Artigos na categoria ‘Propaganda’

Porque todo jurado pensa igual mas faz diferente?

13/05/2010 em Propaganda | Tags: | 6 Comentários »

Está aberta a temporada de caça às premiações, que ainda são as mais eficientes formas de dar visibilidade e reputação a uma agência de comunicação. Não há discussão para esse argumento. Podem falar, espernear, invocar os espíritos justiceiros e os orixás empresariais, mas ainda são e serão por muito tempo os louros criativos o fiel da balança que separa as boas das menos boas.

É um jeito. É o jeito.

Nas antípodas desse fato, existe a propaganda real que segue modorrenta, repetitiva, conspurcada por impulsos aparentemente menos nobres do que aqueles que habitam os jurados dos prêmios.

Todo o mundo, do mais talentoso ao mais comportado, do mais agraciado ao mais hostil, do mais brilhante criativo ao medíocre, sabe perfeitamente distinguir uma boa propaganda de uma ruim. Os argumentos são surpreendentemente os mesmos, as referências idem e as apreciações também. Todos os jurados são iguais e, colocados de lado os interesses individuais legítimos, o crivo é rigorosamente o mesmo. A única diferença está na generosidade de uns e outros. É até comum perceber que a tendência é quase inversa à lógica: quanto mais premiado o jurado, mais tolerante.

Então onde está o real talento?

E se a criatividade não fosse a diferença que qualifica uma boa de uma má propaganda? Porque todo o mundo sabe as mesmas coisas e julga da mesma forma.

E se o bom publicitário não fosse o mais criativo, mas o mais convincente, o mais corajoso, o mais teimoso, o mais sedutor?

É na rua que a gente separa os homens das crianças, e não na sala de justiça, nem no palco.

Arte vaga no museu, na rua e no banheiro

10/05/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Tem a arte pela arte, a arte da rua e a arte no banheiro do Geraldão. A palavra é um poço de indefinições, como amor e morte. É por isso que é menos desesperador encarar as negativas. Amor é o contrário de ódio, e esse sabemos muito bem reconhecer. Da morte nem sabemos de que inverso é.

Arte é o contrário do que fazemos se não somos artistas. Tricô, crochê, macramê, decapê, bricolagem, origami, jardinagem ou propaganda é arte?

Andy Warhol, o cara que bagunçou tudo, arte e propaganda inclusive, dizia que arte é aquilo que não tem utilidade mas que queremos ter. Um xale de crochê para um marmanjo é arte, portanto. Um bonsai na cozinha é arte. Propaganda da Apple é arte. Um Picasso na sala de casa não é arte. Nem uma ponte de Calatrava. Nem o domo da Capela Sistina. A Primavera de Vivaldi é arte na sala de concerto e não arte na propaganda de sabonete.

Estamos no século da aposentadoria do rigor, do formalismo, dos rótulos e das definições. É o fim da picada, e a palavra arte tornou-se obsoleta porque vaga, genérica e surrada.

Mas se ainda acreditarmos que arte é a expressão de um pulso, de uma visão sublimada do mundo, então ela ainda tem sentido sempre que ainda formos capazes de sentir, sem filtro, sem medo, sem preconceito.

E talvez o mestre (mestre?) pop estivesse errado na sua definição. Arte talvez seja a única expressão autêntica que podemos exalar. Nosso tricô-reflexo e nossa propaganda-alma é arte. Nosso tricô-agasalho e nossa propaganda-tecnicista, não.

Geração espontânea de conteúdo é propaganda?

07/05/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

As experiências com conteúdo publicitário gerado por usuários costumam ser qualitativamente decepcionantes. É bonitinho saber que foram amadores populares que produziram aquilo, com seu esforço e criatividade. A porcaria barata e enternecedora. Mas tem que avisar bem grande: “Pessoal, foi meu filho de 5 anos que fez essa arte!”

Propaganda é mais técnica do que arte. O bom gosto e a capacidade criativa não são talentos suficientes.

Mas as iniciativas têm lá suas vantagens, para além da voga, já meio démodé.

A primeira delas é tentarmos direcionar esse tipo de “exploração” consciente dos consumidores para conteúdos não necessariamente publicitários. Documentos de vida, de uso, de hábito podem ser muito ricos quando autobiográficos.

Por outro lado, as experiências podem ser boas para a geração de insights. Se encararmos esse conteúdo dessa forma, sem compromisso de uso, esse tipo de pré-teste reverso, no qual consumidores criam, postam e principalmente opinam, é divertido e pode ser útil. É quase um pré-briefing pré-aprovado. Os universitários assuntam e a gente escreve.

Mas também pode ser que estejamos formando plateias publicitárias. Quanto mais inteligente e sensível for o consumidor, melhor será a propaganda, sempre (inclusive a não tradicional). É ouvindo música boa que nascem os grandes músicos. É vendo boa propaganda que nascem os bons publicitários e os bons clientes.

A fumaça novidadeira não enche barriga

06/05/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , | 1 Comentário »

Os rótulos estão para as tendências assim como a fumaça está para o fogo. Anunciam e apontam. E quando há muito mais espuma do que água significa que a gestação é de risco.

E é por aqui que entra o alvoroço gago mais conhecido sob o palavrão trans-midia-story-teller-brand-content.

É uma espécie de mistura de conteúdos servida num leito de mídias e que se consome de forma intravenosa ou ativamente. Pode ser degustado na bancada da cozinha gourmet ou no quilo da esquina, mas é sempre muito apetitoso para quem tem fome de alternativas.

Não nos cabe julgar o sentido de oportunidade, tampouco o oportunismo de agências de comunicação oferecerem esse discurso suculento a seus clientes. Até porque o período de críticas venceu e, com resultados ou sem, nego quer e ponto.

A questão, no entanto, é mais uma vez o formato de remuneração desse tipo de oferta que conjuga complexidade a incerteza numa dose quase incalculável.

O custo não é mais base para precificar o cardápio T.M.S.T.B.C.

Quanto se paga por uma espuma de pupunha com suspiro ardente de priprioca marinada na casca da castanha do Pará? Muito. Quanto custa? Impossível calcular pelas fórmulas clássicas, custo, overhead, mark-up, margem de concorrência, etc. É muito mais uma função de inventividade, experiência, coragem e reputação, portanto, mais insustentável que a leveza do ser.

Essa é a pedra no sapato de quem cria e o cisco no olho de quem tem que pagar.

É por isso que é tão difícil botar o power point na rua. Os formatos tradicionais (de mídia e remuneração) inseridos no discurso moderno – mesmo que inflados por um tipo de subsídio – serão ainda por muito tempo a melhor forma de convencer o cliente sem sugar a receita das agências.

Mamãe, eu faço power-point

03/05/2010 em Propaganda | Tags: | 8 Comentários »

Infeliz aquele que inventou que uma agência de propaganda deveria ter especialistas em planejamento de comunicação ou marca ou sei lá mais o quê.

Não poderia haver palavrão mais inadequado para a “desordem dos sentidos” que povoa qualquer ambiente minimamente criativo.

O planejamento, no entanto, foi encontrando sua utilidade e suas cartas de nobrezas, mesmo que ele nem sempre faça o que o nome indica.

Ou seja?

Tese:

Existe um adágio recorrente, pronunciado com humores sábios pelas metralhadoras de clichês: “Não é o power-point que vai para o ar”. E, como pasto pisado não engorda, a gente reage e faz um planejamento “criativo”, que é esta tentativa charmosa de descabelar o tecnicismo.

Noite de amor sem carícia é abate, e os dois tipos de planejamento não passam de prolegómenos, com sedutoras promessas no primeiro e frissons compensatórios no segundo. Barroquismos à parte, o planejamento crivado de pesquisas é uma engenhoca pseudocientífica; o planejamento florido com insights psicanalíticos é a propaganda da propaganda.

Se não passamos de obreiros de um lado ou mestres de cerimônia do outro, o planejamento de comunicação não passa de uma encenação que só depende da performance dos atores para cumprir tabela com maestria. É fácil.

Mas, se o trabalho de planejamento é azeitar as interfaces de uma agência de comunicação, ele não pode ser uma vaselina para que o trabalho escorregue melhor goela abaixo do cliente.

Planejar é a arte do possível.

O cliente, qualquer que seja seu perfil, suas polices e suas vaidades, por definição, irá sempre querer muito: muitos resultados e múltiplas proposições. É do planejamento o compromisso de elencá-las.

A criação, tanto as mais rasteiras quanto e as mais etéreas, rejeitam, por formação, e as ambições do cliente e os insights que vêm da rua. É do planejamento o desafio de tornar o briefing simultaneamente pragmático e curioso.

A mídia, até a nossa aqui, que é ótima, fica naquele equilibrismo entre a rentabilidade do cliente e a do negócio, entre o pântano de números e o lampejo rompedor. É do planejamento a afinação de dar o lá.

Mas tudo isso também é fácil.

Antítese:

Difícil é só uma coisa: encontrar uma definição para o que a gente faz. Ou acha que faz. Tanto faz.

Tem milhões por aí e um outro tanto de modelos. Mas, no fundo no fundo no fundo, o que a gente faz é um power-point (ou qualquer outro eufemismo de power-point que a gente use para dourar a pílula) e propaganda da propaganda (ou todos os trejeitos intelectualoides que a gente cacareja).

O planejamento só presta mesmo quando consegue colocar no ar (na rua e no vácuo digital) a prosopopeia da sala de reunião.

O consumidor se envolve muito mais quando saca ou sente a intenção por trás do discurso. E é a intenção que está no power-point. Já se foi o tempo, medieval, em que o grito e a repetição davam conta do recado. As pessoas não caem mais no truque do GRP acéfalo. Mas, quando a gente para de mascarar as boas intenções de opereta (compre que vai ser mais eficiente, mais barato, mais saudável…) e tem alguma sinceridade nos argumentos (aqui estamos nós para fazer você se divertir, se emocionar, se envolver…), o power-point, que vai para as mídias, funciona.

E o cliente, nosso cliente, chato de galocha ou amigão do peito, só quer mesmo é entender, te acompanhar, te apoiar. Ele quer saber, no fim das contas, como é que ele vai convencer quem ele tem que convencer (o chefe, os chefes, o laboratório de lobotomia, o método). Por isso, ele precisa saber como é que a gente faz propaganda, dessa propaganda aí pela qual ele vibra o tempo todo.

Síntese:

O bom planejamento, aquele, único, que deve ser feito, é aquele que revela e antecipa.

Revelação é quando a gente sabe observar. Só isso. Pouco importa a metodologia. Revelação é nossa matéria prima.

Antecipação é quando a gente prevê o que vai acontecer depois, depois de colocar no ar (na rua e no vácuo digital) o que construímos da argila revelada.

Assim, o planejamento só pode mesmo é torcer, da geral, por aquilo que o inspirou a abrir os trabalhos. Torcer pelo power-point que o consumidor vai devolver como só ele sabe: aderindo às marcas e comprando os produtos.

A fé no power-point é que faz o planejamento dosar as promessas e também os floreios, rodeios e salamaleques poéticos.

Planejar é o sonho do possível.

(Publicado originalmente no Jornal Meio & Mensagem, edição de 03/10/2010)

Propaganda vende coisa ou causa?

28/04/2010 em Propaganda | 5 Comentários »

Propaganda existe para vender. Esse é o axioma que conduz a atividade desde sempre, e ninguém discute.

- Mas vender o quê?
- Raciocina, Pedro Bó, raciocina!

Uma empresa precisa vender coisas físicas ou serviços. Coisas que você pode comer ou coisas que você pode usar.

Então, se a gente precisa vender, a propaganda tem que fazer as pessoas comprarem. E a gente usa todos os recursos possíveis para isso. Fala a verdade, aumenta, mente, desvia, rodeia.

Funciona, mas nem tanto quanto funcionava, porque as pessoas não param quietas para ouvir o que elas já estão carecas de saber, tampouco ainda acreditam no pó de pirlimpimpim.

- Pra preservar o meio ambiente, a gente faz propaganda pra vender árvore?
- Raciocina, Forrest, raciocina!

Uma organização desse tipo, seja para defender as florestas, seja para tirar crianças da tentação da violência, serve para mobilizar pessoas.

A propaganda, portanto, nesse caso, faz as pessoas tirarem a bunda da cadeira, os olhos da bunda do próximo, as mãos da cumbuca alheia ou do saco próprio.

Em outras palavras, essa propaganda vende causas. Não vende nem árvore, nem violino, nem nuvem, nem xixi. Vende consciência, por isso mobiliza. Transforma.

- E por que a propaganda normal não vende causas, não mobiliza, não transforma?
- Não faz pergunta difícil, Palisse!

Exercício de marxismo publicitário

22/04/2010 em Propaganda | 4 Comentários »

Toda coisa tem um valor de uso que é dado pela sua utilidade. Que você more no deserto ou no pantanal, o valor de uso da água, matar a sede, por exemplo, é o mesmo.

Mas, justamente porque caímos do Éden faz muito tempo e tivemos que nos ajustar às situações adversas que a cobra nos reservou, inventamos um valor de troca para todas as coisas. Esse valor é atribuído em função da sua abundância ou escassez. O valor de troca não tem nada a ver com o valor de uso; veja o diamante, por exemplo: não serve para quase nada, mas custa uma fortuna.

O valor de troca se sofisticou tanto com o tempo que a gente nem sabe mais direito como é que o povo anda calculando as coisas. Tem também aquele lance da mais-valia, que é aquela grana que os donos da parada ganham pra comprar iates, ferraris, mulheres. Isso sem falar da bufunfa dos panetones, que é o que a gente paga para ter saúde, educação e usinas de energia em terra indígena.

Um produto, por exemplo, uma escova de dentes, tem um valor de uso: escovar os dentes (e engraxar sapatos). Quando você assiste televisão, vê muitos deles, depois do plim plim. Nas propagandas, você fica sabendo como é que faz para usá-los, e os publicitários se esforçam para te explicar isso, porque você sempre pode aprender algo novo.

Tem um outro tipo de propaganda que desencana totalmente de explicar o padre-nosso ao beato e só chama mesmo a atenção para o valor de troca da coisa. É bem útil isso, porque, mesmo que você não esteja nem um pouco a fim de comprar uma televisão nova, ela parece tão barata, tão barata, que você se lembra de que, no banheiro, você ainda não tem nenhuma.

Daí, um belo dia, alguém sacou que esses tipos de propagandas, “de uso” e “de troca”, não eram suficientes para ganhar dinheiro, porque os iates, as ferraris e as mulheres estavam pela hora da morte. Fora os panetones!

Então inventaram que um produto poderia ter uma marca – como se fosse um nome pra coisa – que tivesse um significado transcendental, simbólico e outras psicologias bem impressionantes. Seria uma loucura, porque daí a gente poderia colocar o preço que quisesse. Transcendental, simbólico e impressionante. Afinal de contas, fé e esperança não têm preço. Uma simples escova de dente, a “Super Geringonça Plus”, poderia ser a porta da esperança, o umbral do sucesso, o hall da fama.

E assim nasceu um novo valor, o “emocional”, que obviamente não tem nada a ver com o uso e que é sempre, por definição, muito maior que o de troca.

Parecia o ovo de Colombo, a pedra filosofal, o Eldorado, principalmente porque quase todo mundo já aprendeu a escovar os dentes e dá vergonha cagar na frente da moça da TV. Ninguém mais presta atenção nas propagandas “de uso” e “de troca”.

Mas quem me explica por que diabos a propaganda ainda trata a gente como porco ou desavergonhado? Ignorante ou perdulário?

O título sumiu (por André Kassu)

16/04/2010 em Propaganda | Tags: | 2 Comentários »

Esse não é um texto saudosista. Não cabem aqui lembranças de um velho tempo. É simplesmente uma constatação. O título anda sumido, escanteado, não globalizado, talvez. Eu não sei quanto a vocês, mas um bom título é sempre mágico de ler. O comentário roubado, aquilo que você jura já ter pensado, mas não foi capaz de traduzir. Curtos, em dois tempos, três tempos até. Os raciocínios inteligentes que mais parecem conceitos de tão bem pensados. E por que não, a maldade, a observação precisa das mazelas humanas?

Mais uma vez, não existe aqui uma tentativa de negar os novos tempos. É só uma homenagem, resgate que seja, de uma grande arte: o título. Eu sei, todo mundo quer pensar no viral de um milhão de views, na escada rolante “moonwalk” que desce em marcha a ré tocando Billie Jean. É natural. Mas a existência de um não deveria matar o outro. O gorila da Cadbury não enterra o Michael Jordan 1×0 Isaac Newton. Assim, como nem a mais brilhante das ações pode ser considerada superior aos títulos e textos do Neil Ferreira (ou alguém duvida que a morte do orelhão é uma ação genial?).

O título é tão injustiçado que quando ele é bom e o layout é ruim, ele morre. Mas quando ele é mais ou menos e a direção de arte é bonita, ele se perpetua. Pobre coitado. Fadado a não depender nem de si mesmo. De ser chamado em pedidos de “vamos evitar aquelas gracinhas ou piadinhas”. De ser confundido com dizeres. De ser constantemente substituído pelo seu primo abaixo, o subtítulo.

O fato é que nas revistas e nos anuários, o título tem andado de lado. E é injusto. Fazer título é exercitar a arte da síntese. É mais do que nunca, saber cortar palavras. Tanta coisa genial já foi escrita que cada detalhe faz a diferença. Páginas e páginas de títulos esquentam a mão, nos fazem pensar na importância de vírgulas, pontos e pausas.

Já ouvi gente que, para menosprezar o título, diz: eu penso visualmente. Ou, eu penso no conceito como o todo. Ou, eu penso global. E aí temos uma infinidade de anúncios com o logo  pequeno no canto direito, uma imagem e um conceito com interrogação. Tudo bem. Você pode não ser um tituleiro nato, mas por favor, saber escrever é básico. Ou deveria ser. Eu tenho visto pastas de redatores com muita intimidade com ações e pouca com as palavras. Gente que certamente tem  dificuldade para escrever um texto cabine de rádio (e sim, esses jobs existem).

Eu sei que gosto de título. E gosto do texto. Cada palavra escrita pelo Fábio Fernandes (leia os diálogos dos filmes e veja se tem alguma coisa ao acaso por ali. Releia o texto da crise), o olho atento do Eugenio Mohallem, a fina ironia do Wilson Mateos, a mistura de loucura, ódio e formulinha zero do Edu Lima. A maldade angelical do Roberto Pereira, a inteligência e emoção do Olivetto, tudo do já mencionado Neil e a nostalgia que me bate ao ler o texto do Pelourinho do Nizan. O “experimente ser magra” do Peralta, “a história de um homem feliz” do Luiz Toledo e o Renato Simões que escreve muito antes de existir a categoria técnica do anuário. Escrever não deveria ser uma preocupação dos redatores, apenas. “Você bebe e não ganha nada” foi criado pelo Marcello Serpa. E matou legiões de redatores de inveja. Sem falar no André Laurentino, que saiu da direção de arte para a redação, escreveu livro e o melhor texto sobre filho único que eu já li.

O título me faz uma falta que o twitter não preenche. Ainda que o twitter prove que as palavras continuam importantes.  Os tais 140 caracteres viraram o refúgio dos tituleiros, como disse o Rodolfo Sampaio. Só que tudo vira briefing e a disputa é pelo RT.  E são tantos títulos a todo instante, que o critério e a magia se perdem.

Pode parecer antigo ou fora de moda. Pode não ser o jeito mais fácil de ganhar Leão ou fazer sucesso nos comentários anônimos. Mas um bom título é e continuará sendo sempre excelente propaganda.

(Link relacionado: Um bom título vale mais que mil imagens)

E se a Criação também pensasse em rentabilidade?

13/04/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 3 Comentários »

A rentabilidade das agências de comunicação é assunto que interessa a todos: do cara da HP ao do Youtube, mas também ao cara da planilha, da coxinha, da gravata.

Se o cara da HP sabe fazer conta mas não sabe fazer anúncio, o cara do Youtube, sabe fazer anúncio mas não sabe fazer conta e isso é mais grave.

Se o cara da criação usasse um pouco seu tempo de Youtube, fffound, coolist, lifelounge ou quaisquer outras fontes inesgotáveis de inspirações conceituais, para entender de onde vem a grana, ele talvez fosse o mais interessante motor de transformação (ou sobrevivência) da nossa atividade.

Mais da metade da correspondência de Mozart a seu pai carrasco era reclamando da falta de reconhecimento financeiro pelo seu inestimável talento. São inúmeras as cartas de Van Gogh para seu irmão Théo, em que ele se preocupa com a bufunfa. O vil dinheiro não macula a verve artística, portanto.

Em um mundo em que cada vez mais freqüente se torna a remuneração variável, não tem nada de feio em se preocupar com a rentabilidade da empresa.

Pois vivemos em um mercado que soube defender uma fonte garantida de rentabilidade para as agências, sistema esse que assegura uma relativa sanidade financeira de todos os lados. Isso não é nem ruim, nem injusto.

Do outro lado, vivemos em um mundo que não está perto de encontrar uma fórmula que remunera adequadamente os agentes das novas plataformas de comunicação que, por natureza, são avessas aos modelos tradicionais. E, sempre que alguém ganha dinheiro nesse admirável mundo novo, em qualquer ponta, é através do jeito velho (o Youtube do Google que o diga).

Mas enquanto a acomodação não se dá, sejam por novas ou antigas fórmulas, o nó está na negociação, porque é evidente que a pressão existe para otimizar ad infinitum os investimentos em mídia. E não à toa, sublima-se, exagera-se in extremis, a eficiência dos novos meios, justamente aqueles que são baratos ou remuneram inadequadamente os agentes. Não é truque, é tática,   obviamente temperada por entusiasmos exacerbados. Em síntese, o mix de meios muda e a migração se dá de meios tradicionalmente bem remunerados para outros incertos.

É evidente que os argumentos que defendem as estratégias de diversificação de meios e plataformas são verdadeiros – embora exagerados. As pessoas consomem mais meios, estão mais voláteis e menos fiéis a hábitos.

E é aqui, justamente aqui, no consumo cada vez mais fragmentado de meios, que cabe nossa única força: acreditar que é da integração dos meios que seremos capazes de ser mais eficientes e rentáveis.

A integração de meios, antigos com novos, e não apenas novos com novos, vai garantir a nossa rentabilidade, pelo menos até termos tempo de experimentar novas e salvadoras fórmulas.

Mas se tem alguém vital nisso, não, não é só o cara da mídia que força meios de maior rentabilidade. Não, não é só o cara do planejamento, que cria teorias que confirmam a tese da fragmentação do consumo de informação, conteúdo e entretenimento. Não, não é só o cara do atendimento que senta numa navalha entre a satisfação do cliente e a da agência. Muito menos o financeiro que faz esforços de dignidade para não tirar as calças nas mesas de compra dos clientes.

O cara – “O” cara – está na criação, porque ele é que sabe contar uma história que consegue envolver os consumidores transversal, diagonal, horizontal e verticalmente. Nos meios novos e nos antigos, de forma que os novos não podem prescindir dos velhos e vice versa. E isso irá garantir tudo: eficiência de comunicação e rentabilidade.

A propaganda é igual porque as agências e os clientes estão muito iguais

12/04/2010 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

As empresas queimam as pestanas para encontrar atributos  de diferenciação que transcendam as características funcionais dos produtos que elas representam. Não basta ser diferente, tem que parecer diferente. Essa singularidade que costumamos chamar de “emocional” é o  que vai mover os consumidores acima da fronteira racional do custo/benefício. Uma produto incapaz de criar esse significado não tem marca, tem apenas denominação.

No entanto, não é a marca que é capaz de envolver, cativar e em casos extremos, apaixonar uma pessoa. É aquilo que ela comunica sobre si própria. Uma marca não é nada além de um símbolo estéril se não lhe dermos voz e significado através da comunicação.

Propaganda serve mais ou menos para isso: dar uma voz singular às marcas para envolver pessoas para além da lógica.

Para dar essa voz deve-se ser, por definição, diferente e envolvente. Assim, é necessário construir um discurso e isso é a função do marketing. É para isso que ele serve: encontrar o que dizer que pareça ao mesmo tempo verdadeiro e com capacidade de percutir favoravelmente nas pessoas que pretende-se converter em consumidores.

Já a propaganda existe para dar forma a esse “o que dizer”, para que essas mesmas pessoas possam sentir-se envolvidas para além da razão.

A forma na comunicação é uma função de “jeitos” de dizer, função do estilo. Estilo por sua vez é o olhar que se tem sobre algo, filtrado e catalisado pela sensibilidade e experiência.

A forma de dizer aquilo que é bom dizer sobre uma marca é singular porque cada pessoa (ou por extensão cada agência) tem ou deveria um olhar diferente do mundo e das pessoas.

Diferenciação na comunicação portanto não são “coisas diferentes para dizer”, são “jeitos diferentes de dizer as mesmas coisas”. E jeitos diferentes só existem se existirem pessoas (ou por extensão publicitários e agências) diferentes.

Infelizmente, a propaganda vem sendo vítima de padrões de ação, referências e “jeitos” paralisados por técnicas de avaliação que pasteurizam os olhares e os estilos.

Os padrões de ação são impostos nos briefings dos clientes (incluindo os bônus dos profissionais de marketing); as referências, nos objetivos enviesados das agências (incluindo as premiações); e as técnicas de avaliação (incluindo as pesquisas) são fruto da insegurança dos profissionais que lidam com as marcas , de ambos os lados.

Isso produz uma propaganda monotonamente igual e portanto assustadoramente ineficiente para aquilo que ela é mais eficiente: singularizar a voz das marcas.

Cannes é cafona

07/04/2010 em Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Cannes é um balneário monótono, situado na mais careta e reacionária região da França. É uma cidadezinha com charme pequeno (pequeníssimo) burguês, muita begônia e gerânio dependurados, praias de Ramos, restaurantes medianos e alguns hotéis de sheiks e russos enfadados.

É também a sede do congresso dos dentistas (os franceses precisam de bons urgente), geriatras (para cuidar da população em decrepitude bronzeada), feiras de instrumentos cirúrgicos, tricô, crochê e macramê, festivais de gastronomia étnica, música folk, pintura neo-renascentista, cinema e propaganda.

Cannes é cafona, deprimente e sem glamour.

Mas participar do festival de propaganda é o job mais importante para um publicitário minimamente ambicioso, interessado e com vocação. Ir para Cannes, na época do festival não é frejo (porque é muito cansativo), não é coisa de vagabundo (porque é muito caro), nem baladeiro (porque as festas são deprimentes).

O festival de Cannes de propaganda é rico, visionário e educativo.

Para quem nunca foi para a França, não vale a pena perder seu tempo com Cannes que não passa do pior retrato que se pode ter do país. E ainda bem que o festival de propaganda acontece justamente lá.

O release que salva

05/04/2010 em Propaganda | Tags: | Deixe um comentário »

A propaganda tem por dogma perseguir o mínimo denominador comum de entendimento e gosto dos consumidores, também conhecidos por Donas Maria, Seu João, Afegão médio, Zé Mané, Ervilha, Arcoíro e mais uma penca de simpáticos epítetos. É graças a ele que mensura-se o sucesso de uma mensagem, posto que o público alvo é sempre infinitamente maior do que qualquer capacidade de oferta. Em nome da imagem e dos consumidores do futuro, sempre falamos com muito mais pessoas do que a marca é capaz de atender.

Preocupamo-nos tanto com a capacidade de discernimento, que quase sempre renunciamos ao mais civilizado dos instintos: não menosprezar a inteligência das pessoas. Desistimos muitas vezes até de acreditar que quando a mensagem agrada as antas, ela pode agradar menos a antas mais espertas. Essa é a lógica perversa da regra.

No contra-fluxo dessa máxima lei, e até por justa reação, outro reflexo nos mantém desatolados: a busca por uma  propaganda apreciada por nossos pares, que, por peneira, são antas mais treinadas. E nesse caso, busca-se uma espécie de máximo denominador comum de apreciação dos nossos consumidores transformados em jurados.

Mas existe uma outra coisa, que por falta de capacidade de qualificação, chamaremos assim mesmo: coisa. A coisa em questão é quando a propaganda não atinge nem o mínimo nem o máximo, não fala com ninguém a não ser, talvez, meia dúzia de aprovadores devidamente doutrinados por preconceitos ou treinados por belos power-points. É aquela propaganda que, sem bula, é nada para alguns (as antas antas), chata para outros (as antas menos antas) e irritante para nós (as antas espertas).

Esses devem ser os motivos, aliás, que justificam essa quantidade espantosa de veículos especializados em propaganda. Espantosa para o tamanho do mercado, claro.

Só o release salva: a propaganda mínimo denominador comum, mais conhecida como estúpida; a propaganda máximo denominador comum, também chamada de cabeça e a propaganda coisa que não é nada.

A propaganda dos fominhas e brucutus

01/04/2010 em Propaganda | Tags: , , , | 4 Comentários »

Toda agência de propaganda tem atacante fominha, lateral que dribla pra trás, meio de campo perdido e zagueiro brucutu. Para quem assiste de fora, a falta de entrosamento é a alegria dos comentaristas. Mas para quem está em campo, a bola está em jogo e não tem replay.

Como no futebol, o esquema de jogo é quase sempre caudatário do talento de alguns. A vitória é dos craques, a derrota é dos técnicos.

Toda agência de propaganda tem criação, planejamento, atendimento e mídia. Todas, inclusive as modernas, inovadoras, hypadas, desesperadas, desconectadas ou desencanadas.

Como no futebol, na propaganda existem regras do jogo.

A regra do nosso jogo é a seguinte: trabalhamos para clientes que comandam uma grana que devemos investir em veículos de comunicação que escolhemos em função das audiências que eles geram.

Não mudou muita coisa desde tempos imemoriais. Ainda temos a grana dos clientes, ainda trabalhamos com veículos de comunicação e ainda temos que investir neles.

Mas uma coisinha singela está diferente: as audiências não são mais dadas. Elas agora estão voláteis, independentes e incertas. Elas estão hoje em um bilhão de lugares e amanhã estarão em um bilhão de outros lugares. As audiências foram alforriadas.

Novas regras se impõem e novos times também.

A mídia não pode mais ser fominha e encastelar-se atrás dos dados. A criação não pode mais ser brucutu e achar que só Jesus salva. O planejamento não pode mais dar drible pra trás com sua sapiência do consumidor de ontem e o atendimento não pode mais dar dribles para trás da sua cautela.

Com essa audiência liberta, não dá mais para prescindir de esquema de jogo e não dá mais pra fazer gol sozinho.

Mais importante que criar idéias (seja lá o que isso algum dia significou), a gente tem que aprender a criar audiências e para isso, talento e umbigo não bastam.

Nem paixão pelo negócio, nem pela marca

31/03/2010 em Propaganda | Tags: , | Deixe um comentário »

Sim, vivemos num mundo capitalista, numa economia de mercado, num ringue entre perdedores e vencedores. Aqui é a arena dos arrivistas. A grana dá gana e dá gosto.

Isto posto para os poetas. Isto posto para os tubarões.

Planejamento de comunicação é, sabemos, uma coisa cheia de teorias, definições e outras viagens. E vamos dispensar as perorações, prosopopéias  e pretensões.

Mas se espremer, tirar toda o blablablá, a visão do que é planejamento se resume a duas: para alguns o foco é no negócio, para outros é foco na marca.

Para alguns, propaganda existe para fazer um negócio prosperar, crescer, ganhar musculatura, conquistar espaço, mesmo que seja só comercial, mesmo que seja só responsável. E se propaganda é isso, então o planejamento deve olhar o negócio, entender o negócio, arrotar o negócio, evangelizar o negócio do cliente. Isso dá um tipo.

O outro é aquele que acredita que a representação simbólica de um produto, de uma empresa, quiçá de uma filosofia – a marca – é o que vai permitir criar laços entre um consumidor e a grana que ele vai pagar para o negócio. A marca é o médium que se xaveca e cultua. Se a propaganda existe para servir marcas, então o planejamento deve vestir a marca, bajular a marca, lustrar a marca, travestir e treinar a marca.

Não iremos tratar aqui do tipo híbrido, o tipo conclusivo, apaziguador, o coxinha que já vai dizendo que o planejamento deve ter paixão pela marca para gerar negócio ou vice-versa-o-contrário-tanto-faz-não-enche.

Vamos sugerir uma outra visão, aquela que considera o “negócio” um deserto de emoções, e essa visão de “marca”, o canto da sereia.

Que tal a nossa paixão ser pela comunicação, pelo discurso, pela história (sem a babaquice do story-tellismo)?

Que tal o planejamento ser um laboratório de construção de linguagem? Um campo de treinamento onde a gente ensaia a fala, a forma e o conteúdo?

Que tal um departamento de planejamento que tem como missão aprender como é que as pessoas pensam e sentem para uma propaganda importante, útil ou simplesmente gratificante para os “consumidores”? Uma propaganda que antes de ser relevante para a marca ou para o negócio, seja relevante para o Pedro, a Clara, o Eduardo, a Maria e o Flávio?

Que tal um planejamento cuja missão é conseguir fazer propaganda que não seja só propaganda?

Um bom título vale mais que mil imagens

30/03/2010 em Propaganda | Tags: | 7 Comentários »

A gente sabe, repete, se locupetra ou lamenta que somos um povo pouco letrado, avesso à leitura, analfabeto ou preguiçoso. E como sempre, as máximas, os lugares comuns e a propaganda são uma praga: quando pegam, dogmatizam.

É conhecido também, batido e irritante que as pessoas do mundo estão sem tempo e sem saco, cada vez mais sem tempo e saco, numa progressão geométrica de encolhimento desesperante. E claro, os chavões, os power-points e os pseudo-teóricos da propaganda são como bicho do pé: não largam.

Então convencionou-se, sabe-se lá por qual encurtamento de raciocínio, sabe-se lá por qual constatação metida a científica, que as pessoas não lêem propaganda. A ditadura da direção de arte, conceitual, auto explicativa, cirurgicamente trabalhada, venceu o verbo.

A menos que sejam esses novos apóstolos da classe C  que mandam dizer que o pobre é ignorante.

Pois é verdade que de tanto ver textos mal escritos, estúpidos, banais, dispensáveis ou simplesmente acoplados para satisfações individuais, check-lists ou disaster-checks, quem sabe escrever perdeu o tesão de lapidar palavras e estilos.

Mas como entre oito e oitenta, tem setenta e dois matizes, a aversão ao texto e seu corolário que endeusa a imagem, não tem lógica nem comprovação, salvo preconceitos.

E quem provou que a imagem é mais simples de entender que a palavra? Se assim fosse, ainda escreveríamos em hieroglifos. Quem disse que falar por imagem é mais preciso? Se assim fosse, seríamos silvícolas que precisam de muitos gestos para dar sentido a seu parco vocabulário.

O homem inventou a escrita, representação simbólica de coisas tangíveis e “coisas” imateriais. Foi uma evolução registrar o mundo em palavras, muito mais avançado que nossos garranchos das cavernas.

Ninguém negaria o poder da imagem, ora pois, mas não vamos exagerar também.

Pessoal, já tem muita gente no Brasil que sabe ler, sabiam? Daqui a pouco atrofia!