Category Archives: Moda

O criador e a crítica

Ulzyvan von Zuberovsky nasceu em Garça. Sua mãe era a rainha do chuleado, seu pai era diretor do Banco do Brasil. Manoel Ernesto era filho único, melhor aluno do grupo escolar mas gostava mesmo era de frequentar as reuniões da loja Maçonica, escondido atrás das cortinas de veludo. Era lá que sonhava com hierarquias Transcendentes, ideais Metafísicos, triunfos da Razão e grandes Arquitetos das Estruturas.

Com 18 anos, Mané mudou-se para a França e de identidade. Montou-se, criou bigodinho e maneiras de um herdeiro decaído de dinastias polonesas. Nascia assim um ícone que arrasou nos ateliers parisienses, rivalizou com madames. Dizem que Charles Frederick Worth, lui même, sentiu-se ameaçado e começou uma campanha de detração. Acusou Ulzyvan de impostor, fútil e veado. Falou de suas criações com desprezo, que eram inexequíveis, faraônicas, destituídas de moralidade e respeito às tradições.

Humilhado, Ulzy voltou ao Brasil, a beira do suicídio, com a detração a sufocá-lo. Mas perseverou e fundou uma maison, cujo sonho libertário consistia em nunca mais sucumbir à critica.

Sua técnica consistia em reunir em seu salon costureiras, modelistas, clientes e outros livres pensadores, em orgias criativas, mais conhecidas depois por brainstorms. A regra de ouro dessas sessões era jamais censurar uma ideia quando surgisse, mesmo estapafúrdia, sonhadora ou simplesmente idiota. Foi um enorme frisson mas um retumbante fracasso.

Brainstorms não são um desastre porque reúnem pessoas para discussões, debates e troca de ideias. São ineficientes porque fazem uma lobotomia na crítica.

Suspeito que o processo criativo no mundo da moda seja tão primitivo quanto no da propaganda, minha área de atuação. Os brainstorms tiveram seu momento de glória mas não passam de enfadonhos desabafos destituídos de senso prático. No entanto, o retrocesso é ainda mais frustrante que a tentativa democratizante: criar nesses dois mundos muitas vezes ainda significa ter epifanias chiliquentas numa torre de marfim.

Mas criar é o avesso do isolamento. É também um convívio consciente com a crítica.

Em um mundo de efervescência de influências e informações, o isolamento é sinônimo de alienação. Criar de forma autocentrada, sem banhar-se na crítica, mesmo a mais destrutiva e invejosa, é contaminar-se com o vírus do envelhecimento precoce.

A autocrítica é para muitos criadores um alibi. Dizem-se capazes de dispensar opiniões alheias de tão auto-exigentes. Mas a autocrítica é refém, sempre, da vaidade. Não basta.

A criatividade não depende tanto de metodologias e mais da estrutura psíquica e de personalidade das pessoas. No entanto, existem contextos mais férteis do que outros. Trabalhar em ambientes abertos, em que a interação seja constante e forçosa, por exemplo. Ainda, pode-se aprender a tolerar a detração com paciência e o exercício da defesa é um enorme fermento de criatividade.

Ulzyvan von Zuberovsky morreu esquecido até à presente obra de ficção. Suas criações, apesar de democráticas, não passavam de retalhos de ideias, promessas vagas, tendências chuleadas.

Publicado originalmente em FFW (22/02/2012)

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Se tá barato, eu preciso

Por que diabos tem tanto guarda chuva nesse voo? É moda apoiar-se nele com nonchalance pra ver o povo desfilar na Oscar Freire?

–       Moça, o que são esses guarda chuvas?
–       Como, você não sabe?
–       Não. Perdi alguma coisa?
–       Sim, a liquidação da Victoria Secret.

Três garotas conversam animadamente ao meu lado, como se tivessem saido de um encontro tupiniquim de Sex in the city.  Ah, estão planejando momentos idílicos em Nova York. Eis então que sacam do guia da cidade, um xerox. Deve ser alguma dica preciosa. Alongo o olhar para um mapa do Outlet de New Jersey todo marcado com as estações da procissão projetada: Mac, Prada, Gucci, Lacoste, Vicotria Secret, claro.

As pessoas não vão mais aos Estados Unidos, se é que algum dia foram. Vão ao mall mais barato e diverso do planeta para os brasileiros.

De quebra, aproveitam um museuzinho básico para o alibi cultural. Ou um restaurante hip para criticar os preços de São Paulo. Ou um musical da Broadway para poder dizer “só os americanos!”.

Mas são as malas transbordando de inúteis utilidades que vão dar a confortante sensação de que afinal de contas nós  somos eles amanhã.

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O português dos modernos

Não é fácil acompanhar a velocidade de inovação dos gadgets que nos servem de esqueleto existencial. Essas novidades ocupam o centro do desejo contemporâneo.  Moda, tecnologia, decoração, viagem, etc, e para justifucar tantas presumidas mudanças de comportamento, atitudes, valores, precisamos inventar também termos.

Qualquer pesquisa ou publicação que quer impressionar, precisa cunhar palavras novas, seja abusando dos prefixos (o que está na boca de todos os bem aventurados profetas da modernidade é “trans”), seja germanificando o português, com a juxtaposição de várias palavras (até porque usar palavras mais precisas em outras línguas ficou fora de moda).

Parece que todo o esforço e busca pela simplicidade, minimalista e econômica, é saudosista e o pecado mortal é tentar encontrar paralelismos com o passado. Não, tudo é inequivocamente COMPLEXO e NOVO.

Todo mundo quer se “adaptar” às transformações como se essas mesmas “transformações” fossem independentes. Como se as “mudanças” fossem paridas por geração espontânea, pré-programadas e sempre acelerando. Temos que correr atrás, sempre em débito com a nova-novíssima-nova palavra.

Mas o novo sempre foi fator de uma necessidade genuina e humana. Nunca de uma projeção. Menos ainda de uma compensação.

Queremos fazer bonito, mas na maioria das vezes é ridículo.

O primo de Marília estava certo: “comprei uma bota nova, lindona, pra fazer bonito na sua festa. Mas acabei colocando essa que é essa que eu aguento, né?”

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Uma história das bundas

A origem da palavra modelo, do latim modus (medida, maneira), definiu-se no Renascimento de Michelangelo, o escultor dos peitos, músculos e bundas imortais.

Melhorar a imagem da Mater Dolorosa era justo. Compensar a inocência do rei Davi, justíssimo. Orná-los com improváveis bundas era uma metáfora poética carregada de significado. Se Copérnico colocou o Sol no centro, Michelangelo colocou a bunda.

Que provocação expor formas duras, frias e lisas nos templos religiosos! Quase impossível concentrar-se na comunhão com Deus. Tanta redondeza branca assombrava os tementes a Deus. Invadia sonhos, inflamava desejos, inspirava libidos.

E, assim, construiu-se o sistema bundocêntrico, que ninguém ousa subverter.

Os Michelangelos do tempo moderno é a gente da moda. Pois moderno e moda são palavras com a mesma raiz etimológica. Nada mais justo do que perseguir o ideal supremo, a fixação patológica do grande artista: bundas, bundas, bundas.

Mas o mármore não desfila, nem rebola. Bunda é tecido adiposo. Quando há bunda, modelo ou não, é mole.

Artigo originalmente publicado em FFW em 04/07/2011

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Galliano versus Galliano

Vivemos em um mundo assolado pelo Mundo. O fluxo incontido e espetacular de notícias que seguimos com a mesma paixão que nos faz verter lágrimas na despedida de uma mãe no leito de seu filho, escapa na próxima diversão emocionante, no próximo desastre ou polêmica. Um filme, uma novela, um acidente natural, um crime estarrecedor, a atitude incompreensível de uma celebridade.

Ainda que soubessemos tirar proveito emocional a tantas catástrofes, ou racional a tamanhos furos, preferimos os julgamentos maniqueístas: “like” ou “share”: agrado ou pan-difusão no Facebook. E para os formadores de opinião do Twitter, cabe um microsarcasmo ou pérola de sabedoria em  140 caractéres.

A moda é um sopro de expressão artística. Tendências explodem em geração espontânea e perecem na próxima, cada vez mais próxima, coleção. O sempre mais novo, mais obscuro, mais insuspeito criador desabrocha e esvanece ao sabor das primeiras filas inquisidoras dos desfiles. Alimentando-se ao extremo do culto às personalidades, nesse mundo com poucos meio tons, em que só há certo e errado, todo delito de opinião é passageiro.

John Galliano era um monstro de criatividade, inatacável. Ao sabor de sua loucura prestigiada, deslizou ao insultar pessoas com propósitos antisemitas. Mas já está perdoado – até por quem ofendeu – e temporariamente esquecido da mídia. Já já, retorna em alguma griffe menos sensível e menos hipócrita.

Como julgar, no entanto, o acontecimento? Será que a desculpa da inconsciência provocada pelo porre é suficiente? Ou o porre, ao contrário, desnuda convicções profundas, mascaradas pela civilidade e pelos interesses mais práticos? Devemos tolerar um nazista, e xenófobo, até  no mais comum dos mortais? Na França, em que a maioria das tensões sociais nascem de posições extremadas a respeito da imigração? Na Europa, que ainda digere com dificuldade seu passado antisemita? Em um Mundo onde milhões morrem porque outros não toleram sua cor, sua religião, sua tradição? Talvez devessemos recusar-nos a apertar a mão desse Juan Carlos Antonio Galliano-Guillén, apontá-lo o dedo e rir-se de seus trejeitos.

Mas, acima de tudo, é inocente a obra das perfídias do seu criador? De que serve saber que Celine ou Wagner eram convictos de que os judeus eram ratos nojentos? De que nos adianta aprender que Coco Chanel foi acusada de colaboracionista por ter deitado com um oficial nazista? De que interessa a biografia de um artista, de um “grande” homem? Talvez não muito mais do que vê-los normais, como nós, e enternecer-nos com suas derrapadas.

Talvez apenas nos interesse o personagem criador, esse tal de John Galliano, cuja obra nunca foi de falar, mas de desenhar, mesclar influências e encher de vida e inspiração as passarelas.

Talvez devessemos apenas questionar e relativizar o endeusamento das personalidades que crescem e proliferam muito além de suas próprias obras – quando há obra. A mídia das biografias vazias, artificiais, posadas é um marketing vulgar. A vida de John Galliano é tão irrelevante como a nossa.

“Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?”

Fernando Pessoa em Poema em linha reta

Artigo originalmente publicado em FFW em 25/03/2011

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Para onde vamos com tanta sucata?

O closet é uma espécie de masmorra: com que roupa vou? Essa dobra, essa cor, esse corte, essa combinação ficam bem?

O diabinho sibila no ombro “pega essa calça mesmo, ninguém vai reparar”. O anjo medita: “que tal uma passadinha no shopping?”

A moda, a tecnologia, o entretenimento e até a mais prosaica das subsistências são caudatários do novo.

É a mão de ferro da perpétua renovação que rege o século. Só presta se estiver tinindo.

Não mais em ciclos ou em estações, como no tempo dos nossos pais, o novo contamina em espasmos assimétricos, incontroláveis, aos borbotões, acometendo-nos ao sabor da insegurança, do vazio, do crédito, da competição.

Foi-se o tempo da temporada, a caça é diária: na rua, na mídia e claro, na Internet. Liquidações, datas promocionais e eventos reguladores: me engana que eu gosto. Todo dia é dia de cair armadilha com prazer masoquista.

Ao sabor da propaganda.

E quando não temos mais nada para sucatear – seu guarda roupa, sua casa, sua geladeira, suas memórias –  quando não temos nada de novo para propagandear, a gente sucateia seus desejos, suas verdades, seus valores.

Alguma novidade? Nenhuma.

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Propaganda de moda é propaganda?

O cenário: o mais chique, o mais romântico. Paris, claro.

O dia: um pré-verão, quase frio, ventoso, céu de Velásquez.

A modelo: a mais top das over top, loira, vaporosa, sem personalidade, ligeiramente virgem, muda, russa, Maryna Linchuk

A música: sem voz, meio rouca, loira eternamente infantil e sensual. Brigitte Bardot cantando uma coisa bem nada a ver, “Moi je joue”.

O diretor de fotografia: filmou Madonna e Michael Jackson, fez Zodiaco, lembra aquela luz? Harris Savides.

A direção: feminina, super hypada, adora moda, nunca filmou publicidade, um jeitinho menina mimada. Que tal Sofia Coppola?

O roteiro: Ah, sei lá. Põe lá ela andando, de bike. Passa pela loja e flana com nada na cabeça, come uns macarrons, que tal? No final, um beijo e sai voando. Isso, com umas bexigas coloridas. Deixa rolar.

Paris, Maryna Linchuk, Brigitte Bardot, Harris Savides, Sofia Coppola. Um bom exemplo de propaganda de luxo. Perfume Miss Dior Chérie.

Propaganda de produto de luxo, de moda, é um mistério. Funciona quase às avessas da outra propaganda. Tem que ser lindo e ponto.

Não sejamos ingênuos de tentar discutir, debater, menosprezar. A indústria é bilionária e não parece em crise.

Nós, publicitários de sabão e cerveja, é que temos essa mania de entrar em crise de incontinência criativa, clamando contra a banalização da idéia, chorando pelo excesso de cabrestos, de racionalizações, de reduções orçamentárias.

O paradigma às avessas da propaganda de luxo é: quanto menos idéia melhor. Ruim, muito ruim é a propaganda de moda com titulo, texto, slogan, humor?  Socorro! Nem pensar.

Do lado de cá do balcão, valorizamos a big Idea, a ousadia, a sinceridade, o riso ou o choro, a inteligência. Propaganda péssima, muito péssima é a simplesmente maravilhosa, aleatória, sem roteiro, abusando de celebridades.

E no meio do caminho, marcas populares fazendo propaganda de luxo com recursos mulambentos ou marcas wanna be com o melhor/pior dos dois mundos: idéia e beleza.

O produto da moda é comunicação. A moda é um veículo de comunicação, antes de ser roupa e perfume. Quem faz moda, comunica. Quem faz moda faz publicidade.

Da mesma forma que é impensável um criador de moda, lançar sua coleção sem participar ativamente da propaganda que fará de seus produtos, é inimaginável ver o engenheiro de alimentos, o mestre cervejeiro, o banqueiro, num set de filmagem de um novo comercial.

A moda é também conteúdo, muito mais conteúdo do que a propaganda de supermercado, tênis e gasolina. Ou será que uma revista, daquelas de ver e não de ler, tem algum sentido sem aquelas lindezas da propaganda de luxo? Já a propaganda de computador, celular, banco, convenhamos…

Bem que a moda poderia nos inspirar um pouco. Bem que a moda poderia nos ajudar a racionalizar menos e soltar mais a franga. A nós e a nossos clientes.

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A mídia veste Prada

Um caçador de tendência é um cara que sai por aí escarafunchando o que estão vestindo, falando, fazendo, comendo, gostando e mais um monte de gerúndio. Ele é contratado pela indústria e seus parceiros para inspirar inovações e obviamente antecipar lançamentos.

A conseqüência esperada – além do truque óbvio de dizer que a marca é inovadora – é de ganhar um mercado que já existe. Se uma grife lança uma coleção com a cor que já está nas ruas, ela ganha os adeptos que já procuram a cor em questão, para dar um exemplo rasteiro. Tendência portanto é querência.

E por mais que a Miranda Priestly (Priest de sacerdote, portanto, Priestly , sacerdoticamente) tente explicar que uma cor é muito mais que uma simples cor (sic) – é um estalo quase transcendental de gênios genialmente geniais – o objetivo é mais prosaico – e muito mais razoável, considerando justamente que é uma “idéia” (assim, entre aspas mesmo) que movimenta bilhões de dólares e comprimidos de antidepressivos.

Portanto, sob esse ponto de vista, esses caçadores aí fazem todo o sentido, mesmo quando eles são – como é muito comum – chupadores ágeis de idéias alheias. Em tempo de internet, caçar tendências chupadas é moleza e engana muita gente “ocupada demais” por aí.

Caçadores de tendências não são nem inúteis nem gênios.

Mas o que inebria são os ditadores de tendências. Esses são Mirandescos. Ditar tendências é apropriar-se de uma dessas querências já queridas pelas pessoas e dar uma forçada, uma anabolizada devidamente midiatizada. É mais ou menos pegar a tal da cor – para permanecer na caricatura – e gentilmente influenciar os canais de acesso à informação de que essa é a cor que está “pegando”, que é “tudo”, que é o “ó”, e que você é um lixo se estiver com outra. Casou a fome com a vontade de comer. A “tendência” que já é “querência” vira histeria, uma necessidade quase que fisiológica, a base da pirâmide de Maslow: mais vital estar vestindo lápis lazuli do que comer, “comer” ou des-comer.

Pois, apesar do ingênuo-quase-estúpido roteiro, apesar do bom-mocismo forçado, do glamour-paparazi-de-folhetim, e do product-placement-blockbuster, “o Diabo Veste Prada” – mais raso, mais digerível do que “Prêt à porter” do Altman – tem lá seus ensinamentos: “Caçadores e ditadores de tendências, eles ainda vão te pegar”.

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Viajar no acaso

Em Recife, vá para o museu Brenand, à tarde, com um quadrinho do Moëbius debaixo do braço. Sente ali naquela esplanada sensualmente mitológica, comece a ler L´incal e já, já você vai ver um zoológico de seres lascivos mas assépticos te envolverem na mais sideral de todas as viagens.

Em Paris, vá almoçar no sujinho Bar de l´X, na frente da escola politécnica. Peça o que tem, javali ou avestruz, tome o vinho que te recomendarem e fique ali algumas horas, olhando os magricelas plátanos dançarem ao vento. Sorria para o patron mal-encarado e repare suas olheiras abissais.

Em Noronha, vá remar nos supercaiaques oceânicos, `as cinco da matina. Você vai passar requeijão na água, atrás do golfinhos e tomar um supercafé da manhã com o solzão nascendo atrás das ondas: uma promiscuidade mais emocionante que passeio de barco e muito mais do que aqueles liliputianos golfinhos na baía-observatório pra inglês ver.

Em Nova York, vá sacudir a poeira na ópera. Qualquer uma. Depois de curtir os chagalls do hall, observe com cuidado as naftalinosas velhas nas frisas, os johnicinhos cochilando, os melômanos trançando os bigodões. Saindo de lá, corra pra Chelsea, mais precisamente pro super-hypado APT, cheio de negões milionários no bar subterrâneo, e ouça hip-hop.

Em Galinhos, no Rio Grande do Norte, chegue de balsa, ou de 4X4 pelas dunas, pegue um jegue-táxi e mande ele te levar correndo, para ver o pôr-do-sol no farol. Fique ali até ficar noite e volte pela praia, caminhando. Sabe aquela espinha dorsal do céu, a Via Láctea? Então está lá todinha. No dia seguinte, vá puxar uns ferros na academia local. Pelo tamanho dos gigantes locais, lata de tinta cheia de areia funciona melhor que os aparelhos que você conhece.

Em Londres, vá até o jardim japonês do Holland Park ver os pavões e as rosadas inglesas passearem seus pets. Resista às fotos, pegue um caderninho e escreva o que você está vendo. É mais original, mais pessoal. E, em vez das soníferas seções de fotos para os amigos .quando voltar, faça um sarau e declame suas metáforas. Você leva jeito pra coisa.

Na Bretanha, França, pegue um barco para Belle-île-en-Mer. Nem pense em entrar na água gelada. Em compensação, tem dois menires no meio da ilha, dignos de Obelix. Chamam-se Adão e Eva e dizem que fazer amor a seus pés, numa noite de lua cheia, é garantia de felicidade eterna.

Na Irlanda, tem as falésias, os Cliffs of Mohair. Vá de carro, para não ter que suportar as hordas de godos, ostrogodos e nipônicos histéricos. Pegue uma tarde inteira e uma capa de chuva. Tire os sapatos e ande descalço na grama fofinha, até a ponta deserta. Daí, fique mastigando um galho de capim e puxe um ronco com os pés balançando na beira do precipicio.

Quando você for à Chartres, se banhar nos azuis dos vitrais da catedral, tente entrar de olhos fechados. Se você estiver sozinho, banque o cegueta mesmo. Quando você estiver no meião, com certeza, alguém vai te ajudar e te posicionar de cara pra grande rosácea da frente. Não abra os olhos ainda, espere um pouco. Com um pouco de sorte, estarão tocando órgão. Quando rolar um acorde mais forte, abra os olhos que, a essa altura, já estarão marejados. Não existe caleidoscópio mais arrepiante.

Em Ravena, na costa do Adriático italiano, vá ver os mosaicos, claro, mas não perca o único Jesus peladão do mundo, numa abóbada da catedral. Dá gosto ver a piroca de Deus e perceber que, afinal de contas, ele era mesmo de carne, osso e membros.

Em Paris, vá à mesquita no sábado, se você for homem, e nos outros dias, se você for mulher. Logo na entrada do salão de chá, do lado esquerdo, é a entrada do Hamam (sauna úmida). Não ligue para a higiene duvidosa do local, mas passe uma hora suando nas quatro salas e ouvindo arabescos sonoros. Termine com uma massagem na sala de repouso e, depois, um chá de menta. Os atentados terroristas no metrô são piração da sua cabeça, mas ajudam a dar clima à atmosfera obscura do local.

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A moda que transforma, transfigura e transgride.

“Extreme Beauty: The Body Transformed”, exposição no Metropolitan Museum de Nova York, é um pequeno discurso sobre a beleza e a moda.

Quando curadores sisudos deitam um olhar curioso sobre o universo da moda, tantas vezes tachado de superficial e supérfluo, o resultado é no mínimo gozado. De qualquer forma, a mostra Extreme Beauty do Met de Nova York dá cartas de nobreza a uma produção artística que movimenta muito dinheiro, cérebros e mídias.

Quem sabe o lugar das criações de alta costura não seja mesmo as taciturnas vitrines dos museus?

A exposição é uma restrospectiva comparativa da moda através dos séculos, colocando lado a lado os atrofiantes sapatos de gueixas e as escandalosas plataformas de Salvatore Ferragamo, ou os corsetes “não-respire-não-fale-não-peide” das cortesãs e os ultrajantes bustiers “Gaviões-na-varanda” de Jean Paul Gaultier.

Quem sabe a moda não seja uma reinvenção cíclica de arquétipos universais de beleza?

Os curadores dividiram a mostra de forma temática, operando uma dissecação cuidadosa das partes do corpo que mais vezes concentraram os suores das agulhas e tesouras. Na primeira galeria, pedestal: pescoço e ombros. Na segunda, frontispício: o peito. Na terceira, altar: o abdômen. Na quarta, alças do amor: o quadril. Na quinta, garras: os pés.

A exposição desliza pescoço abaixo: ombros, peito, abdômen, quadril, pés como num frisson erótico.

Tudo documentado, revelado: as inspirações étnicas, as pirações sexys, street roots, lisérgicas mandalas, saias infláveis Lídice, rendas de açúcar. Elsa Schiaparelli, Gilbert Adrian, Cristobal Balenciaga, Thierry Mugler, Vivienne Westwood, Norma Kamali, Rei Kawakubo, Jean Paul Gaultier, John Galliano, Roger Vivier, Alexander McQueen, Yohji Yamamoto, Yves Saint Laurent lado a lado com os inspirados artesãos do passado.

Vai lá. Se não vê aqui: http://www.metmuseum.org/special/

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