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O mea-culpa da mídia de massa

18/06/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

“O jovem está menos na TV por causa da Internet”, “O hábito de consumo de mídia mudou por causa da Internet”, “A TV e o jornal morreram por causa da Internet”, Blá-blá-blá-blá-blá.

Profetiza-se muito sobre o futuro das mídias e, apesar disso secretar uma interrogação perturbadora, uma
espécie de dor de cotovelo ou um entusiasmo reacionário, ninguém ousa mais revelar suas angústias.

“A plataforma não interessa mais”, “As plataformas são complementares”, “A TV tem que convergir pra Internet”, “A Internet tem que convergir pras outras mídias”, Blá-blá-blá-blá-blá.

A conclusão de dez entre dez raciocínios bem-pensantes do “novo papel das mídias” passa inconscientemente por uma espécie de fatalismo: “Vamos nos adaptar, a Internet é uma realidade”. Conclusão essa que resulta num mash-up trágico: conteúdo televisivo na Internet, internauta na televisão, e por aí vai para citar só alguns.

E agora, a questão não é mais apenas entender o funcionamento de cada mídia, o papel do conteúdo em cada plataforma, o formato, a gramática e a linguagem de cada meio.

Talvez seja mais construtivo entender a Internet como consequência e não causa. Não é “por causa da Internet que a TV deve ser isso ou aquilo”, mas porque a TV é isso ou aquilo, que a Internet é o que é.

Em outras palavras, energia de mais é investida em adaptar as mídias antigas ao ambiente digital e energia de pouco em pensar como as mídias antigas deveriam se adaptar às novas demandas das pessoas. Não é por causa da Internet, é por causa das pessoas.

Antes de assumir a derrota, deveríamos assumir os erros. Antes de pensar na Internet, deveríamos pensar nas nossas mídias “antigas”. E pensar nas mídias antigas não deve significar necessariamente “internetizá-las”.

Não é só porque as pessoas querem participar, não é porque as pessoas não aceitam mais a estrutura hierárquica da difusão de informação e entretenimento, que as mídias antigas estão ameaçadas. É porque elas erram em outras lógicas próprias, de formato e linguagem, que elas despertaram nas pessoas essas vontades.

Essa inversão de raciocínio é muito mais excitante e desafiadora: como é que voltamos a ter importância, como é que voltamos a cativar o jovem, como é que voltamos a ser hábito, sem mexer uma única linha na lógica das mídias de massa, por definição de poucos para muitos e com uma postura passiva das audiências?

Só pensamos naquilo

24/04/2009 em Internet | Tags: , , , | Deixe um comentário »

Todos vocês já devem ter notado como estamos ficando mais rápidos, mais informados, mais inteligentes e preparados. São os bônus dos tempos pós-pós-modernos.

Não é um problema de estresse pelo excesso de conteúdo informativo. Acreditamos na quase infinita capacidade de expandir a nossa percepção.

Não precisamos de curadores. Desejamos amplificadores de informação.

Não queremos um guru. Queremos milhões de sacerdotes da palavra.

Não gostamos de economia nem de essência. Gostamos de fartura e de multiplicidade.

Somos desplanejados e imediatistas, graças a Deus.

Mas também estamos ficando com mais olheiras, piores motoristas e muito mal-educados.

“O que vou escrever no meu twitter, facebook, blog etc”. Dormimos cada dia mais tarde porque temos que ler tudo que queremos ler, escrever em todas as comunidades que precisamos alimentar. Haja creme anti-age, compressa de chá de camomila, botox ou óculos escuros.

O trânsito está um caos. Sorte das redes sociais, dos blogs, dos aplicativos de celular. E só tende a piorar, porque é um olho no carro da frente, outro no celular. Uma mão no volante e a outra no teclado. Um neurônio na rua e três bilhões nas infovias. O trânsito não é um problema, é uma solução.

E como é bom descobrir todos os dias os milagres da vida: “Como é que eu vivi tantos anos sem isso e isso e aquilo!” Não dá mais para almoçar com os amigos sem verificar o nível de decibéis da sala, se a mesa está no prumo, qual é a temperatura (presumida e falsa) em Moscou. É falta de educação, mas estão todos na mesma, às vezes postando no twitter o que iremos ver segundos depois entre uma garfada de frango e uma goiabada (tudo no mesmo prato, claro).

No fundo, são poucos os prejuízos, não é mesmo? Porque, para os possíveis danos cerebrais, basta dar um reboot, de vez em quando, e bem rápido. Crtl-Alt-Del em algum lugar bem primitivo, ridiculamente ultrapassado, tipo um spa, uma viagem de avião sem internet ou uma noite, dormida.

E pronto, estamos novos de novo pra só pensar naquilo.

Ressuscitem São Tomé

14/04/2009 em Internet | Tags: , | Deixe um comentário »

No último relatório da Organização Sul-Africana para o Desenvolvimento da Pesquisa Científica (SACR), pesquisadores da ou University of Cape Town anunciaram o isolamento de um vírus de computador de incontrolável efeito. Nada de muito novo, não fosse esse um vírus de verdade, como os que nós humanos pegamos a torto e a direito. Um vírus orgânico.  Para Jackson Jukjevick, autor da descoberta, “a agressividade desse vírus é tal, que ele atua não somente nos softwares e sistemas operacionais, mas nos circuitos internos dos computadores”.

Uma lei acaba de ser aprovada pelo Senado francês: pessoas que se apropriam de conteúdos regidos pelas leis universais dos direitos autorais copiando-os em seus ambientes digitais são passíveis de prisão inafiançável. Embora a lei não pareça surpreendente, um dispositivo especial também foi aprovado, segundo o qual não são necessárias provas formais da cópia, bastando apresentar uma impressão de tela do conteúdo copiado para caracterizar crime.

Um hacker inglês entrou mês passado nos servidores da Wikipédia em sua versão romena e, fazendo uso de um robô, alterou todas as definições ali encontradas, negando todas as afirmações. Todas. Por exemplo: onde se lia “a Mona Lisa foi pintada por Leonardo da Vinci”, lê-se agora “A Mona Lisa não foi pintada por Leonardo da Vinci”. O engraçadinho ainda teve requintes de substituir autorias como, por exemplo, no caso da lei geral da gravidade, o hacker atribui a formulação ao obscuro cientista romeno Vladislav Marinono.

É tudo verdade? Não. Essas afirmações foram integralmente criadas para o propósito desse artigo. Mas digamos que essas pequenas mentiras tenham sido publicadas blogosfera afora e que elas tenham tido alto poder de contaminação. Em tempos de informação fragmentada, em tempos de desvirtuação das autorias, em tempos de bagunça virtual, a veracidade é diretamente proporcional à capacidade de reprodução. Toda mentira tem seu momento de glória na Web.

Ainda vivemos em um momento de incipiente anarquia. Mas ela promete piorar muito. Ainda convivemos com o conforto proporcionado por velhas (decrépitas) instituições. Enciclopedistas ainda existem. Dicionaristas idem. E livros e publicações e outras mídias centenárias. Mas não por muito tempo. A menos que…

A mídia (velha) morre a cada dia um pouco, quando tenta competir com criação e produção de informação. Como competir com milhões, bilhões de autores ensandecidos? Como competir com a gratuidade dos conteúdos postados por qualquer mané? Como competir com bilhões de correspondentes que testemunharam o fato in loco? A menos que…

A menos que a velha mídia ressuscite e cumpra um novo papel. E seu papel talvez tenda a ser uma espécie de “autenticador de veracidade”. Em vez de criar, validar e dar provas.

E, em tempos de informação push, recebemos o que nos interessa a qualquer momento, em todas as plataformas. A velha mídia ganhará um renovado valor quando ela for capaz de vender a comprovação.

Vem aí, em breve, o reconhecimento de autenticidade on-line que filtra o joio do trigo, o gato da lebre, a verdade da mentira. Uma espécie de São Tomé virtual.

O emergir do consumidor

20/03/2009 em Internet, Propaganda | Tags: , , | Deixe um comentário »

É fato, no progresso econômico e, portanto, no conforto do sistema, a emergência de uma população ontem apartada. Muito se relaciona o ingresso de milhões de pessoas no mercado consumidor à rebarba da bonança econômica no qual o Brasil surfou e a certas políticas públicas – de assistencialismo para alguns, de justiça social para outros. O fato é que tais pessoas estão aí, e esse novo mercado interno pode significar um lampejo de esperança para um mundo atolado em recessão e desespero. Um novo mercado significa um novo Brasil para os milhões de sobreviventes de séculos de abandono.

Mário mora na periferia do Rio. Ele tem pouco mais de 20 anos e ganha trezentos e poucos reais com um emprego no supermercado. Mas uma coisa faz do garoto um cara diferente de seus pais, imigrantes nordestinos. Mário faz um bico vendendo DVDs piratas que ele mesmo confecciona. Dá pra tirar uns quinhentos por mês, dependendo da temporada de lançamentos. Mário também não dispensa o celular, o computador, o pen-drive pendurado no pescoço e está negociando um home theater para sua mãe (negociando, porque vai um pouco de dinheiro guardado, uma moto encostada e um pequeno empréstimo pessoal que ele conseguiu aprovar numa financeira). Mário faz sucesso e não deixa barato: capricha no visual, nas roupas da moda, perfume e produtos de beleza. Sabe tudo o que pega e o que rola.

Essa é a diferença: o desejo de consumo.

Então seria a tal da nova economia uma das novidades desse novo Brasil? Sempre houve informalidade no Brasil. Todo mundo sempre fez bico. A cauda longa é velha nossa conhecida. Só não tinha nome bonito nem frequentava dez entre cada dez congressos para bonitos executivos.

Mas vamos conversar com o Mário. O Mário tem internet faz tempo e também faz tempo que a Internet para Mário não é só uma grana a mais. Mário vai nos blogs, frequenta comunidades, se liga nas novidades. Sabe mais de tendências do que a maioria dos bacanas que aplaudem a cauda longa.

Informação universalizada, democraticamente distribuída não quer dizer apenas mais instrução e mais consciência. Não quer dizer apenas mais oportunidades econômicas. Também quer dizer mais desejo.

E o desejo é o reforço positivo indispensável para emergir da sobrevivência.

A Internet é um convento cheio de putas

12/03/2009 em Internet | Tags: | Deixe um comentário »

No início, ninguém dava muita bola para o que saia na Internet, para o que se falava nos seus inescrutáveis meandros. Era uma molecada que brincava de ser jornalista, publicitário, comediante, cineasta.

A confusão está apenas começando.

A Internet é um megafone

Toda confusão começa com uma boa intenção. A boa intenção de falar a verdade, de ser franco, de ser uma bandeira de oprimidos, incompreendidos. Mas toda causa tem um efeito. Falar o que se quer e bem se entende sempre dá confusão. E falar num megafone como a Internet, mais ainda. E o que era apenas um suspiro de frente para o espelho vira um manifesto público multiplicado ao infinito e sem controle. A vida é assim – e não só na Internet: quem te apoia avisa. Quem não te apoia se vinga sem avisar.

Pra abrir o bico, tem que ter peito

Portanto, não adianta muito bancar o jovem imaculado descobrindo o mundo cruel, o artista inspirado no seu mundo cercado de virtualidades. O mundo não é um aquário cheio de peixes Nemo. Todo mundo tem ideias e, pior, interesses próprios. A inveja é a nossa gasolina. A Internet não é diferente de nada. Ainda que ela possa parecer livre de leis – e em larga medida é – não é livre de gentes, de pessoas. E pessoas podem ser muito mais repressoras do que a mais repressora das leis.

Quinze reais de fama

A imensa possibilidade de liberdade de expressão que a Internet proporciona está na raiz utópica do sucesso dos blogs e que tais. E, por detrás dessa sede de oratória e autoria, tem a vontade de ser visto. E, por detrás da vontade de ser visto, tem a fama e uns trocos.

Mas a confusão começa quando pingam os primeiros dinheiros. Ganhar dinheiro não é tão fácil quanto parece. Não basta dizer coisas inteligentes ou fazer macacadas. Se tem dinheiro envolvido, tem regras e leis e – queiramos ou não – elas devem ser seguidas. Podem espernear, fazer campanhas, mas pintou dinheiro, pintou confusão. Esse povo tão “liberal”, tão “paz e amor” vai se chatear.

Dinheiro e espontaneidade não ornam

E a maior confusão se arma então, quando tudo fica de pernas para o ar.

Os produtores de conteúdo, os da grande mídia, acham que essa “garotada da Internet” pode dar uma renovada. Aí a molecada vai para a grande mídia com aquela farta experiência dos seus blogs e views no YouTube. Se os brothers curtem, a Dona Maria vai curtir.

As agências de propaganda, sedentas de novidades, transferem a presumida liberdade de expressão da Web para a TV. Ao invés de comprar mídia, dá-se uma ajuda de custo àqueles que irão disseminar a mensagem. Uma espécie de suborno à legitimidade.

E as marcas, elas também, começam a achar que o que liga não é fazer propaganda, mas uma espécie de brand content ou qualquer outro anglicismo bacaninha. Tipo Merchandising 2.0

Os heróis dos blogs, porém, começam a ganhar dinheiro das marcas através de suas agências de propaganda. E o dinheiro estraga tudo.

Estraga o conteúdo, que por sua vez estraga a criação publicitária, que estraga a marca. E qualquer estrago é caro, mesmo que tenha custado três tostões.

As redes sociais e a democracia

03/11/2008 em Internet | Tags: , , | Deixe um comentário »

Redes Sociais: duas entre cada dez palavras pronunciadas por qualquer bem pensante hoje em dia, em papos de “Abalar Bangu”. Mais um daqueles inúmeros fenômenos que surgem para acrescentar alguns charts às palestras dos gurus Best Sellers. Mais um tema para excitar os especuladores, os caçadores de talentos e os vendilhões de empresas.

Tudo nas novas plataformas de informação são reedições corrigidas e ampliadas. Os luditas e blasés adoram dizer isso. Portanto, para eles, redes sociais são espécies de “Rotary(s) Clubes” digitais.

Esse tipo de desmistificação é sempre um divertido argumento para brochar os excessivamente excitados mas é quase sempre um álibi intelectual para uma inépcia de entendimento das mudanças de comportamento que estão por detrás dessas “velhas novidades”.

Mas o que me interessa mais nos clubinhos virtuais é uma espécie de panacéia democrática que por ali grassa. Sem querer intelectualizar demais o papo, já é lugar comum dizer que a molecada tem um interesse muito passageiro, para não dizer inexistente, por política. A não ser em momentos de euforia ideológica, como a atualmente em curso no ringue das eleições norte-americanas, ela tem um desprezo absoluto por qualquer lógica majoritária.

É que de fato, essa coisa de submeter-se a qualquer decisão da “maioria”, é frustrante em tempos de liberdade de expressão absoluta e universal, de cauda longa, de morte do direito autoral e etc.

Em nossa democracia, é muito baixa a possibilidade de decidir e intervir. A única delas é o voto, pouco para um exército acostumado a clicar, a escolher tudo a toda hora.

É essa falência do “majoritário” que motiva e apaixona as redes sociais em todas as suas manifestações.

No limite, é como se estivéssemos encubando uma nova ordem mundial em que os humanos se agrupassem em torno de idéias compartilhadas, interesses ou polemicas comuns, gostos e simpatias antes de geografias, línguas e qualquer outro tipo de aglutinação física.

No limite, as redes sociais configuram os novos “Estados” que trocam o majoritário pela unanimidade. E não há “exclusividade” nem “limite” de “nacionalidades”. Pode-se pertencer ao quantos “países” quisermos, com múltiplas “identidades” até e “desertá-los” quando eles não mais interessarem ou outros mais atraentes surgirem.

Antes de tratar-se de uma utopia, a experiência da nova ordem e sua possibilidade virtual, vai corroendo todos os organismos e reinventando as relações sociais irremediavelmente.

A nossa crise, a internet e a propaganda

17/10/2008 em Internet, Propaganda | Tags: , | Deixe um comentário »

Está virando mania falar da crise. E manias são fenômenos retroalimentados: quanto mais a gente coça, mais coça. Quanto mais a gente come crise, mais ela nos come. Mas é irresistível e útil. Raramente uma crise foi tão fácil de explicar. As justificativas são irritantemente as mesmas e simples: excesso de liberalismo, crença na cura espontânea dos excessos, falta de transparência. E todo mundo tem culpa no cartório. Pois falemos um pouco da nossa crise: na propaganda.

A Internet é a plataforma do liberalismo absoluto, beirando a libertinagem. É algo geneticamente constituído para contornar e oferecer soluções rápidas e simples para subverter as estruturas de poder. E, ainda que organismos arcaicos (certos governos, instituições e empresas) tentem desesperadamente construir ferramentas de controle, elas são sempre humilhadas pela criatividade ou sucumbem às virtudes incontornáveis que a Internet tem também.

Mas a Internet não é nem boba, nem nada. Ela crê piamente na cura espontânea. Isso significa que a liberdade absoluta de expressão e ação, no limite, separa o joio do trigo, descarta o que não presta pelo sufrágio popular e conserva o que a unanimidade elege. Sua doutrina, “Se o povo quer, Deus quer”, é inequívoca. O laxismo corrige o achismo.

Poderíamos pensar, no entanto, que, por detrás das intricadas teias da Web, potencializadas por nossa infinita sede de aparecer e apoderar-se, somos todos os agentes trapaceiros e malandros que habitam esse templo obscuro. Mas a Internet vai na contramão desse vício sedutor. Ao contrário, ela é a mais transparente das nossas criações. O anonimato sucumbe e denúncias ganham proporções de avalanche num piscar de olhos.

A propaganda é, e sempre foi, uma espécie de ponte que conecta os dois lados do nosso sistema. De um lado, empresas que fazem coisas; de outro, pessoas que precisam dessas mesmas coisas. Para diferenciar umas coisas e outras e todas elas, criamos marcas que são uma espécie de representação das próprias. Essas marcas são os atores da propaganda.

Se as marcas simbolizam os produtos, elas também tentam sensibilizar as pessoas, valendo-se da exploração de suas aspirações, sonhos, esperanças, complexos, frustrações. É aí que a marca seduz e estimula a mágica química do sistema: faz-nos escolher e comprar. Essa é a alma do negócio que ela é.

Mas na ponte que conecta consumidores e empresas, existe um pedágio, pago pelos primeiros aos segundos, e esse pedágio se chama “marca”.

Essa taxação será tão mais importante e significativa quanto melhor for precisamente a propaganda que a veicular. Para ser melhor, a propaganda se utiliza de muitos recursos e, embora o debate aqui seja extenso, convenciona-se, quase unanimemente, que a boa propaganda é aquela capaz de suscitar-lhe emoções genuínas. Propaganda boa é aquela que diverte ao invés de aborrecer, que questiona ao invés de amortecer. Propaganda boa é aquela que diz a que veio, com clareza.

Quando a propaganda é boa, portanto, é como se o consumidor estivesse pagando um extra pela capacidade que ela teve de emocioná-lo.

A propaganda torna-se assim um “plus à gagner” (mais a ganhar) do produto e do consumidor.

Se a boa propaganda é um “plus à gagner” de mão dupla, no entanto, quando a propaganda é ruim, é como se o consumidor estivesse sendo potencial e inconscientemente extorquido.

O que seria uma propaganda ruim, portanto, nessa análise? Propaganda ruim é aquela que espertamente mascara o “plus”.

As formas mais clássicas são o entorpecimento e a insistência. Outras são requentar fórmulas. Ou ainda apelar para reputações alheias para referendar escolhas. Propaganda ruim pode ser simplesmente também aquela que apela para recursos pretensamente técnicos e demonstrativos para enaltecer vantagens racionais (precisamente função de outros recursos de comunicação como a própria internet).

A propaganda ruim cobra o pedágio mas não garante a viagem.

A Internet, como vimos, é a mais poderosa das armas para escancarar opiniões, potencializá-las. Está também se tornando a ferramenta por excelência de escolha por produtos. A internet é a plataforma decisória da pré-compra. E é lá também que o extorquido inconsciente abre os olhos ou pode abri-los.

É como se o pedágio fosse se tornando mais claro, mais transparente.

Esta crise é nossa. A crise da propaganda ruim, safada, opaca.

Internet: droga e ilusão

04/09/2008 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Desde que surgiram – ou se popularizaram – as novas tecnologias da informação e comunicação, e em particular a Internet, foram alvo de superexcitados debates.

Balbuciou-se, no início, sobre os efeitos nocivos que tão espetacular mudança poderia ter sobre éticas e costumes. A Internet estrelava um sem-número de “faits-divers”, atravancando retrancas policiais.

Arrastados por seu irresistível poder de sedução e uma incontornável necessidade, os editoriais afastaram-se da crítica factualmente supérflua e concentram-se hoje na revolução que se avoluma nos calcanhares dos sistemas tradicionais de produção e difusão de informação. Fala-se de adaptação, convergência, substituição, adjetivando os discursos com expressivas quantificações. Fala-se, com frenesi, da democratização do acesso à informação e ao conhecimento. Gargareja-se, com paradoxal inveja, da transformação do receptor em emissor e vice-versa. Do novo poder na mão de milhões de implacáveis editorialistas, capazes de destruir ou enaltecer reputações num piscar de cliques.

Pega mal, muito mal, falar mal da popularização da informação e do conhecimento agora disponíveis para quem quiser, num browsear de olhos. Pega mal, falar mal de “open source, “colaboração” ou “co-criação”, que está na genética da própria Internet e que agora aflora para a superfície.

Criticar a Wikipédia ou o Google (como sistema, e não marca) é um crime.

Negar o valor do jornalismo colaborativo, da informação e opinião difundidas aos borbotões em bilhões de sites, blogs, redes sociais e que tais é um genocídio.

No entanto, é hora de liberar-se do fetichismo tecnológico. É tempo de encarar alguns efeitos dos novos paradigmas, com olhar crítico ou ao menos compreensivo.

O quanto estamos substituindo a necessidade de aprender por uma simples possibilidade? Houve um tempo em que a condição para uma existência confortável era conhecer coisas “a priori”. Era como se o que se aprendia estivesse em compasso de espera para um aproveitamento futuro. Quando a necessidade surgisse, estaríamos prontos. Por isso, a gente passava um tempo danado pesquisando, decorando, aprendendo.

Agora, é mais fácil porque tudo está aí, muito barato e principalmente mastigado. É só entrar na Internet. Mas, se somos humanos, de tanto esperar, a gente acaba esquecendo que está esperando e que preguiça que dá! E, se somos humanos, dormir é muito mais gostoso do que processar e pensar.

Será também que não estamos dispensando a crítica pela intuição? A opinião embasada pelos discursos ejaculados precocemente? O quanto estamos preferindo a espontaneidade às idéias embasadas? Antes a gente era mais desconfiado, ficava cabreiro e ia atrás das fontes. Hoje, já que sabemos que somos agentes poderosíssimos de mudanças, sozinhos, “só eu com minha Internet”, por que quebrar a cabeça atrás de fatos e fontes? Mais do que nunca, agora, se dá melhor quem melhor e mais rápido se expressa, e não quem melhor pesquisa e pensa.

No limite, o acesso livre à informação pode ser um soporífero intelectual. No limite, a Internet pode ser a negação das verdades.

Decifra-me ou te devoro

02/09/2008 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Alguém tem dúvida de que o mundo está mudando numa velocidade inédita? Que estamos procriando demais? Que os recursos estão escasseando? Que jogamos fora quase tudo que consumimos e que não tem tanto lugar para tanta merda? E pior, que um reflexo condicionado nos faz acelerar ainda mais, procriar mais, destruir mais, consumir mais, cagar mais?

E esse reflexo tornou-se a base da pirâmide de necessidades do ser humano no século XXI. É ele que nos tira da cama todos os dias, nos faz olhar o mundo com retinas calcificadas, nos faz rir e chorar, esperar e sofrer.

Uma velha senhora me disse certa vez, quando me via aflito e estressado: “Seu problema é um problema que é?” Eu obviamente não entendi nada, porque esse vício que nos habita e nutre também faz isso com a gente: embrutece. Então, ela acrescentou: “Existem problemas que são problemas e há os que nós criamos. A gente tem que separar um do outro para só lutar pelos primeiros.”

E parece, parece, que nós criamos mais problemas do que encontramos. Nós. Porque mais ou menos quatro quintos dos outros seres humanos sobrevivem lutando contra aqueles que encontram.

Nós criamos muitos problemas e quase tudo que fazemos, além disso, é criar soluções para os problemas que criamos.

Inventamos os meios de comunicação, por exemplo, e não foi só para resolver nossa atávica solidão (um real problema), mas para reverberar nosso próprio discurso. Diante da aparente necessidade de falar para os outros, o que queremos é uma espécie de masturbação intelectual ou emocional. E como gostamos disso.

Inventamos a Internet, por exemplo. Não foi só para democratizar e fomentar o conhecimento (uma real necessidade), mas para gozarmos da nossa própria voz e ejacularmos nosso próprio poder.

Assim, passada a euforia e a propaganda excitada sobre as enormes mudanças de paradigmas, as colossais perspectivas e incomensuráveis esperanças que as plataformas digitais (incluindo a Internet) proporcionam, é hora de também considerar o que se esconde por detrás desse tesão.

Em larga medida, a gente está substituindo o aprendizado e o saber pela possibilidade do saber e do aprendizado. Antes eu precisava aprender para ser. Hoje, basta eu saber que eu posso saber quando eu precisar saber. Que é fácil, rápido, digerido e de graça. E esperando pelo gatilho da necessidade, a gente se distrai e afunda na preguiça.

Estamos também substituindo o olhar crítico, analisado, referenciado, pela opinião instintiva. Antes, para eu dizer e divulgar, eu precisava pesquisar. Hoje, basta eu escrever o que dá na veneta e sei que isso é uma bola-de-neve que se transforma em cataclismo, por força e obra de um incontrolável acaso.

Em tempos de enciclopédias livres, o conhecimento “a priori” é inútil. A memória é inútil. No limite, qualquer esforço intelectual é inútil.

Em tempos de jornalismo colaborativo, a opinião “com fonte” é acessória. A comprovação é inútil. No limite, a História é inútil.

É como se estivéssemos experimentando um novo mundo. Deliciosamente entorpecente e aleatório.

A internet é a mais tentadora das esfinges.

A propaganda e o sufrágio do povo

21/02/2008 em Sei lá | Tags: , , | Deixe um comentário »

Pergunta: O que é um trilobita?

(Segundos de espera.)

Resposta: “Trilobites are extinct arthropods that form the class Trilobita, blalablá”.

Para que serve saber, em tempos de acesso universal e democrático à internet? Para que serve armazenar o saber em tempos de Wikipedia?

Ainda que cautelosos ludistas desconfiem das definições democraticamente construídas, antes o saber bocejava na ponta dos pés das bibliotecas. Hoje, fustiga na ponta dos dedos, na ponta da língua.

É que a tese é simples: além de orgânicas, definições são o referendo do infinito coletivo. A mentira não resiste muito tempo ao sufrágio de milhões. A manipulação, tampouco.

A propaganda manipula. E manipulará cada vez menos.

As enciclopédias elaboradas por doutos especialistas falharam irremediavelmente nas suas missões de divulgação do conhecimento e atualização.

A propaganda, criada por sensíveis profissionais, pode falhar dramaticamente na sua missão de sedução e convencimento.

A propaganda de meias verdades ou mentiras superlativas, excessivamente explícita, dramaticamente primária, gritando, cantando e martelando incessantemente com palavras de ordem, crenças laboratoriais e repetição massificada, tem os dias contados.

Essa é a velha propaganda, uma propaganda que insiste em manipular, da forma mais básica, um consumidor cada vez mais arredio, disperso, crítico e com capacidade própria de exponenciar sua opinião.

Se ontem a gente tinha que crer a priori por falta de possibilidade de expressão, hoje a gente desconfia a priori, porque a gente tem o poder de denunciar publicamente e sem intermediários. E isso derruba reputações, como uma bola de neve pequeninha no cume da montanha aniquila uma aldeia no vale.

O prazo de validade da propaganda é proporcional à velocidade de popularização das opiniões. Ou seja, muito curto. Se a mensagem agradar, sua eficiência é retumbante. Se desagradar, seu fracasso é desastroso.

Mas a propaganda tem mais animadores rumos, apesar dos tropeços, das inseguranças e da caretice.

Propaganda deve ser conteúdo, entretenimento, manifestação cultural ou pura informação. Sempre que ela for percebida de uma forma ou de outra, ela será apreciada na medida de sua qualidade, sem o risco do opróbrio.

E sempre que ela raciocina pelo parâmetro do mais tapado, ignorante e passivo dos consumidores, vira piada e vexame.

Colaboration Tabajara

19/02/2008 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

Está tão na moda pedir a opinião ou colaboração dos consumidores em tudo que já não dá para saber se é uma questão de modismo, ou de falta dele. Se é uma questão de tendência ou de falta de novidade. Se é uma preocupação com a opinião dos consumidores ou simplesmente um álibi para justificar um achismo.

Qualquer que seja o motivo, os modismos, tendências, novidades, preocupações e opiniões serão profunda, exaustiva, cacetemente pesquisados. O que significa que tudo irá sair exatamente como alguns punhados de especialistas – a saber os infelizes que raciocinam sob a batuta de roteiros de pesquisas – aprovarem. O que significa também que a gente poderia perfeitamente dispensar os consumidores de suas idéias. Até porque eles não ganham nada com isso. Até porque a gente ganha.

Sempre se pediu a “opinião” ou “colaboração” dos consumidores, de forma indireta, é certo, mas que diferença faz? Que diferença faz pesquisar antes ou antes e depois? Ou antes, depois, depois do depois e depois do depois do depois? E pensando bem: o que tem de novo? Nada a não ser a tardia adesão a uma idéia de alguns revoltosos polêmicos (como esse que vos fala).

A idéia não era bem essa. A idéia não era – nem nunca foi – pedir uma força para o consumidor. Só dizia-se que agora o consumidor é mais ativo, é espectador e emissor, é consumidor e propagador, é público e mídia.

A idéia era dizer que a gente precisa ficar ligado, atento, de orelha em pé porque as pessoas não engolem mais caladas. Que as pessoas reagem rápido e de forma as vezes arrasadoras. Só queria dizer que a gente tem que saber responder, dialogar, revidar até.

A idéia era também que a gente tem que pedir colaboração onde a colaboração faz algum sentido. Onde existe espaço e ferramentas para tal. Me engana que eu não gosto.

A idéia era dizer que tem coisas que tem que ser decididas, corajosamente, top-down. E também que cada um tem que ficar no seu galho. Quem cria cria e quem consome consome. Mesmo que quem cria consome sempre e quem consome agora cria. Democracia tem limites.

No final, o que interessa não é quem criou mas o que se criou. Ou será que o fato de ter sido feito pelo consumidor vai desculpar a porcaria, o lugar comum, a vulgaridade?

Como a gente perde tempo com a opinião alheia!

Quanto mais pobre o país, maior a Internet

29/07/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

A imprensa gosta de alardear, com razão, os sucessos que a Internet tem no país: uma das maiores taxas de crescimento de usuários do mundo, maior tempo médio de conexão, maior comunidade do Orkut, um dos maiores acessos do YouTube, país mais premiado em propaganda interativa, o merecido prêmio que esse Overmundo recebeu recentemente, e por aí vai.

No entanto, os porquês são sempre fantasiosos, poéticos, pouco objetivos: o brasileiro adora novidade, ou o brasileiro é mais criativo – ou o mais gozado de todos –, o brasileiro é um povo surpreendente.

Mas tem uma outra possível explicação. Possível e mais interessante. E mais crível também.

Quem já foi a uma LAN house de periferia, quem já conversou com a sua empregada doméstica, com o filho da sua empregada doméstica, com o amigo mais pobre do filho da sua empregada doméstica talvez tenha um início de resposta.

Que tal pedir emprestado o pen-drive que a garotada carrega no bolso, na mochila ou no pescoço? Dos meninos dos Jardins ou do Jardim Ângela. Tem música, tem trabalho de escola, tem foto de tênis de marca, tem as fotos que ele tirou com o celular para ilustrar sua página pessoal e seus nicknames do MSN, tem até umas experiências de colagem fotográfica, uns vídeos caseiros, umas letras de hip hop.

E quantitativamente, a constatação salta aos olhos: a penetração da Internet nas classes mais pobres tem um crescimento exponencial. Todas as pesquisas dizem isso.

Uma vez, perguntei a um garoto da Cidade de Deus como ele gastava o dinheiro dele. A resposta foi óbvia: “Metade para minha mãe, um quarto para meu acesso à Iinternet em casa (banda larga, claro), mais um pouco para a recarga do meu celular (não dá pra ficar sem) e para minha academia. O restante é para me divertir.” Nada muito diferente de muito garoto bem-nascido, com exceção da ajuda familiar.

E se a gente começasse a perceber que a Internet é um sucesso porque o Brasil é pobre? Porque existem milhões de pessoas que vivem à margem das oportunidades de trabalho, estudo e inserção social. Porque existe uma imensa maioria da população que acha injusta a distribuição de renda do país. Porque toda essa gente quer crescer, quer ganhar dinheiro, quer se informar e se divertir. Porque todos os brasileiros querem se expressar, querem ser ouvidos.

Porque a Internet permite isso tudo e talvez seja a única ferramenta acessível, a única esperança. Bem-aventuradas sejam todas as iniciativas estatais (e privadas) contra a exclusão digital, de investimentos em escolas, de relativização dos direitos autorais, de software livre, de digitalização de trabalhos de domínio público.

Bem-aventurados todos aqueles que acreditarem que esta é a maior oportunidade que o país tem de escapar de um sistema perverso que concentra riqueza e distribui esmolas.

Por que a Internet tem a performance que tem no Brasil? Não seria porque o país é pobre?

25/07/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

A imprensa gosta de alardear, com razão, os sucessos que a Internet tem no país: uma das maiores taxas de crescimento de usuários do mundo, maior tempo médio de conexão, maior comunidade do Orkut, um dos maiores acessos do Youtube, país mais premiado em propaganda interativa, o merecido prêmio que esse Overmundo recebeu recentemente, e por aí vai.

No entanto, os porquês são sempre fantasiosos, poéticos, pouco objetivos: “O brasileiro adora novidade” ou “o brasileiro é mais criativo” ou o mais gozado de todos “o brasileiro é um povo surpreendente”.

Mas tem uma outra possível explicação. Possível e mais interessante. E mais crível também.

Quem já foi a uma lan-house de periferia, quem já conversou com a sua empregada doméstica, com o filho da sua empregada doméstica, com o amigo mais pobre do filho da sua empregada doméstica talvez tenha um início de resposta.

Que tal pedir emprestado o pen-drive que a garotada carrega no bolso, na mochila ou no pescoço? Dos meninos dos Jardins ou do Jardim Ângela. Tem música, tem trabalho de escola, tem foto de tênis de marca, tem as fotos que ele tirou com o celular para ilustrar sua página pessoal e seus nicknames do MSN, tem até umas experiências de colagem fotográfica, uns vídeos caseiros, umas letras de hip hop.

E quantitativamente, a constatação salta aos olhos: a penetração de internet nas classes mais pobres tem um crescimento exponencial. Todas as pesquisas dizem isso.

Uma vez, perguntei a um garoto da Cidade de Deus como ele gastava o dinheiro dele. A resposta foi óbvia: “metade para minha mãe, um quarto para meu acesso a internet em casa (banda larga, claro), mais um pouco para a recarga do meu celular (não dá pra ficar sem) e para minha academia. O restante é para me divertir.” Nada muito diferente de muito garoto bem nascido com exceção da ajuda familiar.

E se a gente começasse a perceber que a Internet é um sucesso porque o Brasil é pobre. Porque existem milhões de pessoas que vivem à margem das oportunidades de trabalho, estudo e inserção social. Porque existe uma imensa maioria da população que acha injusta a distribuição de renda do país. Porque toda essa gente quer crescer, quer ganhar dinheiro, quer se informar e se divertir. Porque todos os brasileiros querem se expressar, querem ser ouvidos.

Porque a Internet permite isso tudo e talvez seja a única ferramenta acessível, a única esperança. Bem-aventuradas sejam todas as iniciativas estatais (e privadas) contra a exclusão digital, de investimentos em escolas, de relativização dos direitos autorais, de software livre, de digitalização de trabalhos de domínio público.

Bem-aventurados todos aqueles que acreditarem que esta é a maior oportunidade que o país tem de escapar de um sistema perverso que concentra riqueza e distribui esmolas.

Porque propaganda na Internet é tão ruim?

08/05/2007 em Sei lá | Tags: , | Deixe um comentário »

A propaganda sempre vai ser propaganda, qualquer que seja o suporte, qualquer que seja a tecnologia, mídia, formato: uma mensagem comercial. E uma boa propaganda sempre vai ser uma boa propaganda, qualquer que seja o produto, a marca, ou o consumidor: uma mensagem comercial com impacto, brand linkage (tentei traduzir mas ficou horrível) e que agrada.

O que mudou, portanto, não é nem o propósito nem a forma de fazer nem a mídia.

O que mudou é que as pessoas estão de saco cheio de serem interrompidos com porcaria. É só isso que mudou.

As pessoas estão de saco cheio de serem obrigados a engolir mensagens idiotas, sejam elas comerciais ou não.

E óbvio, agora, a gente pode escolher. E isso muda tudo, porque a gente escolhe o que nos interessa e despreza o resto.

Nesse cenário, o que muda com a propaganda? Praticamente nada. Só que agora, ficou mais difícil. Muito mais. Simplesmente porque ninguém se deixa mais enganar pelos truques: martelar um jingle, contratar um ator famoso, demonstrar atributos, fazer piadas sem graça, nem mesmo fazer uma linda produção.

Mas o fato das pessoas não gostarem mais de serem interrompidos pelas mensagens comerciais, não significa que a propaganda morreu, só quer dizer que ela tem que ser o que sempre precisou ser mas nem sempre foi: boa.

Outro dia, fui julgar umas “propagandas” inscritas na Internet para um festival. Foi um show de horror, e saibam que faço isso desde tempos imemoriais.

Nunca me encheu tanto o saco ver aquele monte de sites inúteis, piscando pra todo lado.

Nunca fiquei tão irritado com tanto tempo perdido já que, contrariamente ao consumidor normal, eu estava ali para julgar portanto era obrigado a ver tudo.

Nunca fiquei tão nervoso com aquela profusão de vídeos idiotas, sem graça, intermináveis. Nunca fiquei tão desapontado com a qualidade tosca das produções.

Foi uma tortura, mas nada muito diferente de assistir ao Fantástico sendo interrompido pelo lixo publicitário.

Aliás, tem sim aquela diferença: o Fantástico me interrompe com a propaganda e se eu quiser ver o resto da programação sou praticamente obrigado a ser importunado. Já na Internet, to fora! E um dia, o Fantástico também vai deixar de interessar. Nesse dia, a propaganda ruim simplesmente vai morrer. Já vai tarde.

E não adianta nada fazer essas estratégias pseudo-misteriosas, pseudo-spam-virais. Nem encher meu saco com vídeos e interações idiotas. Nem achar que estou morrendo de vontade de interagir com o mundo real no second life.

Porque propaganda ruim, na mídia tradicional funciona. Na Internet não.

O Kem Kem de Hassi Lebied

22/02/2007 em Sei lá | Tags: | Deixe um comentário »

Kem Kem é o nome do Cyber café/Lan house de Hassi Lebied, uma aldeia aos pés da grande duna de Merzouga no Marrocos.

Hassi Lebied é microscópica. Não está em nenhum mapa. Para chegar lá, pegue a estrada que vai para o sul do Marrocos (só tem uma) e fique atento às placas… Se der sorte, você chega lá. E lá não é muita coisa: meia dúzia de ruas sem asfalto, mal iluminadas, casebres baixos, uma penca de dromedários mascando os dentes e sombras fugidias de mulheres veladas e berbères azuis. Com exceção de poucos turistas que se aventuram de 4X4 ou atraídos pelo exotismo de um “céu que nos protege”, Hassi Lebied é uma miragem na estrada que leva a Merzouga, importante centro turístico no deserto marroquino.

À noite em Hassi Lebied é desolada: a duna ausente, o frio paradoxal, o silêncio opressor e vez por outro o foco azul de um led a iluminar passos acelerados.

Só uma luz colhe os insones vespertinos. É o Café Kem Kem, o maior pólo de entretenimento e de negócios da região.

O Kem Kem é assim, uma espécie de bar de Guerra nas Estrelas em Tatouine (aliás, também desolada aldeia do Marrocos). Os murmúrios no Skype (analfabetos não teclam) e o batuque dos teclados mobiliam a atmosfera. Cutsa barato o Kem Kem: alguns Dirhams a hora ou seja, quase nada. Nada de azaração (país muçulmano oblige) mas muita concentração. Jogam, lêem, conversam, informam-se, assistem seriados e filmes da rica produção marroquina, batem papo com parentes presos na Argélia ou Somália vizinhas, amigos que emigraram, namoradas de um dia, espanholas, francesas, alemãs. Também vendem, compram, encomendam, fecham negócios no Kem Kem, exportam artesanato, contatam grupos de turistas. O dromedário está caro (cerca de dez mil Dirhams) porque quando chove o preço sobe, mas quem sabe em Ouarzazate, contrate-se um bom tropel. No Kem Kem a gente fica sabendo das coisas.

E no Kem Kem também, quando não se tem nada para fazer, porque não se tem nada para fazer sempre em Hassi Lebied, a gente vai lá, e fica vendo o povo, tomando um chá de hortelã, esperando o sono chegar.

O dono do Kem Kem não está rico. Nem pobre. Tem lá seu negócio e vai bem. Os computadores são novos, a conexão boa, e quanto mais pontos colocar, mais gente vai ter para passar o tempo, conversar, comunicar-se, fechar negócios.

O Kem Kem é junto com a mesquita o lugar referência de Hassi Lebied. A mesquita é pra falar com Deus, o Kem Kem é pra falar com os homens.

E existem Kem Kems assim em todo o lugar. Em Marrakesh a oferecida, em Fés a recatada, nas menores e mais longínquas aldeias, no Atlas inacessível, no deserto negro, ao longo da marcha verda na estrada colonizadora do Sahara ocidental. Porque Internet e telefone celular tem para todo canto no Marrocos. Questão de soberania. Questão de coesão nacional. De identidade.

E precisei atravessar meio mundo para entrar no Kem Kem de Hassi Lebied. Mas tem Kem Kem em baixo do meu nariz. Para todo lado, nos mais pobres rincões, das mais às menos organizadas periferias do Brasil.
E aqui o que seria? Questão de inserção social? De acesso ao inacessível? De produção cultural?

Quem tem o que falar, depoimentos (como vários aqui já feitos), mas principalmente pesquisas, estudos sobre o fenômeno das Lan-houses brasileiras? O que é que está acontecendo e como é que a gente tem que enxergar essa terceira ou quarta via da inclusão digital?