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Ridiculite, você ainda vai ter uma

05/04/2011 em Internet | Tags: , | 7 Comentários »

Trataremos hoje da principal inflamação social do mundo hipermoderno, mais conhecida como ridiculite.

Os sintomas da ridiculite podem ser resumidos em duas alterações de comportamento típicas e evidentes.

Ao primeiro, daremos o nome de “auto-shooting”. No seu estágio mais primitivo, o sintoma é a autoveneração fotográfica. No seu desenvolvimento irreversível, o “auto-shooting” passa a comandar todas as atitudes do doente, que tira foto de tudo e de todos, a todo instante. É o que os médicos chamam de cliquite.

Ao segundo, daremos o nome de “over-sharing”. No início da doença, o sintoma se desenvolve numa procura adolescente de afirmação e hiperidentificação. Já para os estágios mais avançados, o “over-sharing” é uma espécie de gagueira social compulsiva, ou aquilo que os psiquiatras chamam de dadite.

A ridiculite é uma inflamação subcutânea, de ação prolongada e degenerativa. Extremamente contagiosa, a doença já assumiu proporções de epidemia. A ridiculite é transmitida por um agente patogênico que se traveste de variadas aparências. Seu grau de adaptabilidade ao ambiente e à vítima torna seu combate direto  praticamente impossível. No entanto, como a dengue, a ridiculite deve ser combatida no criadouro, cujo epíteto genérico convencionou-se chamar de rede social.

Para filósofos de bigodinho e bermuda fashion, tendência e sintoma c’est la même chose. Portanto esqueça a patologia: auto-shooting e over-sharing é megatendência

Internet para conectar?

30/03/2011 em Internet | Tags: , , , | Deixe um comentário »

A Internet foi imaginada, criada e comeu tutano com base em princípios de nobre cunho: acesso democrático à expressão, à comunicação e ao conhecimento por um lado e simplificação, aceleração e abrangência de intercâmbios de toda natureza por outro.

Diante da explosão do uso das redes sociais – 90% da população de internautas afirma ser para lá que se dirigem preferencialmente – muitos gostariam de ver nesses ambientes o futuro concentrador de todas as atividades e interações da Internet do “futuro” (entre aspas). Seria nessas plataformas concentradoras que as pessoas se relacionariam, expressariam, transacionariam, se informariam etc., quase que exclusivamente. E, com muita sede, os agentes (Facebook, Google-Orkut etc.) se mobilizam para diversificar ou colonizar territórios que não lhes eram fundadores.

Mas se analisar com alguma sutileza o comportamento e as pulsões por trás do uso das redes sociais, em seus usuários, parece haver algo que contraria a própria gênese da Internet: sua autocentralidade. As redes valorizam, facilitam e enaltecem a individualidade muito antes da sociabilidade. Basta fazer um exame, sem hipocrisia, de sua própria convivência nas redes sociais: eu primeiro, os outros depois. Faz sentido, é humano, genuíno e não há nada de artificial nesse comportamento. O espelho sempre foi e será o iniciador do despertar para o mundo.

Qual é a contradição, portanto, se a contradição existe? A Internet foi criada antes para conectar. As redes sociais inserem-se como uma luva nesse princípio – e por isso florescem – mas desviam-se rapidamente para o culto da autoimagem, autoexpressão, autossexuação.

Por isso, parece haver um desarranjo quando se arvoram nas grandes redes a ambição de dominação e a concentração das atividades online. Imperceptível mas crescentemente, não parece ter lógica vislumbrar um futuro desses, contrariando todas as tendências numéricas.

Mais parece uma espécie de marketing monopolista do que uma realidade inescapável.

O que torna a Internet forte é que nenhum interesse parece ter prevalência sobre nenhum outro, e mesmo que algum tipo de monopólio se fundamente, em curto espaço de tempo a autogestão orgânica da rede trata de rebaixar sua influência. Ainda bem.

O triunfo da criatividade é a mídia de massa

25/03/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 1 Comentário »

Um grupo de cem arqueiros certeiros é menos mortífero  do que uma chuva de flechas.

Um exercício simples pode trazer muitos incômodos quando auscultamos as fan pages ou comunidades de algumas marcas nas redes sociais. Caem por terra muitos preconceitos e essa simples observação contradiz as mais acuradas das pesquisas. Quando inventarem uma ferramenta capaz de desenhar o retrato-falado médio de uma comunidade dessas vai ter muita gente vendo sua marca, outrora orientada para um determinado público, revisando sua estratégia radicalmente.

A propaganda, que coteja a ciência, e que a cada dia procura ser mais cirúrgica no alcance de seus alvos, muitas vezes renega ou subestima sua maior virtude: a capacidade que tem de seduzir para além da previsibilidade dos objetivos.

A propaganda só alcança seu máximo poder de fogo quando emociona, engaja e compromete o mais insuspeito dos targets: a diet-freak a tomar cerveja, o gordinho a correr, a perua a comprar na fast-fashion, o classe média a se endividar por um carrão.

Uma marca de luxo não faz propaganda para vender suas preciosidades para quem pode mas para quem não pode, uma marca popular não faz propaganda para vender suas bugigangas para quem não tem opção senão recorrer a elas, mas para dar-lhes prestígio e seduzir o outro lado da cerca. Pensar que trabalhamos para lembrar que existimos é ter em baixa conta a arma que manejamos.

Se o óbvio transpira nessas afirmações, ele está ausente em muitas estratégias nas chamadas novas mídias. Lá, vendem-nos o estado da arte da precisão e mensuração. E mais parece um disfarce para acobertar outras deficiências, como a falta de padrão, o baixo impacto, a pulverização, os formatos exíguos.

Claro que podemos ainda alardear os serviços prestados à cauda longa, que não pode se dar ao luxo de desperdiçar cartucho na esperança de fisgar prospects insuspeitos, mas quando estamos falando de grandes estratégias, dar tiros excessivamente precisos é a desculpa para a má propaganda ou justificativa para a falta de ousadia.

Quando a estratégia de mídia é nebulosamente calculada, em qualquer mídia, inclusive as novas, ela resgata a criação e dá-lhe espaço para transbordar de sedução. Fazer propaganda do Corinthians para o corintiano é bico, agora que tal fazer propaganda do Corinthians para vender uma marca para um palmeirense? Esse é um desafio para o qual não há técnica, não há ciência, não há TGI ou Analytics capaz de solucionar.

Atrofia de 140 caracteres

18/02/2011 em Internet | Tags: , | 6 Comentários »

Imaginemos o ano de 2300.

A Terra tem algumas dezenas de bilhões de homens; florestas e praias estão em museus e falamos chinês fluentemente.

As pessoas são mais altas, mais velhas e mais ociosas do que nos séculos anteriores. O trabalho é um luxo, um hobby ou um vício.

A produção de todos os bens é automatizada, autossustentável e sintetizada, já que o planeta está oco como um queijo suíço.

Os governos não se preocupam mais com guerras, nem com exploração e beneficiamento de riquezas, mas com ocupação do tempo. Imensos movimentos de terapia ocupacional são subvencionados, mas a produção manual, artesanal ou artística gera insuperáveis acúmulos de sucata. Por isso, normas internacionais exigem licenças raras para a produção física. Todas as energias concentram-se nas manifestações virtuais perecíveis.

A humanidade inteira entrega-se à curtição. Estéril.

Não há mais luta de classe, nem de raça, nem de sexo nem de religião – que não há mais. Nem divergências políticas, nem polêmicas, nem de opinião. Não há fatos, nem história.

Nada de drogas, álcool, esportes, sexo. Angrybird virou mania global.

De volta aos anos 2000.

Quando o conhecimento vira consumo, a luta vira esporte e o cinismo, a religião, a preguiça é epidemia.

A curiosidade superficial, fruto dos estímulos de 140 caracteres e das simplificações indexadas, atrofia a existência.

Site de marca: perda de tempo

29/10/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 12 Comentários »

A sabedoria do consumidor está na capacidade de nos chamar de idiotas se fazendo passar por um.

Pesquisador: Quando você pensa na marca X, como você a imagina na Internet?
João: Ué, mas X não é para beber?

Ainda que essa resposta pudesse ser exatamente a mesma se tivéssemos feito a mesma pergunta 40 anos atrás referindo-nos à televisão, temos um pequeno insight.

A Internet nasceu, tomou biotônico e cresceu como promessa facilitadora.

Quando ela nos ajuda a descobrir como se faz um pão de ló, ela é imbatível. Quando nos permite comparar cré com cré, é muito útil. Quando a gente pode comprar ingresso antecipado para qualquer sucesso de pipoca e gritaria, é um alívio. Quando descobrimos que é possível encontrar pessoas para além do clube, do trabalho e da escola, a Internet cura todo provincianismo atávico. Quando a gente não quer micar na sexta à noite e zerar o fim de semana inteiro, se jogar na Internet é um bom começo.

Síntese do beabá: a Internet é um trampolim de vida lá fora.

Mas e a marca X? De beber, de lavar roupa, de vestir, de dirigir, de pegar dinheiro?

Em vez de jogar o cara lá fora, pra beber, pra lavar, pra desfilar, pra esmerilar ou gastar, vamos inventar moda e parafusar a bunda do cara na frente do computador com falácias de engajamento ou outras histórias pra boi dormir.

Perdemos um tempo doido criando doideiras na Internet.

Mas esquecemos que, salvo patologias nipônicas, as marcas deveriam, antes de todas as pirações online, jogar nego no off.

E todo o resto, todo o resto, é só publicidade.

A involução da evolução – EBP 2010

19/10/2010 em Internet | Tags: | 5 Comentários »

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Apresentação no EBP 2010

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Rasga-se o soutien, mas o peito sempre cai

16/07/2010 em Internet, Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Quando dissemos que a televisão estava em estado avançado de putrefação, que os jornais que embrulhavam os legumes na feira seriam substituídos por outras formas mais inteligentes de suportar conteúdos, que a propaganda tradicional estava nos estertores de mentalidades engessadas e caducas, a gente se libertou, rasgou o soutient.

Quem não passou por essa alforria dos discursos e dos paradigmas ainda não aposentou as chuteiras mas perdeu uma grande curtição.

Mas quando percebemos que o peito sempre acaba por cair, a gente encontra dois tipos de postura no mínimo surpreendentes.

A primeira é daqueles que despertaram com uma década de atraso e manifestam um entusiasmo adolescente pelas formidáveis transformações em curso. Nunca é tarde para rejuvenescer, claro, e o tempo perdido é fácil de recuperar. Basta ser capaz de observar e se observar. Mas o que irrita é quando as descobertas “recentes” dessas pessoas são mascaradas pela presunção característica da experiência. Esse tipo de atitude cega o caminho, sempre melhor, que é o do meio.

Mas a segunda é mais maluca ainda e diz respeito àqueles que já nasceram em outra realidade de consumo de meios e perseveram com o discurso e a prática revolucionária. É inacreditável que existam pessoas mais jovens que super-valorizem as mídias ditas “novas” (não tão novas), em detrimento das velhas. É como ver um comunista de 20 anos, de barba e punho em riste, em pleno século XXI, ou um yuppie com 20 primaveras que fala que os fins justificam os meios.

Nem dá raiva, dá é sono, porque a raiva pelo menos excita.

Agora é tarde porque a mídia é morta

16/03/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 1 Comentário »

Se estamos alarmados – alguns profetizando, outros ironizando – profundas mudanças na forma como se faz propaganda, é porque, tirando todos os excessos praticados de ambos os lados (“quebra tudo” ou “bobagem”), deve haver algum tipo de transformação em curso. Esta observação é pura lógica.

O fogo que produz essa fumaça está evidentemente na estrutura de distribuição livre, incontrolável, universal, crescente, sem filtro, autoral ou mixada, legal ou nem tanto, de conteúdo na Internet. O corolário desse incêndio é que estamos, todos sem excessão, adorando, usando e estimulando o fogaréu. Querendo ou não, assustados ou excitados sopram na fogueira.

Conteúdo abissal e livre de um lado, audiência colossal e imensurável de outro. Eis o binômio da mudança: Conteúdo livre / audiência incontável.

A primeira variável provoca graves comichões nas estruturas de mídia, já que suas histórias e imagens, seus investimentos, seus patrimônios, foram construídos sobre a propriedade de conteúdos.

A mídia tradicional – e por tradicional entenda-se todas aquelas que vendem seus conteúdos direta ou indiretamente, incluindo veículos na Internet, portais, sites que vendem publicidade, etc – faz dinheiro sobre  audiências presumidas ou, mais raro, sobre audiências reais aferidas.

Os conteúdos são criados perseguindo os gostos e preferências das audiências. No entanto, a propaganda  que os financia, tem uma espécie de licença poética, quase parasitária. Os intervalos comerciais ou publicitários, surfam, aproveitando-se delas. A publicidade tradicional – e por tradicional entenda-se todas aquelas que financiam os conteúdos gerados pelas mídias tradicionais, incluindo a propaganda na Internet em quaisquer formatos – não tem “compromisso” com a geração de audiência. Tem como único objetivo “agradar” audiências dadas.

Pois se os conteúdos tendem a escapar pelo dedão do pé, se os conteúdos agora são auto-suficientes e auto-gerados, se os conteúdos estão espalhados livremente na Internet, a propaganda perde seu principal handicap: a dependência que tinha das audiências geradas pelos veículos tradicionais.

Assim pintado, o quadro é preocupante, pois a propaganda não conhece a ciência e os truques de criação de audiência. Sequer sabe como mensurá-la e usar a informação para realimentar o processo de produção “criativa”.

No entanto, trata-se de uma enorme oportunidade para chacoalhar a poeira acumulada em décadas de relativo conforto. Oportunidade para rever processos, estruturas, aferições, mensurações e talentos. Aprender a fazer conteúdo que atrai audiências. Muitas dezenas de milhões de pessoas e não alguns milhares de internautas desocupados.

E se não corrermos atrás, já já, quem sabe cativar audiências, nossos antigos parceiros, os veículos tradicionais, vão saber também seduzir e agradar nossos clientes, dispensando os intermediários românticos que nos tornamos.

A Internet enche que até transborda

12/03/2010 em Internet | Tags: , , , | 4 Comentários »

Com a Internet, uma nova economia nasceu. Com a Internet, muitas gente ficou milionária da noite para o dia. Com a Internet, a democracia renasceu, e a política e a justiça. Com a Internet, as pessoas estão menos sozinhas, mais participativas, mais poderosas, mais instruídas, mais inseridas, mais criativas, mais, mais, mais.

E também com a Internet, o mundo está menor e mais igual. Com a Internet rouba-se mais, infringe-se mais a lei. Com a Internet o lixo tem seu lugar ao sol, a produção cultural perdeu referências de qualidade. E a produção tout court também. Até nossos valores. E nossa ética. E nossa fé. Com a Internet, ninguém quer mais saber de olhar no olho, nem tocar, nem falar, nem trepar, nem, nem, nem.

Todas as virtudes e todos os vícios: é tudo culpa da Internet.

Tem até uma patologia nova, os internetisícos, que tossem bits. Coitados, ficam doentes se não tiverem um computador, um pad, um celular, uma lan-house à mão.

E tem aqueles outros, os internetofóbicos, que ficam verdes se alguém falar “google”, azuis se ouvirem a palavra “youtube” e explodem só de ver o passarinho azul.

Se pessoas morrem em acidente de carro, não é culpa dos carros, nem das estradas, nem das montadoras. Se as pessoas engordam, não é culpa da gordura, nem da lanchonete, nem do maldito azteca que inventou o chocolate.

Tomara que chegue logo o dia em que a palavra Internet fique obsoleta, careta, saudosista ou bizarra. E que a palavra Criação ou Deus ou Liberdade cresçam e apareçam no tag-cloud.

A conectividade é mais potencial do que real

05/02/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , | Deixe um comentário »

Costumamos professar o novo paradigma desses nossos tempos: o olho foi para o dedo. Consumir informação e conteúdo é ato voluntário e volúvel ao extremo.

A recitação do mantra libertário nos leva a concluir precipitadamente que a imersão é completa e absoluta, mas se um terço dos brasileiros tem acesso à Internet, isso não significa, no entanto, muita coisa além de uma tendência, uma perspectiva, uma esperança.

As estatísticas são vagas, mas esse contingente colossal, na sua enorme maioria, continua comportando-se exatamente como a Dona Maria que assiste TV enquanto passa uma pilha de roupas: a atividade ainda é esporádica. Não ultrapassa em cliques no teclado, aqueles dados no controle remoto.

Os que barbarizam abrindo tab sobre tab no browser enquanto fuxicam em comunicadores instantâneos, espalhafatam em perfis sociais e compram chocolate em Paris sem sair da poltrona, ainda são poucos. Aqueles que copiam e colam, mushapeiam e produzem conteúdo, menos ainda.

Tendemos a acreditar que o sujeito que assiste um comercial no Youtube, se linka nele, posta nos blogs, twitta pra lá e pra cá aquele brilhante conteúdo publicitário “integrado” em todas as pretensiosas estratégias de redes sociais que criamos. É desconhecer demais a volatilidade das audiências.

Se convém ser abrangente e cobrir variadas plataformas, é boba a ilusão de achar que cada iniciativa vai suportar, incentivar, inflar e torcer pela outra. Esse tipo de raciocínio além de suscitar expectativas equivocadas, leva também a sub-utilizar cada iniciativa individual: a soma de muita coisa “mais ou menos” não significa que o total vai ser muito bom.

Por essas e outras, a maioria das estratégias on-line é muito boa como estratégia e muito ruim no resultado, porque a gente fica achando, sempre, que o povo está muito mais conectado do que realmente está, deseja estar e jamais estará.

A audiência escapa pelo dedão do pé

01/02/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | Deixe um comentário »

Até bem pouco atrás, a gente ia lá no software e perguntava “ó, augusto oráculo, como é que se cobre essa gente toda?” E as planilhas cuspiam números. Com douta inteligência e paciente aplicação, otimizava-se a grana sem muito erro. E se as previsões furavam, a culpa era da porcaria que o anunciante aprovou, do lixo que a agência criou e da burrice imprevisível dos consumidores.

A audiência era dada.

Hoje, a pitonisa está esclerosada, o software ficou um pouco lento e bem defasado. Não conseguimos mais alimentar tantas variáveis nem tampouco apurar os malditos consumidores que assistem TV na internet, lêem jornal no computador, revistas nos blogs que as chupam sem nenhum arrependimento, cinema no celular, e tudo o mais no Youtube-o-raio-que-o-parta. E o grande irmão que define quem vai ver o que é o Google, maldito seja. Sem falar que os sem-vergonha dos consumidores espalhafatam tudo a torto e a direito, sem avisar ninguém.

A audiência virou adivinhação.

Então, enquanto nenhuma vestal matemática se habilita, enquanto a gente não acha um jeito simples e seguro de calcular com quanta gente se alcança um objetivo de comunicação, só nos resta concentrar-se na mensagem. Já que é tudo meio chute mesmo, aposentam-se as planilhas, as pesquisas, os dados do passado.

Viramos (ou viraremos) fábricas de audiência e essa coragem aí, de acreditar que a mensagem que criamos é capaz de quebrar tudo de forma imprevisível – pro bem e pro mal –  é o novo talento dos anunciantes.

Aposentem-se os estatísticos, é a vez e a hora dos criativos, de todas as laias.

Nego que vê TV é igual nego que tá na web

28/01/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | Deixe um comentário »

Se é verdade que 41% dos americanos entre 8 e 18 anos assiste conteúdo de televisão em outras plataformas além do aparelho que trona na casa de bilhões de pessoas em todo mundo, a constatação pode parecer um atestado de falência premeditada para os fabricantes. (Vale observar que isso é uma tendência de comportamento que irá aplicar-se a todas as faixas etárias e povos). Por outro lado, a previsão parece redentora para quem produz conteúdo televisivo.

É provável que 10 em cada 10 fabricantes de televisão digam que nunca se vendeu tanto aparelho e que 10 em cada 10 críticos da televisão afirmem que nunca a audiência do meio foi tão baixa.

Mas esse debate é chato.

O que interessa mesmo é, a partir dessas evidências, preocupar-se frenética e obsessivamente, em mensurar verdadeiras audiências de conteúdos.

A única saída é calcular de forma exata – e não amostral – todas as audiências somadas e precificar os custos de mídia a partir dessa nova base.

A única saída é um custo único, por audiência, e uma venda verificada. “Nessa estratégia você teve X de audiência – eis a comprovação – portanto você deve Y onde Y é X vezes o custo unitário”. Ou variantes escalonados dessa equação (com tetos e pisos ou faixas de descontos).

Já dá pra imaginar os espíritos de porco dizendo que a audiência do computador é diferente da televisão, da revista, do celular, do vídeo game, do sinal de fumaça, da telepatia. Complicação sócio-antropopops. Audiência é audiência e ponto final.

A morte anunciada do Copyright

27/01/2010 em Internet | Tags: , , | 3 Comentários »

Em 1878, em um congresso literário, Victor Hugo disse:

“O livro, como livro, pertence ao autor, mas como pensamento, pertence – a palavra não é grande demais – ao gênero humano. Todas as inteligências têm nele direito. Se um dos dois direitos, o direito do escritor e o direito do espírito humano devesse ser sacrificado, seria, certamente, o direito do escritor, porque o interesse público é nossa preocupação única, e todos, eu declaro, devem passar antes de nós”.

A ousada declaração dispensaria qualquer comentário, não fossem os tempos que vivemos e que o gigante não conheceu.

Victor Hugo não sabia que menos de um século depois, o gênero humano se conectaria em rede, através da união anárquica e orgânica de bases de dados, pilotadas a distância por qualquer membro da espécie munido de um computador e da boa vontade atávica no desejo de aprender, crescer e dar sentido à vida.

Victor Hugo não sabia que a força que move essa união exponencia-se em função da mola motriz dos homens, a tecnologia e o consumo.

Victor Hugo não sabia que da extraordinária capacidade de processamento, integração e comunicação que a Internet permite, nasceriam uma produção intelectual, cultural, científica e humanista sem precedentes.

Victor Hugo não sabia que a Internet seria tão vital à sobrevivência humana quanto o ar que ele respirava.

Mas ele sabia que, dos confins de uma espécie de consciência primitiva, o homem é egoista. Que o domínio do saber e do pensamento é um privilégio e uma arma de opressão. Ele também sabia que o domínio público é mais forte e mais fértil.

No final do século XIX, antes mesmo de existir, decretou-se o fim do copyright.

Os especialistas dos “Tempos modernos”

22/01/2010 em Internet | Tags: , | 6 Comentários »

Vamos chamar um specialist da silva pinto e um expert de souza quadro.  Quanto mais arcana, misterioso ou difícil de entender uma atividade, mais a gente complica inventando cargos, funções, responsabilidades e organogramas.

Desde que a Internet virou a ultima fronteira, nunca se criou tanto apertador de parafusos. De fazer Adam Smith parecer ingênuo. Utilizar a grande rede, só se for partilhando o trabalho em minúsculas atividades, cuidadosamente costuradas por uma espécie de governança, um tarefeiro muito valorizado chamado gerente de projeto. Tem nego que só faz escarafunchar as redes sociais, outro que inventa moda pra gerar a fofocaiada vital, mais um que toma as medidas e as temperaturas, mais um que responde, outro que pergunta, outro que escreve, outro que apaga, outro que filtra, outro que toma café e outro que cobra. E tudo isso tem lindos nomes.

É como aquele monte de rituais que a igreja inventou, aquela liturgia sagrada, cortina de fumaça para esconder a volúpia por debaixo das batinas.

Tem gente que nem chegou a essa suprema sofisticação, tem gente que ainda usa os profetas multi-poli-sábios, mas esses estão fora de moda.

O que pega agora é montar essas estruturas, esses polvos organizacionais “para te atender na sua estratégia on-line”. Chama o especialista em unha encravada, doutor!

Mas tem algo que não orna. A Web é por definição, interligação; por gênese, “faça você mesmo”, por vocação,  espírito de porco.

Muita técnica, muita bíblia, muita moral, civismo e ética, muita matemática e excesso de regras … esse monte de especialista, sei não…

Porque a produção publicitária é tão tosca?

20/01/2010 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 7 Comentários »

Existem poucas histórias. Talvez uma única. Um herói que se dá bem no começo e acaba se dando mau no final. Ou o contrário. E existe uma única estrutura para contá-la: “é assim”, “não é bem assim”, “e ficou assim”. Ou uma baguncinha dessa lógica.

Assim como Haydn criou algumas centenas de sinfonias em apenas 24 tonalidades, 7 notas, 5 linhas na pauta e só duas claves, escreve-se aos borbotões há milênios, e é sempre a mesma coisa. Da bíblia aos panfletos evangélicos, de Boccaccio a Dan Brown, de Montesquieu a Jabor, do Gorila da Cadbury a … cite uma propaganda porcaria, são tantas…

Não se criam histórias novas há milênios, e por isso tenta-se relativizar: é original nessa linguagem, é inovador para essa categoria, é totalmente surpreendente para essa marca.

Quando queremos contar histórias, na televisão ou no cinema, no namoro ou no boteco, na literatura ou na propaganda, a arte está no contar e não na história.

Sofismas à parte, a gente persegue demais a história e de pouco o contar. E contar é “como” e não “o quê”.

Isso tem duas conseqüências desastrosas – pelo menos duas – para a qualidade da nossa propaganda.

A primeira é o calvário paralisante do arsenal de pesquisas que tentam dar colo à insegurança. As pesquisas contam a história para as pessoas em formatos primitivos, animatics, storyboards e outras monstruosidades, nivelando sua capacidade de apreciação abaixo da linha do analfabetismo funcional.

O segundo desastre é a qualidade das produções que são precisamente o coeficiente “contar”. Como a história parece mais importante do que a forma de contá-la, de que vale o acting, a locação, os efeitos, a música?

“Economiza aí que isso não é importante. Faça um filminho vagabundo, desses que tem na Internet que dão milhões de views. O importante é a história”, como se qualidade de produção fosse a mesma coisa que qualidade da imagem, como se os consumidores que perseguimos, ignorantes, pobres e burros presumidos, não se acotovelassem para ver o “Avatar” da vez nos cinemas. Blockbuster com uma história bunda em um contar inebriante.

Vai dar saudade do Twitter

15/01/2010 em Internet | Tags: , | 4 Comentários »

A Internet é pródiga em fenômenos que surgem como cogumelos endiabrados. Nascem e prosperam em uma madrugada, apodrecem ou procriam e ensinam um pouco.

Assim é o Twitter, uma ferramenta de relacionamento que virou estilingue de reputação ou pedestal da vaidade.

O “fenômeno” tem seus momentos de grandeza quando obtém esporádica redenção na mídia doura-pílula, manifestando vozes mudas do Irã ou do Haiti.

Mas profecias e estatísticas à parte, o Twitter é o que ele não nascer para ser: uma RSS comunitário. É nisso que é bem sucedido, sob uma perspectiva de mais fôlego. Se ele vai sobreviver como marca e plataforma independente é cedo para dizer.

Se o Twitter é isso aí, um espalha conteúdos entre pessoas pertencentes a uma mesma confraria, o que vem primeiro, o feature ou a comunidade? Dá para prever que o Twitter está mais para um apetrecho, um aplicativo de comunidades já estabelecidas do que um agregador de pessoas. Ele não conseguiu ser mais do que uma única boa idéia, que, como todas, para sobreviver, deve fermentar outras, sem parar.

Ele despertou para o estrelato como sempre é, na Internet: o pequeno bonitinho foi a bola da vez. Mas não sucumbiu, foi sucumbido, sem querer, ao star-system. Ele nasceu para estar na origem de agrupamentos comunitários do tipo “meus amigos do Twitter” e virou isso aí, uma catapulta para o Big Brother ou de outras mais renomadas estrelas do show bizz ou do esporte. Catapulta de esperteza.

O Twitter já perde fôlego, já perde velocidade, já perde interesse.

É uma pena, mas é assim mesmo, coisas do mundo líquido.

A Internet acabou com a nossa raça

08/01/2010 em Internet | Tags: | 10 Comentários »

Quando inventaram a imprensa, inventou-se o Estado. Nasceu o rádio e o mundo ficou pequeno. Viajamos para o espaço e a terra era azul. Criamos a televisão e a humanidade ficou parecida.

Surgiu a Internet e nos perdemos.

O que é mais útil? O baço, o pâncreas, a vesícula biliar ou o Google, a Wikipedia, o MSN? Quantos minutos da sua vida, quantos dedos do pé, quantos cabelos você dispensa por um acesso à Internet?

Por que o saco de alguns macacos adultos é azul? Por que os Gnus são os melhores amigos das zebras? Por que a gema dos ovos da Tanzânia é branca? E por que, por que diabos a gente precisa saber disso tudo?

Por que é que quando não chega email na caixa postal me sinto abandonado? Por que é que só me sinto vivo com muitos  gigas à mão? Só me sinto Eu com meus perfis? Não saio de casa sem a parafernália digital ao primeiro clique?

Sempre achamos que quanto mais se soubesse das coisas e quanta maior a nossa memória, mais evoluídos seríamos, bem sucedidos, grandes, fortes e raçudos.

E com a Internet, acabam-se as dúvidas e o saber individual perde  sentido. Está todo mundo igual demais.

Como isso é chato.

A Internet e a evolução

06/01/2010 em Internet | Tags: | 1 Comentário »

O que faz o gnu pastar impassível ao lado do leão? A  zebra dividir o riacho com a hiena? O leopardo se espreguiçar calmamente por sobre o rebanho de gazelas? E turistas barulhentos exaltarem-se com o rinoceronte impávido?

A evolução é uma luta desesperada pela sobrevivência. Uma lei natural que descarta o mais fraco e premia o mais adaptado.

O fingimento, a mentira, a brincadeira, a piada e até a má intenção são incidentes sem importância que se perdem na noite dos tempos.

Desde que a primeira forma de vida surgiu na Terra, a verdade como reflexo manifesto é fator da soma, da multiplicação de interações idênticas.

E o homem inventou a Internet, uma espécie de conexão planetária entre os humanos, uma reafirmação definitiva, inatingível, incontrolável também, de pertencimento. Nem as estradas romanas, as circunvoluções marítimas dos portugueses, as regras mercantis dos árabes e chineses, os tratados territoriais, os organismos políticos, as leis internacionais, as telecomunicações e tampouco as religiões, os mitos e historias universais, nada foi capaz de conectar a humanidade, dando-lhe sentido. A Internet inventou a comunidade de humanos.

Quando bilhões de pessoas interagem na wikipedia, no google e nas redes sociais, dá-se a realidade, outrora relativa, intangível e interpretativa.

As verdades deixam de ser abstrações. São realidades, doravante e para sempre, documentadamente “evolutivas”.

Matem os profetas

15/12/2009 em Internet, Propaganda | Tags: | 1 Comentário »

Ainda se discutem muitos modelos. É o esporte favorito das agências de propaganda: desenhar estruturas para integrar as novas mídias na dinâmica de trabalho.

Resistências à parte, culturais ou financeiras, ignorantes,  teóricas ou pragmáticas, o debate passa por delimitação de espaços.

Ninguém duvida mais que do nível de energia gasto nessas definições depende a sobrevivência do negócio de comunicação e das ambições pessoais.

A Internet é o presente da era de aquário: bagunça criativa. É mídia e não é. É concentração e descentralização. É livre e devassa. É início, meio e fim. É emissora e receptora.

As agências de comunicação organizaram-se, há décadas, em torno de uma lógica: anunciantes precisam comunicar-se através de meios de comunicação que vendem espaços publicitários nos quais são veiculados os conteúdos criados para as marcas.

Dessa lógica, nasceu a estrutura básica das agências: uma área para receber o pedido do anunciante, o Atendimento, uma para negociar espaços, a Mídia, e mais uma para criar o conteúdo, a Criação. Os outros cacarecos, são suporte, back-up e produção (planejamento, pesquisa, e tal e coisa).

Daí vieram os profetas que vaticinaram milhões de veículos-consumidores ou milhões de consumidores-veículos.

- Vamos comprar o quê, Santo Deus?

- Pagar com que moeda, Virgem Nossa Senhora?
- Em que formato, meu Pai do Céu?

O Atendimento, que foi treinado a resolver problemas não sabe mais onde enfiar o pedido do cliente: na mídia, na criação? Na criação depois da mídia ou na mídia depois da criação? Todos ao mesmo tempo?

Complicações que vêm se resolvendo no tapetão. Se a mídia da agência é poderosa, ela decide. Se for a criação, passa por cima e se for o atendimento, resolve tudo sozinho. Daí, a mídia cria, a criação faz mídia e o atendimento vai fundando uma agência por cliente.

É uma zona que preferem chamar de integração. É uma briga de poder que preferem chamar de inovação. É uma fogueira de vaidades que preferem chamar de revolução.

Matem os profetas ou vamos tomar um lexotan: que tal se a mídia só fosse atrás dos espaços? A criação atrás dos conteúdos? O atendimento atrás dos clientes?

A opressão do Google

02/09/2009 em Internet | Tags: | 3 Comentários »

Uma pesquisa aponta que mais de 70% das pessoas que fazem compras em supermercados consideram essa atividade um pé no saco. Tem outra que diz que a maioria das pessoas vai às compras com a lista, ou parte dela – inclusive de marcas – decidida.

O suplício tem muitos motivos: orçamento apertado, mau humor do cônjuge, histeria infantil, luz gelada, fila, gente feia e a constatação de que todo esse tempo e dinheiro estraga a dieta. Compras de supermercado: se não matam, engordam.

Mas quando você tem a chance (ou o azar) de ir às compras sem obrigação, é possível isolar um indizível motivo de sofrimento: a liberdade de escolha. Colocar pesos e medidas, racionais e emocionais, entre tanta oferta é fator de insegurança. Fora a tentação pecaminosa do supérfluo. Liberdade uma ova.

Excesso de escolha aprisiona.

Um rebelde caçador na savanas africanas costumava lembrar-se dos elefantes em disparada quando encontrava-se na cadeia. Uma tropa de paquidermes sem freio era sua metáfora de liberdade salvadora.

Será mesmo que a Internet é nossa Meca de liberdade? Conceitualmente talvez, na prática nem um pouco.

A Internet peca por opressão de abundância e a falsa sensação de livre arbítrio.

E se os motores de busca fossem tiranos disciplinadores? E se os indecifráveis algoritmos de relevância, monetizados ou não, premeditados ou não, fossem obscuros inquisidores?

E se o Google fosse o HAL-9000 de “2001 – Uma odisséia no espaço”?

A Rede Globo era o grande irmão? Sei não.