Artigos na categoria ‘Internet’

O novo criativo, das profundezas e superfícies

30/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 7 Comentários »

A grande sorte da “criação” das agências de comunicação é elas terem, de todos as estabelecidas áreas, o melhor nome: Criação. Criar é uma atividade que conjuga a habilidade para expressar-se de forma escrita com aquela para fazê-lo de forma visual. Criar significa também e principalmente, ambas  as linguagens confundidas, aprofundar-se na essência de uma ideia. Pensar o conteúdo para além da forma.

Assim usurpado o sagrado coração da profissão, os impostores desenvolveram proteções ardilosas que empurram as outras “especialidades” numa periferia necessária mas acessória.

Sem querer entrar na retórica cliché de “agência de ideias em todas as áreas”, um mutável virus introduziu-se na indústria da comunicação: a o big bang dos meios, a Internet. As habilidades de redator e diretor de arte não parecem mais suficentes para Criar. Uma garotada domina outra linguagem, que, embora pareça suja de graxa, é curiosamente celebrada nos grotões novos ricos da indústria tecnológica. A primeira reação é enquadrar os energumenos que nascem nesse mar subterrâneo numa lógica conhecida: designers digitais e programadores – tipos novos de produtores. Assim (e ainda), para salvar a proteção territorial, incorporam-se esses novos à “criação”.

Mais vale, no entanto, entender que linguagem “nova” é essa que as plataformas digitais demandam? Certamente não se trata apenas de uma habilidade específica para produzir em ambientes virtuais.

De forma sintética, os novos “criadores” são pessoas que possuem talento ou desenvoltura, para “criar” horizontalmente, numa multitude encadeada e estratégica de meios. Não são designers nem programadores – embora possam sê-lo, assim como podem ser diretores de arte ou redatores clássicos – mas falam uma língua que pensa transversalmente mídias afora. Podem ser também mídias, planejadores, atendimentos.

E por que essa “habilidade” é uma habilidade que soma (e integra) e não substitui?

Voltemos à definição de “criativo” do primeiro parágrafo: “criar” é aprofundar-se na essência de uma ideia. Como era esse o talento necessário para tornar-se um dos bons (e não só um original pirilampo), com o tempo, as atividades acessórias aproximaram-se desse olimpo, e em particular o planejamento. Até chegarmos ao momento em que “planejar” e “criar” confundem-se na busca da conceituação profunda de mensagens, discursos e histórias que seduzam, envolvam e fidelizem o coração dos consumidores. “Criar” é (ou era) portanto verticalidade, essencialidade.

Isso funcionava, e bem, em um mundo em que poucas e domesticáveis são as interfaces com os consumidores. Não funciona mais depois do big bang.

Criar é portanto, hoje, verticalidade e horizontalidade ao mesmo tempo. É a habilidade indissociável de intuir e pensar profunda e superficialmente, na largada, desde o primeiro briefing. E essa nova Criação está na mídia de um novo tipo, no atendimento de um novo tipo, na “criação” de um novo tipo e principalmente no planejamento de um novo tipo.

Falta bom senso nas estratégias de redes sociais

25/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , | 11 Comentários »

Todos os dias ouvimos falar dos tsunamis de reputação que abalam o mundo. O poder insidioso e contagiante de um post ingênuo em alguma rede social, arrepia, apavora, paraliza.

Quando se bate com o martelinho naquele ponto sensível do joelho, a perna dá um coice, geralmente desproporcional à força do impacto. Todo reflexo, quando bem estimulado, é superlativo.

O bom senso escorrega tão rápido quanto a coragem de assumir riscos, principalmente quando estamos lidando com o desconhecido sub-mundo digital. E via de regra, a retranca é ordenada: “se não estou preparado para entrar nas redes sociais, se tenho telhado de vidro, deixa quieto”.

Mas é evidente que essa política, de enterrar a cabeça no chão com a bunda de fora, excita os atiradores de elite.

Ocorrem portanto dois movimentos que se anulam. O extase iluminado e a covardia de procuração. Exageramos os impactos justamente acreditando que eles podem despertar da letargia: “cuidado, sua marca está a mercê de qualquer consumidor histérico!”. E a reação, o reflexo, é seu corolário: “a ordem vem de cima, me desculpa, mas é melhor não mexer no vespeiro”. Mas as vespas não são nem tão histéricas nem tão inocentes.

Talvez devessemos começar a medir, ou estimar, os riscos: qual é o potencial de contagio? Talvez devessemos criar mais alarmes do bem, e menos alarmes do mal. Ao invés da chantagem “cuidado, você está correndo perigo!”, o estímulo “olha o tamanho da oportunidade”.

E talvez, mas principalmente, tenhamos que conter nossos impetos catastrofistas do lado de cá.

E do lado de lá, não acreditar na máxima “falem mal, mas falem de mim”, porque, afinal de contas, falar mal é muito mais legal.

Publicitários são pedreiros sem pedreira

19/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 5 Comentários »

Muitos desenham enormes raciocínios para tentar revisar a segunda palavra de nossa denominação: publicidade, propaganda, ideias, comunicação, etc. Somos agências de publicidade, propaganda, ideias, comunicação, etc. Vá lá que hajam diferenças, semânticas e de fato, em cada uma das entregas.

Mas muito pouco ou quase nunca se discute a primeira palavra: assumimo-nos sem questionamento como agências. E agênciar significa que intermediamos serviços de terceiros. Por isso somos remunerados.

No entanto a palavra “agência” subentende que nada ou pouco se obra. Usamos recursos intelectuais, criativos, produtivos de terceiros que escolhemos (nem sempre) e organizamos (mais ou menos).

Não é humildade nem abnegação muito menos compartilhamento generoso. É que os publicitários secretam a crença de que o trabalho intellectual – ou criativo – abstrato, inspirado, de fonte secreta, misteriosa e portanto de valor inefável, vale mais do que o trabalho produtivo, que faz coisas, que suja as mãos, que pode se mensurar, se equacionar e automatizar. Conceber é mais do que fazer.

Ainda que a mística criativa encanta e seduza, a capacidade de produzir é uma arte em si que não deveria ser tão menosprezada e desvalorizada.

Quem cria também faz, pelo menos é assim na indústria mais flamejante do século, na teconologia da informação ou seja lá como chamemos o ramo de atividade da Apple, do Google, do Facebook. Quem inventou a Internet não a concebeu numa prancheta e intregou seus rabiscos a excutadores diligentes, sentou a bunda na cadeira e programou. Quem cria faz e quem faz cria.

Por que agências continuam sendo agências, que nada fazem, nada produzem? Até quando essa crença na lâmpada, na maçã, na banheira, no estalo divino, concedido e não obrado?

Só que vivemos um mundo mais complexo e histérico que no passado. Mais competitivo e com recursos mais escassos do que queremos crer. E se não formos capazes, rapidamente, de usar nossa inteligência e sorte para fazer ao invés de agenciar, corremos o enorme risco de virarmos resignados executores de criações alheias.  Pedreiros sem pedreira.

O paroxismo da comunicação sem mensagem

18/05/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 1 Comentário »

No começo era o verbo. Milhares de anos depois o verbo não resolveu o caos. E de tradução em interpretação, o sentido se perdeu e verbo significou comunicação e muito blablablá.

Para o pensador Georges Haldas, verbo é o que une sujeito e objeto, dentro e fora, “em cima” e “em baixo”. Verbo é conexão.

Mas para aterrissar as discussões mais metafísicas, façamos um exercício gramatical para entender o que é essa conexão.

Na sentença “Maria (sujeito) ama (verbo) chocolate (objeto)”, o verbo é o que une Maria ao chocolate. Mas o verbo não é só forma, é também, e principalmente, sentido. “Maria detesta chocolate” dá um sentido diferente à conexão entre Maria e o chocolate.

Se cavarmos um pouco mais o raciocínio, destituindo-lhe de todo brilho filosófico, o verbo é o meio que une sujeito e objeto, o meio que une emissor e receptor. É um raciocínio semelhante que nos fez, um dia, acreditar que a comunicação era a engrenagem do nosso sistema. A comunicação é o verbo (relação) entre um emissor e seus muitos potenciais receptores.

Investimos por décadas na tese de que o meio prevalece sobre a mensagem. Tese extremamente bem sucedida em toda lógica broadcast de transmissão de mensagens. Em outras palavras: fale, grite, repita, à exaustão, qualquer coisa, ou qualquer coisa bem simples, mínimo denominador comum, que o meio se encarrega do mais importante: convencer.

Gastei todo esse verbo aí para chegar no cliché do cliché, que um dia foi genial: o meio é a mensagem.

E veio a Internet, veio o quantum leap e os meios viraram um googol tendendo ao infinito. Incontrolável, com geração expontânea e exponencial.

Como é que faz agora? Ah, já sei: mídia de massa significa de um para muitos e de preferência para todos. Ficamos anos soltando pum sem pedir a opinião de ninguém ou de poucos. O povo ficou puto, inventou a Internet e ferrou a gente mas vamos ferrar eles de volta. Vamos abrir o canal. Vamos fazer a via ser dupla. Vamos ouvir essa gente diferenciada, dar voz à negrada e pronto, tá resolvido. Vamos ser interativos, colaborativos e o escambau.

Mas comunicação é só conexão? Adianta abrir retorno? Verbo não era conexão com sentido? Cadê o sentido?

Às vezes, não dá a impressão que estamos destituindo a conexão de sentido?  A mensagem que uma dia foi substituída pelo meio não estaria agora sendo mais uma vez subvertida pela interação ainda mais vazia de sentido?

A mensagem escrava do meio agora é escrava da interação e assim perde o pouco do sentido, vulgar, que ainda lhe restava.

O Instagram e o Guitar Hero por André Kassu

25/04/2011 em Internet | Tags: , , | 17 Comentários »

O grande trunfo do Guitar Hero é trazer a sensação de que você é um
guitarrista, certo? Por alguns momentos, sacudir aquela guitarrinha colorida
faz de você o melhor Stevie Ray Vaughan da sua sala. Sem uma aula de teoria
sequer, sem uma aula prática, lá está você todo suado, dedos doloridos e
feliz por acompanhar Pride and Joy no modo expert. E vai: é uma sensação e
tanto. Fora que para uma geração de pais, é a redenção ouvir seus filhos
tocando AC/DC ou qualquer outro gênero que não tenha universitário logo
depois do seu nome.
Pois o Instagram é o meu Guitar Hero. Confesso meu vício no aplicativo
chamado de Prozac pelo Zé Porto. Sim, a felicidade está ali. Exuberante.
Disfarçando as nossas fraquezas com filtros coloridos. Mas não é uma
novidade em fotos caseiras, é? Don Draper diz em um brilhante comercial para
Kodak, na série Mad Men: fotos nos levam para um lugar em que você sabe que
é amado. Nós registramos muito mais o que gostamos do que o contrário. Ou
existem albuns de famílias infelizes? O Instagram me traz por segundos a
falsa sensação de que eu sou um fotógrafo. Sem saber que diabos faz um
obturador. E aí está o segredo: ter a noção que é uma sensação breve. Que
está muito mais ligada à diversão do que ao talento.
O Instagram não faz de você fotógrafo. Nem o twitter faz de você um
escritor. Muito menos, o Guitar Hero faz de você um guitarrista. Existe uma
fossa gigante entre as duas coisas. E que você cai facilmente quando se leva
a sério demais. O Instagram me diverte. Amanhã, como tudo hoje em dia, pode
não divertir mais. Hoje, peço para uma torneira dizer X, jogo um filtro e
disfarço minha incompetência. Já para o Guitar Hero, não abro concessões.
Não até inventarem um Harmonica Hero.

Don Draper dança minueto

20/04/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 7 Comentários »

O que o melômano sem formação teórica percebe da música são melodias e harmonias e, vez por outra, surpreende-se com as estruturas. Não por acaso, a música é popular não somente quando as melodias e harmonias são simples, mas porque as estruturas são intuitivas, sem sofisticação.

A criação publicitária ficou nesse mesmo “been there, done that” por décadas. Ainda que o pensamento tenha evoluído e “as ideias estão em toda a parte” seja um leitmotiv (planejamento criativo, mídia criativa, atendimento criativo, criação criativa), o clichê nem sempre é real.

Nas novas plataformas de comunicação, é um equívoco isolar-se das estruturas, sempre novas, que movimentam o comportamento das pessoas. A mídia display, recentemente ainda soberana, perde espaço para as novas experiências de engajamento dos consumidores. É preciso, sim, envolver-se com mecanismos mais técnicos, caso contrário a criação – como ela ainda é – não passa de decorativa.

É difícil quebrar o ritmo, chacoalhar as mentalidades calcificadas por sistemas embriagadores que funcionaram por tantos anos. Os festivais e prêmios publicitários, apesar do esforço de renovação, são o exemplo mais evocativo do vício do qual a criação publicitária clássica padece.

A menos que resignifiquemos a palavra criação publicitária, ela não passará em breve de uma especialização, uma necessária mas não crucial atividade, perdendo sua centralidade e atratividade para as marcas. Decoração versus arquitetura.

Mad Man é charmoso mas, se ainda parece que os modelos de trabalho atuais são parecidos com os da Sterling Cooper, então continuamos fazendo minuetos e sarabandas na criação publicitária.

A mídia de massa é advogada do diabo

15/04/2011 em Internet | Tags: , , | 5 Comentários »

Sempre que uma tragédia ocorre, a já eterna discussão sobre liberdade de expressão e Internet inflama as mentes. Radicaliza-se de ambos os lados, seja defendendo um território livre e amoral para a Internet, seja enaltecendo valores tradicionais e achocalhando a produção livre de conteúdos.

É cansativo entrar nesse debate porque todo argumento levado a esse extremo pode estar certo. É  essa mania que as pessoas tem de construir barricadas para a falta de opinião ou para uma opinião torpe, suja, preconceituosa, interesseira: “Vou aqui fazer o advogado do diabo”.

A Internet taí e as pessoas, queiram os advogados do diabo ou não, usam e abusam dela. Para se expressar. Sim, livremente. Mas essa liberdade, todos sabem, é condicionada pelas leis, pela moral, pelos valores. Como na vida de todos os dias, como na vida da rua.

Bin Laden mandou avisos para os Estados Unidos durante anos. Seus discursos circulavam em aparelhos de videocassetes, em fitas-cassetes, em praças públicas, em conversas na Medina e depois na Internet também. Disse o que faria. E fez.

A opinião não é um delito. O discurso não é um delito. A expressão não é um delito. Delito é o fato. Se o marido diz para sua esposa “Vou te matar” e não mata, não fez nada. Mas, se mata, será condenado por matar, não por avisar que mataria.

A Internet não tem nada a ver com essa discussão, pois, se o assassino filmou-se antes de cometer sua barbárie, ninguém viu. Mas, que ironia, depois do atentado, a mesma mídia dos advogados do diabo populariza sua mensagem louca. Dá lhe voz, difusão e credencial.

Em nome de quê? Da mesma liberdade de expressão dos defensores extremados da liberdade na Internet.

No mundo em que vivemos, com a Internet do jeito que é e sempre será, queiram os advogados do diabo ou não, difundir é muito mais sério e irresponsável do que fazer.

Os novos fantasmas da propaganda

12/04/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 12 Comentários »

Muitos anos atrás, a Internet era uma curiosidade intelectual, como o hermafroditismo dos cavalos marinhos ou o matriarcado das sociedades celtas primitivas. Como é da natureza de todas as idéias divergentes, com o tempo, o assunto tornou-se alvo de ideários inflamados, com argumentos simplórios, como as boutades conservadoras do premier israelense ou de algum ditador africano.

Mas já há alguns anos, a Internet tornou-se uma coceira agradável no discurso de muitos profissionais de comunicação. Uma feridinha que a gente acalenta com prazer, um pecadinho, íntimo, gostoso.

É que na Internet, muitas frustrações se acobertam e o ambiente sorri de volta a ambições fora de moda.

Se a mídia tradicional fechou suas portas para experimentações e ousadias desconexas, temos a Internet para veicular nossas quimeras no Youtube. Se a mídia tradicional encafifou com a forcinha espontânea que sempre deu a idéias originais, sempre haverá um blog “muito influente” afim de dar cobertura gratuita.

Então vemos surgir defesas mirabolantes para investimentos eufemisticamente corajosos: “põe na Internet que a coisa se espalha!” ou “vai dar mídia espontânea”. O intangível e incontrolável justifica.

É assim que nascem os cases de vaudeville que se empilham nos festivais de propaganda.

Instagram é o novo Prozac por José Porto

06/04/2011 em Internet | Tags: | 35 Comentários »

Café da manhã em NY, pôr do sol poético na Serra da Bocaina, um novo olhar sobre aquela placa de rua feia, almoço exótico num mercado de rua em Hanói, um ângulo descolado onde sua casa fica melhor que aquelas que saem na Casa Vogue.

A vida no Instagram é assim: por alguns segundos você vai se sentir melhor imaginando o que as pessoas estão pensando sobre sua vida sob efeito de filtros glamourizantes. E de quebra você descobriu um novo talento: nasce um novo Helmut Newton.

Tendência hype? Não. Sintoma de Depressão Pós-Photoshop.

Depois de ficarmos inteligentes em 140 caracteres e compartilharmos momentos importantes via Facebook, as imagens falam mais que mil palavras – e com filtros falam mais que um milhão!

O sintoma não se restringe a nós, publicitários e descolados hiperconectados em geral.

Daniel Winter, fotojornalista do NY Times, causou um reboliço na comunidade internacional de fotógrafos profissionais.

Ganhou 3o lugar num respeitado prêmio, o POYI (Picture of the Year International) com uma foto feita com o seu iPhone e devidamente “filtrada” usando o aplicativo Hipstamatic – uma espécie de Instagram sem ferramenta social.

A série de fotos de onde saiu a bendita premiada foi feita em novembro, no Afeganistão, para uma matéria do jornal sobre a vida dos soldados americanos na guerra.

As fotos poderiam estar no seu timeline do Instagram: soldados ouvindo iPod e rindo, um cachorro se espreguiçando na mata, cartuchos de bala jogados no chão fazendo uma bela composição gráfica (veja aqui: http://nyti.ms/bKrWLA).

Questionado, o fotógrafo diz que a estética tem papel determinante na maneira como vemos o mundo e que não somos máquinas de fotocópias ambulantes. Somos contadores de histórias (ou “storytellers” como se gosta de dizer…).

Certo ou errado, a guerra no Afeganistão ficou visualmente linda e a vida dos soldados ganhou um quê de glamour antes impensável para tal contexto.

Não estamos no Afeganistão, mas a vida como ela é cansa, é feia e crua. O Instagram e seus similares nos dão o privilégio de burlar tudo isso e contar uma história mais interessante. Tendência? Não. Sintoma de Depressão Pós-Geração Y.

E é contagiosa.

Tá chato? Feio? Sem chiqueza? Põe um filtro, uma legenda engraçadinha, meio criptografada, meio piada interna e pronto. O Instagram deixa a vida mais suportável.

@zeporto

Ridiculite, você ainda vai ter uma

05/04/2011 em Internet | Tags: , | 7 Comentários »

Trataremos hoje da principal inflamação social do mundo hipermoderno, mais conhecida como ridiculite.

Os sintomas da ridiculite podem ser resumidos em duas alterações de comportamento típicas e evidentes.

Ao primeiro, daremos o nome de “auto-shooting”. No seu estágio mais primitivo, o sintoma é a autoveneração fotográfica. No seu desenvolvimento irreversível, o “auto-shooting” passa a comandar todas as atitudes do doente, que tira foto de tudo e de todos, a todo instante. É o que os médicos chamam de cliquite.

Ao segundo, daremos o nome de “over-sharing”. No início da doença, o sintoma se desenvolve numa procura adolescente de afirmação e hiperidentificação. Já para os estágios mais avançados, o “over-sharing” é uma espécie de gagueira social compulsiva, ou aquilo que os psiquiatras chamam de dadite.

A ridiculite é uma inflamação subcutânea, de ação prolongada e degenerativa. Extremamente contagiosa, a doença já assumiu proporções de epidemia. A ridiculite é transmitida por um agente patogênico que se traveste de variadas aparências. Seu grau de adaptabilidade ao ambiente e à vítima torna seu combate direto  praticamente impossível. No entanto, como a dengue, a ridiculite deve ser combatida no criadouro, cujo epíteto genérico convencionou-se chamar de rede social.

Para filósofos de bigodinho e bermuda fashion, tendência e sintoma c’est la même chose. Portanto esqueça a patologia: auto-shooting e over-sharing é megatendência

Internet para conectar?

30/03/2011 em Internet | Tags: , , , | Deixe um comentário »

A Internet foi imaginada, criada e comeu tutano com base em princípios de nobre cunho: acesso democrático à expressão, à comunicação e ao conhecimento por um lado e simplificação, aceleração e abrangência de intercâmbios de toda natureza por outro.

Diante da explosão do uso das redes sociais – 90% da população de internautas afirma ser para lá que se dirigem preferencialmente – muitos gostariam de ver nesses ambientes o futuro concentrador de todas as atividades e interações da Internet do “futuro” (entre aspas). Seria nessas plataformas concentradoras que as pessoas se relacionariam, expressariam, transacionariam, se informariam etc., quase que exclusivamente. E, com muita sede, os agentes (Facebook, Google-Orkut etc.) se mobilizam para diversificar ou colonizar territórios que não lhes eram fundadores.

Mas se analisar com alguma sutileza o comportamento e as pulsões por trás do uso das redes sociais, em seus usuários, parece haver algo que contraria a própria gênese da Internet: sua autocentralidade. As redes valorizam, facilitam e enaltecem a individualidade muito antes da sociabilidade. Basta fazer um exame, sem hipocrisia, de sua própria convivência nas redes sociais: eu primeiro, os outros depois. Faz sentido, é humano, genuíno e não há nada de artificial nesse comportamento. O espelho sempre foi e será o iniciador do despertar para o mundo.

Qual é a contradição, portanto, se a contradição existe? A Internet foi criada antes para conectar. As redes sociais inserem-se como uma luva nesse princípio – e por isso florescem – mas desviam-se rapidamente para o culto da autoimagem, autoexpressão, autossexuação.

Por isso, parece haver um desarranjo quando se arvoram nas grandes redes a ambição de dominação e a concentração das atividades online. Imperceptível mas crescentemente, não parece ter lógica vislumbrar um futuro desses, contrariando todas as tendências numéricas.

Mais parece uma espécie de marketing monopolista do que uma realidade inescapável.

O que torna a Internet forte é que nenhum interesse parece ter prevalência sobre nenhum outro, e mesmo que algum tipo de monopólio se fundamente, em curto espaço de tempo a autogestão orgânica da rede trata de rebaixar sua influência. Ainda bem.

O triunfo da criatividade é a mídia de massa

25/03/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 1 Comentário »

Um grupo de cem arqueiros certeiros é menos mortífero  do que uma chuva de flechas.

Um exercício simples pode trazer muitos incômodos quando auscultamos as fan pages ou comunidades de algumas marcas nas redes sociais. Caem por terra muitos preconceitos e essa simples observação contradiz as mais acuradas das pesquisas. Quando inventarem uma ferramenta capaz de desenhar o retrato-falado médio de uma comunidade dessas vai ter muita gente vendo sua marca, outrora orientada para um determinado público, revisando sua estratégia radicalmente.

A propaganda, que coteja a ciência, e que a cada dia procura ser mais cirúrgica no alcance de seus alvos, muitas vezes renega ou subestima sua maior virtude: a capacidade que tem de seduzir para além da previsibilidade dos objetivos.

A propaganda só alcança seu máximo poder de fogo quando emociona, engaja e compromete o mais insuspeito dos targets: a diet-freak a tomar cerveja, o gordinho a correr, a perua a comprar na fast-fashion, o classe média a se endividar por um carrão.

Uma marca de luxo não faz propaganda para vender suas preciosidades para quem pode mas para quem não pode, uma marca popular não faz propaganda para vender suas bugigangas para quem não tem opção senão recorrer a elas, mas para dar-lhes prestígio e seduzir o outro lado da cerca. Pensar que trabalhamos para lembrar que existimos é ter em baixa conta a arma que manejamos.

Se o óbvio transpira nessas afirmações, ele está ausente em muitas estratégias nas chamadas novas mídias. Lá, vendem-nos o estado da arte da precisão e mensuração. E mais parece um disfarce para acobertar outras deficiências, como a falta de padrão, o baixo impacto, a pulverização, os formatos exíguos.

Claro que podemos ainda alardear os serviços prestados à cauda longa, que não pode se dar ao luxo de desperdiçar cartucho na esperança de fisgar prospects insuspeitos, mas quando estamos falando de grandes estratégias, dar tiros excessivamente precisos é a desculpa para a má propaganda ou justificativa para a falta de ousadia.

Quando a estratégia de mídia é nebulosamente calculada, em qualquer mídia, inclusive as novas, ela resgata a criação e dá-lhe espaço para transbordar de sedução. Fazer propaganda do Corinthians para o corintiano é bico, agora que tal fazer propaganda do Corinthians para vender uma marca para um palmeirense? Esse é um desafio para o qual não há técnica, não há ciência, não há TGI ou Analytics capaz de solucionar.

A libertinagem de opinião das redes sociais

24/03/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , , | 3 Comentários »

De uma coisa ninguém fala, mas a explosão da popularidade das redes sociais, por trás de todos os superlativos positivos, secreta um efeito pernicioso: a intolerância. O que antes acontecia nos cochichos de salão e nos covis das colunas dos jornais é mais fértil nas redes sociais e germina e dissemina-se com a velocidade das más notícias.

Numa rede social, e principalmente na mais ácida de todas, o Twitter, deslizes éticos são desculpáveis pela falácia do espaço curto e grosso das mensagens. Bizarra  ironia usar o argumento de que em 140 caracteres não há espaço para perder-se em comprovações e argumentos, logo na Internet, em que a relação espaço x preço é tão favorável à verborragia, ao tempo e ao aprofundamento (muito diferente de outros veículos em que cada segundo ou linha é disputado e custa caro).

Educação, bons modos e correção ortográfica são detalhes. Nas redes, o poder de síntese não é qualidade, mas álibi de vulgaridade ou ignorância.

Propósitos racistas ou simplesmente imbecis também são tolerados como se toda afirmação digital acontecesse em um manicômio ou num tribunal nazista, desta vez, em nome de uma presumida liberdade de opinião.

A moralidade das redes também é relativizada já que, no faroeste da Internet, manda quem tem mais seguidores, amigos, portanto, poder de influência. Então, aqui, ninguém tem freio e deita e rola porque sabe que todo controle é vago, difícil e sem consequência. É serra pelada: cada um por si e Santo Mark Zuckerberg por todos nós.

Assim, qualquer infâmia repercute. Basta uivar uma merda que a alcateia faminta se encarrega de defecar nos trend topics. Uma espécie de fascismo com pele de cordeiro.

De longe, as mudanças são um soluço

22/03/2011 em Internet, Propaganda | 1 Comentário »

Não é fácil entender como a onda do tsunami que devastou o nordeste do Japão andava a 700 km por hora.

Deve ter uma explicação que jamais serei capaz de entender.

Mas, quando nos afastamos do nosso mundo de todos os dias, somos capazes de refletir sobre e relativizar o tema central do mundo contemporâneo: Virilio diz que tudo é tão veloz que um dia chegaremos ao limite intangível, inobservável, da luz, e que nesse dia o futuro não mais existirá.

Aqui de baixo, contrariamente à onda do Japão, quanto mais perto estamos, mais rápido chega. As mudanças que vislumbramos e profetizamos com urgência não passam de um saltitar débil, aos olhos da águia que sobrevoa tudo.

Vemos a fragmentação exponencial das mídias e a desatenção extremada do consumidor como iminentes. Parece que a água bate na nossa bunda todos os dias, a cada nova manchete alardeada no quinquilhão dos soit-disant blogs de tendências de comunicação. É só alguém ter uma ideia aproximadamente brilhante e incertamente bem-sucedida que lá vem aquela culpa “Não lhe disse? Não lhe disse?”, ou aquela cobrança “Alguém já fez! Alguém já fez!”.

Mas o distanciamento analítico mora ao lado. Não é preciso ser nenhuma águia solitária para assistir a como tudo é moroso: é só sentar a bunda na poltrona, de cueca, com os neurônios em coma, e assistir às nossas mídias, novas e velhas.

Sobre o que conversam aqueles jovens sorridentes, sentados no banco de uma praça do Chiado em Lisboa, numa segunda-feira à tarde? O mesmo que tantos jovens da geração-Y que nos aporrinham com seus comportamentos superantenados, mega-aflitos, ultradispersos: merda, graças a Deus.

A incontinência da crítica na Internet

03/03/2011 em Internet | Tags: | 3 Comentários »

A crítica, assim como o riso, é própria do ser humano.

A crítica faz andar pra frente, e o riso, uma espécie de  antídoto, dá trégua à caminhada. A crítica dá rugas, o riso é anti-age. E, quando a crítica consegue divertir, é como um porre sem ressaca.

E, apesar do lugar comum (“criticar é fácil, difícil é fazer”), a crítica está na origem de qualquer fazer minimamente criativo. A energia inovadora nasce da crítica (ou autocrítica). É quando não concordamos, não gostamos ou não nos basta que surge mais inspiração. Referenciamo-nos, cercamo-nos de outras autorias e, consciente ou inconscientemente, criticamos para criar. Negamos, destruímos, relativizamos, para construir.

E a crítica alheia, maldosa ou condescendente, vulgar ou educada, do nosso próprio trabalho, também acende novas gasolinas internas.

Mas, porque o exercício da crítica é viciante, ela apaixona, e a paixão é uma doença incurável.

Daí vem a Internet: nego compra um megafone na liquidação e sai fazendo passeata por qualquer galinha atropelada.

Lidar com essa enxurrada de opiniões pode causar sérios danos ou muito sono.

Mas, afinal, incentiva-se ou censura-se? É bacana ver todo o mundo tendo opinião de tudo, sobre tudo e, pior, falando para todos despudoradamente?

Então vem o sábio da montanha e diz ” A crítica exige responsabilidade ou costas largas”. Em outras palavras, deixa estar, deixa fazer, e que cada um assuma seus próprios riscos ou acione seus pistolões.

Mas aí vai uma dica: se você tiver venta grande e incontinência digital, lembre-se do riso. Faça graça. A crítica gozada é sempre mais difícil de entender. A crítica que faz rir é também muito mais fácil de digerir. Isso afasta uma pá de problemas.

Cases, benchmarks e perucas

24/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , , | 8 Comentários »

Todo o mundo já enfrentou seminários, palestras, reuniões ou simples conversas, ilustradas por cases apresentados como soluções exemplares para problemas idem.

Como é bem sabido, a douragem de pílula é prática comum: o acidente, o improviso, o chilique, os medos e os fracassos viram inspiração, transpiração, experiência, coragem e sucesso, num piscar de antônimos. A história belamente contada num vídeo cheio de efeitos especiais e trucagem funciona ainda melhor: ninguém pergunta nada e se deixa embalar pela alta voltagem.

Pode-se supor, no entanto, que alguns cases são realmente geniais, ultrapassaram a esfera dos amigos do Facebook, transpuseram a fronteira dos veículos-releases, tiveram audiências para além dos júris de festivais e deram resultados que não se contam em milhões de views no YouTube, mas em mudanças de paradigma de consumo, transformações de categorias e, por que não, abalos culturais.

Existe um determinado tipo de pessoa com o dom transcendental de citar cases alheios como respira, para qualquer situação. Esses arrotadores são da mesma espécie daqueles outros com o talento de encaixar pesquisas como vírgulas numa frase. Esses indivíduos  são também chamados de especialistas, sumidades, e por que não, eruditos.

Então, para todos esses gênios da raça e da memória, Consultores & Co, Workshops-rats, stoarm-blogs e Google-planners, para todos os Kicker-cases, devolvemos-lhes com a mesma moeda, de Schopenhauer.

“A peruca é o símbolo mais apropriado para o erudito puro [Kicker-case]. Trata-se de homens que adornam a cabeça com uma rica massa de cabelo alheio porque carecem de cabelos próprios. Da mesma maneira, a erudição [Kicker-casismo] consiste num adorno com uma grande quantidade de pensamentos alheios, que evidentemente, em comparação com os fios provenientes do fundo e do solo mais próprios, não assentam de modo tão natural, nem se aplicam a todos os casos ou se adaptam de modo tão apropriado a todos os objetivos, nem se enraízam com firmeza, tampouco são substitutivos de imediato, depois de utilizados, por outros pensamentos provenientes da mesma fonte.

Os eruditos [Kicker-cases] são aqueles que leram as coisas nos livros. Os pensadores são aqueles que as leram diretamente no livro do mundo.”

Atrofia de 140 caracteres

18/02/2011 em Internet | Tags: , | 6 Comentários »

Imaginemos o ano de 2300.

A Terra tem algumas dezenas de bilhões de homens; florestas e praias estão em museus e falamos chinês fluentemente.

As pessoas são mais altas, mais velhas e mais ociosas do que nos séculos anteriores. O trabalho é um luxo, um hobby ou um vício.

A produção de todos os bens é automatizada, autossustentável e sintetizada, já que o planeta está oco como um queijo suíço.

Os governos não se preocupam mais com guerras, nem com exploração e beneficiamento de riquezas, mas com ocupação do tempo. Imensos movimentos de terapia ocupacional são subvencionados, mas a produção manual, artesanal ou artística gera insuperáveis acúmulos de sucata. Por isso, normas internacionais exigem licenças raras para a produção física. Todas as energias concentram-se nas manifestações virtuais perecíveis.

A humanidade inteira entrega-se à curtição. Estéril.

Não há mais luta de classe, nem de raça, nem de sexo nem de religião – que não há mais. Nem divergências políticas, nem polêmicas, nem de opinião. Não há fatos, nem história.

Nada de drogas, álcool, esportes, sexo. Angrybird virou mania global.

De volta aos anos 2000.

Quando o conhecimento vira consumo, a luta vira esporte e o cinismo, a religião, a preguiça é epidemia.

A curiosidade superficial, fruto dos estímulos de 140 caracteres e das simplificações indexadas, atrofia a existência.

Os índios somos nós

09/02/2011 em Internet | Tags: | 4 Comentários »

Ontem, Raoni, líderes de várias nações indígenas e ambientalistas foram entregar, em Brasília, um abaixo- assinado contra a hidrelétrica de Belo Monte. Raoni foi recebido por algum preposto de subnada e a manchete de um jornal em seu portal dizia “Índio não quer usina”.

Foram 500 mil assinaturas, arregimentadas na internet, em redes sociais. O resultado, impressionante considerando a rapidez da mobilização, mal sensibilizou o ministro das Minas e Energias que respondeu que a construção estava prestes a começar.

O fato ilustra o descompasso de uma instituição que permanece outorgando-se uma missão de representatividade popular, há muito perdida: o Estado.

Quando meio milhão de pessoas se manifestam deliberadamente, o ministro, de cínica pantomima, devolve com a chantagem típica do populismo de gabinete: “é Belo Monte ou usinas termoelétricas poluidoras”.

Ao nobre líder de uma luta que dura 30 anos, só resta rasgar a petição. À população que assinou conscientemente o pedido, só resta rasgar seus títulos de cidadão.

Pagamos impostos eletronicamente, mas ainda estamos muito longe de qualquer suspeita de democracia participativa.

Em um mundo cada vez mais conectado, em que populações inteiras se reúnem em redes autossuficientes e que elegem seus líderes e ideologias, o Estado, até em autoproclamadas democracias como a nossa, permanece míope ou fantoche de interesses imediatistas.

Ministro Lobão, Presidenta Dilma, o meio-apagão-meia-boca de São Paulo não é mais importante que o pedido dessas pessoas que ontem, pacificamente, portavam a voz de milhões.

A pressa é a antítese da alma

08/02/2011 em Internet, Propaganda | Tags: , , | 12 Comentários »

- Claudia, o que é isso colado no vidro do escritório, atrás de você? Tira isso!
- Mas, Steve, isso é um texto muito lindo e verdadeiro.
- O que é?
- É a palavra do Senhor. Está na Bíblia!
- Bíblia?
- Sim, na Bíblia, você deveria ler.
- Está bem, Claudia. Me faz uma apresentação disso em bullet-point, por favor, e tira isso do vidro.

Que gringo insensível, desrespeitoso, sem alma.

Mas no mundo de hoje, não há mais espaço para contemplação, meditação, poesia e sutilezas. Quanto mais rápidos nos tornamos, menos adjetivos, menos metáforas sofisticadas. Proust já teria morrido de fome e Tolstoi e Balzac, e Saramago também.

Estamos nos tornando mais nervosos, sem paciência. Temos pressa de ir ao âmago sem atalhos sensoriais. Fome de comer sem mastigar.

Todo piano tem uma tábua de ressonância. É a alma do instrumento, por sobre a qual deitam-se as cordas. Um Steinway usa pinho de Riga, cultivado em Riga mesmo, a uma altitude precisa de 900 metros do nível do mar, que só pode ser abatido quando alcança a idade precisa de 22 anos, quando então passa por precisos 5 anos de descanso, até poder ser usado. Um Yamaha usa a mesma espécie de pinho. Mas seu plantio, abate e descanso respondem às necessidades do mercado. Mais encomenda, menos tempo. Um Steinway é um Steinway, e um Yamaha, bem, um Yamaha, que usa o mesmo material que um Steinway, é, e sempre será, apenas um Yamaha.

Como o primeiro movimento do concerto número 4 de Beethoven tem no mínimo 19 minutos e no máximo 20, sempre, qualquer que seja o intérprete e a demanda, nenhum solista sério quer tocar num Yamaha, nunca.

O que se perde com a pressa é precisamente precisão. E com falta de precisão, o que se perde? Alma.

A imprensa de soluço

07/02/2011 em Internet | Tags: , | 7 Comentários »

- Bom dia, seu Fernand.
- Bom dia, Dona Maria.
- Acabou o pão, a máquina de lavar quebrou e a sua cachorra comeu aquela planta que sua mãe lhe deu.
- Sei.
- E o Egito, hein? Que confusão, não?
- Sei.

Difícil imaginar o que fazia aquele punhado de gente manifestando-se no centro de São Paulo pela queda do Mubarak. Talvez tropicalizados descendentes dos faraós ou a associação de egiptólogos de São Paulo ou, quem sabe, entusiastas cool-hunters provando que a cidade está no epicentro hype do mundo.

Mas, se pensarmos bem, não é pra menos. Cinco em cada cinco manchetes dos jornais dos últimos 10 dias falam do Egito como se fosse da Freguesia do Ó. Conhecemos mais as ruas do Cairo do que os becos de São Mateus. Sabemos mais da política do Oriente Médio do que das negociações de cargos do governo. Conhecemos melhor o canal de Suez do que a Volta Grande do rio Xingu, onde vão construir uma bomba-relógio chamada Belo Monte.

A imprensa, se não é sensacionalista, se não é rasteira, se não é míope, se não é vendida, é, pelo menos, incrivelmente enfadonha e repetitiva.

Da próxima vez em que ligar o noticiário, pergunte-se se ainda existe alguma coisa que você queira muito saber sobre o Egito que ainda não tenha sido dita e que possa ser dita.

E, da próxima vez em que você responder que já sabe tudo e que o Egito é lindo mas é lá nas arábias, procure o que você não sabe, por exemplo, sobre o Brasil e o que está acontecendo agora, na sua venta.

A imprensa tradicional (vide, em veículos passivos), na busca pela audiência a qualquer custo, sofre de soluço perpétuo. Soluço excitante para uma audiência cada vez mais senil.