Adivinhe quem vem para o jantar?

Quando tratamos do virtual, muitas vezes não sabemos ao certo do que estamos falando. E essa ignorância do fenômeno tende a trazer para o assunto uma aura de desconfiança e perplexidade. Mas quando o virtual começa a invadir de forma insidiosa o nosso horizonte, o tempo fecha. Alguns trazem explicações místicas para o fenômeno e isso intensifica a tensão.

Baudrillard diria que é para escapar da objetividade terrificante do mundo que nós estamos des-realizando-o . “Para escapar ao ultimato de um mundo real que estamos tornando-o virtual.” Apavorante essa visão de causa e efeito e de uma lucidez inquestionável.

Mas o primeiro passo para entender o que está acontecendo seria sem dúvida equacionar o problema. Fazer mesa limpa e colocar os pratos na mesa: Quais são esses grandes fantasmas que nos rondam? Será que eles existem ou são fruto de um pavor ancestral de ver o mundo com olhos de replicante Gibsoniano?

Redes abertas ou fechadas?
Para o filósofo Léo Scheer, a arquitetura das infovias irá determinar o grau de liberdade e riqueza que elas irão oferecer aos usuários. Onde se situa a inteligência? No ponto de emissão (sistemas convencionais de propagação da informação ou de recepção (sistemas informáticos). Pardon, monsieur Léo, que tal um meio de campo?

Inforicos ou ciberexcluidos?
Segundo Ed McCraken da Silicon Graphics, o mundo está criando a fome da informação. Ele divide-se em dois: os infor-mados e os infor-mintos. Sorry, Mr Ed, vou de Negroponte para responder: Os sem teto do digital são os adultos e os adultos não entendem o futuro.

Educação ou cretinização?
O Jornalista D. Nora disse que estamos criando seres mais voltados para a ação e não para a reflexão. As ninjas invadirão a terra. Mas ora Nora, porquê será que temos que julgar o mundo digital com este arsenal humanista? 68 foi bacana mas só entusiasma saudosistas.

Democracia ou mediocracia?
Al Gore, o vice presidente americano que pela primeira vez usou publicamente o termo de infovia, disse que deveríamos reinventar os governos. Reinventar não, my chap Al, esquecer, aniquilar. A democracia eletrônica destrói os sistemas representativos, desestrutura as fronteiras, massacra a burocracia.

Economia desmaterializada ou escola de desempregados?
É certo que a revolução do digital provoca uma alteração sem limites das relações do trabalho. Mas este é um fantasma que arrasta sua corrente desde os porões da revolução industrial. Ora, essa é uma visão imperialista dos donos do queijo. É só voltar os olhos para o fenômeno Singapura, um cantinho desprezado do mundo que à luz de seu bem-aventurado presidente faz emergir das trevas o lado obscuro do planeta. Faça a escolha: desempregados de barriga cheia ou excluídos empregados?

Liberdade ou segurança?
O apavorante senador democrata do Nebraska (democrata?) James Exon, que introduziu o Decency Act na legislação americana não dormia só de pensar nas incontáveis imagens lascivas que circulavam a um palmo dos inocentes filhos da América. Um desafio se impõe, é certo, mas que tal deixar por uma vez apenas a humanidade auto-regular-se? Ou será que os Decency Acts do passado não foram pesadelos de truculência?

Humanidade robotizado ou robots humanizados?
Para Sven Birkerts, um virulento crítico do cibermundo, “no caixão do virtual, o cadáver do real está definitivamente perdido”. Mas será que o virtual existe? Defina o virtual, Sven! Separar real de virtual é um simplificador para fins analíticos. O virtual não é mais do que o nosso imaginário aflorando. É a hora do contra-regra virar estrela. Mas o espetáculo continua o mesmo. Porque lembrem-se sempre que o fantasma mora na coxia, atrás do espelho do camarim. Convidá-lo para a ceia é sempre uma grande orgia.

2 thoughts on “Adivinhe quem vem para o jantar?

  1. Baudrillard diria que você é ingênuo. Uma das “boas almas” que ele tanto ironizava.

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