O closet é uma espécie de masmorra: com que roupa vou? Essa dobra, essa cor, esse corte, essa combinação ficam bem?
O diabinho sibila no ombro “pega essa calça mesmo, ninguém vai reparar”. O anjo medita: “que tal uma passadinha no shopping?”
A moda, a tecnologia, o entretenimento e até a mais prosaica das subsistências são caudatários do novo.
É a mão de ferro da perpétua renovação que rege o século. Só presta se estiver tinindo.
Não mais em ciclos ou em estações, como no tempo dos nossos pais, o novo contamina em espasmos assimétricos, incontroláveis, aos borbotões, acometendo-nos ao sabor da insegurança, do vazio, do crédito, da competição.
Foi-se o tempo da temporada, a caça é diária: na rua, na mídia e claro, na Internet. Liquidações, datas promocionais e eventos reguladores: me engana que eu gosto. Todo dia é dia de cair armadilha com prazer masoquista.
Ao sabor da propaganda.
E quando não temos mais nada para sucatear – seu guarda roupa, sua casa, sua geladeira, suas memórias – quando não temos nada de novo para propagandear, a gente sucateia seus desejos, suas verdades, seus valores.
O cenário: o mais chique, o mais romântico. Paris, claro.
O dia: um pré-verão, quase frio, ventoso, céu de Velásquez.
A modelo: a mais top das over top, loira, vaporosa, sem personalidade, ligeiramente virgem, muda, russa, Maryna Linchuk
A música: sem voz, meio rouca, loira eternamente infantil e sensual. Brigitte Bardot cantando uma coisa bem nada a ver, “Moi je joue”.
O diretor de fotografia: filmou Madonna e Michael Jackson, fez Zodiaco, lembra aquela luz? Harris Savides.
A direção: feminina, super hypada, adora moda, nunca filmou publicidade, um jeitinho menina mimada. Que tal Sofia Coppola?
O roteiro: Ah, sei lá. Põe lá ela andando, de bike. Passa pela loja e flana com nada na cabeça, come uns macarrons, que tal? No final, um beijo e sai voando. Isso, com umas bexigas coloridas. Deixa rolar.
Paris, Maryna Linchuk, Brigitte Bardot, Harris Savides, Sofia Coppola. Um bom exemplo de propaganda de luxo. Perfume Miss Dior Chérie.
Propaganda de produto de luxo, de moda, é um mistério. Funciona quase às avessas da outra propaganda. Tem que ser lindo e ponto.
Não sejamos ingênuos de tentar discutir, debater, menosprezar. A indústria é bilionária e não parece em crise.
Nós, publicitários de sabão e cerveja, é que temos essa mania de entrar em crise de incontinência criativa, clamando contra a banalização da idéia, chorando pelo excesso de cabrestos, de racionalizações, de reduções orçamentárias.
O paradigma às avessas da propaganda de luxo é: quanto menos idéia melhor. Ruim, muito ruim é a propaganda de moda com titulo, texto, slogan, humor? Socorro! Nem pensar.
Do lado de cá do balcão, valorizamos a big Idea, a ousadia, a sinceridade, o riso ou o choro, a inteligência. Propaganda péssima, muito péssima é a simplesmente maravilhosa, aleatória, sem roteiro, abusando de celebridades.
E no meio do caminho, marcas populares fazendo propaganda de luxo com recursos mulambentos ou marcas wanna be com o melhor/pior dos dois mundos: idéia e beleza.
O produto da moda é comunicação. A moda é um veículo de comunicação, antes de ser roupa e perfume. Quem faz moda, comunica. Quem faz moda faz publicidade.
Da mesma forma que é impensável um criador de moda, lançar sua coleção sem participar ativamente da propaganda que fará de seus produtos, é inimaginável ver o engenheiro de alimentos, o mestre cervejeiro, o banqueiro, num set de filmagem de um novo comercial.
A moda é também conteúdo, muito mais conteúdo do que a propaganda de supermercado, tênis e gasolina. Ou será que uma revista, daquelas de ver e não de ler, tem algum sentido sem aquelas lindezas da propaganda de luxo? Já a propaganda de computador, celular, banco, convenhamos…
Bem que a moda poderia nos inspirar um pouco. Bem que a moda poderia nos ajudar a racionalizar menos e soltar mais a franga. A nós e a nossos clientes.
Um caçador de tendência é um cara que sai por aí escarafunchando o que estão vestindo, falando, fazendo, comendo, gostando e mais um monte de gerúndio. Ele é contratado pela indústria e seus parceiros para inspirar inovações e obviamente antecipar lançamentos.
A conseqüência esperada – além do truque óbvio de dizer que a marca é inovadora – é de ganhar um mercado que já existe. Se uma grife lança uma coleção com a cor que já está nas ruas, ela ganha os adeptos que já procuram a cor em questão, para dar um exemplo rasteiro. Tendência portanto é querência.
E por mais que a Miranda Priestly (Priest de sacerdote, portanto, Priestly , sacerdoticamente) tente explicar que uma cor é muito mais que uma simples cor (sic) – é um estalo quase transcendental de gênios genialmente geniais – o objetivo é mais prosaico – e muito mais razoável, considerando justamente que é uma “idéia” (assim, entre aspas mesmo) que movimenta bilhões de dólares e comprimidos de antidepressivos.
Portanto, sob esse ponto de vista, esses caçadores aí fazem todo o sentido, mesmo quando eles são – como é muito comum – chupadores ágeis de idéias alheias. Em tempo de internet, caçar tendências chupadas é moleza e engana muita gente “ocupada demais” por aí.
Caçadores de tendências não são nem inúteis nem gênios.
Mas o que inebria são os ditadores de tendências. Esses são Mirandescos. Ditar tendências é apropriar-se de uma dessas querências já queridas pelas pessoas e dar uma forçada, uma anabolizada devidamente midiatizada. É mais ou menos pegar a tal da cor – para permanecer na caricatura – e gentilmente influenciar os canais de acesso à informação de que essa é a cor que está “pegando”, que é “tudo”, que é o “ó”, e que você é um lixo se estiver com outra. Casou a fome com a vontade de comer. A “tendência” que já é “querência” vira histeria, uma necessidade quase que fisiológica, a base da pirâmide de Maslow: mais vital estar vestindo lápis lazuli do que comer, “comer” ou des-comer.
Pois, apesar do ingênuo-quase-estúpido roteiro, apesar do bom-mocismo forçado, do glamour-paparazi-de-folhetim, e do product-placement-blockbuster, “o Diabo Veste Prada” – mais raso, mais digerível do que “Prêt à porter” do Altman – tem lá seus ensinamentos: “Caçadores e ditadores de tendências, eles ainda vão te pegar”.
Em Recife, vá para o museu Brenand, à tarde, com um quadrinho do Moëbius debaixo do braço. Sente ali naquela esplanada sensualmente mitológica, comece a ler L´incal e já, já você vai ver um zoológico de seres lascivos mas assépticos te envolverem na mais sideral de todas as viagens.
Em Paris, vá almoçar no sujinho Bar de l´X, na frente da escola politécnica. Peça o que tem, javali ou avestruz, tome o vinho que te recomendarem e fique ali algumas horas, olhando os magricelas plátanos dançarem ao vento. Sorria para o patron mal-encarado e repare suas olheiras abissais.
Em Noronha, vá remar nos supercaiaques oceânicos, `as cinco da matina. Você vai passar requeijão na água, atrás do golfinhos e tomar um supercafé da manhã com o solzão nascendo atrás das ondas: uma promiscuidade mais emocionante que passeio de barco e muito mais do que aqueles liliputianos golfinhos na baía-observatório pra inglês ver.
Em Nova York, vá sacudir a poeira na ópera. Qualquer uma. Depois de curtir os chagalls do hall, observe com cuidado as naftalinosas velhas nas frisas, os johnicinhos cochilando, os melômanos trançando os bigodões. Saindo de lá, corra pra Chelsea, mais precisamente pro super-hypado APT, cheio de negões milionários no bar subterrâneo, e ouça hip-hop.
Em Galinhos, no Rio Grande do Norte, chegue de balsa, ou de 4X4 pelas dunas, pegue um jegue-táxi e mande ele te levar correndo, para ver o pôr-do-sol no farol. Fique ali até ficar noite e volte pela praia, caminhando. Sabe aquela espinha dorsal do céu, a Via Láctea? Então está lá todinha. No dia seguinte, vá puxar uns ferros na academia local. Pelo tamanho dos gigantes locais, lata de tinta cheia de areia funciona melhor que os aparelhos que você conhece.
Em Londres, vá até o jardim japonês do Holland Park ver os pavões e as rosadas inglesas passearem seus pets. Resista às fotos, pegue um caderninho e escreva o que você está vendo. É mais original, mais pessoal. E, em vez das soníferas seções de fotos para os amigos .quando voltar, faça um sarau e declame suas metáforas. Você leva jeito pra coisa.
Na Bretanha, França, pegue um barco para Belle-île-en-Mer. Nem pense em entrar na água gelada. Em compensação, tem dois menires no meio da ilha, dignos de Obelix. Chamam-se Adão e Eva e dizem que fazer amor a seus pés, numa noite de lua cheia, é garantia de felicidade eterna.
Na Irlanda, tem as falésias, os Cliffs of Mohair. Vá de carro, para não ter que suportar as hordas de godos, ostrogodos e nipônicos histéricos. Pegue uma tarde inteira e uma capa de chuva. Tire os sapatos e ande descalço na grama fofinha, até a ponta deserta. Daí, fique mastigando um galho de capim e puxe um ronco com os pés balançando na beira do precipicio.
Quando você for à Chartres, se banhar nos azuis dos vitrais da catedral, tente entrar de olhos fechados. Se você estiver sozinho, banque o cegueta mesmo. Quando você estiver no meião, com certeza, alguém vai te ajudar e te posicionar de cara pra grande rosácea da frente. Não abra os olhos ainda, espere um pouco. Com um pouco de sorte, estarão tocando órgão. Quando rolar um acorde mais forte, abra os olhos que, a essa altura, já estarão marejados. Não existe caleidoscópio mais arrepiante.
Em Ravena, na costa do Adriático italiano, vá ver os mosaicos, claro, mas não perca o único Jesus peladão do mundo, numa abóbada da catedral. Dá gosto ver a piroca de Deus e perceber que, afinal de contas, ele era mesmo de carne, osso e membros.
Em Paris, vá à mesquita no sábado, se você for homem, e nos outros dias, se você for mulher. Logo na entrada do salão de chá, do lado esquerdo, é a entrada do Hamam (sauna úmida). Não ligue para a higiene duvidosa do local, mas passe uma hora suando nas quatro salas e ouvindo arabescos sonoros. Termine com uma massagem na sala de repouso e, depois, um chá de menta. Os atentados terroristas no metrô são piração da sua cabeça, mas ajudam a dar clima à atmosfera obscura do local.
“Extreme Beauty: The Body Transformed”, exposição no Metropolitan Museum de Nova York, é um pequeno discurso sobre a beleza e a moda.
Quando curadores sisudos deitam um olhar curioso sobre o universo da moda, tantas vezes tachado de superficial e supérfluo, o resultado é no mínimo gozado. De qualquer forma, a mostra Extreme Beauty do Met de Nova York dá cartas de nobreza a uma produção artística que movimenta muito dinheiro, cérebros e mídias.
Quem sabe o lugar das criações de alta costura não seja mesmo as taciturnas vitrines dos museus?
A exposição é uma restrospectiva comparativa da moda através dos séculos, colocando lado a lado os atrofiantes sapatos de gueixas e as escandalosas plataformas de Salvatore Ferragamo, ou os corsetes “não-respire-não-fale-não-peide” das cortesãs e os ultrajantes bustiers “Gaviões-na-varanda” de Jean Paul Gaultier.
Quem sabe a moda não seja uma reinvenção cíclica de arquétipos universais de beleza?
Os curadores dividiram a mostra de forma temática, operando uma dissecação cuidadosa das partes do corpo que mais vezes concentraram os suores das agulhas e tesouras. Na primeira galeria, pedestal: pescoço e ombros. Na segunda, frontispício: o peito. Na terceira, altar: o abdômen. Na quarta, alças do amor: o quadril. Na quinta, garras: os pés.
A exposição desliza pescoço abaixo: ombros, peito, abdômen, quadril, pés como num frisson erótico.
Tudo documentado, revelado: as inspirações étnicas, as pirações sexys, street roots, lisérgicas mandalas, saias infláveis Lídice, rendas de açúcar. Elsa Schiaparelli, Gilbert Adrian, Cristobal Balenciaga, Thierry Mugler, Vivienne Westwood, Norma Kamali, Rei Kawakubo, Jean Paul Gaultier, John Galliano, Roger Vivier, Alexander McQueen, Yohji Yamamoto, Yves Saint Laurent lado a lado com os inspirados artesãos do passado.
Vai lá. Se não vê aqui: http://www.metmuseum.org/special/