Pesquisa de comunicação: porque os consumidores são burros, ignorantes e pobres

Um dos argumentos mais comuns e que colocam em risco sistemático idéias e realizações publicitárias é a preocupação diligente e excessiva com a compreensão da mensagem. Em outras palavras, trata-se do clássico “o consumidor é burro (ou ignorante)” ou de seu corolário classista “o consumidor é pobre”.

As pesquisas preocupam-se em medir essa compreensão de forma superficial, geralmente em pré-testes precipitados. A sentença costuma vir acompanhada de conselhos degradantes para a idéia: “corta aqui, corta ali, troca aqui, troca ali e repita, repita, repita, repita e repita de novo a mensagem”.

A propaganda é a vítima, por vezes masoquista, de um papagaismo gago, um silviosantismo barroco ou apenas preguiça, carreirismo e imediatismo.

A despeito do preconceito travestido de preocupação social, a propaganda amarga de sua própria receita. Acredita-se que a freqüência  (a repetição hiper saturada) é fator de compreensão.

A propaganda é repetitiva na quantidade de inserções, repetitiva de campanha em campanha e repetitiva até na insistência do mesmo argumento filmado, cantado, falado, encenado incessantemente.

Pois compreensão não tem nada a ver com repetição. É óbvio que não. Compreensão tem a ver com envolvimento e concentração. Tem a ver com história bem contada, com linguagem precisa, com qualidade de produção, e claro com idéia.

Repetição tem a ver com razão. Compreensão tem a ver com emoção. E a propaganda é incompetente para convencer as meninges e formidável para tocar o coração.

A menos, é claro, que a gente acredite que a humanidade é composta de ovelhas e que o brasileiro é geneticamente degenerado. A menos que a gente acredite que essa cambada de burros, ignorantes e pobres só aprende na marra e na porrada.

Pelo nível atual do que é aprovado nas pesquisas lobotomizadoras, deve ter muita gente que pensa assim.


   
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8 Comentários para “Pesquisa de comunicação: porque os consumidores são burros, ignorantes e pobres”

  1. Guga Barbosa says:

    Não sei o que pensar disso, quando ouço na mesa ao lado alguém dizer que as imagens do Bispo Edir Macedo exibidas no Jornal Nacional foram montadas e que nunca mais iria assistir à Globo. Não sei o que pensar disso depois da enxurrada saturada de moda indiana que vi nas ruas na época da novela. Também acho as pesquisas lobotomizadoras. Ok. Mas o BBB está na 10ª edição. Nem mesmo o Homer Simpson vê 10 edições de BBB. Bem… talvez veja né?

  2. ely menezes says:

    e qdo a gente vai falar de internet? “pense no usuário mais ignorante que vc possa imaginar, o que não sabe fazer nada”, parece um mantra… e vale pra agências e clientes. :(

  3. jean boechat says:

    será que as pesquisas e os pré-testes consideram o consumidor pobre por causa do consumo de coxinha e bolinha de queijo? =^)

  4. mario says:

    mas caro, para anunciar cerveja, um exemplo qquer e próximo a vcs, o publico que vai de A a Z, e que uma grande parte dele é a de brasileiros com pouca escolaridade, com dificuldade de análise de texto, mesmo assim se mantém seu discurso ou o quê? não me basculo primordialmente pelo sujeito do tema, mas segue a discussão.

  5. Stachon says:

    Quase chorei ao ler. Twittei pra todos. Até para aqueles q vão tirar a conta de mim.
    Show de post.
    Stachon

  6. Pedro Daltro says:

    O povo é burro, tal qual dois e dois são quatro.
    E quem adora dizer que o povo é burro é tão burro quanto :)

  7. Acredito que considerando o volume de exposição que as agências tem à disposição para veicular mensagens que vão influenciar ao povão, repetir a mensagem com o “burrão” de referência, só ajudamos a deixá-lo cada vez mais burro. Menos propanda, mais cultura e arte, isso que ajuda a acabar com os burrões.

  8. Dairo Coelho says:

    A Ignorância é uma bênçäo!
    É muito superficial denominar uma amostra como ignorantes ou não. Existem milhares de outras configuraçöes possíveis.
    O impacto com sinergia em diferentes meios, hoje em dia, está atrelado sempre a um série de fatores muito específicos para cada situaçäo.
    Não dá para criar regras, não se compreende com algorítimos a névoa do caos, nem, portanto, qualquer desvio padräo que se reduza a uma unidade, como a do sim e do näo.

    Dairo Coelho
    http://dairocoelho.blogspot.com

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