Artigos na categoria ‘Propaganda’

O Facebook está catatônico

27/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 2 Comentários »

Ainda está chegando gente aos borbotões, atropelando-se e os amigos acotovelam-se para encontrar um lugar no mural do próximo. Talvez essa febre esteja no início, e quem sabe um dia, conseguiremos dar sentido à euforia. O vício é confortante. É blasé remar contra.

Mas a sinceridade nunca pode ser acusada de cafona.

Mesmo sendo uma bandeirinha que reafirma a existência num mar de conformismo preguiçoso, mesmo sendo o “hey eu existo” nosso de cada minuto, mesmo sendo um antídoto ao drama existencial, O Facebook estabelece contatos de primeiro grau, fortuitos e quase sempre gratuitos.

Então se não serve para celebrar laços, talvez seja apenas distração, entretenimento, deliciosa inutilidade solitária. Parece que já inventamos a literatura, o cinema, o video-game com outras mais envolventes imersões egoistas. Meia boca esse Facebook.

E se fosse só um amplificador verbal, para transbordar energia, um ladrão para nossa caixa de bobagens? Ou quem sabe sirva para aplacar nossa sede de bisbilhotagem, nossa curiosidade doentia pelo outro presumidamente melhor ou pior que a gente?

O Facebook talvez seja essa colcha de retalhos aí, esse repositório de interesses, um molambento e telegráfico consolo.

Mas isso não é nada. O problema é que desde que virou menino prodígio das manchetes e xodó da nova publicidade, o Facebook virou um feirão vulgar e confuso. Esquizóide. Catatonico. Nenhuma feiura será perdoada.

Que papo é esse de integração on-off line?

26/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 4 Comentários »

Parece que a imprensa especializada não vai parar nunca mais de gaguejar “on-line isso” e “off-line aquilo”. É falta de assunto ou gosto pela retórica: afinal de contas, por que será que ainda andam falando tanto de integração de disciplinas? Por que tanta energia é gasta para ensaiar modelos vencedores e apontar do dedo estratégias perdedoras?

Um marciano que resolva estudar a respeito, vai perceber que nos últimos 10 anos, as agências esnobaram, depois integraram, depois apartaram, depois integraram, depois apartaram, depois integraram, depois apartaram e continuam sem saber o que fazer. Se compram, se educam, se fazem parceria, se aculturam, se, se, se.

Essa busca por uma fórmula é vício mais do que virtude e entorpece um pouco a tomada de decisão.

O foco, por si só, já parece um contrasenso pois foco mais parece uma contingência financeira do que um default de largada. Já faz muito tempo que a comunicação deixou de ser passiva. Faz tempo que o ponto de partida de qualquer briefing de comunicação não é mais a verba ou a mídia: “tenho tanto dinheiro, otimize” ou “comprei isso, veicule nisso”. Pelo menos na ambição, não preenchemos espaços comprados. Os canais estão a serviço de um conteúdo e não o contrário.

E essa lógica, portanto, anula o raciocínio do foco na mídia e reestabelece o foco no conteúdo. A mídia forte não atrai, não engaja, não convence, a não ser pela repetição. Já um conteúdo forte atrai, engaja, convence por si só, onde quer que ele esteja disponível.

Que papo é esse de foco? Que papo é esse na integração das disciplinas on-line e off line? Que foco? Que discplinas?

Só existem duas disciplinas em uma agência de comunicação: a daqueles que focam nas mídias e a dos que focam nas pessoas. A primeira é velha, mesmo que on-line. A segunda é nova, mesmo que off-line.

O improviso domesticado

23/09/2011 em Propaganda | Tags: , , | Deixe um comentário »

É da natureza de uma agência de comunicação abrigar e atrair talentos com personalidades e gostos distintos. Dessa miscigenação, nasce uma sadia e criativa colisão de pontos de vista. E quanto mais diversos forem os clientes, mais mestiço deve ser o capital humano de uma empresa de comunicação.

Ainda que existam agências com personalidades marcantes e que ainda ditam uma espécie de ética criativa, seu sucesso fica confinado a uma demanda igualmente teimosa. Em um mundo metamórfico, que cultiva a colaboração e celebra a interação, tais posicionamentos são quitoxescos ou caducos.

Mas se é mais contemporâneo, vibrante e criativo conviver com a diversidade, é mais desafiador encontrar um foco convincente, seguro, vendedor. No modelo antigo, era acertar ou errar na mosca (tendendo ao erro reincidente). No novo, o erro é menos frequente, mas os acertos mais diversos. Quanto mais ricos os pontos de vista muito mais difícil ser afirmativo e seguro na recomendação proposta.

E por enquanto só tem um jeito de unir diversidade e assertividade: teatralizando as apresentações. Só tem um jeito de convencer: ensaiando o show.

Corn syrup nas meninges

20/09/2011 em Propaganda | Tags: , , | 6 Comentários »

Tem alguma coisa enferrujada no coração do mundo. E talvez não seja por um leniência sistemica, de natureza econômica, política ou social. Parece-se muito mais com atrofia criativa.

Basta caminhar por um supermercado e percorrer as gôndolas com o olhar afolosado. Não existe nada mais monótono no mundo do que as prateleiras de marcas americanas.

Basta sentar na frente da televisão e acompanhar um break com seus comerciais “problema-solução”. É um deserto saturado de clichês, imagens artificiais, palavras vazias, mensagens amortecidas por toneladas de pesquisas politicamente corretas e covardes.

Basta entrar numa reunião de trabalho e tentar permanecer acordado no teatro morno de teorias rasteiras e referências batidas.

Falta senso de humor, falta imaginação, falta vida e principalmente falta, mas falta muita leveza.

Várias quimeras passam pela cabeça para justificar esse estado de letargia. Uma espécie de mau-gosto endêmico;   uma Texanização da percepção do mundo; um gosto patológico pelo método e seu corolário, a aversão à imaginação; o fascínio pela grana que vem da poupança investida na bolsa e a consequente preguiça criativa.

Quem sabe o xarope de milho tenha empastelado o hemisfério direito do cérebro das grandes marcas americanas.

Kitsch, vintage e sucata

15/09/2011 em Propaganda | Tags: , , , | 1 Comentário »

Na feira de antiguidade, a hora do “Esse a vovó tinha!” é quando exultam os diletantes da caçada decorativa, os pescadores de histórias.

É quando confunde-se kitsch com vintage e tudo vira arte. A anágua, o genuflexório, a espivitadeira, a pâte de verre, o psyché, o son of the bitch, os netuskes, os Sèvres, os Wedgwood, e todos os espólios do fausto perdido.

Kitsch é pastiche, colagem vagabunda, desconjuntada, mal acabada, molambubotabundo, é o avesso despenteado.

Vintage é velho, recauchutado, é patina sem história, é desbotamento, é cansaço, poeira e ácaro.

Quando celebramos o lixo, perdemos tempo com o rebotalho da criação humana.

É que o novo dá tanta preguiça!

Tudo bem, a propaganda referencia-se na retaguarda, pega o vácuo da criatividade artística. Sempre foi assim e é bom que o seja. Mas daí a pegar carona na sucata, dá um certo medo.

E propaganda aqui é eufemismo envergonhado para o hip que mobilia os salões cultos do século.

Talento e sabedoria

14/09/2011 em Propaganda | Tags: | 6 Comentários »

O diretor de criação falou para o time todo reunido. Uma frase curta e com emoção: “agradeço a todos, pelo talento e generosidade, duas qualidades muito raras de serem encontradas juntas”.

O talento é um bicho guloso, que se alimenta de reconhecimento e vaidade. Por definição, talentos equivalentes se repelem, se isolam. E no tempo, auto-flagelam-se, auto-canibalizam-se.

Fazer o quê? Talento é genético?

Talvez haja mais mágica do que previsibilidade na hereditariedade. A genética é exata nos detalhes e poética na essência. E se a essência não for generosa, o talento não passa de um detalhe caprichoso e ridículo.

O império frazzled

09/09/2011 em Propaganda | Tags: , | Deixe um comentário »

Adoramos reclamar da nossa bagunça, da nossa irresponsabilidade, da falta de estrutura, de educação, de cultura. Afinal, se não houvesse do que se queixar, que graça teria a vida?

Mas o que pouco percebemos ou valorizamos é que no DNA da zona há muita intuição, senso de oportunidade e coragem. A bagunça é irmã do risco e o risco irmão da criatividade.

O império é liberal em casa e tiránico além das fronteiras. Está com excesso de peso mas se entrar na dieta, quebra. É tão democrático que se afoga em intermináveis discussões retóricas. Não sabe o que fazer do vício no lucro especulativo. E de seu roto saber constroi catedrais organizadas mas ocas.

Qual afogado, agarra-se nos restos de seu poder náufrago.

Email e a bunda mole

06/09/2011 em Internet, Propaganda | Tags: | 4 Comentários »

Na imigração, entrando nos Estados Unidos:

-       O Senhor trabalha com quê?
-       Propaganda.
-       Mas o Senhor acabou de vir fazem poucos dias.
-       É para uma reunião.
-       Eles não acreditam em email, na propaganda?

Também não acredito. Nem em muitas outras formas de comunicação presumidamente contemporâneas.

Já repararam no estrago que um email pode fazer, principalmente com aquela fila interminável de copiados? Aqueles que devem tomar uma providência, aqueles que devem ficar sabendo, aqueles que devem aprovar, aqueles que podem ter uma ideia, aqueles que não tem nada a ver mas é de bom tom que sejam copiados, aqueles para quem devemos demonstrar empenho, aqueles que devemos integrar. Os que devem tomar providencias aguardam a aprovação de quem aprova, mas os que devem ficar sabendo aprovam o que não devem, aqueles que copiamos por educação tomam providencias, aqueles que devemos impressionar respondem e quase sempre os que devem ser integrados apavoram com ideais do além.

E depois da confusão, aparece um bunda mole para dizer “não falei?!”

A modernidade não faz milagres: para melhorar tem que simplificar. E vivemos numa era em que todas as melhoras convergem para uma única obsessão: encurralar o tempo numa jaula. Agilizar, estreitar, encortar. E encurtar vem de cortar.

Tudo seria tão mais simples se levantassemos a bunda da cadeira com mais frequência.

TED: conhecimento versão instanântea

30/08/2011 em Propaganda | Tags: , | 4 Comentários »

Desde que o TED surgiu como uma manifestação grandiloqüênte das boas causas e caridosas experiências, 3 em cada 3 citações bem-pensantes vêm calçadas por suas respectivas muletas do TED.

O TED é um enorme repositório de lágrimas de sabedoria expressas e self-service. Tem de tudo, pra todos e pra qualquer momento. É só buscar. Quase um calendário Seicho-No-Ie versão vídeo.

Mas além de espalhar boas intenções e ensinamentos com mais abrangência do que o sermão da montanha e os livros de auto-ajuda que ladeiam o caixa de qualquer livraria, o TED faz mais pelo bom mocismo-pop-star do que Britain’s got talent.

Ironias à parte, o TED é lindo. Feio é o que fazem com ele.

Sua superficialidade, proposital, deveria ser início e  inspiração, não fim. O problema é que nesse mundo-miojo, em que conhecimento é produto de consumo, nego desliza no aforismo, idolatra o autor e devora o próximo como um Bis.

Muita gerência e pouco projeto

25/08/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 5 Comentários »

A vida é cheia de projetos. O projeto de ficar com corpinho em cima, o projeto de casar, o projeto de viajar, o projeto de ficar rico, o projeto de relaxar com a pressão hedonista, o projeto de divorciar-se, o projeto de ficar mais em casa, o projeto de aproveitar mais a vida, e o projeto de ter menos projetos.

Para tocar tantos projetos, temos que saber administrá-los, gerenciá-los. Planilhas, listinhas, cronogramas, agendas, alarmes e vamos partindo a vida como salame, abusando da nossa capacidade de assoviar e chupar cana ao mesmo tempo.

Além de sermos homens, mulheres, pais, filhos, amantes, amados, caseiros, bohemios, responsáveis, desmiolados, profissionais, cantores, atores, esportistas, antropólogos, astronautas, arqueólogos e publicitários, também temos que ser gerentes de projetos, de tantos projetos.

Gerenciar projetos significa aproveitar o máximo. Ou seja, otimizar recursos. Ou seja, espremer. Até o último caldinho.

Em outras palavras, gerenciar projetos significa acabar com a preguicinha, a piadinha, o pipizinho, a piadinha.

Ainda, gerenciar projeto é perder um tempo enorme gerenciando e um tempo mínimo projetando.

O português dos modernos

08/08/2011 em Moda, Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Não é fácil acompanhar a velocidade de inovação dos gadgets que nos servem de esqueleto existencial. Essas novidades ocupam o centro do desejo contemporâneo.  Moda, tecnologia, decoração, viagem, etc, e para justifucar tantas presumidas mudanças de comportamento, atitudes, valores, precisamos inventar também termos.

Qualquer pesquisa ou publicação que quer impressionar, precisa cunhar palavras novas, seja abusando dos prefixos (o que está na boca de todos os bem aventurados profetas da modernidade é “trans”), seja germanificando o português, com a juxtaposição de várias palavras (até porque usar palavras mais precisas em outras línguas ficou fora de moda).

Parece que todo o esforço e busca pela simplicidade, minimalista e econômica, é saudosista e o pecado mortal é tentar encontrar paralelismos com o passado. Não, tudo é inequivocamente COMPLEXO e NOVO.

Todo mundo quer se “adaptar” às transformações como se essas mesmas “transformações” fossem independentes. Como se as “mudanças” fossem paridas por geração espontânea, pré-programadas e sempre acelerando. Temos que correr atrás, sempre em débito com a nova-novíssima-nova palavra.

Mas o novo sempre foi fator de uma necessidade genuina e humana. Nunca de uma projeção. Menos ainda de uma compensação.

Queremos fazer bonito, mas na maioria das vezes é ridículo.

O primo de Marília estava certo: “comprei uma bota nova, lindona, pra fazer bonito na sua festa. Mas acabei colocando essa que é essa que eu aguento, né?”

Pesquisa ou a falácia da verdade

05/08/2011 em Propaganda | Tags: , | 7 Comentários »

Menos impostos significa mais investimento e mais investimento, mais emprego. Depende, porque quem não gosta de imposto é o lucro, não o emprego. Energia limpa é energia renovável, como a água. Depende, pois água depende de floresta e floresta de água. E a floresta não gosta de barragem. A verdade do sistema capitalista é o lucro, a do sistema ambiental o equilíbrio. E a verdade é inimiga mortal da malandragem, do truque, da cortina de fumaça, da falácia.

A propaganda é muitas vezes uma fábrica de falácias poderosíssima que sobrevive à base de agendas pessoais justificadas por pesquisas.

Funciona mais ou menos assim:

Tem-se um problema de marketing. Entra então o arsenal dos falaciosos que gargareja achismos intelectuais que gostam de chamar de criatividade. E a ciência da manipulação mais conhecida como pesquisa comprova os insights mais conhecidos como agendas pessoais. Bingo: o chute vira verdade e a verdade vira briefing.

Mas tudo bem, quando a plataforma,  mais conhecida por campanha, vai para o ar, tem mais pesquisa para comprovar a verdade que se queria.

A verdade é inimiga da vaidade e por isso dói. Mas como disse o economista M Reich, “a verdade não é o meio do caminho entre o certo e o errado”.

E nenhum, nenhum grande posicionamento nasce no meio do caminho.

É o de quem que está na reta?

02/08/2011 em Propaganda | Tags: , , | 4 Comentários »

Existe uma movimentação ao mesmo tempo inquietante e excitante na forma como os clientes das agências de comunicação vêm se movimentando principalmente no que diz respeito ao papel desempenhado pelo marketing.

A percepção superficial do fenômeno dá-nos a desagradável sensação de juniorização das equipes e a apreciação mais comum dá conta de que os clientes não estariam mais fazendo o que deveriam, a saber, municiar suas agências de informações e objetivos claros sobre suas marcas.

Mas a realidade por detrás dessa falsa idéia, é que os clientes tendem a colocar em xeque o papel mesmo de seus fornecedores de comunicação. Passam ainda a superpor-se às tradicionais funções atribuídas às agências. É nesse nem sempre evidente ponto que a relação fica dramática: “afinal de contas, qual é o papel de cada um?”

Existem duas formas de encarar essa tensão.

A primeira é o belo discurso da parceria, que somos um time que se mobiliza em  torno de um único objetivo. O lugar comum é uma falácia muito pouco objetiva. Afinal de contas, parceria significa comungação de interesses comerciais e embora isso possa ser aplicável em alguns casos, não resiste da porta para dentro de ambos os lados da fronteira cliente/agência.

A segunda consiste em resignificar as diferenças. Consiste também em reconhecer os erros, as acomodações, os medos. Em determinado momento, as agências renunciam a suas convicções, intuições e até evidências para adequarem-se aos briefings dos clientes, cada vez mais imperativos. E o acochambro é sinônimo, no tempo, de irrelevância.

Mas existem truques eficientes para fazer a auto-crítica dentro de casa.

- Conhecemos coisas, pessoas, assuntos, pontos de vista, que nossos clientes não conhecem (ou não podem acessar) ou estamos sempre mastigando aquilo que eles já sabem?

- O cliente está confortável com seus recursos? Ele acha que tem todo o dinheiro de que precisa? Ou falta-lhe sempre algo de que ele adoraria dispor para poder executar nossas idéias?

- Finalmente, estamos convictos das nossas propostas? E se fossemos o cliente no lugar do cliente, aprovaríamos? Estamos dispostos a investir na nossa idéia a ponto de demonstrar que o nosso também está na reta?

A Berrini não é o East Village e Moema não é o Marais

28/07/2011 em Propaganda | Tags: | 11 Comentários »

Desde que a comunicação resolveu galgar alguns centímetros na escala de consideração social, as masturbações intelectuais subiram para nuvens estratosféricas.

E a culpa é do power-point animado, cheio de imagens cool de jovens dançando de olhos fechados com headphones enormes. A culpa é dos planejadores de todas as raças que serpenteiam em procissões internacionais, atrás da última tendência, da última frase de efeito, do último case revolucionário.

Foi assim, graças ao verniz cheio de sabedoria de almanaque, que a as propagandas (palavra que virou palavrão) ou as plataformas de comunicação (seu eufemismo cool) viraram briefings. É fácil reconhecer esses abortos cheios de justificativas strory-teller-transmídia-technicolor-dolby-stereo. É só não ter charme, nem sutileza. É como um steak-tartare sem tempero.

A comunicação foi dominada pela tosqueira dos mídias, pela subserviência dos atendimentos, pela egotrip dos criativos e agora está sendo devastada pela pretensão dos planejadores. Quem sabe um dia a gente possa abolir job descriptions e fichas técnicas!

O Anúncio da Kia, réu duas vezes

25/07/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , , , | 1 Comentário »

Tudo que o homem cria estará voando em nuvens virtuais de instantâneo acesso, mas enquanto estivermos encarcerados em pele, osso e músculos, a matéria será  nossa âncora existencial.

É de péssimo gosto usar o correio e pior ainda uma rede social para enviar um convite de casamento que deve ser impresso com letra caligrafada. Por que milhões se atropelam nos museus se há séculos somos capazes de precisas e fiéis reproduções? Tudo que se escreve estará digitalizado e a leitura dar-se-á em dispositivos apropriados, mas os livros ainda reinarão para as obras dignas de papel e tinta. Obras dignas de materiazar a criação.

Semana passada, cassaram leões de um anúncio de mídia impressa, sim impressa! O anúncio da Kia foi duplamente réu.

Menos importa o coro escandalizado dos puritanos. Já não interessa tal inveja. Culpa velha.

Mais interessante é o choro dos modernos. Nada mais vale e muito menos essa mídia morta que nos sepulta. Agora só é digno de nota, de esforço, de prêmio, o que flutua na rede, o que se integra em múltiplas plataformas, o que desdobra-se, multiplica-se, em incontáveis canais, insondáveis engajamentos, inefáveis resultados. Um anúncio, criado para papel e tinta, em linguagem de HQ, veiculado numa revista que se vende em bancas? Bobageira e cafonice. Moderno sou eu!

Não tem digital integrated, então não presta?

Já tarda o tempo de inverter a lógica: não tem mídia morta, não merece nem um anúnciozinho, um filmezinho na televisão? Talvez a idéia não seja nem tão boa, tão digna, tão nobre, tão merecedora de posar, em papel e tinta, no  anuário de criação.

A lenga-lenga da Internet

19/07/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 6 Comentários »

Desde que a Internet virou uma coqueluche que saiu do guetto de meia dúzia de pioneiros, a pressão tem sido grande por uma mudança radical nas qualificações de profissionais de agências de comunicação.

Vamos desobstruir o vazadouro para aliviar.

Especialista não existe. Todos, inclusive os desejados “digital natives”, sentem-se como surfista em dia de ressaca: muito desejo e apreensão nutridos diante da imprevisibilidade do ambiente digital. Os pretensos experts encastelam atrás de supostas técnicas de mensuração. A mística é sedutora mas vale-se mais da fé do que da matemática. Ou quando muito e como sempre foi, prevêm o futuro baseados no passado, portanto chutam, com muita técnica, mas chutam. Especialista é quem admite a incerteza.

Por outro lado, é cômico perceber que quanto mais envolvidos são os profissionais com o suposto novo mundo, mais histéricos detratores se tornam do velho. É como se só pudessem construir sobre as cinzas. O contrário também existe, mas está tão – mas tão fora de moda – que nenhum cético ousa posar de bacana. Mas é irônico perceber que o velho tende a comprar o novo com mais competência. E aqueles que muito esbravejam acabam mordendo a língua, lustrando a imaturidade (já caducando, aliás).

Finalmente, “saber fazer” não significa “saber pensar”, assim como “saber pensar” não significa “saber fazer”. Saber projetar e implementar uma plataforma complexa de mídias sociais não significa necessariamente que a ideia seja boa. Assim como ter uma boa ideia não garante sucesso sem viabilidade de execução. Engana-se aquele que justifica uma ideia na execução assim como aquele que sacrifica a ideia para que seja exequível.  Mais parecem defesas recíprocas pois ideia e execução são irmãs xipófagas.

E se ao invés da pressão, a Internet servisse como banho de humildade para ambos os lados da quimérica separação entre on-line e off-line?

Vaidade e poder

18/07/2011 em Propaganda, Sei lá | 1 Comentário »

A matéria prima de uma agência de comunicação é o talento criativo e por isso, seu centro nervoso é a capacidade de atração de talentos humanos.

O sucesso é portanto diretamente proporcional a esse magnetismo encarnado, alimentado pelos investimentos aparentemente irracionais nas vistosas premiações ou em campanhas de auto-promoção. Magnetismo, premiação e auto-promoção soam como vaidades mas são armas, conscientes ou inconscientes, de retenção e atração de talentos.

A relação entre mestre e discípulo muito mais do que patrão e empregado estabelece o núcleo propulsor da reputação criativa de uma agência. Só dinheiro compra mas não fideliza e é uma espécie de equação que conjuga admiração e inveja, respeito e submissão que cimenta a relação.

Talentos são vaidosos por defesa e reflexo de sobrevivência. Mas a vaidade tem poder corrosivo de personalidades e contatos humanos, portanto, agências de comunicação estariam vaticinadas por uma auto-imunidade destrutiva?

Sim, quando a vaidade se eterniza mais por poder e menos por talento. Não, quando a vaidade se transmuta em reconhecimento e transferência.

Vaidade poderosa é tirania. Vaidade humilde é sabedoria.

#FilmeManefasto

15/07/2011 em Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Toda história tem começo, meio e fim.

Mas a propaganda está com soluço de histórias com fim, fim e fim. Em 5 segundos você entende a ideia e tem que assistir os restantes intermináveis 25 que são a mesma marmelada.

Primeiro vieram os filmes manifestos que são aquele agrado que fazemos para o cliente entender a ideia. Cumpre uma função ilustrativa.

Um dia alguém resolveu colocar isso no ar. Os clientes acharam que era uma boa maneira de iniciar uma nova campanha ou posicionamento. Mas agora, a moda são roteiros inteiros gaguejando a mesma meia-ideia (que invariavelmente se terminam com um pack-shot chato como todos).

E ainda reclamamos da camisa de força dos 30 segundos. Segundos demais!

Ainda bem que no Youtube, onde se vê propaganda de televisão hoje, podemos acelerar a martelada.

Boa propaganda mata mais do que inspira

14/07/2011 em Propaganda | Tags: , | 15 Comentários »

Excesso de escolhas mata a escolha. Como aqueles cardápios infinitos que dão preguiça de ler, como aqueles templates que escolhemos afoitamente quando testamos um aplicativo, como entrar na Bloomingdales. Dá pânico. Dá pânico ler guia de cidade turística, o Louvre dá pânico, o controle remoto também e o manual da nova câmera.

Desespera saber que o Bach Werke Verzeichnis (o catálogo de músicas de Bach) tem 1126 obras e que todas universos de infinita imaginação. Dá tremedeira buscar referências. Dá dor no peito e de barriga olhar um short list ou qualquer best of. Dá suor frio browsear as melhores campanhas do mundo. Dá medo. Trava mais do que inspira.

Nossa disciplina, muitas vezes irrelevante para o consumidor, de jamais criar algo que de longe lembre outra coisa, o pavor do olhar crítico de nossos semelhantes, extirpam muita alegria do trabalho.

Para o planejador, referências são como cintos de castidade: exasperam e criam desvios perigosos. O que já foi dito e pensado leva-nos para o que sobra. E talvez não seja a tôa: sobrou porque é ruim.

Para culminar a opressão, ainda lidamos com um caminhão de ferramentas e metodologias. Para os micos amestrados, são um save my ass. Mas para os inspirados, atrapalham e frustram.

Antes de sair enchendo os braços com cabides e mais cabides, antes de metralhar seu repertório com pesquisas e mais pesquisas, que tal pensar no briefing com a cabeça vazia, sem parti pris, sem medos nem referências? Que tal uma dieta de internet, de festival, de conferências? Jejum de todas as metodologias. A propaganda está te deixando chato e medíocre. Pare de ver propaganda imediatamente.

Quanto mais técnica, mais ignorância

11/07/2011 em Propaganda, Sei lá | Tags: , | 2 Comentários »

Passamos anos e anos apurando a nossa técnica de pensar, de falar, de agir. Reconhecemos nossos pares e com essa aliança, rimos dos confusos e ignorantes.

Toda técnica disfarça, por detrás da assertividade, falta de imaginação e insegurança. Toda técnica, por mais eficiente que seja, é um escudo de poder e opressão.

O mecânico, o cara de TI, o despachante, mas também o engenheiro, o arquiteto, o músico, o rei das normas empresariais, o tradutor das siglas, das linguas bizarras que são tantas formas místicas de proteger territórios, tem para todo lado.

Pode reparar: quando a palavra que você não entende é entoada com rapidez, sotaque esdruxulo ou vem acompanhada de biquinho, você pode estar diante de um ataque de tecniquite.

Analise seu interlocutor. Das duas uma, ou ele é uma máquina programada para regurgitar formulas prontas e ele é estúpido, ou ele é perigoso e está querendo te pegar.

A imensa maioria dos técnicos é do primeiro tipo. Nesses casos, a tecniquite é só mediocridade intelectual. Não vale a pena perder tempo. Se você tiver que conviver com eles, mais fácil aprender a meia duzia de bobagem que vomitam. Você vai perceber que quanto mais incompreensível lhe parecer o discurso, mais raso ele é.

Mas tem os outros, os inventores, os generais. Esses criaram os termos, as metodologias, as línguas, siglas e códigos para submeter um bando de imbecil que está a sua disposição para tentar te aliciar. Se você deparar-se com um desses ogros, melhor fazer-se passar por um dos seus soldados.

Mas tem um outro jeito, mais gozado. Seja sincero e diga que não entendeu. Peça para explicar. Faça pose de loira burra. Se o cara for medíocre, ele vai tentar te explicar e você vai se divertir. Se ele for o general artífice de poder, ele vai te mandar a merda e você se livra dele para sempre.