Madeleine Castaing: chique à francesa

Ela ficou conhecida do grande público em 1989, quando posou para seu amigo, o fotógrafo de moda e celebridades François-Marie Banier, em uma foto monumental na entrada de uma exposição no Centro Pompidou em Paris. Ela tinha 95 anos e aparecia despenteada, de camisola, com um sorriso de espanto e um olhar desfocado. Aquela frágil senhora era Madeleine Castaing, possivelmente uma das mais aclamadas referências da decoração de interiores do século vinte.

O fotógrafo estava longe de se importar com a polêmica já que também foi acusado de abuso de inocência com Liliane Bettencourt, uma das maiores fortunas da França. Intrusão infame na intimidade? Interesses sujos? Oportunismo? Sensacionalismo? Madeleine Castaing merece mais do que essa discussão moralista.

Nascida em uma família da pequena burguesia tradicional do Sul da França, Madeleine conheceu, ainda adolescente, seu primeiro marido, o crítico de arte Marcellin Castaing, herdeiro de uma fortuna fabulosa, 20 anos mais velho do que ela. Menor de idade, ela foge, e retorna à família dias depois anunciando o casamento. Uma paixão à primeira vista que vai durar mais de cinquenta anos.

O casal, muito unido, coleciona obsessivamente os maiores artistas da primeira metade do século 20, e em particular o pintor emigrado russo Chaïm Soutine por quem nutre uma amizade cheia de sobressaltos. Eles sustentam o pintor durante muitos anos e compram muitas das suas obras para salvá-las da crítica implacável e destrutiva do próprio artista. A relação triangular do casal Castaing e Soutine é cheia de reviravoltas febris dignas de uma série blockbuster.

Mas o que distinguia Madeleine era a erudição que inspirava suas criações. “Faço casas como outros escrevem poemas”. E não se tratava da pretensão piegas, superficial e afetada que reveste tantos discursos comerciais atuais, em particular nessa atividade.

Madeleine abriu seu antiquário durante a segunda guerra mundial e por décadas foi um grande polo de atração da Rîve Gauche em Paris. Ela filtrava sua clientela e recusava-se a vender ou projetar para aqueles clientes que não demonstrassem algum tipo de sensibilidade artística ou conhecimento das referências que nutriam seu arsenal criativo. Assim, milionários de todos os calibres, origens e repertório imploravam à sua porta. Mas ela era inflexível com o mal gosto do novo-rico ou a ignorância dos poderosos.

Se o leitor tiver a curiosidade de entender o estilo Castaing, comece buscando seu oposto. Por exemplo o apartamento de Donald Trump e potentados brasileiros que nele se inspiram. Ou aquela planta decorada de tantos apartamentos de alto luxo com 8 garagens, adega e deck molhado. Ou exposições de ambientes decorados onde a colcha de renda conversa com a cortina de tule que por sua vez pisca para a cômoda restaurada de um lixão, tudo integrado num ambiente pensado para ficar “combinandinho”.

O estilo Castaing é um luxuriante patchwork de estilos, formas, cores e texturas. É uma fantasia desordenada e vivida. Madeleine criou cores (como o famoso azul Castaing) e mandava fazer infiltrações nos apartamentos vizinhos para que á água que se espalhava pela laje desenhasse arabescos orgânicos e musgos mutantes no teto dos seus clientes. Seus interiores eram, como estalactites, a obra do tempo e da história dos felizes contratantes. Castaing tinha horror do funcional, nojo do desenho em série e culto total ao conforto e à fantasia despretensiosa. A narrativa onírica de seus ambientes era avessa às rígidas escolas de arquitetura de interiores e inimiga dos modismos exibicionistas.

Ao longo de uma vida exuberante, Madeleine, lindíssima na juventude, cultivou uma vaidade iconoclasta. Sempre discretamente elegante, Madame Castaing disfarçava a gastura da idade com desenvoltura: luvas de pelica para as mãos e uma peruca com franja que ela fixava habilmente com um elástico em volta do queixo, o que lhe permitia também um leve repuxo da papada.

Em tempos tão castigados pela padronização do gosto, a vida e obra de Madeleine Castaing são um exemplo. A foto da frágil nonagenária é uma demonstração de força, liberdade e coragem. Vergonha é de quem faz pose e não ousa.

Publicado originalmente no FFW

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