Posts Tagged ‘Brasil’

Grude gringo

07/10/2011 em Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Você já deve ter ouvido que o Brasil é a bola da vez um milhão de vezes e, embora isso possa ser animador, o  grude gringo preocupa.

Eles estão suspirando no nosso cangote, com olhão de inveja na nossa vitalidade, vampirizando nossa energia e trucando com seus molambos de poder.

Prometem, douram a pílula, distribuem abraços e beijos, e com metralhadoras, distribuem saraivadas de elogios “brasileiro é tão bonzinho, criativo, engraçado, descontraído, carinhoso!”

Tem uns que se arrepiam com o interesse cafajeste: abrem a casa, pousam sexy na Hola e arrepiam-se com a misantropia dessa nata do B.

Mas nosso sangue não é purinho, cambada! Derreter-se nesses bailes de elogios é para debutante.

O que esses guys não sabem é que aprendemos tropeçando, levando rasteira, upa neguinho na estrada.

Nesse momento de transfusão de recursos in-extremis, toda malandragem será perdoada.

 

Demo de produto em comercial é de se rir

03/02/2011 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Identidade é uma escolha ou uma herança? Há quem acredite em herança, quase genética, atávica. Mas a hipótese é conservadora e contradiz a principal força motriz do desenvolvimento humano: a miscigenação, a promiscuidade cultural e a barafunda de influências que nos impulsionam adiante. A identidade herdada é uma prisão que arrasta muita gente para o divã.

A identidade escolhida, no entanto, não significa que não possamos relacionar as afinidades culturais de um povo. Desde Caminha, tentamos apropriar para o brasileiro um caráter, um gosto mínimo denominador comum. Em tempos de entusiasmo econômico, essa busca se acentua. Afinal, o que nos une, para além da geografia, da língua e do passaporte? Para entusiastas, é a criatividade; para derrotistas, a passividade.

Quando perguntados sobre qual seria a característica mais apreciada de uma propaganda, uma pesquisa apontou, de longe, que era o humor. Lá na rabeira, aparecem os clichês típicos da propaganda de baixa qualidade: uso de celebridades, jingles e músicas famosas, etc.

Apesar do Luciano Huck virar capa de revista (da Veja, claro) pelo seu bom-mocismo sem graça, apesar da promiscuidade de sua imagem, é triste aceitar que ele personalize nosso mínimo denominador aspiracional.

Prefiro achar que o Gerônimo Santana (“viado cidadão”) é melhor do que o Luan Santana (“meteoro da paixão”). Melhor Chacrinha do que Huck. Muito mais gozado, efêmero, debochado.

Talvez sejamos mais brasileiros quando rimos de nós mesmos, quando não nos levamos a sério.

Existe alguma coisa mais enfadonha do que uma demo de produto, em um comercial, que tenha a pretensão de explicar tecnicamente as propriedades benéficas de um produto? Até quando continuaremos acreditando que o brasileiro é como o alemão e gosta de provas para consumir?

O convencimento pela seriedade é um caminho anacrônico em um país que se debulha no carnaval, faz samba com a miséria, ri da desgraça e gargalha até com o preconceito. A demo de produto clássica é gringa, chata e burra, principalmente em uma linguagem – a propaganda – que há muito virou assunto de bar.

Um Novo Brasil e uma Nova América

14/01/2011 em Sei lá | Tags: , | 4 Comentários »

Restaurante em Nova York. Na mesa ao lado, a mesma face de moedas de latitudes opostas conversam.

O primeiro é brasileiro, novinho-rico.

Não confundir com o novo-rico, esbanjador descontrolado, nem com o novo-riquinho, filho deste. O novinho-rico acabou de ganhar algum dinheiro, ainda dá um duro danado e já projeta seu status futuro em todas as falas.

Nosso espécime vomita manchetes da revista Exame, pontua banalidades econômicos e na falta de pontos de exclamação, abusa dos gestuais para suprir seu vernáculo primitivo. Por isso sua.

Do outro lado, o sujeito é americano, benzinho-nascido.

Não confundir com o bem-nascido, discreto mas empinado, nem com o bem-nascidinho, seu neto. O benzinho-nascido tem a grana necessária para o clube de golfe e as férias no Colorado, mas não suficiente para viver de pijama.

O Yankee é treinado para ouvir sem dar atenção, aquiescer sem concordar, franzir o cenho sem enrugar. Por isso finge.

O primeiro, de moleton comprado em outlet de New Jersey, quer o status presumido do segundo.

O segundo, de gravata amarela e lenço bem dobrado no bolso, quer a grana suposta do primeiro.

Apesar de completamente diferentes são idênticos na essência: ignorantes, preconceituosos, provavelmente machistas, certamente de direita.

O primeiro é o novo Brasil, trabalhador arrivista. O segundo é a nova América do Norte, esnobe interesseira.

Brasileiro: DNA Creative Commons

04/05/2010 em Internet, Sei lá | Tags: | 1 Comentário »

Não se pode levar muito a sério as generalizações que rotulam países, culturas e povos. Mas é um papo que enche a boca de muitas conversas. “O francês é mal-humorado; o português, literal; o italiano, conquistador; o americano, adolescente; o argentino, cabeludo; o mexicano, bigodudo; o indiano, fedido; o australiano, caipira; o japonês, tarado; o chinês, dissimulado; o russo, extravagante”, e por aí vai. É aquela conversinha mole que arrota “Sou viajado, tá?”.

O brasileiro seria, nessas qualificações precoces, alegre, se o viajante veio no carnaval; simpático, se ele se perdeu na Avenida Paulista; feliz, se ele se esticou nas areias; luxuriante, se ele comeu feijoada; gritalhão, se ele assistiu ao big brother local; caipira, se ele foi ao shopping; arrivista, se ele se derreteu na Oscar Freire. Sorridente ou desdentado, natural ou botocudo, sexy ou britânico, esperto ou disciplinado, o brasileiro pode ser tudo isso. O francês, também. O queniano, idem.

Mas se não deveríamos cometer tais derrapadas no atual milênio de extinção saudosa dos regionalismos, o brasileiro é o mais improvável dos povos e possui a mais impossível das identidades. A tolerância imposta pela miscigenação incontrolável nos deu essa zona poderosa.

Não tem nada mais falso e bobo do que um brasileiro que se esforça em ser americano, inglês ou argentino. Fazer como os americanos, os ingleses ou os argentinos. Pensar como os americanos, ingleses ou argentinos. Não tem nada mais provinciano.

Se o Brasil exporta sandália de dedo, avião a jato, dentistas e boleiros, ele tem para exportar a malemolência com o formalismo, a falta de vergonha, o aconchego cultural. Nosso DNA mestiço no sangue e mestiço no gosto. Nossa natureza copyleft. Nossa cultura mashup.