra cena. Por exemplo, o repórter chega sorridente para o morador chorando e pergunta se o senhor está com fé. Ele recebe uma porrada como resposta.

Pra variar também, a válvula de escape, mal-humorada e negativa, pode ser divertida. Essa é a imprensa “bad hair day”.

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No Caboré, vote na F/Nazca

A F/Nazca nasceu de um encontro tempestuoso. A ambição do encontro entre a melhor propaganda e a maior relevância. O sonho de encontrar a maior criatividade com os melhores resultados. Arrojo e pragmatismo. Renovação e legado. Ideal de marca e ideal de vendas. Ambiente de trabalho e trabalho. Amigos e profissionais. Clientes e amigos. Prazer e suor. Dinheiro e valores.

A F/Nazca é pretensiosa e inocente, teimosa e aberta, emburrada e alegre.

Pretensiosa para não abrir mão do impossível, inocente para não duvidar das evidências. Teimosa para não renunciar a convicções e aberta para não ser precoce nos julgamentos. Emburrada para não perder a classe e alegre para não perder a piada.

A F/Nazca acredita na largada e duvida no processo. Duvida, duvida e duvida até acreditar de novo.

Na F/NAzca, acreditamos no briefing, na marca, no consumidor. Só na largada porque depois duvidamos do foco, dos valores, do target. Duvidamos de nós mesmos. Até duvidar da dúvida e acreditar sem dúvida.

Se você ainda tem dúvida de qual agência será honrada pelo seu voto no Caboré 2010, relaxa, é porque você já acreditou na gente.

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Improviso vale mais que trabalho

Cultura é uma palavra difícil. Mas a sua definição mais  comum é discriminatória. Não existe cultura sem “descultura”, só existe “culto” se houver “inculto”. Cultura  não tem conotação negativa. Cultura é elevação. É sublimação. É idealização.

Um seringal da Malásia, ordenado e produtivo, é uma cultura. A floresta amazônica com suas seringueiras esparsas não são culturas. Os seringais do Brasil são acidentais, improváveis, dados. Cultura é premeditação, planejamento, organização, técnica, método.

Cultura tem valor. Dom, não.

Os caras que se mataram para trazer pedra do fim do mundo e ergueram as pirâmides no meio do deserto tinham uma cultura. O índio, que cata as penas da arara e espeta num cocar, não tem cultura.

Quem rala tem valor. Bumbum pra lua, nem.

Se só cultura tem valor, então só cultura tem preço. O resto, o que vem de Deus, é de graça.

Mas não é nada disso.

Preço não é fator de esforço, mas de demanda. Vale quanto pedem, e não quanto pesa. Vale o que troca, e não o que usa. Por isso inventaram a cultura de massa, a popular, aquela que emana do dom divino com ou sem ralação. E a cultura de massa ganhou preço e valor.

A outra, aquela do sangue, suor e ouriço, danou-se. Perdeu valor porque não tem regra econômica que a justifique. Não vale mais nada.

O fatalismo é uma merda.

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O preconceito da imprensa arrasta correntes para sempre

Céline foi um grande escritor francês do século XX. Em sua prosa quase sem pontuação, como um grito de um sopro só, ele revolucionou a literatura francesa ainda muito presa ao formalismo acadêmico. Nada prenuncia na sua poética, no entanto, que ele é o autor dos mais asquerosos libelos antissemitas. No pós-guerra naturalmente revanchista, ele, como outros grandes nomes das artes francesas, foram julgados e inocentados de todas as acusações. Delito de opinião não é delito legal, nem penal.

Céline foi um grande autor e um porco nojento: poucos ainda o leem, apesar de sua dimensão artística inquestionável.

A literatura, assim como a imprensa, pode cometer, ou melhor, assumir, seus delitos de opinião, sem consequências. A arte, num caso, ou a investigação imparcial, em outro, funcionam como escudos antiaderentes. Em nome da “arte” podem-se ousar posições. Em nome do trato da liberdade de expressão, podem-se tomar partidos galhardos.

Ademais, opiniões não são enunciados matemáticos. As interpretações é que enunciam. Uma mesma afirmação pode parecer branco para uns, preto para outros. Ainda mais quando elas são acobertadas por referências eruditas (na literatura) ou fontes fidedignas (na imprensa).

Mas a passagem do tempo é severa com os delitos de opinião. Nessa perspectiva, o perdão é difícil, principalmente no caso da opinião jornalística que se arvora, pretensiosamente, de uma espécie de construção da história, no calor do fato.

O jornalismo preconceituoso, ainda que possa ser (dificilmente) tolerado no presente, é um fantasma, no futuro. Uma vergonha para as gerações futuras.

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Celular é pornográfico

Numa aldeia do alto Xingu, o garoto era muito danado. Mal educado mesmo, isto é, se educação para os índios fosse um treino compulsório.

O indigenista alarmado com a aparente complacência do pai, pergunta:

– Por que você não diz a ele o que está certo e o que está errado?

O pai, calmo e óbvio:

– Por que ele não perguntou nada. Quando perguntar, respondo.

A gente é amestrado desde pequeno. A comer de boca fechada, não apoiar os cotovelos na mesa, não falar de bochecha cheia, não deixar comida no prato, cruzar os talheres no final e pedir licença para levantar. Não sabemos para que serve, nem nunca nos deram nenhuma explicação, só que era assim e pronto.

Se numa mesa de reunião houvesse pratos, seríamos uns lords. Mas na falta deles, somos uns porcos.

Madame Poços Leitão daria dar saltos mortais se visse os assassinatos da civilidade que acometem nossas reuniões.

Começa pela pontualidade, um conceito vago, muito vago, e contra o qual usam-se os mais diversos álibis, alguns práticos (o trânsito por exemplo) e outros psicológicos (os fodões se fazem esperar).

Segue pela liturgia caótica, pelo ritual tosco. Não há ordem para falar, nem para sentar ou sair. Participa quem quer e quem não quer, interrompe-se sem benção, conversa-se em paralelo, e tem até quem coça a planta do pé, palita o dente, ajeita a calcinha e respira o sovaco.

Mas os piores são os amolegadores de celular. Isso já não é mais uma questão de educação. O onanismo sonoro, vibratório e de dedo é um atentado ao pudor.

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Deu no Google

- Você soube?
– Soube o quê?
– Ué, mas você está muito desinformado. A Suécia afundou.
– Afundou
– Sim, afundou.
– Nossa!

– Alô?
– Oi, tudo bem?
– Mais ou menos né?
– Como mais ou menos?
– Fiquei arrasado. A Gina morreu?
– Quem é Gina?
– Não sei, mas fiquei mau.

– Oi, e aí?
– Aqui nada e aí?
– Aqui só essa notícia incrível.
– Qual?
– Bom, parece mesmo que o homem caiu.
– Caiu!
– Caiu!
– Como você soube?
– Você não lê o Google? Deu no Google!

O exército francês, na segunda guerra mundial, ainda tinha cavalaria e garbosos soldados de penacho e roupa vistosa. Do outro lado, os tanques dos alemães, nem fum com os ridículos gauleses. “Esses franceses estão brigando com quem? Com os palhaços do circo?”

Está na hora de descobrir qual é a maior marca de informação, de INFORMAÇÃO do planeta. Não duvidaria nada que fosse: “o Google, né, mané?!”

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